SOBRE O NOVO CENÁRIO POLÍTICO-SOCIAL E PERSPECTIVAS
01- Como tantos, minhas ações e reflexões estão condicionadas física e emocionalmente pelo quadro de pandemia eivado de crises de todos os tipos, que estão desconstruindo o país e o povo sob a direção conivente de um governo genocida. Estamos literalmente diante do caos e da tragédia nunca vistos em tempos recentes rumo ao arbítrio oligárquico se não houver freio e mudança de caminho.
2- Portanto todo entendimento e perspectivas que desenvolvo nas caminhadas em torno do Museu “Emílio Goeldi”, indo ao supermercado ou farmácia, no caixa do banco, nos atos e reuniões on lines, lendo revistas ou assistindo jornais estão voltados para barrar a sanha reacionária e coletivamente encontrar saídas que, garantam o Estado Democrático de Direitos e os avanços ao bem-estar do povo.
3- Em 24 horas 2.349 brasileiros e brasileiras perderam a vida somando 270.917 mortes, exatamente no dia que completa aniversário o reconhecimento de pandemia pela OMS. São 23,4% de mortes no mundo em um dia para uma população de 2,7%. Uma onda em crescimento junto ao colapso do sistema de saúde com filas de espera em UTIs, em todos os Estados da Federação. No sentido contrário, a vacinação segue a “passos de cágados”, faltando vacina: 4,26% da primeira dose e 1,5% da segunda.
4- Sem o auxílio emergencial, os trabalhadores e trabalhadoras não têm opção diante do dilema de sobreviver ou morrer; transportes lotados, risco de desemprego, aluguéis vencidos, energia cortada, despensa vazia. Vivem diariamente a “roleta russa” cada vez mais sem espaço que alivie sua tragédia pessoal e familiar. Aos desempregados, o desalento ou a solidariedade, a “providência divina” ou o abandono à própria sorte. Tudo isso em um país que vai se diluindo material e espiritualmente.
5- É diante desse cenário dantesco, que Lula retorna ao epicentro da política nacional por uma inesperada ação do STF mas não despida de intencionalidade e reação. Talvez um caso de “Deus escreve certo por linhas tortas” ou lido como sinal de novos tempos. Mas apesar desse fato alvissareiro ter mudado comportamentos e movimentado forças políticas; da coletiva e espaços na mídia, ainda não podemos aquilatar seu tamanho e suas consequências na vida do país.
6- O discurso negacionista de repente transmuta-se para o anúncio de compra de 400 milhões de doses de vacina até o final do ano; apoiadores de Bolsonaro no parlamento propõem um pacto pela vida; o genocida e sua trupe passam a usar e defender a máscara e o distanciamento social. Para um país de fiéis pode parecer o milagre das Bodas de Canaã, no entanto, a água poluída manchada de sangue só confirma o oportunismo eleitoreiro que marca o clã de milicianos.
7- As marolas oriundas dos recentes acontecimentos embalam, em nosso campo, sentimentos de esperança e euforia, animando a luta; porém evidenciam crônicos problemas de disputa e hegemonismo, que atrapalham a unidade dos progressistas, o fortalecimento das condições subjetivas de mudança. Revelam o nível de pensamento da esquerda e a influência de Lula na hoste revolucionária, observada a partir das manifestações em redes sociais.
8- A presença de Lula no campo de batalha, com disposição e sentimentos de classe, e tudo o que isso pode representar dentro e fora do país, traz novo ânimo para a luta; reagrupa a militância; estabelece reação no adversário e possibilita ajustamentos de forças. Mas, por outro lado, traz euforia, soluções fáceis e ilusões de classe, como se bastasse apenas sua presença para as coisas acontecerem ou mudarem, de fundo.
9- De repente Lula ganha no primeiro turno e toma posse antecipadamente livrando o Brasil de Bolsonaro et caterva; o retorno de Lula “paz e amor” galvanizará setores das classes dominantes sendo o governo de transição; basta o Fantástico da Globo entrevistar Lula para o fato estar consumado; quem está bem colocado nas pesquisas não pode abdicar de candidatura; tem até gente se preparando para a posse. Além disso, artigo acusando de covardia os que questionam a polarização Lula x Bolsonaro; ou fazendo profissão de fé revolucionária na referida polarização, resgatando que polarizações são objetivas para justiçar posição.
10- Registro minha dificuldade de análise política, principalmente nessa quadra dinâmica, e confesso admiração àqueles que em poucas linhas traduzem seus pensamentos e conclusões. De início preciso lutar contra minha origem de formação judaico-cristã, baseada na culpa e no medo; metafísica e idealista: passar desse calvário, como expiação dos pecados, para o primeiro céu do comunismo sem os horrorosos aporrinhamentos da construção da estrada. Coisa de ungido.
11- Outra questão que me angustia é fugir do esquematismo; pensar em processos, correlações e acasos, projetar cenários, avançar e recuar na construção de caminhos; “análise concreta da realidade concreta” para uma ação concreta; agir sobre a realidade objetiva para mudá-la, não são coisas fáceis com dizem os entendidos. Como reza a cartilha, exige leitura de correlação de forças, histórico de lutas e de mudanças, as condições objetivas e subjetivas etc etc. Nem a realidade objetiva é imutável nem a vontade é tudo.
12- A presença de Lula no cenário político é um ganho das forças progressistas nesse mar revolto de conservadorismo. Sua liderança e respeitabilidade, sua inter-locução com diversos setores da sociedade, seu cacife em nível internacional, seu histórico e compromisso com o povo o credencia a abrir espaços de diálogo, liderar junto com tantos outros um amplo processo de discussão sobre estratégias e caminhos; pontos de unificação de amplas forças em defesa da vida, da democracia e da nação.
13- Na política não se deve descartar a priori cenários e resultados, principalmente nas programadas Eleições de 2022. Obviamente, a nós interessa a derrota de Bolsonaro e para mim, dentro do possível, garantir a eleição de um governo progressista. Para isso é necessário reequilibrar a correlação de forças que garantiu o golpe de 2016 e suas consequências. Digo forças reais, não só pesquisas de opinião.
14- Evidente que há um desgaste dessas forças conservadoras em relação ao governo em diversos aspectos; há contradições entre as mesmas; o empobrecimento geral e as consequências da pandemia atingem inúmeros setores; o resgate da economia a partir do Estado é posto até pelo FMI. Portanto, na minha opinião, existem condições de frente ampla; o que não está colocado a priori com que espectro será constituída, se será.
15- A polarização é inerente à política, mas qual derrotará Bolsonaro e seu fascismo? Posto que até nossos dias a democracia é exceção em comparação com o arbítrio; e o arbítrio não é prerrogativa só do genocida . Que polarização pode romper o medo e o estigma construídos contra as forças de esquerda? Que polarização neutralizará setores reacionários? A polarização direita x esquerda muda essa correlação de forças? Em que circunstâncias? Como está a capacidade de resistência das forças democráticas e progressistas?!
16- A entrevista coletiva do Lula sinaliza positivamente ao diálogo, à necessidade de tirar o país do atoleiro, de garantir democracia, desenvolvimento e os direitos sociais; ele se coloca para a luta. No entanto, a impressão que tive, que não deixa de ser legítima, mas que não ajuda o país, é que Lula aposta na polarização com uma frente em torno dele: “desistir jamais”, “não tenham medo de mim” e PT, PT e PT.
17- Sinceramente torço para que as forças políticas mais avançadas convençam Lula e que este em suas conversas e andanças pelo país vá assimilando, que se as mudanças não forem possíveis sob seu comando e do PT que outras alternativas sejam construídas para nos livrar do fascismo. E que não demore, né?!
VÍDEO | Cinco niños palestinos entre 8 y 12 años fueron arrestados por el Ejército de Ocupación por recolectar verduras silvestres cerca del asentamiento israelí ilegal Havat Maon al sur de Hebrón, en Cisjordania ocupada.#NiñosPalestinos#InfanciaRobada#UNICEFpic.twitter.com/rOCtxKSCHH
Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos
O novo Plano Quinquenal da China visa uma reforma econômica de "alta
qualidade", um salto tecnológico e uma nova era de prosperidade comum,
analisa o jornalista Pepe Escobar
É tempo de Lianghui ("Duas Sessões") – o rito anual da
liderança política, em Pequim. As estrelas do show são o principal órgão
de consultoria política, a Conferência Política Consultiva Popular
Chinesa, e a tradicional apresentação de um relatório de trabalho pelo
primeiro-ministro ao primeiro escalão da legislatura, o Congresso
Nacional do Povo (NPC).
A análise do projeto preliminar do 14º Plano Quinquenal da China se
prolongará até 15 de março. Mas, nas atuais circunstâncias, não se trata
apenas de 2025 (lembrem-se do Made in China 2025, que permanece em vigor). O planejamento é de longo prazo e mira alvos do projeto Vision 2035 (alcançar a "modernização socialista básica"), e até mesmo além de 2049, o 100º aniversário da República Popular da China.
O premier Li Keqiang, apresentando o relatório de trabalho
governamental para 2021, ressaltou que a meta de crescimento do PIB é de
"mais de 6%" (o FMI, anteriormente, havia projetado 8,1%). Incluída aí
está a criação de pelo menos 11 milhões de empregos urbanos.
Quanto à política externa, o contraste traçado por Li entre a China e
o Hegêmona não poderia ser mais nítido: "A China seguirá uma política
externa independente e pacífica" e promoverá a construção de um novo
tipo de relações internacionais".
Isso é linguagem-código significando que Pequim irá trabalhar com
Washington em questões específicas mas, acima de tudo, enfocará o
fortalecimento das relações de comércio/investimentos/finanças com a
União Europeia, a ASEAN, o Japão e o Sul Global.
As linhas gerais do 14º Plano Quinquenal (2021-2025) para a economia chinesa já haviam sido traçadas
em outubro último, na reunião plenária do Partido Comunista Chinês. O
Congresso Nacional do Povo irá agora ratificá-lo. O foco principal é a
política de "dupla circulação", cuja melhor definição, traduzida do
mandarim, é uma "dinâmica de duplo desenvolvimento ".
Isso significa um esforço coordenado para consolidar e expandir o
mercado interno e, ao mesmo tempo, continuar a fomentar o comércio e os
investimentos externos – como ocorre nos inúmeros projetos da Iniciativa
Cinturão e Rota (ICR). Em termos conceituais, isso representa um
equilíbrio yin-yang muito sofisticado, muito taoísta.
Em inícios de 2021, o presidente Xi Jinping, ao louvar a "convicção e
resiliência chinesas, bem como nossa determinação e confiança", fez
questão de ressaltar que a nação enfrenta "desafios e oportunidades sem
precedentes". Ele afirmou ao Politburo que "condições sociais
favoráveis" têm que ser criadas por todos os meios disponíveis até 2025,
2035 e 2049.
O que nos leva ao próximo estágio do desenvolvimento chinês.
O alvo principal a observar é a "prosperidade em comum" (ou, melhor
ainda, a prosperidade compartilhada), a ser implementada
concomitantemente com inovações tecnológicas, respeito ao meio ambiente e
enfrentamento pleno da "questão rural".
Xi tem sido contundente: há desigualdade excessiva na China - regional, urbano-rural e disparidades de renda.
É como se, em uma leitura fria do motor dialético do materialismo
histórico na China, chegássemos ao seguinte modelo. Tese: as dinastias
imperiais. Antítese: Mao Tsetung. Síntese: Deng Xiaoping, seguido por
algumas derivações (em especial Jiang Zemin) até chegarmos à verdadeira
síntese: Xi.
Sobre a "ameaça" chinesa
Li ressaltou o sucesso chinês na contenção interna do covid-19, na
qual o país gastou pelo menos 62 bilhões de dólares. Isso deve ser visto
como uma mensagem sutil, dirigida principalmente ao Sul Global, sobre a
eficácia do sistema de governança da China para projetar e executar não
apenas planos de desenvolvimento complexos, mas também lidar com
emergências graves.
O que, em última análise, está em questão na comparação entre as
cambaleantes democracias (neo)liberais do Ocidente e o "socialismo com
características chinesas" (copyright Deng Xiaoping) é a capacidade de
gerir e melhorar a vida das pessoas. Os acadêmicos chineses têm grande
orgulho do ethos de seu plano de desenvolvimento nacional, definido como
SMART (sigla em inglês para específico, mensurável, alcançável,
relevante e com prazo determinado).
Um excelente exemplo é o de como a China, em menos de duas décadas,
conseguiu retirar 800 milhões de pessoas da pobreza: uma experiência
absolutamente única na história.
Tudo o que foi dito acima raramente é mencionado, uma vez que os
círculos atlanticistas vivem atolados em uma histeria de incessante
demonização da China. Wang Huiyao, diretor do Centro para a China e a
Globalização, sediado em Pequim, ao menos teve o mérito de trazer para a discussão o sinólogo Kerry Brown, do King’s College, de Londres.
Baseando-se em comparações entre Leibniz - próximo a estudiosos
jesuítas interessados no confucionismo - e Montesquieu – que só via um
sistema despótico, autocrático e imperial – Brown reexamina 250 anos de
posições extremadas sobre a China no Ocidente, observando que hoje "é
mais difícil que nunca" manter um debate racional.
Ele identifica três grandes problemas.
1. Ao longo de toda a história moderna, o Ocidente jamais reconheceu a
China como uma nação forte e poderosa, e tampouco admitiu a restauração
de sua importância histórica. A mentalidade ocidental não está
preparada para lidar com isso.
2. O Ocidente moderno nunca pensou na China como uma potência global,
no máximo como uma potência territorial. A China nunca foi vista como
uma potência marítima, capaz de exercer poder fora de suas fronteiras.
3. Propelido por uma férrea certeza quanto a seus valores, entra em
cena o tão aviltado conceito de "verdadeira democracia" - o Ocidente
Atlanticista não faz a mínima ideia sobre os valores chineses. Em
última análise, o Ocidente não tem o menor interesse em compreender a
China. O que prevalece é a confirmação de preconceitos, reafirmando que a
China representa uma "ameaça" ao Ocidente.
Brown aponta o principal problema que atormenta qualquer acadêmico ou
analista político que tente explicar a China: como comunicar sua
extremamente complexa visão de mundo e como resumir a história da China
em poucas palavras. Clipes de podcasts não vêm ao caso.
Exemplos: explicar como, na China, um estarrecedor contingente de 1,3
bilhões de pessoas consegue ter acesso a algum tipo de segurança de
saúde, e como 1 bilhão delas se beneficia de alguma espécie de
seguridade social. Ou, também, explicar os intrincados detalhes das
políticas étnicas chinesas.
O premier Li, ao apresentar seu relatório, prometeu "forjar um forte
senso de comunidade em meio ao povo chinês e incentivar todos os grupos
étnicos da China a trabalharem conjuntamente para a prosperidade e o
desenvolvimento coletivos". Ele não mencionou especificamente Xinjiang
ou o Tibé. É uma tarefa ingrata explicar as enormes dificuldades de
integrar minorias étnicas em um projeto nacional em meio a constante
histeria existente em Xinjiang, Taiwan, no Mar do Sul da China e em Hong
Kong.
Venham participar da festa
Sejam quais forem os caprichos do Ocidente Atlanticista, o que é
importante para as massas chinesas é como o novo Plano Quinquenal irá
fornecer, na prática, aquilo que Xi já havia descrito como uma reforma
econômica de "alta-qualidade".
As perspectivas parecem ser muito boas para as potências econômicas
de Xangai e Guangdong – que já tinham como alvo um crescimento de 6%.
Hubei – onde surgiram os primeiros casos de covid-19 - já vem
trabalhando com uma meta de 10%.
Baseando-se em uma frenética atividade das mídias sociais, a
confiança da opinião pública permanece sólida, levando em conta uma
série de fatores. A China ganhou a "guerra sanitária" contra a covid-19
em tempo recorde; o crescimento econômico voltou; a pobreza absoluta foi
erradicada, cumprindo os prazos originalmente previstos; o
estado-civilização está firmemente estabelecido como uma "sociedade
moderadamente próspera" 100 anos após a fundação do Partido Comunista.
Desde o início do milênio, o PIB da China cresceu em onze vezes. Nos
últimos dez anos, o PIB mais que dobrou, de 6 a 15 trilhões de dólares.
Nada menos que 99 milhões de camponeses, em 832 municípios e 128 mil
aldeias rurais, são os que mais recentemente foram resgatados da
pobreza absoluta.
Essa complexa economia híbrida agora se dedica a montar uma armadilha
"suave" para as empresas ocidentais. Sanções? Não sejam tolos, venham
para cá fazer bons negócios em um mercado de pelo menos 700 milhões de
consumidores.
Como observei no ano passado, o processo sistêmico em operação é como
uma sofisticada mistura de internacionalismo marxista e confucionismo
(privilegiando a harmonia e abominando o conflito): o arcabouço de uma
"comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade". Um país -
aliás, um estado-civilização, focado em sua renovada missão histórica de
reemergir como uma superpotência. Duas sessões. E tantos alvos - e
todos eles alcançáveis.
Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
O Enigma Papa-Sistani
Francisco e Sistani fizeram pronunciamentos anti-guerra,
anti-genocídio e anti-sectarismo além da compreensão da maior parte da
mídia ocidental, escreve o jornalista Pepe Escobar sobre o encontro
entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá Sistani
Seja qual for a avaliação histórica empregada, foi um divisor de
águas: o primeiro encontro, desde o século VII, entre um Papa Católico
Romano e um líder espiritual xiita visto como "fonte a ser emulada".
Vai demorar muito até que se consiga avaliar todas as implicações
dessa imensamente intrigante conversa de 50 minutos, com a presença
apenas dos intérpretes, entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá
Sistani, em sua humilde morada em uma ruela de Najaf, próximo ao
esplêndido santuário de Imam Ali.
Um paralelo confessadamente imperfeito é que, para a comunidade de
fiéis xiitas, Najaf é tão rica em significado quanto Jerusalém o é para a
Cristandade.
A versão oficial do Vaticano é que o Papa Francisco foi a uma
cuidadosamente coreografada "peregrinação" ao Iraque sob o signo da
"fraternidade"- não apenas em termos geopolíticos mas também como um
escudo contra o sectarismo religioso, seja dos sunitas contra os xiitas,
seja dos muçulmanos contra os cristãos.
Francisco retornou ao tema principal em uma conversa extremamente franca
(em italiano) com a mídia, no avião que o trouxe de volta a Roma. O
mais extraordinário, entretanto, foi sua avaliação sincera do Aiatolá
Sistani.
O Papa ressaltou: "O Aiatolá Sistani disse uma frase, espero
lembrá-la de forma correta: 'Os homens ou são irmãos pela religião ou
iguais pela criação'. Francisco vê a transposição dessa dualidade também
como uma jornada cultural.
Ele descreveu o encontro com Sistani como portador de uma "mensagem
universal", louvando o Grande Aiatolá como "um sábio" e "um homem de
Deus": Ouvindo-o falar, não se pode deixar de notá-lo. Ele é uma pessoa
que traz sabedoria e também prudência. Ele me disse que há mais de dez
anos não recebe 'pessoas que vêm me visitar, mas com outros objetivos
políticos'".
O Papa acrescentou: "Ele foi muito respeitoso, e senti-me honrado,
mesmo nas saudações finais. Ele nunca se põe de pé, mas o fez para
saudar-me, por duas vezes. Um homem humilde e sábio. Fez bem à minha
alma, esse encontro".
Um vislumbre dessa cordialidade foi revelado nesta imagem, não
publicada pela mídia convencional do Ocidente - que, em grande medida,
tentou manipular, sabotar, ignorar, apagar ou sectarizar o encontro, em
geral sob camadas mal disfarçadas de propaganda do tipo "ameaça xiita".
Eles assim agiram porque, essencialmente, Francisco e Sistani estavam
enviando uma mensagem anti-guerra, anti-genocídio, anti-sectarismo e
anti-ocupação, que não pode deixar de incorrer na ira dos suspeitos de
sempre.
Houve algumas tentativas desesperadas de retratar o encontro como o
Papa privilegiando a Najaf quietista em detrimento da Qom militante, no
universo xiita - ou, em termos mais crus, Sistani de preferência ao
Aiatolá Khamenei, do Irã. Isso é pura bobagem. Para um contexto mais
aprofundado, ver o contraste entre Najaf e Qom em meu e-book Persian Miniatures, publicado pelo Asia Times.
O Papa, em data recente, escreveu ao Aiatolá Shirazi, do Irã. Teerã
mantém um embaixador no Vaticano, e há anos vem colaborando em
protocolos de pesquisa científica. Essa peregrinação, entretanto, tratou
exclusivamente do Iraque. Ao contrário da mídia Ocidental, a do Eixo de
Resistência (Irã, Iraque, Síria, Líbano) trouxe uma cobertura
completíssima.
A fatwa crucial
Tive o privilégio de acompanhar os movimentos do Aiatolá Sistani
desde inícios dos anos 2000 e, por várias vezes, visitei seu gabinete em
Najaf.
Quando, em 2003, o bicho-papão du jour, Abu Musab al-Zarqawi,
literalmente explodiu o venerado Aiatolá Muhammad Baqir al-Hakim em
frente ao santuário Imam Ali, em Najaf, Sistani apelou para que não
houvesse retaliação: a máquina de ocupação americana era forte demais, e
Sistani percebeu os perigos do dividir para governar e de uma guerra
sectária sunita-xiita.
Mas em 2004 ele, praticamente sozinho, derrotou moralmente o poderoso
aparato de ocupação da medonha Autoridade Provisória de Coalizão, que
então contemplava um banho de sangue para se livrar do incandescente
clérigo Moqtada al-Sadr, então refugiado em Najaf.
Em 2014, Sistani publicou uma fatwa legitimando o uso de civis
iraquianos na luta contra o ISIS/Daesh - principalmente porque os
takfiris pretendiam atacar os quádruplos santuários xiitas no Iraque:
Najaf, Karbala, Kazimiya e Samarra.
Foi portanto Sistani quem legitimou o nascimento de grupos defensivos
armados que se uniram às Unidades de Mobilização Popular (UPM), ou
Hashd a-Shaabi, mais tarde incorporadas ao Ministério da Defesa
Iraquiano.
As UPMs eram - e continuam sendo - um grupo amplo, algumas delas mais
próximas a Teerã que outras, trabalhando sob a supervisão estratégica
do Major General Qassem Soleimani até seu assassinato causado por um
drone americano no aeroporto de Bagdá em 3 de janeiro de 2020.
Nunca prometi um jardim de rosas
Apesar de toda a cordialidade entre eles, o encontro entre o Papa e
Sistani talvez não tenha sido o proverbial jardim de rosas. Meu colega,
Elijah Magnier, o principal repórter em todas as questões relativas ao
Eixo da Resistência, confirmou alguns detalhes surpreendentes com suas
fontes em Najaf:
Sayyed Sistani recusou ter seu próprio fotógrafo, e não quis que
nenhum clérigo xiita, nem qualquer dos funcionários de seu gabinete,
estivessem presentes na Rua Al-Rasoul, onde ele recebeu Sua Santidade o
Papa... O Vaticano não emitiu qualquer declaração nem tomou qualquer
posição clara de reconhecimento ou apoio aos xiitas que foram mortos
quando resistiam ao ISIS e defendiam os cristãos da Mesopotâmia. Sayyed
Sistani, portanto, não julgou necessário divulgar um "documento
conjunto", como era desejo e intenção do Papa, como ele fez em Abu
Dhabi, ao se encontrar com o Sheik de Al-Azhar.
Magnier, com razão, foca-se no comunicado subsequentemente emitido
pelo gabinete de Sistani - em especial em sua votação nominal de Não,
Não, Não... Cada Não é uma acusação ao Hegêmona.
Sistani denuncia o "cerco às populações" - incluindo as sanções. Ele
nega que os iraquianos queiram a permanência das tropas dos Estados
Unidos, e quando denuncia a "violência", ele se refere aos bombardeios
americanos.
Adicionalmente, "Não à injustiça" é a mensagem de Sistani não apenas
aos políticos de Bagdá - atolados em corrupção e omissos no fornecimento
de serviços básicos e oportunidades de emprego - mas também à
"linguagem bélica" dirigida ao Oriente Médio mais amplo, da Síria e Irã à
Palestina.
Fontes em Roma confirmam que houve negociações que se prolongaram por
meses, na tentativa de convencer Bagdá a normalizar suas relações com
Israel. Uma "mensagem" foi enviada por intermédio do Vaticano. Sistani
respondeu asperamente que não havia a menor possibilidade de
normalização. O Vaticano permanece mudo.
Uma das razões dessa mudez é que a declaração do gabinete de Sistani
deixa claro que o Vaticano não está fazendo o bastante para apoiar o
Iraque. Segundo a fonte de Najaf citada por Magnier, entre 2014 e 2017
"O Vaticano manteve silêncio enquanto os xiitas perdiam milhares de
homens que defendiam os cristãos (e outros iraquianos), e não receberam
do Papa qualquer atenção, e nem ao menos uma declaração explícita de
reconhecimento durante todos os anos que decorreram desde então".
A declaração do gabinete de Sistani refere-se explicitamente ao
"desterro, às guerras, aos atos de violência, aos bloqueios econômicos, à
ausência de justiça social aos quais o povo palestino se encontra
exposto nos territórios ocupados".
Tradução: O Iraque apoia a causa palestina.
Uma coroa de espinhos
O encontro do catolicismo e do Islã xiita girou em torno de uma coroa
de espinhos geopolíticos. Tomemos, por exemplo, o fato de que
porta-vozes ou subalternos de um presidente católico dos Estados Unidos,
bem como a mídia convencional americana, demonizam o inimigo da vez
como sendo "milícias apoiadas pelo Irã", "milícias com apoio xiita", ou
"milícias xiitas afiliadas ao Irã".
Bobagem. O que vi ao me encontrar com alguns deles no Iraque, em
2017, foi que as brigadas das Unidades de Mobilização Popular são
compostas não apenas por xiitas, mas por iraquianos de todas as
religiões. Por exemplo, há um Conselho de Estudiosos do Sagrado Ribat de
Maomé; o Conselho para a Luta contra o Pensamento Takfiri da Sunnah
Fallujah e Anbar, e a Brigada Cristã Caldeia liderada por Rayan
al-Kildani, que se encontrou com o Papa Francisco.
Para sermos justos, o Papa Francisco, em sua peregrinação, de fato
condenou aqueles que instrumentalizam a religião para arquitetar guerras
- em benefício de Israel, do latifúndio petrolífero saudita, do império
e de todos os acima citados. Ele orou em uma igreja destruída pelo
ISIS-Daesh.
Em um gesto de grande significado, o Papa Francisco entregou um
rosário a al-Kildani, o chefe da milícia da Babilônia das Unidades de
Mobilização Popular. O Papa considera al-Kildani nada menos que o
salvador dos cristãos do Iraque. No entanto, al-Kildani é o único
cristão do planeta a constar da lista de terroristas dos Estados Unidos.
Nunca é bastante lembrar que as UMP foram o alvo da excelente
aventura bombardeira de Biden-Harris de 25-26 de fevereiro: militantes
foram de fato bombardeados em território iraquiano, e não sírio.
Anteriormente, o comandante geral de campo das UMPs era Abu al-Muhandis,
que conheci em Bagdá em fins de 2017. Ele foi assassinado ao lado de Soleimani.
O Papa Francisco só foi capaz de embarcar em sua peregrinação
iraquiana graças ao Hashd al-Shaabi - que foi de importância
absolutamente crucial, atuando na linha de frente para salvar o Iraque
da partição pelos takfiris e/ou de se tornar um (falso) califado.
Francisco, em sua peregrinação abraâmica, seguiu alguns dos passos do
Profeta, especialmente em Ur, na Babilônia. Mas os ecos ressoam muito
mais longe, chegando a al-Khalil (Hebron) na Palestina, e até a Síria e a
Jordânia modernas.
Uma simples peregrinação não irá alterar os duros fatos no terreno
mesopotâmio: 36% de desemprego (quase 50% entre os jovens); 30% da
população vivendo na pobreza; a ameaça iminente de intervenção da OTAN; a
incapacidade do hegêmona de soltar o controle porque precisa desse
império-de-bases entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico; a corrupção
política generalizada de uma oligarquia fortemente entrincheirada.
Francisco fez questão de deixar claro que esse foi apenas um
"primeiro passo", que implica "riscos". O máximo que se pode esperar,
nas atuais circunstâncias, é que o Papa e seu "humilde e sábio"
interlocutor continuem afirmando que o dividir para governar e o atiçar
as chamas das lutas religiosas, étnicas e comunitárias, só irá
beneficiar - quem mais seria? - os suspeitos de sempre.
www.mulher.pcdob.org.br - Entre no site da Conferência!
Viva o Dia Internacional da Mulher, Viva o 8 de Março, Vivas às mulheres!
O Comitê das Bancárias(os) do PCdoB DF reúne hoje às 19h em videoconferência e debate nossa 3a. Conferência Nacional sobre a Emancipação da Mulher.
Nessa ocasião especial, fazemos uma reunião aberta para Bancários e Bancárias ouvirmos a Presidenta da UBM do DF, Laura Padilha, essa jovem liderança da cepa paraense, excelente, da raiz do Brasil e do Glorioso, herdeira de uma luta ancestral, Laura fala com esse brilho, essa força paraense e feminina que tão bem encarna.
Ao mesmo tempo, a reunIão foi pensada para ser a tribuna das mulheres, de seus sofrimentos, realizações e do vir-a-ser. Como é ser mulher bancária nos dias de hoje? Por que a Emancipação da Mulher é superior para a classe trabalhadora ao feminismo burguês? A evolução da luta das mulheres em tempos de pandemia, crise e de um governo machista e de extrema direita, muitos são os temas que exigem a voz das bancárias em defesa de suas vidas, de suas carreiras, em prol dos bancos públicos, em defesa do Brasil.
Será uma bela maneira de homenagear a luta das mulheres e defender sua
auto-organização, pois vivemos tempos muito tristes de ataques
inadmíveis às mulheres, em especial no Brasil.
José Carlos Ary dos Santos foi o mais consequente poeta da Revolução de Abril de 1975 em Portugal, o que esteve sempre, fraterno e cúmplice, na primeira linha do combate; o poeta generoso e lúcido, que mascarava, com o manto diáfano dos excessos, a sua íntima, profunda solidão.
A Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil é uma entidade de nível máximo de representação sindical, reunindo cerca de 10% das entidades sindicais de todos os níveis,
afora a nossa rede de NÚCLEOS DE BASE, como é o caso do trabalho que eu acompanho desde 2007, quando ingressei no Banco do Brasil. Foi a partir desse trabalho de base que compusemos as direções local e nacional da nossa CTB.
PAUTA DA REUNIÃO
I - 5o. CONGRESSO NACIONAL DA CTB: EM DEFESA DA VIDA, DA DEMOCRACIA, DA SOBERANIA E DOS DIREITOS
Marx e Engels foram, no século XIX, os pensadores que mais contribuíram para o desvendamento das verdadeiras origens da opressão da mulher e, com isso, criaram as condições para que fossem construídos os caminhos que conduziriam à sua libertação. Um dos marcos deste processo foi a publicação, em 1884, do livro A Origem da Família da Propriedade Privada e do Estado.Foto: Arte: Ruth Kjaer
Esta obra, escrita por Engels, teve por base uma série de anotações deixadas pelo próprio Marx, que havia falecido no ano anterior à sua publicação. Por isso, segundo seu autor, o livro foi “a execução de um testamento” e concluiu: “o meu trabalho só debilmente pode substituir aquele que o meu falecido amigo não chegou a escrever” (ENGELS, 1974:1-2). Modéstia à parte, o livro se tornou um êxito de venda – atingindo quatro edições em menos de sete anos – e foi traduzido em várias línguas. Até hoje continua sendo uma referência obrigatória para todos aqueles que querem entender melhor a formação da família e do Estado modernos.
Trataremos neste pequeno artigo apenas dos aspectos referentes à história da família e, conseqüentemente, da história da derrota da mulher no seu interior e os caminhos apontados por Engels (e Marx) para superação desta opressão milenar.
A “ciência da família” estava dando os seus primeiros passos quando os dois pensadores socialistas alemães se interessaram por ela. A obra pioneira neste campo havia sido O direito Materno de Bachofen, publicada em 1861. Nela o autor expõe, pela primeira vez e para escândalo geral, a tese de que nas sociedades primitivas, em certo período, teria predominado o matriarcado – ou seja, havia predominado a ascendência social e política das mulheres sobre os homens.
Engels, no prefácio de 1891, referindo-se a descoberta de Bachofen, escreveu: “primitivamente não se podia contar a descendência senão por uma linha feminina (...) essa situação primitiva das mães, como os únicos genitores certos de seus filhos, lhes assegurou (...) a posição social mais elevada que tiveram (...), Bachofen não enunciou esses princípios com tanta clareza (...) mas, o simples fato de tê-los demonstrado, em 1861, tinha o significado de uma revolução” (ENGELS, 1974:10).
Até a década de sessenta (do século XIX), continuou, “não se poderia sequer pensar em uma história da família. As ciências históricas ainda se achavam, nesse domínio, sob a influência dos Cinco Livros de Moisés. A forma patriarcal da família, pintada nesses cinco livros como maior riqueza de minúcias do que em qualquer outro lugar, não somente era admitida, sem reservas, como a mais antiga, como também se identificava – descontando a poligamia – com a família burguesa de hoje, de modo que era como se a família não tivesse tido evolução alguma através da história” (ENGELS, 1974:6). Era como se Deus e/ou a Natureza tivessem, desde sempre, reservado à mulher um papel subalterno no interior da família e da sociedade.
Na seqüência do livro de Bachofen foram publicadas obras como O casamento primitivo (1865) de autoria de Mac Lennan, Origem da Civilização (1870) de Lubbock e, por fim, A sociedade antiga (1877) de Lewis Morgan. Esta última teve um forte impacto sobre Marx e Engels. No prefácio de A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado afirmou-se: “Na América, Morgan descobriu de novo, e à sua maneira, a concepção materialista da história – formulada por Marx, quarenta anos antes” (ENGELS, 1974:1).
Isso não significa que Engels e Marx abonassem tudo o que dissera Morgan. O próprio Engels, numa carta à Kautsky de 1884, escreveu: “A coisa, aliás, não teria sentido se eu quisesse escrever ‘objetivamente’ não criticando Morgan, não utilizando os resultados recentemente conseguidos, não os colocando em relação como nossas concepções e os dados já estabelecidos. Isto não serviria em nada aos nossos operários” (ALAMBERT, 1986:26). Na última versão da obra (1891), Engels já sentiu a necessidade de fazer algumas alterações baseadas no desenvolvimento da ciência nos sete anos decorrido desde a primeira edição.
O grande mérito destas obras, publicadas nas décadas de 1870 e 1880, foi a constatação de que a família tinha história e que, ao longo dos séculos, tinha conhecido várias formas. A família monogâmico-patriarcal era apenas uma delas. Conclusão: o poder masculino e a submissão da mulher não eram eternos, como diziam as religiões e as pseudociências racistas e sexistas da época.
Entre 1880 e 1881, Marx estudou profundamente a obra de Morgan e produziu cerca de cem páginas de anotações. Depois passou a devorar o que havia de mais atualizado sobre o assunto. O seu objetivo era escrever um tratado sobre a evolução da família e a relação entre os sexos, mas morreu antes que pudesse concluir o seu ousado projeto. Infelizmente Marx morreu, também, sem concluir os capítulos sobre as classes sociais e o Estado, que comporiam a sua obra magna O Capital. Talvez, se tivesse concluído estes importantes trabalhos, teríamos uma outra visão sobre o fundador do materialismo-histórico.
A empolgação de Engels pelas descobertas de homens como Bachofen e, especialmente Morgan, pode ser aquilatada ainda no prefácio de 1891. Ali concluiu que o “descobrimento da primitiva gens de direito materno, como etapa anterior à gens e direito paterno dos povos civilizados, tem, para a história primitiva, a mesma importância que a teoria da evolução de Darwin para a biologia e a teoria da mais-valia, enunciada por Marx, para a economia política” (ENGELS, 1974:17).
Morgan havia ido mais longe que Bachofen, que era idealista, ao afirmar que a evolução da família estava relacionada, em última instância, às transformações ocorridas no mundo da produção. Foi do livro de Morgan, por exemplo, que Engels e Marx extraíram a famosa divisão da sociedade antiga em “três épocas principais”: estado selvagem, barbárie e civilização – divididos segundo os “progressos obtidos na produção dos meios de subsistência”. Morgan, também, tratou de maneira mais fundamentada – e de maneira materialista – a transição do matriarcado ao patriarcado monogâmico.
Seguindo a trilha aberta Morgan, Engels afirmou: “há três formas principais de casamento que correspondem aproximadamente aos três estágios fundamentais da evolução humana. Ao estado selvagem corresponde o matrimônio por grupos; à barbárie, o matrimônio sindiástico; e à civilização corresponde a monogamia com seus complementos: o adultério e a prostituição” (ENGELS, 1974:81).
Na sociedade primitiva a descendência “contava apenas pela linha feminina”. Os filhos não pertenciam a gens paterna e sim a gens materna. “Com a morte do proprietário de rebanhos estes teriam de passar primeiramente para seus irmãos e irmãs e aos filhos destes últimos, ou aos descendentes das irmãs de sua mãe. Quanto aos seus próprios filhos, eram deserdados”. Continuou Engels: “À medida, portanto, que as riquezas aumentavam estas davam ao homem, por um lado, uma situação mais importante na família que a da mulher, e, por outro lado, faziam nascer nele a idéia de utilização dessa situação a fim de que revertesse em benefício dos filhos a ordem de sucessão tradicional. Mas isso não podia ser feito enquanto permanecia em vigor a filiação segundo o direito materno. Este deveria, assim, ser abolido e foi o que se verificou”. Assim “foi estabelecida a filiação masculina e o direito hereditário paterno” (MARX, ENGELS, LENIN, 1980:15).
Engels, como teórico socialista, tinha plena consciência da significação social e política das descobertas daqueles cientistas, particularmente no que dizia respeito à libertação da mulher. Para ele ficava claro que a “reversão do direito materno foi a grande derrota histórica do sexo feminino. O homem passou a governar também na casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem e um simples instrumento de reprodução”. A monogamia, assim, “não apareceria de modo algum, na história, como a reconciliação entre o homem e a mulher e menos ainda como a sua forma mais elevada. Ao contrário, ela manifesta-se como a submissão de um sexo ao outro, como a proclamação de um conflito entre os sexos, desconhecido até então em toda a pré-história”.
Por isso, concluiu que “o primeiro antagonismo de classe que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia e a primeira opressão de classe coincide com a opressão do sexo feminino pelo sexo masculino. A monogamia foi um grande progresso histórico, mas, ao mesmo tempo, ela abre, ao lado da escravatura e da propriedade privada, a época que dura ainda hoje, onde cada passo para frente é ao mesmo tempo um relativo passo atrás, o bem-estar e o progresso de uns se realizam através da infelicidade e do recalcamento de outros” (MARX, ENGELS, LENIN, 1980:22-23).
A monogamia teria sido “fundada sob a dominação do homem com o fim expresso de procriar filhos duma paternidade incontestável, e essa paternidade é exigida porque essas crianças devem, na qualidade de herdeiros diretos, entrar um dia na posse da fortuna paterna”. Agora “somente o homem pode romper esse laço (matrimonial)”, “o direito da infidelidade conjugal fica-lhe (...) garantido pelo menos pelos costumes”, no entanto, a mulher que deseje conquistar sua liberdade sexual será “punida mais severamente do que em qualquer outra época precedente”. Nesta forma de casamento e de família, “aquilo que para a mulher é um crime de graves conseqüências legais e sociais, para o homem é algo considerado honroso, ou, quando muito, uma leve mancha moral que se carrega com satisfação” (ENGELS, 1974:81).
A monogamia gerava uma sociedade essencialmente hipócrita e Engels ironizou esta situação: “Os homens haviam obtido vitória sobre as mulheres, mas derrotadas se encarregaram generosamente de coroar a fronte dos vencedores. Ao lado da monogamia e do heterismo, o adultério torna-se uma instituição social fatal – proscrita, rigorosamente punida, mas impossível de ser suprimida. A certidão da paternidade repousa, antes e depois (...) na convicção moral, e, para resolver a insolúvel contradição, o código de Napoleão decreta, art. 312: ‘A criança concebida durante o casamento tem por pai o marido’. Eis aí o último resultado de três mil anos de monogamia” (MARX, ENGELS, LENIN, 1980:24-25). Lembramos que Engels escreveu estas palavras em 1884, quando a monogamia-patriarcal reinava quase absoluta no mundo.
O primeiro passo para emancipação – e não o último - seria a incorporação da mulher no trabalho social produtivo. Para Engels (e para Marx) “a emancipação da mulher e sua equiparação ao homem são e continuarão sendo impossíveis, enquanto ela permanecer excluída do trabalho produtivo social e confinada ao trabalho doméstico, que é um trabalho privado. A emancipação da mulher só se torna possível quando ela pode participar em grande escala, em escala social, da produção, e quando o trabalho doméstico lhe toma apenas um tempo insignificante” (ENGELS, 1974:182).
O capitalismo iniciou esta revolução democrática, mas foi incapaz de concluí-la, pois a forma monogâmico-patriarcal – que está na gênese da dominação da mulher, nasceu justamente da “concentração das grandes riquezas nas mesmas mãos – as dos homens – e do desejo de transmitir essas riquezas por heranças aos filhos desses mesmos homens”. Assim, “a preponderância do homem no casamento é uma simples conseqüência da sua preponderância econômica e desaparecerá com esta” (MARX, ENGELS, LENIN, 1980:24-25).
A superação deste estado de coisa milenar deve passar, necessariamente, por uma revolução social que transforme os meios de produção, e a riqueza produzida por eles, em propriedade social. Assim, a conclusão do processo emancipatório passa pela eliminação da propriedade privada dos meios de produção e pelo fim da exploração do homem pelo homem. Somente uma profunda revolução social, de caráter socialista, poderia limpar o terreno para que a libertação da mulher pudesse, finalmente, ser completada. Engels, em minha opinião, subestima a capacidade do capitalismo de quebrar “a preponderância econômica” do homem no interior da família. Afinal, o século XIX dava pouquíssimos sinais de que isso poderia acontecer.
Por outro lado, a conquista do socialismo é uma das condições para emancipação da mulher, mas ela não é ainda suficiente. A emancipação das mulheres exige uma dura e prolongada luta de idéias no interior do Partido e da sociedade, inclusive após a revolução socialista. A emancipação, portanto, não será o resultado automático – mais ou menos natural – do processo de expropriação dos principais meios de produção das mãos da burguesia.
Engels acreditava que, na sociedade de comunista futura, a monogamia deveria adquirir uma nova qualidade, pois se tornaria “enfim, uma realidade – mesmo para o homem”. Seria, assim, uma monogamia de novo tipo, assentada na plena igualdade e liberdade entre os sexos. Marx e Engels, ao contrário que pensam alguns, estavam longe de serem defensores da “promiscuidade sexual”.
Conclusão A antropologia e a etnologia modernas negam que a humanidade tenha, necessariamente, passado por uma fase caracterizada pela ascendência da mulher sobre o homem. Alguns pesquisadores chegam mesmo a negar a existência de tais sociedades matriarcais.
Uma renomada marxista (e feminista) brasileira, Zuleika Alambert, também, aderiu às críticas feitas às conclusões de Morgan e Engels. Para ela o controle nas sociedades primitivas “sempre (grifo é nosso) foram exercido pelos homens”, pois a “relação entre os sexos nas sociedades primitivas era, fundamentalmente, assimétrica e não recíproca. No sistema matrilinear a autoridade pertencia ao irmão da mulher e ao tio materno, enquanto no patrilinear pertencia ao pai e ao marido” (ALAMBERT, 1983:32). Mas, logo em seguida, relativiza tal afirmação ao dizer: “Assim, por exemplo, nem a tese do matriarcado total (grifo nosso), nem a equivalência da descendência matriarcal com uma posição de predomínio social da mulher foram confirmadas pela pesquisa moderna” (ALAMBERT, 1983:35).
Por outro lado, até a segunda metade do século XX, autores soviéticos, como Diakov e Kovalev, continuavam afirmando que o “clã materno” era “uma fase inevitável da evolução da sociedade humana” e que no matriarcado “a mulher era igual ao homem na vida econômica e social”. Para eles, os que buscavam “desmentir as idéias sustentadas por Engels” visavam, exclusivamente, “provar a eternidade do papel subalterno da mulher” (DIAKOV E KOVALEV, 1982:37-38). Mas, contraditoriamente, seriam as teóricas do movimento feminista que mais se bateriam contra a tese do matriarcado.
Acho que nesta discussão seria bom não irmos nem tanto ao céu nem tanto a terra. Hoje já se sabe que a classificação da história das sociedades primitivas feita por Morgan é bastante imprecisa. O próprio Engels, logo na abertura de seu livro, afirmou que a classificação de Morgan “permanecerá em vigor até que uma riqueza de dados muito mais considerável nos obrigue a modificá-la” (ENGELS, 1974:21). Como previu, os novos aportes oferecidos pela etnologia, antropologia e pela história nos obrigaram a reformular os modelos de Morgan.
O principal erro desses estudiosos do século XIX foi o de ter conjeturado a existência do matriarcado em todas as sociedades primitivas na fase denominada barbárie. Algo que se mostrou incorreto. Os próprios cientistas soviéticos citados acima chegaram à conclusão de que “enquanto Morgan (...) tinha indicado só uma linha de evolução da sociedade humana, os sábios do século XX puderam traçar as vias complexas e múltiplas do progresso do homem” (DIAKOV E KOVALEV, 1982:17).
É claro que isto não nega, como afirmam alguns autores anti-engelsianos, que em determinadas sociedades possam ter existido – e os indícios são fortes neste sentido – organizações sociais de tipo matriarcal na qual as mulheres pudessem desfrutar de um maior prestigio social e econômico do que viriam a ter nos períodos posteriores e o simples reconhecimento desta possibilidade continua ter para nós um significado revolucionário.
Russian President Putin’s Speech At The World Economic Forum: Complete English Translation January 28, 2021Posted by Russia Briefing
“Love is impossible if it is declared only by one side. It must be mutual.” Highly Critical of US Social Media and Big Tech “Russia & Europe” belong together Warns of World Approaching Unsettling Political Future
The Russian President Vladimir Putin made a Keynote Address at the World Economic Forum yesterday, criticizing the growing influence of U.S. social media companies saying that their impact on society now puts them in competition with elected governments.
Putin’s virtual address, was his first to the WEF since 2009. The full transcription is as follows:
Introduction By World Economic Forum Founder Klaus Schwab:
Mr. President, welcome to the Davos Agenda Week. Russia is an important global power, and there’s a long-standing tradition of Russia’s participation in the World Economic Forum. At this moment in history, where the world has a unique and short window of opportunity to move from an age of confrontation to an age of cooperation, the ability to hear your voice, the voice of the President of the Russian Federation, is essential. Even and especially in times characterized by differences, disputes and protests, constructive and honest dialogue to address our common challenges is better than isolation and polarization.
Yesterday, your phone exchange with President Biden and the agreement to extend the New START nuclear arms treaty in principle, I think, was a very promising sign in this direction.
COVID-19, Mr President, has shown our global vulnerability and interconnectivity, and, like any other country, Russia will certainly also be affected, and your economic development and prospects for international cooperation, of course, are of interest to all of us.
Mr. President, we are keen to hear from your perspective and from that of Russia, how you see the situation developing in the third decade of the 21st century and what should be done to ensure that people everywhere find peace and prosperity.
Mr. President, the world is waiting to hear from you.
President of Russia Vladimir Putin:
“Mr. Schwab, dear Klaus, Colleagues,
I have been to Davos many times, attending the events organized by Mr. Schwab, even back in the 1990s. Klaus just recalled that we met in 1992. Indeed, during my time in St Petersburg, I visited this important forum many times. I would like to thank you for this opportunity today to convey my point of view to the expert community that gathers at this world-renowned platform thanks to the efforts of Mr. Schwab.
First of all, ladies and gentlemen, I would like to greet all the World Economic Forum participants.
It is gratifying that this year, despite the pandemic, despite all the restrictions, the forum is still continuing its work. Although it is limited to online participation, the forum is taking place anyway, providing an opportunity for participants to exchange their assessments and forecasts during an open and free discussion, partially compensating for the increasing lack of in-person meetings between leaders of states, representatives of international business and the public in recent months. All this is very important now when we have so many difficult questions to answer.
The current forum is the first one in the beginning of the third decade of the 21st century and, naturally, the majority of its topics are devoted to the profound changes that are taking place in the world.
Indeed, it is difficult to overlook the fundamental changes in the global economy, politics, social life, and technology. The coronavirus pandemic, which Klaus just mentioned, which became a serious challenge for humankind, only spurred and accelerated the structural changes, the conditions for which had been created long ago. The pandemic has exacerbated the problems and imbalances that built up in the world before. There is every reason to believe that differences are likely to grow stronger. These trends may appear practically in all areas.
Needless to say, there are no direct parallels in history. However, some experts – and I respect their opinion – compare the current situation to the 1930s. One can agree or disagree, but certain analogies are still suggested by many parameters, including the comprehensive, systemic nature of the challenges and potential threats.
We are seeing a crisis of the previous models and instruments of economic development. Social stratification is growing stronger both globally and in individual countries. We have spoken about this before as well. But this, in turn, is causing today a sharp polarization of public views, provoking the growth of populism, right- and left-wing radicalism and other extremes, and the exacerbation of domestic political processes including in the leading countries.
All this is inevitably affecting the nature of international relations and is not making them more stable or predictable. International institutions are becoming weaker, regional conflicts are emerging one after another, and the system of global security is deteriorating.
Klaus has mentioned the conversation I had yesterday with the US President on extending the New START. This is, without a doubt, a step in the right direction. Nevertheless, the differences are leading to a downward spiral. As you are aware, the inability and unwillingness to find substantive solutions to problems like this in the 20th century led to the WWII catastrophe.
Of course, such a heated global conflict is impossible in principle, I hope. This is what I am pinning my hopes on, because this would be the end of humanity. However, as I have said, the situation could take an unexpected and uncontrollable turn – unless we do something to prevent this. There is a chance that we will face a formidable break-down in global development, which will be fraught with a war of all against all and attempts to deal with contradictions through the appointment of internal and external enemies and the destruction of not only traditional values such as the family, which we hold dear in Russia, but fundamental freedoms such as the right of choice and privacy.
I would like to point out the negative demographic consequences of the ongoing social crisis and the crisis of values, which could result in humanity losing entire civilizational and cultural continents.
We have a shared responsibility to prevent this scenario, which looks like a grim dystopia, and to ensure instead that our development takes a different trajectory – positive, harmonious, and creative.
In this context, I would like to speak in more detail about the main challenges which, I believe, the international community is facing.
The first one is socioeconomic.
Indeed, judging by the statistics, even despite the deep crises in 2008 and 2020, the last 40 years can be referred to as successful or even super successful for the global economy. Starting from 1980, global per capita GDP has doubled in terms of real purchasing power parity. This is definitely a positive indicator.
Globalization and domestic growth have led to strong growth in developing countries and lifted over a billion people out of poverty. So, if we take an income level of $5.50 per person per day (in terms of PPP) then, according to the World Bank, in China, for example, the number of people with lower incomes went from 1.1 billion in 1990 down to less than 300 million in recent years. This is definitely China’s success. In Russia, this number went from 64 million people in 1999 to about 5 million now. We believe this is also progress in our country, and in the most important area, by the way.
Still, the main question, the answer to which can, in many respects, provide a clue to today’s problems, is what was the nature of this global growth and who benefitted from it most.
Of course, as I mentioned earlier, developing countries benefitted a lot from the growing demand for their traditional and even new products. However, this integration into the global economy has resulted in more than just new jobs or greater export earnings. It also had its social costs, including a significant gap in individual incomes.
What about the developed economies where average incomes are much higher? It may sound ironic, but stratification in the developed countries is even deeper. According to the World Bank, 3.6 million people subsisted on incomes of under $5.50 per day in the United States in 2000, but in 2016 this number grew to 5.6 million people.
Meanwhile, globalization led to a significant increase in the revenue of large multinational, primarily US and European, companies.
By the way, in terms of individual income, the developed economies in Europe show the same trend as the United States.
But then again, in terms of corporate profits, who got hold of the revenue? The answer is clear: one percent of the population.
And what has happened in the lives of other people? In the past 30 years, in a number of developed countries, the real incomes of over half of the citizens have been stagnating, not growing. Meanwhile, the cost of education and healthcare services has gone up. Do you know by how much? Three times.
In other words, millions of people even in wealthy countries have stopped hoping for an increase of their incomes. In the meantime, they are faced with the problem of how to keep themselves and their parents healthy and how to provide their children with a decent education.
There is no call for a huge mass of people and their number keeps growing. Thus, according to the International Labour Organization (ILO), in 2019, 21 percent or 267 million young people in the world did not study or work anywhere. Even among those who had jobs (these are interesting figures) 30 percent had an income below $3.2 per day in terms of purchasing power parity.
These imbalances in global socioeconomic development are a direct result of the policy pursued in the 1980s, which was often vulgar or dogmatic. This policy rested on the so-called Washington Consensus with its unwritten rules, when the priority was given to the economic growth based on a private debt in conditions of deregulation and low taxes on the wealthy and the corporations.
As I have already mentioned, the coronavirus pandemic has only exacerbated these problems. In the last year, the global economy sustained its biggest decline since WWII. By July, the labour market had lost almost 500 million jobs. Yes, half of them were restored by the end of the year but still almost 250 million jobs were lost. This is a big and very alarming figure. In the first nine months of the past year alone, the losses of earnings amounted to $3.5 trillion. This figure is going up and, hence, social tension is on the rise.
At the same time, post-crisis recovery is not simple at all. If some 20 or 30 years ago, we would have solved the problem through stimulating macroeconomic policies (incidentally, this is still being done), today such mechanisms have reached their limits and are no longer effective. This resource has outlived its usefulness. This is not an unsubstantiated personal conclusion.
According to the IMF, the aggregate sovereign and private debt level has approached 200 percent of global GDP, and has even exceeded 300 percent of national GDP in some countries. At the same time, interest rates in developed market economies are kept at almost zero and are at a historic low in emerging market economies.
Taken together, this makes economic stimulation with traditional methods, through an increase in private loans virtually impossible. The so-called quantitative easing is only increasing the bubble of the value of financial assets and deepening the social divide. The widening gap between the real and virtual economies (incidentally, representatives of the real economy sector from many countries have told me about this on numerous occasions, and I believe that the business representatives attending this meeting will agree with me) presents a very real threat and is fraught with serious and unpredictable shocks.
Hopes that it will be possible to reboot the old growth model are connected with rapid technological development. Indeed, during the past 20 years we have created a foundation for the so-called Fourth Industrial Revolution based on the wide use of AI and automation and robotics. The coronavirus pandemic has greatly accelerated such projects and their implementation.
However, this process is leading to new structural changes, I am thinking in particular of the labor market. This means that very many people could lose their jobs unless the state takes effective measures to prevent this. Most of these people are from the so-called middle class, which is the basis of any modern society.
In this context, I would like to mention the second fundamental challenge of the forthcoming decade – the socio-political one. The rise of economic problems and inequality is splitting society, triggering social, racial and ethnic intolerance. Indicatively, these tensions are bursting out even in the countries with seemingly civil and democratic institutions that are designed to alleviate and stop such phenomena and excesses.
The systemic socioeconomic problems are evoking such social discontent that they require special attention and real solutions. The dangerous illusion that they may be ignored or pushed into the corner is fraught with serious consequences.
In this case, society will still be divided politically and socially. This is bound to happen because people are dissatisfied not by some abstract issues but by real problems that concern everyone regardless of the political views that people have or think they have. Meanwhile, real problems evoke discontent.
I would like to emphasize one more important point. Modern technological giants, especially digital companies, have started playing an increasing role in the life of society. Much is being said about this now, especially regarding the events that took place during the election campaign in the US. They are not just some economic giants. In some areas, they are de facto competing with states. Their audiences consist of billions of users that pass a considerable part of their lives in these eco systems.
In the opinion of these companies, their monopoly is optimal for organizing technological and business processes. Maybe so but society is wondering whether such monopolism meets public interests. Where is the border between successful global business, in-demand services and big data consolidation and the attempts to manage society at one’s own discretion and in a tough manner, replace legal democratic institutions and essentially usurp or restrict the natural right of people to decide for themselves how to live, what to choose and what position to express freely? We have just seen all of these phenomena in the US and everyone understands what I am talking about now. I am confident that the overwhelming majority of people share this position, including the participants in the current event.
And finally, the third challenge, or rather, a clear threat that we may well run into in the coming decade is the further exacerbation of many international problems. After all, unresolved and mounting internal socioeconomic problems may push people to look for someone to blame for all their troubles and to redirect their irritation and discontent. We can already see this. We feel that the degree of foreign policy propaganda rhetoric is growing.
We can expect the nature of practical actions to also become more aggressive, including pressure on the countries that do not agree with a role of obedient controlled satellites, use of trade barriers, illegitimate sanctions and restrictions in the financial, technological and cyber spheres.
Such a game with no rules critically increases the risk of unilateral use of military force. The use of force under a far-fetched pretext is what this danger is all about. This multiplies the likelihood of new hot spots flaring up on our planet. This concerns us.
Colleagues, despite this tangle of differences and challenges, we certainly should keep a positive outlook on the future and remain committed to a constructive agenda. It would be naive to come up with universal miraculous recipes for resolving the above problems. But we certainly need to try to work out common approaches, bring our positions as close as possible and identify sources that generate global tensions.
Once again, I want to emphasize my thesis that accumulated socioeconomic problems are the fundamental reason for unstable global growth.
So, the key question today is how to build a program of actions in order to not only quickly restore the global and national economies affected by the pandemic, but to ensure that this recovery is sustainable in the long run, relies on a high-quality structure and helps overcome the burden of social imbalances. Clearly, with the above restrictions and macroeconomic policy in mind, economic growth will largely rely on fiscal incentives with state budgets and central banks playing the key role.
Actually, we can see these kinds of trends in the developed countries and also in some developing economies as well. An increasing role of the state in the socioeconomic sphere at the national level obviously implies greater responsibility and close interstate interaction when it comes to issues on the global agenda.
Calls for inclusive growth and for creating decent standards of living for everyone are regularly made at various international forums. This is how it should be, and this is an absolutely correct view of our joint efforts.
It is clear that the world cannot continue creating an economy that will only benefit a million people, or even the golden billion. This is a destructive precept. This model is unbalanced by default. The recent developments, including migration crises, have reaffirmed this once again.
We must now proceed from stating facts to action, investing our efforts and resources into reducing social inequality in individual countries and into gradually balancing the economic development standards of different countries and regions in the world. This would put an end to migration crises.
The essence and focus of this policy aimed at ensuring sustainable and harmonious development are clear. They imply the creation of new opportunities for everyone, conditions under which everyone will be able to develop and realize their potential regardless of where they were born and are living
I would like to point out four key priorities, as I see them. This might be old news, but since Klaus has allowed me to present Russia’s position, my position, I will certainly do so.
First, everyone must have comfortable living conditions, including housing and affordable transport, energy and public utility infrastructure. Plus environmental welfare, something that must not be overlooked.
Second, everyone must be sure that they will have a job that can ensure sustainable growth of income and, hence, decent standards of living. Everyone must have access to an effective system of lifelong education, which is absolutely indispensable now and which will allow people to develop, make a career and receive a decent pension and social benefits upon retirement.
Third, people must be confident that they will receive high-quality and effective medical care whenever necessary, and that the national healthcare system will guarantee access to modern medical services.
Fourth, regardless of the family income, children must be able to receive a decent education and realize their potential. Every child has potential.
This is the only way to guarantee the cost-effective development of the modern economy, in which people are perceived as the end, rather than the means. Only those countries capable of attaining progress in at least these four areas will facilitate their own sustainable and all-inclusive development. These areas are not exhaustive, and I have just mentioned the main aspects.
A strategy, also being implemented by my country, hinges on precisely these approaches. Our priorities revolve around people, their families, and they aim to ensure demographic development, to protect the people, to improve their well-being and to protect their health. We are now working to create favorable conditions for worthy and cost-effective work and successful entrepreneurship and to ensure digital transformation as the foundation of a high-tech future for the entire country, rather than that of a narrow group of companies.
We intend to focus the efforts of the state, the business community and civil society on these tasks and to implement a budgetary policy with the relevant incentives in the years ahead.
We are open to the broadest international cooperation, while achieving our national goals, and we are confident that cooperation on matters of the global socioeconomic agenda would have a positive influence on the overall atmosphere in global affairs, and that interdependence in addressing acute current problems would also increase mutual trust which is particularly important and particularly topical today.
Obviously, the era linked with attempts to build a centralized and unipolar world order has ended. To be honest, this era did not even begin. A mere attempt was made in this direction, but this, too, is now history. The essence of this monopoly ran counter to our civilization’s cultural and historical diversity.
The reality is such that really different development centers with their distinctive models, political systems and public institutions have taken shape in the world. Today, it is very important to create mechanisms for harmonizing their interests to prevent the diversity and natural competition of the development poles from triggering anarchy and a series of protracted conflicts.
To achieve this we must, in part, consolidate and develop universal institutions that bear special responsibility for ensuring stability and security in the world and for formulating and defining the rules of conduct both in the global economy and trade.
I have mentioned more than once that many of these institutions are not going through the best of times. We have been bringing this up at various summits. Of course, these institutions were established in a different era. This is clear. Probably, they even find it difficult to parry modern challenges for objective reasons. However, I would like to emphasize that this is not an excuse to give up on them without offering anything in exchange, all the more so since these structures have unique experience of work and a huge but largely untapped potential. And it certainly needs to be carefully adapted to modern realities. It is too early to dump it in the dustbin of history. It is essential to work with it and to use it.
Naturally, in addition to this, it is important to use new, additional formats of cooperation. I am referring to such phenomenon as multiversity. Of course, it is also possible to interpret it differently, in one’s own way. It may be viewed as an attempt to push one’s own interests or feign the legitimacy of one’s own actions when all others can merely nod in approval. Or it may be a concerted effort of sovereign states to resolve specific problems for common benefit. In this case, this may refer to the efforts to settle regional conflicts, establish technological alliances and resolve many other issues, including the formation of cross-border transport and energy corridors and so on and so forth.
Friends,
Ladies and gentlemen,
This opens wide possibilities for collaboration. Multi-faceted approaches do work. We know from practice that they work. As you may be aware, within the framework of, for example, the Astana format, Russia, Iran, and Turkey are doing much to stabilize the situation in Syria and are now helping establish a political dialogue in that country, of course, alongside other countries. We are doing this together. And, importantly, not without success.
For example, Russia has undertaken energetic mediation efforts to stop the armed conflict in Nagorno-Karabakh, in which peoples and states that are close to us – Azerbaijan and Armenia – are involved. We strived to follow the key agreements reached by the OSCE Minsk Group, in particular between its co-chairs – Russia, the United States and France. This is also a very good example of cooperation.
As you may be aware, a trilateral Statement by Russia, Azerbaijan and Armenia was signed in November. Importantly, by and large, it is being steadily implemented. The bloodshed was stopped. This is the most important thing. We managed to stop the bloodshed, achieve a complete ceasefire and start the stabilization process.
Now the international community and, undoubtedly, the countries involved in crisis resolution are faced with the task of helping the affected areas overcome humanitarian challenges related to returning refugees, rebuilding destroyed infrastructure, protecting and restoring historical, religious and cultural landmarks.
Or, another example. I will note the role of Russia, Saudi Arabia, the United States and a number of other countries in stabilizing the global energy market. This format has become a productive example of interaction between the states with different, sometimes even diametrically opposite assessments of global processes, and with their own outlooks on the world.
At the same time there are certainly problems that concern every state without exception. One example is cooperation in studying and countering the coronavirus infection. As you know, several strains of this dangerous virus have emerged. The international community must create conditions for cooperation between scientists and other specialists to understand how and why coronavirus mutations occur, as well as the difference between the various strains.
Of course, we need to coordinate the efforts of the entire world, as the UN Secretary-General suggests and as we urged recently at the G20 summit. It is essential to join and coordinate the efforts of the world in countering the spread of the virus and making the much needed vaccines more accessible. We need to help the countries that need support, including the African nations. I am referring to expanding the scale of testing and vaccinations.
We see that mass vaccination is accessible today, primarily to people in the developed countries. Meanwhile, millions of people in the world are deprived even of the hope for this protection. In practice, such inequality could create a common threat because this is well known and has been said many times that it will drag out the epidemic and uncontrolled hotbeds will continue. The epidemic has no borders.
There are no borders for infections or pandemics. Therefore, we must learn the lessons from the current situation and suggest measures aimed at improving the monitoring of the emergence of such diseases and the development of such cases in the world.
Another important area that requires coordination, in fact, the coordination of the efforts of the entire international community, is to preserve the climate and nature of our planet. I will not say anything new in this respect.
Only together can we achieve progress in resolving such critical problems as global warming, the reduction of forestlands, the loss of biodiversity, the increase in waste, the pollution of the ocean with plastic and so on, and find an optimal balance between economic development and the preservation of the environment for the current and future generations.
My friends,
We all know that competition and rivalry between countries in world history never stopped, do not stop and will never stop. Differences and a clash of interests are also natural for such a complicated body as human civilization. However, in critical times this did not prevent it from pooling its efforts – on the contrary, it united in the most important destinies of humankind. I believe this is the period we are going through today.
It is very important to honestly assess the situation, to concentrate on real rather than artificial global problems, on removing the imbalances that are critical for the entire international community. I am sure that in this way we will be able to achieve success and befittingly parry the challenges of the third decade of the 21st century.
I would like to finish my speech at this point and thank all of you for your patience and attention.
Thank you very much.
Klaus Schwab: Thank you very much, Mr. President.
Many of the issues raised, certainly, are part of our discussions here during the Davos Week. We complement the speeches also by task forces which address some of the issues you mentioned, like not leaving the developing world behind, taking care of, let’s say, creating the skills for tomorrow, and so on. Mr. President, we prepare for the discussion afterwards, but I have one very short question. It is a question which we discussed when I visited you in St Petersburg 14 months ago. How do you see the future of European-Russian relations? Just a short answer.
Vladimir Putin: You know there are things of an absolutely fundamental nature such as our common culture. Major European political figures have talked in the recent past about the need to expand relations between Europe and Russia, saying that Russia is part of Europe. Geographically and, most importantly, culturally, we are one civilization. French leaders have spoken of the need to create a single space from Lisbon to the Urals. I believe, and I mentioned this, why the Urals? To Vladivostok.
I personally heard the outstanding European politician, former Chancellor Helmut Kohl, say that if we want European culture to survive and remain a center of world civilization in the future, keeping in mind the challenges and trends underlying the world civilization, then of course, Western Europe and Russia must be together. It is hard to disagree with that. We hold exactly the same point of view.
Clearly, today’s situation is not normal. We need to return to a positive agenda. This is in the interests of Russia and, I am confident, the European countries. Clearly, the pandemic has also played a negative role. Our trade with the European Union is down, although the EU is one of our key trade and economic partners. Our agenda includes returning to positive trends and building up trade and economic cooperation.
Europe and Russia are absolutely natural partners from the point of view of the economy, research, technology and spatial development for European culture, since Russia, being a country of European culture, is a little larger than the entire EU in terms of territory. Russia’s resources and human potential are enormous. I will not go over everything that is positive in Europe, which can also benefit the Russian Federation.
Only one thing matters: we need to approach the dialogue with each other honestly. We need to discard the phobias of the past, stop using the problems that we inherited from past centuries in internal political processes and look to the future. If we can rise above these problems of the past and get rid of these phobias, then we will certainly enjoy a positive stage in our relations.
We are ready for this, we want this, and we will strive to make this happen. But love is impossible if it is declared only by one side. It must be mutual.”