O Sindicato dos Bancários de Brasília realiza segunda (14/8) às 19h o Diálogo Inter-Religioso com foco em Solidariedade, Respeito, Inclusão, Democracia, Direitos Humanos e na Paz!
Veja as confirmações iniciais!
Monge Sato - ex-regente Templo Shin Budista da Terra Pura Brasília
Pastora Wall Moraes de Ruah - Professora, Mestranda, Teóloga, Coordenadora da Pastoral de Direitos Humanos da Igreja Cristã de Brasília (PDH-ICB) e Presidenta de Honra da Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil (ANNEB).
Pai Dodô – Ilê Asé Omo Orisá Ògún Onirê Pai Adalto de Oxum – Ìlé Àláketú Àsé Omí Nìwá Marcos Said Tenório – Centro Cultural Beneficente Islâmico de Brasília
Elianildo Nascimento - Iniciativa das religiões Unidas Natalia Gedanken – Associação Israelita de Brasília Sônia Cigana Lovara – Cigana Ira Mariana Rosa – Espiritismo Silvana – Santo Daime
Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
O Enigma Papa-Sistani
Francisco e Sistani fizeram pronunciamentos anti-guerra,
anti-genocídio e anti-sectarismo além da compreensão da maior parte da
mídia ocidental, escreve o jornalista Pepe Escobar sobre o encontro
entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá Sistani
Seja qual for a avaliação histórica empregada, foi um divisor de
águas: o primeiro encontro, desde o século VII, entre um Papa Católico
Romano e um líder espiritual xiita visto como "fonte a ser emulada".
Vai demorar muito até que se consiga avaliar todas as implicações
dessa imensamente intrigante conversa de 50 minutos, com a presença
apenas dos intérpretes, entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá
Sistani, em sua humilde morada em uma ruela de Najaf, próximo ao
esplêndido santuário de Imam Ali.
Um paralelo confessadamente imperfeito é que, para a comunidade de
fiéis xiitas, Najaf é tão rica em significado quanto Jerusalém o é para a
Cristandade.
A versão oficial do Vaticano é que o Papa Francisco foi a uma
cuidadosamente coreografada "peregrinação" ao Iraque sob o signo da
"fraternidade"- não apenas em termos geopolíticos mas também como um
escudo contra o sectarismo religioso, seja dos sunitas contra os xiitas,
seja dos muçulmanos contra os cristãos.
Francisco retornou ao tema principal em uma conversa extremamente franca
(em italiano) com a mídia, no avião que o trouxe de volta a Roma. O
mais extraordinário, entretanto, foi sua avaliação sincera do Aiatolá
Sistani.
O Papa ressaltou: "O Aiatolá Sistani disse uma frase, espero
lembrá-la de forma correta: 'Os homens ou são irmãos pela religião ou
iguais pela criação'. Francisco vê a transposição dessa dualidade também
como uma jornada cultural.
Ele descreveu o encontro com Sistani como portador de uma "mensagem
universal", louvando o Grande Aiatolá como "um sábio" e "um homem de
Deus": Ouvindo-o falar, não se pode deixar de notá-lo. Ele é uma pessoa
que traz sabedoria e também prudência. Ele me disse que há mais de dez
anos não recebe 'pessoas que vêm me visitar, mas com outros objetivos
políticos'".
O Papa acrescentou: "Ele foi muito respeitoso, e senti-me honrado,
mesmo nas saudações finais. Ele nunca se põe de pé, mas o fez para
saudar-me, por duas vezes. Um homem humilde e sábio. Fez bem à minha
alma, esse encontro".
Um vislumbre dessa cordialidade foi revelado nesta imagem, não
publicada pela mídia convencional do Ocidente - que, em grande medida,
tentou manipular, sabotar, ignorar, apagar ou sectarizar o encontro, em
geral sob camadas mal disfarçadas de propaganda do tipo "ameaça xiita".
Eles assim agiram porque, essencialmente, Francisco e Sistani estavam
enviando uma mensagem anti-guerra, anti-genocídio, anti-sectarismo e
anti-ocupação, que não pode deixar de incorrer na ira dos suspeitos de
sempre.
Houve algumas tentativas desesperadas de retratar o encontro como o
Papa privilegiando a Najaf quietista em detrimento da Qom militante, no
universo xiita - ou, em termos mais crus, Sistani de preferência ao
Aiatolá Khamenei, do Irã. Isso é pura bobagem. Para um contexto mais
aprofundado, ver o contraste entre Najaf e Qom em meu e-book Persian Miniatures, publicado pelo Asia Times.
O Papa, em data recente, escreveu ao Aiatolá Shirazi, do Irã. Teerã
mantém um embaixador no Vaticano, e há anos vem colaborando em
protocolos de pesquisa científica. Essa peregrinação, entretanto, tratou
exclusivamente do Iraque. Ao contrário da mídia Ocidental, a do Eixo de
Resistência (Irã, Iraque, Síria, Líbano) trouxe uma cobertura
completíssima.
A fatwa crucial
Tive o privilégio de acompanhar os movimentos do Aiatolá Sistani
desde inícios dos anos 2000 e, por várias vezes, visitei seu gabinete em
Najaf.
Quando, em 2003, o bicho-papão du jour, Abu Musab al-Zarqawi,
literalmente explodiu o venerado Aiatolá Muhammad Baqir al-Hakim em
frente ao santuário Imam Ali, em Najaf, Sistani apelou para que não
houvesse retaliação: a máquina de ocupação americana era forte demais, e
Sistani percebeu os perigos do dividir para governar e de uma guerra
sectária sunita-xiita.
Mas em 2004 ele, praticamente sozinho, derrotou moralmente o poderoso
aparato de ocupação da medonha Autoridade Provisória de Coalizão, que
então contemplava um banho de sangue para se livrar do incandescente
clérigo Moqtada al-Sadr, então refugiado em Najaf.
Em 2014, Sistani publicou uma fatwa legitimando o uso de civis
iraquianos na luta contra o ISIS/Daesh - principalmente porque os
takfiris pretendiam atacar os quádruplos santuários xiitas no Iraque:
Najaf, Karbala, Kazimiya e Samarra.
Foi portanto Sistani quem legitimou o nascimento de grupos defensivos
armados que se uniram às Unidades de Mobilização Popular (UPM), ou
Hashd a-Shaabi, mais tarde incorporadas ao Ministério da Defesa
Iraquiano.
As UPMs eram - e continuam sendo - um grupo amplo, algumas delas mais
próximas a Teerã que outras, trabalhando sob a supervisão estratégica
do Major General Qassem Soleimani até seu assassinato causado por um
drone americano no aeroporto de Bagdá em 3 de janeiro de 2020.
Nunca prometi um jardim de rosas
Apesar de toda a cordialidade entre eles, o encontro entre o Papa e
Sistani talvez não tenha sido o proverbial jardim de rosas. Meu colega,
Elijah Magnier, o principal repórter em todas as questões relativas ao
Eixo da Resistência, confirmou alguns detalhes surpreendentes com suas
fontes em Najaf:
Sayyed Sistani recusou ter seu próprio fotógrafo, e não quis que
nenhum clérigo xiita, nem qualquer dos funcionários de seu gabinete,
estivessem presentes na Rua Al-Rasoul, onde ele recebeu Sua Santidade o
Papa... O Vaticano não emitiu qualquer declaração nem tomou qualquer
posição clara de reconhecimento ou apoio aos xiitas que foram mortos
quando resistiam ao ISIS e defendiam os cristãos da Mesopotâmia. Sayyed
Sistani, portanto, não julgou necessário divulgar um "documento
conjunto", como era desejo e intenção do Papa, como ele fez em Abu
Dhabi, ao se encontrar com o Sheik de Al-Azhar.
Magnier, com razão, foca-se no comunicado subsequentemente emitido
pelo gabinete de Sistani - em especial em sua votação nominal de Não,
Não, Não... Cada Não é uma acusação ao Hegêmona.
Sistani denuncia o "cerco às populações" - incluindo as sanções. Ele
nega que os iraquianos queiram a permanência das tropas dos Estados
Unidos, e quando denuncia a "violência", ele se refere aos bombardeios
americanos.
Adicionalmente, "Não à injustiça" é a mensagem de Sistani não apenas
aos políticos de Bagdá - atolados em corrupção e omissos no fornecimento
de serviços básicos e oportunidades de emprego - mas também à
"linguagem bélica" dirigida ao Oriente Médio mais amplo, da Síria e Irã à
Palestina.
Fontes em Roma confirmam que houve negociações que se prolongaram por
meses, na tentativa de convencer Bagdá a normalizar suas relações com
Israel. Uma "mensagem" foi enviada por intermédio do Vaticano. Sistani
respondeu asperamente que não havia a menor possibilidade de
normalização. O Vaticano permanece mudo.
Uma das razões dessa mudez é que a declaração do gabinete de Sistani
deixa claro que o Vaticano não está fazendo o bastante para apoiar o
Iraque. Segundo a fonte de Najaf citada por Magnier, entre 2014 e 2017
"O Vaticano manteve silêncio enquanto os xiitas perdiam milhares de
homens que defendiam os cristãos (e outros iraquianos), e não receberam
do Papa qualquer atenção, e nem ao menos uma declaração explícita de
reconhecimento durante todos os anos que decorreram desde então".
A declaração do gabinete de Sistani refere-se explicitamente ao
"desterro, às guerras, aos atos de violência, aos bloqueios econômicos, à
ausência de justiça social aos quais o povo palestino se encontra
exposto nos territórios ocupados".
Tradução: O Iraque apoia a causa palestina.
Uma coroa de espinhos
O encontro do catolicismo e do Islã xiita girou em torno de uma coroa
de espinhos geopolíticos. Tomemos, por exemplo, o fato de que
porta-vozes ou subalternos de um presidente católico dos Estados Unidos,
bem como a mídia convencional americana, demonizam o inimigo da vez
como sendo "milícias apoiadas pelo Irã", "milícias com apoio xiita", ou
"milícias xiitas afiliadas ao Irã".
Bobagem. O que vi ao me encontrar com alguns deles no Iraque, em
2017, foi que as brigadas das Unidades de Mobilização Popular são
compostas não apenas por xiitas, mas por iraquianos de todas as
religiões. Por exemplo, há um Conselho de Estudiosos do Sagrado Ribat de
Maomé; o Conselho para a Luta contra o Pensamento Takfiri da Sunnah
Fallujah e Anbar, e a Brigada Cristã Caldeia liderada por Rayan
al-Kildani, que se encontrou com o Papa Francisco.
Para sermos justos, o Papa Francisco, em sua peregrinação, de fato
condenou aqueles que instrumentalizam a religião para arquitetar guerras
- em benefício de Israel, do latifúndio petrolífero saudita, do império
e de todos os acima citados. Ele orou em uma igreja destruída pelo
ISIS-Daesh.
Em um gesto de grande significado, o Papa Francisco entregou um
rosário a al-Kildani, o chefe da milícia da Babilônia das Unidades de
Mobilização Popular. O Papa considera al-Kildani nada menos que o
salvador dos cristãos do Iraque. No entanto, al-Kildani é o único
cristão do planeta a constar da lista de terroristas dos Estados Unidos.
Nunca é bastante lembrar que as UMP foram o alvo da excelente
aventura bombardeira de Biden-Harris de 25-26 de fevereiro: militantes
foram de fato bombardeados em território iraquiano, e não sírio.
Anteriormente, o comandante geral de campo das UMPs era Abu al-Muhandis,
que conheci em Bagdá em fins de 2017. Ele foi assassinado ao lado de Soleimani.
O Papa Francisco só foi capaz de embarcar em sua peregrinação
iraquiana graças ao Hashd al-Shaabi - que foi de importância
absolutamente crucial, atuando na linha de frente para salvar o Iraque
da partição pelos takfiris e/ou de se tornar um (falso) califado.
Francisco, em sua peregrinação abraâmica, seguiu alguns dos passos do
Profeta, especialmente em Ur, na Babilônia. Mas os ecos ressoam muito
mais longe, chegando a al-Khalil (Hebron) na Palestina, e até a Síria e a
Jordânia modernas.
Uma simples peregrinação não irá alterar os duros fatos no terreno
mesopotâmio: 36% de desemprego (quase 50% entre os jovens); 30% da
população vivendo na pobreza; a ameaça iminente de intervenção da OTAN; a
incapacidade do hegêmona de soltar o controle porque precisa desse
império-de-bases entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico; a corrupção
política generalizada de uma oligarquia fortemente entrincheirada.
Francisco fez questão de deixar claro que esse foi apenas um
"primeiro passo", que implica "riscos". O máximo que se pode esperar,
nas atuais circunstâncias, é que o Papa e seu "humilde e sábio"
interlocutor continuem afirmando que o dividir para governar e o atiçar
as chamas das lutas religiosas, étnicas e comunitárias, só irá
beneficiar - quem mais seria? - os suspeitos de sempre.
Estou assistindo o filme Deprogrammed no Netflix. E dou-me conta que a ampla maioria das seitas neopentecostais baseadas na "Teologia da Prosperidade" são perigosas não apenas pelo que já sabemos (picaretagem, lavagem de dinheiro, motivação e financiamento ianque - sobretudo a partir da Guerra Fria -, valores conservadores e fanatismo), mas também porque se utilizam de um sofisticado e já mapeado processo de lavagem cerebral, de fato uma "Programação", que retira das pessoas elementos básicos de criticidade, expondo-as à rapinagem financeira descarada, ao abuso emocional - no mínimo -, ocasionando graves danos psicológicos.
À luz dessa reflexão, dou-me conta da enrascada em que nosso país está metido. Além do que, nossa crítica tende a jogar fora a criança e a água suja, com bacia e tudo. Enquanto isso, munidas de recursos financeiros quase ilimitados, rádios, TVs, templos, empresas e jornais, essas máquinas de fanatismo, conservadorismo e opressão campeiam livremente, com uma agenda externa e práticas internas inconfessáveis, vampirizando pessoas em situação de vulnerabilidade social e psíquica, como seu "porto seguro", só que não.
É preciso um olhar menos vertical para essa situação. Somos doutores em ridicularizar e criticar, rompendo assim a mínima possibilidade de empatia - de parte a parte - essencial ao enfrentamento da matéria. Há que separar sujeito e objeto desse terrível esquema, sob pena de a ele seguirmos sucumbindo, como na atual conjuntura, posto que essas estruturas investem pesadamente contra a democracia e o país. Ora, por trás de muitos "líderes" - inclusive no judiciário - do golpismo instalado no Brasil, temos essa ideologia que é uma conspurcação inaceitável de tudo que há de crítico, solidário e libertador no exemplo do Cristo, avesso à riqueza, amigo dos desvalidos, preso político, julgado sem crime e sem defesa, torturado e assassinado pela crucificação. Meça-se a intransponível distância entre tal exemplo - e é irrelevante a sua materialidade pessoal, dado a importância histórica da narrativa - e os esquemas bilionários que visam a narcotizar, castrar a consciência e servir como o tão mal falado "ópio do povo", que nos falara Marx.
Todavia, para além do ridículo de ver materialistas em verdadeiras guerras religiosas, percebo a lonjura das afirmações de Marx da postura superior de nosso materialismo. Senão, vejamos: "A religião é a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui verdadeira realidade. Consequentemente, a luta contra a religião é indiretamente a luta contra aquele mundo cujo perfume espiritual é a religião. A religião é o suspiro do ser oprimido, o coração de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo. A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real. O banimento da religião como felicidade ilusória dos homens é a exigência da sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, a crítica do vale de lágrimas de que a religião é o esplendor."
Ora, a mim me parece haver aqui bastante empatia para com o fenômeno, sobretudo quando explicita-se o sentido e a função que desempenha, mas não se esgota o debate, nem há o tom de mofa tão comum entre nós que também temos amplas pretensões "salvíficas", por assim dizer.
Lembro-me também de Diógenes Arruda Câmara Ferreira, em entrevista, quando disse: "Na minha juventude, ser comunista era ser contra a família, ser inimigo mortal da religião, não respeitar a crença dos outros, ser, inclusive, inimigo da pátria. Isso tudo na versão dos inimigos. E ao ser solto e deportado para a minha terra, cheguei e tinha uma mulher que havia se criado junto com mamãe. Quando mamãe casou, ela foi morar com mamãe. Chamada Joaquina. E eu a chamava de mamãe Joaquina. Então, ao chegar lá, ela disse: Meu filho, você foi solto pelas minhas promessas à Nossa Senhora dos Remédios. E você vai pagar as promessas comigo? Você não sendo crente, você sendo ateu? Digo: Vou. Vou porque respeito sua crença. Se você acredita que eu fui solto pelas suas promessas, nós vamos juntos às igrejas pagar essa promessa". Ora, eu desconheço, hoje, comunista do quilate de Diógenes Arruda. E pode ser loucura minha, no meu marxismo-leninismo caboclinho, de devoto do Padim Ciço, mas sinto nessa fala e no texto citado por Marx, mais acima, uma compaixão e uma solidariedade que nos falta, a favor do povo que crê, indispensável para o resgate daqueles que são manipulados por máquinas potentíssimas, num mundo ainda mais sem coração. E a diferença dessa mesma fé, como fé dos pobres em luta, que muito antes do marxismo apregoou e padeceu em defesa dos ideais de justiça e paz que ainda professamos. E penso no ódio que esse fanatismo dissemina, e como aqui também carecemos de uma Frente Ampla, para muito mais além que a nossa simpatia por posicionamentos do Papa Francisco.
Essa grave situação demanda sobretudo entendimento e empatia, sob pena da impossibilidade do contato necessário para a denúncia e o resgate dessas pessoas que perdem, claramente, o controle sobre si, passando a servir a propósitos que só podem ser qualificados como malignos. E olhando no olho vítreo do mal que nos tem assombrado, e está no poder, quero ao meu lado todas as forças que se oponham a isso. No mínimo.