#brasil247#tv247 Programado para 16 de mar. de 2024 -14h00 • #brasil247 #tv247 Andrea Trus, Ivan Seixas e João Vicente Goulart, conversam sobre o comício histórico da Central do Brasil , os movimentos políticos que antecederam ao golpe e as consequências do golpe para o país.
JOÃO VICENTE GOULART Filósofo, poeta e escritor. Autor dos livros “Entre Anjos e Demônios, poemas do exílio” e “Jango e eu: memórias de um exílio sem volta”, este foi finalista do prêmio de literatura Jabuti na categoria Biografia. Preside o Instituto João Goulart desde 2004. Reeleito Presidente do Comitê Regional do PCdoB Distrito Federal e do Comitê Central.
Pepe Escobar é jornalista e correspondente de várias publicações internacionais
Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos
O novo Plano Quinquenal da China visa uma reforma econômica de "alta
qualidade", um salto tecnológico e uma nova era de prosperidade comum,
analisa o jornalista Pepe Escobar
É tempo de Lianghui ("Duas Sessões") – o rito anual da
liderança política, em Pequim. As estrelas do show são o principal órgão
de consultoria política, a Conferência Política Consultiva Popular
Chinesa, e a tradicional apresentação de um relatório de trabalho pelo
primeiro-ministro ao primeiro escalão da legislatura, o Congresso
Nacional do Povo (NPC).
A análise do projeto preliminar do 14º Plano Quinquenal da China se
prolongará até 15 de março. Mas, nas atuais circunstâncias, não se trata
apenas de 2025 (lembrem-se do Made in China 2025, que permanece em vigor). O planejamento é de longo prazo e mira alvos do projeto Vision 2035 (alcançar a "modernização socialista básica"), e até mesmo além de 2049, o 100º aniversário da República Popular da China.
O premier Li Keqiang, apresentando o relatório de trabalho
governamental para 2021, ressaltou que a meta de crescimento do PIB é de
"mais de 6%" (o FMI, anteriormente, havia projetado 8,1%). Incluída aí
está a criação de pelo menos 11 milhões de empregos urbanos.
Quanto à política externa, o contraste traçado por Li entre a China e
o Hegêmona não poderia ser mais nítido: "A China seguirá uma política
externa independente e pacífica" e promoverá a construção de um novo
tipo de relações internacionais".
Isso é linguagem-código significando que Pequim irá trabalhar com
Washington em questões específicas mas, acima de tudo, enfocará o
fortalecimento das relações de comércio/investimentos/finanças com a
União Europeia, a ASEAN, o Japão e o Sul Global.
As linhas gerais do 14º Plano Quinquenal (2021-2025) para a economia chinesa já haviam sido traçadas
em outubro último, na reunião plenária do Partido Comunista Chinês. O
Congresso Nacional do Povo irá agora ratificá-lo. O foco principal é a
política de "dupla circulação", cuja melhor definição, traduzida do
mandarim, é uma "dinâmica de duplo desenvolvimento ".
Isso significa um esforço coordenado para consolidar e expandir o
mercado interno e, ao mesmo tempo, continuar a fomentar o comércio e os
investimentos externos – como ocorre nos inúmeros projetos da Iniciativa
Cinturão e Rota (ICR). Em termos conceituais, isso representa um
equilíbrio yin-yang muito sofisticado, muito taoísta.
Em inícios de 2021, o presidente Xi Jinping, ao louvar a "convicção e
resiliência chinesas, bem como nossa determinação e confiança", fez
questão de ressaltar que a nação enfrenta "desafios e oportunidades sem
precedentes". Ele afirmou ao Politburo que "condições sociais
favoráveis" têm que ser criadas por todos os meios disponíveis até 2025,
2035 e 2049.
O que nos leva ao próximo estágio do desenvolvimento chinês.
O alvo principal a observar é a "prosperidade em comum" (ou, melhor
ainda, a prosperidade compartilhada), a ser implementada
concomitantemente com inovações tecnológicas, respeito ao meio ambiente e
enfrentamento pleno da "questão rural".
Xi tem sido contundente: há desigualdade excessiva na China - regional, urbano-rural e disparidades de renda.
É como se, em uma leitura fria do motor dialético do materialismo
histórico na China, chegássemos ao seguinte modelo. Tese: as dinastias
imperiais. Antítese: Mao Tsetung. Síntese: Deng Xiaoping, seguido por
algumas derivações (em especial Jiang Zemin) até chegarmos à verdadeira
síntese: Xi.
Sobre a "ameaça" chinesa
Li ressaltou o sucesso chinês na contenção interna do covid-19, na
qual o país gastou pelo menos 62 bilhões de dólares. Isso deve ser visto
como uma mensagem sutil, dirigida principalmente ao Sul Global, sobre a
eficácia do sistema de governança da China para projetar e executar não
apenas planos de desenvolvimento complexos, mas também lidar com
emergências graves.
O que, em última análise, está em questão na comparação entre as
cambaleantes democracias (neo)liberais do Ocidente e o "socialismo com
características chinesas" (copyright Deng Xiaoping) é a capacidade de
gerir e melhorar a vida das pessoas. Os acadêmicos chineses têm grande
orgulho do ethos de seu plano de desenvolvimento nacional, definido como
SMART (sigla em inglês para específico, mensurável, alcançável,
relevante e com prazo determinado).
Um excelente exemplo é o de como a China, em menos de duas décadas,
conseguiu retirar 800 milhões de pessoas da pobreza: uma experiência
absolutamente única na história.
Tudo o que foi dito acima raramente é mencionado, uma vez que os
círculos atlanticistas vivem atolados em uma histeria de incessante
demonização da China. Wang Huiyao, diretor do Centro para a China e a
Globalização, sediado em Pequim, ao menos teve o mérito de trazer para a discussão o sinólogo Kerry Brown, do King’s College, de Londres.
Baseando-se em comparações entre Leibniz - próximo a estudiosos
jesuítas interessados no confucionismo - e Montesquieu – que só via um
sistema despótico, autocrático e imperial – Brown reexamina 250 anos de
posições extremadas sobre a China no Ocidente, observando que hoje "é
mais difícil que nunca" manter um debate racional.
Ele identifica três grandes problemas.
1. Ao longo de toda a história moderna, o Ocidente jamais reconheceu a
China como uma nação forte e poderosa, e tampouco admitiu a restauração
de sua importância histórica. A mentalidade ocidental não está
preparada para lidar com isso.
2. O Ocidente moderno nunca pensou na China como uma potência global,
no máximo como uma potência territorial. A China nunca foi vista como
uma potência marítima, capaz de exercer poder fora de suas fronteiras.
3. Propelido por uma férrea certeza quanto a seus valores, entra em
cena o tão aviltado conceito de "verdadeira democracia" - o Ocidente
Atlanticista não faz a mínima ideia sobre os valores chineses. Em
última análise, o Ocidente não tem o menor interesse em compreender a
China. O que prevalece é a confirmação de preconceitos, reafirmando que a
China representa uma "ameaça" ao Ocidente.
Brown aponta o principal problema que atormenta qualquer acadêmico ou
analista político que tente explicar a China: como comunicar sua
extremamente complexa visão de mundo e como resumir a história da China
em poucas palavras. Clipes de podcasts não vêm ao caso.
Exemplos: explicar como, na China, um estarrecedor contingente de 1,3
bilhões de pessoas consegue ter acesso a algum tipo de segurança de
saúde, e como 1 bilhão delas se beneficia de alguma espécie de
seguridade social. Ou, também, explicar os intrincados detalhes das
políticas étnicas chinesas.
O premier Li, ao apresentar seu relatório, prometeu "forjar um forte
senso de comunidade em meio ao povo chinês e incentivar todos os grupos
étnicos da China a trabalharem conjuntamente para a prosperidade e o
desenvolvimento coletivos". Ele não mencionou especificamente Xinjiang
ou o Tibé. É uma tarefa ingrata explicar as enormes dificuldades de
integrar minorias étnicas em um projeto nacional em meio a constante
histeria existente em Xinjiang, Taiwan, no Mar do Sul da China e em Hong
Kong.
Venham participar da festa
Sejam quais forem os caprichos do Ocidente Atlanticista, o que é
importante para as massas chinesas é como o novo Plano Quinquenal irá
fornecer, na prática, aquilo que Xi já havia descrito como uma reforma
econômica de "alta-qualidade".
As perspectivas parecem ser muito boas para as potências econômicas
de Xangai e Guangdong – que já tinham como alvo um crescimento de 6%.
Hubei – onde surgiram os primeiros casos de covid-19 - já vem
trabalhando com uma meta de 10%.
Baseando-se em uma frenética atividade das mídias sociais, a
confiança da opinião pública permanece sólida, levando em conta uma
série de fatores. A China ganhou a "guerra sanitária" contra a covid-19
em tempo recorde; o crescimento econômico voltou; a pobreza absoluta foi
erradicada, cumprindo os prazos originalmente previstos; o
estado-civilização está firmemente estabelecido como uma "sociedade
moderadamente próspera" 100 anos após a fundação do Partido Comunista.
Desde o início do milênio, o PIB da China cresceu em onze vezes. Nos
últimos dez anos, o PIB mais que dobrou, de 6 a 15 trilhões de dólares.
Nada menos que 99 milhões de camponeses, em 832 municípios e 128 mil
aldeias rurais, são os que mais recentemente foram resgatados da
pobreza absoluta.
Essa complexa economia híbrida agora se dedica a montar uma armadilha
"suave" para as empresas ocidentais. Sanções? Não sejam tolos, venham
para cá fazer bons negócios em um mercado de pelo menos 700 milhões de
consumidores.
Como observei no ano passado, o processo sistêmico em operação é como
uma sofisticada mistura de internacionalismo marxista e confucionismo
(privilegiando a harmonia e abominando o conflito): o arcabouço de uma
"comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade". Um país -
aliás, um estado-civilização, focado em sua renovada missão histórica de
reemergir como uma superpotência. Duas sessões. E tantos alvos - e
todos eles alcançáveis.