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quarta-feira, 10 de março de 2021

Pepe Escobar debate a China: Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos - Brasil 247

 

Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos

O novo Plano Quinquenal da China visa uma reforma econômica de "alta qualidade", um salto tecnológico e uma nova era de prosperidade comum, analisa o jornalista Pepe Escobar

Xi Jinping
Xi Jinping (Foto: Xinhua, Brasil 247)

Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

É tempo de  Lianghui ("Duas Sessões") – o rito anual da liderança política, em Pequim. As estrelas do show são o principal órgão de consultoria política, a Conferência Política Consultiva Popular Chinesa, e a tradicional apresentação de um relatório de trabalho pelo primeiro-ministro ao primeiro escalão da legislatura, o Congresso Nacional do Povo (NPC).

A análise do projeto preliminar do 14º Plano Quinquenal da China se prolongará até 15 de março. Mas, nas atuais circunstâncias, não se trata apenas de 2025 (lembrem-se do Made in China 2025, que permanece em vigor). O planejamento é de longo prazo e mira alvos do projeto Vision 2035  (alcançar a "modernização socialista básica"), e até mesmo além de 2049, o 100º aniversário da República Popular da China.

O premier Li Keqiang, apresentando o relatório de trabalho governamental para 2021, ressaltou que a meta de crescimento do PIB é de "mais de 6%" (o FMI, anteriormente, havia projetado 8,1%). Incluída aí está a criação de pelo menos 11 milhões de empregos urbanos.

Quanto à política externa, o contraste traçado por Li entre a China e o Hegêmona não poderia ser mais nítido: "A China seguirá uma política externa independente e pacífica" e promoverá a construção de um novo tipo de relações internacionais". 

Isso é linguagem-código significando que Pequim irá trabalhar com Washington em questões específicas mas, acima de tudo, enfocará o fortalecimento das relações de comércio/investimentos/finanças com a União Europeia, a ASEAN, o Japão e o Sul Global. 

As linhas gerais do 14º Plano Quinquenal (2021-2025) para a economia chinesa já haviam sido traçadas em outubro último, na reunião plenária do Partido Comunista Chinês. O Congresso Nacional do Povo irá agora ratificá-lo. O foco principal é a política de "dupla circulação", cuja melhor definição, traduzida do mandarim, é uma "dinâmica de duplo desenvolvimento ".

Isso significa um esforço coordenado para consolidar e expandir o mercado interno e, ao mesmo tempo, continuar a fomentar o comércio e os investimentos externos – como ocorre nos inúmeros projetos da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR). Em termos conceituais, isso representa um equilíbrio yin-yang muito sofisticado, muito taoísta.    

Em inícios de 2021, o presidente Xi Jinping, ao louvar a "convicção e resiliência chinesas, bem como nossa determinação e confiança", fez questão de ressaltar que a nação enfrenta "desafios e oportunidades sem precedentes". Ele afirmou ao Politburo que "condições sociais favoráveis" têm que ser criadas por todos os meios disponíveis até 2025, 2035 e 2049.
O que nos leva ao próximo estágio do desenvolvimento chinês.

O alvo principal a observar é a "prosperidade em comum" (ou, melhor ainda, a prosperidade compartilhada), a ser implementada concomitantemente com inovações tecnológicas, respeito ao meio ambiente e enfrentamento pleno da "questão rural". 

Xi tem sido contundente: há desigualdade excessiva na China - regional, urbano-rural e disparidades de renda. 

É como se, em uma leitura fria do motor dialético do materialismo histórico na China, chegássemos ao seguinte modelo. Tese: as dinastias imperiais. Antítese: Mao Tsetung. Síntese: Deng Xiaoping, seguido por algumas derivações (em especial Jiang Zemin) até chegarmos à verdadeira síntese: Xi. 

Sobre a "ameaça" chinesa

Li ressaltou o sucesso chinês na contenção interna do covid-19, na qual o país gastou pelo menos 62 bilhões de dólares. Isso deve ser visto como uma mensagem sutil, dirigida principalmente ao Sul Global, sobre a eficácia do sistema de governança da China para projetar e executar não apenas planos de  desenvolvimento complexos, mas também lidar com emergências graves. 

O que, em última análise, está em questão na comparação entre as cambaleantes democracias (neo)liberais do Ocidente e o "socialismo com características chinesas" (copyright Deng Xiaoping) é a capacidade de gerir e melhorar a vida das pessoas. Os acadêmicos chineses têm grande orgulho do ethos de seu plano de desenvolvimento nacional, definido como SMART (sigla em inglês para específico, mensurável, alcançável, relevante e com prazo determinado).

Um excelente exemplo é o de como a China, em menos de duas décadas, conseguiu retirar 800 milhões de pessoas da pobreza: uma experiência absolutamente única na história. 

Tudo o que foi dito acima raramente é mencionado, uma vez que os círculos atlanticistas vivem atolados em uma histeria de incessante demonização da China. Wang Huiyao, diretor do Centro para a China e a  Globalização, sediado em Pequim, ao menos teve o mérito de trazer para a discussão o sinólogo Kerry Brown, do King’s College, de Londres.

Baseando-se em comparações entre Leibniz - próximo a estudiosos jesuítas interessados no confucionismo - e Montesquieu – que só via um sistema despótico, autocrático e imperial – Brown reexamina 250 anos de posições extremadas sobre a China no Ocidente, observando que hoje "é mais difícil que nunca" manter um debate racional.

Ele identifica três grandes problemas.

1. Ao longo de toda a história moderna, o Ocidente jamais reconheceu a China como uma nação forte e poderosa, e tampouco admitiu a restauração de sua importância histórica. A mentalidade ocidental não está preparada para lidar com isso. 

2. O Ocidente moderno nunca pensou na China como uma potência global, no máximo como uma potência territorial. A China nunca foi vista como uma potência marítima, capaz de exercer poder fora de suas fronteiras. 

3. Propelido por uma férrea certeza quanto a seus valores, entra em cena o tão aviltado conceito de "verdadeira democracia" - o Ocidente Atlanticista não faz a mínima ideia sobre  os valores chineses. Em última análise, o Ocidente não tem o menor interesse em compreender a China. O que prevalece é a confirmação de preconceitos, reafirmando que a China representa uma "ameaça" ao Ocidente. 

Brown aponta o principal problema que atormenta qualquer acadêmico ou analista político que tente explicar a China: como comunicar sua extremamente complexa visão de mundo e como resumir a história da China em poucas palavras. Clipes de podcasts não vêm ao caso. 

Exemplos: explicar como, na China, um estarrecedor contingente de 1,3 bilhões de pessoas consegue ter acesso a algum tipo de segurança de saúde, e como 1 bilhão delas se beneficia de alguma espécie de seguridade social. Ou, também, explicar os intrincados detalhes das políticas étnicas chinesas. 

O premier Li, ao apresentar seu relatório, prometeu "forjar um forte senso de comunidade em meio ao povo chinês e incentivar todos os grupos étnicos da China a trabalharem conjuntamente para a prosperidade e o desenvolvimento coletivos". Ele não mencionou especificamente Xinjiang ou o Tibé. É uma tarefa ingrata explicar as enormes dificuldades de integrar minorias étnicas em  um projeto nacional em meio a constante histeria existente em Xinjiang, Taiwan, no Mar do Sul da China e em Hong Kong. 

Venham participar da festa 

Sejam quais forem os caprichos do Ocidente Atlanticista, o que é importante para as massas chinesas é como o novo Plano Quinquenal irá fornecer, na prática, aquilo que Xi já havia descrito como uma reforma econômica de "alta-qualidade". 

As perspectivas parecem ser muito boas para as potências econômicas de Xangai e Guangdong – que já tinham como alvo um crescimento de 6%. Hubei – onde surgiram os primeiros casos de covid-19 - já vem trabalhando com uma meta de 10%. 

Baseando-se em uma frenética atividade das mídias sociais, a confiança da opinião pública permanece sólida, levando em conta uma série de fatores. A China ganhou a "guerra sanitária" contra a covid-19 em tempo recorde; o crescimento econômico voltou; a pobreza absoluta foi erradicada, cumprindo os prazos originalmente previstos; o estado-civilização está firmemente estabelecido como uma "sociedade moderadamente próspera" 100 anos após a fundação do Partido Comunista. 

Desde o início do milênio, o PIB da China cresceu em onze vezes. Nos últimos dez anos, o PIB mais que dobrou, de 6 a 15 trilhões de dólares. Nada menos que 99 milhões de camponeses, em 832 municípios e 128 mil aldeias rurais, são os que mais recentemente foram  resgatados da pobreza absoluta.

Essa complexa economia híbrida agora se dedica a montar uma armadilha "suave" para as empresas ocidentais. Sanções? Não sejam tolos, venham para cá fazer bons negócios em um mercado de pelo menos 700 milhões de consumidores. 

Como observei no ano passado, o processo sistêmico em operação é como uma  sofisticada mistura de internacionalismo marxista e confucionismo (privilegiando a harmonia e abominando o conflito): o arcabouço de uma "comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade". Um país - aliás, um estado-civilização, focado em sua renovada missão histórica de reemergir como uma superpotência. Duas sessões. E tantos alvos - e todos eles alcançáveis.

sábado, 8 de março de 2014

C´mon baby, light my fire na Criméia - Pepe Escobar - Coletivo Vila Vudu

C'mon baby, incendeie o meu incêndio (crimeano) *
7/3/2014, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Central_Asia/CEN-01-070314.html


16 de março é o dia C. O Parlamento da Crimeia – por 78 votos e com oito abstenções – decidiu que naquele dia os eleitores crimeanos escolheram entre integrar-se à Federação Russa ou permanecer parte da Ucrânia, como região autônoma, com poderes muito efetivos, nos termos da Constituição de 1992.

Seja qual for o terremoto “diplomático” que Washington e Bruxelas continuem a estimular, e será incendiário, incandescente, os fatos em solo falam por eles mesmos. A conselho da cidade de Sevastopol – quartel-general da Frota Russa no Mar Negro – já votou pela integração à Rússia. E semana que vem, em Moscou, a Duma [Parlamento] estudará uma resolução para simplificar os procedimentos e mecanismos da adesão.

Recapitulando rapidamente: aí está o resultado direto do gasto de $5 bilhões de Washington – número oficial, fornecido por Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland – para promover a ‘mudança de regime’ na Ucrânia. O que se vê é que a Crimeia pode ser incorporada gratuitamente à Rússia, enquanto o ‘Ocidente’ ficará com o atraso e a bancarrota (Oeste da Ucrânia), do que um leitor de Asia Times Online descreveu, descrição indelével, como o “Khaganato dos Nulands” (reino de Gengis, por exemplo, dentre outros khans), misturado com terra de ninguém, onde reina o marido de Victoria (“Foda-se” etc.) Nuland Kagan.[1]

O governo que para Moscou é governo ilegal infiltrado de neonazistas em Kiev, comandado pelo primeiro-ministro Arseniy "Yats" Yatsenyuk – ucraniano, judeu e banqueiro, no papel de fantoche do ocidente –, insiste que a Crimeia deve permanecer como parte da Ucrânia. E não só Moscou: metade da própria Ucrânia não reconhece a gangue de Yats como governo legítimo, agora já impondo inúmeros oligarcas como governadores de províncias.

Esse tal ‘governo’ – apoiado pelos EUA e pela União Europeia – já declarou ilegal o referendo. Comprovando suas impecáveis credenciais “democráticas”, eles já proibiram o uso do idioma russo na Ucrânia; já se livraram do Partido Comunista (que recebeu 13% dos votos nas últimas eleições, mais votos, aliás, que o Partido Svoboda [“Liberdade”] infestado de neonazistas, e agora encarregado dos ministérios da ‘segurança’ do novo governo; e também já fecharam uma estação de televisão russa, a qual, por falar dela, é a mais popular das televisões ucranianas a cabo.

No meio de toda a histeria que se vê em Washington e em algumas capitais europeias, o que ninguém explica à engambelada opinião pública é que esses fascistas-neonazistas que chegaram ao poder mediante golpe, jamais permitirão que se façam eleições verdadeiras na Ucrânia; afinal, é praticamente certo que, se houver eleições, eles serão varridos do mapa.

Isso implica que “Yats” e sua gangue – além de já ter sido recebido com tapete vermelho numa pomposa, embora inócua, reunião da União Europeia em Bruxelas – não sairá de onde está. Por exemplo, já usaram força pesada para pôr a correr manifestantes pró-Rússia que se reuniram em frente à sede do governo na cidade de Donetsk. Cidade fortemente industrializada, Donetsk têm muitos laços comerciais com a Rússia.

E outro cenário, ainda mais sinistro, já começa a aparecer no horizonte: uma possível instrumentalização da franja de jihadistas lunáticos dos 10% de tártaros que vivem na Crimeia, para tudo: de ataques preparados para serem atribuídos a outros, até suicidas-bomba. A Casa de Saud, segundo sólida fonte saudita, está imensamente interessada na Ucrânia e pode ser tentada a prestar alguns favores à inteligência ocidental.

Nosso amor se converterá em pira funerária?[2]

Pode-se dizer que, para Moscou, é muito melhor negócio manter a Crimeia dentro da Ucrânia, com amplos poderes autônomos, mais o acordo vigente para manter ali a base naval de Sevastopol, que a anexação. É como se a Rússia estivesse anexando o que, para todos os objetivos práticos, já é província russa.

Assim, o Kremlin pode sempre decidir não anexar, e usar o resultado praticamente já decidido do referendo como peão chave numa negociação complexa, não com a União Europeia, mas, fundamentalmente, com a Alemanha. A União Europeia é hoje um saco de gatos. O ‘governo em Kiev é só confusão. O que realmente interessa é o que Vladimir Putin está discutindo por telefone com Angela Merkel.

Muita coisa aí tem a ver com o Oleogasodutostão – por exemplo, o Ramo Norte (Nord Stream) de 9 bilhões de euros (EUA$12,4 bilhões), o cordão umbilical de aço que liga Rússia e Alemanha pelo Mar Báltico. Merkel, o então presidente russo Dmitri Medvedev e o ex-chanceler alemão e hoje presidente do Ramo Norte, Gerhard Schroeder, estavam muito próximos e unidos, quando o projeto de gasoduto para levar gás russo até a Alemanha entrou em operação em 2011. O projeto foi inicialmente proposto em 2005, quando Schroeder era chanceler e Putin era presidente da Rússia pela primeira vez. No início dessa semana, Schroeder disse que a OTAN devia calar o bico.

Além de tudo mais, dois terços do comércio entre Rússia e a União Europeia estava, em 2012 (ainda não há dados de 2013), em torno de estonteantes EUA$370 bilhões, com a Rússia exportando, principalmente petróleo, gás e cereais, e a União Europeia exportando, principalmente, carros, medicamentos, componentes de máquinas. Esqueçam todas as sanções, o tal sacrossanto mantra de Washington. Sanções são péssimas para os negócios.

Mas Moscou, sim, tem uma real, tangível e muito séria linha vermelha. Não precisa nem se preocupar com a Ucrânia na União Europeia, porque a maioria dos europeus não quer a Ucrânia como membro do clube deles. A linha vermelha é as bases da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Ucrânia. Moscou pode, inclusive, aceitar que a Ucrânia permaneça como uma espécie de Finlândia, entre a Rússia e a Europa, com a Crimeia ainda dentro da Ucrânia. Uma base da NATO ali, ao lado da base russa em Sevastopol seria totalmente psicodélico.

Assim sendo, uma decisão na Crimeia – não importa para que lado vá – envia, sim, uma mensagem muito clara, de Moscou para o “ocidente”: prestem atenção à nossa linha vermelha. Diferentes de outros por aí, nós falamos sério. Defenderemos nossa linha vermelha com tudo que temos.

Não é hora de chafurdar em conversa fiada[3]

Primeiro, o presidente Barack Obama dos EUA declarou solenemente que o referendo na Crimeia “viola(ria) a lei internacional” (mas o Kosovo, sim, pôde separar-se alegremente da Sérvia, em 2008, com ruidosa comemoração em Washington.)

E, isso, depois de ele ter declarado a Crimeia “ameaça extraordinária à segurança e à política externa dos EUA”. O que mais falta?! Nacionalistas da Crimeia invadirem o Iowa? Não, não. É ardil da Casa Branca, para iniciar a usual guerra financeira.

E tudo isso, quando a mais brilhante “estratégia” da equipe Obama – continuar a demonizar Putin até o Juízo Final – estava atingindo o clímax.[4]

Mas foi quando Obama – percebendo que Angela Merkel estava roubando para ela todos os holofotes – telefonou a Putin e ficou por quase uma hora tentando “engajar” o homem. Por que, diabos, tão súbita mudança de sentimentos?

Uma possível resposta pode vir do inescapável Dr. Zbigniew “O Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski, ex-conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter, aquele Hamlet caipira; o homem que deu aos sovietes “o Vietnã deles”; o homem que sempre sonhou que os EUA deveriam reinar sobre a Eurasia; e principal mentor “invisível” de Obama para sua política externa.

Como o Dr. Zbig disse a Nathan Gardels do WorldPost, “A estratégia do ocidente nesse momento deve ser complicar o planejamento de Vladimir Putin.” Ora... Não funcionou muito bem, né-não? Então vem o Dr. Zbig e diz que “a OTAN deve convidar os russos a participar das discussões em andamento”. Não funcionou.

Dr. Zbig foi firme: “temos de reconhecer formalmente o novo governo na Ucrânia, o qual, creio, manifesta o desejo do povo de lá”. Na verdade, o desejo de talvez metade da nação, se tanto. “Interferência nos negócios da Ucrânia será considerado ato hostil por potência estrangeira”. Era o que Obama tinha na cabeça. Até que telefonou para Putin.

O Dr. Zbig ficou ainda mais apocalíptico, e disse que “Temos de pôr em operação os planos de contingência da OTAN, deslocar forças na Europa Central, para estarmos em posição de responder, no caso de a guerra eclodir e espalhar-se”. Não surpreende que a imprensa-empresa nos EUA tenha entrado em surto de total piração.

Mas foi quando o Dr. Zbig recuperou a sanidade: “A melhor solução para a Ucrânia será tornar-se o que a Finlândia foi para a Rússia.” Assim sendo, no final, ele parece ter sugerido a Obama “uma solução de compromisso que seja aceitável para a Rússia e para o Ocidente”. E que envolverá “ajuda econômica e investimento sérios”. E adivinhe quem deve liderar, garantindo o dinheiro? “A Alemanha, a economia mais próspera e mais forte da União Europeia.”

Assim sendo, no fim, voltamos, mais uma vez, ao que Angela e Vlad já discutem há tempos. É a finlandização? Ou é só questão de decidir quem tenta incendiar a noite?

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* “Light my fire” é verso e título de The Doors, 1967. Ouve-se [e versos traduzidos] em http://letras.mus.br/the-doors/11476/traducao.html [NTs]


[1] Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Khanate. Há aí também um eco semântico, audível para falantes de português e espanhol: “cagar” é variante (muito) chula, para “defecar”. Mas o Urban Dictionary registra o verbete “cagada”, no inglês norte-americano, provavelmente, pelo espanhol, com o mesmo significado que tem em português e espanhol (em http://www.urbandictionary.com/define.php?term=cagada) [NTs].


[2] Orig. Will our love become a funeral pyre? Também é verso de The Doors, em “Light my fire”, cantado pelo coro: http://rock.rapgenius.com/The-doors-light-my-fire-lyrics#note-1789948 [NTs].


[3] Orig. “No time to wallow in the mire”. Também é verso de The Doors, em “Light my fire”, cantado pelo coro: http://rock.rapgenius.com/The-doors-light-my-fire-lyrics#note-1789948 [NTs].


[4] http://time.com/13040/putin-ukraine-obama-white-house-attacks/

terça-feira, 24 de julho de 2012

Sangue sírio risca nova linha na areia - Pepe Escobar, Asia Times Online - Coletivo Vila Vudu

25/7/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Middle_East/NG25Ak02.html

Era uma vez, no começo do século passado, riscou-se uma linha na areia, de Acra a Kirkuk. Duas potências coloniais – Grã-Bretanha e França – desdenhosamente dividiram entre elas o Oriente Médio; tudo, ao norte da linha, era da França; tudo, ao sul, da Grã-Bretanha.

Muitos golpes – e tragédias concêntricas – depois, uma nova linha está sendo riscada na areia, por Arábia Saudita e Qatar. Tudo, entre Síria e Iraque, é deles. Pode-se falar do retorno do reprimido; agora, integrados ao composto Conselho de Cooperação do Golfo-Organização do Tratado do Atlântico Norte (CCGOTAN), amancebaram-se com os ex-patrões colonialistas.

Golpe a golpe

Não importa o que diga a imprensa-empresa ocidental militarizada, o jogo não está acabado na Síria – ainda não. Ao contrário: o jogo sectário está só começando.

É o Afeganistão dos anos 1980s, tudo outra vez. As mais de 100 gangues pesadamente armadas que se matam em guerra civil na Síria só fazem aumentar, cevadas com dinheiro do CCG que lhes compram RPGs no mercado negro. Magotes de jihads salafistas estão entrando na Síria – vindos não só do Iraque, mas também do Kuwait, Argélia, Tunísia e Paquistão, respondendo às conclamações iradas de seus imãs. Sequestro, estupro e morticínio generalizado de civis favoráveis ao regime de Assad estão convertidos em lei da terra.

Para vingar-se, caçam cristãos. [1] Expulsam exilados iraquianos que viviam em Damasco, sobretudo os de Sayyida Zainab, bairro predominantemente xiita, cujo nome é homenagem à neta do Profeta Maomé enterrada na bela mesquita local. A BBC, diga-se a favor dela, afinal decidiu cobrir a história. [2]

Há execuções sumárias: o vice-ministro do Interior do Iraque Adnan al-Assadi disse à AFP que guardas de fronteira iraquianos viram o Exército Sírio Livre [orig. Free Syrian Army (FSA)] ocupar um posto de fronteira e imediatamente “executar 22 soldados sírios ante os olhos de soldados iraquianos.”

O posto de passagem de fronteira em Bab al-Hawa, entre Síria e Turquia, foi invadido por nada menos que 150 autodenominados mujahideen [3] de várias nacionalidades – vindos de Argélia, Egito, Arábia Saudita, Tunísia, Emirados Árabes Unidos, Chechnya e até da França, que proclamam a própria afiliação à Al-Qaeda no Maghreb Islâmico [orig. Al-Qaeda in the Islamic Maghreb (AQIM)].

Queimaram vários caminhões turcos. Filmaram o próprio vídeo de propaganda. Desfilaram ante as câmeras a própria bandeira da al-Qaeda [em http://www.youtube.com/watch?v=U_m0NqL7Ulc]. E declararam Estado Islâmico toda a área de fronteira.

Entreguem seus documentos de identidade terrorista

Não há como entender a dinâmica síria sem saber que praticamente nenhum dos comandantes do Exército Sírio Livre é sírio: quase todos são sunitas iraquianos. O ESL só conseguiu capturar a passagem de fronteira em Abu Kamal entre Síria e Iraque, porque toda a área é controlada por tribos sunitas que fazem oposição visceral ao governo de al-Maliki em Bagdá. O livre fluxo de mujahideen, de jihads linha duríssima e de armas, entre o Iraque e a Síria, está agora plenamente, completamente, totalmente estabelecido.

A ideia da Liga Árabe – que age como porta-voz em traje completo do CCGOTAN – de oferecer exílio a Bashar al-Assad é tão ridícula quanto a CIA ser encarregada de decidir quais os grupos de mujahideen e jihadi que podem ter acesso às armas financiadas pelos sauditas e pelo Qatar.

À primeira vista, talvez não tenha passado de piada sem graça. Afinal, a oferta de exílio foi feita por aqueles exemplares paradigmáticos de democracia, a Casa de Saud e o Qatar, que mandam na Liga Árabe e estão financiando a jihad e os mujahideen anti-Síria.

Mas Bagdá condenou publicamente a oferta de exílio. Os desenvolvimentos – de fato, aconteceu no mesmo dia – foram dignos do Coringa (aquele, o arqui-inimigo do Batman): uma onda de bombas antixiitas no Iraque, com mais de 100 mortos, cuja autoria foi reivindicada pelo Estado Islâmico do Iraque, franquia local da al-Qaeda. O porta-voz Abu Bakr al-Baghdadi ordenou energicamente que as tribos sunitas em Anbar e Nineveh unam-se à jihad e derrubem o governo “infiel”, em Bagdá.

O infindável vai-e-vem de mujahideen/jihadi entre Síria e Iraque está mais do que confirmado por Izzat al-Shahbandar, alto membro do Parlamento do Iraque e assessor próximo do primeiro-ministro al-Maliki. Bagdá tem até listas atualizadas. Esse trânsito só faz deflagrar discursos cada vez mais frenéticos, em fala cada vez mais orwelliana, como aponta a página de internet Moon of Alabama [Lua sobre o Alabama]. [4]

Mujahideen e jihadis ativos no Iraque chamam-se agora “insurgentes iraquianos”. E mujahideen e jihadis ativos na Síria continuam a ser os “rebeldes sírios” de sempre. Todos foram rebaixados: perderam o título de “terroristas”. Seguindo essa lógica, o atirador Batman-do-Colorado pode também ser apresentado como um “insurgente”.

Sigam o dinheiro

No pé em que estão as coisas, os romanticizados “rebeldes” sírios plus os neo “insurgentes” (ex-“terroristas”) não podem vencer o exército sírio – nem se os sauditas e qataris fizerem chover sobre eles cataratas de dinheiro e armas.

Nem há qualquer sinal de que o regime esteja considerando a possibilidade de retirada rumo às montanhas alawitas no norte da Síria, como sugerido num blog de discussão sobre política externa (em http://www.gatestoneinstitute.org/3189/the-call-for-july-22-2012-russian-ambitions-in). Afinal de contas, os “rebeldes” não controlam nem um palmo de território.

De garantido, só quem lucrará mais com a progressiva balcanização da Síria. A Casa de Saud e o Qatar adorariam ver a guerra civil exportada para o Iraque e o Líbano: nos seus rasos cálculos estratégicos, daí nasceriam regimes sunitas amigos (deles).

Por isso, contem com muito dinheiro saudita e qatari comprando todo e qualquer apparatchik bem relacionado que encontrem no regime sírio – mesmo no caso de a burguesia sunita urbana ainda não ter abandonado o barco.

E, com a guerra civil alastrando-se, um tsunami de armas continuará a inundar a Jordânia, o Líbano, o Iraque e, claro, a Turquia, e chegarão às mãos de todas as griffes, uniformes e fantasias de gangues armadas, inclusive aos curdos – e a mais de uma faceta da já descartada Turquia neo-otomana que assiste, impotente, ao esmagamento dos estados-nação que foram riscados na areia, naquela linha colonial dos anos 1920s.

Estrategicamente, sempre será guerra por procuração: na essência, é Arábia Saudita versus Irã. A Casa de Saud (que financia islamistas fanáticos de linha duríssima de todas as cores) versus o Qatar (que apoia a Fraternidade Muçulmana “deles”). Mas, sobretudo, é CCG-OTAN-EUA versus Irã.

Os motivos de Israel vão bem além da sanha sectária de sauditas e qataris. O primeiro-ministro de Israel “Bibi” Netanyahu acaba de desenterrar um Bushismo: definiu Irã-Síria-Hezbollah como um “eixo do mal”. O sonho de longo prazo de Telavive é claro: que Washington, com governo Obama ou sem, detone o tal “eixo”.

Ter claro um objetivo de longo prazo não impediu o absoluto enlouquecimento do ministro da Defesa de Israel: pôs-se a especular sobre uma invasão à Síria que se explica(ria) porque a Síria estar(ia) repassando mísseis antiaéreos e até armas químicas ao Hezbollah.

Washington, por sua vez, adoraria por no governo em Damasco um regime-fantoche sunita, no mínimo; para turbinar o cerco ao Irã – sem aumentar demais o pânico existencial de Israel.

Mas o que se faz passar por “poder esperto” [orig. “smart power”] nada é, além de delírio-desejante & autoglorificação. Na nota [5], abaixo, os que se interessem encontrarão informação sobre o que há na cabeça de alguns funcionários do governo dos EUA que trabalham a favor de Israel e planejam hoje o que eles mesmos chamam de “Síria pós-Assad”.

Entra em cena um neo-Bane*

Apesar do muito dinheiro já gasto na produção, a jihad da OTAN – associada à al-Qaeda, afiliados e periguetes adjuntas – ainda não conseguiu mudar regime algum na Síria. Não haverá sanções do Conselho de Segurança da ONU, como Pequim e Moscou já disseram (e mostraram) três vezes. Por isso, vai e vem, sempre aparece algum Plano B. O mais recente parece copiado do Manual usado no Iraque: Damasco usou armas químicas em ataque contra civis. Não sobreviveu sequer até o ‘noticiário’ de televisão do dia seguinte.

O presidente Vladimir Putin da Rússia já disse: mudança de regime é anátema, especialmente por uma razão que praticamente ninguém percebe no ocidente – jihadis nas portas de Damasco implica que estariam a uma pedrada do Cáucaso, a possível nova pérola do letal colar planejado para desestabilizar a Rússia muçulmana.

A volta do chicote, enquanto isso, está pronta a ferir novamente, como a Medusa. Os, para todos os efeitos práticos, esquadrões da morte, de mujahideen/jihadi do CCGOTAN, adorariam deixar sangrar a Síria até a morte, por cem cortes sectários – sobre a areia e especialmente nas cidades. Está aberta a temporada de caça: caçam-se alawitas mas também cristãos (10% da população).

Uma política externa que privilegie os jihadis sunitas (antes chamados de “terroristas”), na criação de um estado “democrático” no Oriente Médio é ideia que parece brotada da cabeça de Bane – bandidão que é a soma de Hannibal Lecter com Darth Vader, e estrela de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), último capítulo da trilogia de Batman. Ah, sim, nós o criamos. Aos melhores falta qualquer convicção. Os piores estão tomados de paixão intensa. Enquanto isso, um super-homem sunita jihadi mascarado rasteja rumo a Damasco, onde nascerá.

Notas:

1. 9/6/2012, Vatican Insider, http://vaticaninsider.lastampa.it/en/homepage /world-news/detail/articolo/siria-syria-15868/

2. 20/6/2012, BBC, http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-18930876

3. 22/7/2012, Al-Arabiya, http://english.alarabiya.net/articles/2012/07/22/227739.html

4. 23/7/2012, Moon of Alabama: “Mudança de política: Os “terroristas” viraram “insurgentes”. É a mais impressionante retradução orwelliana que jamais se viu. Durante anos, as expressões “AlQaeda” e “grupo terrorista” foram usadas praticamente como sinônimas.Mas agora, sob comando do governo Obama, o New York Times reescreveu o Manual da Redação: “Al-Qaeda” designa agora uma espécie de “insurgência neutra” (em http://www.moonofalabama.org/2012/07/nyt-terrorists-are-now-insurgents.html#comment) [NTs].

5. 20/7/2012, The Cable, http://thecable.foreignpolicy.com/posts/2012/07/20/inside_the_secret_effort_to_plan_for_a_post_assad_syria: “Planejando a Síria pós-Assad”. Ao longo dos últimos seis meses, 40 altos representantes de vários grupos de oposição da Síria têm-se reunido discretamente na Alemanha, sob coordenação do US Institute of Peace (USIP), para planejar o que deve ser um governo sírio pós-Assad. O projeto, do qual não participam funcionários do governo dos EUA, mas que é parcialmente pago pelo Departamento de Estado começa a ganhar importância, agora que a espiral de violência alastra-se pela Síria e evanescem as últimas esperanças de que se possa alcançar transição pacífica de poder na mudança de regime. (...) O grupo assessorou os funcionários do governo também nas reuniões dos “Amigos da Síria”, em Istanbul, mês passado. O projeto é chamado “O dia seguinte: apoio à transição democrática na Síria” [NTs].


* “Bane” é um dos super arqui inimigos de “Batman”, que teve vida curta, num seriado de 1994, e sumiu para sempre. Mas causou terrível dano ao Batman. Mais sobre Bane em http://batman.wikia.com/wiki/Bane [NTs].

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