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sexta-feira, 26 de março de 2021

Minha Opção Cotidiana e o Centenário - Paulo Vinícius da Silva (2a. versão)


Ser comunista é uma opção cotidiana.

Diógenes Arruda


En la lucha de clases
todas las armas son buenas
piedras
noches
poemas.
Paulo Leminski


Em meio a tantas tristezas, precisamos, sim, celebrar nossas alegrias. Por isso, parabéns, queridos e queridas camaradas comunistas do Brasil que compartilhamos nosso 99° aniversário.

O ano que inicia com o aniversário dos 99 anos do PCdoB coincide com meus 30 anos de Partido, em que ingressei por iniciativa própria, com apenas 14 anos, filiação interna, em maio de 1991. Eu era um adolescente, fui à sede para fazer um trabalho escolar sobre a Ditadura, pedido pelo meu professor Cícero, do Colégio Salomé Bastos, de saudosa memória. 

Página que sobrou do meu trabalho de Geografia no Salomé Bastos em maio de 1991, quando entrei no Partido. Entrevista com Cabo Chico. 


Naquela tarde, em que eu saía todo pabo, da Barra do Ceará "pru centru", fui recebido pelo Silvinho, pela Meire Costa, aqueles que foram os primeiros militantes do PCdoB que conheci. Eram, sim, funcionários do Partido, mas eram sobretudo militantes de corpo e alma, e me receberam com atenção, abrindo-me as portas da compreensão política e do nosso país e da democracia. 

Deram-me a Classe Operária do Primeiro de Maio, as teses do 8° Congresso do PCdoB (O tempo não pára. O Socialismo vive!), que ocorreria em fevereiro de 1992, e marcaram com um papo entre aquele adolescente (à época com um belo topete) e um dos mais experientes quadros do Partido, Cabo Chico, agrimensor, organizador de sertanejos, ex-cabo, fino articulador. Ele me recebeu uns dias depois na sede que ficava então na Rua São Paulo, no Centro de Fortaleza.

E o Cabo Chico me contou o sentido da Ditadura, a violência, o arbítrio, o que vivera jovem ainda. Eu achei a sede legal, achei o pessoal massa e achei o papo bom. Os textos, achei bem embasados, passei a entender umas coisas que não entendia, mas queria entender e me filiei. Mas, naquela oportunidade mesmo, disseram-me: 

- Você precisa conhecer a UJS. 

- UJS? 

- É, a UJS, vou te passar um contato.

Eu achei estranho. Por que o Partido era Comunista e a Juventude Socialista? Naquele momento mesmo o Partido me dava uma aula pela boca do Silvinho: pela minha juventude, pela escola que era, o meu lugar era a UJS, mesmo que eu tivesse filiado primeiro ao Partido. Hoje sei que, para ser comunista, a condição de trabalhador é fundamental. Mas eu era adolescente, e precisava da minha geração. E lá fui eu.

Liguei num telefone público de ficha na Mozart Lucena, Nova Assunção. Falei com o Huston Araújo Dantas. Fiquei impressionado, era o "diretor de Imprensa" da UJS, a União da Juventude Socialista.  Soube por ele de um debate no Auditório Castelo Branco, na Reitoria da UFC, sobre a crise do Socialismo e o 8° Congresso do PCdoB. Cada lugar novo ampliava o horizonte do secundarista, e foi lá que tomei a palavra pela primeira vez no Partido, nervoso, guiado por um papelzinho com minha pergunta/resposta anotada - já dei minha opinião. Aquela União Soviética era mesmo socialista? Na mesa estava a Gilse Cosenza. Lá, conheci meu amigo Flávio Arruda, muita saudade. Ele me apresentou a UJS e o movimento estudantil cearense. Flavinho devia ter uns 18 anos, mas me impressionou pela maturidade que vemos na militância da UJS até hoje. Nossa geração foi para sempre seduzida por aquele gênio, aquela fala, aquele amor verdadeiro pelo povo, e o humor rascante, impublicável, com que ele nos brinda até hoje.

Naqueles tempos tormentosos, vi o Partido reafirmar a bandeira do socialismo quando a União Soviética e o campo socialista ruíam. O Partido cerrou fileiras em torno do entendimento que firmara desde fevereiro de 1962. No ano seguinte, com o Fora Collor, aprendi o que era fazer história, e entendi o poder do coletivo e a responsabilidade do indivíduo. Foi assim que tudo começou para mim.

Havia desde então forte campanha contra a China. Mesmo assim, resistimos ao anticomunismo e já éramos tachados de dinossauros. E avançamos na luta contra o neoliberalismo e contra o anticomunismo. Conheci uma galera, jovens como eu, que sabia que o capitalismo presente é um regime do passado. Com Cazuza, ouvíamos O Tempo Não Para, cantávamos Saudações a Quem Tem Coragem, e dizíamos: O Socialismo Vive. Com Legião Urbana,  cantamos Fábrica, Quem é o Inimigo, Quem é Você?, Eduardo e Mônica, Que País é Esse?, Tempo Perdido e Geração Coca-cola. Mas também era comum sentarmos sob a luz da noite alencarina e ouvirmos os violões de Paulo Renato, ou de Marquinhos, recitando poemas, dando beijos de amor, conversando sobre a vida, fazendo a luta, e tomando uma cachacinha entre amigos cujo carinho e confiança jamais me faltaram. Naquelas noites mornas e cheias de brisa da capital cearense, aprendemos as canções de Paulinho Pedra Azul, Clube da Esquina, Chico, Ednardo, Alceu, Belchior e Zé Ramalho, uma trilha musical que acompanhou nossas vidas, os versos, canções, lágrimas, gritos e lutas que foram se acumulando, até deixarmos de ser jovens. Assim a gente se formou para libertar o Brasil da Ditadura, da Desigualdade e do Imperialismo. 

E somava-se a luta dos(as) estudantes à luta das operárias castanheiras e do Distrital da Barra, onde conheci gente como Rubão, Toinha, Aparecida, Aguinaldo, Antonio, Edson, Eliana, e Sílvia, que seria minha primeira namorada. Rubão, Patinhas, Rodrigues, Zé Augusto, Gilse  e Ana Lúcia eram e são até hoje as principais referências militantes para mim.

Eu encontraria minha turma de movimento secundarista, do Liceu e da Escola Técnica, Andréa, Zizia, Viviane,  Flávio, Marcelo, Fátima, Eduardo, Houston, Cristóvão, Bisqui, Juliana, Neyla, Neidinha, Paulo Rogério, Aírton, Gorete, Wagner. Meu irmão Roberto dos Santos seria o líder estudantil do Hilza Diogo e da Barra do Ceará, com Mário, Gerson uma nova geração à época.

Eu conheci pessoas muito boas no Partido que, como toda coletividade sã, é diversa, tem gente real. Mas logo no começo, minha mãe, Dona Lourdes, perguntou: 

- Meu filho, esse negócio de comunismo, não é perigoso não? 

E eu, do alto do que vira e com meus 14 anos completos, disse mais ou menos a mesma resposta que trago ainda hoje no peito, quase 30 anos depois.

- É um pessoal honesto, do povo, que não faz coisas erradas, mas lutam pelo que é certo, pelo Brasil, e com fundamento. E eu acho que vou ajudar as pessoas muito mais nesse Partido, que indo numa igreja, porque eu posso ajudar a organizar o povo para lutar. 

Mãe começou a conhecer o povo do Partido. Foi ver quem era. E começou a conhecer não apenas os camaradas, mas também as mães dos jovens da UJS e monitorava nossas andanças por aí. Dona Geralda cuidava da sede e de nós, matava a fome secundarista com bolacha e café doce, e com um pouquinho da comida dela mesma. Era uma convivência intergeracional rica, conflituosa, estimulante. 

Mãe respeitou minha opção, que me impulsionou tanto e até hoje me molda. Ela dizia, ao falar de uma notícia que "falaram do nosso Partido". E Dona Lourdes conhecia o Inácio Arruda, tornou-se amiga da Dra. Teresinha, "meu anjo", ela dizia. Quando minha mãe chegava na sede, era acolhida por todos com cheiros, abraços, fez-se mãe de muito comunista cearense.

Meu pai votara no Collor em 1989 (eu simpatizava com o Covas). Ao longo dos anos, ele foi vendo não apenas o que era o Partido através de mim, mas a nossa inserção no Esporte e no Ceará. Quando coordenei com Cássia Damiani a sistematização da 3a. Conferência Nacional do Esporte, fui à etapa do Ceará (eu já morava em Brasília) e meu pai estava lá, participando. Louro Massagista, Goleiro, Árbitro, Bom Conselho, do Campo do Quintino Cunha, ele é uma lenda do futebol cearense, trabalhador, boleiro que jamais fez outra coisa que não o futebol.  E foi lá naquele espaço democrático, conquistado na luta, que ele pôde estar comigo. Algum tempo depois, quando ele partiu, vi uma coroa de flores do Partido, e soube que meu pai se filiara ao PCdoB, o "Camarada Louro".

Jamais quisemos ganhar nada do Partido, e no entanto, ele me deu tudo que eu sou. Desde então, tenho essa convicção, essa prática, esse pensamento, essa ética e esses camaradas. E embora tenha visitado 18 países, amado, sofrido, lutado sempre, jamais me perdi, sempre soube pelo que lutava, qual meu lado, quais minhas bandeiras, e estava com as pessoas que quero, amo e respeito. Eu conheci o valor dos e das camaradas e dele não me afasto, acredito muito na nossa capacidade de mudar o Brasil.

Por isso eu tenho essa alegria de ser comunista, de lutar pelo Brasil, pela democracia, pelo socialismo, pelos direitos do nosso povo, em defesa da Ciência, da vida, do amor. É na carne, é na alma, é na vida que se sente a alegria de ser comunista. Amazonas, Grabois, Elza Monerat, Haroldo Lima, Helenira, João Carlos, Bergson,  eram pessoas comuns e nisso residia seu heroísmo,  que se achou no Partido Comunista.

E quando eu olho o que o capitalismo faz com o mundo e com as pessoas, como ameaça o futuro da vida, eu só reafirmo a convicção de que o socialismo não é mero ato de vontade, mas necessidade histórica, é saída para os dilemas atuais da Humanidade, é submeter a condução da vida à Ciência, ao progresso, e não deixar o mundo ser conduzido por meia dúzia de rentistas degenerados numa nau sem rumo. Em meio à tragédia e ao genocídio brasileiro da COVID sob Bolsonaro, vejo a China, Cuba, Venezuela, Coréia Popular, Vietnã, cuidando de sua gente, mostrando o caminho de paz e cooperação num mundo ameaçado pela loucura e pela ganância capitalista. E na ampla maioria dos casos, a vitória só veio porque havia um Partido Comunista e camaradas à altura. 

Eu me sinto grato, sim, mas incompleto. Precisamos da vitória, precisamos salvar o Brasil. Se nos armamos com a Frente Ampla e ainda tivermos um Lula, poderemos, sim, escrever outra História. Minha geração ainda não cumpriu sua missão, mas estamos prontos.

É a partir desta ciência, desta vivência e desta história, que me deparo com o ano do Centenário do PCdoB, e faço-o mais animado e convicto que nunca. Nós venceremos esses tempos de trevas, abrindo largas avenidas para o povo trabalhador, à juventude, às mulheres,  à cultura e ao saber, para sermos outra vez felizes e livres no Brasil que retomaremos.  E para isso precisamos de Frente Ampla, união do povo e precisamos de um forte e influente PCdoB!

Já tive cabelo! Iulix Bento, Andréa Oliveira, Sílvia, Zizia e Flávio Arruda (o menino não me lembro) parte da nossa UJS secundarista dos anos 90 em Mulungu-CE





Linda foto em que não saí


Com Arthur Poerner e Joel Benin 


Despedida da UJS

Quem sai aos seus não degenera



Essa foto eu não tirei, eu agitei, coordenando a agitação e com a turma da Bateria da UJS

 

Dona Lourdes se emocionou quando conheceu Dona Maria Prestes


 

Aniversário de Mariana na sede do PCdoB-CE




Eu e Seu Louro, Louro Deda, Louro Massagista, Louro Golero, meu pai, atleta cearense
 


 

 

A Federação Mundial das Juventudes Democráticas é levada pela UJS ao então prestigiado Itamaraty com Celso Amorim

 






















quinta-feira, 25 de março de 2021

99 anos do Glorioso Partido Comunista do Brasil!



Em meio a tantas tristezas, o Partido e o Brasil são as nossas maiores esperanças. Parabéns a cada camarada! Força, camaradas! Venceremos!

Mas quem é o Partido? Bertold Brecht - A Bandeira do meu Partido - Jorge Mautner declama e canta  
O tripé torto e as nossas desventuras - Paulo Vinícius Silva
http://coletivizando.blogspot.com/2021/03/o-tripe-torto-e-nossas-desventuras.html?m=1

Superar a cláusula de barreira, defender a democracia e o PCdoB- Paulo Vinícius Silva
https://vermelho.org.br/coluna/superar-a-clausula-de-barreira-defender-a-democracia-e-o-pcdob/

Coletivizando: Da crítica e autocrítica para o Avante, camaradas! Paulo Vinícius Silva https://coletivizando.blogspot.com/2020/12/e-eu-sei-o-seguinte-luta-continua.html?spref=tw

Viva os 99 anos do Partido Comunista do Brasil - Manuela

 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Haroldo Lima vive em nós. E viva o PCdoB! Paulo Vinícius da Silva

 


Somos povo brasileiro e sentimos as suas alegrias e tristezas na carne, na alma. Temos chorado muito, como todos que perdem seus entes mais queridos, quando isso podia ter sido evitado.
Bolsonaro tornou o país um risco para toda e qualquer pessoa e para o mundo. São crimes monstruosos contra a saúde, que tem matado nossos amores, como foi com Haroldo Lima.
Hoje, choramos, sim.
Mas para honrar o exemplo de Haroldo Lima, não podemos nos deixar quebrar, nem cair no desalento, jamais. Teremos de ser comunistas como ele foi, honrar o exemplo dele, de Zezinho, de Moacir, de Maria, Lúcia, de tantos imprescindíveis camaradas, amigos e familiares que temos perdido. Não pode ficar impune.
Mas o mais importante agora é que há ainda milhares de vidas a salvar, salvar a sua vida, que me lê, salvar minha vida. Éssa é a matriz da Frente Ampla, e é por isso que nossa luta democrática contra o genocida é de salvação nacional. Para salvar-nos, será preciso salvar o Brasil, vacinar o Brasil todo, e é preciso tirar o genocida do controle das nossas vidas, até por sobrevivência. Então, o que se exige de nós, em meio à tristeza, é beber a lágrima salgada e seguir ainda mais na luta.
Haroldo era um líder! Legou-nos um exemplo que cumpre compreender e manter vivo, seguir, com aquele brio, com aquela força com essa luz que brilha no coração vermelho de cada comunista que, ri, chora, sofre e luta, que acima de tudo luta sempre, exatamente como Haroldo ensinou. Então, a despeito das lágrimas, força, camaradas, há muiito o que fazerI Não nos afastemos, ao contrário, estejamos juntos para resistir e vencer. Haroldo Lima vive em nós. E viva o PCdoB!

sexta-feira, 19 de março de 2021

Putin dá resposta épica a Biden - Sputnik

Sputnik no Youtube

Em entrevista ao jornalista da ABC, George Stephanopoulos, o Presidente estadunidense Joe Biden assentiu à pergunta capciosa, de se considerava o homólogo Russo um assassino. Biden assentiu, mas viu-se que fora pego de surpresa e seu hu-hum afirmativo mostra a tibieza. Contudo, no contexto, são exatamente acusações e ataques que se fazem contra a Rússia e seu mandatário.

A resposta não tardou. Putin fez um vídeo direto, olhos nos olhos - pois foi acusado de ser frio no olhar. Antes de tudo, deseja saúde ao idoso Joe Biden. Fica no ar a alfinetada sobre se suas declarações eram intencionais ou um lapso. E em seguida devolve com brilho e gênio ao ataque recebido. Um show.


terça-feira, 16 de março de 2021

O tripé torto e as nossas desventuras - Paulo Vinícius da Silva




A Bandeira do Meu Partido - Jorge Mautner

A bandeira do meu partido
é vermelha
de um sonho antigo
cor da hora que se levanta
levanta agora, levanta aurora!

Leva a esperança, minha bandeira
tu és criança a vida inteira
toda vermelha, sem uma listra
minha bandeira, que é socialista!

Estandarte puro,
da nova era
que todo mundo espera, espera
coração lindo, no céu flutuando
te amo sorrindo, te amo cantando!

Mas a bandeira do meu Partido
vem entrelaçada com outra bandeira
a mais bela, a primeira
verde-amarela, a bandeira brasileira.


O PCdoB manteve o legado da participação comunista na democracia brasileira. Mesmo perseguido até a morte, com os que tombaram no Araguaia, na luta contra a Ditadura Terrorista, no campo e na cidade, mesmo assim, não feneceu. Por que? Necessidade histórica. Em 1985 foi um dos partícipes à mesa da conciliação nacional que culminou na Constituição de 1988. Cresceu enquanto o PCB definhou, e reafirmou-se como uma legenda influente e necessária à vida política nacional. Destaca-se por representar a classe trabalhadora, as mulheres, os negros e negras, sendo uma sigla campeã de produtividade, seja nos mandatos, seja no executivo. Na Câmara está presente desde 1979, mantendo a presença operária, desde o metalúrgico Aurélio Peres; teve figuras como o metalúrgico cetebista gaúcho Assis Melo, e tem o influente deputado, o operário têxtil Daniel Almeida, cumprindo essa importante representação.

Só a partir da década de 1990 iniciam-se, tímidas ainda, as tentativas de lançar-se ao Executivo. O PCdoB hesitou em fazê-lo, por receio do que significaria "administrar" o capitalismo. As tribunas parlamentares foram seu espaço preferencial. Haroldo Lima, Aldo Arantes, Sérgio Miranda foram amplamente reconhecidos, e mais recentemente, tivemos um protagonismo renovado por mulheres como Jô, Jandira, Perpétua, Manu, Marcivânia, Alice e Vanessa. Tamanha qualidade expressa esse êxito, na representação e na apresentação de inovações legislativas que são patrimônio da democracia brasileira.

A Anistia, a legalização dos partidos de esquerda, o fim da intervenção em centenas de sindicatos, a Lei do Grêmio Livre, a Meia Entrada Estudantil, o apoio a Tancredo neves no Colégio Eleitoral, a Constituinte, O Voto aos 16, a Constituição Cidadã e a proposta da Frente em torno do nome de Lula, em 1989, o Fora Collor que lideramos; são só alguns exemplos que colocam a importância dessa ação multifacetada que trouxe conquistas para o Brasil e a Democracia.

Na resistência ao Neoliberalismo, não foi menor o nosso papel. Reafirmamos o socialismo e o símbolo, a foice e o martelo, o vermelho e o amarelo, e fomos à luta. A unidade da esquerda seguiu a presidir nossos esforços, na construção do Fórum Nacional de Lutas que uniu ação de massas e institucional, e ganhou o debate contra o neoliberalismo. A Marcha dos 100 mil a Brasília contra FHC e o Plebiscito sobre a ALCA, e a luta contra as privatizações marcaram essa iniciativa. Essa base permitiu a vitória de Lula em 2002, tendo este contado com a solidariedade e o apoio do PCdoB desde 1989.

A partir de então, o Partido assumiu uma liderança muito maior do que o número de seus lugares. A habilidade e a retidão de quadros compromissados com o povo desenhou políticas públicas fundamentais. Deu um impulso inimaginável ao Esporte Brasileiro como políticas públicas, mudou a cara das cidades, plantando praças esportivas para a Terceira Idade, criando espaços públicos para o fruir da população, com quadras, pistas de skate, centros esportivos e culturais, além do desenho da Política Nacional do Esporte e da realização dos grandes eventos esportivos, que foram objeto de todo tipo de interesse e sabotagem. Os pontos de Cultura vieram do Do-In Cultural de Gil e de Célio Turino, mas também da UNE e da UBES e dos CUCAS. A política de assistência estudantil, cotas, ampliação do ensino técnico, PROUNI, PRONATEC e expansão do ensino superior público teve a juventude como protagonista, em especial pela nossa ação no movimento estudantil, quando pontificam lideranças como Manuela, Orlando Silva, Gustavo Petta, Augusto Vasconcelos,  Wadson Ribeiro, num movimento de ideia, lei e luta que virou conquista porque a filha do pedreiro agora podia virar doutora, como cantava e construiu a UNE e a UBES. Eu estava lá.

As Conferências Nacionais de Politica Pública e os Conselhos tentaram fazer o povo influir no Estado, usando as sendas da participação popular que inscrevemos na CF 88, redesenhando as políticas públicas. A teoria e a liderança petista apostava na ampliação da democracia por esta via. Nossa adesão ou contraponto nesses espaços foi importante para ampliarmos a influência do povo. Mas em muitos aspectos é preciso discordar das ilusões com esta transição pelo Estado através de políticas públicas, sem romper com a política macroeconômica neoliberal. Seu limite é, como vimos, a luta de classes. Como a grita demonstrou, essa via "pacífica" é tão interditada quanto qualquer outra, e o primado da luta de classes mostra que a institucionalização da democracia brasileira padece de defeitos que a envenenam e a podem matar.

É o conjunto de sequelas que advém da nossa formação social como Nação que está à mostra. Bolsonaro é o signo dessa crise, não é objeto do acaso. Foi ungido pelo mercado. Deram um jeitinho e foi inclusive aprovado pelas urnas eletrônicas que, ingrato, critica. Foi entronizado na Casa Branca com o então Presidente Trump. Abençoaram-no os Bispos da teologia da prosperidade, e aqueles que dizem defender as famílias quando atacam as mulheres e a comunidade LGBTQ, negando-lhes o estatuto básico da igualdade humana, maior mensagem do Cristo: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Nosso passado escravista racista, de matar índio e derrubar florestas, grita em nossos ouvidos como em nossas narinas chega a lembrança de falta de moradia e saneamento básico. O lucro do rentismo das finanças, mesmo que às custas da privataria, é a creche que falta, a escola sem estrutura, a dívida estourada e impagável, é a privatização do SUS, é o lucro privado em saúde em meio à pandemia.

A Casa Grande resta em nossas almas quando exercitamos mais ou menos frequentemente a indiferença com o outro ser humano, lição que aprendemos com a Escravidão. Foi ela que plantou em nossa alma a árvore da indiferença com que vemos a desigualdade praticada diariamente. Há humanos e menos humanos, cidadãos e cidadãs de primeira e segunda classe por toda a parte. É essa estrutura que, na ponta, permite o assassinato impune de milhares de negros e negras, seu encarceramento e empobrecimento sistemático.

Afora isso, é o próprio Capitalismo que afirma as tendências inexoráveis de Concentração de Renda, Oligopolização e Rentismo Parasitário. O "mercado" é, em verdade, a ditadura dos monopólios. 1% da humanidade detém mais riqueza do que os 99% restantes.

Esse é o biombo que limita as mudanças no Brasil. A despeito disso, na relação com o Congresso, colecionamos vitórias quando esteve a nosso cargo o diálogo com o legislativo. O PCdoB já tinha larga trajetória de negociações delicadas e complexas, mantendo a correção, costurando e pressionando, tendo Aldo Rebelo - então em nome do PCdoB - defendido Lula da tentativa de Golpe de 2005. As ruas mobilizadas por estudantes, trabalhadores e movimentos de moradia no dia 16 de Agosto de 2005, em Brasília, e a ação ampla e radical de Aldo detiveram naquele momento as forças que já queriam ganhar no tapetão.

É nesse contexto, analisando autocriticamente a crise do mensalão, que o Partido avalia e se auto-avalia. Reconhece no 11o. Congresso, em outubro de 2005, as dificuldades de romper o cerco neoliberal que constrangeu o primeiro governo Lula, desmascara a cantilena "ética" da oposição golpista e expõe os limites da política macroeconômica do governo. Entre avanços e recuos, reconhece que vale o jogo e a participação, apontando para um tripé de luta político/institucional/eleitoral, luta de ideias e luta de massas como equação a dar a justeza da ação do Partido em meio à bruma do período. Dizia então o PCdoB:

"a afirmação do projeto nacional de desenvolvimento alternativo depende em grande medida da elevação da organização e da mobilização ampla e unitária do movimento social, que possa assim resistir aos entraves ao progresso social e aos limites para a soberania. Esse é o ator que precisa jogar seu papel de força-motriz principal no processo transformador atual. Por isso, o Partido deve elevar seu nível de intervenção no movimento social, principalmente entre as camadas dos trabalhadores, reforçar seu trabalho entre a juventude e desenvolver sua atividade entre as mulheres, a intelectualidade e todos os contingentes populares."

Seu posicionamento desenvolvimentista, contra a política de juros herdada do Plano Real foi afirmado desde sempre. Nenhum nome seu foi alvejado com êxito pela sanha lavajatista, embora mirados.

Contudo, olhando para trás e para o hoje, é evidente para mim que o peso do Estado e do "Mercado", afora a "Mídia"e o Judiciário foram de tal modo eficazes como obstáculos, que a via institucional foi supervalorizada, ocasionando reveses que não se explicam. Hoje, para muitos, a derrota na via institucional é o fim do Partido. Não foi, não é e não será. O que se espera do CC é que tenha luzes para reafirmar o Partido superando a cláusula de barreira. Que ela seja insuperável é um pressuposto inaceitável. 
Um tripé torto


Cabe a pergunta: Como avançamos mais do que nunca na via institucional e perdemos bases populares? Como crescemos nos governos e no legislativo e perdemos conexão exatamente com as bases que representamos? Em que medida o tripé luta de massas, de ideias e eleitoral foi desequilibrado? em que medida perdemos apoio no povo e fomos derrotados na luta e ideias, exatamente quando se esperava que lograríamos o apoio do povo para levar adiante às mudanças?  Para além das ações dos adversários e aliados, em que medida não fomos reconhecidos pelo nosso próprio povo? Para mim, a ênfase na política institucional pesou muito mais que o nosso investimento na luta de ideias e na luta de massas. Ou será que não?

Considero inexplicados os reveses eleitorais do PCdoB enquanto ocupou crescentes, exponenciais espaços institucionais. Aí está o busílis. Esse período de 35 anos é hoje o maior legado de participação comunista na vida democrática e é um critério da qualidade da democracia. Não é à toa que padecemos hoje do recrudescimento do anticomunismo, assim como de armadilhas como uns apressadinhos que deram adeus a Lênin. Todos entramos sabendo que os e as comunistas são exatamente quem irá até o fim na defesa do Brasil e da Classe Trabalhadora. 

Por outro lado, há que se avaliar a não renovação das lideranças eleitorais, as características próprias de mandatos parlamentares e do exercício do executivo com limitantes tamanhos e a política de concentração eleitoral , marca do PCdoB em todos os Estados, que deveria ser analisada. O próprio projeto de ligação com o povo, que tem na UJS e na CTB as suas marcas, padece de defeitos já mapeados e não sanados. A juventude segue apenas estudantil sem se ligar à classe trabalhadora; os sindicalistas, no topo da pirâmide invertida, sentem a inexorável solidão que não os elege representantes da classe trabalhadora. O não cumprimento das deliberações do 11o. Congresso, mais que gesto consciente, parece-me ter sido consequência da própria vida, da luta, de nossas forças e fraquezas. Não acredito que mais pragmatismo, mais institucionalismo, mais do mesmo, seja a saída para sermos pelo povo reconhecidos. Não foi o nosso símbolo que construiu nossas derrotas, do mesmo modo que não impediu nossas vitórias. 

A foice e o martelo foi baixada na luta pelas Diretas por vetos dos "aliados". Por uns dias, baixamos, depois levantamos de novo. Mas é preciso reconhecer triste, que o símbolo foi ocultado na maior parte das vezes, seja pela nossa defesa da unidade, seja por defensismo eleitoral. Não há uma campanha sistemática em defesa da história, do símbolo, que permeie nossa política eleitoral, lamentavelmente. Recentemente, nem no logo dos 99 anos do aniversário do PCdoB coube a Foice e o Martelo. 

Ora, a quem isso ganha? Se ao ganharmos, perdermos o Partido Comunista, que teremos ganho? Parece-me que o ataque ao símbolo é a ponta de um iceberg. Não é só o PT que precisa de autocrítica, todos precisamos. Certamente, não é do socialismo, da foice e martelo e do comunismo que precisamos fazer autocrítica. E, com certeza, não será um indivíduo milagroso - Lula, Dino, quem quer que seja - ou uma só mudança - que permitirá acharmos a saída. Menos pragmatismo e mais compromisso, mais História e praxis, saber o que é importante, influenciar no centro dos acontecimentos políticos, entender que a luta é nas ruas, nas ideias e nas eleições, mas sem ilusões com caminhos errados já trilhados no passado. 

Talvez seja duro demais admitir, mas falta autocrítica em reconhecer que houve uma perda de conexão com o povo causada exatamente pela hipertrofia da via institucional em meio à crise da nossa principal aposta, que foi o Lula. A crise ética que o PT viveu também causou-nos enorme dano. Há um problema geracional, a despeito dos avanços da representação feminina e de negros e negras em nosso Partido. Há um problema de falta de ligação com o povo. E não será dobrando a aposta no reformismo, no liquidacionismo e na diluição que sanaremos esses problemas, muito ao contrário. 

Que o  Centenário do PCdoB seja para apontar o futuro socialista, e jamais palco de ataques ou divisão do Partido. Jamais aceitarei o fim do PCdoB ou sua descaracterização. Defender sua participação eleitoral é central, é dever de todo(a) militante. Minha posição completa agora 30 anos em maio, da minha filiação ao Glorioso. Partido Comunista não é tático. Só deixa de existir com a consecução do comunismo. Até lá, a aliança dos trabalhadores da cidade e do campo é o primado, foi assim que ingressamos, sob os auspícios da foice e do martelo. Foi assim que Dino se elegeu, foi assim que Aldo salvou Lula do impeachment, Manuela sempre ergueu esta bandeira, foi assim no Araguaia, foi assim nas torturas, foi assim no Fora Collor. É assim e seguirá sendo nosso gesto rebelde cotidiano de fazer tremular nas praças, nas ruas e no coração, os dois estandartes: a bandeira do Brasil, verde e amarela; e ao lado dela, o rubro e ouro da Foice e do Martelo. Na verdade, pelo mau uso das cores nacionais, inclusive, devemos compreender que não basta apenas a bandeira nacional, aliás nunca bastou, porque devemos defender a democracia e o direito de nossa presença quase centenária na vida nacional, assim como a perspectiva socialista. O Partido Comunista do Brasil é uma necessidade histórica. 

Creio exista um problema de superestimação da "via institucional" no PCdoB, e vejo as distorções e erros que tal política causou . Longe do equilíbrio preconizado como caminho, quando surgiu a definição das três frentes de ação e acumulação de forças - luta político/institucional/eleitoral, luta de ideias, luta de massas - vige a dura realidade da tensão crescente entre as vias, e a prioridade natural daquela que conta com poderes que naturalmente se colocam como rivais ou guias do coletivo, compondo muitas vezes centros de poder paralelo. Assim, muitas vezes ocorre com o "mandato", o sindicato ou a Prefeitura, a Secretaria, etc. Institui-se aí uma supremacia difícil de contornar, um desnível do investimento dedicado às três magnas tarefas - luta de ideias, luta de massas - luta institucional/eleitoral.

A comemoração dos 99 anos do Partido Comunista do Brasil é de todos aqueles e aquelas que sustém a gloriosa e solidária bandeira do vermelho, da vida e do sangue do povo derramado pela ganância dos capitalistas; a foice dos camponeses, o martelo dos primeiros operários metalúrgicos. É esse o símbolo que tremula nos céus da China em meio às mais gloriosas batalhas contra a Covid, e é reafirmado por Xi Jinping, porque significa a verdadeira perspectiva socialista.

Enquanto isso, o capitalismo leva à morte, à degradação do planeta, à concentração inacreditável e imoral de riquezas, um regime de oligopólios. O Socialismo é a esperança da humanidade, e afirma sua superioridade contra a barbárie. A salvação da humanidade é exatamente o socialismo e, no futuro, a harmonia universal, a paz, o fim das diferenças de classes, o fim de tantas chagas do presente, a sociedade futura, o comunismo.

Estão errados aqueles que sugerem ou agem para tirar de nós a foice e o martelo e o vermelho e o amarelo. Aceito o verde, no máximo. No resto, vou lutar contra isso até o fim (ou o renascimento). 

A lição de João Amazonas foi precisamente essa: aqui nem tem desistência nem tem descanso militante. No PCdoB manda a sua militância organizada. Longe de coibir, o centralismo democrático é a nossa força, nossa voz, é o poder da militância. Claro que o institucional é importante, mas somos acima de tudo o partido da militância e da classe trabalhadora. E é desse lugar que me posicionarei, contrário à proposição de o Partido parar de se apresentar sob seu símbolo, número e ideias ao povo brasileiro, conquista anterior à Constituição de 1988, quando o Presidente José Sarney, dentre os compromissos democráticos, contribuiu para a legalização do PCB e do PCdoB em 1985. Vender essa derrota como avanço exige muito malabarismo verbal, mas eu não caio nessa.

Mais do que de uma antecipação, precisamos é de um bom e bem conversado congresso, que dê voz à militância, aos quadros, e não apenas um espaço de atos políticos e institucionais que ocupam o centro, deixando o debate das polêmicas em último plano. Até pela pandemia e pela tragédia, precisamos de tempo e de debate franco, debater as razões da falência da tática eleitoral que inauguramos com a eleição de Lula em 2002. Crescemos na institucionalização como nunca, e perdemos votos para Federal e estamos ameaçados pela cláusula de barreira. Na verdade, o problema é faltar a identidade que poderia captar muito mais votos que conquistamos, pois o Socialismo tem apoio muito maior do que necessitamos para vencer a Cláusula de Barreira. O socialismo é o presente e o futuro, e o Partido Comunista existe, não por concessão das elites, e sim por necessidade histórica.

sexta-feira, 12 de março de 2021

Érico Leal - Análise de conjuntura

 SOBRE O NOVO CENÁRIO POLÍTICO-SOCIAL E PERSPECTIVAS 


01- Como tantos, minhas ações e reflexões estão condicionadas física e emocionalmente pelo quadro de pandemia eivado de crises de todos os tipos, que estão desconstruindo o país e o povo sob a direção conivente de um governo genocida. Estamos literalmente diante do caos e da tragédia nunca vistos em tempos recentes rumo ao arbítrio oligárquico se não houver freio e mudança de caminho. 


2- Portanto todo entendimento e perspectivas que desenvolvo nas caminhadas em torno do Museu “Emílio Goeldi”, indo ao supermercado ou farmácia, no caixa do banco, nos atos e reuniões on lines, lendo revistas ou assistindo jornais estão voltados para barrar a sanha reacionária e coletivamente encontrar saídas que, garantam o Estado Democrático de Direitos e os avanços ao bem-estar do povo.


3- Em 24 horas 2.349 brasileiros e brasileiras perderam a vida somando 270.917 mortes, exatamente no dia que completa aniversário o reconhecimento de pandemia pela OMS. São 23,4% de mortes no mundo em um dia para uma população de 2,7%. Uma onda em crescimento junto ao colapso do sistema de saúde com filas de espera em UTIs, em todos os Estados da Federação. No sentido contrário, a vacinação segue a “passos de cágados”, faltando vacina: 4,26% da primeira dose e 1,5% da segunda.


4- Sem o auxílio emergencial, os trabalhadores e trabalhadoras não têm opção diante do dilema de sobreviver ou morrer; transportes lotados, risco de desemprego, aluguéis vencidos, energia cortada, despensa vazia. Vivem diariamente a “roleta russa” cada vez mais sem espaço que alivie sua tragédia pessoal e familiar. Aos desempregados, o desalento ou a solidariedade, a “providência divina” ou o abandono à própria sorte. Tudo isso em um país que vai se diluindo material e espiritualmente.


5- É diante desse cenário dantesco, que Lula retorna ao epicentro da política nacional por uma inesperada ação do STF mas não despida de intencionalidade e reação. Talvez um caso de “Deus escreve certo por linhas tortas” ou lido como sinal de novos tempos. Mas apesar desse fato alvissareiro ter mudado comportamentos e movimentado forças políticas; da coletiva e espaços na mídia, ainda não podemos aquilatar seu tamanho e suas consequências na vida do país. 


6- O discurso negacionista de repente transmuta-se para o anúncio de compra de 400 milhões de doses de vacina até o final do ano; apoiadores de Bolsonaro no parlamento propõem um pacto pela vida; o genocida e sua trupe passam a usar e defender a máscara e o distanciamento social. Para um país de fiéis pode parecer o milagre das Bodas de Canaã, no entanto, a água poluída manchada de sangue só confirma o oportunismo eleitoreiro que marca o clã de milicianos. 


7- As marolas oriundas dos recentes acontecimentos embalam, em nosso campo, sentimentos de esperança e euforia, animando a luta; porém evidenciam crônicos problemas de disputa e hegemonismo, que atrapalham a unidade dos progressistas, o fortalecimento das condições subjetivas de mudança. Revelam o nível de pensamento da esquerda e a influência de Lula na hoste revolucionária, observada a partir das manifestações em redes sociais. 


8- A presença de Lula no campo de batalha, com disposição e sentimentos de classe, e tudo o que isso pode representar dentro e fora do país, traz novo ânimo para a luta; reagrupa a militância; estabelece reação no adversário e possibilita ajustamentos de forças. Mas, por outro lado, traz euforia, soluções fáceis e ilusões de classe, como se bastasse apenas sua presença para as coisas acontecerem ou mudarem, de fundo. 


9- De repente Lula ganha no primeiro turno e toma posse antecipadamente livrando o Brasil de Bolsonaro et caterva; o retorno de Lula “paz e amor” galvanizará setores das classes dominantes sendo o governo de transição; basta o Fantástico da Globo entrevistar Lula para o fato estar consumado; quem está bem colocado nas pesquisas não pode abdicar de candidatura; tem até gente se preparando para a posse. Além disso, artigo acusando de covardia os que questionam a polarização Lula x Bolsonaro; ou fazendo profissão de fé revolucionária na referida polarização, resgatando que polarizações são objetivas para justiçar posição.


10- Registro minha dificuldade de análise política, principalmente nessa quadra dinâmica, e confesso admiração àqueles que em poucas linhas traduzem seus pensamentos e conclusões. De início preciso lutar contra minha origem de formação judaico-cristã, baseada na culpa e no medo; metafísica e idealista: passar desse calvário, como expiação dos pecados, para o primeiro céu do comunismo sem os horrorosos aporrinhamentos da construção da estrada. Coisa de ungido. 


11- Outra questão que me angustia é fugir do esquematismo; pensar em processos, correlações e acasos, projetar cenários, avançar e recuar na construção de caminhos; “análise concreta da realidade concreta” para uma ação concreta; agir sobre a realidade objetiva para mudá-la, não são coisas fáceis com dizem os entendidos. Como reza a cartilha, exige leitura de correlação de forças, histórico de lutas e de mudanças, as condições objetivas e subjetivas etc etc. Nem a realidade objetiva é imutável nem a vontade é tudo. 


12- A presença de Lula no cenário político é um ganho das forças progressistas nesse mar revolto de conservadorismo. Sua liderança e respeitabilidade, sua inter-locução com diversos setores da sociedade, seu cacife em nível internacional, seu histórico e compromisso com o povo o credencia a abrir espaços de diálogo, liderar junto com tantos outros um amplo processo de discussão sobre estratégias e caminhos; pontos de unificação de amplas forças em defesa da vida, da democracia e da nação.


13- Na política não se deve descartar a priori cenários e resultados, principalmente nas programadas Eleições de 2022. Obviamente, a nós interessa a derrota de Bolsonaro e para mim, dentro do possível, garantir a eleição de um governo progressista. Para isso é necessário reequilibrar a correlação de forças que garantiu o golpe de 2016 e suas consequências. Digo forças reais, não só pesquisas de opinião. 


14- Evidente que há um desgaste dessas forças conservadoras em relação ao governo em diversos aspectos; há contradições entre as mesmas; o empobrecimento geral e as consequências da pandemia atingem inúmeros setores; o resgate da economia a partir do Estado é posto até pelo FMI. Portanto, na minha opinião, existem condições de frente ampla; o que não está colocado a priori com que espectro será constituída, se será. 


15- A polarização é inerente à política, mas qual derrotará Bolsonaro e seu fascismo? Posto que até nossos dias a democracia é exceção em comparação com o arbítrio; e o arbítrio não é prerrogativa só do genocida . Que polarização pode romper o medo e o estigma construídos contra as forças de esquerda? Que polarização neutralizará setores reacionários? A polarização direita x esquerda muda essa correlação de forças? Em que circunstâncias? Como está a capacidade de resistência das forças democráticas e progressistas?!


16- A entrevista coletiva do Lula sinaliza positivamente ao diálogo, à necessidade de tirar o país do atoleiro, de garantir democracia, desenvolvimento e os direitos sociais; ele se coloca para a luta. No entanto, a impressão que tive, que não deixa de ser legítima, mas que não ajuda o país, é que Lula aposta na polarização com uma frente em torno dele: “desistir jamais”, “não tenham medo de mim” e PT, PT e PT. 


17- Sinceramente torço para que as forças políticas mais avançadas convençam Lula e que este em suas conversas e andanças pelo país vá assimilando, que se as mudanças não forem possíveis sob seu comando e do PT que outras alternativas sejam construídas para nos livrar do fascismo. E que não demore, né?!


Belém, 11 de Março de 2021 


Érico Leal

quarta-feira, 10 de março de 2021

Crianças Palestinas de 8 a 12 anos presas pelo Exército de Israel por coletar verduras

 

Pepe Escobar debate a China: Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos - Brasil 247

 

Um País, Duas Sessões, Tantos Alvos

O novo Plano Quinquenal da China visa uma reforma econômica de "alta qualidade", um salto tecnológico e uma nova era de prosperidade comum, analisa o jornalista Pepe Escobar

Xi Jinping
Xi Jinping (Foto: Xinhua, Brasil 247)

Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

É tempo de  Lianghui ("Duas Sessões") – o rito anual da liderança política, em Pequim. As estrelas do show são o principal órgão de consultoria política, a Conferência Política Consultiva Popular Chinesa, e a tradicional apresentação de um relatório de trabalho pelo primeiro-ministro ao primeiro escalão da legislatura, o Congresso Nacional do Povo (NPC).

A análise do projeto preliminar do 14º Plano Quinquenal da China se prolongará até 15 de março. Mas, nas atuais circunstâncias, não se trata apenas de 2025 (lembrem-se do Made in China 2025, que permanece em vigor). O planejamento é de longo prazo e mira alvos do projeto Vision 2035  (alcançar a "modernização socialista básica"), e até mesmo além de 2049, o 100º aniversário da República Popular da China.

O premier Li Keqiang, apresentando o relatório de trabalho governamental para 2021, ressaltou que a meta de crescimento do PIB é de "mais de 6%" (o FMI, anteriormente, havia projetado 8,1%). Incluída aí está a criação de pelo menos 11 milhões de empregos urbanos.

Quanto à política externa, o contraste traçado por Li entre a China e o Hegêmona não poderia ser mais nítido: "A China seguirá uma política externa independente e pacífica" e promoverá a construção de um novo tipo de relações internacionais". 

Isso é linguagem-código significando que Pequim irá trabalhar com Washington em questões específicas mas, acima de tudo, enfocará o fortalecimento das relações de comércio/investimentos/finanças com a União Europeia, a ASEAN, o Japão e o Sul Global. 

As linhas gerais do 14º Plano Quinquenal (2021-2025) para a economia chinesa já haviam sido traçadas em outubro último, na reunião plenária do Partido Comunista Chinês. O Congresso Nacional do Povo irá agora ratificá-lo. O foco principal é a política de "dupla circulação", cuja melhor definição, traduzida do mandarim, é uma "dinâmica de duplo desenvolvimento ".

Isso significa um esforço coordenado para consolidar e expandir o mercado interno e, ao mesmo tempo, continuar a fomentar o comércio e os investimentos externos – como ocorre nos inúmeros projetos da Iniciativa Cinturão e Rota (ICR). Em termos conceituais, isso representa um equilíbrio yin-yang muito sofisticado, muito taoísta.    

Em inícios de 2021, o presidente Xi Jinping, ao louvar a "convicção e resiliência chinesas, bem como nossa determinação e confiança", fez questão de ressaltar que a nação enfrenta "desafios e oportunidades sem precedentes". Ele afirmou ao Politburo que "condições sociais favoráveis" têm que ser criadas por todos os meios disponíveis até 2025, 2035 e 2049.
O que nos leva ao próximo estágio do desenvolvimento chinês.

O alvo principal a observar é a "prosperidade em comum" (ou, melhor ainda, a prosperidade compartilhada), a ser implementada concomitantemente com inovações tecnológicas, respeito ao meio ambiente e enfrentamento pleno da "questão rural". 

Xi tem sido contundente: há desigualdade excessiva na China - regional, urbano-rural e disparidades de renda. 

É como se, em uma leitura fria do motor dialético do materialismo histórico na China, chegássemos ao seguinte modelo. Tese: as dinastias imperiais. Antítese: Mao Tsetung. Síntese: Deng Xiaoping, seguido por algumas derivações (em especial Jiang Zemin) até chegarmos à verdadeira síntese: Xi. 

Sobre a "ameaça" chinesa

Li ressaltou o sucesso chinês na contenção interna do covid-19, na qual o país gastou pelo menos 62 bilhões de dólares. Isso deve ser visto como uma mensagem sutil, dirigida principalmente ao Sul Global, sobre a eficácia do sistema de governança da China para projetar e executar não apenas planos de  desenvolvimento complexos, mas também lidar com emergências graves. 

O que, em última análise, está em questão na comparação entre as cambaleantes democracias (neo)liberais do Ocidente e o "socialismo com características chinesas" (copyright Deng Xiaoping) é a capacidade de gerir e melhorar a vida das pessoas. Os acadêmicos chineses têm grande orgulho do ethos de seu plano de desenvolvimento nacional, definido como SMART (sigla em inglês para específico, mensurável, alcançável, relevante e com prazo determinado).

Um excelente exemplo é o de como a China, em menos de duas décadas, conseguiu retirar 800 milhões de pessoas da pobreza: uma experiência absolutamente única na história. 

Tudo o que foi dito acima raramente é mencionado, uma vez que os círculos atlanticistas vivem atolados em uma histeria de incessante demonização da China. Wang Huiyao, diretor do Centro para a China e a  Globalização, sediado em Pequim, ao menos teve o mérito de trazer para a discussão o sinólogo Kerry Brown, do King’s College, de Londres.

Baseando-se em comparações entre Leibniz - próximo a estudiosos jesuítas interessados no confucionismo - e Montesquieu – que só via um sistema despótico, autocrático e imperial – Brown reexamina 250 anos de posições extremadas sobre a China no Ocidente, observando que hoje "é mais difícil que nunca" manter um debate racional.

Ele identifica três grandes problemas.

1. Ao longo de toda a história moderna, o Ocidente jamais reconheceu a China como uma nação forte e poderosa, e tampouco admitiu a restauração de sua importância histórica. A mentalidade ocidental não está preparada para lidar com isso. 

2. O Ocidente moderno nunca pensou na China como uma potência global, no máximo como uma potência territorial. A China nunca foi vista como uma potência marítima, capaz de exercer poder fora de suas fronteiras. 

3. Propelido por uma férrea certeza quanto a seus valores, entra em cena o tão aviltado conceito de "verdadeira democracia" - o Ocidente Atlanticista não faz a mínima ideia sobre  os valores chineses. Em última análise, o Ocidente não tem o menor interesse em compreender a China. O que prevalece é a confirmação de preconceitos, reafirmando que a China representa uma "ameaça" ao Ocidente. 

Brown aponta o principal problema que atormenta qualquer acadêmico ou analista político que tente explicar a China: como comunicar sua extremamente complexa visão de mundo e como resumir a história da China em poucas palavras. Clipes de podcasts não vêm ao caso. 

Exemplos: explicar como, na China, um estarrecedor contingente de 1,3 bilhões de pessoas consegue ter acesso a algum tipo de segurança de saúde, e como 1 bilhão delas se beneficia de alguma espécie de seguridade social. Ou, também, explicar os intrincados detalhes das políticas étnicas chinesas. 

O premier Li, ao apresentar seu relatório, prometeu "forjar um forte senso de comunidade em meio ao povo chinês e incentivar todos os grupos étnicos da China a trabalharem conjuntamente para a prosperidade e o desenvolvimento coletivos". Ele não mencionou especificamente Xinjiang ou o Tibé. É uma tarefa ingrata explicar as enormes dificuldades de integrar minorias étnicas em  um projeto nacional em meio a constante histeria existente em Xinjiang, Taiwan, no Mar do Sul da China e em Hong Kong. 

Venham participar da festa 

Sejam quais forem os caprichos do Ocidente Atlanticista, o que é importante para as massas chinesas é como o novo Plano Quinquenal irá fornecer, na prática, aquilo que Xi já havia descrito como uma reforma econômica de "alta-qualidade". 

As perspectivas parecem ser muito boas para as potências econômicas de Xangai e Guangdong – que já tinham como alvo um crescimento de 6%. Hubei – onde surgiram os primeiros casos de covid-19 - já vem trabalhando com uma meta de 10%. 

Baseando-se em uma frenética atividade das mídias sociais, a confiança da opinião pública permanece sólida, levando em conta uma série de fatores. A China ganhou a "guerra sanitária" contra a covid-19 em tempo recorde; o crescimento econômico voltou; a pobreza absoluta foi erradicada, cumprindo os prazos originalmente previstos; o estado-civilização está firmemente estabelecido como uma "sociedade moderadamente próspera" 100 anos após a fundação do Partido Comunista. 

Desde o início do milênio, o PIB da China cresceu em onze vezes. Nos últimos dez anos, o PIB mais que dobrou, de 6 a 15 trilhões de dólares. Nada menos que 99 milhões de camponeses, em 832 municípios e 128 mil aldeias rurais, são os que mais recentemente foram  resgatados da pobreza absoluta.

Essa complexa economia híbrida agora se dedica a montar uma armadilha "suave" para as empresas ocidentais. Sanções? Não sejam tolos, venham para cá fazer bons negócios em um mercado de pelo menos 700 milhões de consumidores. 

Como observei no ano passado, o processo sistêmico em operação é como uma  sofisticada mistura de internacionalismo marxista e confucionismo (privilegiando a harmonia e abominando o conflito): o arcabouço de uma "comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade". Um país - aliás, um estado-civilização, focado em sua renovada missão histórica de reemergir como uma superpotência. Duas sessões. E tantos alvos - e todos eles alcançáveis.

Pepe Escobar - O Enigma Papa-Sistani - Brasil 247

O Enigma Papa-Sistani

Francisco e Sistani fizeram pronunciamentos anti-guerra, anti-genocídio e anti-sectarismo além da compreensão da maior parte da mídia ocidental, escreve o jornalista Pepe Escobar sobre o encontro entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá Sistani

Papa Francisco e Aiatolá Sistani
Papa Francisco e Aiatolá Sistani (Foto: Reuters)
  Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Seja qual for a avaliação histórica empregada, foi um divisor de águas: o primeiro encontro, desde o século VII, entre um Papa Católico Romano e um líder espiritual xiita visto como "fonte a ser emulada".

Vai demorar muito até que se consiga avaliar todas as implicações dessa imensamente intrigante conversa de 50 minutos, com a presença apenas dos intérpretes, entre o Papa Francisco e o Grande Aiatolá Sistani, em sua humilde morada em uma ruela de Najaf, próximo ao esplêndido santuário de Imam Ali.

Um paralelo confessadamente imperfeito é que, para a comunidade de fiéis xiitas, Najaf é tão rica em significado quanto Jerusalém o é para a Cristandade.

A versão oficial do Vaticano é que o Papa Francisco foi a uma cuidadosamente coreografada "peregrinação" ao Iraque sob o signo da "fraternidade"- não apenas em termos geopolíticos mas também como um escudo contra o sectarismo religioso, seja dos sunitas contra os xiitas, seja dos muçulmanos contra os cristãos.

Francisco retornou ao tema principal em uma conversa extremamente franca (em italiano) com a mídia, no avião que o trouxe de volta a Roma. O mais extraordinário, entretanto, foi sua avaliação sincera do Aiatolá Sistani.

O Papa ressaltou: "O Aiatolá Sistani disse uma frase, espero lembrá-la de forma correta: 'Os homens ou são irmãos pela religião ou iguais pela criação'. Francisco vê a transposição dessa dualidade também como uma jornada cultural.

Ele descreveu o encontro com Sistani como portador de uma "mensagem universal", louvando o Grande Aiatolá como "um sábio" e "um homem de Deus": Ouvindo-o falar, não se pode deixar de notá-lo. Ele é uma pessoa que traz sabedoria e também prudência. Ele me disse que há mais de dez anos não recebe 'pessoas que vêm me visitar, mas com outros objetivos políticos'".

O Papa acrescentou: "Ele foi muito respeitoso, e senti-me honrado, mesmo nas saudações finais. Ele nunca se põe de pé, mas o fez para saudar-me, por duas vezes. Um homem humilde e sábio. Fez bem à minha alma, esse encontro". 

Um vislumbre dessa cordialidade foi revelado nesta imagem, não publicada pela mídia convencional do Ocidente - que, em grande medida, tentou manipular, sabotar, ignorar, apagar ou sectarizar o encontro, em geral sob camadas mal disfarçadas de propaganda do tipo "ameaça xiita". 

Eles assim agiram porque, essencialmente, Francisco e Sistani estavam enviando uma mensagem anti-guerra, anti-genocídio, anti-sectarismo e anti-ocupação, que não pode deixar de incorrer na ira dos suspeitos de sempre.

Houve algumas tentativas desesperadas de retratar o encontro como o Papa privilegiando a Najaf quietista em detrimento da Qom militante, no universo xiita - ou, em termos mais crus, Sistani de preferência ao Aiatolá Khamenei, do Irã. Isso é pura bobagem. Para um contexto mais aprofundado, ver o contraste entre Najaf e Qom em meu e-book Persian Miniatures, publicado pelo Asia Times.

O Papa, em data recente, escreveu ao Aiatolá Shirazi, do Irã. Teerã mantém um embaixador no Vaticano, e há anos vem colaborando em protocolos de pesquisa científica. Essa peregrinação, entretanto, tratou exclusivamente do Iraque. Ao contrário da mídia Ocidental, a do Eixo de Resistência (Irã, Iraque, Síria, Líbano) trouxe uma cobertura completíssima.

A fatwa crucial

Tive o privilégio de acompanhar os movimentos do Aiatolá Sistani desde inícios dos anos 2000 e, por várias vezes, visitei seu gabinete em Najaf.

Quando, em 2003, o bicho-papão du jour, Abu Musab al-Zarqawi, literalmente explodiu o venerado Aiatolá Muhammad Baqir al-Hakim em frente ao santuário Imam Ali, em Najaf, Sistani apelou para que não houvesse retaliação: a máquina de ocupação americana era forte demais, e Sistani percebeu os perigos do dividir para governar e de uma guerra sectária sunita-xiita.

Mas em 2004 ele, praticamente sozinho, derrotou moralmente o poderoso aparato de ocupação da medonha Autoridade Provisória de Coalizão, que então contemplava um banho de sangue para se livrar do incandescente clérigo Moqtada al-Sadr, então refugiado em Najaf.

Em 2014, Sistani publicou uma fatwa legitimando o uso de civis iraquianos na luta contra o ISIS/Daesh - principalmente porque os takfiris pretendiam atacar os quádruplos santuários xiitas no Iraque: Najaf, Karbala, Kazimiya e Samarra.

Foi portanto Sistani quem legitimou o nascimento de grupos defensivos armados que se uniram às Unidades de Mobilização Popular (UPM), ou Hashd a-Shaabi, mais tarde incorporadas ao Ministério da Defesa Iraquiano.

As UPMs eram - e continuam sendo - um grupo amplo, algumas delas mais próximas a Teerã que outras, trabalhando sob a supervisão estratégica do Major General Qassem Soleimani até seu assassinato causado por um drone americano no aeroporto de Bagdá em 3 de janeiro de 2020.

Nunca prometi um jardim de rosas

Apesar de toda a cordialidade entre eles, o encontro entre o Papa e Sistani talvez não tenha sido o proverbial jardim de rosas. Meu colega, Elijah Magnier, o principal repórter em todas as questões relativas ao Eixo da Resistência, confirmou alguns detalhes surpreendentes com suas fontes em Najaf:

Sayyed Sistani recusou ter seu próprio fotógrafo, e não quis que nenhum clérigo xiita, nem qualquer dos funcionários de seu gabinete, estivessem presentes na Rua Al-Rasoul, onde ele recebeu Sua Santidade o Papa... O Vaticano não emitiu qualquer declaração nem tomou qualquer posição clara de reconhecimento ou apoio aos xiitas que foram mortos quando resistiam ao ISIS e defendiam os cristãos da Mesopotâmia. Sayyed Sistani, portanto, não julgou necessário divulgar um "documento conjunto", como era desejo e intenção do Papa, como ele fez em Abu Dhabi, ao se encontrar com o Sheik de Al-Azhar.

Magnier, com razão, foca-se no comunicado subsequentemente emitido pelo gabinete de Sistani - em especial em sua votação nominal de Não, Não, Não... Cada Não é uma acusação ao Hegêmona.

Sistani denuncia o "cerco às populações" - incluindo as sanções. Ele nega que os iraquianos queiram a permanência das tropas dos Estados Unidos, e quando denuncia a "violência", ele se refere aos bombardeios americanos.

Adicionalmente, "Não à injustiça" é a mensagem de Sistani não apenas aos políticos de Bagdá - atolados em corrupção e omissos no fornecimento de serviços básicos e oportunidades de emprego - mas também à "linguagem bélica" dirigida ao Oriente Médio mais amplo, da Síria e Irã à Palestina.

Fontes em Roma confirmam que houve negociações que se prolongaram por meses, na tentativa de convencer Bagdá a normalizar suas relações com Israel. Uma "mensagem" foi enviada por intermédio do Vaticano. Sistani respondeu asperamente que não havia a menor possibilidade de normalização. O Vaticano permanece mudo.

Uma das razões dessa mudez é que a declaração do gabinete de Sistani deixa claro que o Vaticano não está fazendo o bastante para apoiar o Iraque. Segundo a fonte de Najaf citada por Magnier, entre 2014 e 2017 "O Vaticano manteve silêncio enquanto os xiitas perdiam milhares de homens que defendiam os cristãos (e outros iraquianos), e não receberam do Papa qualquer atenção, e nem ao menos uma declaração explícita de reconhecimento durante todos os anos que decorreram desde então".

A declaração do gabinete de Sistani refere-se explicitamente ao "desterro, às guerras, aos atos de violência, aos bloqueios econômicos, à ausência de justiça social aos quais o povo palestino se encontra exposto nos territórios ocupados".

Tradução: O Iraque apoia a causa palestina.

Uma coroa de espinhos

O encontro do catolicismo e do Islã xiita girou em torno de uma coroa de espinhos geopolíticos. Tomemos, por exemplo, o fato de que porta-vozes ou subalternos de um presidente católico dos Estados Unidos, bem como a mídia convencional americana, demonizam o inimigo da vez como sendo "milícias apoiadas pelo Irã", "milícias com apoio xiita", ou "milícias xiitas afiliadas ao Irã". 

Bobagem. O que vi ao me encontrar com alguns deles no Iraque, em 2017, foi que as brigadas das Unidades de Mobilização Popular são compostas não apenas por xiitas, mas por iraquianos de todas as religiões. Por exemplo, há um Conselho de Estudiosos do Sagrado Ribat de Maomé; o Conselho para a Luta contra o Pensamento Takfiri da Sunnah Fallujah e Anbar, e a Brigada Cristã Caldeia liderada por Rayan al-Kildani, que se encontrou com o Papa Francisco.

Para sermos justos, o Papa Francisco, em sua peregrinação, de fato condenou aqueles que instrumentalizam a religião para arquitetar guerras - em benefício de Israel, do latifúndio petrolífero saudita, do império e de todos os acima citados. Ele orou em uma igreja destruída pelo ISIS-Daesh.

Em um gesto de grande significado, o Papa Francisco entregou um rosário a al-Kildani, o chefe da milícia da Babilônia das Unidades de Mobilização Popular. O Papa considera al-Kildani nada menos que o salvador dos cristãos do Iraque. No entanto, al-Kildani é o único cristão do planeta a constar da lista de terroristas dos Estados Unidos.

Nunca é bastante lembrar que as UMP foram o alvo da excelente aventura bombardeira de Biden-Harris de 25-26 de fevereiro: militantes foram de fato bombardeados em território iraquiano, e não sírio. Anteriormente, o comandante geral de campo das UMPs era Abu al-Muhandis, que conheci em Bagdá em fins de 2017. Ele foi assassinado ao lado de Soleimani.

O Papa Francisco só foi capaz de embarcar em sua peregrinação iraquiana graças ao Hashd al-Shaabi - que foi de importância absolutamente crucial, atuando na linha de frente para salvar o Iraque da partição pelos takfiris e/ou de se tornar um (falso) califado.

Francisco, em sua peregrinação abraâmica, seguiu alguns dos passos do Profeta, especialmente em Ur, na Babilônia. Mas os ecos ressoam muito mais longe, chegando a al-Khalil (Hebron) na Palestina, e até a Síria e a Jordânia modernas.

Uma simples peregrinação não irá alterar os duros fatos no terreno mesopotâmio: 36% de desemprego (quase 50%  entre os jovens); 30% da população vivendo na pobreza; a ameaça iminente de intervenção da OTAN; a incapacidade do hegêmona de soltar o controle porque precisa desse império-de-bases entre o Mediterrâneo e o Oceano Índico; a corrupção política generalizada de uma oligarquia fortemente entrincheirada.

Francisco fez questão de deixar claro que esse foi apenas um "primeiro passo", que implica "riscos". O máximo que se pode esperar, nas atuais circunstâncias, é que o Papa e seu "humilde e sábio" interlocutor continuem afirmando que o dividir para governar e o atiçar as chamas das lutas religiosas, étnicas e comunitárias, só irá beneficiar - quem mais seria? - os suspeitos de sempre.

 

segunda-feira, 8 de março de 2021

Comitê das Bancárias(os) do PCdoB-DF reúne com a Presidenta da UBM, Laura Padilha ( veja o vídeo)

 www.mulher.pcdob.org.br - Entre no site da Conferência!

Viva o Dia Internacional da Mulher, Viva o 8 de Março, Vivas às mulheres! 

O Comitê das Bancárias(os) do PCdoB DF reúne hoje às 19h em videoconferência e debate nossa 3a. Conferência Nacional sobre a Emancipação da Mulher.

Nessa ocasião especial, fazemos uma reunião aberta para Bancários e Bancárias ouvirmos a Presidenta da UBM do DF, Laura Padilha, essa jovem liderança da cepa paraense, excelente, da raiz do Brasil e do Glorioso, herdeira de uma luta ancestral, Laura fala com esse brilho, essa força paraense e feminina que tão bem encarna.

Ao mesmo tempo, a reunIão foi pensada para ser a tribuna das mulheres, de seus sofrimentos, realizações e do vir-a-ser. Como é ser mulher bancária nos dias de hoje? Por que a Emancipação da Mulher é superior para a classe trabalhadora ao feminismo burguês? A evolução da luta das mulheres em tempos de pandemia, crise e de um governo machista e de extrema direita, muitos são os temas que exigem a voz das bancárias em defesa de suas vidas, de suas carreiras, em prol dos bancos públicos, em defesa do Brasil.

 Será uma bela maneira de homenagear a luta das mulheres e defender sua auto-organização, pois vivemos tempos muito tristes de ataques inadmíveis às mulheres, em especial no Brasil. 

Uma prévia para vocês:


sexta-feira, 5 de março de 2021

Discurso de Stalin em 1952 no 19o. Congresso do PCUS

 

Ary dos Santos - Não Passam Mais - Letra e recitar de Ary dos Santos - Vermelho, Avante

 Ary dos Santos - Não Passam Mais

Em nome dos nossos braços

em nome das nossas mãos

em nome de quantos passos

deram os nossos irmãos.



Em nome das ferramentas

que nos magoaram os dedos

das torturas das tormentas

das sevícias dos degredos.

Em nome daquele nome

que herdámos dos nossos pais

em nome da sua fome

dizemos: não passam mais!

 

E em nome dos milénios

de prisão adicionada

em nome de tantos génios

com a voz amordaçada

em nome dos camponeses

com a terra confiscada

em nome dos Portugueses

com a carne estilhaçada

em nome daqueles nomes

escarrados nos tribunais

dizemos que há outros nomes

que não passam nunca mais!

 

Em nome do que nós temos

em nome do que nós fomos

revolução que fizemos

democracia que somos

em nome da unidade

linda flor da classe operária

em nome da liberdade

flor imensa e proletária

em nome desta vontade

de sermos todos iguais

vamos dizer a verdade

dizendo: não passam mais!

 

Em nome de quantos corpos

nossos filhos forma feitos.

Em nome de quantos mortos

vivem nos nossos direitos.

Em nome de quantos vivos

dão mais vida à nossa voz

não mais seremos cativos:

o trabalho somos nós.

 

Por isso tornos enxadas

canetas frezas dedais

são as nossas barricadas

que dizem: não passam mais!

 

E em nome das conquistas

vindas nos ventos de Abril

reforma agrária controlo

operário no meio fabril

empresas que são do estado

porque o seu dono é o povo

em nome de lado a lado

termos feito um país novo.

 

Em nome da nossa frente

e dos nossos ideais

diante de toda a gente

dizemos: não passam mais!

 

Em nome do que passámos

não deixaremos passar

o patrão que ultrapassámos

e que nos quer trespassar.

E por onde a gente passa

nós passamos a palavra:

Cada rua cada praça

é o chão que o povo lavra.

Passaremos adiante

com passo firme e seguro.

O passado é já bastante

vamos passar ao futuro.

 

José Carlos Ary dos Santos em "O Sangue das Palavras

 

 


Domingos Lobo: Poeta da revolução portuguesa, Ary dos Santos - No Vermelho


José Carlos Ary dos Santos foi o mais consequente poeta da Revolução de Abril de 1975 em Portugal, o que esteve sempre, fraterno e cúmplice, na primeira linha do combate; o poeta generoso e lúcido, que mascarava, com o manto diáfano dos excessos, a sua íntima, profunda solidão.

Por Domingos Lobo*, no jornal Avante!

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