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sexta-feira, 28 de maio de 2021

Concepções Sindicais e Sindicalismo Classista



O que é sindicalismo classista?

Augusto César Petta - « CES Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho

PRINCÍPIOS DA CTB




UNIDADE

A busca da mais ampla unidade da classe trabalhadora é um princípio basilar da CTB. Nossa classe se compõe de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes categorias, ramos e setores da economia, jovens e idosos, ativos e aposentados,negros, brancos e índios, empregados e desempregados, formais e informais, rurais e urbanos, públicos e privados. A união das diferentes categorias contra a exploração capitalista quea todos aflige, no campo e nas cidades – independente da diversidade de profissões, qualificações, situação social, vínculo laboral, gênero, raça, etnia ou orientação sexual –, é fundamental para o êxito das lutas e conquista dos objetivos táticos e estratégicos do movimento sindical. Historicamente,a unicidade sindical, instituída em 1939 e consagrada no Artigo 8º da nossa Constituição, tem se revelado uma norma preciosa para garantir a unidade no âmbito dos sindicatos. A CTB defende com firmeza a unicidade, proclama a necessidade de união das centrais e combate, com vigor, todas as concepções e iniciativas que promovem a divisão das categorias e o desmembramento das bases.

DEMOCRACIA

A democracia, representativa e participativa, é essencial para a unidade e a luta da classe trabalhadora e do movimento sindical. A vida democrática que a CTB defende é fundamentada na participação ativa dos trabalhadores e trabalhadoras nos embates políticos e na vida das entidades sindicais,definição de suas reivindicações, mobilização para a luta, eleição dos órgãos dirigentes, revogação de mandatos, liberdade de expressão e debate, bem como o respeito às decisões da maioria. Uma democracia efetiva vem desde a base e busca transformar a todos e todas em sujeitos efetivos da história. Nossa central buscará ser exemplo e escola de democracia. Concebemos a democracia como um valor intrínseco à emancipação dos explorados, uma postura e uma forma de vida cotidiana, garantia do mais amplo processo de participação e diálogo. Entendemos, ao mesmo tempo, que democracia também pressupõe respeito e obediência às decisões e deliberações coletivas.

INDEPENDÊNCIA CLASSISTA

Defendemos a liberdade e autonomia sindical. Queremos nossas entidades livres e independentes dos patrões, governos, credos religiosos e partidos políticos na definição dos seus objetivos e campanhas e na luta pela transformação social. É fundamental que o reconhecimento de nossas entidades venha da representatividade efetiva e da confiança nelas depositadas pela base e pelo conjunto da classe trabalhadora.Não abriremos mão de direitos ou conquistas sociais arrancadas com muitas lutas ao longo da história. Lutaremos sempre para ampliar nossos direitos e melhorar a qualidade devida de todo o povo brasileiro.

SOLIDARIEDADE E INTERNACIONALISMO

A CTB deve promover os valores da solidariedade de classe, em âmbito local, nacional e internacional, em contraposição ao individualismo predatório propagado como suprema virtude pela concorrência capitalista e pelo neoliberalismo; deve contribuir para o fortalecimento e êxito das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, onde quer que se encontrem, contra todas as formas de injustiça, exploração e opressão social, política, econômica, religiosa ou cultural; deve fortalecer a idéia e a prática de que nossa força está na união e que somente unidos e organizados podemos enfrentar e vencer as forças neoliberais do capitalismo globalizado, imperialista, e seu neocolonialismo planetário.

A luta da classe trabalhadora é internacional. O capitalismo avança, constrói e destrói coisas belas em todos os continentes, mas revela-se insuportável e insustentável, pois promove um desenvolvimento desequilibrado, que em sua evolução histórica tem gerado guerra, morte, miséria, destruição, exclusão e injustiça econômica e social. Precisamos superar o corporativismo e unificar as lutas. Hoje mais que nunca é necessário fortalecer internacionalmente a luta daqueles que dependem única e exclusivamente de seu trabalho para sobreviver. É indispensável promover o internacionalismo proletário e defender projetos alternativos ao capitalismo e com orientação socialista.

ÉTICA NA POLÍTICA

A ação política deve ser guiada por princípios éticos,idéias e objetivos elevados. Nossa ética está embasada nos princípios do humanismo, do respeito e solidariedade entre os seres humanos e os povos, do compromisso com os interesses coletivos da classe trabalhadora, com a vida e o meio-ambiente, com a justiça social e com a paz e a fraternidade humana.

COMBATE À DISCRIMINAÇÃO

Não aceitamos os preconceitos, as discriminações e as intolerâncias, seja de cor, raça, etnia credo, origem, geração, classe social, gênero ou orientação sexual. Lutaremos com vigor por uma sociedade totalmente livre do machismo, da dominação de classe, do racismo e da homofobia, males estimulados pelo capitalismo que maculam e enfraquecem os ideais de igualdade e justiça social na sociedade brasileira.

EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES E DOS NEGROS

Compartilhamos a convicção de que sem a emancipaçãodas mulheres, dos negros e outros segmentos oprimidos e discriminados da nossa sociedade não se poderá falar em libertação da classe trabalhadora e tampouco será aberto o caminho para uma nação justa, fraterna e igualitária.

SOCIALISMO

A razão de ser do movimento sindical é a luta já secular contra a exploração do trabalho pelo capital. A vitória completa do sindicalismo pressupõe, por conseqüência, o fim da exploração e de todo tipo de discriminação, a prevalência daigualdade, da justiça social, da fraternidade e da paz entre asnações. Isto só virá com a derrocada do capitalismo e a construção de um novo sistema social, o socialismo, caminho obrigatório para a superação da divisão da sociedade em classes sociais e o fim das desigualdades sociais e da exploração dohomem pelo homem. É preciso reconhecer de forma crítica e autocrítica os erros cometidos nas diferentes experiências socialistas do século XX para não repeti-los no século XXI, ainda que seja também necessário frisar a grandiosa contribuiçã oda revolução soviética para o avanço dos direitos sociais em todo o mundo. Defendemos um socialismo fundado na soberania e na valorização da classe trabalhadora, com as cores e a cara do Brasil. Entendemos que a idéia e o projeto de uma sociedade justa, fraterna, sustentável e equilibrada, fazem parte do espírito humano e é o coroamento da luta contra todas as formas de opressão e exploração. A CTB defende outro modo de produção, uma forma de produção solidária, não predatória, não consumista e não centrada nos valores do individualismo, concorrência, anarquia e destruição característicos da sociedade capitalista. Lutamos por uma sociedade ética, fraterna e a caminho de um mundo mais justo e sóbrio para todo o planeta e a humanidade. O socialismo é o ideal maior da classe trabalhadora.

DEFESA DOS DIREITOS SOCIAIS

Frente à feroz ofensiva do capitalismo neoliberal contraos direitos conquistados pela classe trabalhadora durante os últimos séculos, é indispensável defender com energia a manutenção e ampliação dos direitos sociais; o efetivo direito ao trabalho, à saúde, à segurança, à livre escolha da profissão; o livre, inalienável e irrestrito direito de greve; a redução progressiva da jornada de trabalho; a universalização dos direitos sociais e dos serviços públicos; o aumento da participação dos salários na renda nacional; a remuneração digna e igualitária.A CBT não aceita nenhum direito a menos, só direitos a mais.

TRANSPARÊNCIA

Os sindicatos e entidades sociais e populares não são empresas. Seu objetivo central não é o lucro e sim a luta por igualdade e justiça econômica, política e social. Nossos sindicatos precisam estimular a reeducação dos corpos, almas e mentalidades, contribuindo para a preparação dos novos homens e das novas mulheres para uma nova sociedade. Temos que desenvolver em nossa central, confederações, federações e sindicatos espaços de participação e de prestação de contas. Devemos zelar pela transparência, ética, seriedade, competência e profissionalismo. Nossas organizações devem ser exemplos de dignidade, fraternidade e solidariedade, individual e de classe.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Vivemos hoje uma séria e profunda crise ambiental, que coloca em risco a sobrevivência do planeta e da civilização humana. Defendemos uma sociedade que valorize o ser humano, a natureza e a vida. Mais que nunca, hoje é fundamental construir um amplo movimento ambientalista de cunho socialista e anticapitalista. Um movimento de defesa da vida e contra a forma de desenvolvimento degradante e excludente resultante da livre expansão do capital. A CTB, enquanto Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil, luta poruma nação livre, soberana, próspera, justa, solidária, sustentável, democrática e progressista.

EDUCAÇÃO

A CTB concederá especial atenção à educação e formação da classe trabalhadora, indispensável à elevação da consciência social e consolidação de uma identidade classista, essencial à luta por uma sociedade sem explorados e/ou exploradores.


 

O Anarquismo - Concepções Sindicais - Centro de Estudos Sindicais

Concepções Sindicais - O Tradeunismo

ALTAMIRO BORGES

O trotskismo, corrente política contra-revolucionária (1984)

 João Amazonas

 

 

 

terça-feira, 16 de março de 2021

O tripé torto e as nossas desventuras - Paulo Vinícius da Silva




A Bandeira do Meu Partido - Jorge Mautner

A bandeira do meu partido
é vermelha
de um sonho antigo
cor da hora que se levanta
levanta agora, levanta aurora!

Leva a esperança, minha bandeira
tu és criança a vida inteira
toda vermelha, sem uma listra
minha bandeira, que é socialista!

Estandarte puro,
da nova era
que todo mundo espera, espera
coração lindo, no céu flutuando
te amo sorrindo, te amo cantando!

Mas a bandeira do meu Partido
vem entrelaçada com outra bandeira
a mais bela, a primeira
verde-amarela, a bandeira brasileira.


O PCdoB manteve o legado da participação comunista na democracia brasileira. Mesmo perseguido até a morte, com os que tombaram no Araguaia, na luta contra a Ditadura Terrorista, no campo e na cidade, mesmo assim, não feneceu. Por que? Necessidade histórica. Em 1985 foi um dos partícipes à mesa da conciliação nacional que culminou na Constituição de 1988. Cresceu enquanto o PCB definhou, e reafirmou-se como uma legenda influente e necessária à vida política nacional. Destaca-se por representar a classe trabalhadora, as mulheres, os negros e negras, sendo uma sigla campeã de produtividade, seja nos mandatos, seja no executivo. Na Câmara está presente desde 1979, mantendo a presença operária, desde o metalúrgico Aurélio Peres; teve figuras como o metalúrgico cetebista gaúcho Assis Melo, e tem o influente deputado, o operário têxtil Daniel Almeida, cumprindo essa importante representação.

Só a partir da década de 1990 iniciam-se, tímidas ainda, as tentativas de lançar-se ao Executivo. O PCdoB hesitou em fazê-lo, por receio do que significaria "administrar" o capitalismo. As tribunas parlamentares foram seu espaço preferencial. Haroldo Lima, Aldo Arantes, Sérgio Miranda foram amplamente reconhecidos, e mais recentemente, tivemos um protagonismo renovado por mulheres como Jô, Jandira, Perpétua, Manu, Marcivânia, Alice e Vanessa. Tamanha qualidade expressa esse êxito, na representação e na apresentação de inovações legislativas que são patrimônio da democracia brasileira.

A Anistia, a legalização dos partidos de esquerda, o fim da intervenção em centenas de sindicatos, a Lei do Grêmio Livre, a Meia Entrada Estudantil, o apoio a Tancredo neves no Colégio Eleitoral, a Constituinte, O Voto aos 16, a Constituição Cidadã e a proposta da Frente em torno do nome de Lula, em 1989, o Fora Collor que lideramos; são só alguns exemplos que colocam a importância dessa ação multifacetada que trouxe conquistas para o Brasil e a Democracia.

Na resistência ao Neoliberalismo, não foi menor o nosso papel. Reafirmamos o socialismo e o símbolo, a foice e o martelo, o vermelho e o amarelo, e fomos à luta. A unidade da esquerda seguiu a presidir nossos esforços, na construção do Fórum Nacional de Lutas que uniu ação de massas e institucional, e ganhou o debate contra o neoliberalismo. A Marcha dos 100 mil a Brasília contra FHC e o Plebiscito sobre a ALCA, e a luta contra as privatizações marcaram essa iniciativa. Essa base permitiu a vitória de Lula em 2002, tendo este contado com a solidariedade e o apoio do PCdoB desde 1989.

A partir de então, o Partido assumiu uma liderança muito maior do que o número de seus lugares. A habilidade e a retidão de quadros compromissados com o povo desenhou políticas públicas fundamentais. Deu um impulso inimaginável ao Esporte Brasileiro como políticas públicas, mudou a cara das cidades, plantando praças esportivas para a Terceira Idade, criando espaços públicos para o fruir da população, com quadras, pistas de skate, centros esportivos e culturais, além do desenho da Política Nacional do Esporte e da realização dos grandes eventos esportivos, que foram objeto de todo tipo de interesse e sabotagem. Os pontos de Cultura vieram do Do-In Cultural de Gil e de Célio Turino, mas também da UNE e da UBES e dos CUCAS. A política de assistência estudantil, cotas, ampliação do ensino técnico, PROUNI, PRONATEC e expansão do ensino superior público teve a juventude como protagonista, em especial pela nossa ação no movimento estudantil, quando pontificam lideranças como Manuela, Orlando Silva, Gustavo Petta, Augusto Vasconcelos,  Wadson Ribeiro, num movimento de ideia, lei e luta que virou conquista porque a filha do pedreiro agora podia virar doutora, como cantava e construiu a UNE e a UBES. Eu estava lá.

As Conferências Nacionais de Politica Pública e os Conselhos tentaram fazer o povo influir no Estado, usando as sendas da participação popular que inscrevemos na CF 88, redesenhando as políticas públicas. A teoria e a liderança petista apostava na ampliação da democracia por esta via. Nossa adesão ou contraponto nesses espaços foi importante para ampliarmos a influência do povo. Mas em muitos aspectos é preciso discordar das ilusões com esta transição pelo Estado através de políticas públicas, sem romper com a política macroeconômica neoliberal. Seu limite é, como vimos, a luta de classes. Como a grita demonstrou, essa via "pacífica" é tão interditada quanto qualquer outra, e o primado da luta de classes mostra que a institucionalização da democracia brasileira padece de defeitos que a envenenam e a podem matar.

É o conjunto de sequelas que advém da nossa formação social como Nação que está à mostra. Bolsonaro é o signo dessa crise, não é objeto do acaso. Foi ungido pelo mercado. Deram um jeitinho e foi inclusive aprovado pelas urnas eletrônicas que, ingrato, critica. Foi entronizado na Casa Branca com o então Presidente Trump. Abençoaram-no os Bispos da teologia da prosperidade, e aqueles que dizem defender as famílias quando atacam as mulheres e a comunidade LGBTQ, negando-lhes o estatuto básico da igualdade humana, maior mensagem do Cristo: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Nosso passado escravista racista, de matar índio e derrubar florestas, grita em nossos ouvidos como em nossas narinas chega a lembrança de falta de moradia e saneamento básico. O lucro do rentismo das finanças, mesmo que às custas da privataria, é a creche que falta, a escola sem estrutura, a dívida estourada e impagável, é a privatização do SUS, é o lucro privado em saúde em meio à pandemia.

A Casa Grande resta em nossas almas quando exercitamos mais ou menos frequentemente a indiferença com o outro ser humano, lição que aprendemos com a Escravidão. Foi ela que plantou em nossa alma a árvore da indiferença com que vemos a desigualdade praticada diariamente. Há humanos e menos humanos, cidadãos e cidadãs de primeira e segunda classe por toda a parte. É essa estrutura que, na ponta, permite o assassinato impune de milhares de negros e negras, seu encarceramento e empobrecimento sistemático.

Afora isso, é o próprio Capitalismo que afirma as tendências inexoráveis de Concentração de Renda, Oligopolização e Rentismo Parasitário. O "mercado" é, em verdade, a ditadura dos monopólios. 1% da humanidade detém mais riqueza do que os 99% restantes.

Esse é o biombo que limita as mudanças no Brasil. A despeito disso, na relação com o Congresso, colecionamos vitórias quando esteve a nosso cargo o diálogo com o legislativo. O PCdoB já tinha larga trajetória de negociações delicadas e complexas, mantendo a correção, costurando e pressionando, tendo Aldo Rebelo - então em nome do PCdoB - defendido Lula da tentativa de Golpe de 2005. As ruas mobilizadas por estudantes, trabalhadores e movimentos de moradia no dia 16 de Agosto de 2005, em Brasília, e a ação ampla e radical de Aldo detiveram naquele momento as forças que já queriam ganhar no tapetão.

É nesse contexto, analisando autocriticamente a crise do mensalão, que o Partido avalia e se auto-avalia. Reconhece no 11o. Congresso, em outubro de 2005, as dificuldades de romper o cerco neoliberal que constrangeu o primeiro governo Lula, desmascara a cantilena "ética" da oposição golpista e expõe os limites da política macroeconômica do governo. Entre avanços e recuos, reconhece que vale o jogo e a participação, apontando para um tripé de luta político/institucional/eleitoral, luta de ideias e luta de massas como equação a dar a justeza da ação do Partido em meio à bruma do período. Dizia então o PCdoB:

"a afirmação do projeto nacional de desenvolvimento alternativo depende em grande medida da elevação da organização e da mobilização ampla e unitária do movimento social, que possa assim resistir aos entraves ao progresso social e aos limites para a soberania. Esse é o ator que precisa jogar seu papel de força-motriz principal no processo transformador atual. Por isso, o Partido deve elevar seu nível de intervenção no movimento social, principalmente entre as camadas dos trabalhadores, reforçar seu trabalho entre a juventude e desenvolver sua atividade entre as mulheres, a intelectualidade e todos os contingentes populares."

Seu posicionamento desenvolvimentista, contra a política de juros herdada do Plano Real foi afirmado desde sempre. Nenhum nome seu foi alvejado com êxito pela sanha lavajatista, embora mirados.

Contudo, olhando para trás e para o hoje, é evidente para mim que o peso do Estado e do "Mercado", afora a "Mídia"e o Judiciário foram de tal modo eficazes como obstáculos, que a via institucional foi supervalorizada, ocasionando reveses que não se explicam. Hoje, para muitos, a derrota na via institucional é o fim do Partido. Não foi, não é e não será. O que se espera do CC é que tenha luzes para reafirmar o Partido superando a cláusula de barreira. Que ela seja insuperável é um pressuposto inaceitável. 
Um tripé torto


Cabe a pergunta: Como avançamos mais do que nunca na via institucional e perdemos bases populares? Como crescemos nos governos e no legislativo e perdemos conexão exatamente com as bases que representamos? Em que medida o tripé luta de massas, de ideias e eleitoral foi desequilibrado? em que medida perdemos apoio no povo e fomos derrotados na luta e ideias, exatamente quando se esperava que lograríamos o apoio do povo para levar adiante às mudanças?  Para além das ações dos adversários e aliados, em que medida não fomos reconhecidos pelo nosso próprio povo? Para mim, a ênfase na política institucional pesou muito mais que o nosso investimento na luta de ideias e na luta de massas. Ou será que não?

Considero inexplicados os reveses eleitorais do PCdoB enquanto ocupou crescentes, exponenciais espaços institucionais. Aí está o busílis. Esse período de 35 anos é hoje o maior legado de participação comunista na vida democrática e é um critério da qualidade da democracia. Não é à toa que padecemos hoje do recrudescimento do anticomunismo, assim como de armadilhas como uns apressadinhos que deram adeus a Lênin. Todos entramos sabendo que os e as comunistas são exatamente quem irá até o fim na defesa do Brasil e da Classe Trabalhadora. 

Por outro lado, há que se avaliar a não renovação das lideranças eleitorais, as características próprias de mandatos parlamentares e do exercício do executivo com limitantes tamanhos e a política de concentração eleitoral , marca do PCdoB em todos os Estados, que deveria ser analisada. O próprio projeto de ligação com o povo, que tem na UJS e na CTB as suas marcas, padece de defeitos já mapeados e não sanados. A juventude segue apenas estudantil sem se ligar à classe trabalhadora; os sindicalistas, no topo da pirâmide invertida, sentem a inexorável solidão que não os elege representantes da classe trabalhadora. O não cumprimento das deliberações do 11o. Congresso, mais que gesto consciente, parece-me ter sido consequência da própria vida, da luta, de nossas forças e fraquezas. Não acredito que mais pragmatismo, mais institucionalismo, mais do mesmo, seja a saída para sermos pelo povo reconhecidos. Não foi o nosso símbolo que construiu nossas derrotas, do mesmo modo que não impediu nossas vitórias. 

A foice e o martelo foi baixada na luta pelas Diretas por vetos dos "aliados". Por uns dias, baixamos, depois levantamos de novo. Mas é preciso reconhecer triste, que o símbolo foi ocultado na maior parte das vezes, seja pela nossa defesa da unidade, seja por defensismo eleitoral. Não há uma campanha sistemática em defesa da história, do símbolo, que permeie nossa política eleitoral, lamentavelmente. Recentemente, nem no logo dos 99 anos do aniversário do PCdoB coube a Foice e o Martelo. 

Ora, a quem isso ganha? Se ao ganharmos, perdermos o Partido Comunista, que teremos ganho? Parece-me que o ataque ao símbolo é a ponta de um iceberg. Não é só o PT que precisa de autocrítica, todos precisamos. Certamente, não é do socialismo, da foice e martelo e do comunismo que precisamos fazer autocrítica. E, com certeza, não será um indivíduo milagroso - Lula, Dino, quem quer que seja - ou uma só mudança - que permitirá acharmos a saída. Menos pragmatismo e mais compromisso, mais História e praxis, saber o que é importante, influenciar no centro dos acontecimentos políticos, entender que a luta é nas ruas, nas ideias e nas eleições, mas sem ilusões com caminhos errados já trilhados no passado. 

Talvez seja duro demais admitir, mas falta autocrítica em reconhecer que houve uma perda de conexão com o povo causada exatamente pela hipertrofia da via institucional em meio à crise da nossa principal aposta, que foi o Lula. A crise ética que o PT viveu também causou-nos enorme dano. Há um problema geracional, a despeito dos avanços da representação feminina e de negros e negras em nosso Partido. Há um problema de falta de ligação com o povo. E não será dobrando a aposta no reformismo, no liquidacionismo e na diluição que sanaremos esses problemas, muito ao contrário. 

Que o  Centenário do PCdoB seja para apontar o futuro socialista, e jamais palco de ataques ou divisão do Partido. Jamais aceitarei o fim do PCdoB ou sua descaracterização. Defender sua participação eleitoral é central, é dever de todo(a) militante. Minha posição completa agora 30 anos em maio, da minha filiação ao Glorioso. Partido Comunista não é tático. Só deixa de existir com a consecução do comunismo. Até lá, a aliança dos trabalhadores da cidade e do campo é o primado, foi assim que ingressamos, sob os auspícios da foice e do martelo. Foi assim que Dino se elegeu, foi assim que Aldo salvou Lula do impeachment, Manuela sempre ergueu esta bandeira, foi assim no Araguaia, foi assim nas torturas, foi assim no Fora Collor. É assim e seguirá sendo nosso gesto rebelde cotidiano de fazer tremular nas praças, nas ruas e no coração, os dois estandartes: a bandeira do Brasil, verde e amarela; e ao lado dela, o rubro e ouro da Foice e do Martelo. Na verdade, pelo mau uso das cores nacionais, inclusive, devemos compreender que não basta apenas a bandeira nacional, aliás nunca bastou, porque devemos defender a democracia e o direito de nossa presença quase centenária na vida nacional, assim como a perspectiva socialista. O Partido Comunista do Brasil é uma necessidade histórica. 

Creio exista um problema de superestimação da "via institucional" no PCdoB, e vejo as distorções e erros que tal política causou . Longe do equilíbrio preconizado como caminho, quando surgiu a definição das três frentes de ação e acumulação de forças - luta político/institucional/eleitoral, luta de ideias, luta de massas - vige a dura realidade da tensão crescente entre as vias, e a prioridade natural daquela que conta com poderes que naturalmente se colocam como rivais ou guias do coletivo, compondo muitas vezes centros de poder paralelo. Assim, muitas vezes ocorre com o "mandato", o sindicato ou a Prefeitura, a Secretaria, etc. Institui-se aí uma supremacia difícil de contornar, um desnível do investimento dedicado às três magnas tarefas - luta de ideias, luta de massas - luta institucional/eleitoral.

A comemoração dos 99 anos do Partido Comunista do Brasil é de todos aqueles e aquelas que sustém a gloriosa e solidária bandeira do vermelho, da vida e do sangue do povo derramado pela ganância dos capitalistas; a foice dos camponeses, o martelo dos primeiros operários metalúrgicos. É esse o símbolo que tremula nos céus da China em meio às mais gloriosas batalhas contra a Covid, e é reafirmado por Xi Jinping, porque significa a verdadeira perspectiva socialista.

Enquanto isso, o capitalismo leva à morte, à degradação do planeta, à concentração inacreditável e imoral de riquezas, um regime de oligopólios. O Socialismo é a esperança da humanidade, e afirma sua superioridade contra a barbárie. A salvação da humanidade é exatamente o socialismo e, no futuro, a harmonia universal, a paz, o fim das diferenças de classes, o fim de tantas chagas do presente, a sociedade futura, o comunismo.

Estão errados aqueles que sugerem ou agem para tirar de nós a foice e o martelo e o vermelho e o amarelo. Aceito o verde, no máximo. No resto, vou lutar contra isso até o fim (ou o renascimento). 

A lição de João Amazonas foi precisamente essa: aqui nem tem desistência nem tem descanso militante. No PCdoB manda a sua militância organizada. Longe de coibir, o centralismo democrático é a nossa força, nossa voz, é o poder da militância. Claro que o institucional é importante, mas somos acima de tudo o partido da militância e da classe trabalhadora. E é desse lugar que me posicionarei, contrário à proposição de o Partido parar de se apresentar sob seu símbolo, número e ideias ao povo brasileiro, conquista anterior à Constituição de 1988, quando o Presidente José Sarney, dentre os compromissos democráticos, contribuiu para a legalização do PCB e do PCdoB em 1985. Vender essa derrota como avanço exige muito malabarismo verbal, mas eu não caio nessa.

Mais do que de uma antecipação, precisamos é de um bom e bem conversado congresso, que dê voz à militância, aos quadros, e não apenas um espaço de atos políticos e institucionais que ocupam o centro, deixando o debate das polêmicas em último plano. Até pela pandemia e pela tragédia, precisamos de tempo e de debate franco, debater as razões da falência da tática eleitoral que inauguramos com a eleição de Lula em 2002. Crescemos na institucionalização como nunca, e perdemos votos para Federal e estamos ameaçados pela cláusula de barreira. Na verdade, o problema é faltar a identidade que poderia captar muito mais votos que conquistamos, pois o Socialismo tem apoio muito maior do que necessitamos para vencer a Cláusula de Barreira. O socialismo é o presente e o futuro, e o Partido Comunista existe, não por concessão das elites, e sim por necessidade histórica.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sem apoio tucano, pedido de criação da CPI do HSBC é protocolado no Senado - Najla Passos - Carta Maior


Objetivo é saber quem são os brasileiros que enviaram cerca de R$ 20 bilhões à Suíça, em grande parte sem o conhecimento do fisco

O senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AM) protocolou na mesa diretora do Senado, nesta quinta (26), o pedido de criação da CPI do HSBC para investigar o “Suiçalão”, o escândalo de corrupção internacional que envolve o banco HSBC de Genebra e cidadãos de mais de 100 países, inclusive do Brasil, em crimes de evasão fiscal e lavagem de dinheiro.

No total, 33 senadores subscreviam o pedido, seis a mais do que o mínimo necessário exigido pelo regimento da casa para criação de uma CPI. Entre eles, uma maioria governista, mas também, além de Rodrigues, nomes vinculados a outros partidos da oposição, como o PSB e até o DEM.

Ausência explícita foi a dos representantes da bancada do PSDB de Aécio Neves: nenhum dos tucanos que bradam diariamente contra a corrupção subscreve o documento. Agora, o pedido será examinado pela mesa diretora, que fará a conferência das assinaturas. Se aprovado, os partidos passam a indicar seus 11 titulares e seis suplentes.

Batizado de ‘SwissLeak’ pela imprensa internacional, o escândalo envolve o que autoridades monetárias internacionais estimam em US$ 200 bilhões em depósitos sigilosos em cerca de 100 mil contas bancárias do HSBC. O Brasil é o quarto país no ranking de número de clientes listados e o nono em volume de dinheiro.

De acordo com o autor da denúncia, o franco-italiano Hervé Falciani, especialista em informática do HSBC, entre os correntistas estão 8.667 brasileiros, responsáveis por 6.606 contas que movimentam, entre 2006 e 2007, cerca de US$ 7 bilhões que podem ter sido ocultados do fisco brasileiro.

“Em moeda nacional, isso representa uma quantia equivalente a R$ 20 bilhões, exatamente o que o Governo Dilma pretende arrecadar com o pacote de maldades que resume o ajuste fiscal desenhado pelo ortodoxo ministro da Fazenda, Joaquim Levy”, comparou Randolfe em pronunciamento no plenário do Sendo, na quarta (25).

Cortina de silêncio

Na sua fala, o senador lembrou que este escândalo já é apontado por jornais estrangeiros, como o Financial Times, como um dos maiores do mundo. Entretanto, no Brasil, não conquistou as manchetes dos jornais. Por isso, fez um apelo para que os jornalistas e entidades que o representam tentam furar o bloqueio da mídia monopolista em prol do benefício público.

Randolfe observou que o Jornal Nacional, da Rede Globo, ainda é a única fonte de informação para milhões de brasileiros. Entretanto, no sábado (21), quando o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, anunciou que investigaria o esquema do HSBC, a imprensa não deu importância ao caso.

“Esta decisão mereceu do JN daquela noite uma nota seca, de apenas três frases e 59 palavras, lidas em 25 segundos pela apresentadora do telejornal, sem qualquer imagem ou destaque”, apontou Randolfe.

Embora os depósitos de brasileiros no HSBC Suíço representem mais de 40 vezes os valores movimentados no chamado “Mensalão”, que a mesma imprensa insistia em anunciar como o maior caso de corrupção da história, prevalece a cortina de silêncio em torno da instituição bancária que é uma das maiores anunciantes do país.

Mesmo a listagem com os nove mil brasileiros que mantinham contas secretas no HSBC Suíço ainda não é de conhecimento público. Para Randolfe, é sinal evidente de que tem muita gente importante envolvida. A apuração está sendo feita pelo Consórcio Internacional de Jornalismo Investigativo (ICIJ), uma rede global que reúne 185 profissionais de 65 países, e teve acesso aos dados do HSBC.
No Brasil, embora outros jornalistas façam parte da rede, Fernando Rodrigues, blogueiro do Uol, conquistou exclusividade na divulgação dos dados, que vem liberando à conta gotas. No seu blog, ele disse que a lista completa nunca será divulgada, pois pode significar invasão de privacidade dos cidadãos que abriram contas no HSBC suíço de boa fé.

Randolfe contesta. Para ele, a maioria dos nomes listados pelo HSBC até pode ter realizado depósitos seguindo os trâmites da lei, mas o total desconhecimento da lista não permite dirimir as dúvidas cada vez maiores que nivelam inocentes e culpados.

“Este caso do HSBC é importante demais para ficar restrito à decisão pessoal, privativa, seletiva, monocrática de um único jornalista, de um só blog, de apenas um veículo poderoso da internet. O dinheiro sonegado e subtraído ao Brasil e aos brasileiros não pode ser envolvido pelo segredo, pelo sigilo, pela impunidade que todos combatemos”, ressaltou.

Sonegação de impostos: Ricos brasileiros têm 4ª maior fortuna do mundo em paraísos fiscais - Limpinho & Cheiroso

 Sonegação de impostos: Ricos brasileiros têm 4ª maior fortuna do mundo em paraísos fiscais - Limpinho & Cheiroso



Rodrigo Pinto, via BBC Brasil

Os super-ricos brasileiros detêm o equivalente a um terço do Produto Interno Bruto, a soma de todas as riquezas produzidas do País em um ano, em contas em paraísos fiscais, livres de tributação. Trata-se da quarta maior quantia do mundo depositada nesta modalidade de conta bancária.

A informação foi revelada no domingo, dia 28, por um estudo inédito, que pela primeira vez chegou a valores depositados nas chamadas contas offshore, sobre as quais as autoridades tributárias dos países não têm como cobrar impostos.

O documento The price of offshore revisited, escrito por James Henry, ex-economista-chefe da consultoria McKinsey, e encomendado pela Tax Justice Network, mostra que os super-ricos brasileiros somaram até 2010 cerca de US$520 bilhões (ou mais de R$1 trilhão) em paraísos fiscais.

O estudo cruzou dados do Banco de Compensações Internacionais, do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e de governos nacionais para chegar a valores considerados pelo autor.

Em 2010, o Produto Interno Bruto Brasileiro somou cerca de R$3,6 trilhões.

“Enorme buraco negro”

O relatório destaca o impacto sobre as economias dos 139 países mais desenvolvidos da movimentação de dinheiro enviado a paraísos fiscais.

Henry estima que, desde os anos de 1970 até 2010, os cidadãos mais ricos desses 139 países aumentaram de US$7,3 trilhões para US$9,3 trilhões a “riqueza offshore não registrada” para fins de tributação.

A riqueza privada offshore representa “um enorme buraco negro na economia mundial”, disse o autor do estudo.

“Instituições como Bank of America, Goldman Sachs, JP Morgan e Citibank vêm oferecendo este serviço”

John Christensen, diretor Tax Justice Network

Na América Latina, chama a atenção o fato de, além do Brasil, países como México, Argentina e Venezuela aparecerem entre os 20 que mais enviaram recursos a paraísos fiscais.

John Christensen, diretor da Tax Justice Network, organização que combate os paraísos fiscais e que encomendou o estudo, afirmou à BBC Brasil que países exportadores de riquezas minerais seguem um padrão. Segundo ele, elites locais vêm sendo abordadas há décadas por bancos, principalmente norte-americanos, para enviarem seus recursos ao exterior.

“Instituições como Bank of America, Goldman Sachs, JP Morgan e Citibank vêm oferecendo este serviço. Como o governo norte-americano não compartilha informações tributárias, fica muito difícil para estes países chegar aos donos destas contas e taxar os recursos”, afirma.

“Isso aumentou muito nos anos de 1970, durante as ditaduras”, observa.

Quem envia

Segundo o diretor da Tax Justice Network, além dos acionistas de empresas dos setores exportadores de minerais (mineração e petróleo), os segmentos farmacêutico, de comunicações e de transportes estão entre os que mais remetem recursos para paraísos fiscais.

“As elites fazem muito barulho sobre os impostos cobrados delas, mas não gostam de pagar impostos”, afirma Christensen. “No caso do Brasil, quando vejo os ricos brasileiros reclamando de impostos, só posso crer que estejam brincando. Porque eles remetem dinheiro para paraísos fiscais há muito tempo.”

Christensen afirma que no caso de México, Venezuela e Argentina, tratados bilaterais como o Nafta (tratado de livre comércio EUA-México) e a ação dos bancos norte-americanos fizeram os valores escondidos no exterior subirem vertiginosamente desde os anos de 1970, embora “este seja um fenômeno de mais de meio século”.

O diretor da Tax Justice Network destaca ainda que há enormes recursos de países africanos em contas offshore.

Governo prepara pacote para taxação de grandes fortunas, diz Gleisi - Portal Vermelho


O governo da presidenta Dilma Rousseff prepara um pacote para taxar as grandes fortunas. A medida, que é uma reivindicação das centrais sindicais e movimentos sociais com alternativa para conter as contas públicas e não sacrificar os trabalhadores, foi confirmada pelo ministro Nelson Barbosa (Planejamento), na quarta-feira (25), em uma reunião no Planalto com a bancada do PT no Senado.



Gleisi afirmou que o ministro Nelson Barbosa confirmou a medida em reunião com senadores

A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), em entrevista à Folha de S. Paulo, afirma que Barbosa disse que haverá ação sobre os mais ricos. “Nós colocamos que essas medidas eram importantes, que achávamos que deviam ser feitas algumas adequações [nos ajustes já anunciados], mas que seria muito importante que tivéssemos também medidas que atingissem quem tem renda maior na sociedade, seja na área de impostos ou outras medidas”, afirmou a senadora.

Segundo ela, Nelson Barbosa afirmou aos senadores que o governo está “estudando e vai haver medidas que vão atingir o andar de cima”.

Reforçando o compromisso de amplo diálogo, os ministros têm mantido as conversas com diversos setores para ouvir suas propostas e reivindicações. Além de Barbosa, o Planalto escalou mais quatro ministros para conversar com os senadores na reunião: Carlos Gabas (Previdência), Pepe Vargas (Relações Institucionais), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência) e Manoel Dias (Trabalho).

Com informações de agências

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Os trabalhadores e luta de classe em curso - Eduardo Navarro - Portal CTB

Portal CTB
eduardo navarro1
Imaginem nas olimpíadas, em especial na corrida de obstáculos, onde são colocadas barreiras para dificultar a passagem de o corredor atingir a faixa de chegada. Utilizo desta figura de linguagem para pensar que na sociedade brasileira, como em toda sociedade capitalista, são colocadas barreiras para dificultar à classe trabalhadora a se constituir como classe.

Estas barreiras são deliberadamente colocadas para impedir que os trabalhadores e trabalhadoras tomem consciência de que são iguais aos outros trabalhadores e que possuem os mesmos interesses comuns aos seus pares, portanto estão vinculados à mesma classe social: a classe daqueles que são produtores de toda riqueza, ao passo que são, também, excluídos desta mesma riqueza. Ao mesmo tempo em que conformam a classe trabalhadora, estes se diferenciam da classe possuidora dos meios de produção, que tem interesses irreconciliáveis aos dos trabalhadores.

Está “corrida de obstáculo”, ou o embotamento desta consciência de pertencimento a uma determinada classe, vem embrulhada em diversas “mascaras e disfarces” com o intuito de não aparentar tal propósito, ou seja, age como se fosse algo natural. Estas “mascaras” são estabelecidas por diversos meios e métodos, os principais são os meios de comunicação, reforçados pela família e pela religião. Chega-se ao ponto de o trabalhador ou trabalhadora chamar seu patrão de colega, como se a ocupação do mesmo espaço durante a jornada de trabalho apagasse a divisão de classe existente entre estes. Não custa lembrar: o interesse imediato do trabalhador é vender sua força de trabalho para suprir suas necessidades básicas, a do patrão é auferir o máximo de lucro.

Em função deste bombardeio, já não raciocinamos com nossa própria cabeça. Pensamos conforme nos estabelece a Globo & Cia, que nos inculca valores referentes à moda, à gastronomia, ao lazer, à relações afetivas, ao nosso futuro, e à política. Como devemos agir ou nos comportar, o que devemos fazer ou deixar de fazer, de quem devemos gostar ou deixar de gostar. A grande imprensa dita, cotidianamente, nossas vidas.

Faço esta breve digressão sobre o mundo do trabalho em função de que na atualidade diversos interesses contrários ao nosso agrupamento povoam o cenário político e têm levado uma boa parcela de trabalhadores e trabalhadoras, muitos inconscientemente, a defender o projeto de classe patronal, que na atualidade é a banca internacional. E o pior, colocando-se contrário ao projeto democrático-popular, este com viés de classe.

A eleição de 2014, principalmente o 2º turno, foi uma demonstração clara dos contornos destes dois projetos: o consorcio oposicionista, representado por Aécio, com forte vinculação com o capital financeiro internacional, e o representado por Dilma, de caráter democrático-popular, comprometido com a manutenção do nível de emprego, dos programas sociais, da inclusão de amplas parcelas da população aos serviços públicos, principalmente a educação e a saúde.

Como o processo eleitoral foi expressão da luta de classe, a classe derrotada não aceitou o resultado das urnas, proclamado no dia 26 de outubro, e tem conduzido a vida pública do país como se esta data ainda não tivesse se encerrado, na tentativa de virar o jogo após o apito do juiz. Que estes senhores ajam assim não é de se estranhar, apesar de ser patologicamente doentio, fazer o quê? Mas, é surpreendente que boa parte da população embarque neste delírio golpista. Nestes quase quatro meses já se tentou de tudo: ofensas aos nordestinos; passeatas pró-golpe militar; pedido de rejeição das contas eleitorais de Dilma; eleição do “baixo clero” para presidir o Congresso Nacional; orquestração jurídica pedindo o impeachment; desgaste diário do governo no noticiário.

Porém, no que a burguesia – com seus órgãos oficiais, a imprensa golpista – tem concentrado toda sua força é no desgaste da Petrobras. A Estatal tem sido alvo de uma sanha demolidora que nenhuma empresa privada suportaria. O ataque é diário, horas a fio, em todos os meios de comunicação, a mais ou menos um ano. Para esta estratégia já se tentou de todos os argumentos: compra da refinaria de Pasadena (altamente lucrativa); o mais elevado preço da gasolina (quando tem 76 países com preços maiores, e o Brasil subiu o preço apenas 45% em 12 anos); baixa das ações na Bolsa de Valores (é próprio da dinâmica das BV o sobe-desce das ações); corrupção generalizada na empresa, que teria sido iniciada na gestão de Dilma.

Destaco este último ponto para melhor analisar. De antemão, defendo que quem praticou o ilícito deve ir para cadeia, logicamente comprovando o crime e com o direito a defesa. A corrupção é inerente ao capitalismo desde que foi estabelecido a livre-concorrência, como caminho mais curto de se atingir os objetivos da concorrência, e não é exclusivo do Brasil. As empresas, ao disputar obras ou licitações, tem como objetivo ganhar o contrato e oferecer seus serviços. Nem sempre esta disputa se dá pelo melhor preço ou por deter as melhores condições. Em alguns casos (e põe caso nisto), quando a empresa quer ganhar a concorrência, ela utiliza-se de expedientes ética e moralmente condenáveis. Seja na manipulação na coleta de preços, seja na indução dos concorrentes, ou na combinação do resultado, ou até mesmo na oferta de vantagens materiais para quem define o resultado, dentre tantos outros expedientes. No caso da Petrobras já está provado, pela própria operação “Golpe a Jato”, que há demonstração de corrupção desde 1997, no mínimo (fato que as redes de comunicação não repercutem).

Podemos afirmar, também, que a corrupção está presente entre as empresas privadas, dentro de suas estruturas hierárquicas. Acaso o setor de compras de uma determinada construtora, ao se deparar com a compra de uma grande quantidade de cimento ou de ferro para uma obra não se encontra sensível aos fatores determinantes do atalho concorrencial? Ou a gerência de um supermercado, ao definir suas compras também não sofre assédio das marcas concorrentes?

Por fim, creio que é necessário separar o que é corrupção para enriquecimento próprio e o que é destinado pelos partidos para financiamento eleitoral. Para ambos deve-se investigar, e condenar aqueles que cometerem ilícitos. Porém, a forma mais prática de acabar com o caixa-dois é estabelecer o financiamento público de campanha.

Então, eu me pergunto qual o sentido dos senhores que foram apeados do governo em 2002, em “sangrar” Dilma? Qual o interesse em destruir a Petrobras? O senador tucano José Serra já respondeu a segunda indagação: entregar o milionário petróleo do pré-sal para as companhias petrolíferas estrangeiras (será que ele vai receber mais algum “por-fora”?). Quanto ao “sangramento” de Dilma a estratégia é utilizar a máxima de Carlos Lacerda contra Getúlio Vargas: “Que ele não se candidate, mas se ele se candidatar que ele não ganhe, se ele ganhar que ele não tome posse, se ele tomar posse que ele não governe”.

Nesse momento os trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, devem estar alerta para o debate da conjuntura, usando o senso crítico para separar o que é real do que é mentira, criticando o que estiver errado e defendendo o que estiver correto, reconhecer quem são os verdadeiros inimigos da classe trabalhadora defendendo o projeto democrático e popular.

Eduardo Navarro é diretor Executivo da CTB e vice-presidente da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O depoimento de um tucano que bateu as asas e deixou o ninho - Viomundo*

Por que eu mudei – O depoimento de um tucano nato que bateu asas e deixou seu ninho - Viomundo

Por Rafael Cardone, no Facebook, editado pelo primo dele, PB, especialmente para o Viomundo*

Como quase todo mundo da minha geração que cresceu em Alphaville, subúrbio nobre de São Paulo, eu sempre fui tucano. Na infância, tive uma vida mais que confortável e desde cedo soube, por meus pais, que era um privilegiado.

Em 2002, Lula foi eleito a contragosto meu e de todos à minha volta. Eu tinha 15 anos e ouvi o anúncio de catástrofes que nunca vieram.

Quando surgiu o escândalo do “mensalão”, em 2005, torci por um impeachment, que, para a minha frustração, não veio. Na época, cheguei a sentir raiva do PSDB por não fazer a oposição que eu achava necessária.

Achava que os tucanos eram fracos por também terem o rabo preso, mas só queria criticar o partido adversário. Eu não tinha esquecido dos escândalos da era FHC, que, como aquele, não tinham sido comprovados.

Lembro-me das zoeiras semanais do Casseta & Planeta, que me faziam crer que a corrupção era um mal endêmico da política brasileira.

Na faculdade, lá por 2006, queixava-me do PT por não fazer “as mudanças estruturais necessárias” – fossem lá quais mudanças estruturais o editorialista do Estadão julgasse necessárias.

O bom desempenho econômico e social, eu repetia, era resultado do boom das commodities e da estabilização conquistada com o Plano Real.

Em 2007, entrei no mercado financeiro, onde o Lula era demonizado, e em 2008 veio a crise econômica mundial. Os que se lembravam das crises pregressas trombeteavam o caos – aquela era a maior desde 1929!

Mas, de fato, a tempestade não veio, e eu comecei a desconfiar que aquele governo estava fazendo algo bem feito e contrário ao que propunham a mídia e meus colegas de trabalho.

Hoje entendo que, com o ingresso de milhões de brasileiros no mercado consumidor, o país já tinha estofo para adotar uma política anticíclica e suportar a crise mundial. Na época, porém, parecia-me que era sorte ou mera coincidência.

Cercado pelo discurso antipetista, eu duvidava dos números e desqualificava os avanços sociais. Na minha vida, afinal, nada mudara.

Na verdade, com Lula ou FHC eu teria estudado em colégio particular, entrado em uma boa universidade, arrumado estágio no banco e emprego em uma multinacional, independentemente de qualquer grande esforço pessoal.

Claro que eu gostava da ideia de que os pobres pudessem estudar, arrumar emprego e ganhar mais. Mas não sabia isso estava acontecendo, pois as notícias que chegavam para mim eram somente as negativas.

Sim, ouvia falar dos milhões beneficiados pelo Bolsa Família, o Luz Para Todos, o ProUni, o Minha Casa Minha Vida.

Porém, só me dei conta da mudança quando notei, pela primeira vez, que o que o governo tinha feito impactara a minha vida.

De repente, meu pai não conseguia contratar outra empregada. Elas não queriam mais dormir em casa, exigiam carteira assinada e salário de pelo menos mil reais.

Então, mesmo sem que me mostrassem, eu entendi que o governo, longe de ser perfeito, era melhor do que diziam no banco ou do que eu lia no jornal.

Tenho certeza que vivo atualmente num país muito melhor do que vivia no passado. E não preciso de estatística para saber disso, porque basta olhar para o lado.

Meus amigos e eu estamos empregados, algo que, na minha adolescência, não era uma ideia assim tão certa, mesmo para os privilegiados.

Lembro-me de um país em que o pobre não faria faculdade nem seria meu colega de trabalho. Óbvio que ainda tenho as vantagens de ter nascido na família em que eu nasci, porém mais gente tem oportunidades parecidas com as minhas.

O curioso é que toda essa mudança aconteceu sem que piorasse a minha vida ou de gente como eu. É estarrecedor ver meus amigos dizerem que o Brasil vai virar Cuba como se as suas vantagens tivessem sido suprimidas.

Eles ainda viajam para Europa, têm casa em Angra e Campos do Jordão, inclusive com empregados. Anunciam o apocalipse, mas são incapazes de apontar o menor presságio do fim do mundo em suas vidas.

A diferença é que agora o país não é só de Alphaville, mas de muito mais gente. Impossível não achar que isso é egoísmo; o desespero por manter os privilégios, ainda que a perspectiva de perdê-los sequer esteja no horizonte.

Ou isso ou falta de vontade de pensar por conta própria. Não, amigos, eu não estou louco. O país melhorou.

Se não deixou de ser corrupto, os escândalos são investigados e existe ao menos a perspectiva de políticos e banqueiros serem condenados – coisa que, nos anos 90, o Casseta me ensinou ser impossível.

Sim, ainda há muito a melhorar. Da minha parte, pelo menos, já sei o que quero. Quero um partido que não acene para a Bolsa, para Moody’s ou para o FMI.

Quero um governo que não privatize o patrimônio público e enfraqueça os bancos estatais. Que, quando a economia entra em crise, não eleva os juros, não corta o gasto público e não espera a recessão.

Pois quem sempre chamou o Bolsa Família de compra de votos não sabe o que é assistência social. Quem sempre criticou as cotas não sabe o que é ação afirmativa.

E quem agora vem apresentar seu candidato como bom pai de família não sabe o que é respeitar as mulheres nem as minorias.

Sei que se o Aécio for eleito eu vou continuar tendo uma vida tão boa quanto a que tenho hoje. Mas eu não quero uma vida melhor para mim; quero uma vida melhor para todo mundo.

No fim das contas, acho que nesses 12 anos, enquanto eu cresci, aprendi duas coisas importantes: a não acreditar em tudo sai na Folha ou que diz o Estadão e a não esperar da Dilma ou do Aécio que governem para mim.

Faço um apelo para esses dias que antecedem a eleição. Olhe ao redor e veja se piorou a sua vida ou a das pessoas que você mais gosta; procure saber se melhorou a vida dos mais pobres, de quem mais precisa do Estado.

Então, decida seu voto com a cabeça e o coração – e, se possível, sem a ajuda do oligopólio de famílias que controlam a mídia e têm pavor de qualquer abalo na estrutura que as sustentam.

Amo minha família e meus amigos, mesmo os muitos que talvez para sempre vão votar no PSDB.

*O texto acima difere do que foi publicado originalmente por Rafael Cardone em seu Facebook e foi aprovado pessoalmente pelo autor

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