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quinta-feira, 13 de março de 2025

Os juros altos escravizam o Brasil - Paulo Vinícius da Silva




O dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem. Berimbau. Vinicius de Moraes



A luta contra os juros altos marca o Brasil desde o Plano Real, e não é à toa. A constituição do mercado da dívida pública foi o mecanismo principal que deu ao parasitismo do capital financeiro uma lucratividade semelhante, substituindo os lucros escandalosos obtidos pela hiperinflação, que era razão de instabilidade econômica, social e política. Ademais, o PSDB cunhou em FHC, ministro de Itamar, o título de “criador do Real que derrotou a inflação”, beneficiando-se do pavor na memória coletiva brasileira. 


Desde 2003, o Brasil tenta desmontar essa bomba, não é uma tarefa fácil. Se vacilarmos, a direita dá o Golpe. Isso expressa a duradoura dominância do capital financeiro parasitário como topo da pirâmide de classes brasileira, que é o fundamento principal da ascensão política da extrema direita aqui e além.



Lembro, ainda quando era Diretor da UNE, da bandeira “Mudança da Política Macroeconômica” nas manifestações de 2003 a 2014. Certo, era uma palavra de ordem difícil, mas queria se opor ao “Tripé Macroeconômico” do Plano Real, intocado até agora, qual seja: Regime de Metas de Inflação, Câmbio Flutuante e Taxa SELIC. Desta última é que deriva o custo do crédito para pessoas físicas e jurídicas. Ora, para o indivíduo pode parecer muito melhor ter uma rentabilidade alta sem pregar um prego e com garantia do Tesouro, do que produzir o que quer que seja. Por isso dói nos parasitas, acreditem, o crescimento do emprego no Brasil, que atingiu patamares históricos sob Lula.


Quem produz, trabalha e consome - especialmente as pequenas e médias empresas e a classe trabalhadora - tem de pagar taxas de juros exorbitantes, em juros compostos, sob a forma de capitalização das tabelas PRICE e SAC. O Agronegócio tem o Plano Safra, não passa por isso, tem juros subsidiados, menores, para plantar monocultura e exportar commodities in natura. Assim, o Brasil tem financiado através dos bancos públicos a expansão do agronegócio, mesmo com as gritantes evidências do prejuízo ambiental e social que parte do setor promove.


O salário, se cresce, cresce pouco, já os juros das dívidas, crescem muito, especialmente se em caso de atraso. Não dá para alcançar. As medidas de redução do patamar dos juros - no cartão, por exemplo - são importantes, mas insuficientes diante da armadilha criada no Banco Central por seu Presidente anterior, Roberto Campos Neto,que fez tudo para deixar o dólar subir e os juros também. Há um bloco social gritando dia e noite a favor da manutenção e do aumento de juros. São poucos, mas detém imenso poder e emparedam o governo. A imprensa empresarial vive de renda no sistema financeiro.


Enquanto isso, adoecem os bancários da Caixa, do BB, BRB, BASA, BNB, BANPARÁ, BANRISUL, etc no ingrato ofício de ser pressionado a vender o crédito num patamar de juros altíssimo. Você acha que um bancário na China ou nos EUA empresta para seus clientes  a taxas MENSAIS? Não, o juro é ANUAL. No Brasil, os juros são divulgados por mês para o cliente não dar um infarto na hora de fazer um empréstimo. 


Por um lado, o sistema financeiro ganha sem fazer nada, especulando com o valor do dólar, ganhando um absurdo com títulos públicos. Por outro, o mesmo sistema financeiro impõe um patamar de juros tão alto, que surge uma nova servidão diante de dívidas que não param de crescer. Brasileiro é bom pagador, e sofre, e paga muito, e empobrece, e quebra. 


A luta de classes permite ver, como disse Vinícius, que “O dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem”. São inseparáveis os ganhos históricos no setor financeiro com a escravidão por dívida promovida com as taxas É dívida que faz um motorista de aplicativo se submeter a um regime de 14 horas de trabalho diário. E é a SELIC tão elevada que depois se multiplica para virar as taxas de juros cobradas no crédito. 


O sistema financeiro, desse modo, a classe dominante escravista brasileira: cruel, burra e infecunda, a viver do trabalho alheio. Quem ganha tanto com juros altos, especulação financeira sem riscos, com garantia e vantagens no imposto de renda só poderia odiar a Presidenta  Dilma, quem baixou as taxas de juros. Foi esse crime perfeito que se radicalizou com o Golpe de 2016, com a Ponte Para o Futuro de Temer e o governo Bolsonaro. Virou a farra do boi. E caiu no colo do Lula. 


Por isso, o grande acerto do programa de crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada, lançado pelo Presidente Lula. Ele, que denunciou tanto os juros altos, deu com a cara no muro formado pelo mercado financeiro, pela mídia empresarial e pela coalizão dos políticos a seu serviço. Não é menos verdade que sequer pôde Lula contar com os maiores bancos públicos, o BB e a Caixa. Os lucros demonstram, o patamar dos juros também, as metas mais ainda: o sistema gira sozinho como uma imensa bomba de sucção, retirando recursos da economia produtiva para esterilizá-los e pagar caro por isso, sem produzir um cibazol partido e desindustrializando o país. Nem os bancos públicos trabalham contra esse sistema. 


Lula e Haddad acharam um jeito: se baixar o patamar de juros para os trabalhadores formais, é possível baixar de modo geral os juros. Também poderão fazer a portabilidade de dívidas com juros menores. Mas isso demonstra as mãos atadas, por um lado, e a persistência de Lula, por outro. Resta saber se os bancos públicos, especialmente a Caixa e o BB, cumprirão o que prometeram nos discursos do lançamento do programa de crédito consignado para trabalhadores formais. Lágrimas de crocodilo não me sensibilizam. Queremos saber o tamanho da redução do spread, antes de comemorar. Aí sim.





É nesse contexto que na terça-feira, 18/3/2025, realizam as centrais sindicais atos públicos nas sedes do BACEN em Brasília e São Paulo às 10h (por enquanto). Se você deve, você é nosso convidado(a). As centrais também discutem o desafio de unificar o Primeiro de Maio. Se o Banco Central ajudar na redução da taxa SELIC, ajudará imensamente o Brasil, mas essa é uma batalha a ser vencida nas redes e nas ruas, uma das páginas mais importantes da construção da Frente Popular no seio da Frente Ampla. Essa é uma clivagem importante. Na Frente Ampla couberam inclusive os neoliberais. Só a união dos que trabalham e produzem pode libertar o Brasil da especulação parasitária e destrutiva, da nova escravidão por dívida e da burrice capitalista que ameaça a vida na Terra. Vencer o neoliberalismo é fundamental para libertar as imensas potencialidades da Nação Brasileira e deve ser o elemento de coesão das parcelas mais avançadas na Frente Ampla.




quarta-feira, 12 de março de 2025

Giro Sindical debate os JUROS ALTOS - Paulo Vinícius da Silva é o entrevistado, 6a feira, 11h no Youtube




Nesta sexta-feira, a partir das 11 horas: https://www.youtube.com/watch?v=aFerdIDS2xs


CTB Bancários: A luta contra os juros é a luta pelo desenvolvimento do Brasil


No episódio desta sexta-feira (14) do Giro Sindical, produzido pela Agência Metamorfose Comunicação, recebemos Paulo Vinicius, Diretor do Sindicato dos Bancários de Brasília e da CTB Bancários, para discutir a luta da categoria contra os juros abusivos e como essa batalha está diretamente ligada ao desenvolvimento do Brasil.


Nesta sexta-feira, 14 de março, das 11h às 11h30, Paulo Vinicius da Silva explica como os altos juros impactam não apenas os trabalhadores, mas toda a economia do país, dificultando o acesso ao crédito, o crescimento das empresas e a geração de empregos. 

Ele também aborda as ações do sindicato e da CTB Bancários para pressionar por políticas que garantam juros mais justos e um sistema financeiro mais equilibrado.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

As propostas de Bernie Sanders que tiram do sério os banqueiros - Carlos Eduardo - Portal Vermelho


O candidato pelo Partido Democrata, Bernie Sanders, declarou guerra contra os grandes bancos e seus agentes em Wall Street.

Por Carlos Eduardo


   
"A ganância, a fraude, a desonestidade e a arrogância tomaram conta do mercado financeiro", diz ele, criticando sua principal rival pela indicação do Partido Democrata, Hillary Clinton -- Clinton, para quem não sabe, é a candidata norte-americana destas eleições que mais recebeu doações de Wall Street.

"Para aqueles em Wall Street que possam estar me ouvindo hoje, deixe-me ser claro. A ganância não é boa. Na verdade, a ganância de Wall Street e das corporações americanas está destruindo o tecido social de nossa nação. E aqui está uma resolução de Ano Novo que vou manter se eleito presidente: Se vocês não colocarem um fim na sua ganância, vamos acabar com isso por vocês", disse Sanders, em um discurso no centro de Manhattan.

Bernie Sanders, o candidato queridinho dos progressistas, estabeleceu um programa de dez pontos que promete mudar profundamente o modo como funciona hoje o mercado financeiro americano. Se colocadas em prática, suas propostas podem revolucionar a economia mundial. Para melhor.

Desde o início de sua campanha, Sanders vem denunciando o lobby dos bancos para desregulamentar quase todas as áreas do mercado financeiro, enquanto o Congresso, que deveria representar os interesses da população, vem enfraquecendo as leis trabalhistas e os direitos do consumidor.

“Na crise de 2008, a ganância, a imprudência e a corrupção em Wall Street quase destruíram os Estados Unidos e a economia internacional. Milhões de americanos perderam seus empregos, suas casas e suas poupanças de uma vida inteira. Enquanto isso Wall Street recebeu a maior ajuda financeira vinda do governo na história do mundo, sem nenhuma contrapartida. A classe média americana continua a desaparecer, a pobreza só aumenta e o fosso entre os muito ricos e o resto do povo está crescendo mais e mais”. (tradução livre)

Eis aqui os dez pontos da reforma do sistema financeiro americano defendidos por Bernie Sanders:

Um: Por fim aos bancos “grandes demais para quebrar" (ou too big to fail)

Bernie Sanders sugere reeditar uma lei antitruste contra os grandes bancos, nos mesmos moldes da Lei Antitruste Sherman (tradução livre para Sherman Antitrust act, de 1890). Esta foi a lei que pôs fim ao império do magnata John D. Rockefeller, que em sua época controlava 84% do refino de petróleo nos Estados Unidos, com o monopólio da Standard Oil.

A lógica por trás da proposta de Sanders se baseia nos dados fornecidos pelo próprio sistema financeiro.

Isto porque em 2008 os contribuintes americanos foram obrigados a socorrer os grandes bancos de Wall Street com a desculpa de que estes eram "grandes demais para falir". No entanto, hoje, três das quatro maiores instituições financeiras nos Estados Unidos -- JP Morgan Chase, Bank of America e Wells Fargo -- são quase 80% maiores do que antes do socorro financeiro de 2008. Por incrível que pareça, os seis maiores bancos americanos respondem por 2/3 de todos os cartões de crédito no país e mais de 35% das hipotecas. Juntos, esses seis bancos controlam mais de 95% das aplicações financeiras e detém mais de 40% dos depósitos bancários. Seus ativos equivalem à 60% do PIB norte-americano.

Dois: Desmantelar os grandes bancos

Se eleito, Sanders diz que logo no primeiro ano de mandato vai pedir ao Departamento do Tesouro uma lista das instituições financeiras cujo colapso representa um risco catastrófico para a economia dos Estados Unidos.

De posse do Executivo, Sanders promete acabar com as grandes instituições financeiras, dividindo-as em companhias menores. E ele pode fazer isso sem a aprovação do Congresso, pois o presidente Barack Obama aprovou em 2010 a Lei Dodd-Frank, consolidando as diversas agências reguladoras que existiam na época em uma só autarquia federal, e estipulando regras mais rígidas para as fusões dos bancos.

Algo parecido com o CADE brasileiro, dadas as devidas proporções é claro.

O problema é que Obama nunca aplicou a lei pra valer e Sanders promete fazer isso.

Três: Aprovar no Congresso uma Lei Glass-Steagall do século XXI

A Lei Glass-Steagall foi aprovada pelo presidente Franklin D. Roosevelt em 1933 devido à Grande Depressão de 1929.

Para evitar uma nova crise, Roosevelt dividiu as instituições entre comerciais e financeiras.

Os bancos comerciais, onde a população guarda suas economias, teriam que cumprir regras rígidas de alavancagem, estando proibidos de especular no mercado financeiro. Já as instituições financeiras, como corretoras, estariam livres para aplicar em investimentos mais arrojados, e por isso, mais arriscados também.

A lei servia para proteger os pequenos poupadores e a classe-média dos abusos praticados pelos bancos antes de 1929. Porém a lei foi revogada pelo presidente Bill Clinton em 1999.

Durante um debate nas primárias democratas, Hillary Clinton, em defesa do legado de seu ex-marido, disse que a Lei Glass-Steagall não teria evitado a quebra do banco Lehman Brothers.

Mas Bernie Sanders lembrou que foram os grandes bancos, como JP Morgan Chase e Bank of Boston, que emprestaram dinheiro da poupança de seus clientes para o Lehman Brothers especular na bolha imobiliária. Caso a Lei Glass-Steagall ainda estivesse em vigor eles estariam proibidos de fazer os empréstimos.

Quatro: Por fim à política de “grande demais para prender” (ou too big to jail)

Sanders diz que em sua administração é o governo quem irá regular Wall Street e não o contrário. Ele defende uma “justiça igual para todos”, o que significa incriminar os altos executivos dos bancos e das demais instituições financeiras cujas apostas imprudentes tenham lesado a vida de pessoas simples e da classe-média.

"Os americanos veem todos os dias jovens sendo presos, às vezes até mesmo por posse de pequenas quantias de maconha. (...) Mas quando se trata dos altos executivos de Wall Street, algumas das pessoas mais ricas e poderosas deste país, cujo comportamento corrupto e irresponsável causou dor e sofrimento para milhões de cidadãos, nada acontece com eles. Sequer um registro policial, ou uma temporada na prisão. Não há justiça igual para todos nos Estados Unidos". (tradução livre)

Não custa lembrar que o ex-presidente democrata Bill Clinton, em seu último dia de trabalho na Casa Branca, concedeu um indulto presidencial à um dos maiores sonegadores da história dos Estados Unidos, Marc Rich. O Caso que ficou conhecido como perdongate.

Para saber mais sobre esta história polêmica, recomendo este perfil do New York Times sobre o sonegador Marc Rich.

'Se um banco é grande demais para quebrar, então ele é grande demais para existir' (tradução livre)

Cinco: Criminalizar o atual modelo de negócios em Wall Street


Um dos comentários mais incisivos de Bernie Sanders nesta campanha presidencial é o modo como Wall Street faz seus negócios.

"A verdade é que a fraude se tornou o modelo de negócios em Wall Street. Não é uma exceção à regra. É a regra. E sem uma regulamentação mais rígida, é provável que os investidores e operadores em Wall Street continuem com o comportamento corrupto que todos já conhecemos. Quantas vezes já ouvimos o mito de que os desvios em Wall Street podem até ser errados, mas não são ilegais? Deixem-me ajudá-los a acabar com esse mito." (tradução livre)

As práticas de Wall Street só não são ilegais porque ao longo da história os bancos fizeram lobby no Congresso para legalizar o que deveria ser considerado crime.

O documentário Trabalho Interno (Inside Job, em inglês), ganhador do Oscar em 2011, mostra muito bem isso. Todos os principais bancos internacionais já foram pegos em atos ilícitos e inclusive aqueles que foram condenados pela justiça voltaram a praticar os mesmos crimes.

Um estudo da University of Notre Dame, em Indiana, sobre ética no mercado financeiro, publicado na The Atlantic em maio de 2015, mostrou que 51% dos executivos de Wall Street acreditam que seus concorrentes praticam atividades antiéticas ou ilegais para obter vantagens no mercado; 1/3 dos executivos também admitiu ter presenciado ou ter conhecimento em primeira mão de atividades ilegais no ambiente de trabalho; e 1/5 dos operadores no mercado financeiro afirmaram que é preciso se envolver em alguma atividade antiética ou ilegal para ser bem sucedido na carreira.

Seis: A criação de um imposto sobre a especulação no mercado financeiro


Um dos pontos chave na reforma de Sanders sobre Wall Street é a criação de um imposto sobre as transações financeiras.

Francamente, não consegui entender se ele propõe um imposto como o IOF brasileiro, ou se este seria uma versão norte-americana da CPMF. No entanto, é certo que Bernie Sanders promete taxar os especuladores do mercado financeiro. E uma de suas promessas de campanha é destinar toda a receita dos impostos sobre Wall Street para extinguir as mensalidades nas universidades públicas.

"Vamos usar a receita do imposto [sobre Wall Street] para tornar as faculdades e universidades públicas gratuitas. Durante a crise financeira de 2008, a classe média deste país socorreu os bancos de Wall Street. Agora, é a vez de Wall Street ajudar a classe média”. (tradução livre)
Sete: Reforma das Agências de Classificação de Risco

Depois do crash de 2008, as agências de classificação perderam completamente sua credibilidade. O Lehman Brothers, por exemplo, banco de investimento que quebrou durante a crise, recebeu da Standard & Poor’s um grau ‘A’ no mesmo mês em que decretou falência.

Após a crise, ficou claro que as agências de risco davam notas altas para aqueles que pagavam caro por seu serviço.

Na opinião de Sanders, estas companhias são como “raposas vigiando o galinheiro”. E ele promete intervir nas agências de classificação de risco, transformando-as em empresas sem fins lucrativos.

"Vamos transformar estas agências de classificação, que somente buscam o lucro, em instituições sem fins lucrativos, independentes de Wall Street. Não será mais Wall Street quem irá escolher quais agências irão avaliar os seus produtos". (tradução livre)

Oito: Reduzir os juros do cartão de crédito e as taxas cobradas pelos bancos

Nas palavras de Bernie Sanders, os bancos e as companhias de cartão de crédito precisam parar de "extorquir o povo americano com a cobrança de juros altíssimos e taxas ultrajantes".

"É inaceitável saber que os americanos pagam uma taxa de US$ 4,00 ou US$ 5,00 cada vez que vão a um caixa eletrônico sacar dinheiro. E é inaceitável saber que milhões de americanos estão pagando taxas de juros no cartão de crédito superiores à 20% ou 30% ao ano. A bíblia tem um termo para esta prática, chama-se usura". (tradução livre)

Bernie Sanders propõe uma lei limitando os juros no cartão de crédito em 15% ao ano e uma taxa máxima no caixa eletrônico de US$ 2,00 por saque.

“Os grandes bancos precisam parar de agir como agiotas e começar a agir como credores responsáveis” (tradução livre)

Nove: Permitir os correios de oferecer serviços bancários


O Serviço Postal dos Estados Unidos (United States Postal Service, ou USPS, em inglês) é motivo de orgulho para os americanos. Presente em todo o país, Bernie Sanders propõe transformar os correios em um banco estatal, justamente para atender às comunidades mais pobres que são ignoradas pelos bancos comerciais.

"A triste realidade é que, incrivelmente, milhões de americanos de baixa renda vivem em guetos onde não existem serviços bancários normais. Hoje, se você vive em uma comunidade de baixa renda e precisa descontar um cheque, ou obter um empréstimo para consertar seu carro, para onde você vai? A única opção nestas comunidades é procurar um agiota que pode cobrar uma taxa de juros de 300% ao ano, gerando um ciclo vicioso de dívida. Isso é inaceitável". (tradução livre)

Dez: Reforma do Federal Reserve


Por último, Bernie Sanders propõe uma reforma no Banco Central norte-americano, de modo que este passe a atender aos interesses da população, ao invés dos grandes bancos.

Detalhe: diferente do Banco Central brasileiro que só se preocupa em controlar a inflação, nos Estados Unidos o Fed também tem a obrigação de controlar a taxa de desemprego. Mas para Sanders isso ainda é pouco. É preciso também criar uma política de valorização do salário dos trabalhadores.

"Quando Wall Street estava à beira do colapso, o Federal Reserve agiu rapidamente para salvar o sistema financeiro. Precisamos que o Fed aja da mesma maneira para combater o desemprego e os baixos salários. É inaceitável ver o Federal Reserve sequestrado pelos banqueiros, logo ele que é responsável pela regulação dos bancos. Eu acho que o povo americano ficaria chocado se soubesse que Jamie Dimon, atual CEO do JP Morgan Chase, foi membro do conselho do Fed de Nova York, ao mesmo tempo em que seu banco recebeu um resgate de US$ 391 bilhões do Federal Reserve. Este é o tipo de conflito de interesses que pretendo proibir. Se eleito, as raposas não serão mais as guardiãs do galinheiro no Fed”. (tradução livre)


 Fonte: O cafezinho

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

A eleição de 2014, a economia e as ameaças neoliberais aos bancos públicos - Paulo Vinícius Silva

Criança, vi a inflação mensal de até 89% ao mês. Com uma verdadeira guerra econômica e midiática em curso, vê-se uma pressão monstruosa para impor um ajuste neoliberal ao país, independentemente de quem ganhe, vemos o terrorismo midiático em economia, chantageando o país e o governo, querendo um nome dos bancos estrangeiros para comandar a Fazenda, sob a "gravíssima" situação de uma inflação está em 0,25% ao mês!

E no programa de governo da candidata Marina está claro o seu rumo. Com uma mão, dá a "independência" ao Banco Central, um eufemismo para dizer que a imprensa golpista e o "mercado" - que ganham com os juros SELIC altos - terão o Banco Central dependente deles para ampliar o patamar dos juros que afetam o cartão de crédito, as prestações da casa, as prestações do carro, os juros dos financiamentos e do capital de giro das empresas e microempresas.

Depois de uma série de generalidades, inclusive dizendo que o spread é alto, que a SELIC é alta, olhe, colega bancário(a), correntista, microempresário(a), como o que diz Marina Silva nada tem com a constatação, porque propõe mais veneno, e não a cura da doença. Em seu Programa, exatamente na página 60, ela diz:
"devemos caminhar gradualmente para um sistema no qual o crédito público para empresas seja complementar, e não inibidor do sistema de crédito privado, focando em negócios com as seguintes características:
1) empresas pequenas e nascentes;
2) projetos inovadores ou com alto impacto social;
3) projetos de maturação muito longa que exijam alto volume de recursos,
como obras de infraestrutura.
Os subsídios ao crédito agropecuário e aos programas de habitação popular deverão continuar, mas com maior participação dos bancos privados, evitando subsídios não computados e ineficiências na alocação".

Traduzindo:
a) Marina propõe o que Dilma já fez, pois nunca os bancos receberam tanto povo e emprestaram tanto e a juros tão baixos às microempresas, aos microempreendedores que antes eram informais. Marina pretende retirar da Caixa e do Banco do Brasil as possibilidades mais atrativas de negócios, restringindo como jamais a possibilidade de ação dos bancos públicos para emprestar. Isso é a resposta do sistema financeiro privado à ação empreendida por Lula e Dilma através do Banco do Brasil, da Caixa e do BNDES, BASA e BNB para DIMINUIR OS JUROS que até então se cobravam. É ter diminuído o patamar dos juros que ela chama de fator "inibidor" aos bancos privados.

b) Se ela, por um lado, permite ao BC aumentar a SELIC à vontade - com "independência" do Bano Central e sua gestão exclusiva por critérios  supostamente "técnicos" e com a ajuda da imprensa golpista, a consequência será necessariamente um aumento, e não redução da taxa SELIC, e um aumento do patamar dos juros e do spread bancário. Afinal, propõe diminuir o papel dos bancos públicos em emprestar para as empresas, para o agronegócio, para a agricultura familiar. Mas é um grande negócio para os bancos privados;

c) Com a perda da lucratividade nos bancos públicos, ver-se-á outra vez a campanha pela sua privatização. Já no programa de governo, a candidata neoliberal alfineta os bancos públicos: "ineficiências na alocação", "subsídios não computados" são acusações que negam o papel importantíssimo dos Bancos Públicos em impedir a crise de se apossar do Brasil. Marina nega a eficiência e o talento dos bancários dos bancos públicos, criadores de uma tecnologia competitiva em todo o mundo, sucessivamente vitoriosos(as) em seguidos resultados positivos, impulsionando o Microcrédito, o Cartão BNDES, os empréstimos dos Fundos Constitucionais. Tão eficientes e competitivos são os Bancos Públicos, que a candidata apoiada pela herdeira do Itaú, que coordena o seu Programa de Governo, propõe uma intervenção na política de crédito para prejudicá-los e "dar uma forcinha" para a banca privada.

Não há máscara, não há pudor. A candidata neoliberal Marina Silva investe contra os bancos públicos e propõe uma agenda que, na verdade, levará à redução do crédito, à ampliação dos juros e aos ataques a uma das principais bases da soberania brasileira, o sistema financeiro com o protagonismo público. Marina promete a volta de páginas da nossa história recente vividas pelos(as) funcionários(as) do BB, da CEF, BNB, BASA e dos bancos estaduais. Histórias tristes, de perseguições, suicídios, de profunda insatisfação com o trabalho, porque os bancários e bancárias sofrem duplamente nesse tipo de situação. Sofrem por serem levados ao desespero no trabalho, perseguindo metas inalcançáveis, enfrentando o enxugamento do quadro e a liquidação das instituições, porque é isso que se prepara com as medidas acima elencadas. E sofre porque com   juros altos é o bancário que cobra, é ele que vê a falência e o empobrecimento dos clientes. Com Lula e com Dilma ajudamos a realizar sonhos, de viver na casa própria, de estudar, de acesso ao conforto, ao lazer, à informação. É muito diferente de ser bancário para ver no olhar dos clientes o medo, o desemprego, a perda do que eles conquistaram com tanto sacrifício.

Não haja dúvidas para bancários e bancárias, nem para clientes: a agenda de Marina é contra os bancos públicos, é a favor dos bancos privados, levará aos juros mais altos, comprometerá o desenvolvimento do país, levará as famílias a uma situação de maior endividamento e as microempresas à insolvência.

Dilma é a única candidata que defende os interesses do Brasil, que são inseparáveis de sólidos e poderosos Bancos Públicos. Mas Dilma tem de mostrá-lo claramente aos bancários e bancárias que, às vésperas da sua campanha salarial nacional, extenuados pela imensa responsabilidades que sobre si recaíram, necessitam de maior valorização, de reconhecimento.

Apesar de os anos de Dilma e Lula terem recuperado os salários dos bancários dos bancos públicos, com aumentos superiores à inflação, a herança maldita de oito anos sem aumento salarial nos anos de FHC ainda levam a uma remuneração básica baixíssima para o papel da categoria bancária na sociedade. No entanto, essa constatação não pode nos levar a uma postura irresponsável que leve à própria liquidação desse patrimônio que são os bancos públicos, as grandes molas impulsionadoras do desenvolvimento. Na eleição, Marina assume claramente o lado dos especuladores e maiores inimigos dos bancos públicos. Por isso a campanha salarial de 2014, em plena eleição, terá uma especial complexidade política: é preciso defender a categoria e ao mesmo tempo defender o Brasil e os Bancos Públicos. E isso só será possível com Dilma.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Aversão à democracia no capitalismo europeu - Umberto Martins - Portal Vermelho

Aversão à democracia no capitalismo europeu - Portal Vermelho

A razão da queda do valor das ações foi o anúncio feito pelo primeiro-ministro grego, George Papandreou, da convocação de um plebiscito para decidir sobre o novo pacote implícito no plano aprovado pelos líderes europeus, que prevê uma redução do valor da dívida externa do país associada a novas medidas de ajuste fiscal, que significam novos sacrifícios para a classe trabalhadora.

A possibilidade da consulta popular provocou pânico nos mercados e suscitou críticas virulentas de dirigentes políticos da Alemanha, França e outros países da região. É compreensível. A oposição dos trabalhadores e trabalhadoras da nação helênica aos ajustes impostos pela chamada troika (FMI, Banco Central Europeu e União Europeia) foi demonstrada nas seis greves gerais realizadas ao longo deste ano e é igualmente confirmada por diversas pesquisas de opinião.

Laboratório de horrores
A Grécia se transformou no laboratório de horrores do capitalismo europeu, ferozmente empenhado no desmantelamento do Estado de Bem Estar Social, que bem ou mal traduz relevantes conquistas arrancadas pela classe trabalhadora num momento histórico em que a correlação de forças era mais favorável e a existência do socialismo soviético induzia a burguesia a maiores concessões no interior das potências capitalistas.

A realidade mudou, a URSS já não existe e a era dourada do pós-guerra no velho continente cedeu lugar a uma fase de notória decadência, baixo crescimento, elevação da taxa de desemprego e perda da competitividade industrial, cenário agravado pela ascensão da China, acirramento da concorrência das economias emergentes e eclosão da crise mundial.

Guerra de classes
Neste novo cenário, a burguesia europeia resolveu declarar uma verdadeira guerra de classes contra o Estado de Bem Estar Social. A Grécia é o principal laboratório da nova estratégia, mas a ofensiva contra o trabalho ocorre em maior ou menor medida em toda a zona do euro, como revelam os pacotes antissociais adotados em Portugal, Espanha, Irlanda, Itália e muitos outros países.

Sob a batuta do incorrigível FMI, o governo grego impôs o caminho do retrocesso e semeou a recessão (que sacrifica a economia pelo quarto ano consecutivo), colhendo em troca uma taxa de desemprego superior a 16%, aumento da idade da aposentadoria, corte de salários, emprego e de direitos. Mas teve de enfrentar uma reação irada e firme do povo. Acossado, inclusive por integrantes do próprio partido (que se diz socialista), Papandreou decidiu convocar o plebiscito.

Tendência à reação
Muitos críticos consideram a medida tardia, uma vez que sacrifícios inaceitáveis já foram impostos goela abaixo do povo, sem qualquer consulta. O fato é que na reação dos mercados transparece a aversão do capitalismo europeu à democracia. O cálculo é simples: não se pode pretender que medidas antipopulares, subordinadas aos interesses do capital financeiro, sejam referendadas pelas massas trabalhadoras. As instituições da democracia burguesa servem apenas de fachada para impor o projeto do capital financeiro. É quase uma certeza que o novo pacote de maldades bolado pela troika não passa pelo plebiscito.

Daí a aversão atual do capitalismo europeu à consulta popular. O desmantelamento do Estado de Bem Estar Social não combina com democracia e conduz a classe dominante a posturas cada vez mais reacionárias. O imperialismo em crise tende irresistivelmente à reação no plano político. Era o que dizia Lênin. É o que se vê hoje. A história é mestre em reviravoltas, ironias e convulsões. Lembremos que em passado não tão distante a Europa já foi palco da experiência trágica do nazi-fascismo. A paz social e a democracia dependem, mais do que nunca, da ação e da luta decidida da classe trabalhadora.

 Da Redação, Umberto Martins

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Blog do Miro: Rodrigo Vianna: A fama de Pochmann e o pernil de Delfim

ltamiro Borges: A fama de Pochmann e o pernil de Delfim
Reproduzo artigo de Rodrigo Vianna, publicado no blog Escrevinhador:

Essa história de oferecer “Cem Dias” de trégua para o governo que se inicia é um modismo que vem dos EUA, mas faz algum sentido. É um tempo mínimo para que as equipes se (re) organizem e para que as primeiras diretrizes sejam tomadas, indicando os rumos da nova administração.

O governo Dilma não chegou nem à metade dos “Cem Dias”. Ainda assim, é possível já identificar algumas tendências – não só do governo que começa, mas também do quadro político brasileiro.

Nesse primeiro texto, do que pretende ser um modesto “balanço” do início de governo, vou-me concentrar mais na economia.

Os primeiros sinais do governo Dilma indicam reversão da política “expansionista” adotada no segundo governo Lula para enfrentar a crise. O ministro Mantega, da Fazenda, teve papel fundamental em 2009 e 2010, ao adotar um programa que – em tudo – contrariava a velha fórmula utilizada pelos tucanos em crise anteriores: quando o mundo entrou em recessão, com os EUA lançados à beira do precipício, o Estado brasileiro baixou impostos, gastou mais e botou os bancos estatais para emprestar (forçando, assim, o setor privado a também emprestar).

O Brasil saiu bem da crise – maior, gerando emprego, e ainda distribuindo renda. Lula, quando falou em “marolinha” naquela época, foi tratado como um néscio. E Mantega, ao abrir as torneiras do Estado, como um estúpido economista que se atrevia a rasgar a bíblia (neo) liberal. Lula pediu que o povo seguisse comprando. Os tucanos (e os colunistas e economistas a serviço do tucanato) diziam que era hora de “apertar os cintos”. Lula e Mantega não apertaram os cintos. Ao contrário: soltaram as amarras da economia, e evitaram o desastre.

As primeiras medidas adotadas por Dilma vão no sentido inverso: corte de despesas estatais, alta de juros, aumento moderado do salário mínimo. É fato que a inflação em alta impunha algum tipo de medida para frear a economia. Mas a fórmula adotada agora indica um “conservadorismo”, ou “tecnicismo”, a imperar nas primeiras decisões do governo Dilma. Não é à toa que a velha imprensa derrama-se em elogios à nova presidenta, tentando abrir entre Dilma e Lula uma “cunha”, como a dizer: Lula era o populismo “atrasado” e “irresponsável”, Dilma é a linha justa (discreta, moderada, a seguir a velha fórmula liberal de gestão).

Há alguns sinais - preocupantes, eu diria – de que Dilma estimula esse movimento de proximidade com os setores mais conservadores da velha imprensa. Mas voltarei a isso no texto seguinte, na segunda parte desse balanço…

Voltemos à economia: as centrais sindicais fazem grande barulho por conta do salário mínimo subir “apenas” para R$ 545. Acho positiva essa pressão. O movimento sindical pode – e deve – criar um espaço para mais autonomia em relação ao governo. E deve perguntar, sim: por que, na crise, o governo quebrou regras para favorecer as empresas (corte de impostos), e não pode quebrar a regra do reajuste do mínimo para dar um aumento maior? É preciso mesmo tensionar o governo, pela esquerda. Ok. Mas, modestamente, acho que a medida mais danosa adotada pela administração Dilma, nesse início, não é o freio no salário mínimo – até porque, pelas regras acertadas durante o governo Lula (o salário sobe sempre com base na inflação do ano anterior mais o PIB de dois anos antes), o mínimo deve ter em 2012 um crescimento robusto, passando dos R$ 610. O que preocupa mais é outra coisa: a alta dos juros.

Explico: o impacto de juros altos é devastador para a estrutura econômica brasileira. O aumento da taxa serve para frear um pouco a demanda (e, assim, segurar a inflação), mas tem o efeito colateral de atrair cada vez mais dólares para o Brasil. Isso é ruim? Em parte, é. Com os juros brasileiros em alta, investidores do mundo inteiro despejam aqui dinheiro que não vem pra investimento, mas pro cassino financeiro. E qual a consequência? O real fica cada vez mais forte em relação ao dólar. Já bate em R$ 1,65. Isso provoca um estrago sem precedentes na indústria nacional. Fica muito mais fácil importar do que produzir qualquer coisa aqui no Brasil.

Meses atrás, entrevistei na “Record News” o professor Marcio Pochmann, presidente do IPEA. Ele é uma das melhores cabeças do governo – cabeça que, aliás, corre riscos, porque o IPEA foi colocado sob a guarda (guarda?) de Moreira Franco, que já andou espalhando pela imprensa o desejo de demitir Pochmann. Hum… Seria mais um sinal negativo. Mas, por enquanto, não se confirmou.

Na entrevista, o presidente do IPEA dizia-me que, por causa da equação econômica que expus dois parágrafos acima, o Brasil corre o risco de se perder na fórmula fácil da “fa-ma”.

Não se trata do Big Brother Brasil. Mas de algo mais sério. A “fa-ma”, diz Pochmann, é a mistura de fazenda com indústrias maquiladoras (como as existentes no México).

Ou seja: com câmbio desfavorável (por causa dos juros altíssimos que inundam o país com dólares), o Brasil só conseguiria manter competitividade na agricultura, contentando-se com o papel de grande fazenda do mundo, a fornecer grãos e carne para chineses e europeus. Do lado da indústria, aconteceria algo parecido ao que ocorreu no México, depois de assinar o Nafta, tratado de livre comércio com EUA e Canadá. A indústria mexicana foi dizimada. Quase tudo vem pronto de fora, e o México mantem apenas “maquiladoras” para fazer a “montagem” final dos produtos (aproveita-se, pra isso, a mão-de-obra barata do país).

O Brasil tem um parque industrial sofisticado – construído a duras penas, desde a era Vargas. Nossa indústria parece ter resistido às ondas de abertura recentes. Mas tudo tem limite.

Em artigo na “CartaCapital”, o ex-ministro Delfim Netto – a quem se pode criticar por ter servido à ditadura, mas que nunca desistiu de pensar no futuro do Brasil – tratou desse assunto de forma incisiva:

“Não é preciso ser economista para entender uma coisa simples: cinco anos atrás, quando não se falava de desindustrialização, as condições importantes para o trabalho das indústrias eram as mesmas que são hoje. Qual é a única grande diferença entre o que tínhamos naqueles anos e o que temos hoje? É um câmbio extremamente valorizado por uma política monetária que mantém a taxa de juros brasileira no maior nível do mundo. O Brasil continua sendo aquele pernil com farofa à disposição do sistema financeiro internacional, mesmo fora da época das festas.

Todas aquelas discussões não levaram a nada: só agora os mais sabichões começam a entender que a questão-chave que o Brasil tem de resolver não é um problema de câmbio; o que resolve é construir uma política monetária que, num prazo suportável, leve a taxa de juros interna ao nível da taxa de juros externa.”

As primeiras medidas econômicas tomadas pela equipe de Dilma podem indicar um caminho perigoso, na direção da “fama” do Pochmann e do “pernil com farofa” do Delfim.

Lula e Palocci, dirão alguns, começaram do mesmo jeito em 2003, lançando os juros na estratosfera. A diferença é que o Brasil vinha de uma campanha eleitoral, em 2002, em que se tinha vendido para o mercado (ou pelo mercado) o “risco Lula”. Era preciso evitar o “risco”. Agora, Dilma encontrou o país crescendo, bem arrumado.

Os economistas de linha liberal diriam que, para baixar os juros e fugir do estigma da fama e do pernil, é preciso “primeiro” cortar os gastos públicos. É a velha lenga-lenga: “precisamos fazer a lição de casa”. Dilma fez exatamente isso, com o corte recente de 50 bilhões no Orçamento. E elevou os juros ao mesmo tempo. Eles cairão mais à frente?

Na época de Malan/FHC, a gestão liberal ficava sempre pelo meio do caminho: corte de gasto, seguido de… mais cortes de gastos. Fora as privatizações. E a hora de baixar os juros? Não chegava nunca.

Não era à toa. Juros altos garantiam o real equiparado ao dólar (“moeda forte”, lembram? Foi assim que FHC se reelegeu em 98; depois, desandou tudo).

Mais que isso: juros altos fazem a alegria dos banqueiros e daqueles que vivem de aplicar dinheiro a taxas estratosféricas, “ajudando” assim a financiar a dívida pública (sempre crescente, por causa dos juros!). Malan, depois de deixar o Ministério da Fazenda, foi trabalhar num banco. Palocci teve sua campanha a deputado, dizem, financiada por banqueiros…

Palocci, agora, está na Casa Civil.

Hum…

O governo Dilma vai significar um movimento em direção ao centro, com a gestão “técnica” da economia – que tanto encanta colunistas e economistas tucanos?

A presença de Mantega na Fazenda parece indicar que não… Ou que “nem tanto”.

Dilma chegou a afirmar em entrevistas que uma das metas de seu governo – além de eliminar a pobreza extrema – seria trazer os juros reais do Brasil para patamares “civilizados”. Pode ser que a meta seja essa, a médio prazo.

Mas o risco é perder-se no meio do caminho.

Cinquenta dias são muito pouco para qualquer leitura definitiva sobre as escolhas de Dilma.

Mas é bom olhar com atenção para essas escolhas – especialmente na economia. E torcer para que a nova gestão não se deixe encantar pela “fama”, e nem sirva o Brasil na mesa da banca internacional – como se fosse um suculento “pernil com farofa”.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Os lucros dos bancos e a correlação de forças



Blog do Renato

Como explicar o fato de que em um ano onde a economia internacional, na média, regrediu a patamares negativos, enquanto que em 2009 o lucro liquido dos oito principais bancos brasileiros teve crescimento de 24,1%? De maior despautério é a forma tranqüila como esse tipo de notícia se espalha.

Leia completo em: http://www.vermelho.org.br/blogs/blogdorenato/2010/02/11/os-lucros-dos-bancos-e-a-correlacao-de-forcas/

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Crise econômica global segue ladeira abaixo

http://www.vermelho.org.br

13 DE MAIO DE 2009 - 15h15

A economia global está perto de superar as dificuldades, à medida que alguns países já apresentam crescimento. Os bancos centrais devem ter estratégias de saída para evitar os riscos inflacionários. Foi o que disseram representantes de bancos centrais na recente reunião bimestral do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) na Basiléia, Suiça. A manifestação de otimismo não tem correspondência com a realidade — os sinais de que a crise econômica global ainda está descendo a ladeira são evidentes.

Por Osvaldo Bertolino



Os bancos centrais fazem um diagnóstico positivo do atual estágio da crise possivelmente para sinalizar aos czares da economia mundial que os alicerces da estrutura financeira não foram abalados. Eles mostram, com essas manifestações, que estão dispostos a se manterem firmemente instalados no leme da economia global, impedindo qualquer mudança de rota mais brusca. As avaliações sobre o resultado da reunião deixam isso absolutamente evidente.

A síntese dessa constatação foi expressada por Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), ao recomendar que os bancos centrais devem permanecer em alerta enquanto a “correção dos desiquilíbrios globais” continua e a incerteza rodeia a economia mundial. Segundo ele, ''estamos ainda em águas não navegadas, numa situação absolutamente excepcional desde 9 de agosto de 2007''. Mas o porto seguro está à vista. ''A economia mundial está perto de um ponto de inflexão com algumas (economias ‘emergentes’) tendo superado o ponto de inflexão'', disse Trichet.

Sinais precisam das autoridades monetárias

O presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, disse que China e Brasil foram os ''pontos de otimismo, considerados os sinais de que o mundo pode estar de fato se aproximando do ponto de inflexão, como antecipador do movimento global''. Já o presidente do Banco Central da Arábia Saudita, Muhammed Al-Jasser, qualificou a reunião ''como a mais otimista em um ano entre os bancos centrais''. Mas encaixou a ressalva: a grande questão é se as ''faíscas'' de recuperação são sustentáveis ou não.

Os sinais dessas autoridades monetárias precisam ser lidos com lupa de precisão. O jornal Financial Times, por exemplo, registra que os “frágeis sinais de reviravolta” na economia mundial já levaram a uma alta de 40% no índice de ações globais desde março. Da mesma forma, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as principais economias, disse que há sinais de ''pausa na desaceleração'' nas principais economias européias e na China.

Pacote de propostas para 2010

A causa desse respiro seria o fato de os bancos centrais em torno do mundo terem cortado as taxas de juros, aliado à injeção de centenas de bilhões de dólares em suas economias — principalmente nos sistemas financeiros — para frear a pior crise dos últimos 70 anos. O ponto é: só isso basta? Evidentemente que não. A grande interrogação está no epicentro da crise, os Estados Unidos. O país continua se contorcendo. A nova estratégia de saída envolve a retomada de compra de títulos públicos, a redução de juros e o reequilíbrio fiscal.

O governo do presidente Barack Obama planeja implementar um corte de impostos de pelo menos US$ 736 bilhões para famílias da “classe média” e de US$ 100 bilhões para negócios ao longo dos próximos dez anos. Esses cortes fazem parte do pacote de propostas do governo para o orçamento de 2010. ''Concedendo cortes de impostos aos pequenos negócios e a famílias de classe média, assim como a investimentos em inovação, estamos investindo diretamente em nossas comunidades, criando novos empregos e colocando nosso país no caminho da recuperação'', afirmou o secretário do Tesouro, Timothy Geithner.

Cresce déficits orçamentário e fiscal

Esses cortes podem ter conseqüências para a economia mundial. O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos informa que o déficit orçamentário de abril no país foi de US$ 20,91 bilhões. É o maior déficit orçamentário em abril em todos os tempos e o primeiro neste mês desde 1983. Os pagamentos de juros sobre a dívida federal somaram US$ 19,22 bilhões; os gastos militares ficaram em US$ 53,27 bilhões; os da Seguridade Social em US$ 56,65 bilhões; as despesas com benefícios do auxílio-desemprego somaram US$ 10,9 bilhões.

O déficit comercial também aumentou. As exportações caíram 2,4% e as importações recuaram pelo oitavo mês seguido. O déficit comercial subiu para US$ 27,6 bilhões, frente ao dado revisado para cima de US$ 26,1 bilhões em fevereiro. Foi a primeira vez que o déficit comercial expandiu-se em oito meses. Sinalizando que a demanda continua fraca no primeiro trimestre, as importações do país de bens e serviços recuaram 1% em março para US$ 151,2 bilhões, menor nível desde setembro de 2004.

Governo dos EUA ataca em várias frentes

Outro dado que revela a gravidade da crise é a redução, mais uma vez, pela Administração de Informação de Energia (AIE), da estimativa para a demanda mundial de petróleo em 2009, cortando sua previsão anterior em 420 mil barris por dia (bpd), para 83,67 milhões de bpd, o menor nível desde 2004. De acordo com a AIE, a estimativa é de que a demanda mundial por petróleo caia 1,8 milhão de bpd neste ano em relação ao nível de 2008. Nos Estados Unidos, o maior consumidor, a AIE reduziu sua previsão para a demanda neste ano em 140 mil bpd, para 18,85 milhões de bpd.

O governo norte-americano procura atacar em várias frentes. A intenção de endurecer a regulamentação em matéria de concorrência, suprimindo uma disposição adotada pelo governo do ex-presidente George W. Bush que dificultava os processos na justiça contra os grupos em posição de monopólio, é mais um exemplo de tentativa de atingir os fundamentos da crise. Esta disposição, que começou a vigorar em setembro de 2008, ''prejudicava os esforços do governo para coibir as situações de monopólio'', explicou o departamento da Justiça em comunicado.

Governo dos EUA rema contra a maré

A disposição suprimida fora introduzida com base na crença fundamentalista dos neoliberais de que os “mercados” corrigem seus excessos sozinhos, mesmo nas situações de monopólio. ''Os acontecimentos recentes mostram que não podemos depender apenas do mercado para garantir a proteção da concorrência e dos consumidores'', declarou Christine Varney, do departamento da Justiça.

A rigor, pode-se dizer que o governo rema contra a maré. O gigante europeu do aço ArcelorMittal, por exemplo, acaba de anunciar que suspenderá as atividades em parte de sua fábrica de Indiana Harbor, na região de Chicago, afetando cerca de mil trabalhadores diretamente. Na última semana, o Departamento de Trabalho divulgou que os empregadores norte-americanos cortaram 539 mil postos de trabalho em abril. A taxa de desemprego subiu para 8,9%, a maior desde setembro de 1983.

Setores chaves mergulhados na crise

Os setores chaves da economia continuam mergulhados na crise. A GM está a caminho de pedir proteção judicial contra falência ou de fazer uma reestruturação que eliminará atuais acionistas ao inundar o mercado com novas ações para compensar credores. O grupo está avaliando transferir sua sede de Detroit, vender fábricas nos Estados Unidos e renegociar o plano de “reestruturação” com o principal sindicato da empresa, afirmou Fritz Henderson, presidente-executivo da montadora.

Uma eventual decisão da empresa em abandonar Detroit pode representar outro golpe para a economia de uma região já prejudicada pela recuperação judicial da Chrysler e pelo declínio acentuado na produção de automóveis. Sob o atual plano da montadora, apoiado pela força-tarefa do governo norte-americano para o setor, a GM vai cortar outros cerca de 21 mil empregos em fábricas no país. Além disso, a empresa pretende reduzir em 40% o número de suas concessionárias, atualmente cerca de 6.200 nos Estados Unidos, até o final do ano.

Mais sinais de crise no sistema financeiro

Essas decisões têm efeitos multiplicadores. Um deles é a piora dos sistemas de saúde pública e seguridade social. Um relatório divulgado pela Casa Branca revela que o aumento do desemprego fez o setor se aproximar da insolvência. Os administradores dos fundos de pensão informaram que o programa de seguridade social deve esgotar-se em 2037, quatro anos antes do previsto. O fundo de saúde pública se esgotará em 2017. Timothy Geithner afirmou em nota que as novas previsões ressaltam a necessidade de uma ação bipartidária para enfrentar o problema por meio do que chamou de ''mudanças difíceis, porém possíveis''.

O sistema financeiro também emite sinais de que a crise no setor continua forte. Geithner disse que em breve irá propor uma lei para criar um fundo que seja suportado por grandes instituições e possa cobrir os prejuízos dessas companhias se elas falirem. ''Nosso julgamento é que precisa ser uma solução separada onde a responsabilidade do financiamento é assumida pelas grandes instituições em um nível proporcional a seus tamanhos'', disse ele em uma reunião com banqueiros.

O dólar como moeda de reserva mundial

Segundo Geithner, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos planeja reabrir o fundo de resgate de US$ 700 bilhões a bancos pequenos, uma vez que os maiores pagaram de volta ao governo parte do dinheiro recebido. Vários bancos empreenderam esforços para levantar capital, na expectativa de agradar ao governo — que exige um “colchão” mais forte contra uma recessão profunda, ou de provar que são saudáveis o suficiente.

Os Estados Unidos também agem no front externo. O presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Ben Bernanke, disse que o dólar será mantido como moeda de reserva mundial e que um “sólido” crescimento da economia norte-americana garantirá o valor da moeda. ''Acho que a questão é se o dólar vai ou não manter o seu valor, e eu acho que vai'', disse Bernanke. Ele sinaliza, com essa declaração, que os Estados Unidos não aceitarão a proposta de um novo sistema de reservas que elimine o dólar.

Ritmo do resto da economia mundial

Essa é uma das recomendações que a comissão nomeada pelas Nações Unidas, e liderada por Joseph Stiglitz, apresentou para ser discutida na reunião de alto nível da ONU para debater a crise financeira, que ocorrerá no início de junho. A discussão sobre o tema interessa principalmente à China, que detém muitos milhões de dólares em reservas. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a China possui as maiores reservas do mundo, seguida de Japão, Rússia, Índia e Taiwan.

O resultado das medidas norte-americanas certamente ditará o ritmo do resto da economia mundial, que também emite sinais desanimadores. Segundo o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, só a China pode surpreender positivamente. A economia chinesa, de fato, tem emitido sinais muito positivos. As vendas no varejo avançaram 14,8% em abril frente a igual mês de 2008. Nos quatro primeiros meses do ano, a produção acumulou expansão de 5,5% na comparação com um ano antes.

China mostra vigor da economia em abril

A China importou um recorde histórico de 57 milhões de toneladas de minério de ferro em abril, alta de 9% em relação há um mês e de 33% ante abril do ano passado, informou a Administração Geral de Alfândegas. Os dados também mostram que a China importou quase 900 mil toneladas de aço bruto, marcando o segundo mês seguido em que a entrada superou a saída no país, que é um exportador de aço desde 2005.

Zoellick ressaltou que grande parte do gasto na China tem vindo do Estado e que a dúvida agora é se o setor privado acompanhará o movimento. Um dado que merece atenção é o fato de as exportações chinesas caíram 22,6% em abril em ritmo anual, recuando pelo sexto mês consecutivo. Já as importações recuaram 23%. O superávit comercial do mês foi de US$ 12,9 bilhões, comparado a US$ 18,56 bilhões em março e a US$ 4,84 bilhões em fevereiro — mostrando o vigor interno do país.

A Europa na geografia mundial da crise

Trata-se de um movimento observado de perto pelos Estados Unidos, que têm interesses em uma abertura comercial ampla a fim de ajudar na resolução de seus problemas internos. O representante comercial norte-americano Ron Kirk disse que os grandes países “emergentes” — como China, Índia, Brasil e África do Sul — devem se empenhar mais na abertura de seus mercados para garantir um novo acordo comercial global, após dois dias de intensas negociações com seus interlocutores na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A Europa é outro ponto que precisa ser acompanhado de perto na geografia da crise econômica global. O FMI acaba de recomendar que os bancos europeus realizem “testes de estresse” similares aos feitos nos Estados Unidos. Os “testes” deverão ser realizados por supervisores nacionais, de acordo com diretrizes e metodologia padrão do comitê dos supervisores bancários europeus (CEBS, na sigla em inglês).

Déficit orçamentário da Alemanha

Enquanto não sai os “testes de estresse”, a economia da região mergulha cada vez mais fundo na crise. O governo alemão acaba de aprovar um plano para ''bancos ruins'' a fim de diminuir os ativos podres, alargando o déficit orçamentário. O déficit do país, tido por muito tempo como a “locomotiva” da economia européia, deve saltar para cerca de 6% do PIB no próximo ano e resultar em uma ação “disciplinatória” por parte da Comissão Européia.

A relação dívida/PIB deverá aumentar para cerca de 80% nos próximos dois anos, em resultado de uma menor receita e de um gasto maior no combate à crise global. ''Veremos um aumento do déficit nos próximos anos. Ele ficará na faixa dos 6% (do PIB) em 2010. E em 2009, ficaremos significativamente acima do nível de 3% (exigido pelo Tratado de Maastricht, a base teórica da economia da zona do euro)'', disse o Bundesbank, o banco central alemão. O governo alemão prevê um défitit de 3,9% do PIB neste ano e a Comissão Europeia estima um saldo negativo de 5,9% no próximo.

Brasil certamente será duramente atingido

Na economia real, as notícias também são péssimas. A produção industrial da zona do euro caiu 2% em março sobre fevereiro e despencou 20,2% ante igual mês de 2008, novo recorde de baixa, informou a agência de estatísticas Eurostat. A economia da Letônia desabou assustadores quase 30% no 1º trimestre. E o PIB da Islândia, um dos países mais atingidos pela crise mundial, sofrerá contração de impressionantes 10,6% em 2009.

Esses números dão razão aos prêmios nobéis de Economia Edward Prescott e Joseph Stiglitz, que previram uma “década perdida” mundial. E o Brasil certamente será duramente atingido — principalmente devido à reversão do curso do capital e à retração do comércio mundial, segundo Stiglitz. ''Mesmo assim, o Brasil está em uma posição de vantagem'', ponderou. Ele cita a melhor regulação do sistema bancário do país e as políticas monetárias de controle da inflação como fatores de resistência da economia brasileira.

Dúvidas sobre a política macroeconômica

Além disso, o fato de o país ser menos dependente do comércio mundial, já que ainda tem pequena participação no mercado global, também pode colaborar para a retomada do crescimento. ''O Brasil acertou, pois hoje tem espaço para cortar as taxas de juros e avançar'', completou Stiglitz. Edward Prescott concordou com o diagnóstico ao dizer que os “fundamentos macroeconômicos” são “sólidos”.

Resta saber se a política macroeconômica brasileira se ajustará às necessidades da economia real. Na reunião dos bancos centrais, Meirelles disse que a estratégia de saída da crise passará por acabar com os empréstimos pelas reservas, acabar com as isenções fiscais que foram dadas na crise atual e voltar já em 2010 ao superávit primário de 3,8%, comparado aos 2,5% atualmente.

Empresários tentam tirar proveito da crise

É, por assim dizer, a contradição fundamental que o Brasil terá de enfrentar. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, o país já está em recessão técnica, com dois trimestres consecutivos de queda do PIB. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse o problema do primeiro trimestre se deve a alguns empresários que tentam tirar proveito da crise.

Ele explicou que o país tinha 300 mil automóveis estocados, mas as empresas optaram em parar a produção e vender o estoque. “Quando fizemos a isenção do IPI, a indústria voltou a produzir e o brasileiro teve que entrar na fila para comprar um carro. Em vez de produzir, fizeram a opção de desovar o estoque, e assim vale para várias cadeias produtivas no país. Por isso tivemos um primeiro trimestre muito delicado'', disse.

Final da Copa do Mundo de 1958

O presidente afirmou também que tem chamado a atenção dos empresários para prestarem atenção em uma coisa: “É uma crise em que temos que provar quem é ousado e vai fazer as coisas na hora certa. Não é para ficar lamentando. Em qualquer atividade tem momentos de pico para cima e para baixo. Quando acabar a crise, não podemos começar do zero a fazer as coisas.''

Lula lembrou da final da Copa do Mundo de 1958, quando Didi colocou a bola debaixo do braço e andou calmamente até o centro do campo logo após o gol da Suécia, que abriu o placar. ''O Brasil tem que fazer isso, a lição de casa. Não vamos falhar'', disse o presidente, depois de lembrar que a seleção virou o jogo e venceu por 5 a 2. Em bom futebolês, resta perguntar: combinamos com os russos?

Com agências internacionais

domingo, 12 de abril de 2009

www.uol.com.br

08/04/2009 18h28

Banco do Brasil: Lima Neto nega pressão política




08/04/2009 - 13:18

Luis Nassif On Line: As mudanças no BB

Por Roberto São Paulo/SP

da Agência Brasil , Última modificação em 8 de Abril de 2009 - 13h05

Funcionário de carreira do Banco do Brasil é o novo presidente da instituição

Daniel Lima e Kelly Oliveira \Repórteres da Agência Brasil

Brasília - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou há pouco que Aldemir Bendine é o novo presidente do Banco do Brasil. Ele substitui Antônio Francisco de Lima Neto, que assumiu o cargo em dezembro de 2006. Bendine é funcionário de carreira do BB há 30 anos, e, até então, era vice-presidente de Cartões e Novos Negócios de Varejo da instituição.

Neste momento, Mantega concede entrevista sobre a saída de Lima Neto da presidência do Banco do Brasil. Pela manhã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia confirmado que ele deixaria o cargo, mas o nome do substituto não tinha sido anunciado…………………………………

Comentário

O Banco do Brasil tem essa dupla personalidade, de banco público e banco com capital em Bolsa, disputando mercado com bancos privados.

Tem vantagens de ser banco público, como acesso a depósitos públicos, repasse de recursos públicos, folha de pagamentos dos funcionários e o aval do Tesouro. Quando eclodiu a crise, por exemplo, o BB foi amplamente beneficiado por depósitos que fugiram de outros bancos.

A contrapartida é ser um instrumento de políticas públicas. É evidente que há limites para essa utilização do banco. Não se pode afetar seu desempenho, tem que se mensurar o custo de qualquer pedido que fira sua lógica econômica.

Mas não há nenhuma incompatibilidade entre cumprir a função pública e a privada.

Por exemplo, o governo definiu como prioritária a consolidação da agricultura familiar como fornecedora de biodiesel. O BB tem o Pronaf, para financiamento da agricultura familiar. Montou uma área social, importante para a imagem do banco e importante para a inclusão de novos clientes. Portanto, pode casar atuação social com busca de resultados.

Quando recebe a ordem de reduzir os juros, não há nada que fira seus interesses. Pelo contrário, o banco foi beneficiário de aumento de depósito e, com a redução, poderia avançar na conquista de market-share.

Os problemas do BB foram de outra ordem. No primeiro governo Lula, houve ampla infiltração política no banco, que causou enormes dissabores à corporação BB. Depois dos escândalos - que culminaram com a demissão do Diretor de Marketing, da diretoria da Cobra Informática, entre outros - a corporação sentiu-se fortalecida. E aí o corporativismo falou mais alto que a interlocução com a área econômica.

Deixou-se de lado a visão estratégica, a busca de market share e falou mais alto a competição com o setor privado - especialmente nos indicadores de rentabilidade. O banco se fechou em si, como se tivesse se sentido humilhado pela perda da liderança histórica do mercado bancário brasileiro, após a fusão Itau-Unibanco.

O banco manteve a rentabilidade, mas sua participação, na luta contra a crise, acabou sendo ofuscada pela Caixa Econômica Federal.

Aparentemente, a mudança irá promover ajustes de conduta que seguramente serão benéficas ao país, e provavelmente benéficas para o banco.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Spread: a gravidade da política de juros no Brasil






8 DE ABRIL DE 2009 - 18h47


A decisão do governo de trocar o presidente do Banco do Brasil mostra, de forma concreta, a disposição da equipe econômica de atacar um dos focos que travam a aplicação de políticas contra os efeitos da crise econômica global no país. Ao assumir o posto de Antônio Francisco de Lima Neto, o novo presidente do banco, Aldemir Bendine, terá pela frente, como disse o ministro da Fazenda Guido Mantega, um “contrato de gestão” — sua missão consiste em elevar o volume de crédito e reduzir o spread (a diferença entre o custo do banco para captar dinheiro e a taxa cobrada dos clientes). O episódio chama a atenção para a gravidade da política de juros no Brasil.

Por Osvaldo Bertolino



A “obsessão” do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de reduzir o spread bancário é um alento. Os lucros dos bancos — inclusive do Banco do Brasil —, não é de hoje, atingiram dimensões de escândalo. Dinheiro que poderia irrigar a economia entra nos cofres das instituições financeiras de uma forma inaceitável. Segundo cálculos da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP), só em 2008 os brasileiros pagaram R$ 134,5 bilhões em spread. Uma comparação sobre o custo do crédito no Brasil e em outros países demonstra que as taxas brasileiras são bem mais altas do que as cobradas no exterior, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

O estudo indica que o empréstimo para pessoa física no Brasil chega a custar dez vezes mais do que em uma agência européia do mesmo banco. No caso de pessoa jurídica, o brasileiro tem que pagar quatro vezes pelo empréstimo em relação ao valor cobrado nos Estados Unidos e na chamada Zona do Euro. O valor pago em spread em 2008 corresponde, por exemplo, a mais que o dobro do Orçamento anual do Ministério da Saúde ou a 289 milhões de salários mínimos. A maior parte dos R$ 134,5 bilhões foi paga nos empréstimos de pessoas físicas. No ano, os consumidores pagaram aos bancos R$ 85,4 bilhões e as empresas, R$ 49,1 bilhões, segundo a Fecomercio-SP.

A barreira do spread não se justifica diante do esforço do governo para elevar o volume de crédito. Recentemente, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou uma medida que oferece como garantia, para os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) emitidos pelos bancos de menor porte, os recursos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), com o objetivo de prover liquidez. A expectativa da equipe econômica é que os bancos tenham cerca de R$ 40 bilhões a mais para emprestar. Segundo informou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, o valor poderia ser superior a R$ 100 bilhões se todos os bancos fizessem a operação.

Transferência brutal de recursos

A aposta de Mantega é que, com maior crédito disponível na economia brasileira, haverá uma redução dos juros e, consequentemente, do spread. “Nós temos uma oferta de crédito maior. Isso significa que esses bancos que estão captando a taxas mais elevadas vão captar a taxas menores (CDB mais 1%) e isso diminui a taxa dos empréstimos. A tendência é que caia o spread por causa disso. Acredito que é um mecanismo que vai ser usado e que vai ajudar pequenas e médias empresas”, afirmou. Meirelles disse que as medidas do CMN objetivam a competição dos bancos para baixar juros.

São medidas louváveis, mas de pequeno alcance diante do tamanho do problema. O Brasil convive com a anomalia de uma agiotagem financeira oficializada, dirigida pelo Banco Central, alimentada pela indexação de juros instituída em 1964 — TR, TJLP, TBF, CDB, CDI, over, spread, Selic etc. A Assembléia Nacional Constituinte de 1988 pretendeu corrigir a anomalia existente estipulando juros máximos, para qualquer modalidade, de 12% ao ano, como era antes de 1964. Mas o poder granjeado pela direita com o Plano Real passou por cima do espírito da Constituição.

O governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) abriu as portas para a transferência brutal de recursos públicos para os bancos ao adotar a constante elevação dos juros como esteio da política de “estabilidade” da moeda. A medida provisória que instituiu o Plano Real anunciou o ''Fundo de Amortização da Dívida Mobiliária Federal'', o embrião do superávit primário que até hoje inferniza a vida brasileira. Os neoliberais venderam ações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e cortaram despesas orçamentárias para formar o ''Fundo de Estabilização Fiscal''.

Juros poderia ser caso de polícia

Antevendo o estrago que a turma de FHC promoveria, o então presidente da República Itamar Franco, que nunca foi o paspalhão que a mídia tentou pintar, pediu ao Congresso Nacional que agilizasse a regulamentação do artigo da Constituição que determina o limite de 12% ao ano para a taxa de juros. Ele, no entanto, era quase uma voz isolada no país. Mas logo se veria que sua preocupação tinha razão de ser — no primeiro dia útil do Real, a taxa de juros, puxada pelo Banco Central, disparou, chegando aos 12%. Um ano depois, já estava em 60%.

Poderia ser um caso de polícia. Antes de 1964, havia no Brasil crédito diferenciado e juro máximo de 12% ao ano. A agricultura levantava empréstimo no Banco do Brasil a 3,5% e 4% ao ano; a indústria, a 5% e 6% ao ano; o comércio e o transporte, a 6% e 7% ao ano. Como lembra o economista Ney Bassuino Dutra em artigo no Monitor Mercantil, na Rua do Ouvidor, na cidade do Rio de Janeiro, a polícia volta e meia corria procurando prender dois tipos de contraventores: um, que vendia “rabinho de coelho” para dar sorte; outro, agiota que emprestava dinheiro a juros aos funcionários públicos a 14% ao ano.

Além desse problema estrutural da economia brasileira, os juros do financiamento à produção incidem sobre os custos das mercadorias, elevando os preços. Essa elevação o Banco Central não considera inflação. Segundo Ney Bassuino Dutra, hoje respeitáveis organizações bancárias emprestam a 500% e 600% ao ano, amparadas pelo Banco Central, a institução criada para ser “o guardião da moeda nacional”. Ele lembra que outrora o Banco do Brasil, na condição de supridor de dinheiro, controlava os juros e o dinheiro emprestado, dentro do estabelecido pela “Lei da Usura” vigente, à produção, ao consumo e ao financiamento da casa própria, com juros compatíveis com a dignidade humana.

Liberdade para os bancos

Marcos Cintra, outro economista de renome, em artigo no jornal Diário do Grande ABC disse que um dos principais problemas do Brasil são os escandalosos spreads cobrados pelos bancos. “Através deles ocorre uma absurda transferência de riqueza das empresas e dos trabalhadores para o setor financeiro”, escreveu. Segundo Marcos Cintra, o Brasil tem um dos maiores spreads do mundo. “A diferença entre o que os bancos pagam para captar dinheiro e o que cobram nos empréstimos fechou em dezembro do ano passado em 30,6 pontos percentuais. Em média os bancos pagam 12,6% quando um investidor faz uma aplicação e cobram 43,2% quando emprestam aos seus clientes. Quando o spread se refere apenas às pessoas físicas ele é superior a 45 pontos percentuais”, disse.

O economista afirmou ainda que problema do custo do dinheiro no Brasil era equivocadamente focado quase que exclusivamente na redução da taxa Selic. “Porém, gradualmente os analistas perceberam que os juros que sufocam a economia brasileira são os aplicados ao tomador final. Para as empresas as taxas anuais ultrapassam 38% para o financiamento do capital de giro, 45% no desconto de duplicatas e 76% na conta garantida. Para as pessoas físicas superam 60% no crédito pessoal e 175% no cheque especial. Ou seja: os bancos multiplicam a Selic de três a catorze vezes quando emprestam para seus clientes”, escreveu.

Uma das propriedades do mercado financeiro brasileiro é oferecer liberdade para que os bancos decidam quanto irão cobrar sobre cada tarifa — e, inclusive, decidir quais serão as tarifas existentes. Há algum tempo, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) disse que há desconfiança de que os bancos brasileiros agem como um cartel na hora de estabelecer o preço de tarifas. O Banco Central, que deveria pôr freio nessa farra — a instituição, sob as ordens do banqueiro Henrique Meirelles, controla com exclusividade a Casa da Moeda (emissão de dinheiro), a entrada e saída de capitais, o câmbio, o juro, o balanço de pagamento das contas externas, entre outras atribuições —, na prática finge que nada vê.

Resposta de Henry Ford

A rigor, o Banco Central é o principal patrocinador dessa farra. A economista Sandra Quintela, do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone Sul (Pacs), revelou ao Monitor Mercantil que só em 2009 a gastança com juros e amortizações da dívida consumirá R$ 234 bilhões, mais R$ 756 bilhões com amortizações via emissão de títulos, o que significa a metade de todo o Orçamento. ''Enquanto isso, para toda a folha de pessoal estão previstos R$ 169 bilhões, incluindo todos professores, médicos e demais servidores ativos, aposentados e pensionistas'', afirma. A economista destaca que a crise torna claro como a dívida pública é o centro dos problemas nacionais.

O cidadão Jonathan Teixeira resumiu a ópera ao revelar como funciona a farra financeira, em carta publicada no ''Painel do Leitor'' do jornal Folha de S. Paulo no dia 26 de agosto 2002. ''Deixa eu ver se entendi: os bancos pegam meu dinheiro, que pagam quando muito a 6%, e emprestam a 12% para os exportadores. Os exportadores, em vez de produzir, exportar e gerar empregos, emprestam o meu dinheiro para o governo a 25% e embolsam a diferença. O governo paga a eles com o meu dinheiro, dos meus impostos, e isso não é ilegal?!'', escreveu. Muito tempo antes, Henry Ford, industrial norte-americano que revolucionou a indústria automobilística no começo do século 20, resolveu a equação. ''Sabe-se muito bem que o povo não entende nada do sistema bancário e monetário, porque, se entendesse, acredito que haveria uma revolução antes de amanhã cedinho”, disse.

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