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sábado, 15 de março de 2025

O Socialismo no século XXI - João Amazonas*

João Amazonas, líder histórico do PCdoBrasil, militante comunista por 67 anos


O socialismo, como corrente do pensamento avançado, projeta-se sobre o novo século como alternativa inevitável ao capitalismo decadente. É a grande bandeira da renovação social


Já vai distante a época dos profetas que vislumbravam o futuro com a suposta ajuda da divindade. Em geral prediziam as calamidades, os males que atormentariam a humanidade, o fim do mundo. Apareceram também os que negavam a possibilidade de conhecer o porvir. "O futuro a Deus pertence", sentenciavam. Nos tempos modernos surgiram verdadeiros profetas. Já não eram adivinhos, mas pensadores apoiados na ciência, no conhecimento das leis que regem a natureza, a sociedade e conformam o pensamento humano. A predição deixou de ser fruto da simples conjetura, mas resultado da elaboração de teorias e premissas que refletem os processos do eterno movimento de tudo que existe no universo.

Vivemos os anos finais do século XX pleno de contradições. Muitos gostariam de conhecer a feição provável dos acontecimentos vindouros, os caminhos por onde trilhará a humanidade em busca de uma vida feliz. O futuro não pode, porém, desligar-se do passado, do exame crítico da época que vai ficando para trás. Esse exame dá indicações, às vezes precisas, das perspectivas vindouras, porquanto a História segue rumos definidos por leis objetivas.

O século XX começou com a passagem do capitalismo florescente da livre concorrência para a sua fase monopolista, imperialista. Todo este século transcorreu sob o domínio dos monopólios que, afinal, converteram-se em monopólios gigantes, os oligopólios transnacionais que aceleram a globalização da economia mundial.

A par dos progressos indiscutíveis na vida da sociedade ocorridos neste século, na produção, na ciência, nas artes, nos meios de comunicação, na identificação de fenômenos ecológicos, no aumento considerável da população do planeta, destacou-se também o lado sombrio, perverso, do sistema monopolista: duas grandes guerras nas quais pereceram cem milhões de pessoas, guerras variadas de dominação colonial, extermínio nuclear de populações indefesas, supressão violenta da liberdade, alargamento do fosso das desigualdades sociais.

Mas o século XX registra também memoráveis lutas sociais e políticas: revoluções, resistência armada aos opressores, levantes camponeses, combativas greves operárias, embates vigorosos contra o fascismo em defesa das liberdades.



Os fundadores do PCB - Partido Comunista do Brasil, em 25 de março de 1922, em Niterói


A revolução socialista na velha Rússia dos czares é o grande marco da nossa época, seguida mais tarde – por outro evento significativo, a proclamação da República Popular da China. Destaque especial teve ainda o movimento da descolonização. Muitos países, após a II Grande Guerra, sacudiram o jugo da opressão nacional, tornaram-se independentes.

Esse processo violento, contraditório, que já dura cem anos é, em última instância, o lento e prolongado parto da História. O capitalismo chegou ao fim, já não tem condições de resolver os magnos problemas sociais e políticos gerados pelas próprias contradições que encerra. Não pode assegurar a convivência pacífica entre os povos, nem garantir o exercício da liberdade sempre mais restringida. Não pode deter a exclusão social de consideráveis parcelas da população laboriosa, nem impedir o crescimento da miséria que se alastra por todo o Globo. O socialismo, nova forma de organização da sociedade, apresenta deficiências naturais de um regime que acaba de nascer, carece de experiência suficiente para se consolidar em definitivo como sistema progressista. Sofreu derrota passageira na União Soviética e no Leste europeu, depois de haver alcançado importantes vitórias na edificação da nova vida.

A experiência histórica demonstra que o socialismo não conseguirá afirmar-se de um só golpe. Sua consolidação e enraizamento universal registrará muitas vitórias e também reveses. A construção da nova sociedade é mais difícil e complicada do que antes se imaginara. Erra quem pensa que o socialismo morreu definitivamente. Erra igualmente quem o imaginava um processo em linha reta, somando sempre vitórias e expandindo-se sem obstáculos, continuadamente. Também o capitalismo não desaparecerá em cada país com uma única cutilada. De certo modo, a morte do capitalismo está relacionada com a construção êxitos a do socialismo. Em suma, não se constrói a nova vida nem liquida o capitalismo de uma só vez.

A transformação socialista da sociedade é um largo processo de lutas e de aprendizagem permanente. Transferir os meios de produção capitalista para a comunidade é relativamente fácil com a vitória da revolução. Mas essa transferência abrange tão somente a área econômica. Como organizar dinamicamente em todos os aspectos a nova sociedade é obra que demanda tempo e visão progressista, revolucionária.

Quando apareceram as primeiras idéias que sinalizavam a necessidade de substituir o capitalismo, aí pela metade de século XIX, surgiram os utopistas. Saint-Simon, Owen, Proudhon imaginavam, ou melhor, idealizavam a sociedade perfeita do futuro que terminaria com a exploração do homem pelo homem, com a corrida desenfreada ao lucro. Eram pregoeiros de ilusões, de utopias.

O socialismo, em certo sentido, é o novo desconhecido. Até hoje, em vários países, após a revolução, não se sabia exatamente como construir integralmente a sociedade do futuro. Tinha-se o plano geral, de base científica, e as forças militantes do partido de vanguarda. Já é muito, mas não o suficiente, pois além da construção econômica precisa-se forjar a vida espiritual das grandes massas. A sociedade reflete a base material em que se assenta, não, porém, de modo direto. Condicionadas pela base material, as massas criam suas próprias formas de existência. Hábitos, moral, ética, convivência social, vínculos culturais não se forjam de um dia para o outro.



"Fevereiro de 1917"
(História da URSS em cartazes de propaganda https://43419.tilda.ws/page1962866.html#rec37214006)




O socialismo não pôde vencer simultaneamente em todos os países, nem mesmo, como supunham Marx e Engels, nos mais desenvolvidos. Triunfou na Rússia, na China, na Coréia, no Vietnã, na Albânia, em Cuba. As idéias e modos de vida aí predominantes são de países atrasados. Tais idéias e modos de vida entram em contradição com os projetos avançados que se pretendem instaurar. É preciso tempo para reverter essa situação. Ademais, a pressão do modo de vida capitalista dos países ricos repercute entre as populações onde se instituiu um regime diferente, progressista, que não pode, de imediato, assegurar condições de vida confortável a todo o mundo. Certamente, nos países ricos, a par do conforto que desfrutam as classes privilegiadas, existe a imensa faixa dos que vivem na pobreza. Essa faixa, na propaganda capitalista, fica na sombra, não aparece.

O século XXI será cenário da grande batalha histórica que se desenvolve no seio da sociedade humana. Batalha da luta entre o novo que procura abrir caminhos, tradicionais ou inusitados, ao progresso social, e o velho que resiste por todos os meios, pacíficos e não-pacíficos, a desaparecer. Quanto tempo ainda durará esse enfrentamento, é difícil, mesmo impossível prever.

O capitalismo monopolista ingressa nessa batalha, na viragem do século, sustentando a orientação neoliberal que seus apologistas tentam fazer crer tratar-se da nova forma, irreversível, de desenvolvimento da sociedade. A verdade, no entanto, indica que o neoliberalismo é a mais brutal ofensiva do grande capital contra todas as conquistas alcançadas pela humanidade, em termos de democracia, direitos sociais, avanços culturais, identidade nacional, desenvolvimento econômico independente.

Haja vista o quadro desolador do mundo de hoje, em boa parte resultado dessa ofensiva neoliberal:

Um bilhão e 300 milhões de pessoas vivem na pobreza extrema, 800 milhões passam fome; cerca de 900 milhões de trabalhadores vivem o drama do desemprego e do subemprego. Mais de um bilhão de pessoas não conseguem usufruir cuidados básicos de saúde e ter livre acesso à educação.

A regressão antidemocrática, com a degradação da democracia política e os atentados às liberdades fundamentais, é expressão chocante da ofensiva reacionária. A soberania nacional dos países menos desenvolvidos sofre restrições e ameaças de toda ordem. Pari passu, a concentração das riquezas atinge níveis inimagináveis: 358 bilionários possuem fortunas iguais aos rendimentos anuais de 45% da população do mundo. Esta situação paradoxal não pode deixar de suscitar anseios de mudança na forma de organização da sociedade.

De outra parte, o socialismo, como corrente do pensamento avançado, projeta-se sobre o novo século como alternativa inevitável ao capitalismo decadente. É a grande bandeira da renovação social.

Contudo, o socialismo ressente-se da derrota que sofreu na ex União Soviética e no Leste europeu. Suas idéias transformadoras da sociedade perderam força entre as massas. Evidenciou-se profunda crise no campo da teoria, da ideologia. Proliferam por toda parte "críticos" do marxismo, os que renegam princípios e a própria organização de vanguarda, assustados com o final desastroso do regime socialista na URSS e com a campanha anticomunista que se seguiu. "Ser revolucionário - dizem - é coisa do passado, velharias de outros tempos ... "

Sem vencer essa crise, o socialismo não poderá avançar, nem comandar exitosamente a luta emancipadora de milhões de trabalhadores, dos explorados e oprimidos. Não há movimento revolucionário na ausência de teoria revolucionária.

Certamente vencer a crise no plano da teoria não significa repelir simplesmente fórmulas ultrapassadas, posições dogmáticas, sectárias. Impõe-se a defesa dos fundamentos da teoria marxista, seu espírito crítico e revolucionário, desenvolve-la criadoramente, ligada ao tempo em que vivemos. Já Lênin, nos primórdios deste século, dizia: "Não temos a doutrina de Marx como algo acabado, inatingível; ao contrário, estamos persuadidos de que ela somente coloca as pedras angulares da ciência que os socialistas devem fazer progredir em todos os sentidos se eles não querem se atrasar na vida". É preciso renovar o marxismo revolucionário, extrair as lições das primeiras tentativas de instauração do socialismo, particularmente na ex- União Soviética, a fim de que o movimento progressista continue avançando. Longe de pretender fazer prognósticos infalíveis acerca da marcha dos acontecimentos políticos do próximo século, pode-se afirmar que prosseguirão as lutas que vêm de decênios passados por transformações da sociedade e que caracterizam a nossa época como a época da transição do capitalismo para o socialismo. Inevitavelmente, contra o neoliberalismo, expressão acabada do capitalismo declinante, levantar-se-ão os trabalhadores, os camponeses, os democratas, os patriotas, a juventude sem futuro, as massas populares atiradas à miséria.

Entretanto, muitos desses movimentos sociais carecerão de perspectiva política mudancista, enquanto perdure a crise do marxismo. Neles atuarão por certo tempo os sotisticadores social-democratas, pretendendo inutilmente "reformar" o capitalismo.

Voltará o socialismo a triunfar na Rússia?

É possível que os comunistas voltem ao poder na Rússia pós-revolucionária. O capitalismo aí instaurado contrasta brutalmente com a vida no tempo do socialismo, apesar das deficiências. O povo russo tentará livrar-se das calamidades que recaíram sobre o país com o retorno ao capitalismo. Mas a simples volta dos comunistas ao poder não significará ainda o triunfo do socialismo científico. A Rússia perdeu o rumo revolucionário ao final da década de 50. E não conseguiu até hoje desenvolver a teoria marxista, analisar em profundidade a causa dos erros cometidos, como e por que a União Soviética retrocedeu ao capitalismo. O revisionismo de Kruschov, Gorbachov, Brezhnev e outros não são meros desvios ideológicos, é toda uma doutrina contra-revolucionária destinada a solapar as bases do socialismo, desorientar os trabalhadores e o povo, obscurecer a consciência política das massas.

No curso do século XXI a crise de teoria e da construção socialista será superada. Em vários países observam-se sérios esforços para enfrentar essa tarefa de magnitude histórica. A China, passando por altos e baixos, acabará consolidando o regime socialista que sofreu abalos com os erros do passado, nomeadamente no período da chamada revolução cultural proletária. O Vietnã, arrasado pelas agressões bélicas da França e dos Estados Unidos, será reconstruído e fortalecerá a via socialista. Em outros lugares onde houve revoluções e retrocessos, o socialismo terminará predominante.

No conjunto do mundo, particularmente nos países menos desenvolvidos, a bandeira da luta pela liberdade e pela independência nacional, abandonada pela burguesia capitulacionista passará às mãos das forças progressistas que almejam transformações radicais da sociedade. Grandes países, como a Índia e o Brasil, apresentando formas inovadoras de passagem ao socialismo, poderão alcançar expressivas vitórias.

Assim será o século XXI. Em seus começos, haverá sombras e luzes, mais sombras do que luzes. Depois, o quadro se inverterá. A humanidade viverá tempos de grandes esperanças.




*JOÃO AMAZONAS – presidente nacional do Partido Comunista do Brasil.

Revista Princípios

EDIÇÃO 45, MAI/JUN/JUL, 1997, PÁGINAS 6-8










quinta-feira, 13 de março de 2025

Os juros altos escravizam o Brasil - Paulo Vinícius da Silva




O dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem. Berimbau. Vinicius de Moraes



A luta contra os juros altos marca o Brasil desde o Plano Real, e não é à toa. A constituição do mercado da dívida pública foi o mecanismo principal que deu ao parasitismo do capital financeiro uma lucratividade semelhante, substituindo os lucros escandalosos obtidos pela hiperinflação, que era razão de instabilidade econômica, social e política. Ademais, o PSDB cunhou em FHC, ministro de Itamar, o título de “criador do Real que derrotou a inflação”, beneficiando-se do pavor na memória coletiva brasileira. 


Desde 2003, o Brasil tenta desmontar essa bomba, não é uma tarefa fácil. Se vacilarmos, a direita dá o Golpe. Isso expressa a duradoura dominância do capital financeiro parasitário como topo da pirâmide de classes brasileira, que é o fundamento principal da ascensão política da extrema direita aqui e além.



Lembro, ainda quando era Diretor da UNE, da bandeira “Mudança da Política Macroeconômica” nas manifestações de 2003 a 2014. Certo, era uma palavra de ordem difícil, mas queria se opor ao “Tripé Macroeconômico” do Plano Real, intocado até agora, qual seja: Regime de Metas de Inflação, Câmbio Flutuante e Taxa SELIC. Desta última é que deriva o custo do crédito para pessoas físicas e jurídicas. Ora, para o indivíduo pode parecer muito melhor ter uma rentabilidade alta sem pregar um prego e com garantia do Tesouro, do que produzir o que quer que seja. Por isso dói nos parasitas, acreditem, o crescimento do emprego no Brasil, que atingiu patamares históricos sob Lula.


Quem produz, trabalha e consome - especialmente as pequenas e médias empresas e a classe trabalhadora - tem de pagar taxas de juros exorbitantes, em juros compostos, sob a forma de capitalização das tabelas PRICE e SAC. O Agronegócio tem o Plano Safra, não passa por isso, tem juros subsidiados, menores, para plantar monocultura e exportar commodities in natura. Assim, o Brasil tem financiado através dos bancos públicos a expansão do agronegócio, mesmo com as gritantes evidências do prejuízo ambiental e social que parte do setor promove.


O salário, se cresce, cresce pouco, já os juros das dívidas, crescem muito, especialmente se em caso de atraso. Não dá para alcançar. As medidas de redução do patamar dos juros - no cartão, por exemplo - são importantes, mas insuficientes diante da armadilha criada no Banco Central por seu Presidente anterior, Roberto Campos Neto,que fez tudo para deixar o dólar subir e os juros também. Há um bloco social gritando dia e noite a favor da manutenção e do aumento de juros. São poucos, mas detém imenso poder e emparedam o governo. A imprensa empresarial vive de renda no sistema financeiro.


Enquanto isso, adoecem os bancários da Caixa, do BB, BRB, BASA, BNB, BANPARÁ, BANRISUL, etc no ingrato ofício de ser pressionado a vender o crédito num patamar de juros altíssimo. Você acha que um bancário na China ou nos EUA empresta para seus clientes  a taxas MENSAIS? Não, o juro é ANUAL. No Brasil, os juros são divulgados por mês para o cliente não dar um infarto na hora de fazer um empréstimo. 


Por um lado, o sistema financeiro ganha sem fazer nada, especulando com o valor do dólar, ganhando um absurdo com títulos públicos. Por outro, o mesmo sistema financeiro impõe um patamar de juros tão alto, que surge uma nova servidão diante de dívidas que não param de crescer. Brasileiro é bom pagador, e sofre, e paga muito, e empobrece, e quebra. 


A luta de classes permite ver, como disse Vinícius, que “O dinheiro de quem não dá é o trabalho de quem não tem”. São inseparáveis os ganhos históricos no setor financeiro com a escravidão por dívida promovida com as taxas É dívida que faz um motorista de aplicativo se submeter a um regime de 14 horas de trabalho diário. E é a SELIC tão elevada que depois se multiplica para virar as taxas de juros cobradas no crédito. 


O sistema financeiro, desse modo, a classe dominante escravista brasileira: cruel, burra e infecunda, a viver do trabalho alheio. Quem ganha tanto com juros altos, especulação financeira sem riscos, com garantia e vantagens no imposto de renda só poderia odiar a Presidenta  Dilma, quem baixou as taxas de juros. Foi esse crime perfeito que se radicalizou com o Golpe de 2016, com a Ponte Para o Futuro de Temer e o governo Bolsonaro. Virou a farra do boi. E caiu no colo do Lula. 


Por isso, o grande acerto do programa de crédito consignado para trabalhadores da iniciativa privada, lançado pelo Presidente Lula. Ele, que denunciou tanto os juros altos, deu com a cara no muro formado pelo mercado financeiro, pela mídia empresarial e pela coalizão dos políticos a seu serviço. Não é menos verdade que sequer pôde Lula contar com os maiores bancos públicos, o BB e a Caixa. Os lucros demonstram, o patamar dos juros também, as metas mais ainda: o sistema gira sozinho como uma imensa bomba de sucção, retirando recursos da economia produtiva para esterilizá-los e pagar caro por isso, sem produzir um cibazol partido e desindustrializando o país. Nem os bancos públicos trabalham contra esse sistema. 


Lula e Haddad acharam um jeito: se baixar o patamar de juros para os trabalhadores formais, é possível baixar de modo geral os juros. Também poderão fazer a portabilidade de dívidas com juros menores. Mas isso demonstra as mãos atadas, por um lado, e a persistência de Lula, por outro. Resta saber se os bancos públicos, especialmente a Caixa e o BB, cumprirão o que prometeram nos discursos do lançamento do programa de crédito consignado para trabalhadores formais. Lágrimas de crocodilo não me sensibilizam. Queremos saber o tamanho da redução do spread, antes de comemorar. Aí sim.





É nesse contexto que na terça-feira, 18/3/2025, realizam as centrais sindicais atos públicos nas sedes do BACEN em Brasília e São Paulo às 10h (por enquanto). Se você deve, você é nosso convidado(a). As centrais também discutem o desafio de unificar o Primeiro de Maio. Se o Banco Central ajudar na redução da taxa SELIC, ajudará imensamente o Brasil, mas essa é uma batalha a ser vencida nas redes e nas ruas, uma das páginas mais importantes da construção da Frente Popular no seio da Frente Ampla. Essa é uma clivagem importante. Na Frente Ampla couberam inclusive os neoliberais. Só a união dos que trabalham e produzem pode libertar o Brasil da especulação parasitária e destrutiva, da nova escravidão por dívida e da burrice capitalista que ameaça a vida na Terra. Vencer o neoliberalismo é fundamental para libertar as imensas potencialidades da Nação Brasileira e deve ser o elemento de coesão das parcelas mais avançadas na Frente Ampla.




domingo, 23 de julho de 2023

Leandro Demori escancara a falta de vergonha do sistema tributário brasileiro para 2,5 mil super ricos! Twitter

 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Concepções Sindicais e Sindicalismo Classista



O que é sindicalismo classista?

Augusto César Petta - « CES Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho

PRINCÍPIOS DA CTB




UNIDADE

A busca da mais ampla unidade da classe trabalhadora é um princípio basilar da CTB. Nossa classe se compõe de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes categorias, ramos e setores da economia, jovens e idosos, ativos e aposentados,negros, brancos e índios, empregados e desempregados, formais e informais, rurais e urbanos, públicos e privados. A união das diferentes categorias contra a exploração capitalista quea todos aflige, no campo e nas cidades – independente da diversidade de profissões, qualificações, situação social, vínculo laboral, gênero, raça, etnia ou orientação sexual –, é fundamental para o êxito das lutas e conquista dos objetivos táticos e estratégicos do movimento sindical. Historicamente,a unicidade sindical, instituída em 1939 e consagrada no Artigo 8º da nossa Constituição, tem se revelado uma norma preciosa para garantir a unidade no âmbito dos sindicatos. A CTB defende com firmeza a unicidade, proclama a necessidade de união das centrais e combate, com vigor, todas as concepções e iniciativas que promovem a divisão das categorias e o desmembramento das bases.

DEMOCRACIA

A democracia, representativa e participativa, é essencial para a unidade e a luta da classe trabalhadora e do movimento sindical. A vida democrática que a CTB defende é fundamentada na participação ativa dos trabalhadores e trabalhadoras nos embates políticos e na vida das entidades sindicais,definição de suas reivindicações, mobilização para a luta, eleição dos órgãos dirigentes, revogação de mandatos, liberdade de expressão e debate, bem como o respeito às decisões da maioria. Uma democracia efetiva vem desde a base e busca transformar a todos e todas em sujeitos efetivos da história. Nossa central buscará ser exemplo e escola de democracia. Concebemos a democracia como um valor intrínseco à emancipação dos explorados, uma postura e uma forma de vida cotidiana, garantia do mais amplo processo de participação e diálogo. Entendemos, ao mesmo tempo, que democracia também pressupõe respeito e obediência às decisões e deliberações coletivas.

INDEPENDÊNCIA CLASSISTA

Defendemos a liberdade e autonomia sindical. Queremos nossas entidades livres e independentes dos patrões, governos, credos religiosos e partidos políticos na definição dos seus objetivos e campanhas e na luta pela transformação social. É fundamental que o reconhecimento de nossas entidades venha da representatividade efetiva e da confiança nelas depositadas pela base e pelo conjunto da classe trabalhadora.Não abriremos mão de direitos ou conquistas sociais arrancadas com muitas lutas ao longo da história. Lutaremos sempre para ampliar nossos direitos e melhorar a qualidade devida de todo o povo brasileiro.

SOLIDARIEDADE E INTERNACIONALISMO

A CTB deve promover os valores da solidariedade de classe, em âmbito local, nacional e internacional, em contraposição ao individualismo predatório propagado como suprema virtude pela concorrência capitalista e pelo neoliberalismo; deve contribuir para o fortalecimento e êxito das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, onde quer que se encontrem, contra todas as formas de injustiça, exploração e opressão social, política, econômica, religiosa ou cultural; deve fortalecer a idéia e a prática de que nossa força está na união e que somente unidos e organizados podemos enfrentar e vencer as forças neoliberais do capitalismo globalizado, imperialista, e seu neocolonialismo planetário.

A luta da classe trabalhadora é internacional. O capitalismo avança, constrói e destrói coisas belas em todos os continentes, mas revela-se insuportável e insustentável, pois promove um desenvolvimento desequilibrado, que em sua evolução histórica tem gerado guerra, morte, miséria, destruição, exclusão e injustiça econômica e social. Precisamos superar o corporativismo e unificar as lutas. Hoje mais que nunca é necessário fortalecer internacionalmente a luta daqueles que dependem única e exclusivamente de seu trabalho para sobreviver. É indispensável promover o internacionalismo proletário e defender projetos alternativos ao capitalismo e com orientação socialista.

ÉTICA NA POLÍTICA

A ação política deve ser guiada por princípios éticos,idéias e objetivos elevados. Nossa ética está embasada nos princípios do humanismo, do respeito e solidariedade entre os seres humanos e os povos, do compromisso com os interesses coletivos da classe trabalhadora, com a vida e o meio-ambiente, com a justiça social e com a paz e a fraternidade humana.

COMBATE À DISCRIMINAÇÃO

Não aceitamos os preconceitos, as discriminações e as intolerâncias, seja de cor, raça, etnia credo, origem, geração, classe social, gênero ou orientação sexual. Lutaremos com vigor por uma sociedade totalmente livre do machismo, da dominação de classe, do racismo e da homofobia, males estimulados pelo capitalismo que maculam e enfraquecem os ideais de igualdade e justiça social na sociedade brasileira.

EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES E DOS NEGROS

Compartilhamos a convicção de que sem a emancipaçãodas mulheres, dos negros e outros segmentos oprimidos e discriminados da nossa sociedade não se poderá falar em libertação da classe trabalhadora e tampouco será aberto o caminho para uma nação justa, fraterna e igualitária.

SOCIALISMO

A razão de ser do movimento sindical é a luta já secular contra a exploração do trabalho pelo capital. A vitória completa do sindicalismo pressupõe, por conseqüência, o fim da exploração e de todo tipo de discriminação, a prevalência daigualdade, da justiça social, da fraternidade e da paz entre asnações. Isto só virá com a derrocada do capitalismo e a construção de um novo sistema social, o socialismo, caminho obrigatório para a superação da divisão da sociedade em classes sociais e o fim das desigualdades sociais e da exploração dohomem pelo homem. É preciso reconhecer de forma crítica e autocrítica os erros cometidos nas diferentes experiências socialistas do século XX para não repeti-los no século XXI, ainda que seja também necessário frisar a grandiosa contribuiçã oda revolução soviética para o avanço dos direitos sociais em todo o mundo. Defendemos um socialismo fundado na soberania e na valorização da classe trabalhadora, com as cores e a cara do Brasil. Entendemos que a idéia e o projeto de uma sociedade justa, fraterna, sustentável e equilibrada, fazem parte do espírito humano e é o coroamento da luta contra todas as formas de opressão e exploração. A CTB defende outro modo de produção, uma forma de produção solidária, não predatória, não consumista e não centrada nos valores do individualismo, concorrência, anarquia e destruição característicos da sociedade capitalista. Lutamos por uma sociedade ética, fraterna e a caminho de um mundo mais justo e sóbrio para todo o planeta e a humanidade. O socialismo é o ideal maior da classe trabalhadora.

DEFESA DOS DIREITOS SOCIAIS

Frente à feroz ofensiva do capitalismo neoliberal contraos direitos conquistados pela classe trabalhadora durante os últimos séculos, é indispensável defender com energia a manutenção e ampliação dos direitos sociais; o efetivo direito ao trabalho, à saúde, à segurança, à livre escolha da profissão; o livre, inalienável e irrestrito direito de greve; a redução progressiva da jornada de trabalho; a universalização dos direitos sociais e dos serviços públicos; o aumento da participação dos salários na renda nacional; a remuneração digna e igualitária.A CBT não aceita nenhum direito a menos, só direitos a mais.

TRANSPARÊNCIA

Os sindicatos e entidades sociais e populares não são empresas. Seu objetivo central não é o lucro e sim a luta por igualdade e justiça econômica, política e social. Nossos sindicatos precisam estimular a reeducação dos corpos, almas e mentalidades, contribuindo para a preparação dos novos homens e das novas mulheres para uma nova sociedade. Temos que desenvolver em nossa central, confederações, federações e sindicatos espaços de participação e de prestação de contas. Devemos zelar pela transparência, ética, seriedade, competência e profissionalismo. Nossas organizações devem ser exemplos de dignidade, fraternidade e solidariedade, individual e de classe.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Vivemos hoje uma séria e profunda crise ambiental, que coloca em risco a sobrevivência do planeta e da civilização humana. Defendemos uma sociedade que valorize o ser humano, a natureza e a vida. Mais que nunca, hoje é fundamental construir um amplo movimento ambientalista de cunho socialista e anticapitalista. Um movimento de defesa da vida e contra a forma de desenvolvimento degradante e excludente resultante da livre expansão do capital. A CTB, enquanto Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil, luta poruma nação livre, soberana, próspera, justa, solidária, sustentável, democrática e progressista.

EDUCAÇÃO

A CTB concederá especial atenção à educação e formação da classe trabalhadora, indispensável à elevação da consciência social e consolidação de uma identidade classista, essencial à luta por uma sociedade sem explorados e/ou exploradores.


 

O Anarquismo - Concepções Sindicais - Centro de Estudos Sindicais

Concepções Sindicais - O Tradeunismo

ALTAMIRO BORGES

O trotskismo, corrente política contra-revolucionária (1984)

 João Amazonas

 

 

 

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Xi Jinping: Que o multilateralismo ilumine o caminho da humanidade - Discurso completo em Davos - Portal Vermelho

“A história avança e o mundo não voltará a ser o que era no passado”.


por Wevergton Brito

PORTAL VERMELHO
Publicado 25/01/2021 21:16 | Editado 26/01/2021 13:00


O presidente chinês, Xi Jinping, participou, nesta segunda-feira (25), do Evento Virtual da Agenda de Davos do Fórum Econômico Mundial (FEM) a convite do fundador e presidente executivo do FEM, Klaus Schwab e fez um discurso especial via link de vídeo, diretamente de Pequim. Foi, sem dúvida, um discurso para a história, focado nos “valores centrais e os princípios básicos do multilateralismo”.

Direito ao desenvolvimento, ecologia, reforma da governança global, vacina contra a Covid-19 como bem público, defesa da paz e dos países mais fracos, nada ficou ausente, inclusive o anúncio de uma China mais assertiva no cenário internacional em prol desses princípios.

Destaco trechos do discurso, sugerindo, no entanto, que o internauta leia a íntegra que está publicada logo depois dos trechos selecionados.


A diversidade de modelos sociais

“Não haverá civilização humana sem diversidade, e essa diversidade continuará a existir por tanto tempo quanto podemos imaginar. A diferença em si não é motivo para alarme. O que soa o alarme é a arrogância, o preconceito e o ódio; é a tentativa de impor hierarquia à civilização humana ou de impor a própria história, cultura e sistema social aos outros.”

Em defesa do planeta terra, cooperação global


“A Terra é nossa única casa. Aumentar os esforços para lidar com as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável afeta o futuro da humanidade. Nenhum problema global pode ser resolvido por um único país. Deve haver ação global, resposta global e cooperação global.”

Uma nova guerra fria é o caminho para o confronto

“Construir pequenos círculos ou iniciar uma nova Guerra Fria, rejeitar, ameaçar ou intimidar os outros, impor deliberadamente dissociação, interrupção do fornecimento ou sanções e criar isolamento ou estranhamento apenas empurrará o mundo para a divisão e até para o confronto.”


Importância do Direito Internacional e da ONU

“Precisamos ser enérgicos em defender o estado de direito internacional e firmes em nossa determinação de salvaguardar o sistema internacional centrado na ONU e na ordem internacional baseada no direito internacional.”

Um recado para Biden?


Comentário: Como se sabe, os governos democratas utilizam, na arena internacional, o que alguns analistas chamam de “multilateralismo assertivo”, que seria uma forma mais branda, mas por vezes não menos agressiva, de impor os interesses unilaterais dos EUA combinando a instrumentalização de espaços multilaterais com o uso da força ou a ameaça ao uso da força. Embora em nenhum momento do seu discurso Xi Jinping faça referência direta aos EUA, o trecho abaixo pode ser identificado como um recado para o recém empossado governo democrata.

“O forte não deve intimidar o fraco. A decisão não deve ser tomada simplesmente pela exibição de músculos fortes ou com o aceno de um punho grande (…) O ‘multilateralismo seletivo’ não deve ser nossa opção (…) digamos não às políticas mesquinhas e egoístas de empobrecer o vizinho e acabemos com a prática unilateral de manter as vantagens do desenvolvimento só para nós. Direitos iguais ao desenvolvimento devem ser garantidos a todos os países para promover o desenvolvimento comum e a prosperidade. Devemos defender a competição justa, como competir uns com os outros pela excelência em um campo de corrida, não derrotar uns aos outros em uma arena de luta livre”.

Mudança climática

“Precisamos cumprir o Acordo de Paris sobre mudança climática e promover o desenvolvimento verde. Precisamos dar prioridade contínua ao desenvolvimento, implementar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e garantir que todos os países, especialmente os em desenvolvimento, compartilhem dos frutos do desenvolvimento global”.


China terá novo paradigma de desenvolvimento

“A China está em vias de terminar de construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos. Obtivemos ganhos históricos ao erradicar a pobreza extrema e embarcamos em uma nova jornada rumo à construção plena de um país socialista moderno. À medida que a China entra em um novo estágio de desenvolvimento, seguiremos uma nova filosofia de desenvolvimento e promoveremos um novo paradigma de desenvolvimento com a circulação doméstica como o esteio e as circulações doméstica e internacional reforçando-se mutuamente. A China trabalhará com outros países para construir um mundo aberto, inclusivo, limpo e bonito que desfrute de paz duradoura, segurança universal e prosperidade comum.

Pandemia, a tarefa mais urgente


“Conter o coronavírus é a tarefa mais urgente para a comunidade internacional. Isso porque as pessoas e suas vidas devem ser sempre colocadas antes de qualquer coisa. É também o que é necessário para estabilizar e reanimar a economia. Mais solidariedade e cooperação, mais compartilhamento de informações e uma resposta global mais forte são o que precisamos para derrotar o COVID-19 em todo o mundo (…) É especialmente importante aumentar a cooperação em Pesquisa e Desenvolvimento, produção e distribuição de vacinas e torná-las bens públicos que sejam verdadeiramente acessíveis e economicamente viáveis ​​para as pessoas em todos os países”.

Cooperação Sul-Sul e postura mais ativa


“Como membro constante dos países em desenvolvimento, a China aprofundará ainda mais a cooperação Sul-Sul e contribuirá para os esforços dos países em desenvolvimento para erradicar a pobreza, reduzir o peso da dívida e alcançar mais crescimento. A China se envolverá mais ativamente na governança econômica global e pressionará por uma globalização econômica que seja mais aberta, inclusiva, equilibrada e benéfica para todos”.

Abaixo, a íntegra do discurso.

Professor Klaus Schwab,


Senhoras e senhores,

Amigos,

O ano passado foi marcado pelo ataque repentino da pandemia COVID-19. A saúde pública global enfrentou grave ameaça e a economia mundial entrou em uma recessão profunda. A humanidade encontrou-se diante de múltiplas crises raramente vistas na história.


O ano passado também testemunhou a enorme determinação e coragem de pessoas ao redor do mundo no combate ao coronavírus mortal. Guiado pela ciência, razão e espírito humanitário, o mundo alcançou um progresso inicial no combate ao COVID-19. Dito isso, a pandemia está longe de terminar. O recente ressurgimento dos casos COVID nos lembra que devemos continuar a luta. No entanto, continuamos convencidos de que o inverno não pode impedir a chegada da primavera e as trevas nunca podem ocultar a luz do amanhecer. Não há dúvida de que a humanidade vencerá o vírus e sairá ainda mais forte deste desastre.

Senhoras e senhores,

Amigos,


A história avança e o mundo não voltará a ser o que era no passado. Cada escolha e movimento que fizermos hoje moldarão o mundo do futuro. É importante abordarmos adequadamente as quatro principais tarefas que as pessoas enfrentam em nosso tempo.

A primeira é intensificar a coordenação da política macroeconômica e, em conjunto, promover o crescimento forte, sustentável, equilibrado e inclusivo da economia mundial. Estamos passando pela pior recessão desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez na história, as economias de todas as regiões foram duramente atingidas ao mesmo tempo, com a indústria global e as cadeias de suprimentos bloqueadas e o comércio e os investimentos em crise. Apesar dos trilhões de dólares em pacotes de ajuda em todo o mundo, a recuperação global é bastante instável e as perspectivas permanecem incertas. Precisamos nos concentrar nas prioridades atuais e equilibrar a resposta ao COVID e o desenvolvimento econômico. O apoio à política macroeconômica deve ser intensificado para tirar a economia mundial fora de perigo o mais cedo possível. Mais importante, precisamos olhar além do horizonte e fortalecer nossa vontade e determinação para a mudança. Precisamos mudar as forças motrizes e os modelos de crescimento da economia global e melhorar sua estrutura, de modo a definir o curso de longo prazo, com desenvolvimento sólido e estável da economia mundial.

A segunda tarefa é abandonar o preconceito ideológico e, em conjunto, seguir um caminho de coexistência pacífica, benefício mútuo e cooperação ganha-ganha. Não existem duas folhas no mundo idênticas e nenhuma história, cultura ou sistema social é igual. Cada país é único com sua própria história, cultura e sistema social, e nenhum é superior ao outro. Os melhores critérios são se a história, a cultura e o sistema social de um país se ajustam à sua situação específica, se contam com o apoio do povo, se servem para proporcionar estabilidade política, progresso social e vidas melhores e se contribuem para o progresso humano. As diferentes histórias, culturas e sistemas sociais são tão antigos quanto as sociedades humanas e representam características inerentes da civilização humana. Não haverá civilização humana sem diversidade, e essa diversidade continuará a existir por tanto tempo quanto podemos imaginar. A diferença em si não é motivo para alarme. O que soa o alarme é a arrogância, o preconceito e o ódio; é a tentativa de impor uma hierarquia à civilização humana ou de impor a própria história, cultura e sistema social aos outros. A escolha certa é que os países busquem uma coexistência pacífica baseada no respeito mútuo e na expansão de bases comuns, enquanto arquivam as diferenças, para promover o intercâmbio e o aprendizado mútuo. Esta é a forma de impulsionar o progresso da civilização humana.


A terceira tarefa é eliminar a divisão entre países desenvolvidos e em desenvolvimento e, em conjunto, gerar crescimento e prosperidade para todos. Hoje, a desigualdade continua a crescer, a lacuna Norte-Sul ainda precisa ser superada e o desenvolvimento sustentável enfrenta sérios desafios. À medida que os países lutam com a pandemia, suas recuperações econômicas seguem trajetórias divergentes, e o hiato Norte-Sul corre o risco de se ampliar e até mesmo se perpetuar. Os países em desenvolvimento aspiram por mais recursos e espaço para o desenvolvimento e clamam por uma representação e voz mais fortes na governança econômica global. Devemos reconhecer que, com o crescimento dos países em desenvolvimento, a prosperidade e a estabilidade globais serão colocadas em bases mais sólidas, e os países desenvolvidos poderão se beneficiar desse crescimento. A comunidade internacional deve manter seus olhos no longo prazo, honrar seu compromisso, e fornecer o apoio necessário aos países em desenvolvimento e salvaguardar seus legítimos interesses de desenvolvimento. Direitos iguais, oportunidades iguais e regras iguais devem ser fortalecidos, para que todos os países se beneficiem das oportunidades e frutos do desenvolvimento.

A quarta tarefa é a união contra os desafios globais para, juntos, criarmos um futuro melhor para a humanidade. Na era da globalização econômica, as emergências de saúde pública como o COVID-19 podem muito bem ocorrer, e a governança global da saúde pública precisa ser aprimorada. A Terra é nossa única casa. Aumentar os esforços para lidar com as mudanças climáticas e promover o desenvolvimento sustentável afeta o futuro da humanidade. Nenhum problema global pode ser resolvido por um único país. Deve haver ação global, resposta global e cooperação global.

Senhoras e senhores,


Amigos,

Os problemas que o mundo enfrenta são intrincados e complexos. A saída é defender o multilateralismo e construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.

Primeiro, devemos permanecer comprometidos com a abertura e a inclusão, em vez de isolamento e exclusão. Multilateralismo significa ter assuntos internacionais tratados por meio de consultas e o futuro do mundo decidido por todos trabalhando juntos. Construir pequenos círculos ou iniciar uma nova Guerra Fria, rejeitar, ameaçar ou intimidar os outros, impor deliberadamente dissociação, interrupção do fornecimento ou sanções e criar isolamento ou estranhamento apenas empurrará o mundo para a divisão e até para o confronto. Não podemos enfrentar desafios comuns em um mundo dividido, e o confronto nos levará a um beco sem saída. A humanidade aprendeu lições da maneira mais difícil e essa história não acabou. Não devemos retornar ao caminho do passado.


A abordagem certa é agir de acordo com a visão de uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade. Devemos defender os valores comuns da humanidade, ou seja, paz, desenvolvimento, equidade, justiça, democracia e liberdade, superar o preconceito ideológico, tornar os mecanismos, princípios e políticas de nossa cooperação tão abertos e inclusivos quanto possível e, em conjunto, salvaguardar a paz mundial e estabilidade. Devemos construir uma economia mundial aberta, defender o regime de comércio multilateral, descartar padrões, regras e sistemas discriminatórios e excludentes e derrubar barreiras ao comércio, investimento e intercâmbio tecnológico. Devemos fortalecer o G20 como o principal fórum para a governança econômica global, nos engajar em uma coordenação mais estreita da política macroeconômica e manter as cadeias industriais e de fornecimento globais estáveis ​​e abertas. Devemos garantir o funcionamento correto do sistema financeiro global, promover reformas estruturais e expandir a demanda agregada global em um esforço para buscar maior qualidade e maior resiliência no desenvolvimento econômico global.

Em segundo lugar, devemos permanecer comprometidos com o direito internacional e as regras internacionais, em vez de buscar a supremacia. Os antigos chineses acreditavam que “a lei é a base da governança”. A governança internacional deve ser baseada nas regras e consensos alcançados entre nós, não na ordem dada por um ou por poucos. A Carta das Nações Unidas são as normas básicas e universalmente reconhecidas que regem as relações entre os Estados. Sem o direito internacional e as regras internacionais que são formadas e reconhecidas pela comunidade global, o mundo pode voltar para a lei da selva, e a consequência seria devastadora para a humanidade.

Precisamos ser enérgicos em defender o estado de direito internacional e firmes em nossa determinação de salvaguardar o sistema internacional centrado na ONU e na ordem internacional baseada no direito internacional. As instituições multilaterais, que fornecem as plataformas para colocar o multilateralismo em ação e que são a arquitetura básica que sustenta o multilateralismo, devem ter sua autoridade e eficácia protegidas. As relações entre os Estados devem ser coordenadas e regulamentadas por meio de instituições e regras adequadas. O forte não deve intimidar o fraco. A decisão não deve ser tomada simplesmente exibindo músculos fortes ou acenando com o punho grande. O multilateralismo não deve ser usado como pretexto para atos de unilateralismo. Os princípios devem ser preservados e as regras, uma vez feitas, devem ser seguidas por todos. O “multilateralismo seletivo” não deve ser nossa opção.


Terceiro, devemos permanecer comprometidos com a consulta e cooperação, em vez de conflito e confronto. As diferenças de história, cultura e sistema social não devem ser uma desculpa para antagonismo ou confronto, mas sim um incentivo à cooperação. Devemos respeitar e acomodar as diferenças, evitar interferir nos assuntos internos de outros países e resolver divergências por meio de consulta e diálogo. A história e a realidade deixaram claro, uma e outra vez, que a abordagem equivocada de antagonismo e confronto, seja na forma de guerra fria, guerra quente, guerra comercial ou guerra tecnológica, acabaria prejudicando os interesses de todos os países e minando o bem de todos.

Devemos rejeitar a Guerra Fria desatualizada e a mentalidade de jogo de soma zero, aderir ao respeito mútuo e à busca pelo consenso, aumentando a confiança política por meio da comunicação estratégica. É importante que nos atenhamos ao conceito de cooperação baseado no benefício mútuo, digamos não às políticas mesquinhas e egoístas de empobrecer o vizinho e acabemos com a prática unilateral de manter as vantagens do desenvolvimento só para nós. Direitos iguais ao desenvolvimento devem ser garantidos a todos os países para promover o desenvolvimento comum e a prosperidade. Devemos defender a competição justa, como competir uns com os outros pela excelência em um campo de corrida, não derrotar uns aos outros em uma arena de luta livre.

Quarto, devemos permanecer comprometidos em acompanhar os tempos em vez de rejeitar as mudanças. O mundo está passando por mudanças nunca vistas em um século, e agora é a hora de grande desenvolvimento e grande transformação. Para defender o multilateralismo no século XXI, devemos promover sua nobre tradição, assumir novas perspectivas e olhar para o futuro. Precisamos defender os valores centrais e os princípios básicos do multilateralismo. Também precisamos nos adaptar ao cenário internacional em mudança e responder aos desafios globais à medida que eles surgem. Precisamos reformar e melhorar o sistema de governança global com base em ampla consulta e construção de consenso.


Precisamos desenvolver plenamente o papel da Organização Mundial da Saúde na construção de uma comunidade global de saúde para todos. Precisamos promover a reforma da Organização Mundial do Comércio e do sistema financeiro e monetário internacional de uma forma que estimule o crescimento econômico global e proteja os direitos, interesses e oportunidades de desenvolvimento dos países em desenvolvimento. Precisamos seguir uma orientação política centrada nas pessoas e baseada em fatos ao explorar e formular regras sobre governança digital global. Precisamos cumprir o Acordo de Paris sobre mudança climática e promover o desenvolvimento verde. Precisamos dar prioridade contínua ao desenvolvimento, implementar a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável e garantir que todos os países, especialmente os em desenvolvimento, compartilhem dos frutos do desenvolvimento global.

Senhoras e senhores,

Amigos,

Após décadas de esforços extenuantes do povo chinês, a China está em vias de terminar de construir uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos. Obtivemos ganhos históricos ao erradicar a pobreza extrema e embarcamos em uma nova jornada rumo à construção plena de um país socialista moderno. À medida que a China entra em um novo estágio de desenvolvimento, seguiremos uma nova filosofia de desenvolvimento e promoveremos um novo paradigma de desenvolvimento com a circulação doméstica como o esteio e as circulações doméstica e internacional reforçando-se mutuamente. A China trabalhará com outros países para construir um mundo aberto, inclusivo, limpo e bonito que desfrute de paz duradoura, segurança universal e prosperidade comum.

– A China continuará a participar ativamente da cooperação internacional no combate ao COVID-19. Conter o coronavírus é a tarefa mais urgente para a comunidade internacional. Isso porque as pessoas e suas vidas devem ser sempre colocadas antes de qualquer coisa. É também o que é necessário para estabilizar e reanimar a economia. Mais solidariedade e cooperação, mais compartilhamento de informações e uma resposta global mais forte são o que precisamos para derrotar o COVID-19 em todo o mundo. É especialmente importante aumentar a cooperação em Pesquisa e Desenvolvimento, produção e distribuição de vacinas e torná-las bens públicos que sejam verdadeiramente acessíveis e economicamente viáveis ​​para as pessoas em todos os países. Até agora, a China forneceu assistência a mais de 150 países e 13 organizações internacionais, enviou 36 equipes de especialistas médicos a países necessitados e manteve um forte apoio e um envolvimento ativo na cooperação internacional em vacinas COVID. A China continuará a compartilhar sua experiência com outros países, a fazer o seu melhor para ajudar os países e regiões que estão menos preparados para a pandemia e a trabalhar para maior acessibilidade e disponibilidade das vacinas COVID nos países em desenvolvimento. Esperamos que esses esforços contribuam para uma vitória rápida e completa sobre o coronavírus em todo o mundo.

– A China continuará a implementar uma estratégia de abertura onde todos ganham. A globalização econômica atende à necessidade de crescimento da produtividade social e é um resultado natural do avanço científico e tecnológico. Não interessa a ninguém usar a pandemia como desculpa para reverter a globalização e buscar o isolamento e o desacoplamento. Como apoiadora de longa data da globalização econômica, a China está empenhada em seguir sua política fundamental de abertura. A China continuará a promover a liberalização e a facilitação do comércio e do investimento, ajudará a manter as cadeias industriais e de abastecimento globais escorreitas e estáveis ​​e promoverá a cooperação de alta qualidade no âmbito do projeto “Um Cinturão e uma Rota”. A China promoverá a abertura institucional que abrange regras, regulamentos, gestão e padrões. Promoveremos um ambiente de negócios baseado nos princípios do mercado, regidos por lei e de acordo com os padrões internacionais, visando liberar o potencial do enorme mercado da China e da enorme demanda interna. Esperamos que esses esforços tragam mais oportunidades de cooperação a outros países e deem mais ímpeto à recuperação e ao crescimento econômico global.

– A China continuará a promover o desenvolvimento sustentável. A China implementará integralmente a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Ela fará mais na frente ecológica, transformando e melhorando sua estrutura industrial e matriz energética em um ritmo mais rápido e promovendo um modo de vida e produção verdes e de baixo carbono. Anunciei a meta da China de se esforçar para atingir a meta das emissões de dióxido de carbono antes de 2030 e alcançar a neutralidade de carbono antes de 2060. O cumprimento dessas metas exigirá um trabalho árduo da China. No entanto, acreditamos que quando os interesses de toda a humanidade estão em jogo, a China deve dar um passo à frente, agir e fazer o trabalho. A China está elaborando planos de ação e já tomando medidas específicas para garantir o cumprimento das metas estabelecidas. Estamos fazendo isso como uma ação concreta para defender o multilateralismo e como uma contribuição para proteger nossa casa comum e realizar o desenvolvimento sustentável da humanidade.

– A China continuará avançando em ciência, tecnologia e inovação científica, tecnologia e inovação são um motor fundamental para o progresso humano, uma arma poderosa para enfrentar muitos desafios globais e a única maneira de a China promover um novo paradigma de desenvolvimento e alcançar um desenvolvimento de alta qualidade. A China investirá mais em ciência e tecnologia, desenvolverá um sistema que possibilite a inovação como prioridade, transformará avanços em ciência e tecnologia em produtividade real em um ritmo mais rápido e aumentará a proteção da propriedade intelectual, tudo com o propósito de promover maior inovação e crescimento de qualidade. Os avanços científicos e tecnológicos devem beneficiar toda a humanidade, em vez de serem usados ​​para barrar e conter o desenvolvimento de outros países. A China pensará e agirá com mais abertura no que diz respeito ao intercâmbio e cooperação internacional em ciência e tecnologia. Trabalharemos com outros países para criar um ambiente justo, equitativo e não discriminatório para o avanço científico e tecnológico que seja benéfico a todos e compartilhado por todos.

– A China continuará a promover um novo tipo de relações internacionais. O jogo de soma zero ou de “o vencedor leva tudo” não é a filosofia que norteia o povo chinês. Como seguidora convicta de uma política externa independente e de paz, a China está trabalhando duro para superar as diferenças por meio do diálogo e resolver disputas por meio da negociação e para buscar relações amigáveis ​​e cooperativas com outros países com base no respeito mútuo, igualdade e benefício mútuo. Como membro constante dos países em desenvolvimento, a China aprofundará ainda mais a cooperação Sul-Sul e contribuirá para os esforços dos países em desenvolvimento para erradicar a pobreza, reduzir o peso da dívida e alcançar mais crescimento. A China se envolverá mais ativamente na governança econômica global e pressionará por uma globalização econômica que seja mais aberta, inclusiva, equilibrada e benéfica para todos.

Senhoras e senhores,

Amigos,

Existe apenas uma Terra e um futuro compartilhado para a humanidade. Enquanto enfrentamos a crise atual e nos esforçamos para que venham dias melhores para todos, precisamos permanecer unidos e trabalhar juntos. Foi-nos mostrado uma e outra vez que empobrecer o próximo, seguir sozinho e cair em um isolamento arrogante sempre falhará. Vamos todos dar as mãos e deixar que o multilateralismo ilumine nosso caminho em direção a uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade.

Obrigado.

Tradução livre da Redação


Wevergton Brito
Jornalista, vice-presidente nacional do Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade ao Povos e Luta pela Paz)

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Xi Jinping - Discurso em Davos - áudio traduzido em Espanhol e texto em inglês

 


(Translation)

XINHUA

Let the Torch of Multilateralism Light up Humanity’s Way Forward

Special Address by H.E. Xi Jinping 

President of the People’s Republic of China 

At the World Economic Forum Virtual Event of the Davos Agenda

25 January 2021

Professor Klaus Schwab, 

Ladies and Gentlemen, 

Friends,

The past year was marked by the sudden onslaught of the COVID-19 pandemic. Global public health faced severe threat and the world economy was mired in deep recession. Humanity encountered multiple crises rarely seen in human history.

The past year also bore witness to the enormous resolve and courage of people around the world in battling the deadly coronavirus. Guided by science, reason and a humanitarian spirit, the world has achieved initial progress in fighting COVID-19. That said, the pandemic is far from over. The recent resurgence in COVID cases reminds us that we must carry on the fight. Yet we remain convinced that winter cannot stop the arrival of spring and darkness can never shroud the light of dawn. There is no doubt that humanity will prevail over the virus and emerge even stronger from this disaster.

Ladies and Gentlemen, 

Friends,

History is moving forward and the world will not go back to what it was in the past. Every choice and move we make today will shape the world of the future. It is important that we properly address the four major tasks facing people of our times.

The first is to step up macroeconomic policy coordination and jointly promote strong, sustainable, balanced and inclusive growth of the world economy. We are going through the worst recession since the end of World War II. For the first time in history, the economies of all regions have been hit hard at the same time, with global industrial and supply chains clogged and trade and investment down in the doldrums. Despite the trillions of dollars in relief packages worldwide, global recovery is rather shaky and the outlook remains uncertain. We need to focus on current priorities, and balance COVID response and economic development. Macroeconomic policy support should be stepped up to bring the world economy out of the woods as early as possible. More importantly, we need to look beyond the horizon and strengthen our will and resolve for change. We need to shift the driving forces and growth models of the global economy and improve its structure, so as to set the course for long-term, sound and steady development of the world economy.

The second is to abandon ideological prejudice and jointly follow a path of peaceful coexistence, mutual benefit and win-win cooperation. No two leaves in the world are identical, and no histories, cultures or social systems are the same. Each country is unique with its own history, culture and social system, and none is superior to the other. The best criteria are whether a country’s history, culture and social system fit its particular situation, enjoy people’s support, serve to deliver political stability, social progress and better lives, and contribute to human progress. The different histories, cultures and social systems are as old as human societies, and they are the inherent features of human civilization. There will be no human civilization without diversity, and such diversity will continue to exist for as long as we can imagine. Difference in itself is no cause for alarm. What does ring the alarm is arrogance, prejudice and hatred; it is the attempt to impose hierarchy on human civilization or to force one’s own history, culture and social system upon others. The right choice is for countries to pursue peaceful coexistence based on mutual respect and on expanding common ground while shelving differences, and to promote exchanges and mutual learning. This is the way to add impetus to the progress of human civilization. 

The third is to close the divide between developed and developing countries and jointly bring about growth and prosperity for all. Today, inequality continues to grow, the North-South gap remains to be bridged, and sustainable development faces severe challenges. As countries grapple with the pandemic, their economic recoveries are following divergent trajectories, and the North-South gap risks further widening and even perpetuation. For developing countries, they are aspiring for more resources and space for development, and they are calling for stronger representation and voice in global economic governance. We should recognize that with the growth of developing countries, global prosperity and stability will be put on a more solid footing, and developed countries will stand to benefit from such growth. The international community should keep its eyes on the long run, honor its commitment, and provide necessary support to developing countries and safeguard their legitimate development interests. Equal rights, equal opportunities and equal rules should be strengthened, so that all countries will benefit from the opportunities and fruits of development.

The fourth is to come together against global challenges and jointly create a better future for humanity. In the era of economic globalization, public health emergencies like COVID-19 may very well recur, and global public health governance needs to be enhanced. The Earth is our one and only home. To scale up efforts to address climate change and promote sustainable development bears on the future of humanity. No global problem can be solved by any one country alone. There must be global action, global response and global cooperation.

Ladies and Gentlemen, 

Friends,

The problems facing the world are intricate and complex. The way out of them is through upholding multilateralism and building a community with a shared future for mankind.

First, we should stay committed to openness and inclusiveness instead of closeness and exclusion.Multilateralism is about having international affairs addressed through consultation and the future of the world decided by everyone working together. To build small circles or start a new Cold War, to reject, threaten or intimidate others, to willfully impose decoupling, supply disruption or sanctions, and to create isolation or estrangement will only push the world into division and even confrontation. We cannot tackle common challenges in a divided world, and confrontation will lead us to a dead end. Humanity has learned lessons the hard way, and that history is not long gone. We must not return to the path of the past.

The right approach is to act on the vision of a community with a shared future for mankind. We should uphold the common values of humanity, i.e. peace, development, equity, justice, democracy and freedom, rise above ideological prejudice, make the mechanisms, principles and policies of our cooperation as open and inclusive as possible, and jointly safeguard world peace and stability. We should build an open world economy, uphold the multilateral trading regime, discard discriminatory and exclusionary standards, rules and systems, and take down barriers to trade, investment and technological exchanges. We should strengthen the G20 as the premier forum for global economic governance, engage in closer macroeconomic policy coordination, and keep the global industrial and supply chains stable and open. We should ensure the sound operation of the global financial system, promote structural reform and expand global aggregate demand in an effort to strive for higher quality and stronger resilience in global economic development.

Second, we should stay committed to international law and international rules instead of seeking one’s own supremacy. Ancient Chinese believed that “the law is the very foundation of governance”. International governance should be based on the rules and consensus reached among us, not on the order given by one or the few. The Charter of the United Nations is the basic and universally recognized norms governing state-to-state relations. Without international law and international rules that are formed and recognized by the global community, the world may fall back to the law of the jungle, and the consequence would be devastating for humanity.

We need to be resolute in championing the international rule of law, and steadfast in our resolve to safeguard the international system centered around the UN and the international order based on international law. Multilateral institutions, which provide the platforms for putting multilateralism into action and which are the basic architecture underpinning multilateralism, should have their authority and effectiveness safeguarded. State-to-state relations should be coordinated and regulated through proper institutions and rules. The strong should not bully the weak. Decision should not be made by simply showing off strong muscles or waving a big fist. Multilateralism should not be used as pretext for acts of unilateralism. Principles should be preserved and rules, once made, should be followed by all. “Selective multilateralism” should not be our option.

Third, we should stay committed to consultation and cooperation instead of conflict and confrontation.Differences in history, culture and social system should not be an excuse for antagonism or confrontation, but rather an incentive for cooperation. We should respect and accommodate differences, avoid meddling in other countries’ internal affairs, and resolve disagreements through consultation and dialogue. History and reality have made it clear, time and again, that the misguided approach of antagonism and confrontation, be it in the form of cold war, hot war, trade war or tech war, would eventually hurt all countries’ interests and undermine everyone’s well-being.

We should reject the outdated Cold War and zero-sum game mentality, adhere to mutual respect and accommodation, and enhance political trust through strategic communication. It is important that we stick to the cooperation concept based on mutual benefit, say no to narrow-minded, selfish beggar-thy-neighbor policies, and stop unilateral practice of keeping advantages in development all to oneself. Equal rights to development should be guaranteed for all countries to promote common development and prosperity. We should advocate fair competition, like competing with each other for excellence in a racing field, not beating each other on a wrestling arena.

Fourth, we should stay committed to keeping up with the times instead of rejecting change. The world is undergoing changes unseen in a century, and now is the time for major development and major transformation. To uphold multilateralism in the 21st century, we should promote its fine tradition, take on new perspectives and look to the future. We need to stand by the core values and basic principles of multilateralism. We also need to adapt to the changing international landscape and respond to global challenges as they arise. We need to reform and improve the global governance system on the basis of extensive consultation and consensus-building.

We need to give full play to the role of the World Health Organization in building a global community of health for all. We need to advance reform of the World Trade Organization and the international financial and monetary system in a way that boosts global economic growth and protects the development rights, interests and opportunities of developing countries. We need to follow a people-centered and fact-based policy orientation in exploring and formulating rules on global digital governance. We need to deliver on the Paris Agreement on climate change and promote green development. We need to give continued priority to development, implement the 2030 Agenda for Sustainable Development, and make sure that all countries, especially developing ones, share in the fruits of global development.

Ladies and Gentlemen, 

Friends,

After decades of strenuous efforts by the Chinese people, China is on course to finish building a moderately prosperous society in all respects. We have made historic gains in ending extreme poverty, and have embarked on a new journey toward fully building a modern socialist country. As China enters a new development stage, we will follow a new development philosophy and foster a new development paradigm with domestic circulation as the mainstay and domestic and international circulations reinforcing each other. China will work with other countries to build an open, inclusive, clean and beautiful world that enjoys lasting peace, universal security and common prosperity.

— China will continue to take an active part in international cooperation on COVID-19. Containing the coronavirus is the most pressing task for the international community. This is because people and their lives must always be put before anything else. It is also what it takes to stabilize and revive the economy. Closer solidarity and cooperation, more information sharing, and a stronger global response are what we need to defeat COVID-19 across the world. It is especially important to scale up cooperation on the R&D, production and distribution of vaccines and make them public goods that are truly accessible and affordable to people in all countries. By now, China has provided assistance to over 150 countries and 13 international organizations, sent 36 medical expert teams to countries in need, and stayed strongly supportive and actively engaged in international cooperation on COVID vaccines. China will continue to share its experience with other countries, do its best to assist countries and regions that are less prepared for the pandemic, and work for greater accessibility and affordability of COVID vaccines in developing countries. We hope these efforts will contribute to an early and complete victory over the coronavirus throughout the world.

— China will continue to implement a win-win strategy of opening-up. Economic globalization meets the need of growing social productivity and is a natural outcome of scientific and technological advancement. It serves no one’s interest to use the pandemic as an excuse to reverse globalization and go for seclusion and decoupling. As a longstanding supporter of economic globalization, China is committed to following through on its fundamental policy of opening-up. China will continue to promote trade and investment liberalization and facilitation, help keep the global industrial and supply chains smooth and stable, and advance high-quality Belt and Road cooperation. China will promote institutional opening-up that covers rules, regulations, management and standards. We will foster a business environment that is based on market principles, governed by law and up to international standards, and unleash the potential of the huge China market and enormous domestic demand. We hope these efforts will bring more cooperation opportunities to other countries and give further impetus to global economic recovery and growth.

— China will continue to promote sustainable development. China will fully implement the 2030 Agenda for Sustainable Development. It will do more on the ecological front, by transforming and improving its industrial structure and energy mix at a faster pace and promoting a green, low-carbon way of life and production. I have announced China’s goal of striving to peak carbon dioxide emissions before 2030 and achieve carbon neutrality before 2060. Meeting these targets will require tremendous hard work from China. Yet we believe that when the interests of the entire humanity are at stake, China must step forward, take action, and get the job done. China is drawing up action plans and taking specific measures already to make sure we meet the set targets. We are doing this as a concrete action to uphold multilateralism and as a contribution to protecting our shared home and realizing sustainable development of humanity.

— China will continue to advance science, technology and innovation. Science, technology and innovation is a key engine for human progress, a powerful weapon in tackling many global challenges, and the only way for China to foster a new development paradigm and achieve high-quality development. China will invest more in science and technology, develop an enabling system for innovation as a priority, turn breakthroughs in science and technology into actual productivity at a faster pace, and enhance intellectual property protection, all for the purpose of fostering innovation-driven, higher-quality growth. Scientific and technological advances should benefit all humanity rather than be used to curb and contain other countries’ development. China will think and act with more openness with regard to international exchange and cooperation on science and technology. We will work with other countries to create an open, fair, equitable and non-discriminatory environment for scientific and technological advancement that is beneficial to all and shared by all.

— China will continue to promote a new type of international relations. Zero-sum game or winner-takes-all is not the guiding philosophy of the Chinese people. As a staunch follower of an independent foreign policy of peace, China is working hard to bridge differences through dialogue and resolve disputes through negotiation and to pursue friendly and cooperative relations with other countries on the basis of mutual respect, equality and mutual benefit. As a steadfast member of developing countries, China will further deepen South-South cooperation, and contribute to the endeavor of developing countries to eradicate poverty, ease debt burden, and achieve more growth. China will get more actively engaged in global economic governance and push for an economic globalization that is more open, inclusive, balanced and beneficial to all.

Ladies and Gentlemen, 

Friends,

There is only one Earth and one shared future for humanity. As we cope with the current crisis and endeavor to make a better day for everyone, we need to stand united and work together. We have been shown time and again that to beggar thy neighbor, to go it alone, and to slip into arrogant isolation will always fail. Let us all join hands and let multilateralism light our way toward a community with a shared future for mankind.

Thank you.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Lênin vive! Paulo Vinícius Silva

(…) Então enviaram os guardas um pedreiro com uma faca para eliminar a inscrição.
E ele raspou letra por letra, durante uma hora
E quanto terminou, lá estava no alto da cela, incolor
Mas gravada fundo na parede, a inscrição invencível:
VIVA LÊNIN!
Agora derrubem a parede! disse o soldado.
A inscrição invencível - Bertolt Brecht


Vladimir Ilitch Ulianov, Lênin - cujo nascimento em 22 de abril cumprirá 150 anos - é considerado por muitos o maior revolucionário de todos os tempos. Não é à toa que ele sempre foi cercado de admiradores, detratores e falsificadores. Polemista inquieto e apaixonado, o combate a ele até os dias de hoje apenas faz luzir a estrela da rebelião que sempre foi seu norte. Lênin é para quem quer mudar o mundo de verdade. 
Lênin, fazendo raiva à burguesia e desancando o oportunismo até os dias de hoje.

Não é o sujeito biográfico, quanto lhe queremos ou não, que merece nossa mirada. Fosse assim, não importaria nem causaria tanto bafafá.  Contra a essência revolucionária do pensamento de Lênin foi muito usado valorizar o que é cosmético e esquecer do seu conteúdo, como fez a URSS após Kruschev. Até Gorbachev falava de Lênin enquanto entregava a rapadura ao capitalismo - depois seria garoto propaganda da Pizza Hut. Ou ainda, torná-lo o senhor do "não pode", para ossificar a grande virtude de seu pensamento,  a plena aplicação da dialética à situação concreta e pensar nisso como gente organizada para mudar o mundo. Lênin brilha mesmo é pelas posturas e saídas teóricas, por sua singular capacidade de superar dilemas teórico-práticos pela dialética marxista, e apontar saídas revolucionárias. Ele queria fazer a Revolução. Disseram que não dava. Ele foi lá e fez. Quem quis fazer e vencer na Revolução, leu e aprendeu com Lênin.
Lamentavelmente, é um pensador pouco compreendido, diria até desconhecido, assim me parece, e isso a despeito do monumental esforço de popularização e compilação de sua obra feito por Stalin após a sua morte. Por isso, superficialmente, como estímulo ao seu estudo, e para sistematizar minhas próprias opiniões, cito o que penso aspectos essenciais no pensamento revolucionário de Lênin.
Primeiro, ele atualiza a visão marxista sobre a concentração do capital como tendência histórica do sistema capitalista. A análise do sistema bancário europeu na passagem do século XIX para o século XX levou-o a definir a etapa do imperialismo como a era do capital financeiro, da oligopolização, da centralização inclemente de capitais, da unificação do capital industrial e comercial, com repercussões profundas na suposta concorrência entre mercados. Elucida, assim a injustiça do capitalismo, que corresponde a um processo de concentração de renda e poder contra as maiorias trabalhadoras que são as únicas produtoras de toda a riqueza. Em vez da livre concorrência e do mercado endeusado, o capitalismo é o regime dos monopólios e oligopólios. Hoje, 1% da humanidade detém mais riqueza que 99%. 
Esse processo profundo e mundial de centralização, planejamento e produção industrial ascendente, longe de levar a uma suposta paz dos mercados e do capitalismo racionalizado,  recrudesceria como tensões inter-imperialistas que desembocariam em guerras e crises cada vez mais intensas. Seria essa a última etapa histórica do sistema capitalista, porque o nível do desenvolvimento científico, industrial e tecnológico levaria a tendências destrutivas, a não ser que fossem apropriadas pela maioria, superando a lógica da sociedade capitalista, que é a ditadura da burguesia e da manutenção do trabalho assalariado.
Ele não via o fenômeno apenas negativamente, mas a partir de suas múltiplas determinações. Chamava a atenção para o imenso progresso e para suas consequências sobre a emancipação da mulher, denunciando a escravidão do trabalho doméstico. O planejamento, a produção em série, a industrialização seriam ainda mais avançadas numa sociedade dirigida a favor de todos. Como o capitalismo persiste, a realidade de avanço científico seria apropriada contra as amplas maiorias, num regime oligopolista. Por isso, dizia Lênin, o imperialismo seria a ante-sala do socialismo, sistema visto como superior e sucedâneo ao capitalismo, inclusive quanto ao progresso tecnológico. Nele, as vantagens do progresso seriam revertidas em favor das classes trabalhadoras, e não de uma minoria rica.
Vladimir Lênin estabeleceu uma justa relação dialética entre tática e estratégia, o movimento espontâneo das massas e como ele se torna movimento consciente, assim como os limites dos movimentos sem a luta geral pelo socialismo e pelo poder. São dilemas constantes da luta política que vivemos todos os dias. Ele aponta para a capacidade de o movimento dos trabalhadores e trabalhadoras superar as tendências economicistas, corporativistas e espontâneas, quanlificando-se para uma disputa maior que a negociação das condições de venda da força de trabalho. Lênin descortinou o caminho do poder para os oprimidos. 
Fez a crítica ao espontaneísmo, mostrando que a revolta episódica, local, por um aspecto específico desse ou daquele movimento, que o elogio do improviso e a ausência de organização e método na luta são o normal do movimento. Como tal, tem sua importância e são inevitáveis, pois decorrem das contradições objetivas da sociedade de classes e da exploração que promove.  Mas não bastam. O pensador russo demonstrou como todo movimento separado de uma visão sistêmica de disputa pela hegemonia só levaria às tentativas de manutenção do capitalismo com base nas ilusões de sua humanização. Mesmo o movimento sindical degeneraria em oportunismo, se os trabalhadores e trabalhadoras perdessem de vista que o objetivo é a própria superação da sociedade assalariada e o poder para as maiorias.
Os movimentos espontâneos, corporativos e gremiais tem avanços e refluxos, derrotas e vitórias, momento de grande animação e também de marasmo e crises, e podem inclusive ser policlassistas.  A pedra de toque para dirigir esse fluxo num sentido revolucionário, seu sujeito,  não é um indivíduo, mas um coletivo, um partido político capaz de superar o economicismo, o movimentismo, concentrando em uma força política unida o poder das maiorias, da classe trabalhadora. 
O partido de vanguarda, se estiver à altura, deve ser a solução da contradição entre o específico e o geral, chefes e liderados, organizando a partir da luta espontânea a consciência permanente, orgânica da classe trabalhadora. O espontâneo, a despeito de sua força e inovação pode dar em nada, ou servir aos fins opostos que pretendia, se não tiver uma direção, porque há uma permanente disputa pela hegemonia e a manutenção da sociedade capitalista. Seu caráter injusto levaria a contradições, choques e crises. Educar o povo na luta permitiria a disputa pelos trabalhadores da hegemonia e a construção de uma nova sociedade. Haveria na prática uma escala de progressiva consciência que iria das questões cotidianas mais simples até à concepção da vanguarda, materializada no Partido Comunista e na sua forma de direção, o centralismo democrático, em que todos os organismos e posições se construiriam de baixo para cima e se asseguraria a liberdade de pensamento e discussão, para em seguida construir uma forte e indestrutível unidade num sistema de direção coeso e capaz de fazer frente à unidade dos capitalistas como um punho cerrado para levar a classe trabalhadora à vitória.
Lênin estabelece uma escala realista de consciência política que considera o espontâneo um momento fundamental para o consciente, ligando a luta pela reforma e a luta pela Revolução numa amálgama entre a teoria e a prática, a praxis. Por isso, toda a luta, mesmo a menor, pode ser eivada de significado revolucionário.
A partir da recusa à conciliação com as burguesias europeias em favor da guerra imperialista e dos nacionalismos na I Guerra Mundial, Lênin subverte a concepção vigente no movimento social-democrata, que situava a possibilidade do socialismo apenas nos países industrializados, assim como nas metrópoles coloniais. A partir do estudo do desenvolvimento desigual no capitalismo, Lênin observa que as tensões inter-imperialistas que ocorriam com conflitos cuja fachada religiosa ou supostamente nacional, em verdade escondia a ganância infinita de lucro capitalista. Assim, em vez de somar-se aos interesses de suas burguesias nacionais, Lênin apelava para a rejeição de tais ilusões, para que por detrás delas e evidenciasse que as burguesias empurravam o proletariado para o massacre em favor de seus lucros, apenas. 
Por outro lado, as guerras e as crises capitalistas sucessivas levariam a grande instabilidade, sistêmica, criando fragilidades específicas, históricas, singulares, em que os elos frágeis na cadeia imperialista permitiriam avançar para o socialismo. Haveria, portanto, condições revolucionárias inclusive em países economicamente atrasados, sob jugo colonial, podendo assim avançar para o socialismo. Essa nova liberdade altera as hierarquias postas no movimento operário, recolocando a revolução e o socialismo em relação dialética com a tática.
Lênin inaugura uma época de grandes possibilidades táticas, defendendo as alianças e um notável realismo político, mas que não se detivesse no reformismo ou no cretinismo parlamentar, mas apontasse para a transformação revolucionária da sociedade. Assim, longe do principismo, da negação de alianças, da defesa de uma única forma de luta, Lênin defendia a legitimidade de todas as formas de luta, exceto o terrorismo. Estabelece que não importa a forma de luta em si, contanto que seja uma maneira de politizar a luta de massas e ampliar o poder da classe trabalhadora. Assim, reforma e revolução, luta eleitoral, de ideias, econômica, política, insurreição, todas se entrelaçariam num complexo encadeamento de fatos políticos em meio à história, cabendo à vanguarda conduzir o movimento espontâneo à consciência que permite a conquista do poder político e a transformação socialista da sociedade, em vez de deter-se nas reformas.
Ele deslindou a natureza de classe do Estado e da democracia burguesa, apontando-as como formas transitórias e em disputa na luta pela hegemonia na sociedade. O estado capitalista e a sua ditadura de classe se afirmariam particularmente nos momentos de crise, em que o poder militar, judicial e ideológico assegurariam inclusive pela força a manutenção da ordem capitalista. Assim, a luta pela democracia, como todas as lutas, teria um caráter de classe intrínseco, não sendo universais nem imutáveis, e estando ao escrutínio da consciência avançada. 
Lênin aponta o caminho do poder político e da construção econômica para a classe trabalhadora, com a destruição do regime mais despótico e atrasado da Europa. As consignas Pão, Terra e Paz e Todo poder aos sovietes levaram a uma mudança sem precedentes, com a conquista e manutenção do poder soviético. O seu êxito prático apontou todavia a imensa complexidade da construção econômica no socialismo como regime de transição entre o capitalismo e a utopia da sociedade comunista. Lênin inaugura um frutífero pensamento tático e estratégico, experimentando a disputa no seio da esquerda, a luta pelo poder e as possibilidades econômicas e políticas de uma nova sociedade que até então só existira em teoria. 
O desassombro com que avançou e recuou na política e na definição das formas da propriedade ilustram a situação de imensa dificuldade e a busca de caminhos para afirmar uma sociedade superior à capitalista. Comunismo de guerra, Nova política Econômica, Trabalho voluntário, diversas formas de propriedade, tudo aponta para um pensamento econômico e político com margem de manobra e fidelidade aos princípios. A sociedade socialista surge múltipla e como forma de transição na própria experiência soviética, com avanços e recuos. Brilha em seu pensamento  a grande preocupação com o progresso econômico e com a defesa de uma hegemonia baseada na aliança entre operários e camponeses. 
A propriedade privada e o mercado deixam de ser tabu e são defendidos como instrumentos da transição de sentido socialista, inclusive pela utilização do capitalismo de Estado e o socialismo como regime de propriedade mista, de acordo com a história econômica de cada formação social.  No centro da justeza e do êxito estariam o poder político. A China e o socialismo Chinês em grande medida bebem dessa teoria do desenvolvimento e da transição socialista formulada inicialmente por Lênin. Por isso não há modelo de socialismo e cada experiência será original, única.
Por tudo isso, em meio à crise da humanidade, Lênin segue atual, parte da luta dos oprimidos para tomar em suas mão o seu destino. E essa é a única homenagem digna de sua obra, uma vida inteira dedicada à transformação socialista, que demonstrou a sua viabilidade. E há tantas questões novas que o seu exemplo de sinceridade, obstinação e estudo rigoroso iluminam a nossa luta por responder aos desafios atuais do movimento. 


Dialeticamente, o seu pensamento será superado na medida em que os dilemas que nos afligem sejam eles próprios batidos pela capacidade da classe trabalhadora ser autora dessa  superação, na medida em se possa unir o sofrimento atomizado de todos os oprimidos e oprimidas na tomada de consciência para o mudar o próprio destino e a história, conquistando a sociedade das maiorias, a sociedade socialista. O combate que lhe fazem - sempre a direita, porque ninguém esteve à esquerda de Lênin - é um sinal de saúde de seu pensamento revolucionário, que devemos conhecer e difundir como ferramenta e inspiração, clareando os caminhos da luta. Se o tempo não lhe corrói, há duas causas: não cessaram os fenômenos a que refere e seu pensamento nos ajuda a desvendá-los revolucionariamente. Há soluções passadistas que se apresentam como novas, social-democratas em especial, mas com um inevitável cheiro de naftalina e a hipocrisia que lhes é natural. Ao contrário do pensamento vivo e combativo, transformador, que encontramos em Ilitch e que somos chamados a desenvolver, pois é a isso que ele nos desafia.  Com o exemplo vivo dos escritos de Lênin somos todos elevados(as) à condição de sujeitos conscientes de nossa própria emancipação, pois para ele, sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário.

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