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sábado, 12 de setembro de 2026

Uma pequena vitória e um adiamento, mas essenciais para vencer adiante - Paulo Vinícius da Silva


"Radicalizar, ampliando. E ampliar, radicalizando." 
Diógenes Arruda Câmara Ferreira

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
- piedras, 
noches, 
poemas.
Paulo Leminski

Uma vitória pequena não é uma derrota. Digo mais: até as derrotas ensinam.  Na vida, nada é garantido. Assim, é preciso fazer uma análise fria do resultado da negociação coletiva e dos acordos coletivos nessa campanha salarial dos bancários de 2026. Mais que fria, exige-se uma análise sincera, que respeite os méritos e combata as ilusões que vigem na categoria bancária, reconhecendo o nível da exploração, do seu adoecimento e dos responsáveis pela situação de que padece. Além disso, cumpre falar sobre a greve na Caixa Econômica Federal em defesa do Saúde Caixa, e a necessidade de finalizar uma greve para poder continuar a luta.


Minha primeira Greve como Bancário em Fortaleza,  com os empregados da Caixa, gente de luta!

Derrotadas na Campanha Nacional dos Bancários foram as gestões da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. Longe, muito longe do conto da carochinha que eles recitam ao Presidente Lula, o cenário de desgaste, desvalorização e revolta nos principais bancos públicos do país explicita que para os bancários da CEF e do BB, pouco ou nada mudou. A falta de diálogo, a demagogia, a apropriação de pautas de luta importantes e caras ao funcionalismo (como o atendimento aos brasileiros sem recursos, a luta antirracista, o combate à discriminação, a defesa da diversidade e das mulheres) tem sido feita com requintes de crueldade para atender os interesses do próprio mercado financeiro que sabota o país. É verdade esse bilhete de que o MOVE Brasil foi recebido com medidas aquém das possibilidades de atender um público mais amplo de motoristas de aplicativos. Não dá mais para disfarçar.

O mesmo se dá quando se avalia o papel dos Bancos públicos e do Banco Central em manter as taxas de juros mais altas do mundo e de jogar gelo na atividade econômica. Também é verdade que o povo mais pobre foi tangido do atendimento humanizado de todos os bancos, numa digitalização forçada, e que os bancários e bancárias que são a ponta da flecha, que atuam nas agências junto ao povo, são desvalorizados, sobrecarregados, postos no seu limite, com o objetivo sinistro de fechar as agências nas periferias, cidades do interior. 

A régua que pauta os bancos públicos é a mesma que tem pautado as demais estatais no terceiro governo Lula, que é a sua subordinação ao rentismo financeiro e a colocação dos interesses do Brasil em segundo plano, expressa no arcabouço fiscal. É a manutenção do ordenamento anterior, deixado por Temer e Bolsonaro, e não desfeito, porque a minoria rentista e parasitária do sistema financeiro manda no Congresso, manda no Judiciário, manda na Imprensa e definiu as regulações dentro das quais o governo pode se mexer. Objetivamente, as estatais seguem atendendo aos interesses privados, dos sócios minoritários, das amarras da condição de minoria do governo liderado por um Lula cercado, fustigado e combatido por todos os lados. Mais que isso, a apropriação dos avanços na tecnologia bancária foi feita exclusivamente pelos banqueiros contra os clientes e seus trabalhadores, gerando uma crise sem precedente na saúde mental dos bancários, à redução da categoria bancária, enquanto crescem os trabalhadores no ramo financeiro. Crescem, mas apenas os precarizados, pejotizados, os que estão fora da Convenção Coletiva Nacional, enquanto se fecham agências em todo o país, se extingue o atendimento de caixa e se obriga à digitalização forçada até mesmo quem não tem condição.

E do mesmo modo que a tecnologia entra na consciência para difundir fascismo, intolerância, misoginia e homofobia, ela milita para difundir o ódio ao sindicato, ao partido de esquerda, à política, e para dizer que é tudo igual, como de resto ocorre em todos os campos, pois esse discurso é irmão gêmeo da polarização. Como é tudo igual, tanto faz. Nada mais conveniente quando estamos numa eleição decisiva em que de um lado está Tiradentes, e de outro, Silvério dos Reis, e em xeque a própria Nação, ameaçada pelo imperialismo estadunidense, pelo crime infiltrado na política e pela sanha para saquear e dividir o Brasil.

Esse reconhecimento é importante, não para culpar o governo, mas para entender a resiliência da extrema direita que persiste disputando a eleição presidencial a despeito de seus crimes, de sua traição, de sua incompetência e de seu cinismo estarem escancarados. E é por isso que se autonomizaram as gestões nos bancos públicos, em que se mantêm os bolsonaristas e se colocam pessoas diferentes e até representativas para aplicar a mesma política sem alma que se entrincheirou no Banco Central. Lula denuncia os juros, mas eles mantêm os juros altos. Lula pede que se tratem bem os funcionários e o povo, e eles fecham agências, acabam com caixas, ampliam a exploração e quando o adoecimento se amplia de maneira gritante, eles apresentam a conta para o funcionário doente, que assim ficou graças a uma política de metas impossíveis e à lavagem cerebral da novilíngua, que diz uma coisa e faz outra, enlouquecendo, deprimindo, deixando a categoria sem saída.

Essa é a realidade de uma negociação coletiva pós-deforma trabalhista, sucedânea ao fim da ultratividade dos acordos coletivos, manietada pelas regras draconianas que privilegiam o rentismo e a especulação em vez da produção, do emprego e da construção do Projeto Nacional de Desenvolvimento. Assim, as gestões se esmeram no máximo em fazer caixa para atender os compromissos financeiros com a dívida pública e o arcabouço fiscal, sem mudar o roteiro deixado pelo Golpe contra a Presidenta Dilma, através da nova legislação que se aprovou para o Sistema Financeiro Nacional. E com os ataques dos EUA e o bombardeio midiático dos grandes veículos, do big data e das redes sociais, isso se multiplica. Daí porque até a própria lógica do trabalhador bancário explorado é capturada pela ideologia dominante, e isso se vê em três lugares comuns na nossa própria visão de mundo.

O primeiro é a revolta porque os bancos têm lucros bilionários e o aumento dos bancários é miserável. Ele se  baseia em duas premissas falsas. A primeira é que os bancários são sócios dos banqueiros e que a justiça seria partilharem desse butim feito das maiores taxas de juros sobre o povo. Essa é a pegadinha do malandro dos bancos, e claro que na hora de distribuir o fruto do saque, eles vêm e dizem: ié, ié, pegadinha do malandro! E a segunda premissa falsa é que os bancários dos bancos públicos estariam numa situação horrível, sem se os compararem com o conjunto dos trabalhadores do ramo financeiro. Não é boa a nossa situação, é certo. É adoecedora e cruel. 

Mas, para sermos consequentes, precisamos olhar para os 1,1 milhão de trabalhadores bancários FORA DO ACORDO. Se olharmos para as lotéricas, seguradoras, fintechs, bancos privados, cooperativas de créditos, agentes individuais de crédito e trabalhadores informais nas plataformas, aí perceberemos que a superexploração dos trabalhadores do ramo financeiro e a sua desorganização são a âncora que puxam para baixo a remuneração dos bancários, pois em nenhum ramo da economia - ensina o marxismo - a força de trabalho é remunerada pelo mérito do trabalho, pela produção ou pelo lucro obtido pelo patrão, mas sim pela capacidade que os patrões têm de pagar MENOS aos trabalhadores, 

Na verdade, a categoria bancária ,na negociação que é uma guerra, só tem o escudo, mas não tem a espada. E as gestões dos bancos públicos agiram com essa certeza e em conluio com os banqueiros privados. Por isso, no BB, se valeram do fim da ultratividade e jogaram com o endividamento e a dependência da categoria da remuneração variável. Na Caixa, foram para o autoritarismo puro e simples, encerrando a negociação. Nos dois casos, foi um tapa na cara do funcionalismo e o custo para o campo progressista é gigantesco. Por outro lado, é o fim das ilusões, e isso deve ser saudado como esclarecimento, jamais usado para rebaixar o nível da consciência política na categoria. Nenhum movimento que prescinda da luta de classes e da disputa do poder pode ser avançado, vira identitarismo, sindicalismo amarelo. Até uma greve pode servir aos inimigos dos trabalhadores. Por isso Lenin alertou que é preciso uma consciência externa, superior, para que o movimento não se perca nos becos sem saída diante dos quais só a política pode abrir largas avenidas. 

O adoecimento da categoria milita contra a clareza, mas é dever do movimento sindical politizar e elevar o nível de consciência da sua classe, e armá-la para que não caia em derrotas, nem seja usada pelos seus próprios inimigos. O objetivo da FENABAN é desmoralizar a negociação coletiva, humilhar os sindicatos e isolar os bancos públicos, para poder seguir na desregulamentação do trabalho bancário e implodir o movimento sindical que se manteve mesmo depois de tudo que houve nos anos Temer e Bolsonaro.

O segundo lugar comum é de que a Greve por tempo indeterminado do passado é possível nos dias de hoje, que era exatamente a espada do movimento. A guinada conservadora do judiciário nas questões trabalhistas é a mesma ou até pior do que a que houve na legislação, com a Deforma Trabalhista, da Previdência, a plataformização do trabalho, a terceirização sem limites e a precarização universal. A tecnologia bancária, com o teletrabalho, a possibilidade de dispersão da categoria bancária e com o protagonismo da digitalização desconstruiu os piquetes e as grandes concentrações bancárias. Parar as agências hoje ajuda os bancos a fechá-las e a acabar com os caixas, atrai antipatia dos mais pobres que a elas recorrem e virou um teste de robustez do autoatendimento. Além disso, como ficou claro em 2026, o fim da ultratividade não é um detalhe, mas a perda dos direitos e da remuneração variável dos bancários, remuneração variável que os faz se matar e enlouquecer para pagar as dívidas crescentes dos mesmos juros que eles cobram dos clientes. Ou seja, uma espada de Dâmocles pende sobre a negociação coletiva. 

Por isso, não foi um detalhe ou insignificante a paralisação de 24 horas em plena negociação no dia 20 de agosto. Daí ter sido um ato de coragem e heroísmo a rejeição da proposta da FENABAN, do BB e da CEF pela amplíssima maioria dos trabalhadores desses bancos. Por isso mesmo, os dois dias de greve, 10 e 11 de setembro, entrarão para a história como um ato de rebeldia contra o sistema financeiro, como o desmascaramento das gestões do BB e da CEF e o fim de sua demagogia, como uma ato de coragem dos sindicatos que, mesmo sob o fim da ultratividade, deixaram de assinar o acordo coletivo e a convenção, esticando a corda até o dia 11 de setembro, ou mais, no caso da Caixa, quando existe o risco objetivo de rompimento da mesa da negociação coletiva, e sem possuirmos hoje qualquer acordo que garanta direitos que são vistos como básicos, apesar de os trabalhadores da ampla maioria do sistema financeiro não os terem.

Na verdade, as grandes conquistas dessa greve não são o índice, mas sim ter mantido a lógica de não aceitar perda salarial, nem a fragmentação da categoria. Houve perdas salariais nos governos Temer e Bolsonaro e não houve greve, exceto na Greve Geral contra a Deforma Trabalhista, em 2017, dia de trabalho até hoje não pago, mas que receberemos depois de uma luta de 9 anos, por um dia! Então, os três dias de paralisação/greve nos bancos públicos e o fato de que a parte mais mobilizada da categoria bancária ficar quase 15 dias sem nenhum acordo que a garantisse, nesse momento delicado em que o futuro do país está em jogo, é sim um ato de coragem, rebeldia e disposição de luta, e que só foi possível pela cooperação dos sindicatos na CONTEC, CONTRAF e na CTB (que não é de nenhuma) e as bases da categoria bancária no BB e na CEF.

A terceira ilusão é que nosso patrão é o governo de turno, e não o sistema financeiro. O fato de Lula ser o Presidente não quer dizer que superamos todas as amarras que havia antes de sua eleição, haja vista a contribuição apequenada que os bancos públicos deram para que o Brasil baixasse as taxas de juros, a começar pelo Banco Central. O golpe contra a Presidenta Dilma, além de fazer a Deforma Trabalhista, colocou sob correntes as estatais brasileiras, em especial os bancos públicos, subordinando-os aos acionistas minoritários e ao capital financeiro rentista e especulador, dos juros altos e da escravidão do povo. Foi para isso que derrubaram a Dilma. E o recado está dado: se mexer, cai. Quem tiver ouvidos, ouça. 

Na Caixa há uma realidade ainda mais delicada, assim como é estratégico esse banco fundamental para o Brasil. A Caixa segurou uma onda na pandemia que deveria ser considerada como um feito heroico de solidariedade dos trabalhadores bancários com o povo brasileiro, tornando possível o pagamento do Auxílio Emergencial em plena COVID. Esse heroísmo foi pago com a saúde dos empregados e com a fatura das contas do Saúde Caixa que passou a morder imenso pedaço de seu orçamento, além de se buscar a qualquer preço romper a solidariedade intergeracional, que é a vantagem mais importante das autogestões sobre os planos de saúde. É a saúde privada que sabota o SUS e as autogestões e o Saúde Caixa. Numa situação de impasse, o presidente da Caixa diz que romperá com a negociação para o dissídio coletivo.  Assim, o cria do Lira faz seu papel abjeto de sabotar a negociação coletiva e queimar o governo, além de ficar evidente que ele não é a Rita Serrano, a companheira que presidiu a Caixa e foi saída por vacilo do próprio movimento sindical. Ele já tentou sabotar a negociação passada. Agora, quer implodir a presença da CEF na mesa e chantageia a categoria a aceitar a conta e o fim da solidariedade, criando uma crispação sem precedentes quando a Caixa, sozinha, segue na greve.

Claro, como sempre, os trotsquistas (com nobres exceções no seio da frente popular que se busca construir), servem de quinta-coluna do movimento, e paqueram com o judiciário, contra a negociação coletiva, vendendo ilusões, esquecendo que as cláusulas sociais do acordo não são julgadas em dissídio, ignorando o isolamento, promovendo o baixo astral, desmerecendo a batalha das eleições de outubro, as mesmas que podem decretar o fim dos Bancos públicos, da categoria bancária e do Saúde Caixa. Quando até esses farsantes admitem em seus materiais que só restaria o dissídio e que não sabem o que vai sair daí, essa é uma confissão velada, hipócrita e covarde, de que a negociação acabou e que se esgota a possibilidade da continuação da greve.

A Caixa mantém características únicas que os planos de saúde precisam destruir. É solidária entre as gerações, é ainda parte da empresa, sem ser um ente separado autogerido, e tem a responsabilidade maior no custeio de quem adoece, e não de quem é adoecido. É justa a revolta, heroica a greve, e os empregados da CEF merecem todo o apoio e a solidariedade, Isso não significa dizer que será a greve o instrumento adequado para a solução desse impasse. Chantageados pelos banqueiros, os bancários e o governo deveriam lutar pela exclusão do Saúde Caixa do acordo e sua discussão em mesa separada, isso seria uma imensa vitória. Ensinou Getúlio, adiar uma batalha perdida já é uma vitória. Mas é preciso reconhecer que será pela política, e não mais pela greve, que poderemos encontrar uma alternativa para o Saúde Caixa, e não apenas para ele, mas para a saúde em todas as estatais, conquistando uma maioria que ultrapasse o Executivo e chegue no Legislativo, mudando as leis e as gestões conservadoras e traidoras, e persistindo na luta unitária e organizada que ocorre sempre. 

A greve não é um fim em si mesma, é um instrumento de luta. Não é pouco o que mantivemos e ampliamos, não foram pequenos nossos esforços de luta, não temos motivos de vergonha, muito ao contrário, forçamos o que foi possível e precisamos reconhecer o ponto em que persistir só arma os inimigos da Caixa, dos Bancários e do Brasil. Ignorar o momento político, flertar com a extrema direita golpista, semear o desânimo e a negação da política, radicalizar sem ampliar, dividir e isolar os trabalhadores de uma empresa, levar o tema para o dissídio nas mãos do judiciário, não são apenas caminhos para a derrota, mas uma traição vergonhosa àqueles que se diz defender. É preciso politizar o debate e achar as saídas políticas, seguir acumulando força, em unidade e mobilização, porque a luta continua. 

Uma pequena vitória e um adiamento, mas essenciais para vencer adiante  - Portal Vermelho

Uma pequena vitória e um adiamento, mas essenciais para vencer adiante - Revista Fórum

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

FENABAN ATACA A MESA ÚNICA E AMEAÇA A NEGOCIAÇÃO NACIONAL DOS BANCÁRIOS - CTB Bancários


 CTB BANCÁRIOS


FENABAN ATACA A MESA ÚNICA E AMEAÇA A NEGOCIAÇÃO NACIONAL


A CTB Bancários considera grave a postura adotada pela Fenaban após as assembleias da Campanha Nacional dos Bancários de 2026. Depois de negociar nacionalmente e submeter uma proposta à categoria, a representação dos bancos pretende agora tratar de forma diferente as bases que aprovaram e aquelas que rejeitaram a proposta, ameaçando dois pilares históricos da organização dos bancários: a mesa única de negociação e a Convenção Coletiva Nacional.


A mesa única foi conquistada justamente para impedir que os bancos fragmentassem os trabalhadores por empresa, região ou sindicato. Sua existência nunca dependeu de unanimidade nas assembleias. Ao longo da história da categoria houve propostas rejeitadas, greves, novas negociações, novas assembleias e adesões posteriores. Rejeitar uma proposta nunca significou abandonar a negociação nacional.


É essa lógica que a Fenaban procura inverter. Nos ofícios encaminhados às entidades sindicais, considera encerrada a negociação e afirma que não reabrirá a mesa com sindicatos que rejeitaram a CCT. Na prática, pretende transformar o direito de rejeitar uma proposta numa escolha entre aceitar o que os bancos oferecem ou ficar fora da contratação nacional.


Essa postura não pode ser analisada isoladamente da condução patronal de toda a campanha. A Fenaban levou a apresentação das cláusulas econômicas decisivas para a fase final da negociação e utilizou a proximidade do fim da vigência dos instrumentos coletivos como elemento de pressão sobre a categoria. Agora, diante das rejeições em algumas bases, procura transformar o resultado das assembleias em instrumento para encerrar a negociação com quem decidiu continuar lutando. O conjunto dessas atitudes revela uma estratégia de endurecimento que pressiona os trabalhadores a aceitar a proposta patronal e favorece a fragmentação da negociação nacional.


Isso é uma pressão inaceitável sobre a soberania das assembleias. Uma negociação só é efetivamente democrática se os trabalhadores puderem dizer não e continuar negociando. Mesa única não pode existir apenas enquanto as bases aceitam a proposta patronal. Se o direito de permanecer na negociação depende de aprovar a proposta dos bancos, deixa de existir negociação e passa a existir adesão.


A chamada Cláusula X é a cláusula de exclusão proposta pela Fenaban: pretende incluir na própria CCT listas de bases do Banco do Brasil e da Caixa que, por terem rejeitado a proposta, ficariam fora das Convenções, sem a garantia convencional de abono da paralisação de 20 de agosto e das ausências decorrentes de paralisações e greves posteriores. A cláusula não é o problema isoladamente; é a materialização, no texto da CCT, da política de dividir a categoria entre quem aceita e quem continua lutando.


O tratamento dado aos dois bancos públicos evidencia ainda mais essa postura. No Banco do Brasil, a Fenaban criou uma situação intermediária para as bases que deliberaram pela reabertura das negociações: admite nova assembleia até 10 de setembro e posterior assinatura, preservando os efeitos da CCT desde 1º de setembro. Na Caixa, não oferece a mesma possibilidade: as bases que rejeitaram são diretamente enquadradas no grupo de exclusão. Além de fragmentar a negociação nacional, a Fenaban estabelece tratamentos diferentes entre bases que decidiram não encerrar a luta.


Também é preocupante que as direções do Banco do Brasil e da Caixa não se coloquem contra uma dinâmica que ameaça a unidade da negociação nacional. Bancos públicos não deveriam contribuir, por ação ou omissão, para uma estratégia que isola seus próprios trabalhadores da contratação coletiva da categoria.


A gravidade vai além de BB e Caixa. Num sistema financeiro marcado pelo fechamento de unidades, redução de postos de trabalho, terceirização e acelerada transformação tecnológica, fragmentar a representação e a negociação dos trabalhadores interessa aos bancos e enfraquece a capacidade coletiva de enfrentar essas mudanças. Se prevalecer a tese da Fenaban, abre-se ainda um precedente para futuras campanhas: apresenta-se uma proposta nacional, quem aceita permanece na Convenção e quem rejeita pode ser retirado da contratação coletiva. Isso devolve aos bancos uma capacidade de divisão que a categoria levou décadas para superar.


Não há necessidade disso. Historicamente, já ocorreram rejeições seguidas de novas assembleias e posterior assinatura. Também há sindicatos que não participam das mesas nacionais, deliberam em suas bases e posteriormente formalizam sua adesão aos instrumentos coletivos. A experiência da própria categoria demonstra que é possível assinar a CCT com quem está autorizado sem fechar a porta para quem continua lutando.


Por isso, a CTB Bancários defende uma posição unitária de Contraf-CUT, Contec, federações e sindicatos, independentemente da posição adotada nas assembleias: rejeitar a política de exclusão da Fenaban e não permitir que ela seja incorporada à CCT.


Quem aprovou deve ter sua decisão respeitada e assinar. Quem rejeitou também deve ter sua decisão respeitada e continuar mobilizado, negociar, voltar à assembleia e aderir posteriormente ao instrumento caso sua base assim decida.


A Fenaban não pode negociar nacionalmente para apresentar sua proposta e fragmentar a categoria quando essa proposta é rejeitada. Não pode aproveitar divergências legítimas entre as bases para enfraquecer a mesa única e transformar a CCT nacional em instrumento de pressão contra quem continua lutando.


A MESA É ÚNICA. A CCT É NACIONAL. A CATEGORIA É UMA SÓ.


CTB Bancários

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Podcast Coletivizando – Greve na Caixa e no BB? Balanço das bases e pautas - Sexta, 03/09/2026

Banner promocional do Podcast Coletivizando para sexta-feira, 04 de setembro de 2026, às 8:15 AM.  No topo, à esquerda, está a logomarca do podcast e, à direita, a foto circular do apresentador Paulo Vinícius da Silva falando ao microfone.  No centro, sobre fundo amarelo, destaca-se a seção "Papo político" com o tema: "Greve na Caixa e no BB? Balanço das bases e pautas". À esquerda do tema, há a foto circular do convidado Tulio Menezes, identificado como bancário da CEF, da CTB e do Sindicato dos Bancários-CE.  Na parte inferior, em uma faixa vermelha, a seção "Canta, minha gente" traz a música "La Marseillaise de la Commune". O rodapé exibe as logos do Podcast Coletivizando, Metamorfose Comunicação, CTB Bancários Ceará e Bancários DF, além das redes sociais @metamorfosecomunicacao, @ColetivizandoBR e o ícone do YouTube.

Em todo o Brasil ocorrem assembleias para definir a aceitação ou a rejeição da proposta de Convenção e dos Acordos Coletivos nos Bancários. Como se posicionam os sindicatos? No BB e na Caixa, o que se destaca?

Podcast Coletivizando –

* Sexta-feira, 04 de setembro de 2026, às 8h15 AM.

Apresentação: Paulo Vinícius da Silva.

Papo Político

Tema: Greve na Caixa e no BB? Balanço das bases e pautas.

Convidado: Tulio Menezes (Bancário CEF e da CTB Bancários-CE/Sindicato).

Canta, minha gente: La Marseillaise de la Commune.

Assista no YouTube nos canais @metamorfosecomunicacao e @ColetivizandoBR


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domingo, 25 de julho de 2021

Congresso dos bancários - Inscreva-se até 29/07 - Campanha Nacional dos Bancários 2021





10º Congresso Distrital será em 31 de julho. Inscrições começam nesta quinta (22) e vão até o dia 29
22 de julho de 2021
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Bancários e bancárias do DF e Entorno debaterão plano de lutas e elegerão delegados para os fóruns nacionais da categoria

Os bancários e bancárias do DF e Entorno se reúnem no dia 31 de julho, no 10º Congresso Distrital, para definir o plano de lutas da categoria para o próximo período. Entre os principais desafios estão o enfrentamento da pandemia, em defesa da saúde e da vida, o combate ao desmonte dos bancos públicos e às privatizações e garantia de emprego e de direitos.

Os trabalhadores de bancos públicos e privados vão também eleger seus representantes para a 23ª Conferência Nacional dos Bancários, que acontece em setembro, e para o 32º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (CNFBB), para o 37º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa (Conecef) e para os demais encontros específicos por bancos (veja abaixo).

O Congresso Distrital terá ato de abertura na sexta-feira, dia 30, e será realizado de forma remota. As inscrições estão abertas e vão até o dia 29. Na segunda-feira 26 o Sindicato divulga a programação e a dinâmica dos debates que ocorrerão durante todo o dia 31.

> Clique aqui para se inscrever

Encontros nacionais por bancos acontecem entre os dias 3 e 8 de agosto

Banco do Brasil

As atividades do 32º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (CNFBB) serão realizadas no dia 8 de agosto, com o tema “Construindo juntos o futuro do Banco do Brasil”.

Caixa

O 37º Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal (Conecef) “em defesa da Caixa e de seus empregos. Por um Brasil melhor” acontece no dia 7 de agosto.

BNB

O 27º Congresso Nacional dos Funcionário do Banco do Nordeste do Brasil acontece no dia 7 de agosto com o tema “Banco do Nordeste do Brasil e FNE juntos construindo um nordeste melhor”.

Bradesco

O encontro nacional dos bancários do Bradesco, a ser realizado no dia 3 de agosto, terá como mote “O que queremos do futuro é emprego, saúde e um Brasil melhor”.

Santander

O encontro nacional dos bancários do Santander será “Contra a precarização e em defesa da vida e do emprego”, no dia 3 de agosto.

Itaú

As atividades do Itaú serão no dia 5 de agosto com o mote “O futuro só será possível com emprego, saúde e melhores condições de trabalho”.

BMB

O Encontro Nacional do Banco Mercantil acontece no dia 4 de agosto, das 14h às 18h, com o tema “Garantindo conquistas e avançando em direitos dos empregados do Banco Mercantil do Brasil”.

BASA

O 12º Congresso dos Funcionários do Banco da Amazônia “Desenvolvendo a região norte e o País” acontece no dia 8 de agosto.

Da Redação com informações da Contraf-CUT




quarta-feira, 31 de julho de 2019

21ª Conferência Nacional dos Bancários acontece neste final de semana - CONTRAF


Evento visa preparar a categoria para se defender e enfrentar a realidade de ataques aos direitos da classe trabalhadora
Conferência Nacional
Arte: Contraf-CUT
Bancários de todo o país se reúnem entre os dias 2 e 4 de agosto, em São Paulo, na 21ª Conferência Nacional da categoria. Os delegados e delegadas vão debater sobre questões que interferem diretamente na sociedade, no cotidiano de trabalho nas agências e nos departamentos bancários e definir as estratégias e plano de ações para defender a soberania nacional, a democracia, os empregos, os direitos dos trabalhadores e ações contra a reforma da Previdência e as privatizações dos bancos e demais empresas públicas.

“A categoria é a única que possui uma convenção coletiva que engloba todo o país. Os direitos dos bancários são os mesmos em qualquer ponto do território nacional. Temos tudo isso graças à nossa unidade e, mais do que nunca, precisamos nos manter unidos para defender nossos direitos e conquistas, nossos empregos e o direito de nos organizarmos”, explicou a presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), Juvandia Moreira, que é uma das coordenadoras do Comando Nacional dos Bancários, responsável pela organização do evento.

Juvandia ressaltou que os direitos dos trabalhadores estão sob forte ataque no Brasil e no mundo. “O capital internacional quer ditar o rumo das políticas a serem adotadas para que obtenham cada vez mais lucros. Esse governo e o Congresso têm pautado a retirada de direitos, como o direito de se aposentar com dignidade; o direito a uma jornada e um trabalho dignos, atacados agora pela MP 881”, disse. “Buscam minar as forças dos sindicatos e demais movimentos sociais porque estes impõem resistência a estes desmandos. Temos que estar unidos, não apenas como categoria, mas no conjunto da classe trabalhadora, e nos preparar para nos defender e cobrar políticas que gerem empregos, não aprofundem o desemprego”, disse a presidenta da Contraf-CUT.

Materiais e informações

Uma novidade da 21ª Conferência Nacional dos Bancários será a substituição dos materiais impressos pela tecnologia. Desde a programação, aos subsídios de reflexões e demais informações estarão disponíveis em um App que pode ser baixado nos celulares e/ou tablets dos delegados.

A iniciativa visa otimizar a utilização dos recursos da categoria e ampliar a gama de informações sobre o evento.

Redes sociais

O evento terá cobertura total de imprensa, com publicação imediata de textos no site da Contraf-CUT, e transmissão ao vivo de algumas mesas de debates, com vídeos veiculados na página da Contraf-CUT no Facebook. Nas redes sociais, os delegados serão instruídos a utilizar as hashtags #21C e #NossaLutaÉ nas fotos, comentários e demais postagens.

Programação

Veja abaixo a programação completa da 21ª Conferência Nacional dos Bancários.

Dia 02 de agosto: sexta-feira
12h às 20h –
 Credenciamento de delegadas e de delegados.
19h – Abertura solene

Dia 03 de agosto: sábado
9h às 13h –
 Credenciamento de delegados e de delegadas.
9h às 9h30 – Votação do Regimento Interno
10h às 13h – Mesa 1 – Análise de conjuntura
13h às 14h – Prazo para substituições de delegadas ou de delegados

13h às 14h30 – Intervalo para almoço

14h30 às 16h30 – Mesa 2 – Soberania Nacional
16h30 às 18h – Mesa 3 – Reforma da Previdência
19h – Confraternização

Dia 04 de agosto: domingo
10h às 11h30 –
 Mesa 4 – Futuro do Trabalho, Impactos nos empregos e na Organização Sindical
12h às 14h – Mesa 5 – Resoluções e moções

Fonte: Contraf-CUT / Paulo Flores

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Tribuna Popular Dia Nacional de Luta em defesa da Caixa em Brasília

No dia 28 de Maio, Dia Nacional de Lua em defesa da Caixa Econômica Federal, o Sindicato dos Bancários de Brasília realizou um tribuna popular na Edifício Matriz 3 da CEF em Brasília, aonde representei a CTB.

Novamente a privatização da LOTEX foi adiada, trata-se da Loteria Instantânea da Caixa. O caos e o descrédito do desgoverno Bolsonaro espanta até os compradores da "pechincha". A luta dos trabalhadores, a luta no judiciário e na sociedade acumula vitórias e precisamos persistir!
Foto: Guina Ferraz do Sindicato do Bancários de Brasília

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sim à vitória da categoria bancária - Paulo Vinícius Silva*

O movimento sindical bancário ante o desgoverno de Temer

O desgoverno de Temer ameaçou a categoria bancária, criando uma sinuca de bico para a campanha nacional de 2018. Em especial, através de três ações articuladas:

- A Reforma Trabalhista - inúmeros impactos sobre a categoria bancária:
a) A ultratividade assegurava nosso acordo último vigente até o estabelecimento de outro, ainda que em dissídio. Isso não existe mais. Depois de 31 de agosto, deixam de valer os direitos que temos conquistado por gerações e ficam somente aqueles da lei de Temer, Rogério Marinho (PSDB-RN), (Ricardo Ferraço PSDB-ES).
b) Retirou-se no mínimo 40% do financiamento da estrutura sindical, comprometendo a sustentação, a independência e os serviços prestados à categoria. Criaram-se condições para um sindicalismo paralelo, legalizando o desrespeito à lei e a chantagem patronal, com o negociado acima do legislado e os acordos individuais que podem sacrificar direitos e dívidas;
c) Parte da categoria poderia ser considerada hiper-suficiente - segundo sua faixa salarial não poderias se contemplada no acordo coletivo, passando a "negociar" sozinha com o banco;
d) a situação jurídica é francamente desfavorável aos trabalhadores e trabalhadoras, por militância conservadora no judiciário, por fragilidade do marco legal, por grandes dificuldades de acionar a justiça e risco de ônus aos demandantes, além de riscos de paralelismo sindical.

- A Lei da Terceirização - Não há limites à terceirização quanto à atividade fim e atividade-meio, tampouco se impede a quarteirização e fenômenos de precarização similares, assim como a intermediação de mão de obra; impulsiona a pejotização sem qualquer pudor;

- O ataque à saúde e às condições de trabalho - Ao empalmar na mão grande o governo federal pelo golpe de Estado, Temer provou a muitos colegas conservadores que, sim, existe diferença entre governos de centro e esquerda e governos neoliberais que chegam ao poder sem o voto popular. Vivemos um descalabro na gestão das empresas públicas: reestruturações sucessivas e erráticas, dirigentes que praticam gestão temerária que prejudica e causa risco de imagem às próprias empresas, programas de privataria para destruir e pilhar o patrimônio público, novas tecnologias que impactam a saúde psíquica, o regime de metas e a gestão do trabalho pelo assédio sistemático.
Para ampliar o ambiente de medo e insegurança que atinge centenas de milhares de empregados das estatais, publicaram a Resolução nr. 23 da Comissão Interministerial de Governança Corporativa de Administração de Participações Societárias da União - CGPAR. Esse nome impoluto esconde três assinaturas que vale a pena conhecer para entender: Dyogo Oliveira, economista, passou um ano e um mês como Ministro do Planejamento, foi pro BNDES; Henrique Meireles, então Ministro da Fazenda, agora candidato a Presidente pelo MDB e Elizeu Padilha, Ministro da Casa Civil de Temer.  Foi essa turma.

Desse modo, o governo Temer matou vários coelhos de uma só cajadada:
a) criou um clima de medo e insegurança jurídica sobre os funcionárias das estatais, já fragilizados pelas ameaças privatistas;
b) avançou mais uma casa no processo de destruição do SUS e da saúde pública, favorecendo a saúde privada e atacando as auto-gestões de trabalhadores;
c) criou um mecanismo para "enxugar" as estatais de "despesas" e obrigações com seu funcionalismo que obstaculizam o processo de privatização pretendido.

Gestão temerária, lesa pátria e assédio organizacional, com o apoio da imprensa golpista e as ameaças jurídicas

Foi sob esses múltiplos ataques que a categoria bancária teve de negociar este ano. A decisão de um acordo bianual em 2016, às vésperas da aprovação da famigerada deforma se mostrou mais que correta. Vale ouro assegurar o conquistado em tempos de fim da ultratividade e de negociado sobre o legislado. Esse tempo não foi em vão. Não paramos, e há dois anos o movimento sindical se desdobra em denunciar os perigos e politizar a categoria, que foi muito influenciada pela onda conservadora que varreu o Brasil. Pouco a pouco, mesmo os mais teimosos foram percebendo os riscos envolvidos e o novo cenário em que as greves podem se dar.

O calendário de negociação foi antecipado em praticamente seis meses, fincou-se o pé na bandeira "Todos por tudo", em defesa de todos os direitos do acordo coletivo; a militância jurídica dos sindicatos e federações de bancários assumiu um patamar inédito em número de ações e em luta para preservar os direitos ameaçados pela Deforma. A decisão consequente de defender até o fim a mesa única foi outro elemento decisivo, pelo risco objetivo de fragmentação das mesas e mesmo da categoria por faixa salarial.

Essa base unitária, qualificada e mobilizada fez o seu papel e mostrou o custo que envolveria implodir o principal modelo de negociação coletiva do país. As entidades sindicais classistas não se calaram diante do Golpe, dos ataques aos direitos, avisaram e mostraram para a sua base o perigo, as ameaças e o caminho para preservar tudo o que conquistamos.

O tostão contra o bilhão
Ainda assim, persiste a subestimação da importância da luta sindical, o imobilismo, as ilusões de saídas individuais e o medo como realidade vivida pela categoria bancária. A pressão psicológica, a dependência da categoria da remuneração variável e das funções que não estão incorporadas e as práticas antissindicais, compõem um cotidiano duro de sofrimento psíquico e de resistência da categoria.

Infelizmente, muitos colegas se deixaram manipular pelo discurso dos patrões que criminalizam a luta sindical e seus /suas dirigentes. São fenômenos desconcertantes e tristes, que cabem na metáfora das galinhas que elegem a raposa - que diz-se vegana - para presidir o galinheiro. É o concursado a favor da privatização. O funcionário desconfiado do sindicato, adoecido pelo banco, que acredita que o banco que o adoeceu cuida e se preocupa com a sua saúde. É o colega que não percebe que pode perder tudo e se mostra indignado em contribuir com quem defende e garante todos os seus direitos. É o raivoso apoiador de greve na assembleia que nunca participa nem participará da greve, é um fura-greve, que diz, cheio de moral: "greve é coisa do sindicato". Mas, mesmo para esses, é preciso que reconheçam que as conquistas sindicais são parte de seu contra-cheque, do tempo com seus filhos e família, da saúde e da sua velhice. Boa prova do que é coração de banqueiro foi a proposta de excluir as mulheres em licença maternidade da PLR.

Cumpre reconhecer as novas dificuldades desse contexto de golpe de estado, militância jurídica conservadora, perda de direitos, de garantias da negociação e de recursos financeiros. A visão equivocada que trata o movimento sindical como a terceirização da participação política da categoria é o principal obstáculo às greves. A mudança tecnológica do banco digital, o receio de empecilhos ao crescimento profissional, o medo face ao futuro das empresas públicas, todos são fatores que exigem a mudança no formato das greves, assim como a sua politização, porque as greves precisam ser feitas pelo conjunto dos bancários e bancárias, senão não cumprirão o papel que podem ter e servirão para abrir o flanco da categoria a todas as ameaças que listamos.

O cenário dos reajustes salariais do ano de 2017 ilustra os impactos malsãos da agenda anti-trabalhador e antissindical de Temer:

Observe-se que 28,6% das categorias tiveram reajuste igual ao INPC, 8,1% abaixo do índice, 49,5% perfez no máximo 1% de aumento real e 13,7% acima de 1% de ganho real. Acima de 2% de ganho real, apenas 2,5% dos reajustes se enquadraram.

Com toda a sua importância, os reajustes, no entanto não esgotam nossas reivindicações, embora representem muitíssimo. A fragilização geral da CLT e a Terceirização ilimitada criaram uma situação de quatro frentes simultâneas de luta: a) salários; b) negociação coletiva e demais direitos no acordo nacional; c) defesa das estatais; d) saúde e condições de trabalho; É diante desse contexto mais amplo que conquistamos, graças às ações de luta nas ruas, à pressão institucional e à negociação unitária:

I - Ganho real de 1,18% em 2018 e 1% em 2019 sobre todas as verbas;
II- Manutenção de todas as cláusulas do Acordo Coletivo Nacional por dois anos, da mesa única abrangendo toda a categoria e das negociações específicas, e a neutralização parcial da perda de receita para a luta sindical com a contribuição negocial de 1,5% para todos;
III- O movimento de unificação das ações dos sindicatos das estatais e da sociedade acompanhou todas as campanhas salariais do período e cumpriu papel destacado em impedir, por exemplo, os planos de privatização do sistema ELETROBRAS, a licitação das Loterias sem a CEF, a suspensão de medidas de privatização no governo Temer, a partir da ação da FENAE e CONTRAF junto ao supremo;
IV - A defesa do Saúde Caixa nos termos atuais e a ampla denúncia do adoecimento dos bancários(as) no sistema financeiro. A campanha salarial abordou a Saúde, inclusive em temas que não eram objeto da negociação, por veto patronal. Exemplo disso foi a ampla campanha em defesa da CASSI que desmascarou as manobras e chantagens contra o funcionalismo para empurrar na marra a resolução CGPAR 23. O movimento associativo e sindical se uniu e deu um rotundo não ao BB, batalha política que precisa continuar a ser travada na rejeição das propostas caô , mas cujo resultado só virá nas eleições de 2018.

Celebrar cada vitória e salvar o Brasil
É diante desse contexto, que consideramos uma grande vitória o resultado da negociação de 2018 para a categoria bancária e defenderemos nesta quarta às 19h00, na Praça do Cebolão que a categoria aceite a proposta, seguindo a orientação do Comando Nacional. A Campanha Nacional é uma parte da nossa luta, e sabemos que esse novo acordo de dois anos tem sentido exatamente pelo horizonte turvo e ameaçador diante de nós.

Parte da vitória que tivemos vem de terem se fortalecido as perspectivas da derrota do Partido de Silvério dos Reis, de Temer e sua gangue, nas eleições de 2018. É a unidade do povo que dá essa força, e é preciso ampliar esse movimento, porque meses podem nos separar da destruição de tudo que restou dos nossos direitos. Se fizeram essa tragédia em 2 anos, a urgência é varrê-los de Brasília e retomar o Brasil e a Democracia. Dificilmente numa luta atingimos toda a nossa pauta, ainda mais se a situação é difícil. Garantamos a nossa vitória e fortaleçamos a unidade popular!

* Diretor de Relações do Trabalho da CTB e diretor de Política Sindical dos bancários de Brasília

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Caminhos da Frente Ampla: a classe trabalhadora e a unidade de ação - Paulo Vinícius Silva

Pergunto, por que não nos unimos,
se assim só alegramos nossos inimigos?!
Juntemos nossas mãos,
a pátria nos reclama
a luta que nos levará à vitória final!
Ali Primera


Em plena 4ª Revolução Tecnológica, o Brasil se desindustrializa numa escala jamais vista, submetido a um governo títere dos Estados Unidos, ilegítimo, fruto podre de um golpe de estado urdido para a destruição dos fundamentos de qualquer projeto de desenvolvimento brasileiro. Em vez de saltar adiante para as novas possibilidades da tecnologia, a junta golpista (banqueiros, oligarcas da política, da imprensa monopolista e dos altos escalões do judiciário) dá o grande salto atrás, ampliando nosso atraso relativo, com o conhecido e brutal colonialismo que visa a eternizar uma estrutura social de cidadãos de primeira classe e uma segunda classe de subcidadãos.
Nosso país passa por uma expedição punitiva e Temer é um boneco de uma ocupação estrangeira, protegida pelo judiciário e pela imprensa golpista. Pune-se o Brasil por ter ousado assumir maior protagonismo internacional, com a América Latina e os BRICS, por ter se fortalecido como nação. Episódios como a dita Primavera Árabe, os protestos no Brasil, em 2013 e a desestabilização e guerra econômica contra a Venezuela mostram a influência do imperialismo se vestir de mobilização de massas, estimuladas por TVs, jornais e pela internet com fins de desestabilização, e buscando a chancela do parlamento e do judiciário, como se viu desde os casos de Honduras, com Zelaya, e do Paraguai, com Lugo. Vimos o cerco financeiro, a manipulação dos preços internacionais promovida pelos EUA e a Arábia Saudita, o bloqueio político e midiático ao governo e à Petrobras, a partidarização de setores policiais, judiciais e mesmo de milícias, com a progressiva imposição da violência, que já abateu a mais de uma centena de militantes da luta do povo desde a ascensão do golpista Temer.
Tal realidade obriga à esquerda a avaliar, retrospectivamente, o erro de menosprezar a questão nacional e, presentemente, a capacidade de organizar o povo, de segurança e de ação direta. Acima de tudo, deve a esquerda, especialmente a classe trabalhadora, ser o esteio da unidade de ação contra a ditadura em curso. Não podemos ignorar a violência nem danos irreparáveis à soberania e ao futuro do Brasil. É preciso impedir a dilapidação do patrimônio nacional.
É o Brasil do ferro gusa e da soja, depois da hecatombe que vitimou setores econômicos fundamentais sob a demagogia do combate a corrupção, ele próprio corrompido pela partidarização e pelo ativismo político do judiciário. Ativismo para libertar o criminoso prender o inocente, como ocorre com de Lula, cuja prisão é apenas outra forma de calar o direito de o Brasil decidir. Aqui, destroem-se setores industriais inteiros, desempregando pais e mães de famílias, com o choro de suas crianças e a volta da fome, a destroçar lares que se desfazem, ampliando a população de rua. O Brasil não ficou mais ético, ficou apenas mais desigual e covarde o contra o trabalhador, e ainda mais contra trabalhadora. Aqui, mata-se o povo de fome para enriquecer uma casta de financistas, especuladores, que subtraem a máxima parte da riqueza nacional.
É para vender e ajoelhar o país, para tanger o povo para as senzalas da exclusão, que servem o ódio e a violência fascistas. É preciso relembrar a definição clássica: O fascismo é uma ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e agressivos do capital financeiro como um regime reacionário de massas. A relação da clássica definição do fascismo dos anos 1930 com a composição e prática do golpismo, impressiona: banqueiros, mídia monopolista, a direita mais corrupta e atrasada, sob o comando do imperialismo. É sob a violência e o desrespeito ao direito internacional que se gesta a destruição da democracia na América Latina. Precisamos vencer e reverter esse cenário desolador com a vitória dos setores democráticos, nacionalistas e populares – com ênfase na classe trabalhadora.
Precisamos assegurar a existência e a lisura e vencer a batalha de 2018, afirmando a democracia como palco da resolução dos conflitos. 2018 decidirá o ressurgir ou o sepultar da democracia brasileira e há que preparar-se para tudo. Por isso a unidade avulta, é decisiva. É dever que vai muito além dos partidos. Apesar do Fórum das Centrais, das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, das frentes parlamentares em defesa das conquistas, prevalece a dispersão, as iniciativas parciais que não chegam ainda a inúmeras formas de organização popular que não atingimos. A necessidade obriga superar o atual cenário de derrotas seguidas após o golpe. Talvez um caminho seja resolver uma situação aparentemente paradoxal: há várias candidaturas de esquerda à Presidência, diferentes frentes nacionais e, ainda assim, unidade programática em torno de decisivas bandeiras nacionalistas, democráticas e dos direitos dos trabalhadores(as) e do povo.
Há, portanto, duas tendências cuja importância nos acontecimentos havemos de definir com nossa praxis: unidade versus fragmentação. Para chegar à unidade é complexo, só condições favoráveis não bastam. Unidade é fruto de esforço consciente, paciência, respeito. Para fortalecer as tendências à coesão é preciso avançar na unidade, como sinalizaram as fundações partidárias, num pacto a unir as candidaturas que defendem o Brasil, a Democracia e os Direitos do Povo.
Mas não basta esse compromisso na cúpula sem uma nova dinâmica de trabalho, de unificação de uma rede amplíssima de movimentos e formas de participação contemporâneas, com novas geração e tecnologia. Mas a base deve ser a unidade dos(as) trabalhadores(as) para responder o ataque à estrutura sindical, aos direitos da classe trabalhadora. O rasgar da CLT não foi respondido à altura e envolve muita gente que viverá sob o látego. Há oportunidades para a unidade. É possível responder à ofensiva antinacional a partir de plataformas sindicais unitárias e amplas campanhas e jornadas de lutas. A luta nas redes e nas ruas, um renovar do trabalho de base para:
1) a defesa das ESTATAIS – PETROBRAS, Correios, ELETROBRAS, CEF, BB, BNDES, EMBRAPA, bancos regionais, CEDAE, Metrôs, Itaipu, Portos;
2) a defesa do SUS; defesa dos usuários de planos de saúde; defesa da regulação da saúde privada; Todos os sindicatos e confederações ligados à saúde;
3) a defesa da Universidade Pública e da Pesquisa do Brasil – unir ANDIFES, SBPC, CONTEE, ANDES, UNE, DCEs, Cas, ANPG, APGs, FASUBRA, PROIFES, Institutos Federais, Seções sindicais, pesquisadores, artistas, personalidades da Ciência, Tecnologia, Ciências Sociais e Artes;
4) a defesa da Educação pública nos níveis Básico e Técnico – sindicatos das professoras(es) públicos e privados, Auxiliares e Profissionais da Educação Pública e Privada (regulação do ensino privado), federações e confederações;
Há uma sinergia evidente nessas plataformas que envolvem entidades importantíssimas, nacionalmente e nos maiores municípios. O ataque às estatais possibilita a imediata unificação das entidades que representam dos seus trabalhadores(as) para preservar: o caráter público, as condições de trabalho, a assistência à saúde e as autogestões, a participação eletiva nas empresas e a defesa de suas previdências privadas. Não há como vencer isoladamente. O sentido corporativo, nacional, trabalhista permite envolver amplos setores nessa luta decisiva. As confederações, federações e sindicatos das estatais ainda possuem força imensa, mas vivem o brutal ataque à sua estrutura, ao papel social e aos direitos da classe.
A unidade da luta na saúde, na educação e nas estatais pode nos ajudar a construir a unidade nacional e o enraizamento nas 27 unidades da federação, em especial nas cidades com mais de 100 mil habitantes, somando aos esforços dos Congressos do Povo. Num primeiro momento propomos quatro plataformas unitárias, face aos ataques que exigem naturalmente unidade gremial e compreensão classista, democrática e nacionalista. Mas devemos avançar para uma a unidade de ação dos trabalhadores e trabalhadoras da cidade e do campo, com iniciativas voltadas ao setor privado - Indústria, da Agricultura e dos Serviços -, à organização dos desempregados e excluídos.
A capacidade de reunir e debater com amplas massas, de repercutir nas redes, de as construir, obrigam a uma nova abordagem da luta sindical, inclusive atualizar o modelo de greve, incorporar novos atores profissionais terceirizados, quarteirizados, 4G, que advém descaracterização de categorias e da constituição de novas. É preciso um primeiro passo de unidade, nas estatais, na educação e na saúde para avançar e unir a classe trabalhadora.
Unificação e investimento no trabalho de basem deve ser consequência prática de um balanço autocrítico sobre a luta institucional, notadamente no Congresso que, a partir de Eduardo Cunha, tornou-se mero balcão de negócios espúrios e instância impenetrável que, não obstante, deseja a legitimação do movimento sindical e social. O excessivo institucionalismo na ação sindical e a redução dos espaços democráticos exige articular amplitude e radicalidade. A mudança de qualidade regressiva na democracia exige uma nova ação junto ao Congresso, mas sobretudo junto ao povo que elegerá o próximo. Disputar as agendas do Brasil é disputa de hegemonia e defesa da democracia. Sem unidade clara contra o retrocesso não poderemos avançar para a um maior espaço no Senado e na Câmara, eleger deputados e senadores que defendam os trabalhadores(as). O movimento sindical deve apresentar suas lideranças para retomar todos os nossos direitos.
No Golpe do impeachment fraudulento, na votação da Lei da Terceirização e da Reforma Trabalhista, nossa ação sindical não consegui articular seus dois polos: as direções nacionais e seus quadros, que circulam semanalmente no Congresso e Ministérios e a multidão dos envolvidos nas greves e paralisações gerais, na marcha de 200 mil a Brasília. Falta o protagonismo desse decisivo elo na corrente, sindicatos-âncora nos municípios acima de 100 mil habitantes. Uma rede dessas, se falasse para suas bases teria um impacto imenso. Já o comprovou. Essa parcela realizou a greve geral do dia 28, a 2a. CONCLAT e os Congressos das Centrais Sindicais e da CONTAG.
Mas a Pirâmide Invertida – com a hipertrofia das direções e a falta de apoio da base - leva a um envelhecimento geracional e à dificuldade crescente de mobilizar as categorias, ao burocratismo sindical, ao sindicalismo de resultados, afastando as categorias e impedindo a incorporação de mulheres e de jovens. Esse cupulismo amortece uma enorme rede que ainda não foi totalmente mobilizada e que deve ser buscar formas de pautar 2018. A luta pela relevância política é central para o movimento sindical.
A frente só se efetivará ao falar às entidades e à base popular. O momento exige ampla unidade em defesa das estatais e do Brasil. Esse movimento, se vitorioso, unindo centrais e frentes diversas, poderá apontar para a unificação nacional e para o enraizamento. E, a partir das estatais, quiçá sinalize para outras unificações, a defesa da Educação Básica e Técnica, do SUS, da Universidade e da C&T Brasileiras.
A unidade não é uma cadeira, uma mesa, é mais como um caminho. Mas, que fazer se os caminhos são desconhecidos, se levam a encruzilhadas? Ensina o poema de António Machado:
Caminhante, são tuas pegadas o caminho, e nada mais.
Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar.
E ao voltar o olhar atrás, vê-se a senda
a que não se voltará jamais.
Caminhante, caminho não há,
só as estrelas no mar.
Não há fórmula, receita para a unidade. Mas a Classe Trabalhadora aprendeu há 170 anos, com os jovens Engels e Marx (este a celebrar o seu bicentenário): “A burguesia produz, sobretudo, seus próprios coveiros”. Cada golpe que atinge o povo levará a uma incessante resistência. Somos felizmente obrigados a perseverar. Ao oprimido(a) só resta a esperança de lutar.
As condições objetivas e subjetivas para a unidade precisam ser sintonizadas numa estratégia democrática, nacional e popular. Como outros processos políticos latino-americanos evidenciaram: é necessária uma unidade superior do povo. E o Brasil construiu um imenso movimento sindical que precisa lutar, se defender e vencer essa guerra. A necessidade grita, e a CTB deve unir os trabalhadores e trabalhadoras, fortalecer a frente ampla, construir seu enraizamento, retomar a iniciativa política e defender as empresas públicas e o Brasil.
Toda semana afluem a Brasília centenas de lideranças sindicais para atividades que muitas vezes apenas legitimam uma agenda conservadora. É hora de mudar o esquema. Aproveitar e organizar essa presença em Brasília, construir espaços de diálogo e unificação, seminários nacionais, colóquios, debates públicos, manifestos para ecoar uma única voz de defesa da Nação, contra os vendilhões da pátria e escravizadores do povo. É preciso retomar os grandes espaços de diálogo e convergência como os Fóruns Sociais Mundiais, as Marchas da Classe Trabalhadora e a 2ª CONCLAT. Nossas formas de lutas para se demonstrarem verdadeiramente radicais, devem enfrentar as raízes dos problemas, e a raiz é o apoio do povo, retomar o laço de confiança numa nova ascensão da luta social. Nossas formas de luta devem reunir muita gente e repercutir nas redes, articulando uma base própria, a nossa representatividade.
PRIVATIZAR FAZ MAL AO BRASIL: É possível representar esse sentimento do povo, retomar a iniciativa, pautar 2018 e eleger trabalhadores(a) em defesa de nossos direitos roubados. Exatamente pela possibilidade de fragmentação eleitoral, fortaleçamos as trincheiras do povo unido. Unidade, bandeira da esperança. O povo, unido, jamais será vencido.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Conversa Afiada entrevista Betão da CONTRAF: Por que a greve dos bancários não acaba?

Bancários: por que a greve não acaba

Bancos lucram 20% ao ano e não querem pagar nem a inflação
publicado 29/09/2016
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Ex-jornalista mostra por que as agências se tornaram supermercado
A propósito da mais longa e extensa greve de bancários do Brasil, siga a entrevista abaixo:
PHA: Eu converso com Roberto von der Osten, presidente da Contraf/CUT e um dos coordenadores do comando nacional dos bancários.
Roberto, vocês tiveram ontem (quarta-feira 28/set) uma nova seção de negociações com a Febraban sobre a questão do reajuste salarial dos bancários. O que ainda separa vocês dos bancos?
ROBERTO: O que nos separa, primeiro, é o modelo de campanha nacional, o modelo de reajuste de salário que os bancos pretendem aplicar. A nossa proposta foi entregue no dia 9 de agosto, previa o reajuste pela inflação, mais 5% de ganho real - até porque o lucro dos bancos é uma coisa fabulosa, e nós achamos que tínhamos que fazer um esforço pra crescer o salário da nossa categoria.
Os bancos apresentaram um modelo que implica em reajuste do salário abaixo da inflação. No caso, eles oferecem 7%, o que causa uma perda de 2,39%. E oferecem um abono que não compensa isso, não recompõe a massa salarial, o poder de compra que os bancários perderam entre 2015 e 2016. Isso é um abismo. E não teve jeito, não caminha, nós tivemos uma infinidade de rodadas de negociação.
Não caminha por uma razão muito simples: tem um componente que está na mesa de negociação com a Febraban que não é um componente das relações de trabalho. Nós temos os estudos do DIEESE... Eu recebi uma tabela ontem, de 1995 a 2016, que mostrava quais foram os reajustes, desde o período FHC, do período do governo Lula, do governo Dilma, e do governo que está aí agora. Fica claro, você visualiza claramente, que havia uma política, uma âncora salarial na intenção de ajudar a conter a inflação, que foi abandonada no período seguinte ao FHC, quando nós conseguimos ganho todo ano. Conseguimos [reposição da] inflação, mais um ganho real e aumentamos em 20,8% nosso salário. Agora, a lógica se inverteu.
Então isso fica intransponível, e não é com negociação que a gente resolve. Não tem argumento que convença o outro que ele deve aceitar ou reposição da inflação mais o ganho real ou, no caso nosso, que a gente aceite uma redução de 2,39% do nosso salário.
PHA: Vocês já mediram ou compararam a rentabilidade dos bancos brasileiros com bancos de outros países?
ROBERTO: Sim. Nós temos aqui uma subseção do DIEESE que faz todos esses comparativos, de rentabilidade de banco, rentabilidade do setor financeiro comparando com outros setores da economia brasileira. E fica evidente! Você acompanhou ontem (28/09) a publicação dos juros do cheque especial e do cartão de crédito (475% ao ano). É inacreditável! Em outros lugares do mundo, as pessoas não acreditam nesses patamares! Quando a gente faz essas comparações na mesa de negociação, os bancos não respondem.
Tem empresas no Brasil que têm uma lucratividade maior do que os bancos, mas você pergunta, qual empresa é essa? Se você descola de setor, se você pega uma empresa específica, é o bar lá da esquina da vila-não-sei-o-quê que pode ter uma rentabilidade maior que um banco. Mas não é disso que nós estamos falando. Estamos falando de um setor da economia.
PHA: Comparando com outros países, o que se pode dizer, efetivamente, da rentabilidade dos bancos brasileiros? É alta, baixa? Como se pode definir?
ROBERTO: É muito alta. Muito alta. A rentabilidade média, eu creio, sobre o patrimônio líquido dos bancos deve estar na casa dos 20% a 22% de crescimento ao ano. É uma coisa fantástica para um retorno de investimento, para a rentabilidade de um capital que você tenha.
Quando nós falamos em bancos e falamos também em setor, nós temos que lembrar o seguinte: se a Febraban representa 160 bancos, eu creio que mais de 80% disso é referente a cinco bancos. O número de agências, 23.544 agências no Brasil, um número impressionante está concentrado. Estamos falando de um sistema financeiro extremamente concentrado em cinco bancos.
PHA: Então, aparentemente, não há possibilidade de negociação, e cria-se um ambiente onde a alternativa é a greve. E os documentos que vocês distribuem dizem que o número de grevistas atinge 57% dos locais de trabalho em todo o Brasil.
Hoje, quando muitas das transações podem ser realizadas via internet, essa greve tem como, de fato, pressionar os bancos?
ROBERTO: Esse é o grande dilema. Veja, nós estamos enfrentando, além de todo o stress e instabilidade em relação ao emprego, quando um trabalhador vai à greve... A greve é um ato de coragem das pessoas, não? As pessoas que estão aposentadas pela Previdência, se o governo muda as regras e resolve reduzir o que eles estão aferindo como benefício, eles não têm grandes armas pra se defender, não têm como fazer uma greve. Os trabalhadores da atividade têm essa arma de negociação que, em tese, é poderosa.
Nós acompanhamos... Inclusive, tem uma tabela que a Febraban coloca em seu site, que trata do volume de transações bancárias. Deste volume hoje, é evidente que algo na casa de 54% são feitas por meio de internet ou de mobile banking. Dependendo do banco, a internet é um pouco maior que o smartphone, do que a telefonia. Dependendo do banco, dependendo do grau de desenvolvimento tecnológico, isso é mais ou é menos. Até porque existe hoje um perfil de usuário jovem de banco que não quer mais ir à agência bancária. Ele quer comprar por telefone, vender por telefone, operar sua conta corrente por telefone.
Nesse perfil, os bancos vêm fazendo uma aposta muito grande. Eles próprios têm declarado para a mídia que eles são baixamente afetados [pela greve], porque o atendimento está sendo feito por internet e nos auto-atendimentos das agências, porque os bancários há muito tempo decidiram que não iam fechar esses caixas eletrônicos, pois nossa greve não é contra a população. Então, o auto-atendimento faz um grande volume, os correspondentes bancários têm outra parte desse volume... E as lotéricas, de uma maneira geral, que operam como bancos, têm também.
O que nos resta? Segundo algumas dessas pesquisas dos bancos, coisa na casa de 6,8%, dependendo do banco. Abaixo de 10% das transações, de uma maneira genérica. Abaixo de 10% das transações bancárias são feitas nas agências bancárias.
Se nós estamos fazendo uma greve forte contra os bancos, nós vamos atingir, no limite, 10% de suas transações bancárias? E por que os bancos ficam tão preocupados a ponto de adiantar com associações comerciais...?
Hoje, o banqueiro chama sua agência bancária de "loja". Dentro daquilo ali, tem uma cesta de produtos para os bancários e bancárias que ali estão. E quando você entra numa agência bancária, eles vão lhe oferecer um seguro, um título de capitalização, uma previdência complementar, um rol de produtos.
PHA: Um supermercado financeiro, não é isso?
ROBERTO: Isso daí. É um supermercado. Você entra na agência quase como se estivesse conduzindo um carrinho de compras, não é? E o bancário e a bancária são obrigados a lhe oferecer. Eles têm metas de vendas de produtos, cada um deles. Eu tenho que mandar um seguro pra alguém, mandar uma previdência complementar, uma capitalização, um plano de saúde, consórcio de bens, crédito habitacional... Qualquer outro produto. Alguma coisa eu preciso vender. Eu tenho metas a cumprir. A agência tem metas, coletivamente.
PHA: Roberto, hoje, por exemplo, nos jornais de manhã, eu vi uma ex-jornalista, Ana Paula Padrão, fazendo publicidade do Banco Original. Oferecendo serviços na internet. O Itaú tem uma campanha publicitária muito forte, oferecendo serviços na internet. Ou seja, um dos problemas dos bancários hoje é, exatamente, essa competição com a tecnologia...
ROBERTO: Não diria pra você que é dos bancários, eu diria que é da humanidade. Amanhã pode ter um aplicativo onde eu fale a respeito de uma notícia e ele redija uma matéria.
PHA: Claro, claro.
ROBERTO: Os advogados têm um aplicativo que faz petição, os médicos têm aplicativo...
PHA: O jornalismo está sendo espancado pela tecnologia, se eu posso dizer assim.
ROBERTO: Inclusive, muda o perfil do clássico jornalão, que você sentava no café da manhã e abria. O jornal não é mais aquilo que fica entre o leitor e a mesa de manhã.
PHA: Eu acho que eu sou o último leitor de jornal impresso que eu conheço...
Roberto, qual é o seu prognóstico? Esse impasse dura até quando? Como se resolveria?
ROBERTO: A gente acreditava que essa campanha seria rápida. No começo, nós fizemos uma negociação mais produtiva, mais objetiva, nós chegamos ao conflito mais objetivamente... O conflito era pra você avaliar a proposta do banqueiro, recusar e falar: "por que não modificar isso? Se não, vão nos obrigar a ir à greve. Não tem outro caminho por aqui".
Chegamos rapidamente, no dia 1o. de setembro, dia de nossa data-base. Fizemos nossa assembleia, que a gente faz lá pra frente, em meados de setembro. Acreditávamos que, num ano de instabilidade política, num ano em que a democracia foi fortemente golpeada no país, um cenário absolutamente ruim, não se sabe o que vai acontecer em janeiro... a instabilidade é política, não se sabe qual vai ser.
Então, nesse cenário, a gente acreditava que eles iriam repor a inflação, dizer que esse ano não dá pra dar ganho real, a gentia ia insistir pra ter algum ganho real, já que o lucro deles é real. Eles têm um ganho real fabuloso. Nós pensávamos assim, uma campanha rápida, fácil, pronto e acabou. Um ano eleitoral, disputa de hegemonia, Congresso nacional, movendo uma agenda nociva para os trabalhadores, pauta bomba, recheada de coisas contra a sociedade... Acreditávamos assim. Até que caiu nossa ficha e percebemos que, contrariamente ao que eles têm mandado dizer em alguns jornais, que essa greve é contra o governo que aí está, a gente disse que não. A gente fez greve nos governos FHC, no governo Lula, Dilma, e faremos no governo Temer. Estamos fazendo.
Então, não tem nada a ver com apoio, se é contra ou a favor de governo. Nós estamos negociando com o banqueiro. Quem meteu a política no meio da campanha foram eles! Buscando, quem sabe, entregar um produto que eles ofereceram aos banqueiros que estão no governo. Tem um banqueiro na Fazenda e outro presidindo o Banco Central.
Dentro desse cenário, é imprevisível. Nós gostaríamos de não estar em greve. Gostaríamos de ter terminado isso a tempo de a população não ser onerada, não ser sacrificada. Mas não conseguimos e afirmo pra você, com convicção e com provas: o culpado é o banqueiro.

Roberto: a greve não é política (Reprodução: Contraf/CUT)

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