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sábado, 18 de dezembro de 2021

João Batista Franco Drummond, meu professor - ACQ - Antônio Carlos Queiroz

 João Batista Franco Drummond, meu professor

A última vez que estive com o Drummond foi no final de novembro daquele ano terrível, 1976, em Anápolis, Goiás, onde eu morava. Ele havia me encarregado de acompanhar, através do jornal O Popular, de Goiânia, os resultados das eleições municipais realizadas no dia 15.

Por Antônio Carlos Queiroz*

Naquela época, a apuração dos votos, manual, levava dias. Quarenta anos depois, ainda me lembro que estávamos eufóricos. Mesmo com as restrições da Lei Falcão à propaganda eleitoral, que permitia só a divulgação do nome, partido, número, currículo e foto do candidato na televisão, o MDB de Goiás havia eleito um número razoável de prefeitos, seguindo a tendência nacional de avanços significativos do voto de protesto contra a ditadura nas médias e grandes cidades do País.

Nas eleições legislativas de dois anos antes, o PCdoB havia pregado o voto nulo, sem perceber que o fim do “milagre econômico” iria solapar as bases da ditadura. Com os ventos virados, em 1974 a oposição conquistou 16 das 22 vagas em disputa para o Senado, e 161 das 364 (44%) das cadeiras da Câmara dos Deputados. Correndo o risco de perder o controle de sua abertura “lenta, gradual e segura”, o general Ernesto Geisel tomaria providências logo no início do ano seguinte, fechando o Congresso Nacional e decretando o Pacote de Abril, com a determinação de que um terço dos senadores deixariam de ser eleitos, passando a ser indicados pelo general-presidente de plantão. Estava criada a figura do “senador biônico”. Nessa conjuntura, o PCdoB fez ajustes em sua tática e, no começo daquele ano, lançou a “Mensagem aos Brasileiros”, o famoso “documento das três bandeiras”, que conclamava o povo à luta em favor da anistia ampla, geral e irrestrita, da abolição de todos os atos e leis de exceções, e da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte Livre e Soberana. Desde então o partido passou a apoiar os candidatos do MDB mais aguerridos no combate à ditadura.

O primeiro encontro – No final de 1976, com 20 anos, eu já havia concluído o curso científico, mas em vez de ir para uma faculdade, havia me casado, e meu primeiro filho tinha acabado de nascer. Trabalhava na Fundação Educacional de Anápolis, onde calculava a folha de pagamento das professoras e merendeiras da rede pública, dava aulas de francês na escola de idiomas Yázigi, e era vendedor do jornal Movimento, um semanário de combate ao regime militar, que tinha em seu conselho editorial intelectuais de várias tendências políticas, entre os quais, o deputado Alencar Furtado, do grupo autêntico do MDB, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, e o cantor Chico Buarque. Eu também era um dos organizadores do MDB Jovem de Anápolis. O Drummond, cujo nome de guerra para nós era Osvaldo, me fora apresentado uns dois anos antes por um militante da Ação Popular, Adelite Moreira dos Santos, funcionário do Banco do Brasil e ativo sindicalista. Um dia o Adelite nos chamou, a mim e a outro amigo e colega de trabalho de Anápolis, o Tauny Mendes, e nos disse que havia sido procurado por um contato do PCdoB, encarregado de organizar o partido em nossa cidade. Perguntou se topávamos conversar com ele. Topamos. A partir daí nossos encontros se tornaram frequentes.

Algumas de nossas reuniões tinham um ar bucólico e romântico. Num determinado sábado ou domingo, a gente comprava sanduíches e refrigerantes e íamos para debaixo da ponte de algum rio nas redondezas da cidade para discutir a conjuntura nacional, ler manifestos, denúncias de torturas ou capítulos de algum livro. Ali na beira da água era como se estivéssemos fazendo um piquenique. Mais de uma vez fomos parar embaixo da ponte do rio Corumbá, entre Abadiânia e Alexânia, na BR—060, a caminho de Brasília.

Volta e meia, o Drummond nos perguntava se tínhamos alguma notícia do Araguaia. É que um comerciante amigo nosso tinha parentes e negócios em Imperatriz, no Maranhão, e sempre nos relatava os comentários que corriam entre o povo da região do Bico do Papagaio sobre a guerrilha, dizimada em 1975. A maior parte das histórias aludiam à brutalidade dos militares, à coragem do Osvaldão ou às façanhas da Dina, dois dos guerrilheiros que se tornaram mitos.

O espírito e o corpo – Quando conheci o Drummond, eu já estava escolado em política, apesar de nunca ter participado do movimento estudantil, virtualmente banido de Anápolis, ainda mais depois que a cidade fora declarada, em 1973, “área de segurança nacional”, alegadamente por causa da implantação da Base Aérea dos Mirages, mas é claro que o motivo real foi a tradicional força oposicionista da cidade. José Batista Júnior, sucessor do prefeito Henrique Santillo, do MDB, teve o seu mandato cassado.

Eu também já transitava no existencialismo de Jean-Paul Sartre, graças às conversas que tinha com uma grande amiga, a Maura Helena de Oliveira Simões, uma brilhante socióloga formada na extinta Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, meio incapacitada por causa dos surtos psicóticos que sofria. Uma vez Maura me convidou para um encontro a ser realizado no auditório da clínica de seu psiquiatra, o Dr. Neiron de Souza e Silva. Lá chegando, encontrei uma roda formada por uma dúzia de médicos aguardando a palestra de um professor francês, em francês mesmo, sem tradução simultânea. O cara era especialista na fenomenologia de Edmund Husserl. Devo ter ficado perplexo, mas, para quem andava lendo Os Caminhos da Liberdade e O Ser e o Nada do Sartre, a matéria não devia ser de todo estranha.

A essa altura, há muito havia perdido a fé, depois de receber sólida formação católica na escola primária e no ginásio, sob a direção de freiras e padres franciscanos. O engraçado é que me convenci do materialismo (sem ainda ter estudado as piruetas da dialética hegeliana nem a operação ortopédica que dela fez o Marx) não porque tivesse tomado a lição de algum manual marxista, mas graças à tese de um químico americano, que, num livro enciclopédico sobre drogas, esclarecia que uma pessoa fica atordoada quando toma uma bebida alcoólica porque as moléculas do álcool interagem com as células do cérebro, bloqueando algumas de suas conexões. Se o espírito fosse separado do corpo, argumentava o químico, o álcool não lhe faria qualquer efeito. Troquei o dualismo espírito/corpo da fé cristã pelo monismo materialista mas jamais deixei de ser fã do São Francisco, para mim ainda hoje um modelo de comunista, hippie e inspirador do naturalismo.

Oh là là! – Depois de aprender francês num curso oferecido pelo Museu Histórico que eu havia ajudado a fundar em 1972, acabei substituindo o professor e aperfeiçoei a conversação na casa de algumas famílias de técnicos franceses da Base Aérea. Daí passei a ler a revista Les Temps Modernes, que a gente comprava na livraria Ao Livro Técnico da Rua das Farmácias, em Brasília. Nessa época, eu acalentava a ideia maluca de um dia me encontrar com o diretor da revista, o Sartre, e também com o presidente Mao Zedong e com o general vietcongue Van Giap, três heróis do meu panteão, com quem eu imaginava poder conversar em francês sem o auxílio de intérpretes. A Internacional eu aprendi a cantar no original com Catherine Boissinot, uma garota de Bordeaux, integrante da juventude comunista francesa, filha de um engenheiro da Base Aérea e que passava férias em Anápolis. Oh, mon dieu! 

Conto essas intimidades para contextualizar a virada que significou na minha vida o convite para militar com o Partido Comunista do Brasil. Só com um pouquinho de exagero, tive a sensação de viver um personagem de um livro do Máximo Górki. Imaginem: com uma consciência social já bem adiantada, e sendo eu filho de uma lavadeira fã do Getúlio Vargas (até hoje!) e um padrasto que trabalhava numa fábrica de sapatos, o que mais eu podia almejar senão ser um soldado da Revolução?

Em casa a gente tinha um pôster gigante do meu padrasto de macacão, manejando uma fresadora. A foto tinha sido exposta no estande da fábrica de calçados Cosmos na Faiana, a Feira de Amostras da Indústria Anapolina, inaugurada em 72 ou 73. Depois do primeiro encontro com o Drummond, eu tratei de limpar a peça e a pendurei no ponto mais vistoso da sala de minha casa, com não disfarçado orgulho.

O pôster era fantástico, mas o meu padrasto não andava bem. Atingida pela crise, a fábrica em que ele trabalhava, de propriedade do grego Christos Papadopoulos, fechou. Meu padrasto foi obrigado a buscar emprego em Nova Hamburgo, no Rio Grande do Sul, e em Franca, São Paulo. Alcoólatra, nessas idas e vindas, ele acabou contraindo tuberculose e voltou a Anápolis para se tratar. Depois de algum tempo, ficou violento e passou a agredir a minha mãe. Um dia, num acesso de raiva, pinchou um gato numa parede. Depois da cena, chamei minha mãe, meu irmão e as duas irmãs que moravam com a gente e, sem titubear, decidimos expulsá-lo de casa. O pôster continuou pendurado na sala.

Peixe n'água – Muitos encontros com o Drummond eram feitos na minha casa, só nós dois. Minha mãe achava que ele era um professor. Meu entusiasmo comunista crescia. Uma vez me deu na cabeça escrever um artigo sobre o presidente Mao Zedong, discorrendo sobre a ideia dele de que um militante comunista deve viver entre o povo que nem um peixe n'água. Mostrei o artigo para o Drummond. Ele leu o texto rapidamente, acho que riu, mas não me lembro de seus comentários. No encontro seguinte, ele me trouxe uma biografia do presidente, séria, não hagiográfica, do historiador chinês Jérôme Ch'en, da Universidade de Leeds, Inglaterra, publicada em 1968 pela editora Mercure de France. Naquela biografia, que guardo até hoje, aprendi que Mao, ainda jovem, tinha flertado com as ideias anarquistas de Bakunin e Kropotkin antes de aderir ao marxismo. Com o Drummond eu logo aprenderia que o caminho do Brasil rumo ao socialismo jamais poderia ser igual ao da República Popular da China. Cada país faz a sua própria marcha, ensinava ele. É preciso estudar a realidade concreta do País para mudá-la. É possível que aqui tenha germinado a minha vocação de jornalista.

A memória que guardo do Drummond é a de um sujeito de mente aberta, carinhoso (certa vez presenteou meu irmão, o Sérgio, com uma gaitinha), bem informado e sintonizado nos debates intelectuais da época. Num encontro em Goiânia, provavelmente ocorrido no segundo semestre de 75, ele deu notícia do debate ainda muito acirrado em torno das teses de Ler o Capital, um livro coletivo capitaneado pelo filósofo francês Louis Althusser dez anos antes. Acho até que o Drummond fez uma piada sobre o conceito da “prática teórica”, parecida com a daquele físico teórico barrigudo zoado pela mãe por não fazer exercícios.

Em meados de 1976, o Drummond me deu de presente a peça O Rinoceronte, de Eugène Ionesco, que acabava de ser lançada na coleção Teatro Vivo da Abril Cultural. Em chave irônica, pensei com os meus botões: “Como é que um comunista sério presenteia um jovem recruta com a obra de um dramaturgo anticomunista 'insólito' como o Ionesco, que os puristas devem considerar o cúmulo da decadência da arte burguesa”? Matutando hoje, chego à conclusão de que o Drummond desafiava a caretice dos comunistas de então, apostando fichas na inteligência de um garoto que devia considerar esperto. Uma evidência disso foi o comentário que ele me fez nessa mesma época a propósito de uma entrevista do ator Juca de Oliveira, integrante do elenco da novela surrealista Saramandaia, de Dias Gomes, lançada em maio de 76 pela TV Globo. Juca fazia o papel do personagem João Gibão, cuja corcunda escondia um estupendo par de asas. “Essa novela é interessante porque educa os sentimentos artísticos do povo. Todo mundo sabe distinguir a fantasia da realidade, e diferencia as ações do ator na novela de suas ações na vida real”, ponderou o Drummond. Eu logo cogitei que ele devia estar aludindo ao efeito de distanciamento do Brecht, em oposição à catarse aristotélica, quer dizer, a identificação da plateia com o herói da peça. Dias Gomes, um comunista, era brechtiano desde os anos 60, quando trabalhou com Augusto Boal, um teórico da dramaturgia popular crítica e libertadora.

O alerta do general – Distinguir a realidade da fantasia é, por suposto, a primeira obrigação de um revolucionário. E a realidade no final de 1976 é que a ditadura estava capenga, como o próprio ditador de plantão, o general Ernesto Geisel, já havia reconhecido na virada do ano de 1974, após a derrota do partido oficial na disputa pelo Senado. Em cadeia nacional de rádio e televisão, Geisel havia dito que a Arena tinha se desgastado “com o largo período de confortável, mas emoliente posição majoritária” e que “as consequências estão agora à vista”. “Sirva isso de alerta”, concluiu. Diante desse aviso, cabia a nós acelerar a organização do partido e, com os parcos recursos disponíveis, fazer tudo o que pudéssemos para desgastar ainda mais o regime. Apoiar a ala progressista do MDB era o mínimo que podíamos fazer.

Uma das tarefas de nossa pequena célula anapolina era fazer cópias de documentos que o Drummond nos trazia. Essa atribuição cabia principalmente a mim, datilógrafo experiente, que sempre teclou com os dez dedos. Usando um papel fininho, papel-seda, quase transparente, a gente conseguia fazer cinco ou seis cópias por vez. Eu copiava artigos do jornal A Classe Operária e muitos outros materiais. Certa vez, reproduzi trechos do Livro Negro da Ditadura, publicado na clandestinidade pela Ação Popular Marxista-Leninista em 1972 para denunciar os crimes do regime militar. Assim que as cópias ficavam prontas, o Drummond as buscava em Anápolis, ou eu as levava para ele em Goiânia, menos de 60 quilômetros adiante, de ônibus. A recomendação de segurança para esse tipo de operação era a seguinte: “Nunca fique com o pacote dos documentos. Bote-o no bagageiro algumas poltronas à frente da sua, de maneira que fique à vista, para o seu controle. Se houver uma batida policial, será difícil que liguem o embrulho a você”.

Um dia, resolvemos investir em tecnologia… e compramos um mimeógrafo a álcool. Um dos trabalhos de que mais me orgulho foi ter produzido 150 cópias do “documento das três bandeiras”, provavelmente em maio ou junho de 1975. Na hora de bater o estêncil – a matriz com a tinta de reprodução -, o Adelite resolveu sofisticar: em vez de um, pediu que eu datilografasse dois estênceis, um com o texto, em cor azul, e o outro, com os títulos, em cor vermelha. O documento saiu tinindo de bonito. A primeira fase, da impressão, foi fácil. A segunda, da distribuição, é que seria complicada. Como distribuir 150 cópias de um documento do Partido Comunista em Anápolis, área de segurança nacional, cheia de milicos da Aeronáutica e de agentes da Polícia Federal? O primeiro nome da nossa lista foi o combativo deputado estadual Henrique Santillo, um neo-autêntico do MDB, que havia sido prefeito da cidade entre 1969 e 1972. Santillo era nosso amigo, dera todo o apoio da prefeitura para a fundação do Museu Histórico, e nós havíamos participado ativamente de sua campanha eleitoral em 1974, mas não confiávamos nele totalmente. Como entregar-lhe, pessoalmente, aquele documento “batata quente”, nos entregando juntos? Botamos a Mensagem aos Brasileiros num envelope e, de noite, o enfiamos debaixo da porta de entrada da casa dele. Fizemos isso com um monte de conhecidos. Para os amigos que moravam em outras cidades, e para alguns parlamentares em Brasília e Goiânia, mandamos o documento pelo correio. Um desses amigos, o Chico, mestrando de Ciências Sociais em Belo Horizonte, recebeu a Mensagem, mostrou-a a alguns colegas, e depois nos disse que, desde então, passou a ser muito mais respeitado na faculdade.

Guardar o mimeógrafo em casa era perigoso, mas o Drummond já tinha bolado uma solução. Concluídos os trabalhos de impressão, a gente embalava o aparelho, ia para a estação ferroviária, e despachava a caixa para outra cidade – Catalão, Ipameri ou Pires do Rio. Algumas semanas depois, o Drummond viajava até lá, resgatava o trambolho no depósito da estação e o redespachava. Era assim que a gente guardava o nosso cachacinha, em trânsito na estrada de ferro.

Contrafação – Se viver é muito perigoso, viver como comunista naquela época era muito mais perigoso ainda. Era preciso seguir as regras da estrita clandestinidade, sem vacilação, e é por isso que o PCdoB organizava células estanques, sem qualquer contato umas com as outras. Assumir uma outra identidade era também um recurso valioso de segurança. Por isso, mais de uma vez, surrupiei dos arquivos da Fundação Educacional algumas certidões de nascimento originais, devidamente substituídas por xerox, e as repassei ao Drummond. Depois da alteração dos dados, esses documentos serviam para que companheiros do partido pudessem obter novas carteiras de identidade ou carteiras de trabalho e, assim, sair da clandestinidade. Essa também foi uma das tarefas de que me orgulho, a despeito de sua evidente, ahn!, ilegalidade…

Comecei esse depoimento dizendo que vi o Drummond pela última vez quando estava acompanhando a apuração dos resultados das eleições municipais de 1976. Havíamos marcado um novo encontro para antes do final do ano, e tinha ficado acertado que ele teria um encontro com um amigo nosso, o professor Sílvio Costa, que depois se tornaria um dos dirigentes do partido em Goiânia. No dia 17 de dezembro, porém, fomos surpreendidos com a notícia do Massacre da Lapa. Vimos nos jornais e na revista Veja as fotos do Pedro Pomar, Ângelo Arroyo, Haroldo Lima e do Aldo Arantes, que a gente considerava um de nossos heróis, filho que é de Anápolis. Não vimos qualquer foto do Drummond. Um alívio! Também nada nos informou sobre o paradeiro de nosso companheiro a lista dos nomes dos mortos e dos presos. A gente não sabia o seu nome verdadeiro (para nós ele era o Osvaldo) e, por óbvio, não tínhamos a informação de que ele fizesse parte do Comitê Central do PCdoB. Ficamos então aguardando que ele nos procurasse ou desse notícia nos dias seguintes.



João Batista Franco Drummond


O anúncio do jornal – Passaram-se duas semanas, o ano virou e nenhum sinal dele. Passou a primeira semana de janeiro, passou a segunda, e nenhum sinal dele. As únicas notícias que tínhamos sobre o partido nos chegavam pelos boletins da Rádio Tirana, da Albânia, através do robusto Transglobe da Philco que eu havia comprado no início do ano. Pela rádio recebíamos a instrução de ficarmos quietos, de fingir que estávamos mortos, de não tentar fazer contatos com nenhum outro militante do partido. Com o passar do tempo, os boletins começaram a se repetir. O partido voltava a um estágio anterior, da mais completa clandestinidade. Foi então que, no dia 18 de janeiro, O Popular, de Goiânia, publicou um anúncio intitulado “Desaparecimento”, com uma foto do Drummond e um nome na legenda: José Edilson de Souza. O texto do anúncio dizia o seguinte: “Está desaparecido de sua residência, desde dezembro do ano passado, José Edilson de Souza. Ele tem aproximadamente 30 anos de idade, cabelo e olhos castanhos, 1,73 de altura. Trajava na ocasião calça azul US-TOP e camisa xadrez. Sua família, aflita, está solicitando a quem souber de seu paradeiro informar na 11ª Avenida, nº 677, na Vila Nova. O mesmo anúncio foi publicado no Correio Braziliense, não me lembro se no mesmo dia ou dias depois. Imediatamente, procurei o Tauny e o Adelite para discutir o significado daquele anúncio, que nos chocava mas também nos dava esperanças.

Na verdade, tudo indicava que se tratava de uma armadilha da polícia. Afinal, uma família não diz que um parente tem “aproxidamente” 30 anos. É claro que indicaria a idade do desaparecido com precisão. Mas, e se houvesse mesmo um parente agoniado? Essa dúvida e um monte de outras nos afligiram durante dias, até que eu tive uma ideia: e se eu desse um jeito de ir “casualmente” até o endereço transcrito no anúncio? E se eu fosse até lá disfarçado de vendedor? Discutimos um pouco mais, e decidimos que eu faria isso mesmo.

Comecei a me preparar, pesquisando comerciais publicados no Popular, até que achei uma oportunidade macabra, mas foi essa mesma que escolhi. Eu me disfarçaria de vendedor de um plano de saúde cujo principal produto era a cobertura das despesas do funeral do segurado. Para me habilitar tive que fazer um curso que durou uma manhã inteira numa sala localizada na Avenida Goiás, nas proximidades da Praça do Bandeirante. Ali recebi instruções de como falar com as pessoas, como negociar as prestações do plano etc. No final, recebi uma carteirinha de representante comercial, e uma pasta contendo tabelas de preços, um talão de recibos e um álbum de fotos de caixões, simples, medianos e até luxuosos. Tétrico! Tomei um lanche, respirei fundo e rumei para as imediações do endereço indicado no anúncio do Popular, na Vila Nova. Comecei a entrar de casa em casa, com jeito, tateando. Eu argumentava que a morte sempre é triste, mas inevitável. E que seria melhor que a gente se preparasse para ela com certa antecedência, sob pena de pegar a família de surpresa e desfalcar as suas economias com os custos do funeral. Na época eu era magro, usava cabelo comprido que nem hippie, e tinha um par de óculos redondos, parecidos com os do Trotsky ou do John Lennon. Parece que aquela aparência não oferecia perigo, e aquele papo de vendedor do outro mundo não deve ter ofendido ninguém.

Comércio macabro – Meia dúzia de visitas depois eu já estava craque no discurso, mas era preciso ter ainda paciência. Continuei a andar de porta em porta. Depois de bater perna por mais uma ou duas horas, alcancei a praça onde estava o meu alvo. Continuei a abordagem passo a passo, casa por casa, até chegar no número 677. Era uma residência coletiva. Na frente, uma casa maior, circundada por vários barracões. Bati na porta da casa principal e fui atendido por um casal de velhinhos. Ofereci o plano, recebi um não com os constrangimentos de praxe, e daí perguntei se não podia falar com os vizinhos. Parece que eram todos da mesma família, filhas e noras que cuidavam das crianças. Não me lembro de nenhum homem além do velhinho. Depois de conversar com todo mundo, perguntei se não havia mais alguém da família com quem eu pudesse conversar, mesmo que fosse no dia seguinte. Foi então que apareceu a informação que eu buscava: havia, sim, um outro filho do casal de velhinhos, mas ele só chegaria à noite. O indivíduo era funcionário da Secretaria de Segurança Pública, me disseram. Disfarcei o susto e me despedi, saindo dali com cautela. Respirei fundo e resolvi continuar a bater na porta de mais algumas casas da vizinhança, antes de cair fora e voltar para o escritório da empresa de seguros para devolver o material promocional como ficara combinado. Os meus esforços de vendedor naquela tarde não tiveram resultado comercial. Mas eu havia obtido uma informação de dar medo. Voltei para Anápolis e contei a escabrosa novidade para o Adelite e o Tauny. Decidimos seguir a orientação do partido de nos fingir de mortos.

Meses depois da tragédia da Lapa, continuamos no limbo, sem qualquer informação sobre o destino do Drummond. Não tínhamos contatos em São Paulo ou Belo Horizonte que pudessem nos dar notícias. Uma vez, uma conhecida comentou que “um rapaz do PCdoB que havia sido morto em São Paulo” tinha trabalhado como fotógrafo no jornal Cinco de Março, de Goiânia. Não fomos checar. Seguimos nossas vidas.

O Tauny continuou a trabalhar na Prefeitura Municipal. Exatamente no dia 31 de março de 1977, eu fui demitido pessoalmente pelo diretor da Fundação Educacional, o ex-prefeito Jonas Duarte, da Arena, depois que alguém lhe contou que eu andava “fazendo campanha política”, ao distribuir às professoras e merendeiras cartões de Feliz Aniversário e Boas Festas que o deputado Henrique Santillo costumava mandar pelos correios. “Eu sei que um dia vocês vão implantar o comunismo no Brasil, mas até lá eu estarei morto”, me disse o ex-prefeito, aos berros, antes de dizer que eu estava fora do serviço público. Seis meses depois, gastando os últimos trocados do FGTS, desisti do projeto de me mudar para Itaguaru, no interior de Goiás, para ajudar na organização do movimento sindical dos trabalhadores rurais. Rumei para Brasília, onde assumi a direção das vendas da sucursal do jornal Movimento, e onde recebi as primeiras lições de jornalismo do brilhante repórter Teodomiro Braga, chefe da redação.

Uma das minhas tarefas era datilografar os artigos do diretor da sucursal, o aguerrido ex-deputado baiano Chico Pinto, que havia sido preso em 1974 por denunciar os crimes do general Augusto Pinochet, exatamente na véspera da posse do general Geisel. Chico Pinto, que foi um dos articuladores do lançamento do Movimento, enquanto ainda estava preso no Pelotão de Investigações Criminais do Exército, em Brasília, virava a noite escrevendo seus artigos à mão, numa letra miudinha difícil de decifrar. Antes de levar as matérias, as fotos e a ilustrações do jornal para o departamento de censura da Polícia Federal, eu tinha que passar no apartamento do Chico, na SQN 402, para apanhar as folhas manuscritas e voltar para a sucursal para datilografá-las.

Vida que segue – Antes de mim, o Adelite já havia se mudado para Brasília, onde, em parceria com outra companheira de Anápolis, também professora e bancária, Elizabeth Alves Silva, ajudou a fundar o Sindicato dos Professores, na época ainda uma associação. Em 1980, os dois ajudaram a tomar o Sindicato dos Bancários da direita, quando se elegeu para a presidência da entidade o sociólogo Augusto Carvalho, então militante do Partido Comunista Brasileiro, hoje deputado federal pelo Solidariedade.

Adelite participou da reorganização do PCdoB em Brasília enquanto eu segui a carreira de jornalista. Mesmo sem voltar a militar “de carteirinha”, continuei a fazer política na chamada franja do partido. Em 79, passei a assessorar, esporadicamente, o deputado operário comunista Aurélio Peres, eleito pelo MDB em 1978, e reeleito em 1982. A gente compunha o boletim de prestação de contas do mandato, estampando na primeira página um editorial assinado pelo deputado, que se destacara nacionalmente como líder do Movimento Contra a Carestia em São Paulo. Quase sempre à esquerda da linha geral do partido, o jornalzinho não economizava críticas às políticas do presidente José Sarney, que, de “tudo pelo social”, só tinham o nome. Mais de uma vez encontrei no gabinete do Aurélio o presidente do PCdoB, João Amazonas. Ele sempre me tratava com simpatia enquanto folheava o boletim. Parece que achava graça. 

Em 1982, também participei, junto com o Adelite e a Beth, da campanha doe Aldo Arantes a uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo PMDB de Goiás. Um dos resultados dessa campanha, em que o Aldo conquistou a primeira suplência, foi a eleição do prefeito de uma cidade do Entorno do Distrito Federal, Brasilinha, o Edenval Vaz. Durante a campanha, Adelite descobriu que estava com câncer em estágio avançado; morreu logo depois.

Por incrível que pareça, eu só tive plena certeza do assassinato do Drummond quando, ao cobrir uma manifestação dos movimentos da anistia no Salão Verde da Câmara dos Deputados, provavelmente no segundo semestre de 1978, vi um grande cartaz com a sua fotografia, entre a de outros militantes tombados na luta contra a ditadura. Só nessa ocasião a ficha caiu, e a raiva me fez mal durante dias. Em março daquele ano havia nascido o meu segundo filho, e ele foi registrado com o nome Osvaldo.

Um dos moleques que participavam conosco das atividades do MDB Jovem de Anápolis, o Egmar José, tornou-se um grande advogado e cumpriu papel importante na Comissão da Verdade. Foi justamente o Egmar que obrigou o Estado brasileiro a admitir, pela primeira vez, de papel passado, em 2014, que um militante político havia sido morto sob tortura enquanto estava sob a sua guarda, no DOI-Codi de São Paulo. O nome do militante: João Batista Franco Drummond, herói do povo brasileiro, meu professor de comunismo!

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

16/12/1976 - a Chacina da Lapa - Ditadura chacina reunião do Comitê Central do PCdoB em 1976


Chacina da Lapa: em 16 de dezembro de 1976

A manhã de 16 de dezembro de 1976 foi de correrias, traição e fuzilaria em São Paulo, como contou Verônica Bercht no capítulo inicial da biografia que escreveu sobre Elza Monnerat.


Publicado 12/12/2016 21:47

​A casa na Rua Pio XI onde a cúpula do PCdoB foi surpreendida - Estadão
Capítulo 1 – Prisão

“Abaixo a ditadura. Viva o proletariado”. Dentro de um Volks chapa fria, encapuzada e espremida entre policiais, Elza gritou com força. O grito surpreendeu os policiais e, imediatamente, aquele que estava ao seu lado colocou as mãos sobre a boca dela, tampando-a sob o pano do capuz que escondia seu
rosto, enquanto a ameaçava com palavras grosseiras.

Surpreendidas também teriam ficado as pessoas que porventura escutaram o seu grito, se pudessem ver que, por debaixo do capuz, havia uma senhora já com as marcas de seus 63 anos, de cabelos lisos e grisalhos, compridos até os ombros, divididos ao meio, cobrindo um rosto quadrado, boca larga de lábios finos e sorriso matreiro de menina.

Na noite do dia 15 de dezembro de 1976, Elza saiu da casa na Rua Pio XI, número 767, no Alto da Lapa, bairro de classe média de São Paulo. Dentro do velho Corcel azul, dirigido por Joaquim Celso de Lima, ela ia, como de costume, no banco da frente. No banco de trás, João Batista Franco Drummond e Wladimir Pomar, dois dirigentes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), iam de olhos fechados. Eles haviam saído de uma reunião do Comitê Central do partido, ilegal e perseguido. Joaquim e Elza deixaram Drummond e Wladimir nas proximidades da Avenida Nove de Julho, e voltaram para a casa da rua Pio XI onde eram esperados pela próxima dupla de dirigentes, Aldo Arantes e Haroldo Rodrigues Lima. E, mais uma vez, o carro do partido saiu com Joaquim ao volante, Elza no banco da frente e os dois companheiros no banco de trás, com os olhos fechados. Nada de anormal aconteceu pelo caminho. Deixaram Aldo e Haroldo e retornaram para a casa da Lapa.

 
A noite já ia pelo meio e Elza e Joaquim tinham algumas horas para descansar. Na casa, Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, membros da Comissão Executiva Nacional do PCdoB, já estavam deitados. José Gomes Novaes e Jover Telles, do Comitê Central do partido, e Maria Trindade, militante encarregada das tarefas domésticas, também.

Por volta das seis horas da manhã do dia 16, o Corcel azul mais uma vez saiu da casa na rua Pio XI, agora levando Novaes e Jover Telles. Como sempre, Joaquim estava ao volante, Elza no banco da frente, e os dois dirigentes atrás, de olhos fechados. Tudo parecia bem. Até que Elza, que estava virada para trás olhando seus companheiros, percebeu que o carro andava, andava, dando voltas, e pensou: “Poxa, por que está andando tanto?”. Pouco depois, Joaquim disse: “Não tem jeito, eu estou sendo seguido”. E ela respondeu: “Você dá um jeito, escapa, dá uma virada daquelas que é para a gente soltar os dois”. Nesse momento, avisou os companheiros do banco de trás: “Estamos sendo seguidos, de maneira que vocês abram os olhos, olhem para o chão, mas fiquem de olhos abertos, para na hora que eu abrir a porta do carro vocês saltarem e se mandarem. Um toma um rumo e o outro toma o rumo oposto”. Logo depois, Joaquim, achando que despistara seus perseguidores, parou o carro numa esquina do bairro de Pinheiros. Novaes saiu imediatamente e Jover Telles relutou. Elza: “Desce daí, rapaz”, e Joaquim: “Desce daí, ô”. E Elza lembrou 23 anos depois: “Aquele minuto durou como se fosse uma hora”.

Assim que Jover saiu do carro, Joaquim arrancou rapidamente, mas logo em seguida, na Avenida Faria Lima, o Corcel foi cercado por quatro fuscas da repressão, com agentes à paisana. Retirada à força do carro, Elza foi encapuzada e jogada para dentro de um dos veículos.

 
Enquanto era levada para as dependências do DOI-Codi (Departamento de Ordem Interna – Centro de Comando das Operações de Defesa Interna, especializado em obter informações e desmontar as organizações "subversivas", um dos principais centros de tortura do regime militar), na rua Tutoia, em São Paulo, Elza, mesmo encapuzada, percebeu que as repetidas paradas do carro que a conduzia eram semáforos vermelhos e, a cada uma delas, gritava palavras de ordem a plenos pulmões, palavras que pudessem indicar àqueles que estavam na rua que ali ia presa uma mulher que lutava contra a ditadura militar.

Quando chegou ao DOI-Codi, Elza ainda não sabia que havia sido presa numa sangrenta e monstruosa operação do Exército contra o Partido Comunista do Brasil. Hoje, tantos anos depois, ela se lembra desses tempos – em que não sabia como a repressão havia chegado até ela e quais companheiros haviam sido presos também –, como um dos períodos mais difíceis na prisão. Naquele dia 16 de dezembro, nas celas do DOI-Codi, ela ouviu a voz de Maria Trindade e soube, assim, que a situação era grave: o aparelho na Lapa havia caído.

Em meio a espancamentos e ameaças, um dos agentes perguntou com ar malicioso se ela gostaria de ouvir o que dois companheiros estavam falando. Elza não se intimidou e recusou a oferta. “Estava convencida de que eram o Arroyo e o Pomar”, ela conta.
 
Mas Ângelo Arroyo e Pedro Pomar tinham sido assassinados naquela manhã, minutos depois de o carro de Elza e Joaquim ter sido cercado pelos policiais. Ao ser arrancado à força do Corcel que dirigia, Joaquim ainda pôde ouvir um dos agentes dizer ao rádio: “Tudo limpo. Pode tocar a operação”. Esta mensagem – recebida pela tropa de militares e policiais comandada pelo tenente-coronel Rufino Ferreira Neves, que cercava a casa 767 – liberou o “matraquear das metralhadoras” que durou quase vinte minutos – tempo “suficiente para destruir portas, janelas e basculantes e fazer cair pedaços de reboco do teto”. Era por volta de seis e meia da manhã. Maria Trindade fazia o café. Ângelo Arroyo estava no banheiro e Pedro Pomar na sala. Com o estrondo, Arroyo abriu a porta: “O que é isso?” e caiu para frente, morto. Maria Trindade, sem entender o que estava acontecendo, saiu à rua para ver. Foi arrastada por militares até um carro da repressão, presa. Naquele instante, Pomar era assassinado na sala.

Bancada Constituinte do PCB
Pedro Pomar e o deputado comunista cearense Batista Neto no canto esquerdo, à frente, fumando Jorge Amado, no canto direito da foto, Grabois e Amazonas - Pomar, Grabois e Amazonas reorganizaram o Partido Comunista em 18/02/62 e asseguraram a continuidade da legenda comunista no Brasil. Grabois morreria na Guerrilha do Araguaia.



Eles não sabiam, mas a casa da Lapa estava cercada havia alguns dias. Quando Elza e Joaquim saíram no dia 15 de dezembro à noite levando Drummond e Wladimir, foram seguidos por carros com chapas frias, de agentes militares à paisana. Achando que estava tudo normal, eles liberaram os dois companheiros nas proximidades da Avenida Nove de Julho. “Drummond, que iria para Goiás, foi preso antes de iniciar viagem”. Wladimir chegou a notar que estavam no seu encalço e tentou despistar os perseguidores. Livrou-se de documentos que trazia consigo, mas foi capturado na Avenida Santo Amaro, “acusado de ser puxador de carro, e aí mesmo começou a ser espancado”.

Enquanto o Corcel fazia o transporte da próxima dupla, Wladimir já estava no DOI-Codi “apanhando de soco, pau e botinada”. Antes da meia-noite, ele percebeu que Drummond também estava lá. Na madrugada, escutou gritos de dor e por volta das quatro horas da manhã ouviu “uma correria, gente descendo as escadas, uma voz pedindo médico com urgência”. Drummond estava morto.


 
Da mesma forma, os militares prenderam Aldo Arantes quando ele se aproximava da estação Paraíso do metrô, algum tempo depois de ter saído do carro do partido. Haroldo Lima foi seguido e vigiado até a manhã do dia seguinte e foi preso ao sair de sua casa. O mesmo teria acontecido a Jover Telles e José Novaes se – como ficou demonstrado, anos depois, no livro Massacre na Lapa –, o primeiro não fosse o traidor que havia delatado a reunião.

O massacre da Lapa encerrou de forma brutal a longa série de assassinatos cometidos pela ditadura militar contra seus opositores. Ela ocorreu já na era da distensão, com o general Ernesto Geisel na presidência, e outro, de sua inteira confiança – Dilermando Gomes Monteiro –, no comando do II Exército, sediado em São Paulo. Até 1973, os benefícios do desenvolvimento econômico haviam sido o principal legitimador da ação dos militares no poder. Alguns setores da classe média apoiavam o regime ditatorial, fechando os olhos para a repressão que corria solta e cujos horrores tinham divulgação limitada pela censura imposta aos órgãos de imprensa. A partir de 1973, as bases que sustentaram o milagre econômico começaram a ruir. “Com as crescentes dificuldades agora enfrentadas no terreno econômico, o Estado de Segurança Nacional passou a preocupar-se com a criação de novos mecanismos para a obtenção de apoio político e social”.

As mortes de Vladimir Herzog (outubro de 1975) e Manoel Fiel Filho (janeiro de 1976), assassinados sob tortura no DOI-Codi de São Paulo, provocaram forte reação, principalmente entre setores da classe média e da Igreja, para acabar com a repressão. Estimando que as forças de segurança de São Paulo eram contrárias à distensão e “redundavam em um poder paralelo que poderia ameaçar a autoridade do Executivo central e do próprio Estado de Segurança Nacional”, Geisel demitiu o então comandante do II Exército, o general Ednardo D’Ávila, atribuindo-lhe a responsabilidade pelas mortes de Herzog e Fiel Filho, e o substituiu por um militar de suas relações – o general Dilermando –, que lhe permitiria manter o controle da situação e restabelecer a hierarquia militar, quebrada pela ação autônoma do aparato repressivo. O problema para Geisel não era, evidentemente, a existência de um aparato repressivo, o exercício da tortura e a violação dos direitos humanos. A orientação dada ao general Dilermando era clara: “[Dei] instruções para que ele procurasse evitar excessos. Se ele tivesse que montar alguma operação armada, uma operação contra comunistas atuantes, que analisasse adequadamente, para verificar se tinha fundamento. Evidentemente, eu não ia tolher sua liberdade de ação. Mas que procurasse examinar todos os casos.”

No caso do assassinato dos dirigentes do PCdoB e da tortura aos que foram presos, Dilermando seguiu as instruções de Geisel, como contou em 1978 numa entrevista à revista IstoÉ: “Aquilo foi acompanhado por mais de cinco meses de antecedência. Nós descobrimos que naquele dia iria haver uma reunião em tal lugar, com a presença de tais e tais elementos, e aí fomos um pouco embromados, porque constava para nós que o João Amazonas estaria presente e o mesmo estava na Albânia […]. Então aquilo foi uma ação exclusivamente de fundo, eu não digo militar, mas de combate à subversão.” A versão de Dilermando foi confirmada por Geisel: “Sempre se procurou acompanhar e conhecer o que o Partido [Comunista do Brasil] fazia, qual era a sua ação, como ele se conduzia, o que estava produzindo, qual era seu grau de periculosidade. Isso aconteceu durante todo o período revolucionário. […] No fim do governo, o Dilermando, já no comando do II Exército, atuou em São Paulo sobre uma grande reunião dos chefes comunistas. A questão não era mais a força que eles tinham, mas não podíamos deixar o comunismo recrudescer. Fizemos tudo para evitar um recrudescimento das ações comunistas.”

A operação que culminaria no massacre ocorrido na Lapa foi iniciada no DOI-Codi do I Exército, no Rio de Janeiro. Em meados de 1976, o Comitê Regional do PCdoB desse estado havia sido desmantelado pelas ações dos generais Reynaldo Mello de Almeida, que comandava o I Exército, e Leônidas Pires Gonçalves, chefe do Estado-Maior, que acumulava o comando do Codi, ao qual o DOI era subordinado. Manoel Jover Telles era secretário-político do Comitê Regional e, provavelmente, foi localizado pelo Exército a partir da prisão de um integrante do próprio Comitê Regional. Preso, pactuou com os militares, cedeu informações essenciais e concordou em se deixar seguir até o local da reunião, que ele mesmo não sabia qual era. A operação do exército foi montada de forma a permitir que o delator ficasse a salvo. Por isso, foi somente após a liberação de Jover que o ataque à casa da Lapa se consumou. Novaes, que também conseguiu escapar à prisão, foi poupado por estar no carro com Jover, pois se o Exército deixasse apenas um fugitivo, ficaria evidente seu papel de delator da operação.

Os policiais que prenderam Elza talvez não fizessem ideia da importância daquela pequena mulher para o partido e para os esquemas de proteção dos quadros dirigentes na clandestinidade. Era uma figura-chave, que sempre conseguiu driblar a repressão e que, em 31 anos de militância, tinha ali sua primeira (e única) prisão. Um daqueles policiais de certa forma reconheceu isso quando disse: “A senhora, com essa cara de vovó boazinha, passou várias vezes por nós e nunca desconfiamos”.

Mesmo assim, ela não foi poupada das atrocidades cometidas pela repressão policial contra aqueles que se opunham à ditadura militar.

 
Referências

A parte inicial deste capítulo, que descreve os acontecimentos da Queda da Lapa, foi escrita principalmente a partir de informações que constam em Massacre na Lapa, como o Exército liquidou o Comitê Central do PCdoB, de Pedro Estevam da Rocha Pomar (Busca Vida, SP, 1987).

A “Chacina da Lapa” e seus mártires

Ângelo Arroyo e Pedro Pomar assassinados - as armas foram plantadas pelo II Exército



 

Um dos episódios mais brutais do regime de 1964, a “Chacina da Lapa” revelou o ódio que os golpistas nutriam pelos que lutavam consequentemente pela redemocratização do país.

O Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), depois da reunião de 14 e 15 de dezembro de 1976, foi duramente atingido pela repressão. Com o dever cumprido em dois dias de intensas discussões, chegara a hora das despedidas. O clima era de fim de ano. Só voltariam a se ver em 1977. De olhos fechados, sob a vigilância de Elza Monnerat, foram deixando o “aparelho” em duplas. No mesmo dia 15, no começo da noite, João Batista Drummond e Wladimir Pomar, acompanhados de Elza Monnerat, responsável pela locomoção dos dirigentes do PCdoB em São Paulo, deixaram a casa da Lapa de olhos fechados a bordo de um Corcel azul dirigido por Joaquim Celso de Lima.

Pouco depois, ambos foram deixados a uma certa distância, nas imediações da Avenida Nove de Julho, e cada um seguiu para o seu lado. O Corcel retornou ao “aparelho”. Duas equipes da repressão seguiram o carro desde que deixara a casa e, em locais diferentes, uma prendeu Drummond e outra, Wladimir Pomar. Encaminhados ao DOI-Codi, na madrugada de 16 de dezembro de 1976 Drummond morreu nas mãos dos torturadores. Durante as torturas, Wladimir Pomar ouviu referências a um pacote de biscoito contendo o jornal A Classe Operária que vira com Drummond na casa da Lapa.


 
O Corcel fez a segunda viagem ainda na noite do dia 15, com Aldo Arantes e Haroldo Lima a bordo. A viagem transcorreu dentro da normalidade e ambos foram deixados no local combinado. Mal sabiam que olhos atentos observavam cada movimento do carro. Aldo Arantes foi preso dentro da estação Paraíso do metrô, a caminho da sua residência no bairro de Itaquera, Zona Leste de São Paulo. Haroldo Lima seguiu até a sua casa, na Avenida Pompéia, e foi preso somente no dia seguinte de manhã, quando deixava a residência.

Fuzilaria

No início da manhã do dia 16, o Corcel saiu da casa da Lapa com a última dupla – Jover Telles e José Gomes Novaes. Joaquim Celso de Lima conta que deixaram o “aparelho” às seis e quinze, mais ou menos. Logo na primeira curva, percebeu que um Fusca “estranho” o seguia. Fez manobras bruscas, entrou por ruas estreitas, imaginou que havia despistado o perseguidor, mas ele voltou a seguir o carro do PCdoB. Joaquim Celso de Lima avisou Elza Monnerat, que pediu à dupla conduzida para abandonar o Corcel. Outros carros apareceram. A perseguição cinematográfica terminou na Avenida Faria Lima. Ela e o motorista do PCdoB foram algemados e encaminhados ao DOI-Codi.

Enquanto Joaquim Celso de Lima fazia o Corcel do PCdoB bailar pelas ruas de São Paulo tentando fugir da repressão, a casa da Lapa fumegava. A fuzilaria começara por volta das seis e meia, após a comunicação via rádio de que Jover Telles e José Gomes Novaes já haviam desembarcado, e duraria aproximadamente vinte minutos. Equipes do DOI-Codi e do DOPS cercaram o local e fizeram pedaços de portas e janelas voar pelos ares com o peso do fogo despejado. Tampos do reboco do teto caíram, vidros se espatifaram e as paredes foram crivadas de balas. Estavam no “aparelho” Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e Maria Trindade (encarregada das tarefas da casa). Os dois dirigentes se preparavam para começar a redigir a edição seguinte do jornal A Classe Operária.

Quando espocaram os primeiros estrondos, tentaram se falar para compreender o que estava acontecendo. Segundo Maria Trindade, a única sobrevivente, Arroyo saiu do banheiro e perguntou: ”O que é isso?”. Mal terminou de falar e foi atingido com violência. O impacto dos tiros o fez voar, bater a cabeça no teto e saltar para frente. Pedro Pomar constatou: “Que desgraça! Nos pegaram!” Voltava da conzinha para tentar destruir os documentos da reunião do Comitê Central que estavam na sala e foi violentamente fuzilado. Acabara de completar sessenta e três anos.

Farsa

A vizinha da casa número 765, Guiomar Issa, conta que durante a fuzilaria a filha Nice ouvira gritos de uma mulher em meio a muitas vozes masculinas. Para, para, dizia Maria Trindade. Atira, atira no pé dela, dizia um agente da repressão. Cessado o fogo, o chefe do DOPS, delegado Sérgio Paranhos Fleury, tocou a campainha da casa de Guiomar Issa. Pediu desculpas pelo susto e quis saber se estava tudo bem. Atrás dele, policiais trajando coletes à prova de bala chupavam laranja. Um deles explicou que a família não fora avisada da operação por precaução – poderia fazer parte da organização que ocupava a casa vizinha.

A repressão encomendou um laudo para oficializar a farsa montada na divulgação da morte de João Batista Drummond, que teria sido atropelado, e outros documentos seriam providenciados para forjar um “tiroteio” na casa da Lapa. Em nota oficial, o comandante do II Exército, general Dilermando Monteiro, disse que “durante a operação uma rua do bairro teve que ser interditada, travando-se um tiroteio na Rua Pio XI, em face da reação à bala dos sitiados, daí resultando dois subversivos mortos, havendo um terceiro morto, atropelado, quando de sua fuga”.

Em ofício enviado à II Auditoria Militar, o general Carlos Xavier de Miranda, chefe do Estado Maior do II Exército, informou os nomes dos prisioneiros: Aldo Silva Arantes, Haroldo Rodrigues Lima, Wladimir Ventura Torres Pomar, Elza de Lima Monnerat, Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade. Dos que estavam na casa durante a reunião do Comitê Central, faltavam Jover Telles e José Gomes Novaes.






Quedas


 
Às doze horas do dia 16 de dezembro de 1976, o cônsul-geral dos Estados Unidos em São Paulo, Frederic Chapin, procurou dom Paulo Evaristo Arns na Cúria Metropolitana com a lista de nomes dos mortos e presos na mão. Estava arfante. Informou o sacerdote sobre a chacina e pediu para ele fazer gestões na busca de convencer os verdugos do DOI-Codi e do Dops a não matarem os que foram detidos.

O cônsul-geral disse que sabia da reunião há dias, mas não esperava que, com Dilermando Monteiro no comando do II Exército, fosse ocorrer uma tragédia. Avisou o cardeal que a repressão preparava o cerco à casa da Lapa poucos antes da chacina. Dom Paulo Evaristo Arns não concordou com a avaliação do cônsul-geral e tentou falar com o PCdoB. Mas as barreiras do regime não permitiram que a informação chegasse a tempo de evitar a tragédia.

A operação foi montada com base em informações de um membro da direção do PCdoB, Jover Telles. Na véspera da reunião, na casa da Lapa, Pedro Pomar e Haroldo Lima, pela Comissão de Organização, conversaram com ele sobre as “quedas” ocorridas naquele Estado. Recomendaram que alguns procedimentos fossem adotados.

Araguaia

Jover Telles era um militante experiente. Fora destacado dirigente sindical no Rio Grande do Sul e deputado estadual naquele estado. No processo de reorganização do Partido Comunista do Brasil, tomou o caminho do novo PCB. Mais tarde entrou para o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e depois para o PCdoB.

A Comissão de Organização sabia que desde 1975 muitas lideranças do PCdoB no Rio de Janeiro haviam sido presas, mas não tinha a dimensão do estrago feito pela repressão. Não fazia a menor ideia de que o Comitê Central se aproximava do precipício. Em circunstâncias ainda não totalmente esclarecidas, até uma militante que morava com Jover Telles, conhecida como Hilda, fora presa. A repressão montara um esquema engenhoso para desarticular o Partido. Segundo uma nota do PCdoB sobre a chacina da Lapa, a operação fora montada pelo I Exército, sediado no Rio de Janeiro, com auxílio do Centro de Informação da Marinha (Cenimar) e do II Exército, sediado em São Paulo.

O Rio de Janeiro estava marcado pela repressão ao PCdoB desde o início dos anos 1970 por conta das atividades voltadas para o Araguaia, quando fora criada a União da Juventude Patriótica (UJP). A operação que resultou nas prisões e mortes de quatro dirigentes na virada de 1972 para 1973 também se desenvolveu no Rio de Janeiro, apesar de ter sido iniciada no estado do Espírito Santo. Como era de se supor, a vigilância sobre o PCdoB usava todas as técnicas possíveis para acompanhar os passos dos comunistas. Uma delas foi a cooptação do principal dirigente do Partido no estado.

Amazonas

Jover Telles prestou depoimento a agentes da repressão em 8 de dezembro de 1976. Estava preso. Falou cordialmente da história do PCdoB e comentou o relatório de Ângelo Arroyo sobre a Guerrilha do Araguaia. Até detalhes do debate em curso foram revelados. “Minha posição os senhores já conhecem: eu acho que a guerra não se justifica. A guerra popular no Brasil é inviável”, avaliou ele para a repressão.

Após a chacina da Lapa, para o Comitê Central Jover Telles estava desaparecido. Com muito esforço, foi encontrado. Precisava prestar conta sobre o ocorrido, como de resto todos os envolvidos. Usando o codinome de Oliveira, ele fez um relatório dando a sua versão dos fatos. Disse que perdera o contato com a Comissão de Organização após a baixa do “Juca” (Armando Frutuoso) em 30 de setembro de 1975, retomado somente em maio ou junho de 1976, conforme informou na reunião da Comissão Executiva de agosto daquele ano. Uma “referência” fora definida – em todo primeiro domingo de cada mês haveria um contato. Falhara em agosto e setembro, que seria com João Amazonas no Rio de Janeiro, e ficara outra vez isolado.

A informação não confere com os fatos. Segundo o próprio Jover Telles, na reunião do Comitê Central de dezembro de 1976 Pedro Pomar informou que a combinação do Amazonas fora a seguinte: caso o intermediário não comparecesse aos dois “pontos”, Jover Telles deveria ir diretamente a São Paulo. “É possível que assim fosse o combinado, mas ou isto foi esquecido ou mal compreendido pelo Oliveira, que acabou cobrindo os ‘pontos’ em 25 de setembro, 23 de outubro e a ‘referência’ a 25 de outubro, sem maior êxito, ficando dependendo da próxima ‘referência’ a ser coberta no dia 25 de novembro, quando realmente verificou-se o contato e marcado o ‘ponto’ para o Oliveira em São Paulo, a ser coberto no dia 11 de dezembro de 1976”, escreveu no relatório.

Baiano

Jover Telles também relatou que no período de tempo abrangido pelos fatos descritos algo grave sucedera. No dia 3 de outubro de 1976, um domingo, saíra de casa às sete horas da manhã para comprar pão a uma distância de duzentos a trezentos metros, na mesma rua da sua residência. Ao tentar voltar, percebeu vários carros, alguns de chapa branca, outros não, estacionados nas proximidades da sua casa. Desembarcaram quinze ou vinte pessoas e cercaram o grupo de residências onde estava a dele. Outros homens ocuparam as esquinas, cercando totalmente a área. Com o pão e o jornal sob o braço, dirigiu-se no sentido contrário à área conflagrada, atravessou uma praça, tomou um táxi e saiu da região.

Sem explicar como nem por que, disse que estava com três mil e quinhentos cruzeiros no bolso  Distante do local do perigo, desembarcou, andou um pouco a pé e tomou um ônibus até o Méier. Deu voltas e mais voltas para ver se estava sendo seguido e, como nada notara, tomou outro táxi e rumou para Copacabana. Às quatorze horas, seguiu de ônibus até o Méier, onde tomou um táxi e foi para a área de sua residência. Notou que o “aparato” já não era tão ostensivo. Alguns “suspeitos” permaneciam plantados em algumas esquinas. Ficou certo que o assunto era com ele. Seguiu até Marechal Hermes, tomou um ônibus para Nova Iguaçu, de lá foi para Caxias, perambulou pela cidade até às vinte horas, voltou para o Rio de Janeiro, onde pernoitou. No dia 4 de manhã, tomou o trem com destino a São Paulo e à noite foi para Porto Alegre.

No dia 6, Jover Telles disse que foi para o interior do Rio Grande do Sul e no dia 21 embarcou de volta para o Rio de Janeiro, onde cobriu sem êxito o “ponto” de 23 de outubro e a “referência” de 25 de novembro. Teria um mês pela frente até a data combinada para o contato seguinte. Alugou um quarto “no beiço”, adiantando parte do aluguel, e passou os dias girando pelas cidades vizinhas para não deixar pistas. Em 25 de novembro, compareceu à “referência”, onde encontrou o “baiano” (o dirigente do PCdoB Sérgio Miranda), que marcou 11 de dezembro para estar em São Paulo no ponto em que só ele, Jover Telles, e João Amazonas conheciam.

Divergências

Jover Telles disse que, no “aparelho”, conversou com Pedro Pomar e Ângelo Arroyo sobre os acontecimentos que descrevera. Combinaram que depois da reunião do Comitê Central eles três decidiriam sobre as medidas cabíveis. Estranhamente, Haroldo Lima, que era da Comissão de Organização e sobrevivera à chacina, não estava na conversa. Segundo Jover Telles, Pedro Pomar decidiu não tocar no assunto no curso da reunião para não desviar a atenção. O problema exigia medidas concretas que deveriam ser acertadas em âmbito restrito, afirmou.

Na conversa combinada para 15 de dezembro de 1976, após quase todos terem deixado o “aparelho”, ficou decidido que Jover Telles iria ao Rio de Janeiro para tentar restabelecer ligações e voltaria para São Paulo no dia 26 do mesmo mês, com a perspectiva de não mais voltar a atuar naquele estado. Ao mesmo tempo, caso houvesse algum contratempo, foi marcada nova “referência” no Rio de Janeiro para 25 de janeiro de 1977. Além disso, procurando assegurar a continuidade do contato, caso sucedesse algo com Pedro Pomar – não explicou por que e o que poderia suceder -, Ângelo Arroyo cumpriria a missão em outra “referência”. No final da conversa, Pedro Pomar entregou-lhe oito mil cruzeiros.

Jover Telles relata que na noite de 11 de dezembro de 1976, um sábado, todos os membros da Comissão Executiva – menos João Amazonas e Renato Rabelo, que estavam fora do país – entraram no “aparelho”. No domingo, dia 12, ocorreu a reunião da Comissão Executiva dedicada aos assuntos que seriam levados para o Comitê Central. Na noite do dia 12, entraram os demais. A reunião de 14 e 15, segundo Jover Telles, desenvolveu-se normalmente, seguindo a ordem do dia estabelecida. Somente surgiram algumas divergências em torno da nota que a Comissão Executiva havia editado sobre as ocorrências do Araguaia. Diante dos acontecimentos do dia 16, ele diz que decidiu deixar o Rio de Janeiro e ir para Porto Alegre. Viajou de avião, por segurança, em 21 ou 22 de dezembro de 1976.

O dedo-duro, Jover Telles, prestigiado, veio do Comitê Central do PCB, tendo estado na URSS, China e Albânia, virou traidor e recebeu dinheiro para delatar o PCdoB
(blog Coletivizando)




Expulsão

A localização da sua casa no Rio de Janeiro pela repressão, segundo Jover Tolles, era um mistério, outra preocupação. Só ele conhecia o local. Durante o tempo em que lá morou, por mais de três anos, nunca notara nada de anormal. No local estavam livros – inclusive alguns que estava escrevendo -, documentos e objetos de uso doméstico. Relatou como estava sobrevivendo com dificuldades no Rio Grande Sul, fazendo traduções de francês e espanhol para o português e à custa de ajuda da família. Reclamou da saúde e se considerou um “peso morto” para qualquer organização. “Vocês que seguem a Albânia, acham que estão certos, sigam o vosso caminho. O Oliveira seguirá seu próprio caminho, que, nesta altura da vida e nas condições de saúde em que se encontra, já não é um caminho, mas um ponto final. É só”, finalizou.

Jover Telles seria oficialmente expulso no VI Congresso do PCdoB, em 1983. A resolução número 4, publicada no jornal A Classe Operária de fevereiro/março de 1983, diz:

O Congresso do Partido Comunista do Brasil (6º), depois de examinar o Relatório apresentado pela comissão encarregada de apurar as causas da queda da Lapa em dezembro de 1976, decide aprovar esse relatório e confirmar a expulsão de Manoel Jover Telles das fileiras do Partido, como traidor e colaborador direto dos órgãos de repressão. Foi ele que forneceu os dados e indicações do local e da reunião do Comitê Central, em meados de dezembro de 1976, participando pessoalmente do esquema montado pelo I e II Exércitos para prender e assassinar dirigentes do Partido. O Relatório deve descer a todos os organismos partidários, com as respectivas conclusões, a fim de estimular a vigilância de classe do Partido

Jover Telles passou seus últimos dias em Santa Catarina, onde era conhecido como “Manolo”. Pertencia ao Grupo de Poetas Livres e à Academia Catarinense de Letras e Artes. Sofreu derrame cerebral, foi hospitalizado, mas não resistiu. Faleceu na noite de um sábado, dia 16 de junho de 2007.

O cemitério de Perus, onde os torturadores enterraram tantos heróis, vai ficar conhecido como a colina dos mártires. João Amazonas pronunciou essas palavras para definir o Cemitério dom Bosco, em Perus, um dos locais em que muitas vítimas fatais da barbárie que tomou conta do país com o regime de 1964 foram sepultadas em São Paulo. Os corpos de Pedro Pomar e Ângelo Arroyo foram descobertos ali em 1980.

 
Outras fontes que contribuíram para essa descrição foram: Jornal do Brasil, 05-04-1992; O Globo, 1º-05-1996; e entrevistas com Elza Monnerat, João Amazonas, Aldo Arantes e Haroldo Lima.

As citações sobre a conjuntura da época em que ocorreu a Queda da Lapa constam em Estado e oposição no Brasil (1964-1984), de Maria Helena Moreira Alves (Vozes, Petrópolis, 1984), e as declarações de Ernesto Geisel encontram-se em Ernesto Geisel, de Maria Celina D’Araujo e Celso Castro (Editora FGV, RJ, 1997). A declaração de Dilermando está em IstoÉ, 13-12-1978.
Do livro: Verônica Bercht. Coração vermelho – A vida de Elza Monnerat. 2ª Edição. São Paulo, Editora Anita Garibaldi/Fundação Maurício Grabois, 2013


General admite que ditadura subornou traidor para liquidar PCdoB

Em entrevista ao programa Dossiê Globonews, exibida no sábado (3), o general Leônidas Pires Gonçalves, ex-chefe do DOI-Codi do Exército no Rio de Janeiro (1974-1977), admitiu que o regime militar pagou 150 mil cruzeiros para que Manoel Jover Telles traísse o PCdoB e se aliasse à repressão. As informações obtidas a partir do suborno foram encaminhadas ao II Exército, de São Paulo, que pôs em operação a Chacina da Lapa — na qual três dirigentes nacionais do PCdoB foram fuzilados.
 

Por André Cintra

O depoimento de Leônidas, mais de 33 anos depois da chacina, não só desmonta a versão “oficial” do regime — como também detalha como Jover Telles, o “Rui”, se vendeu aos militares. É a primeira vez que um membro do Exército confirma, publicamente, a verdade sobre a Chacina da Lapa.O general assumiu ter autorizado — ele próprio — o suborno ao traidor do PCdoB. “A ideia foi minha. Fui adido militar na Colômbia. Aprendi que lá eles compravam todos os subversivos com dinheiro”, declarou o milico à Globonews, sem citar o nome de Jover Telles.Segundo Leônidas, o traidor foi preso em meados de 1976 e se vendeu à ditadura, informando quando haveria a próxima reunião do Comitê Central (CC) do PCdoB. “Deu o dia e a hora por 150 mil, entregues à filha dele, em Porto Alegre”, relatou o general na entrevista. Já era público que o regime prometeu também emprego a Telles e à sua filha na fábrica de armas Amadeo Rossi, no Rio Grande do Sul.A reunião do CC ocorreu de 11 a 15 de dezembro de 1976, numa casa situada na Rua Pio XI, 767, no bairro paulistano da Lapa. Ao final do encontro, o DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna) entrou em ação.Já na madrugada para a manhã de 16 de dezembro, uma quinta-feira, o regime assassinou de cara dois dirigentes comunistas que permaneciam na casa — Ângelo Arroyo e Pedro Pomar. Contra Pomar, desarmado, foram disparados cerca de 50 tiros certeiros. João Baptista Drummond morreu horas depois, depois de ser preso e violentado pelo regime. Outros quatro dirigentes — Aldo Arantes, Elza Monnerat, Haroldo Lima e Wladimir Pomar — também foram levados à prisão e à tortura.Uma investigação levada a cabo pela direção do partido, anos depois do massacre, já havia apontado a colaboração de Jover Telles. Relatório aprovado no 6º Congresso do PCdoB, em 1983, responsabilizou o traidor pela chacina e ratificou sua expulsão definitiva das fileiras do partido. Em seus diários secretos sobre o regime militar, um agente do Centro de Informações do Exército conhecido como Carioca também confirmou que Jover Telles serviu à ditadura. A revelação está no livro Sem Vestígios — Revelações de um Agente Secreto da Ditadura Militar Brasileira (Geração Editorial, 2008).Segundo Carioca, Jover Telles prestou depoimento ao regime em 8 de dezembro de 1976, tecendo críticas coléricas ao PCdoB e informando o ponto na Rua Pio XI e a data da reunião. O veículo que transportava Jover Telles para a casa foi seguido por outros 35 carros.A Chacina da Lapa, por sua crueldade, surpreendeu até mesmo integrantes do regime que defendiam a “distensão” anunciada em 1974 pelo general-presidente Ernesto Geisel. Fazia 11 meses que o II Exército não registrava uma única morte de “subversivo” — a última havia sido a do metalúrgico Manuel Fiel Filho, sob tortura, em 17 de janeiro de 1976. O terrorismo de Estado, no entanto, estava vivo.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Ato homenageia líderes do PCdoB mortos na Chacina da Lapa - Portal Vermelho

Ato homenageia líderes do PCdoB mortos na Chacina da Lapa - Portal Vermelho

Na próxima quarta (14), a Câmara Municipal de São Paulo sedia ato em homenagem a Ângelo Arroyo, João Batista Drummond e Pedro Pomar, os três comunistas mortos pela ditadura na Chacina da Lapa, em 16 de dezembro de 1976.


O ato, realizado nos 35 anos da chacina, pretende trazer à tona o contexto em que as mortes aconteceram e a importância da luta dos comunistas no processo de redemocratização no Brasil.

Entre os convidados estão Haroldo Lima e Aldo Arantes, dirigentes do Comitê Central do PCdoB que, na ocasião, foram presos pelas forças de repressão. Ambos foram soltos apenas com a Anistia, em 1979.

A homenagem é uma iniciativa do vereador Jamil Murad (PCdoB) e da Fundação Maurício Grabois e acontece a partir das 19h no salão nobre da Câmara (Viaduto Jacareí, 100 – 8º andar – Bela Vista).

Chacina da Lapa: democracia custou muitas vidas

No dia 16 de dezembro de 1976, três dirigentes do PCdoB – Ângelo Arroyo, João Batista Drummond e Pedro Pomar – foram assassinados por agentes da repressão em uma casa na Lapa, São Paulo, onde acontecia reunião da direção nacional da legenda comunista.

Outros dirigentes foram presos e torturados. Este acontecimento revela o ódio da ditadura contra um partido que resistiu ao golpe de 1964 e que, mesmo na clandestinidade, conseguiu combater o regime ao lutar por liberdade, democracia e pelo socialismo.

A Chacina da Lapa – cujo objetivo era aniquilar a direção do Partido Comunista do Brasil – representa o fato de a democracia ter renascido, em 1985, às custas de muitas lutas e de muitas vidas. Simboliza também a presença constante dos comunistas na jornada de amplos setores progressistas que, ao longo da história, lutam por uma república efetivamente democrática.

"Num momento em que o Brasil vive uma fase próspera, de melhoria das condições de vida de seus cidadãos, de desenvolvimento e de maior democracia e justiça social e institui a tão almejada Comissão da Verdade, é um dever histórico com as novas gerações recordar aqueles que deram sua contribuição, muitas vezes a própria vida, para termos um país melhor para todos", diz o convite para o ato que resgata um episódio importante da história e homenageia a memória de heróis da luta democrática e revolucionária.

Com informações da assessoria de Jamil Murad

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