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segunda-feira, 1 de abril de 2024

Ditadura Nunca Mais! Atos em Brasília pelos 60 anos do Golpe militar de 1964 - Inscreva-se para ir ao Senado

 

DITADURA NUNCA MAIS!

Link para se inscrever e confirmar sua presença na Sessão Especial, no Senado Federal/BSB, 02/04/24, às 10h.

https://www12.senado.leg.br/institucional/eventos/detalheeventoeventos?evento_id=sessao-especial-em-celebracao-a-democracia-brasileira 

sábado, 16 de março de 2024

SÁBADO, 16/3/24, às 14h - Trus Entrevista João Vicente Goulart: Especial 60 anos do Golpe Militar - #brasil247 #tv247




Entrevista: Especial 60 anos do Golpe Militar com João Vicente Goulart, hoje, sábado 16/3 às 14h00 na TV 247 


#brasil247 #tv247
Programado para 16 de mar. de 2024 -14h00 • #brasil247 #tv247 Andrea Trus, Ivan Seixas e João Vicente Goulart, conversam sobre o comício histórico da Central do Brasil , os movimentos políticos que antecederam ao golpe e as consequências do golpe para o país.

JOÃO VICENTE GOULART Filósofo, poeta e escritor. Autor dos livros “Entre Anjos e Demônios, poemas do exílio” e “Jango e eu: memórias de um exílio sem volta”, este foi finalista do prêmio de literatura Jabuti na categoria Biografia. Preside o Instituto João Goulart desde 2004. Reeleito Presidente do Comitê Regional do PCdoB Distrito Federal e do Comitê Central.

Veja também

100 anos de Jango - Discurso de João Goulart na Central do Brasil em defesa das Reformas de Base 






sábado, 11 de dezembro de 2021

1964: Entrevista com João Vicente Goulart - UNIVESP #DitaduraNuncaMais

João Vicente Goulart, filho de João Goulart, concede entrevista sobre o governo de seu pai e o golpe de Estado que o derrubou. Aos sete anos de idade, João Vicente foi exilado do Brasil com a família. Preside, hoje, o instituto que leva o nome do ex-presidente, que visa preservar a memória e debater a política brasileira que culminou numa ditadura militar de 21 anos. A conversa foi realizada no dia 5/4/2014 especialmente para o projeto 1964.






Hoje, João Vicente Goulart é Presidente do PCdoB DF e membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central

segunda-feira, 12 de abril de 2021

49 anos da Guerrilha do Araguaia - Canção, poema e Diário do Comandante Maurício Grabois

Hoje é o aniversário dos 49 anos do início da confrontação armada na Guerrilha do Araguaia, atacada pelo Exército quando desenvolvia um trabalho iniciado ainda em 1967, com a fixação dos primeiros camaradas cuja permanência nas cidades era um gravíssimo risco.

Página magna da resistência armada à Ditadura, o heroísmo dos guerrilheiros e guerrilheiras não se apaga, assim como o pranto por sua partida, seu exemplo generoso e a necessidade de lhes dar ainda hoje um enterro digno, pondo fim ao seu criminoso desaparecimento.

Por quase três anos os guerrilheiros resistiram, derrotando duas das investidas do Exército que, para afogar em sangue a Guerrilha, que tinha apoio popular,  precisou mobilizar ao todo 25 mil soldados, reprimir toda a população e mudar a visão sobre a integração da Amazônia ao Brasil. Mesmo assim, a memória e o carinho persistem, gesto de amor e sacrifício que se notabiliza como a maior resistência armada popular à Ditadura no Brasil.

O Blog Coletivizando compartilha com vocês alguns tesouros para marcar essa data. São eles:
- O poema Araguaia, de Adalberto Monteiro, que eu recito;

- A canção Xambioá, de Itamar Correia, publicada no Youtube de Carlos Silva, com imagens dos mártires do Araguaia, muitos ainda hoje carentes de sepultura;

- O Diário de Maurício Grabois, Comandante do Araguaia, Líder da Bancada Constituinte de 1946, Editor de A Classe Operária, caído em combate em 25 de dezembro de 1973;

- A indicação do belíssimo Livro de Osvaldo Bertolino sobre Maurício Grabois.

Aonde estão nossos mortos e desaparecidos da Guerrilha do Araguaia?

Paulo Vinícius da Silva


 

Foto: Jayme Leão


Paulo Vinicius da Silva · Araguaia - Adalberto Monteiro - Recita Paulo Vinícius da Silva




Araguaia - Adalberto Monteiro


Houve uma época terrível,
A serpente era tão perversa
Que para enfrentá-la,
Além dos olhos gastos de leitura,
Mais do que os dedos calejados
De empunhar a pena,
A história exigiu
Que se empunhassem fuzis.
Então mãos veteranas e juvenis
Embrenharam-se na Amazônia,
A cidade irmanou-se com o campo,
E naquele universo verde
Foi aberta uma clareira,
E na escuridão da ditadura
Foi acesa uma lareira.
Por quase três anos,
O Araguaia virou uma estrela
Que emitia sinais de esperança.
Custou muito sangue
Mas seu brilho
Incutiu na alma brasileira
A certeza de que Roma
Cairia mais uma vez.
Xambioá, por Itamar Correia

Mata virgem e escura, foi lá
Que no meio do mato
Um amigo de infância
Tentou começar.
Ah! foi por lá
Onde o povo sofreu pra contar
Como um homem sozinho
Valia por trinta
Em qualquer lugar.
Êh! Marabá,
Altamira e Estreito olhem lá
Ainda grita até hoje
A vida do povo
Que morreu por lá.
Ei, meu irmão ,
Você fez renascer o sertão
E o maior contingente
Não viu o tamanho 
Do seu coração.
Pedra não pára o caminho,
Fogo não queima o luar,
Eu já não canto sozinho,
Canto em Xambioá.

O Diário de Maurício Grabois, guerrilheiro do Araguaia 



















"O diário que Maurício Grabois, comandante dos 68 combatentes da Guerrilha do Araguaia, escreveu durante 605 dias em seu esconderijo na mata, do início do conflito (12/04/72) até sua morte (25/12/73). Para além de ser o documento mais importante e profundo sobre a guerrilha até hoje revelado, o diário registra as angústias, os medos e a solidão do homem que comandou a única guerrilha rural da história do Brasil." (da Apresentação)
Baixe no Arquivo Marxista Na internet

Compre a Biografia de Maurício Grabois por Osvaldo Bertolino










sexta-feira, 2 de abril de 2021

Defenderam a Democracia e a Pátria - Paulo Vinícius da Silva


Nesse período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado. 

Fernando Azevedo e Silva - Nota Oficial de saída do Ministro da Defesa.


Quando falamos de "adversários", não visamos às massas que estão inscritas nas organizações fascistas, social-democratas, católicas. Nossos adversários são as organizações fascistas, social-democratas, católicas, mas as massas que aderem a elas não são nossos adversários, são massas de trabalhadores que devemos fazer todos os esforços para conquistar.

Palmiro Togliatti - Os caracteres fundamentais da ditadura fascista.


O pranto marca todas as famílias nesse Brasil cujo riso esvaneceu. Tantos amigos(as), amores, camaradas perdemos para uma morte fruto da omissão criminosa e da loucura de um presidente genocida e duplamente traidor da pátria, porque nem democrata, nem nacionalista. E não parou ainda. Está claro, enfim, nosso desespero e abandono. Mas, em meio a tanta treva, pipocam luzes que apontam o caminho da alvorada. 

No dia 30 de março, o tiro da traição saiu pela culatra e os Comandantes das Três Armas honraram o Verde-Oliva e a Constituição, encarnando em seu gesto de recusa o aprendizado histórico da lição de Ulisses Guimarães, "quem trai a Constituição é também traidor da Pátria". Como diria Vinícius: eles disseram não, e eles se fizeram fortes na sua resolução. Assim, seu gesto de renúncia se soma a uma série de outros que iluminam a mudança do ânimo  nacional, escancarando o caráter de zumbi que assume o governo Bolsonaro.  Às vésperas da triste data do Golpe de 1964, cala fundo na alma nacional tão eloquente brado constitucional das FFAA em favor da vida, da democracia e do Brasil. É certo que pode-se atribuir graves culpas no que passamos às FFAA. No entanto, também é certo que é nesta hora soturna que os democratas são postos à prova. E graças a eles, as Forças Armadas deram uma demonstração de patriotismo que se equipara aos mais nobres momentos de sua história.  Patriotismo é a defesa da Nação Brasileira, que em última instância é o seu povo, sua terra, a Amazônia e a Amazônia Azul, sua moeda, seu idioma, suas empresas, suas escolas, as universidades, o SUS, a PETROBRAS, os Bancos Públicos, mas também as Forças Armadas Brasileiras. 

Houve dias em nossa Historia em que as FFAA tiveram gestos que representaram toda a Nação. Disseram ao Imperador: "não somos captores de escravos fugidos". Em 1888, o cadete Euclides da Cunha atirou seu sabre ao chão em protesto diante do Ministro do Império, o Conselheiro Tomás Coelho, a protestar contra a Monarquia. Os Tenentes tinham entre si Luís Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança. Lott representu toda uma geração de democratas e impediu dois golpes que se desenrolavam diante da Nação, que elegera Juscelino Kubitschek e Jango. Foi dessa natureza o gesto democrático que os três Comandantes fizeram, repelindo a cumplicidade com o golpismo de Bolsonaro.

Por que isso é tão importante? Não é mais fácil xingar os militares?! Por que não adotar o discurso do rancor e da vingança?

Um dos mais importantes desafios ao nosso novo Projeto Nacional de Desenvolvimento é a construção de uma inquebrantável unidade da Pátria, e em especial a união do Povo com suas Forças Armadas. Sem nossas FFAA é impossível a libertação do Brasil do Imperialismo, seremos sempre colônia, e esta vida miserável que vivemos será um destino, gerando a fragmentação da Pátria. 

Negando-se a coonestar com o golpe à democracia tão vilipendiada, os Generais foram absolutamente ciosos de suas responsabilidades com a Nação: não fizeram politicagem, tampouco se omitiram, nem foram aventureiros. Em vez de seguir adiante, ultrapassando a fronteira, eles desarmaram a bomba e mostraram uma admirável objeção de consciência, que sói ocorrer na tropa, mas que em uníssono no Comando tem um sentido ainda mais nobre que não pode ser ignorado pelos democratas que buscam uma saída para o Brasil. Impuseram uma derrota que confirma a pá de cal no concerto das forças que deram até agora sustentação do Mensageiro da Morte, o genocida ainda Presidente.

Passo a passo, a Frente Ampla contra o Coronavírus e o Genocídio de Bolsonaro se afirma. São icônicos os episódios protagonizados por inimigos de ontem que se somam à defesa da democracia. Os Ministros do STF, mesmo Facchin; a coragem demonstrada por Cármen Lúcia em seu voto; o insuspeito e garantista filotucano Gilmar Mendes, reparem a expressão da resistência no Supremo, colegiado em que tem havido um  aceso e decisivo debate televisionado e cotidiano sobre o Brasil e seus descaminhos.

Até a Globo, bem o observou José Dirceu, retrata em suas novelas e reportagens uma visão de Brasil, e por aí vai bambeando  sobre a hipocrisia de seu discurso mutante. Mesmo ela, com sua hipocrisia, combate o genocida e abre assim vias para fazer política, inclusive com o Presidente Lula. Muito mais honesta e profissional foi a postura do jornalista  Reinaldo Azevedo, que assume ter criado o termo "petralha", e no entanto revoltou-se contra a farsa contra Lula e a Democracia, fazendo uma autocrítica pública notável num neoliberal. Ora, que dizer dos meses de libelos que moveu contra a Farsa a Jato, que dizer de seu encontro com Lula e o diálogo delicioso e indispensável que se seguiu, e em que Lula não apenas deu a Linha de que a hora é de salvar vidas, mas também fez acenos para o grupo Bandeirantes?! Só no Youtube foram mais de 375 mil expectadores do É da Coisa da Band.  Reconheça-se, contudo, a imprensa democrática em que há verdadeiros heróis que enfrentaram a perseguição e o lawfare, como Paulo Henrique Amorim, Luís Nassif e Eduardo Guimarães, que teve seu lar violado numa prisão covarde pelo diminuto Moro que o Brasil agora conhece. Mesmo os jornalistas dos grandes veículos, que sofreram na pele a violência e a violação da consciência -a mando de seus patrões - anseiam por superar o momento sinistro que vivemos.

A direita se afasta de Bolsonaro,  e o sinal mais notório foi a carta dos banqueiros que desembarcam do seu projeto disfuncional, porque Bolsonaro é fascista não apenas por ser autoritário, mas porque foi a encarnação do autoritarismo do rentismo financeiro, buscando se constituir em um movimento de massas, os três vértices da definição do fenômeno fascista, que é função do capital financeiro. A direita busca um pólo conservador não radical, mas pode ser tarde, depois de tamanha catástrofe. Palpita outra vez nos lábios e corações a possibilidade de a Frente Ampla ser nucleada pela esquerda, pondo fim ao sofrimento que o país vive. Esse pensamento tem duas palavras: "Lula Presidente". Todavia, isso só será possível com generosidade e visão de futuro, com gestos como os praticados pelo Ministro da Defesa, Azevedo e pelos Comandantes da Aeronáutica, Antônio Carlos Moretti Bermudez; do Exército, Edson Pujol e da Marinha, Ilques Barbosa, ao renunciar às vésperas da efeméride que marcou uma grande vitória do imperialismo. 

O Golpe de 1964 é uma data muito triste porque marca uma fratura que ainda impede a libertação da Nação Brasileira. Os EUA fizeram-nos acreditar que o inimigo era o provo, e não o imperialismo , vejam que miopia... O Programa Socialista do PCdoB, sabiamente, alertáva-nos sobre os perigos das "divisões no seio do povo".  

Neste sentido, em entrevista sobre a Questão Militar no Brasil 247, Aldo Rebelo analisa corretamente a sinuca de bico em que estão nossas FFAA. Bolsonaro conspira, usa o estado, corrompe, faz de tudo para  tentar cooptá-las. Por isso não devemos jogá-los para o lado de lá, muito ao contrário. O desafio do Brasil é o diálogo. Nosso dever como democratas é exatamente o mesmo do General Azevedo: preservas as Forças Armadas como Instituições de Estado e preservá-las para a sagrada tarefa da defesa de nosso território, riquezas e do direito de decidirmos nosso próprio destino.

O Golpe começou com a espionagem estadunidense na Petrobras. Sem defesa, jamais nos libertaremos. Não podemos aceitar a divisão do povo das FFAA como um fato desejável. Na URSS, na China, no Vietnã, em Cuba, na Coréia Popular, na Venezuela, foi exatamente a afirmação da unidade Povo-Nação nas FFAA que asseguraram sobrevivência e a independência. E sejamos justos: o golpe veio do mercado, dos EUA, dos oligarcas e da imprensa golpista. 

Reconstituir as alianças políticas e sociais que permitam isolar o rentismo financeiro parasitário e entreguista é a tarefa central que justifica no campo dos princípios a defesa da Frente Ampla. E é a sua justeza que a vai firmando como realidade. Por isso, devemos lutar para dar um conteúdo progressista à Frente Ampla, feito de povo e feito de líderes. É quando fala o maior líder brasileiro, o Presidente Lula, que vemos em sua plenitude o potencial da Frente Ampla. Se formos capazes de nos unirmos e superarmos a página mais triste da história do Brasil; se formos capazes de defender o país e nossa democracia das artimanhas do imperialismo estadunidense. E para essa superação, como nunca, precisamos de povo, precisamos de democracia e precisamos de nossas Forças Armadas.

terça-feira, 31 de março de 2020

Geraldo vandré (ao vivo no Maracanãzinho) - 1968 - Caminhando e Cantando - #DitaduraNuncaMais


Esse registro foi feito durante o III Festival Internacional da canção, organizado pela TV Globo em 1968. Na ocasião, o júri deu o primeiro lugar a "Sabiá", de autoria de Chico Buarque e Tom Jobim, com "Caminhando" ficando em segundo lugar. A música de Vandré era disparada a favorita, por isso as enormes vaias ao júri e os gritos de "Marmelada" do público que não aceitou de jeito nenhum o resultado. Apenas em 1991, Walter Clark, diretor-geral da Rede Globo de Televisão na época, revelou em sua autobiografia que a direção da emissora recebeu ordens do comando do I Exército para que nem "Caminhando" nem "América, América", de César Roldão Vieira, extremamente críticas ao governo, vencessem o festival. Histórico.

Golpe de 1964 foi o período mais vergonhoso da história brasileira por Christiane Peres


Portal Vermelho 

https://vermelho.org.br/2020/03/31/golpe-de-1964-foi-o-periodo-mais-vergonhoso-da-historia-brasileira/
Vice-presidente usou as redes sociais para enaltecer o golpe militar e foi rechaçado por diversos parlamentares que destacaram um regime ditatorial marcado pelo fechamento do Congresso, perseguições e tortura
por Christiane Peres

Publicado 31/03/2020 12:13 | Editado 31/03/2020 12:38
(Reproduçã do Twitter)

31 de março de 2020. A data marca os 56 anos do golpe militar que instalou uma ditadura no Brasil. Nesta terça-feira (31), o vice-presidente, general Hamilton Mourão, usou suas redes sociais para fazer a defesa explícita da data. Em um tuite, Mourão afirmou que “as FA [Forças Armadas] intervieram para enfrentar a desordem, subversão e corrupção que abalavam as instituições”.


Após a declaração, Mourão foi duramente criticado nas redes e hashtag #ditaduranuncamais foi parar no topo dos assuntos mais comentados do Twitter.

A bancada do PCdoB também criticou a fala do general. A líder da legenda na Câmara, deputada Perpétua Almeida (AC), afirmou que o 31 de março é uma “data triste de nossa trajetória” e que é preciso união para que não volte a se repetir.


“É certo que o 31 de março de 1964 está na história. E na história deve ficar, porque é uma parte triste de nossa trajetória nacional. O golpe de 1964 foi o ápice da incidência da guerra fria sobre a Nação e a nacionalidade. Nesse momento, onde novamente o radicalismo ideológico, liderado desta vez pelo próprio presidente da República, volta a dividir profundamente nossa Nação, lembrar o 31 de março deve servir apenas para reafirmar que devemos superar essa recidiva que volta como uma grande farsa a nos dividir novamente. Mais que nunca, é preciso voltar a unir os brasileiros em torno de seu futuro grandioso, superando os tristes episódios, seja de 1964, seja do radicalismo ideológico nefasto de Bolsonaro nos dias atuais”, disse.

A deputada Alice Portugal (BA) lembrou que a ditadura foi um período sangrento da nossa história. “Tortura, mortes, prisões, imprensa censurada, Congresso fechado. Um período de terror e autoritarismo. Precisamos lembrar para que nunca mais aconteça”, postou em sua conta no Twitter.

O deputado Daniel Almeida (BA) também comentou o tema. “Foi uma época sombria e difícil para o povo brasileiro, muitas pessoas ainda sofrem com as perdas e os danos que essa época causou”, disse.


Além de Mourão, o próprio Ministério da Defesa divulgou um texto na segunda-feira (30) no qual afirma que 31 de março de 1964 foi um movimento que representou um “marco para a democracia”.

A deputada Jandira Feghali (RJ), no entanto, rebateu a afirmação. “Nunca foi pela democracia! O golpe de 64, em 31 de março, ceifou vidas inocentes e, acima de tudo, iniciou o período mais vergonhoso na nossa história. Não foi revolução, foi golpe. Censura, tortura, assassinatos. O golpe militar manchou o Brasil e isso jamais será esquecido”, enfatizou.

Já o deputado Orlando Silva (SP) afirmou que um período tão “tenebroso” na história brasileira, “não pode ser enaltecido”. “O golpe pertence ao lixo da história, que não aceita ser reescrita”, postou.


Em sua página no Instagram, o deputado Márcio Jerry (MA) enalteceu a democracia e a liberdade ao criticar o período ditatorial. “Há 56 anos o Brasil era açoitado pela face cruel da Ditadura Militar. O golpe mais terrível e sangrento já implementado contra o povo brasileiro, contra as liberdades e garantias individuais do ser humano, um golpe contra a vida e contra os valores fundamentais da nação. Centenas de pessoas foram assassinadas brutal e covardemente somente por discordarem de tal sistema. Ninguém podia pensar por si mesmo. Ninguém podia falar, escrever, cantar versos que desagradassem aos tais generais”. Por isso, apesar de estarmos tendo nossas vidas e nossos sonhos novamente fustigados pelos ventos maléficos do autoritarismo, neste 31 de março exalto a nossa democracia. A liberdade é o nosso maior patrimônio. Um homem/mulher sem liberdade é um ser sem vida. A liberdade não pode ser efêmera. A liberdade é um bem inegociável. Ditadura, nunca mais! Viva a Liberdade! Viva a Democracia! Viva o Brasil de todos nós”, escreveu na plataforma.

Supressão da liberdade

O senador Humberto Costa (PT-PE) diz que o golpe de 64 é marco para uma noite de 21 anos que caiu sobre o Brasil.


“É marco da supressão de liberdades e da própria democracia. É marco de torturas, desaparecimentos e mortes que são feridas abertas pra sempre na nossa história”, afirmou o senador.

Para o líder da Oposição na Câmara, André Figueiredo (PDT-CE), trata-se de um dia para ser guardado na memória e não deixar que se repita.

“É um dia pra lembrarmos dos que lutaram muito pelo direito à democracia, mesmo às custas de suas vidas, e combatermos duramente os que se opõem a ela”, considerou.

“Ditadura Nunca Mais! Em 31 de março de 1964 a Constituição foi rasgada por um golpe militar. Com ela rasgaram também a democracia. Lembrar para que nunca mais aconteça! #DitaduraNuncaMais”, escreveu no Twitter a deputada Luiza Erundina (PSOL-SP).


O deputado Alessandro Molon (PSB-RJ) afirmou que o golpe que ceifou inúmeras vidas e acabou com as liberdades não pode ser, de forma alguma, comemorado, muito menos por quem deveria defender a democracia.

“Foram mais de 20 anos de sofrimento num dos períodos mais nefastos da nossa história. #DitaduraNuncaMais”, publicou no Twitter.

A ditadura militar durou de 1964 a 1985. No período, o Congresso Nacional foi fechado; houve perseguição aos opositores do regime, com tortura e mortes; e censura à imprensa.


PCdoB na Câmara

Tags golpe militar, Hamilton Mourão, PCdoB

Autor

Christiane Peres
Jornalista.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Augusto Buonicore e João Amazonas: Em defesa da Guerrilha do Araguaia - Portal Vermelho

13 de abril de 2014 - 8h13

Augusto Buonicore: Em defesa da Guerrilha do Araguaia


Até muito recentemente a grande tarefa que cabia às forças progressistas, especialmente aos comunistas, era salvar a Guerrilha do Araguaia do esquecimento a que lhe pretendiam impor a ditadura militar e os setores mais conservadores da sociedade. Nestes últimos anos, no entanto, a Guerrilha foi tema de vários livros, teses e matérias especiais nos grandes jornais brasileiros.

Por Augusto C. Buonicore*

ReproduçãoCena do filme Araguaya, conspiração e silêncio

O que já está claro para todos é que as Forças Armadas utilizaram métodos bárbaros para sufocá-la – entre os quais, tortura, assassinato de militantes aprisionados, amputação de mãos, degola de cadáveres, ocultação e incineração dos corpos dos prisioneiros. Nem mesmo os militares envolvidos naqueles atos monstruosos podem negar que eles tenham ocorrido. Agora, tratam de justificar tal barbárie.

O mote para o revisionismo histórico foi dado pelo ex-ministro da ditadura militar, coronel Jarbas Passarinho. Segundo ele, a luta entre a Guerrilha e as forças da repressão foi uma “guerra suja” para os dois lados, sendo que os guerrilheiros tiveram maior responsabilidade por tê-la desencadeado ao adotarem o método da resistência armada ao regime. Estava dada a senha para a reconstrução da história do ponto de vista dos torturadores e assassinos.

Essas versões amarrotadas criadas pelo regime militar tiveram pouca repercussão na sociedade brasileira pós-ditadura. Poucos políticos ou intelectuais ousaram defendê-las. Por isso, ele precisou construir formulações mais refinadas. Estas não podiam partir de pessoas diretamente envolvidas com a repressão política, como Brilhante Ustra e major Curió. Precisavam vir de um espaço mais nobre, da imprensa ou da academia.

O livro do jornalista e historiador Hugo Studart, A Lei da Selva, se encaixa perfeitamente dentro dos objetivos dessa operação ideológica tentada pelos militares. A obra não pretende defender abertamente a repressão, mas mostrar que os guerrilheiros não eram tão diferentes dos seus algozes. Conseguido esse intento, estaria amenizada a culpa daqueles que os torturaram e assassinaram.

Studart, logo no início, afirma que seu objetivo “não era analisar o episódio (Guerrilha do Araguaia) sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região”, e sim “relatar o significado do conflito sob a ótica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros”. O seu objeto de estudo seria o imaginário que os militares haviam construído sobre o conflito armado. Um tema pertinente e que poderia ser bastante útil para nos fazer entender melhor os acontecimentos ocorridos no sul do Pará entre 1972 e 1974.

O problema é que o imaginário militar deixa de ser apenas o objeto de estudo para se transformar na ideologia que norteia as próprias interpretações do autor. Isso se expressa nas escolhas feitas e na linguagem utilizada. No artigo publicado no primeiro número da revista Br História isto fica ainda mais claro e mais grave. Ali desaparece o imaginário militar e o que surge, sem retoques, é a ideologia conservadora do autor. Sigamos as trilhas tortuosas abertas por Studart.

Para ele, tanto as Forças Armadas quanto os guerrilheiros tinham coisas a esconder: “o Exército não explicou como venceu, nem a guerrilha revelou como perdeu”. Na revista é ainda mais claro: “Mais de três décadas depois, tanto o Exército quanto o PCdoB continuam em silêncio, se recusando a abrir seus próprios arquivos. Por quê? Há muitos esqueletos a desenterrar – de ambos os lados”. Do lado dos guerrilheiros e do PCdoB “o principal cadáver é a prática dos ‘justiçamentos’, eufemismo usado para justificar a execução sumária dos ‘inimigos da revolução’”. Eis aí, na sua pureza, a tese revisionista da “guerra suja” dos dois lados.

A afirmação de que a Guerrilha não revelou como perdeu é injusta diante do fato de que os guerrilheiros foram dizimados e o Diário do seu comandante Maurício Grabois, principal documento sobre a Guerrilha, confiscado pelo Exército. Um dos únicos sobreviventes, o subcomandante Ângelo Arroyo, se esforçou para trazer um relatório da Guerrilha e expor suas opiniões sobre as razões da derrota. Este documento há muitas décadas foi divulgado pelo PCdoB, enquanto os originais do Diário de Grabois continuam desaparecidos.

Justiçamentos de jagunços e delatores

A grande prova de que os guerrilheiros também haviam ingressado na Lei da Selva – ou na “guerra suja” – foram os justiçamentos realizados. Mas o que pretendia ser um dos pontos mais fortes do livro acabou como um dos mais fracos. Os fatos narrados demonstram apenas quão diferentes eram aqueles jovens guerrilheiros dos militares que os perseguiam.

O primeiro caso que Studart nos conta é sobre a morte de um informante do Exército: “Um jovem camponês, de 17 anos, que guiou um grupo de militares ao esconderijo dos guerrilheiros, foi capturado, julgado por um Tribunal Revolucionário e executado a golpes de facões”. Mais à frente afirma: “Teria sido morto a golpes de facão, segundo os militares espalharam na região; ou com um tiro pelas costas, de acordo com seus parentes. Tinha entre 17 e 18 anos”.

Eumano Silva e Taís Moraes, em Operação Araguaia, nos dão outra versão, menos escabrosa. Escreveram eles: “De surpresa, encontraram João Pereira em uma picada e o intimaram a levantar os braços. João não obedeceu. Os comunistas abriram fogo”. Assim, teria sido fuzilado ao resistir a uma ordem de prisão dos guerrilheiros. Nada de execução a golpes de facão ou tiros pelas costas. Qual dessas versões seria a correta? Studart sempre escolherá a mais desfavorável aos guerrilheiros.

Depois de tanta confusão de informação veja como Studart conclui o assunto: “Mas considero importante registrar esse possível episódio, visto que o justiçamento de um adolescente inocente, com métodos bárbaros – verídico ou fantasioso, não importa –, acabou se tornando um fato significativo no imaginário das tropas do Exército”. Bela conclusão para um historiador: se “esse possível episódio” é “verídico ou fantasioso não importa”.

Continuemos com Studart em sua vã tentativa de demonstrar o lado selvagem dos guerrilheiros: “Logo após a segunda campanha, teria havido a execução de mais três camponeses suspeitos de colaborar com o governo e pelo menos um companheiro de guerrilha”. Vamos por partes e comecemos pelos três camponeses “suspeitos”. O próprio Studart, numa nota de rodapé, escreveu: “Nesse caso, todos os três seriam de fato colaboradores, dois deles conhecidos pistoleiros de aluguel, apontados pelos moradores da região como responsáveis por mortes de posseiros a mando de latifundiários”. Num passe de mágica os pobres camponeses justiçados viraram perigosos jagunços, o que de fato eram.

Na verdade, houve casos de “justiçamentos” em número reduzidíssimo. O Relatório de Arroyo chegou a reconhecer que uma das deficiências da Guerrilha foi a “do não-justiçamento de determinados inimigos”. Tudo indica que, ao contrário do que diz o autor, os guerrilheiros estavam mais preparados para morrer do que para matar.

O livro cita vários casos que comprovam a superioridade moral dos guerrilheiros. Um dia estes entraram nas terras de um fazendeiro chamado Nemer Curi – acusado de colaborar com os militares. O objetivo era julgá-lo e justiçá-lo. Saíram da empreitada sem o ferir, apenas dando-lhe uma lição de moral. Num trecho do suposto Diário de Grabois, a que Studart teve acesso, está escrito: “O fazendeiro se defendeu, negando parte das acusações (...). O C do D (refere-se aos destacamentos guerrilheiros) foi magnânimo em relação ao acusado. Advertiu-o para que não incidisse em novos crimes. As contas estavam ajustadas”. Os inimigos presos pela Guerrilha tinham o direito de se defender e podiam até ser absolvidos.

Studart cita outro caso no qual os guerrilheiros saíram para justiçar um jagunço e, também, resolveram poupá-lo depois de ele ter pedido perdão pelos seus crimes. Novamente, o suposto Diário de Grabois justificou o perdão: “Não era dos mais raivosos. Por isso, a solução política dada ao caso talvez tenha sido a melhor”. Quando os guerrilheiros foram justiçar o temido pistoleiro Pedro Mineiro o encontraram com outro jagunço, mas resolveram executar apenas o chefe do grupo e libertar o seu comparsa.

Por fim, cabe-nos lembrar do assalto ao posto policial na Transamazônica, no qual os guerrilheiros vitoriosos se contentaram em colocar os soldados para correr de cuecas. Vejam a diferença entre o tratamento dado pelos guerrilheiros a seus inimigos vencidos e o que era feito pelas Forças Armadas.
Morte por adultério?

Uma das maiores infâmias divulgadas por Studart foi o suposto justiçamento do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza (Mundico). Ele, segundo as “fontes” militares, teria sido executado por ter tentado seduzir a mulher de outro guerrilheiro. Assim o autor descreve a cena da execução: “Dina estourou-lhe o peito por causa de uma transgressão moral, a conjunção carnal com a companheira de um camarada de armas, considerado algo terrivelmente ofensivo ao código revolucionário”. Aqui a imaginação e a má-fé dão as mãos.

Numa carta-resposta a Studart a ex-guerrilheira Luzia Reis Ribeiro escreveu: “nós mulheres éramos livres para escolher com qual companheiro quiséssemos nos relacionar, mesmo as casadas anteriormente (...) o comportamento tido como adultério não existia em nosso meio, podia sair de um relacionamento para outro relacionamento, sem repressão nem a intromissão da Comissão Militar”. Continuou ela: “A própria Dinalva e o Antônio, antes do início da guerra, (...) comunicaram à Comissão Militar que não eram mais marido e mulher e que Dina queria ir para o grupo onde se encontrava ‘Pedro’, Gilberto Olímpio, em outro destacamento”. Então, qual seria a grave transgressão moral em se apaixonar por outra pessoa e largar o marido ou a esposa? Nem uma evidência tão óbvia parece dissuadi-lo da sua “verdade”.

Studart nem ao menos se deu ao trabalho de ler o Regulamento do Tribunal Militar da Guerrilha. Ali não existe pena de morte para adultério. A pena de morte é prevista no caso de violência contra mulher, especialmente estupro. Mesmo assim o fuzilamento é a última e mais grave das punições. Ele também não dá qualquer valor às informações constantes no Relatóriode Arroyo e no suposto Diário de Grabois, que nunca procuraram esconder os casos de justiçamento, mas unanimemente afirmam que Mundico morreu devido a um acidente com sua própria arma. Acidente muito comum nos agrupamentos guerrilheiros. Studart foi induzido a erro pela sua opção ideológica, que o leva sempre a aceitar como mais plausível a versão dos inimigos da Guerrilha.

Por fim, cabe ressaltar que nenhuma das pesquisas realizadas entre o povo da região constatou a existência dessa execução. A notícia de uma execução, presenciada por meia dúzia de camponeses, como afirmaram os militares, se espalharia como fogo em mato seco e teria sido usada pela repressão como contrapropaganda. Por que isso não ocorreu na época? A resposta mais óbvia é de que essa foi uma versão construída posteriormente para mostrar o quão perigosos eram Dina, Osvaldão e André Grabois, que supostamente teriam participado da execução de Mundico. Assim, a morte desses guerrilheiros estaria plenamente justificada.

O mito da direção desertora

Outro mito que os militares pretendem difundir é o de que a direção do PCdoB teria abandonado os guerrilheiros e desertado da luta. Veremos que Studart passa a assumir esta versão sem a mínima sustentação factual e a partir de informações mentirosas, que ele mesmo poderia desmascarar se assim o quisesse.

Os alvos preferidos dos militares – e de Studart – são João Amazonas, Elza Monnerat e Ângelo Arroyo. Os militares, afirma o livro, “demonstram profundo desprezo pelos que fugiram dos combates, especialmente pelos dois dirigentes máximos do partido que deixaram a área ainda no início de 1972, no primeiro sinal da chegada das Forças Armadas – João Amazonas e Elza Monnerat”. Acredito que Studart, em sua santa ingenuidade, nunca se questionou sobre as razões desta unanimidade militar contra os três dirigentes comunistas.

Um historiador sério teria colocado no corpo do texto – e um menos sério em uma pequena nota de rodapé – que os dois dirigentes saíram do Araguaia em março de 1972. Foram participar da reunião do Comitê Central onde foi aprovado o documento 50 anos de Luta. João Amazonas fez o informe principal naquele evento. Quando começou a luta armada eles ainda estavam em São Paulo. Será que Studart não pode concluir por sua própria cabeça que algumas peças não se encaixavam na versão do pessoal da repressão?

Quando Elza e Amazonas estavam no caminho de volta para o Araguaia, a Guerrilha já havia sido descoberta e a área já estava cercada pelo Exército. Foi Elza a primeira a notar a movimentação das tropas; e voltou para avisar Amazonas, salvando-o de uma prisão certa. Somente uma organização irresponsável permitiria que seu principal dirigente fosse preso ou morto logo no início da batalha. Este fato é descrito nas bem documentadas biografias de Elza Monnerat e Maurício Grabois, escritas respectivamente por Verônica Bercht e Osvaldo Bertolino, e abordado em inúmeros artigos.

O melhor advogado de Amazonas é o próprio comandante guerrilheiro. Ao não ter notícia da Guerrilha através das rádios, Grabois chega a temer pela vida do velho amigo. No dia 7 de maio escreve em seu Diário: “Isso nos faz pensar sobre a sorte de Cid (Amazona). Aconteceu alguma coisa com ele? Não acreditamos que tenha sido preso. É suficientemente vivo e esperto para deixar que o apanhem (...). É indispensável romper a barreira da censura ditatorial”. Quando, dias depois, a Rádio Tirana furava o cerco e começava a dar as primeiras notícias do que ocorria no Araguaia, ele escreveu satisfeito: “Isso nos faz crer que Cid conseguiu se safar, colheu informações e pôde transmiti-las aos amigos da Albânia. Para nós o Cid em liberdade é um alívio”. Esse parece o tratamento que um comandante daria a um desertor? O que vemos aqui, na verdade, são sinais de uma amizade e de respeito profundos entre dois grandes revolucionários.

Mas uma das mais sórdidas injustiças cometidas pelo livro foi o tratamento dado a Ângelo Arroyo, apresentado como desertor. Aqui também Studart assume, sem contestação, o ponto de vista dos órgãos de repressão. Ele chega a aventar que Arroyo teria desertado duas semanas antes da queda da Comissão Militar e da morte de Maurício Grabois, ocorrida no natal de 1973. Ao mesmo tempo, cita as últimas anotações do comandante guerrilheiro, feitas poucas horas antes de morrer, que diziam: “Penso em sair da região, pois, se não o fizer, posso criar, com minha doença, uma situação difícil para os comandantes. Discutirei o assunto na próxima reunião da Comissão Militar, que se realizará logo que Joaquim chegue”. Ali não se vê nenhum sinal de dúvida do comandante da Guerrilha sobre o comportamento de Arroyo ou de sua fuga ocorrida duas semanas antes.

O próprio Relatório Arroyo fala do conflito ocorrido no dia 25 de dezembro, combate que dizimou a Comissão Militar da Guerrilha. Como ele poderia saber daquele acontecimento se tivesse fugido duas semanas antes? Prova mais do que suficiente para anular a calúnia dos militares. Mas, quem quereria esclarecer os fatos? Studart, com certeza, não. Por isso, continua se referindo a Arroyo como um desertor. Para os comunistas e demais correntes democráticas e populares, Arroyo é um herói do povo brasileiro. O ódio dos militares contra Arroyo, Amazonas e Elza se deve ao fato de terem sobrevivido ao Araguaia. Eles teriam gostado de que todos tivessem ali morrido. Afinal, como gostava de dizer a direita militar, “comunista bom é comunista morto”.

É comum os militares – e Studart – afirmarem que a cúpula do Partido estava instalada “em segurança” nas cidades enquanto os guerrilheiros se arriscavam nas matas. Será que esses parvos não sabem que não havia nenhuma segurança para os dirigentes comunistas nas cidades e que este foi o motivo pelo qual muitos deles tenham se deslocado para áreas do interior? Será que eles não sabem da prisão, tortura e do assassinato de Lincoln Cordeiro Oest, Carlos Danielli, Luiz Guilhardini, Lincoln Bicalho Roque, Armando Frutuoso e Ruy Frazão, todos dirigentes do PCdoB? Será que estavam em segurança Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond quando, em dezembro de 1976, foram surpreendidos e massacrados pelos órgãos de repressão?

Para sustentar esta versão sobre a deserção dos dirigentes comunistas é preciso violentar a história. Partindo da direita militar isso é natural. Para aqueles que chegaram a violentar prisioneiras indefesas que mal teria violentar alguns fatos históricos? Mas para um historiador e jornalista as coisas deveriam ser diferentes.

Afirma uma lenda grega que Procusto convidava suas visitas para deitar num leito. Quando elas não se encaixavam exatamente ao tamanho da cama, o anfitrião dava um jeito: esquartejava-as para que ali coubessem. Esta é a mesma lógica adotada por Studart: mutilar a realidade para que ela possa caber em seu esquema limitado.

Os pequenos erros de um livro errado

O livro comete uma série de pequenos erros de informação, que isoladamente não trariam grandes problemas. Mas, quando vistos de conjunto, revelam a ideologia do autor e comprometem a obra como um todo. Vejamos alguns desses pequenos grandes erros.

Segundo Studart, em 1975 “em segurança na Europa, os dirigentes do partido conseguiram veicular na Rádio Tirana e publicar no jornal Le Monde reportagens que sustentavam que a guerrilha teria o controle sobre uma área libertada do tamanho da Bélgica”.

Uma informação capciosa, pois é de conhecimento público que o núcleo dirigente do Partido permaneceu no Brasil até a época da Chacina da Lapa, em dezembro de 1976. Apenas Diógenes Arruda, que havia sido barbaramente torturado no final da década de 1960, recebeu incumbência de ficar no exterior. Havia outro dirigente no exterior, Dynéas Aguiar, mas ficava na América do Sul. Se os dirigentes estivessem em segurança no exterior não teriam sido massacrados em dezembro de 1976. O autor revela um espantoso desconhecimento sobre um dos elementos que deveria ser central de sua pesquisa: o PCdoB. Ele chega ao absurdo de afirmar que o Partido foi criado em 1960, enquanto toda a bibliografia existente afirma que o PCdoB foi reorganizado em fevereiro de 1962.
Studart se refere a Pedro Pomar como “guerrilheiro” – que além de ter sido um dos “idealizadores da guerrilha” teria estado na área antes do início dos combates para montar “uma base de apoio”. Continua ele: “Depois da derrota, o partido difundiu boletins internos garantindo uma estrondosa vitória no Araguaia e começou a divulgar no exterior que teria o controle sobre o território. Pomar então redigiu sua própria análise (...) relatando o que sabia sobre a derrota e tecendo autocrítica sobre a aventura”.

Parece que o autor não se deu ao trabalho de ler nenhuma das biografias de Pomar e nem mesmo o relatório que ele elaborou. Se o tivesse feito saberia que Pomar não foi guerrilheiro nem mesmo esteve no Araguaia. A “base de apoio” que ele montou se encontrava no Vale do Ribeira. Pomar nunca se referiu à Guerrilha do Araguaia como aventura. Tinha por ela grande respeito, apesar dos erros que acreditava terem sido cometidos. A grande polêmica ocorrida no Comitê Central desde 1974 se deu em torno da questão de que a Guerrilha teria sofrido uma derrota temporária ou definitiva e se ela teria tido ou não influências foquistas. Ninguém falou de “estrondosa vitória” da Guerrilha, especialmente depois de ter as notícias das derrotas sofridas.

Studart afirma que Maurício Grabois “foi um dos primeiros guerrilheiros a chegar à região em 1966”. Se tivesse lido a excelente biografia escrita por Osvaldo Bertolino saberia que ele lá chegou em dezembro de 1967. O primeiro a chegar na região foi Osvaldão.

Outro erro se refere ao próprio Osvaldão. O livro diz que ele tinha a patente de coronel concedida pelo Exército da Tchecoslováquia. Na revista ele foi ainda mais longe e afirmou que Osvaldão teria feito um curso de “partisan” no Exército da Tchecoslováquia. Na verdade, ele fez um curso de engenharia, que não chegou a concluir. Naquele mesmo país ele aderiu ao PCdoB e voltou ao Brasil para ajudar na organização do seu novo Partido. O curso político-militar ele fez na China em 1964. Studart confundiu o ano, a patente, o país e o continente.

Falando sobre Francisco Manoel Chaves, Studart diz que nem a direção do Partido sabia o seu nome verdadeiro e que ele somente foi descoberto em 1991, quando foram abertos os arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Paraná. Se Studart tivesse se dado ao trabalho de ler o artigo “Francisco Chaves – denotado lutador de Vanguarda”, publicado n’A Classe Operária de maio de 1974, teria descoberto que o PCdoB sabia o nome verdadeiro e parte da biografia daquele guerrilheiro. Esse artigo foi republicado na coletânea 50 anos de luta, publicada em 1975 pela editora Maria da Fonte.

Francisco Chaves, que é citado por Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere, havia sido eleito membro suplente do Comitê Central na Conferência da Mantiqueira, ocorrida em 1943. Ou seja, ele era um velho conhecido de Maurício Grabois, João Amazonas, Pedro Pomar e Diógenes de Arruda Câmara.

Falarei apenas de mais um erro, para não cansar demasiadamente o leitor. Ele se refere à afirmação de que um dos fatos mais importantes ocorridos após 1996 “foi a direção do PCdoB ter decidido, finalmente, divulgar o discurso oficial do partido sobre os acontecimentos, publicando o livro-revista Guerrilha do Araguaia – Documentos do PCdoB”.

O problema é que a revista foi lançada em 1982 – quatorze anos antes do que afirma o autor. Sua primeira edição causou um alvoroço na esquerda brasileira e foi apreendida por ordem do ministro da Justiça de então. Na Bahia, dezenas de pessoas foram presas durante o seu lançamento. O acontecimento teve grande repercussão na imprensa nacional e internacional. No ano seguinte, o VI Congresso do PCdoB aprovou o documento Acerca da Violência Revolucionária, fazendo um balanço autocrítico do movimento armado no Araguaia. O texto foi publicado e teve grande circulação. Estranhamente Studart não cita este importante documento: o principal documento partidário tratando da Guerrilha do Araguaia. Pode-se discordar da avaliação do Partido, mas não afirmar que ela não existiu.

Como se vê, são muitos os erros de informação para um trabalho acadêmico. Uma banca mais exigente o teria reprovado e feito reescrever seu trabalho.

*Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e revolução brasileira: encontros e desencontros e Meu verbo é lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos pela Editora Anita Garibaldi.
**Artigo republicado (Maio de 2007)


Aula de João Amazonas sobre Guerrilha do Araguaia durante exílio

Imagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia RangelImagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia Rangel

 O curso foi realizado e Tirana e durou 15 dias para algumas pessoas exiladas na Europa. Entre eles Loreta Valadares, Carlos Valadares, Bernardo Joffili, Olivia Rangel, José Luís Guedes, Nair Guedes, Maria Ester Drummond (Teinha), José Carlos Arruti Rey (Zé Carioca). Entre os professores estavam Amazonas, Arruda e Foto Çami, que era professor da Universidade de Tirana e ministrou as aulas de filosofia. Arruda deu aula de Fundamentos Leninistas de Partido e História do PCdoB. Amazonas tratou da formação histórica do Brasil, realidade brasileira, revolução brasileira, a tática e a estratégia do PCdoB e da Guerrilha do Araguaia. Suas aulas duraram cinco dias.

A fita com a gravação do curso faz parte do rico acervo do Centro de Documentação e Memória da Fundação Maurício Grabois (CDM-Grabois).



Fonte: Portal Maurício Grabois

sábado, 21 de março de 2015

O silêncio dos democratas, por Urariano Mota - No Vermelho e no GGN

URARIANO MOTA
SEX, 20/03/2015 - 10:41





Eu relutei, tive dúvida em relatar um fato desagradável acontecido comigo no mais recente dia 13 de março, aqui no Recife. Mas agora mudei pra não ser mudo. Vocês já vão entender a razão.

Para a defesa da Petrobras e do governo Dilma, antes de sair de casa no dia 13, aconselhei aos filhos e esposa:

- Olhem, vão acontecer provocações da direita. Mas a gente não tem olhos nem ouvidos para a provocação. Faz de conta que não vemos nem ouvimos, e vamos em frente.

Mas eu próprio não resisti a 2 minutos de insulto fascista. Assim se deu. Quando a passeata da multidão vestida de vermelho saiu da Avenida Guararapes, e dobrou para a avenida Dantas Barreto, antes da Igreja de Santo Antonio, notei que a minha mulher respondia a um senhor forte, de cabelos brancos. Dizia ela:

- Todos nós somos trabalhadores.

Então voltei e me acerquei dele. E ouvi:

- Era bom metralhar, fuzilar todos os petistas, tudo que é comunista.

- Como é? – perguntei.

E o animal:

- Tem que cortar a cabeça de todos eles.

- Que é isso? Que estupidez é essa? – perguntei.

E o animal, passando a mão na cintura me soltou mais um coice:

- Vou marcar a sua cara. Pra no dia em que a gente voltar...

Olhem, entre as minhas raras qualidades não se encontram a coragem ou o desassombro. Mas diante daquela agressão verbal, pior, mais que verbal, diria, pela promessa que encerrava e cerrava, com c ou com s, a democracia, na hora me subiu uma onda que não pude segurar, um calor, um sangue quente veio, e respondi ao fascistão:

- Marque a minha cara, que eu marco a sua – disse-lhe com os dedos da mão direita em V sobre os meus olhos. – Marque a minha, que eu marco a sua. Mas vamos prum combate aberto, franco. Não de modo covarde, não na maior covardia, como vocês fizeram – e neste ponto eu lhe apontava o dedo, que eu desejava fosse um soco na sua carantonha criminosa – Não na covardia, como vocês fizeram com os presos políticos na ditadura. Vocês assassinaram pessoas algemadas, presas, desarmadas, sob torturas.

Ao que o fascistão, réu confesso, sentindo-se identificado, saiu puxando a perna como um diabo coxo. Não sei, tive vontade de segui-lo, mesmo sabendo que entre nós a civilização estava morta, que palavras mais não se deviam pronunciar porque eram surdas e absurdas. Um companheiro que ainda não sei quem é, se acercou de mim e me tocando o ombro procurava me pôr de volta à sensatez:

- O que é que tá acontecendo com você? Relaxe, amigo.

A pressão estava alta e desnorteada, e eu não soube como reagir de modo mais sereno .

Contei isso agora porque uma ameaça maior veio na movimentação no dia 15, em São Paulo. A ótima coluna Notas Vermelhas já havia chamado a atenção para o vídeo que “mostra manifestantes idolatrando o famigerado torturador e assassino Carlinhos Metralha, agente do DOPs que aparece orgulhoso de sua ‘atuação’ durante a ditadura e cercado por ‘admiradores’ ”.

Carlinhos Metralha, o cara que foi sócio do cabo Anselmo nos 6 assassinatos do Recife em 1973, aparece na passeata paulista como herói. Os caras não estão folgados. Estão mais que isso, estão livres, soltos e ameaçadores. Olhem o vídeo onde ele aparece com a cara obscena

https://www.facebook.com/video.php?v=10152760919021238&fref=nf ou aqui

https://www.youtube.com/watch?v=ebzEbjflXkM

No vídeo, ele mostra um cartaz onde se lê: “Quero ser ouvido pela Omissão da Verdade”. Mas notem que o corajoso delegado Carlos Alberto Augusto, ou Carlinhos Metralha, herói dos coxinhas de São Paulo, foi convocado, no fim de 2013, para um depoimento na Comissão da Verdade de Pernambuco, e não quis vir. Por excesso de valentia, digamos. Mas no vídeo, ele faz declarações orgulhosas dos seus crimes:

“Carlinhos Metralha foi o apelido que os comunistas me deram, porque me respeitam até hoje. Já andei infiltrado na organização terrorista VPR, conheci pessoalmente alguns desses delinquentes que estão aí, não metralhei porque não tive essa oportunidade. Se eu tivesse, faria com o maior prazer”. Mais adiante, aparece marchando com um velho. Impune. Os pés que ele bate ritmado no chão pisam sobre os democratas e o sangue de brasileiros assassinados pela ditadura. A isso, a militante comunista Mara Loguercio respondeu por email:

“Isto já é provocação. Caberia, no mínimo, ao meu juízo uma ‘notitia criminis’. O cara dizer que não metralhou nenhum de nós porque não teve oportunidade, embora tenha participado do assassinato de vários, mas que se tivesse (a oportunidade) o faria com prazer, se isto não é crime eu jogo todo o material de estudo e prática de advocacia e magistratura no lixo!!!!

Se mais alguém topar a ideia, eu penso que nos caberia. Ou no mínimo, uma interpelação judicial ou uma representação para o Conselho do Ministério Público ou até para a Comissão da Anistia.

Não dá é para ficar inerte diante disto. Isso é mais do que passividade, passa a ser cumplicidade da nossa parte. É minha visão”.

É a nossa visão também. Porque em outro vídeo, a extrema-direita fala em gravação para pegar em armas, assassinar Dilma e seguidores:

https://www.youtube.com/watch?v=lsB875X-0KA

Trata-se do ex-comandante da Policia Militar de Goiás, olhem só, ex-comandante de uma policia militar, o coronel Pacheco. No vídeo ele insulta a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula, além de ameaçar “pegar em armas” para destituir do poder o atual governo federal – eleito através do voto.

Exaltado, Pacheco chama Dilma de “chefe de quadrilha” e o ex-presidente Lula de “ladrão”. Ele diz, ainda, que não tem medo dos “guerrilheiros” da petista. Diz o fascistão, pago com o dinheiro de todos nós, civis, intelectuais e povo desarmados:

“Quero dizer pra você Dilma, pra você Lula ladrão, que eu não tenho medo dos seus guerrilheiros, e tenho certeza que as centenas de milhares de policiais militares dos diversos Estados desse País também estão prontos para ir para a luta armada para defender esse País”. E mais:

“Nós policiais militares da reserva, não aceitamos mais ser roubados e ainda por cima, agora, ser ameaçados e oprimidos. Nós vamos defender a nossa sociedade e estamos prontos para qualquer convocação, seja oficial ou não, para lutar contra os seus guerrilheiros”, completou Camilo, que informou ser coronel da reserva remunerada há três anos.

Observo que nunca é demais lembrar que, de um ponto de vista legal, a Constituição da Federal em seu artigo Artigo 5º :

“XLI - a lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades fundamentais;

XLIII - a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura , o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;

XLIV - constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático;”

E então? Vamos continuar à mercê dos criminosos e torturadores, que mal satisfeitos com a impunidade dos seus crimes, nos ameaçam agora com novos assassinatos, a nós, que fazemos parte da civilização e da humanidade brasileira? É claro que deveremos reagir com medidas legais e com movimentos de opinião pública, com uma política de reassentamento da democracia real. Para que se levem a sério as novas ameaças dos fascistas.

Ou iremos todos para o suplício como novos cordeiros para o sacrifício final. Em um novo silêncio dos democratas, que não viram a tempo a aberração da existência desses velhinhos dos quarteis.

*Áudio na Rádio Vermelho http://www.vermelho.org.br/noticia/260793-333Nota 5

segunda-feira, 16 de março de 2015

Tortura e Ditadura Nunca Mais - Baixe o livro digital e saiba a verdade que o PIG esconde




BRASIL NUNCA MAIS NA INTEGRA. PROJETO COM SENTENÇAS CONDENATÓRIAS NAS AUDITORIAS MILITARES



Para acessar a página, é só entrar no seguinte endereço


http://bnmdigital.mpf.mp.br

São 900.000 páginas, possibilitando o conhecimento da quantidade total de sentenças condenatórias proferidas nas Auditorias Militares.

TAMBÉM DISPONÍVEL O LIVRO BRASIL NUNCA MAIS NA INTEGRA

ACESSE CLICANDO NOS LINKS ABAIXO DO TEXTO

Um grupo de especialistas dedicou-se durante 8 anos a reunir cópias de mais de 700 processos políticos que tramitaram pela Justiça Militar, entre abril de 64 e março de 79. O resumo desta pesquisa está neste livro. Um relato doloroso da repressão e tortura que se abateram sobre o Brasil.

Os advogados, entre os quais a advogada Eny Raimundo Moreira e a equipe do escritório do advogado Sobral Pinto, perceberam que os processos relacionados a presos políticos poderiam ser reproduzidos, aproveitando-se do prazo de 24 horas facultado pelo Tribunal para a custódia provisória de autos. Copiaram os documentos um a um em total sigilo. Era nitroglicerina pura: havia uma das únicas fontes capazes de reproduzir o que ocorrera nos cárceres e locais de tortura: as denúncias feitas por parte dos presos políticos, detalhando as violências que tinham sofrido. A qualquer momento, aquela papelada valiosa poderia desaparecer, ainda mais na hipótese cada vez mais próxima de redemocratização.

A ideia foi acolhida pelo Reverendo da Igreja Presbiteri

ana Jaime Wright e pelo cardeal de São Paulo,Dom Paulo Evaristo Arns, que conseguiram os recursos necessários junto ao Conselho Mundial de Igrejas. Alugaram uma sala comercial em Brasília próxima ao Superior Tribunal Militar e três máquinas copiadoras e contrataram alguns estagiários. Dali, as cópias seguiam para São Paulo, inicialmente em ônibus, aviões de carreira e automóveis, onde foi tudo microfilmado. Foram seis anos de trabalho até reproduzirem documentos de 707 processos judiciais. No total, 1 milhão de cópias em papel e 543 rolos de microfilmes.

O primeiro produto foi um documento-mãe, o Projeto A, com a análise e a catalogação das informações constantes dos autos dos processos judiciais em 6.891 páginas divididas em 12 volumes. Nessa etapa, os pesquisadores identificaram quantos presos passaram pelos tribunais militares, foram formalmente acusados, presos, torturados e quantas pessoas tinham desaparecido. Também foram catalogadas as modalidades de mais praticadas, a localização dos centros de detenção e os nomes dos médicos que davam plantão junto aos porões, bem como agente identificados pelos presos políticos.

Para tornar o conteúdo mais acessível, Dom Paulo imaginou o Projeto B, um resumo do Projeto A em um espaço 95% menor, tarefa a cargo dos jornalistas Ricardo Kotscho e Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), coordenados por Paulo de Tarso Vannuchi. O material acabou publicado no Brasil e nos Estados Unidos. Aqui, saiu pela Editora Vozes (vinculada à Igreja Católica) sob o título de Brasil: Nunca Mais.

Toda a documentação do projeto, foi doada para a Universidade Estadual de Campinas, a instituição aceitou a documentação, com a promessa de disponibilizar amplamente o material para consulta e permitir sua reprodução. Vinte e cinco cópias do Projeto A, encadernadas em capa dura, preta com letras douradas foram entregues a universidades, bibliotecas e centros de documentação de entidades dedicadas à defesa dos direitos humanos no Brasil no exteriorBrasil Nunca Mais (1)

http://pt.scribd.com/doc/93566594

Tomo Vi Vol 2 Invent a Rio Dos Ane

tomo_v_vol_4_os_mortos

Tomo III Perfil Dos Atingidos

Tomo v Vol 3 as Torturas

Tomo v Vol 2 as Torturas

Tomo v Vol 1 a Tortura

Tomo IV as Leis Repressivas

tomo_ii_vol_3_os_funcionarios

Tomo II Vol 1 a Pesquisa Bnm

tomo_ii__vol_2_os_atingidos

TÉCNICAS DE TORTURA UTILIZADAS PELA DITADURA MILITAR - DOCUMENTOS REVELADOS


POR ALUIZIO PALMAR · 19 DE DEZEMBRO DE 2014 ·
Ilustrador recria técnicas de tortura utilizadas pela ditadura militar




O ilustrador Bruno Maron produziu para a Vice uma série retratando as técnicas de tortura cometida pelos militares e agentes da repressão durante a ditadura militar brasileira.

Segundo o relatório da Comissão Nacional da Verdade, além das 434 civis mortos ou desaparecidas, mais de 6 mil pessoas foram torturadas durante o regime.



INFORMAÇÕES SOBRE A DITADURA…
As técnicas de tortura foram ensinadas por agentes fraceses que vieram ao Brasil ensinar os métodos aprendidos e utilizados na Guerra da Argélia.

Oficiais brasileiros também foram para aulas de tortura da Escola das Américas, criada pelo Departamento de Defesa dos EUA.

Depois, o Brasil ensinou técnicas de tortura para outros países da América Latina que mantinham regimes ditatoriais.

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sábado, 15 de novembro de 2014

Carcereiro da Casa da Morte, Camarão é encontrado pela PF - Pragmatismo Político

Carcereiro da Casa da Morte, Camarão é encontrado pela PF - Pragmatismo Político

Polícia Federal encontra Camarão, o carcereiro da Casa da Morte de Petrópolis - um dos centros de tortura mais bárbaros do regime militar. Ele foi reconhecido pela Inês Etienne Romeu, única sobrevivente do local

camarão casa da morte tortura
Antonio Waneir Pinheiro Lima, o ‘Camarão’ (Reprodução)
Das tristes lembranças que Inês Etienne Romeu carrega sobre os 96 dias de tortura a que foi submetida, uma imagem é mais presente que as outras. Ela jamais conseguiu esquecer o rosto redondo e a pele avermelhada do soldado cearense de codinome Camarão. Sentinela em uma casa no alto do morro Caxambu, em Petrópolis, na Região Serrana, o militar trabalhou em 1971 — auge da ditadura militar—naquela que ficou conhecida como a “Casa da Morte”, uma das principais estruturas do Centro de Informações do Exército (CIE) para assassinar opositores do regime.
VEJA TAMBÉM: Stuart, torturado e assassinado aos 25 anos
Inês só não conseguiu gravar com exatidão o nome do militar. “Wantuil ou Wantuir”, diz ela, desde que foi libertada da prisão em 1979. E durante mais de quatro décadas, por trás de “Camarão” estava o soldado paraquedista Antonio Waneir Pinheiro Lima, descoberto pelo jornal O DIA há três meses. “Eu reconheço”, afirmou Inês, ao verificar duas imagens do militar.
Poucas horas antes do dia em que a reportagem chegou a sua casa, Lima viajou e nunca mais retornou. Foi localizado na semana passada pelo Ministério Público Federal do Rio no Ceará. Amigos próximos confessaram que ele temia ser convocado pela Comissão Nacional da Verdade para prestar esclarecimentos sobre sua atuação na repressão. Por isso, se abrigou na casa de familiares no Nordeste.
Inês foi a única que conseguiu sobreviver à Casa da Morte. No depoimento que prestou à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ela denunciou que foi estuprada por Lima duas vezes no período em que esteve na casa. A um mês da divulgação do relatório final da CNV, a identificação do agente pode ajudar a elucidar o destino de cerca de 20 desaparecidos políticos que passaram pelo cárcere clandestino no Rio.
Entre eles, há expectativa de informações sobre um dos líderes da VAR-Palmares: Carlos Alberto Soares de Freitas, amigo de Inês e da presidenta Dilma Rousseff. De acordo com a sobrevivente, Lima confessou que Beto ou o comandante Breno, como era chamado pelos amigos e pelos colegas de militância, respectivamente, foi o primeiro prisioneiro da Casa da Morte. “Disse-me que Breno foi o primeiro terrorista que esteve preso naquela casa”, descreveu ela.
Aos 71 anos, Lima vivia até agosto deste ano uma vida modesta em Araruama, na região dos Lagos. Dividia os dias entre caminhadas à beira da lagoa e a leitura de jornais. O tênis de corrida ficava postado na garagem aberta, perto da porta de entrada. Ele é um homem que posa carrancudo. Não sorri nem nas imagens feitas por amigos em datas festivas. Na parede da sala de casa está o que restou da passagem pela tropa: o certificado de integrante da Brigada Paraquedista do Exército. Aos amigos mais próximos, Camarão dividiu o mesmo orgulho que exibiu a Inês sobre seu trabalho como segurança do presidente João Goulart antes do golpe militar. E também a cobiça que sentia ao observar a beleza da ex-­primeira-dama Maria Thereza Goulart em trajes de banho na piscina.
Camarão foi recrutado para a Casa da Morte pelo coronel reformado Paulo Malhães, falecido em abril. O oficial demonstrava intimidade com o antigo subordinado e se negou diversas vezes a fornecer a identificação do soldado. Homem de confiança de Malhães, Camarão esteve com o coronel em diversas missões importantes do Exército. Entre elas, aquela que ficou conhecida como a ‘Operação Juriti ou Medianeira’ e que teve como objetivo a captura e morte de Onofre Pinto, líder da VPR, e de outros cinco militantes em Foz do Iguaçu, no Paraná.
O soldado reformado do Exército integrou a Brigada Paraquedista e trabalhou como caseiro da Casa da Morte de Petrópolis no ano de 1971. Inês Etienne Romeu o reconheceu por meio destas imagens acima e o acusou de estupro durante o tempo em que ficou presa.

Camarão baleou pagodeiro do Grupo Molejo em 2004

A longa trajetória policialesca do soldado Antonio Wenair Pinheiro Lima não terminou quando os militares deixaram o poder. Camarão sempre foi conhecido na tropa por seus excessos com bebida, mulheres e festas — costume que impediu a ascensão de sua carreira militar.
Em 2004, Lima estava em um quarto da Pousada Veleta Flat, na Praia Seca, em Araruama, Região dos Lagos quando baleou o pagodeiro do Grupo Molejo Lúcio Francisco do Nascimento, 52 anos. Os dois que eram amigos, segundo testemunhas, acabaram discutindo e Camarão disparou quatro tiros em Nascimento: dois no tórax, um no punho e outro na coxa. O pagodeiro foi operado e sobreviveu aos ferimentos. Ele acabou acusado por tentativa de homicídio e ficou preso por 30 dias, mas depois foi absolvido.
Pouco antes de morrer, Malhães falava de Camarão com decepção ao citar as confusões envolvendo bebida. Ele contou que após as primeiras entrevistas nas quais admitiu seu trabalho na Casa da Morte em 2012, o ex-subordinado foi o único que o procurou, mas ele estava a caminho do médico. “Vem outro dia porque hoje eu estou indo ao médico e tal”, afirmou Malhães. Camarão nunca mais retornou.

Parentes querem que agente seja chamado pela Comissão da Verdade

A identificação de mais um agente desconhecido da Casa da Morte de Petrópolis reacendeu as esperanças de familiares de desaparecidos políticos. Sérgio Ferreira, primo de Carlos Alberto Soares de Freitas, considerou a descoberta “importantíssima”.
“É obrigação da Comissão Nacional da Verdade procurar essa pessoa reservadamente ou publicamente. Essa é uma novidade importante que não podemos deixar escapar. É fundamental que a CNV convoque ele ”, afirmou Ferreira.
Desaparecido na Zona Sul do Rio em fevereiro de 1971, o comandante Breno teve sua trajetória recontada no livro “Seu amigo esteve aqui”, de Cristina Chacel, em 2012.
Inês Etienne Romeu foi a única sobrevivente do centro de torturas. Ela contou que, quando esteve presa no local, foi informada por seus torturadores que Beto havia sido executado naquela casa. A dirigente da VPR também viu e conversou com Mariano Joaquim da Silva, ouviu as torturas a que foram submetidos Aluísio Palhano, Heleny Telles Guariba e Paulo de Tarso Celestino. Além disso, conforme depoimentos de militares, ao menos outros 15 desaparecidos podem ter morrido no local.
Juliana Dal Piva, O Dia

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Viva Marighella! Postagem no Facebook de Osvaldo Bertolino - 1969

Osvaldo Bertolino Nota do PCdoB sobre o assassinato covarde de Carlos Marighella 
 
“Vítima de torpe cilada, vilmente fuzilado em plena rua pela polícia, morreu Carlos Marighella. O assassinato deste conhecido revolucionário é mais uma ação vergonhosa e covarde que se acrescenta à onda de inomináveis violências que a ditadura militar vem cometendo. A história do Brasil registra poucos crimes políticos tão infames, tão friamente planejados como o perpetrado na Alameda Casa Branca, em São Paulo. Dezenas de beleguins, poderosamente armados, à traição, levaram a cabo um homicídio puro e simples. Esse monstruoso crime da ditadura é parte de todo um plano visando amedrontar, através do terror e do banditismo, os democratas e patriotas. Desesperados, inteiramente repudiados pelas massas, cada vez mais isolados, os generais que assaltaram o poder intensificam a repressão em todo o país, realizam toda sorte de arbitrariedades e praticam crimes os mais selvagens (…).”
 
A nota acima é do jornal A Classe Operária — à época dirigido e editado por Carlos Nicalou Danielli, que também seria cruelmente assassinado pela repressão —, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
A fuzilaria ocorreu no dia 4 de novembro de 1969, enquanto jogavam Santos e Corinthians no estádio do Pacaembu pelo torneio Roberto Gomes Pedrosa, o Robertão.

Não distante dali, em frente ao número 806 da Alameda Casa Branca, Marighella caia na arapuca armada pelo bando chefiado pelo delegado do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo (Dops), Sérgio Paranhos Fleury.
O facínora montou uma equipe que se disfarçou de trabalhadores — o local era uma área de edifícios em construção —, namorados e passantes para fuzilar Marighella dentro de um Fusca, sem nenhuma chance de defesa. Líder da Ação Libertadora Nacional (ALN), o revolucionário foi atraído para a arapuca por meio de padres dominicanos com quem mantinha contato, submetidos ao terror do bando de Fleury.
A fuzilaria atingiu, além do alvo, uma policial que se passava por namorada do chefe do Dops; um protético que teve a infelicidade de passar pelo local na hora do crime (ambos morreram); e um delegado, que nunca mais se recuperaria dos ferimentos na coxa direita. O bando deixou o corpo de Mariguella dentro do Fusca até às 23h15, quando foi recolhido pelo Instituto Médico Legal (IML).
Coincidentemente, dois dias antes o dirigente máximo do PCdoB, João Amazonas — antigo companheiro de Marighella na militância comunista — estivera próximo ao local, em um encontro com sua mulher, Edíria.

Os dirigentes do PCdoB que estavam em São Paulo passaram o dia reunidos e à noite souberam, pela televisão, do ocorrido na Alameda Casa Branca.

Carlos Marighella nasceu em Salvador, em dezembro de 1911.

Ainda adolescente despertou para as lutas sociais, tornando-se militante do Partido Comunista do Brasil aos 18 anos e dedicando sua vida à causa dos trabalhadores, da independência nacional e do socialismo.
Foi preso pela primeira vez em 1932, após escrever um poema contendo críticas ao interventor do governo federal na Bahia Juracy Magalhães.

Em maio de 1936 Marighella foi novamente preso e torturado, durante 23 dias.
Marighella passou a agir em torno de dois eixos: a reorganização dos revolucionários comunistas e o combate ao terror imposto pela ditadura do Estado Novo.

Anistiado em abril de 1945, participou do processo de redemocratização do país e da reorganização do Partido Comunista do Brasil na legalidade.

Eleito deputado para a Assembléia Nacional Constituinte de 1946 pelo Estado da Bahia, mas teve seu mandato cassado.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Escute e veja o Presidente João Goulart e o histórico discurso das Reformas de Base na Cenral do Brasil

Devo agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela televisão e pelo rádio.
Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos nossos que dão ao Brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para a grandeza deste país.
Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.
Vou falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é também uma linguagem de esperança de quem quer inspirar confiança no futuro e tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade do presente.
Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente, na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças populares deste país.
Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas. Desgraçada a democracia se tiver que ser defendida por tais democratas. (...)
A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam.
A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício.
Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às grandes causas nacionais. Democracia é precisamente isso: o povo livre para manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o mínimo de perigo à segurança das instituições. (...)
Estaríamos, sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria.
Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro. (...)
Àqueles que reclamam do Presidente de República uma palavra tranqüilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só conquistaremos a paz social pela justiça social.
Perdem seu tempo os que temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de interesses políticos ou pessoais; como perdem igualmente o seu tempo os que esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra os interesses do povo. Ação repressiva, povo carioca, é a que o governo está praticando e vai ampliá-la cada vez mais e mais implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados contra aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que exploram o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus preços.
Não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria “ a necessidade da revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação.
Essa Constituição é antiquada, porque legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, injusta e desumana; o povo quer que se amplie a democracia e que se ponha fim aos privilégios de uma minoria; que a propriedade da terra seja acessível a todos; que a todos seja facultado participar da vida política através do voto, podendo votar e ser votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e seja assegurada a representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer discriminações religiosas ou ideológicas.
Todos têm o direito à liberdade de opinião e de manifestar também sem temor o seu pensamento. É um princípio fundamental dos direitos do homem, contido na Carta das Nações Unidas, e que temos o dever de assegurar a todos os brasileiros. (...)
É apenas de lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade nacional.
São certamente, trabalhadores, os piores surdos e os piores cegos, porque poderão, com tanta surdez e tanta cegueira, ser os responsáveis perante a História pelo sangue brasileiro que possa vir a ser derramado, ao pretenderem levantar obstáculos ao progresso do Brasil e à felicidade de seu povo brasileiro. (...)
E podeis estar certos, trabalhadores, de que juntos o governo e o povo: “operários, camponeses, militares, estudantes, intelectuais e patrões brasileiros, que colocam os interesses da Pátria acima de seus interesses, haveremos de prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da emancipação econômica e social deste país.
O nosso lema, trabalhadores do Brasil, é progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade. (...)
Vamos continuar lutando pela construção de novas usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor; mas sabemos que nada disso terá sentido se ao homem não for assegurado o direito sagrado ao trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.
Não, trabalhadores; sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria, dar-lhe aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem enganar o povo. Brasileiros, a hora é das reformas de estrutura, de métodos, de estilo de trabalho e de objetivo. Já sabemos que não é mais possível progredir sem reformar; que não é mais possível admitir que essa estrutura ultrapassada possa realizar o milagre da salvação nacional para milhões de brasileiros que da portentosa civilização industrial conhecem apenas a vida cara, os sofrimentos e as ilusões passadas.
O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que vivemos.
Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da SUPRA com o pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos.
Ainda não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido. Ainda não é a carta de alforria do camponês abandonado. Mas é o primeiro passo: uma porta que se abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro.
O que se pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais e terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio especulativo, odioso e intolerável.
Não é justo que o benefício de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos interesses dos especuladores de terra, que se apoderaram das margens das estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de dinheiro do povo, não deve beneficiar os latifundiários, pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas sim o povo. (...)
Reforma agrária com pagamento prévio do latifúndio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso o decreto da SUPRA não é a reforma agrária.
Sem reforma constitucional, trabalhadores, não há reforma agrária. Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias honestas e bem-intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações estruturais profundas.
Graças à colaboração patriótica e técnica das nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a SUPRA, graças a essa colaboração, meus patrícios espero que dentro de menos de 60 dias já comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios aos lados das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação. E, feito isto, os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reivindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra para trabalhar, um pedaço de terra para cultivar. Aí, então, o trabalhador e sua família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalham para o dono da terra, entregam, como aluguel, metade de sua produção. E não se diga, trabalhadores, que há meio de se fazer reforma sem mexer a fundo na Constituição. Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto constitucional parte que obriga a desapropriação por interesse social, a pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.
No Japão de pós-guerra, há quase 20 anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com 24 anos de prazo, juros de 3,65% ao ano. E quem é que se lembrou de chamar o General MacArthur de subversivo ou extremista?
Na Itália, ocidental e democrática, foram distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos, 150 mil famílias foram beneficiadas.
No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em títulos da dívida pública, 20 anos de prazo, juros de 5% ao ano, e desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.
Na Índia foram promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal aproveitada, transferindo as terras para os camponeses.
Essas leis abrangem cerca de 68 milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da Índia. Todas as nações do mundo, independentemente de seus regimes políticos, lutam contra a praga do latifúndio improdutivo.
Nações capitalistas, nações socialistas, nações do Ocidente, ou do Oriente, chegaram à conclusão de que não é possível progredir e conviver com o latifúndio.
A reforma agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita aumentar a sua produção para sobreviver.
Os tecidos e os sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade. Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não tem dinheiro para comprar.
Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às industrias e melhor remuneração ao trabalhador urbano.
Interessa, por isso, também a todos os industriais e aos comerciantes. A reforma agrária é necessária, enfim, à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua indústria e no bem-estar do seu povo.
Como garantir o direito de propriedade autêntico, quando dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?
O que estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo. É uma etapa de progresso que precisamos conquistar e que haveremos de conquistar.
Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada para o povo brasileiro. O próprio custo daprodução, trabalhadores, o próprio custo dos gêneros alimentícios está diretamente subordinado às relações entre o homem e a terra. Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50 por cento da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode haver tranquilidade social. No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção. O que ocorre no Rio Grande é que um arrendatário de terras para plantio de arroz paga, em cada ano, o valor total da terra que ele trabalhou para o proprietário. Esse inquilinato rural desumano é medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso país. (...)
E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis. E é claro que não poderíamos começar a reforma agrária, para atender aos anseios do povo, nos Estados do Amazonas ou do Pará. A reforma agrária deve ser iniciada nas terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil para o seu escoamento. (...)
Não me animam, trabalhadores e é bom que a nação me ouça quaisquer propósitos de ordem pessoal. Os grandes beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os governos que me sucederem. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter resolvido mais uma vez, pacificamente, os graves problemas que a História nos legou. Dentro de 48 horas, vou entregar à consideração do Congresso Nacional a mensagem presidencial deste ano.
Mas estaria faltando ao meu dever se não transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país. Acabei de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de encampação de todas as refinarias particulares.
A partir de hoje, trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.
Ao anunciar, à frente do povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que sempre esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente Getúlio Vargas. (...)
Na mensagem que enviei à consideração do Congresso Nacional, estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país influir nos destinos gloriosos do Brasil. Nesta reforma, pugnamos pelo princípio democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser também elegível.
Também está consignada na mensagem ao Congresso a reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros. Pelos universitários, classe que sempre tem estado corajosamente na vanguarda de todos os movimentos populares nacionalistas. (...)
Dentro de poucas horas, outro decreto será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai regulamentar o preço extorsivo dos apartamentos e residências desocupados, preços que chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o pagamento em dólares. Apartamento no Brasil só pode e só deve ser alugado em cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país. Estejam tranqüilos que dentro em breve esse decreto será uma realidade. (...)
Ao encerrar, trabalhadores, quero dizer que me sinto reconfortado e retemperado para enfrentar a luta que tanto maior será contra nós quanto mais perto estivermos do cumprimento de nosso dever. À medida que esta luta apertar, sei que o povo também apertará sua vontade contra aqueles que não reconhecem os direitos populares, contra aqueles que exploram o povo e a Nação.
Hoje, com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil.

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