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sábado, 11 de dezembro de 2021

Che Guevara: O que deve ser o/a Jovem Comunista - Arquivo Marxista na Internet



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Ser um jovem comunista
Ernesto “Che” Guevara
20 de outubro de 1962

Primeira edição: Conferência pronunciada na Unión de Jóvenes Comunistas em 20 de Outubro de 1962. Publicado pela primeira vez em: Verde Olivo, ano 3, nº 43, 28 de Outubro de 1962, Havana, Cuba

Fonte: Que Cem Flores Desabrochem! Que Cem Escolas Rivalizem! - https://cemflores.org/2021/10/08/che-guevara-ser-um-jovem-comunista/

Tradução: A tradução foi realizada pelo Coletivo Cem Flores a partir da íntegra do discurso Ser un Joven Comunista, publicado no livro Che Guevara Presente. Una antología mínima, editado por María del Carmen Ariet Garcia e David Deutschmann pela Ocean Sur, em 2006, páginas 168-179.

HTML: Fernando Araújo.

Queridos companheiros:

Uma das tarefas mais gratificantes de um revolucionário é a de ir observando, no transcurso dos anos da Revolução, como se vão formando, decantando e fortalecendo as instituições que nasceram no início da Revolução; como se convertem em verdadeiras instituições com força, vigor e autoridade entre as massas, aquelas organizações que começaram em pequena escala com muitas dificuldades, com muitas indecisões e foram se transformando, mediante o trabalho diário e o contato com as massas, em pujantes representações do movimento revolucionário de hoje.

A União de Jovens Comunistas tem quase os mesmos anos da nossa Revolução, através dos distintos nomes que já teve, através das distintas formas de organização. No princípio foi uma emanação do Exército Rebelde. Daí, talvez, tenha surgido também seu nome. Era uma organização ligada ao exército para iniciar a juventude cubana nas tarefas de massas da defesa nacional, que era o problema mais urgente e o que precisava de uma solução mais rápida.

No antigo Departamento de Instrução do Exército Rebelde nasceram a Associação de Jovens Rebeldes (AJR) e as Milícias Nacionais Revolucionárias (MNR). Depois adquiriram vida própria: esta última, a de uma pujante formação do povo armado, representante do povo armado e com categoria própria, fundida com nosso exército nas tarefas de defesa. A outra, como uma organização destinada à superação política da juventude cubana.

Depois, quando a Revolução foi se consolidando e pudemos nos colocar as tarefas novas que se veem no horizonte, o companheiro Fidel sugeriu a mudança do nome desta organização. Uma mudança de nome que é toda uma expressão de princípios. A União de Jovens Comunistas está diretamente orientada para o futuro. Está vertebrada com vistas ao futuro luminoso da sociedade socialista, depois de atravessar o difícil caminho em que estamos agora da construção de uma nova sociedade, no caminho da consolidação total da ditadura de classe, expressa através da sociedade socialista, para chegar finalmente à sociedade sem classes, à sociedade perfeita, à sociedade que vocês serão encarregados de construir, de orientar e de dirigir no futuro.

Para isso, a União de Jovens Comunistas levanta seus símbolos, que são os símbolos de todo o povo de Cuba: o estudo, o trabalho e o fuzil.

E suas medalhas mostram dois dos mais altos expoentes da juventude cubana, ambos mortos tragicamente, sem poderem chegar a ver o resultado final desta luta em que todos estamos empenhados: Julio Antonio Mella e Camilo Cienfuegos.

Neste segundo aniversário, nesta hora de construção febril, de preparativos constantes para a defesa do país, de preparação técnica e tecnológica acelerada ao máximo, deve-se colocar sempre, e antes de tudo, o problema do que é e do que deve ser a União de Jovens Comunistas.

A União de Jovens Comunistas tem que se definir com uma só palavra: vanguarda. Vocês, companheiros, devem ser a vanguarda de todos os movimentos. Os primeiros a estarem dispostos para os sacrifícios que a Revolução demande, qualquer que seja a natureza desses sacrifícios. Os primeiros no trabalho. Os primeiros no estudo. Os primeiros na defesa do país.

E colocar-se esta tarefa não apenas como a expressão total da juventude de Cuba, não apenas como uma tarefa de grandes massas vertebradas em uma instituição, mas como as tarefas diárias de cada um dos integrantes da União de Jovens Comunistas. Para isso, é necessário colocar-se tarefas reais e concretas, tarefas de trabalho cotidiano que não podem admitir o menor desânimo.

A tarefa da organização deve estar constantemente unida a todo o trabalho que se desenvolva na União de Jovens Comunistas. A organização é a chave que permite fortalecer as iniciativas que surgem dos líderes da Revolução, as iniciativas colocadas em reiteradas oportunidades por nosso Primeiro-Ministro [Fidel Castro], e as iniciativas que surgem no seio da classe operária, que também devem se transformar em diretrizes precisas, em ideias precisas para ação subsequente.

Se não existe a organização, as ideias, depois do primeiro momento de impulso, vão perdendo eficácia, vão caindo na rotina, vão caindo no conformismo e acabam por ser simplesmente uma lembrança.

Faço esta advertência porque muitas vezes neste curto e, não obstante, tão rico período de nossa Revolução, muitas grandes iniciativas fracassaram, caíram no esquecimento pela falta do aparato organizativo necessário para poder sustentá-las e levá-las a bom termo.

Ao mesmo tempo, todos e cada um de vocês devem ter presente que ser jovem comunista, pertencer à União de Jovens Comunistas, não é uma graça que alguém lhes concede, nem é uma graça que vocês concedem ao Estado ou à Revolução. Pertencer à União de Jovens Comunistas deve ser a mais alta honra de um jovem da sociedade nova. Deve ser uma honra pela qual lutem a cada momento de sua existência. E, além disso, a honra de manter-se e manter no alto o nome individual dentro do grande nome da União de Jovens Comunistas. Deve ser um empenho constante também.

Desta forma avançaremos ainda mais rapidamente. Acostumando-nos a pensar como massa, a atuar com as iniciativas que nos oferece a grande iniciativa da massa operária e as iniciativas dos nossos dirigentes máximos; e, ao mesmo tempo, atuar sempre como indivíduos, permanentemente preocupados com nossos próprios atos, permanentemente preocupados que nossos atos não manchem nosso nome nem o nome da associação a que pertencemos.

Depois de dois anos podemos recapitular e observar quais foram os resultados desta tarefa. E há enormes conquistas na vida da União de Jovens Comunistas. Uma das mais importantes, das mais espetaculares, foi a da defesa.

Os jovens que primeiro – alguns deles – subiram os cinco picos do Turquino [montanha mais alta de Cuba, localizada na Sierra Maestra], os que se alistaram em uma série de organizações militares, todos os que empunharam o fuzil nos momentos de perigo estiveram prontos a defender a Revolução em cada um dos lugares onde se esperava a invasão ou a ação inimiga.

Aos jovens da Praia Girón lhes coube a altíssima honra de ali poder defender nossa Revolução, ali defender as instituições que criamos com sacrifício, as conquistas que todo o povo conseguiu em anos de luta; toda nossa Revolução foi defendida ali em 72 horas de luta.

A intenção do inimigo era criar uma cabeça de praia suficientemente forte, com um aeroporto dentro, que permitisse hostilizar todo nosso território, bombardeá-lo sem misericórdia, converter nossas fábricas em cinzas, reduzir a pó nossos meios de comunicação, arruinar nossa agricultura. Em uma palavra: semear o caos em nosso país. A ação decidida de nosso povo liquidou a intentona imperialista em apenas 72 horas.

Jovens que ainda eram crianças se cobriram de glória. Alguns estão aqui hoje como expoentes dessa juventude heroica, e de outros nos resta pelo menos seus nomes como recordação, como incentivo para novas batalhas, que terão que ser travadas, para novas atitudes heroicas frente ao ataque imperialista.

No momento em que a defesa do país era a tarefa mais importante, a juventude esteve presente. Hoje a defesa do país segue ocupando o primeiro lugar em nossos deveres. Mas não devemos esquecer que a palavra de ordem que guia os jovens comunistas está intimamente ligada entre si: não pode haver defesa do país somente no exercício das armas, prontas para a defesa, mas, além disso, devemos defender o país construindo-o com o nosso trabalho e preparando os novos quadros técnicos para acelerar seu desenvolvimento nos anos vindouros. Agora esta tarefa adquire uma enorme importância e está na mesma altura que a do exercício direto das armas.

Quando se colocaram problemas como estes a juventude disse presente mais uma vez. Os jovens brigadistas responderam ao chamado da Revolução, invadiram todos os cantos do país. E assim, em poucos meses e em uma batalha muito dura – na qual houve inclusive mártires da Revolução, mártires da educação – pudemos anunciar uma situação nova na América Latina: a de que Cuba era um território livre do analfabetismo na América.

O estudo, em todos os níveis, é também hoje uma tarefa da juventude. O estudo misturado com trabalho, como no caso dos jovens estudantes que estão colhendo café no [na província] Oriente, que utilizam suas férias para colher um grão tão importante em nosso país, para nosso comércio exterior, para nós, que consumimos uma grande quantidade de café todos os dias. Esta tarefa é similar à da alfabetização. É uma tarefa de sacrifício que se faz alegremente, reunindo-se os companheiros estudantes – mais uma vez – nas montanhas de nosso país para levar ali sua mensagem revolucionária.

São muito importantes essas tarefas porque nelas a União de Jovens Comunistas, os jovens comunistas não apenas dão. Recebem, e em alguns casos mais do que dão: adquirem experiências novas, uma nova experiência do contato humano, novas experiências de como vivem nossos camponeses, de como é o trabalho e a vida nos lugares mais distantes, de tudo o que é preciso fazer para elevar aquelas regiões ao mesmo nível dos lugares mais habitáveis do campo e das cidades. Adquirem experiência e maturidade revolucionárias.

Os companheiros que passam por aquelas tarefas de alfabetizar ou colher café, em contato direto com nosso povo, ajudando-o longe de seus lares, recebem – posso afirmá-lo – mais ainda do que dão, e o que dão é muito!

Esta é a forma de educação que melhor se ajusta a uma juventude que se prepara para o comunismo: a forma de educação na qual o trabalho perde a categoria de obsessão que tem no mundo capitalista e passa a ser um gratificante dever social, que se realiza com alegria, que se realiza ao som de cantos revolucionários, em meio à camaradagem mais fraternal, em meio a contatos humanos que dão vigor a uns e outros, e a todos elevam.

Além disso, a União de Jovens Comunistas avançou muito em sua organização. Daquele débil embrião que se formou como apêndice do Exército Rebelde, até esta organização de hoje, há uma grande diferença. Por todas as partes, em todos os centros de trabalho, em todos os organismos administrativos, em todos os lugares onde possam exercer sua ação, ali há jovens comunistas e ali estão trabalhando para a Revolução.

O avanço organizativo deve também ser considerado também como uma conquista importante da União de Jovens Comunistas.

Contudo, companheiros, neste difícil caminho houve muitos problemas, têm havido grandes dificuldades, têm havido erros grosseiros, e nem sempre temos podido superá-los. É evidente que a União de Jovens Comunistas, como organismo inferior, como irmão menor das Organizações Revolucionárias Integradas, tem que beber aí das experiências dos companheiros que mais têm trabalhado em todas as tarefas revolucionárias, e deve escutar sempre – com respeito – a voz dessa experiência.

Mas a juventude tem que criar. Uma juventude que não cria é uma anomalia, realmente. E à União de Jovens Comunistas tem faltado um pouco de espírito criador. Tem sido, através de sua direção, demasiado dócil, demasiado respeitosa e pouco decidida a colocar-se problemas próprios.

Hoje está se rompendo com isso. O companheiro Joel [Iglesias] nos falava das iniciativas dos trabalhos nas fazendas. São exemplos de como se começa a romper a dependência total – que se torna absurda – de um organismo superior, como se começa a pensar com a própria cabeça.

Mas é que nós, e nossa juventude como todos nós, estamos convalescentes de uma doença que, felizmente, não foi muito longa, mas que influiu muito no atraso do desenvolvimento do aprofundamento ideológico de nossa Revolução. Estamos todos convalescentes deste mal, chamado sectarismo.

A que conduziu o sectarismo? Conduziu à cópia mecânica, às análises formais, à separação entre a direção e as massas. Inclusive na nossa Direção Nacional, e o reflexo direto se produziu aqui, na União de Jovens Comunistas.

Se nós – também desorientados pelo fenômeno do sectarismo – não conseguíamos ouvir a voz do povo, que é voz mais sábia e mais orientadora, se não conseguíamos perceber as aspirações do povo para poder transformá-las em ideias concretas, em diretrizes precisas, mal poderíamos dar essas diretrizes à União de Jovens Comunistas. E como a dependência era absoluta, como a docilidade era muito grande, a União de Jovens Comunista navegava como pequeno barco sem rumo, dependendo do grande barco: nossas Organizações Revolucionárias, que estas também, navegavam sem rumo.

Aqui se realizavam pequenas iniciativas, que era a única coisa que a União de Jovens Comunistas era capaz de produzir, as quais, às vezes, se transformavam em slogans grosseiros, em evidentes manifestações sem profundidade ideológica.

O companheiro Fidel fez sérias críticas de extremismos e de expressões, algumas tão conhecidas por todos vocês, como: “a ORI é a luz...”, “somos socialistas, em frente, em frente...”. Todas aquelas coisas que Fidel criticava, e que vocês conhecem bem, eram o reflexo do mal que atacava nossa Revolução.

Nós saímos dessa época. Nós liquidamos totalmente essa época. Contudo, sempre os organismos vão um pouco mais atrasados. É como um mal que houvesse deixado uma pessoa inconsciente. Quando o mal cede, o cérebro se recupera, recupera a clareza mental, mas, no entanto, os membros não coordenam bem seus movimentos, os primeiros dias depois de levantar-se do leito o andar é inseguro e pouco a pouco vai-se adquirindo a nova segurança. Nós estamos nesse caminho.

Assim devemos definir e analisar objetivamente todos nossos organismos para continuarmos melhorando. Saber, para não cairmos, para não tropeçarmos e ir ao chão; conhecer nossas debilidades para aprender a resolvê-las, conhecer nossas fraquezas para liquidá-las e adquirir mais força.

Essa falta de iniciativa própria se deve ao desconhecimento, durante um bom tempo, da dialética que move os organismos de massa e ao esquecimento de que os organismos como a União de Jovens Comunistas não podem ser simplesmente de direção, não podem ser algo que constantemente mande diretrizes às bases e que não receba nada delas.

Pensava-se que a União de Jovens Comunistas e todas as organizações de Cuba eram organizações de uma só linha. Uma só linha que ia desde a cabeça até as bases, mas que não tinha um cabo de retorno que trouxesse a comunicação das bases. Um duplo e constante intercâmbio de experiências, de ideias, de diretrizes, que vêm a ser as mais importantes, as que fizeram centrar o trabalho de nossa juventude.

Ao mesmo tempo, podiam ser observados os pontos onde o trabalho esteve mais frouxo, os pontos em que fraquejara mais.

Nós vemos como os jovens, quase heróis de novela, que podem entregar sua vida cem vezes pela Revolução, se os chamamos para qualquer tarefa concreta e esporádica marcham em massa até elas. Porém às vezes faltam ao seu trabalho porque tinham uma reunião da União de Jovens Comunistas, ou porque se deitaram tarde na noite anterior, discutindo alguma iniciativa dos Jovens Comunistas, ou simplesmente não vão ao trabalho porque não, sem causa justificada.

Quando se observa uma brigada de trabalho voluntário, onde se supõe que estejam os jovens comunistas, em muitos casos eles não estão. Não há nenhum. O dirigente tinha que ir a uma reunião, o outro estava doente, um terceiro não havia sido bem informado. E o resultado é que a atitude fundamental, a atitude de vanguarda do povo, a atitude de exemplo vivo que comove e empurra todo mundo para frente – como fizeram os jovens da Praia de Girón –, essa atitude não se repete no trabalho. A seriedade que deve ter a juventude de hoje para enfrentar os grandes compromissos – e o compromisso maior é a construção da sociedade socialista – não se reflete no trabalho concreto.

Há grandes debilidades e é preciso trabalhar nelas. Trabalhar organizando, trabalhar marcando o lugar onde dói, o lugar onde há debilidades a corrigir, e trabalhar sobre cada um de vocês para deixar bem claro em suas consciências que não pode ser bom comunista aquele que somente pensa na Revolução quando chega o momento do sacrifício, do combate, da aventura heroica, do que sai do vulgar e do cotidiano e, no entanto, no trabalho é medíocre ou menos que medíocre.

Como pode ser isso, se vocês já recebem o nome de jovens comunistas, o nome que nós, como organização dirigente, partido dirigente, ainda não temos? Vocês que têm que construir um futuro no qual o trabalho será a dignidade máxima do homem, o trabalho será um dever social, um prazer que o homem se dá, onde o trabalho será criativo ao máximo e todo o mundo deverá estar interessado no seu trabalho e no dos demais, no avanço da sociedade, dia a dia.

Como pode ser que vocês que hoje já têm esse nome, desdenham do trabalho? Aí há uma falha. Uma falha de organização, de esclarecimento, de trabalho. Uma falha, além disso, humana. A todos nós – a todos, acredito – nos agrada muito mais aquilo que quebra a monotonia da vida, aquilo que de imediato, de vez em quando, faz alguém pensar no seu próprio valor, no valor que tem dentro da sociedade.

E imagino o orgulho daqueles companheiros que estavam em uma das “quatro bocas”, por exemplo, defendendo sua pátria dos aviões ianques, e de repente alguém tinha a sorte de ver que suas balas alcançavam um avião inimigo. Evidentemente é o momento mais feliz na vida de um homem. Isso nunca se esquece. Nunca o esquecerão os companheiros que viveram esta experiência.

Mas nós temos que defender nossa Revolução, a que estamos fazendo todos os dias. E para poder defendê-la, é necessário ir construindo-a, fortalecendo-a com esse trabalho que hoje não agrada à juventude, ou que, ao menos, considera como o último de seus deveres, porque ainda conserva a mentalidade antiga, a mentalidade proveniente do mundo capitalista, ou seja, que o trabalho é, sim, um dever, é uma necessidade, mas um dever e uma necessidade tristes.

Por que isso ocorre? Porque ainda não temos dado ao trabalho seu verdadeiro sentido. Não temos sido capazes de unir o trabalhador com o objeto de seu trabalho. E, ao mesmo tempo, de transmitir ao trabalhador a consciência da importância que tem o ato criador que realiza dia a dia.

O trabalhador e a máquina, o trabalhador e o objeto sobre o qual se exerce o trabalho são duas coisas diferentes e antagônicas. E aí é necessário trabalhar, para ir formando novas gerações que tenham o máximo interesse em trabalhar e saibam encontrar no trabalho uma fonte permanente e em constante mudança de novas emoções. Fazer do trabalho algo criador, alvo novo.

Este é talvez o ponto mais fraco da nossa União de Jovens Comunistas. Por isso hoje enfatizo este ponto, e em meio à alegria de festejar esta data de aniversário, volto a pôr a pequena gota de amargura para tocar o ponto sensível, para chamar a juventude a reagir.

Hoje estivemos em uma assembleia em que se discutia algo no Ministério. Muitos de vocês provavelmente já tenham discutido a emulação nos seus centros de trabalho e tenham lido um tremendo papel que está circulando. Mas qual é o problema da emulação, companheiros? O problema é que a emulação não pode ser regida por papéis que a regulamentem, a ordenem e lhe deem um molde. O regulamento e o molde são necessários para poder comparar, depois, o trabalho da gente entusiasmada que está emulando.

Quando dois companheiros começam a emular, cada um em uma máquina para construir mais, depois de um tempo começam a sentir a necessidade de algum regulamento para determinar qual dos dois produz mais em sua máquina: a qualidade do produto, a quantidade, as horas de trabalho, a forma em que fica a máquina depois, como a atenderam... Muitas coisas. Mas se em vez de se tratar de dois companheiros que efetivamente emulam e aos quais nós vamos dar um regulamento, aparece um regulamento para outros dois que estão pensando em que chegue a hora de ir para casa, para que serve o regulamento, que função cumpre?

Em muitas coisas estamos trabalhando com regulamento e fazendo o molde para algo que não existe. O molde tem que ter um conteúdo, o regulamento tem que ser, nestes casos, o que defina e limite uma situação já criada. O regulamento deveria ser o resultado da emulação levada a cabo anarquicamente, se quiserem, sim, mas entusiasmada, transbordante para todos os centros de trabalho de Cuba. Automaticamente surgiria a necessidade de regulamentar, de fazer uma emulação com regulamentos.

Assim temos tratado muitos problemas, assim temos sido formais no tratamento de muitas coisas. E quando nesta assembleia perguntei por que não havia estado, ou quantas vezes havia estado o secretário dos Jovens Comunistas, soube que havia estado algumas vezes, poucas, e que os Jovens Comunistas não haviam estado.

Mas no curso da assembleia, discutindo estes problemas e outros, os Jovens Comunistas, o núcleo, a Federação de Mulheres e os Comitês de Defesa e o Sindicato, naturalmente, se encheram de entusiasmo. Pelo menos se encheram de um remorso interno, de amargura, de um desejo de melhorar, um desejo de demonstrar que eram capazes de fazer aquilo que não se havia feito: movimentar as pessoas. Então, imediatamente, todos se comprometeram a fazer com que o Ministério completo emulasse em todos os níveis, a discutir o regulamento, depois de estabelecer as emulações, e voltar dentro de quinze dias para apresentar já todo um fato concreto, com todo o Ministério emulando entre si.

Ali já há mobilização. As pessoas já compreenderam e sentiram intimamente – porque cada companheiro desses é um grande companheiro – que havia algo frouxo em seu trabalho. Se encheram de dignidade ferida e foram resolver. Isso é o tem que ser feito. Perdoem-me se insisto mais uma vez, mas é que sem trabalho não há nada. Toda a riqueza do mundo, todos os valores que tem a humanidade, não são nada mais que trabalho acumulado. Sem isso não pode existir nada. Sem o trabalho extra que se dá para criar mais excedentes para novas fábricas, para novas instalações sociais o país não avança. E por mais fortes que sejam nossos exércitos estaremos sempre com um ritmo lento de conhecimento, e é preciso romper com isso, romper com todos os velhos erros, manifestá-los publicamente, analisá-los em cada lugar e, então, corrigi-los.

Quero colocar agora, companheiros, qual é a minha opinião, a visão de um dirigente nacional das ORI, sobre o que deve ser um jovem comunista, para ver se estamos todos de acordo.

Eu creio que a primeira coisa que deve caracterizar um jovem comunista é a honra que sente por ser jovem comunista. Esta honra que o leva a mostrar para todo o mundo sua condição de jovem comunista, que não o vira na clandestinidade, que não o reduz a fórmulas, mas que o expressa em cada momento, que lhe sai do espírito, que tem interesse em demonstrá-lo porque é seu símbolo de orgulho.

Junto com isso, um grande sentido de dever para com a sociedade que estamos construindo, com nossos semelhantes como seres humanos e com todos os homens do mundo.

Isso é algo que deve caracterizar o jovem comunista. Ao lado disso, uma grande sensibilidade frente a todos os problemas, grande sensibilidade frente à injustiça; espírito inconformado cada vez que surja algo que está mal, tenha sido dito por quem quer que seja. Questionar tudo o que não se entenda; discutir e pedir esclarecimentos do que não estiver claro; declarar guerra ao formalismo, a todos os tipos de formalismo. Estar sempre aberto para receber as novas experiências, para conformar a grande experiência da humanidade, que já leva muitos anos avançando pelo caminho do socialismo, nas condições concretas de nosso país, nas realidades que existem em Cuba: e pensar – todos e cada um – como ir mudando a realidade, como ir melhorando-a.

O jovem comunista deve propor-se a ser sempre o primeiro em tudo, lutar para ser o primeiro, e sentir-se incomodado quando em alguma coisa ocupa outro lugar. Lutar para melhorar, para ser o primeiro. Claro que nem todos podem ser o primeiro, mas sim estar entre os primeiros, no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho onde olhem os companheiros que não pertençam às juventudes comunistas, ser o exemplo onde possam se olhar os homens e as mulheres de idade mais avançada que tenham perdido certo entusiasmo juvenil, que tenham perdido a fé na vida e que diante do estímulo do exemplo sempre reagem bem. Essa é outra tarefa dos jovens comunistas.

Junto com isso, um grande espírito de sacrifício, um espírito de sacrifício não somente para as jornadas heroicas, mas para todo momento. Sacrificar-se para ajudar o companheiro nas pequenas tarefas, para que possa assim cumprir seu trabalho, para que possa cumprir com seu dever no colégio, no estudo, para que possa melhorar de qualquer forma. Estar sempre atento a toda a massa humana que o rodeia.

Quer dizer: se propõe a todo jovem comunista ser essencialmente humano, ser tão humano que se aproxime do melhor do humano, purificar o melhor do homem por meio do trabalho, do estudo, do exercício da solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo, desenvolver ao máximo a sensibilidade até se sentir angustiado quando se assassina um homem em qualquer canto do mundo e para sentir-se entusiasmado quando em algum canto do mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade.

O jovem comunista não pode estar limitado pelas fronteiras de um território: o jovem comunista deve praticar o internacionalismo proletário e senti-lo como coisa própria. Lembrar-se, como devemos nos lembrar, aspirantes a comunistas aqui em Cuba, que somos um exemplo real e palpável para toda a nossa América Latina, e mais ainda que para nossa América, para outros países do mundo que lutam também em outros continentes por sua liberdade, contra o colonialismo, contra o neocolonialismo, contra o imperialismo, contra todas as formas de opressão dos sistemas injustos; lembrar-se sempre que somos uma tocha acesa, de que nós todos somos o mesmo espelho que cada um de nós é individualmente para o povo de Cuba, e somos esse espelho para que se olhem nele os povos da América Latina, os povos do mundo oprimido que lutam por sua liberdade. E devemos ser dignos desse exemplo. A todo momento e a toda hora devemos ser dignos desse exemplo.

Isso é o que nós pensamos que deve ser um jovem comunista. E se nos disserem que somos quase uns românticos, que somos uns idealistas inveterados, que estamos pensando em coisas impossíveis, e que não se pode conseguir que a massa de um povo seja quase um arquétipo humano, nós temos que responder, mil vezes que sim, que sim se pode, que estamos no certo, que todo o povo pode ir avançando, ir liquidando a mesquinhez humana, como fomos liquidando em Cuba nestes quatro anos de Revolução; ir se aperfeiçoando como nos aperfeiçoamos todos dia a dia, liquidando intransigentemente todos aqueles que ficaram para trás, que não são capazes de marchar no ritmo que marcha a Revolução cubana. Tem de ser assim, deve ser assim, e assim será, companheiros. Será assim porque vocês que são jovens comunistas, criadores da sociedade perfeita, seres humanos destinados a viver em um mundo novo do qual haverá desaparecido definitivamente tudo o que é caduco, todo o velho, tudo o que represente a sociedade cujas bases acabam de ser destruídas.

Para alcançar isso é necessário trabalhar todos os dias. Trabalhar no sentido interno de aperfeiçoamento, de aumento dos conhecimentos, de aumento da compreensão do mundo que nos rodeia. Inquirir e averiguar e conhecer bem o porquê das coisas e colocar-se sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios.

Assim, em um dado momento, em um dia qualquer dos próximos anos – depois de passar muitos sacrifícios, sim, depois de havermos visto, talvez muitas vezes, à beira da destruição –, depois de havermos visto talvez como nossas fábricas são destruídas e de tê-las reconstruído novamente, depois de assistir ao assassinato, à matança de muitos dos nossos e de reconstruir o que tiver sido destruído, ao fim de tudo isso, num dia qualquer, quase sem nos darmos conta, teremos criado, junto como os outros povos do mundo, a sociedade comunista, nosso ideal.

Companheiros, falar para a juventude é uma enorme tarefa. A gente se sente nesse momento capaz de transmitir algumas coisas e sente a compreensão da juventude. Há muita coisa que queria dizer sobre todos os nossos esforços, nossos anseios; de como, porém, muitos deles se rompem diante da realidade diária e como é necessário voltar ao início. Dos momentos de fraqueza e de como o contato com o povo – com os ideais e a pureza do povo – nos infunde novo fervor revolucionário.

Haveria muitas coisas das quais falar. Mas também temos que cumprir com nossos devedores. E aproveito para explicar-lhes porque me despeço de vocês, com toda má intenção se vocês quiserem. Me despeço de vocês porque vou cumprir com meu dever de trabalhador voluntário numa fábrica têxtil; lá estamos trabalhando já há algum tempo. Estamos emulando com a Empresa Consolidada de Fios e Tecidos Planos, que trabalha em outra fábrica têxtil e estamos emulando com a Junta Central de Planificação, que trabalha em outra fábrica têxtil.

Quero dizer-lhes, honestamente, que o Ministério da Indústria está em último na emulação, que temos que fazer um grande esforço, maior, repetir constantemente, para avançar, para poder cumprir aquilo que nós mesmos dissemos de ser os melhores, de aspirar a ser os melhores, porque nos dói ser os últimos na emulação socialista.

Acontece, simplesmente, que aqui ocorreu o mesmo que ocorreu a muitos de vocês: a emulação é fria, um pouco inventada, e não temos sabido entrar em contato direto com a massa de trabalhadores da indústria. Amanhã teremos uma assembleia para discutir esses problemas e para tratar de resolvê-los todos, buscar os pontos de união, de estabelecer uma linguagem comum de uma identidade absoluta entre os trabalhadores dessa indústria e nós trabalhadores do Ministério. E depois de conseguir isso, estou seguro de que aumentaremos muito os rendimentos ali e que poderemos, pelo menos, lutar honradamente pelos primeiros lugares.

Em todo caso, na próxima assembleia, no ano que vem, lhes contaremos e resultado. Até lá.

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1964: Entrevista com João Vicente Goulart - UNIVESP #DitaduraNuncaMais

João Vicente Goulart, filho de João Goulart, concede entrevista sobre o governo de seu pai e o golpe de Estado que o derrubou. Aos sete anos de idade, João Vicente foi exilado do Brasil com a família. Preside, hoje, o instituto que leva o nome do ex-presidente, que visa preservar a memória e debater a política brasileira que culminou numa ditadura militar de 21 anos. A conversa foi realizada no dia 5/4/2014 especialmente para o projeto 1964.






Hoje, João Vicente Goulart é Presidente do PCdoB DF e membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Quem era o homem que se recusou a saudar Hitler? História em Rede




História em Rede
Jul 17, 2019

Não é difícil perambular pelas redes sociais e se deparar com uma foto icônica sobre o nazismo: o homem que se recusou a saudar Hitler em meio a multidão, cruzando os braços. A saudação, associada a uma demonstração de lealdade ao Führer e de comprometimento com a nação alemã, era entoada junto à expressão sieg hiel, cujo significado em uma tradução livre seria “viva a vitória”. Famosa por celebrizar uma manifestação de resistência, a foto se tornou referência obrigatória para os que se interessam pela história do nazismo, servindo ainda como inspiração para movimentos contrários a governos autoritários no tempo presente. Mas, afinal, quem era o homem que ousou desafiar Hitler e o nazismo?

A primeira pista sobre a sua identidade surgiu muitos anos após a Segunda Guerra Mundial. Isso porque a fotografia veio a público por meio de um artigo veiculado no jornal Die Zeit, em 22 março de 1991. A publicação chegou até Irene Eckler, que não teve dúvidas quando observou o homem de braços cruzados: era o seu pai, August Landmesser. A trágica história de sua família, que durante tanto tempo manteve-se sufocada, finalmente poderia alcançar alguma redenção. Reunindo diversos documentos pessoais, Irene lançou em 1996 um livro que contava a trajetória de seu pai. E quem diria que por trás do famoso ato de resistência estaria uma história de amor?

A vida de August Landmesser (1910–1944), porém, nem sempre esteve do lado oposto ao nazismo. Na verdade, como muitos alemães que viveram nas décadas de 1920 e 1930, ele foi simpático ao nazismo. Chegou, inclusive, a fazer parte do Partido de Hitler. Com dificuldades para conseguir um trabalho, August juntou-se aos nazistas na esperança de remediar os seus problemas. Ele, obviamente, não foi o único. Os nazistas apresentavam-se como a salvação de uma Alemanha que vivia atormentada após os prejuízos da Primeira Guerra Mundial, prometendo o fim do desemprego e melhorias sociais. Crescendo em meio a desolação, as ideias radicais do nazismo foram encaradas como uma solução por muitos. E não foi diferente com Landmesser, que se converteu rapidamente em um típico seguidor de Hitler.
Foto de August Landmesser, em 1935. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

A sua relação com o nazismo não demoraria a estremecer. Em 1934, o rapaz se apaixonou. Mas, ironicamente, a sua amada era proibida: Irma Eckler era uma mulher judia. É difícil saber como Landmesser lidou com essa questão. Provavelmente a sua mente debateu-se entre os princípios nazistas e os sentimentos por Irma. No fim, venceu o amor e o casal se envolveu estreitamente. A sua escolha, contudo, cobrou um preço. Em 1935, o relacionamento chegou ao conhecimento de membros do Partido e August acabou expulso. Esta não seria a única consequência de sua escolha apaixonada. Quando o casal se registrou para confirmar o matrimônio em Hamburgo, ainda em 1935, o pedido foi negado. Era reflexo das Leis de Nuremberg, estabelecidas em 16 de setembro de 1935. As leis, de caráter anti-semita, procuravam resguardar a honra e a pureza racial dos alemães, estabelecendo uma série de restrições aos judeus, negando-lhes a cidadania. Uma das medidas, e que atingiu diretamente Landmesser, proibia casamentos entre alemães e judeus. Vítimas da política descriminatória que ganhava forma na Alemanha, August e Irma permaneceram juntos, mesmo sem ser casados. Em 29 de outubro daquele mesmo ano nasceria a primeira filha do casal, Ingrid.

Chegamos, então, ao ano de 1936, quando a famosa fotografia foi tirada. Mais precisamente no dia 13 de junho. A foto retrata uma grande concentração de trabalhadores do estaleiro Blohm & Voss, em Hamburgo. August Landmesser, empregado no local, estava entre eles. Realizava-se então um comício nazista para celebrar o lançamento do navio Horst Wessel. Dentre todos os presentes, August teria sido o único a se recusar a fazer a saudação, cruzando os braços em meio a multidão. Um gesto corajoso e ousado, devidamente motivado por sua própria trajetória pessoal.
A famosa foto, cujo autor é desconhecido

Apesar da nobre demonstração de resistência, a vida de Landmesser continuava a ser atormentada pelo governo nazista. Em 1937, o relacionamento que ele possuía com Irma, cada vez mais sólido, era público e notório. Ela, a propósito, estava grávida da segunda filha, Irene. Segundo a política racial que vigorava na Alemanha, isto era uma verdadeira afronta à raça ariana, sendo passível de condenação. Temendo pelo futuro de sua família, August tentou fugir com sua esposa e filha para a Dinamarca em julho daquele ano. Não deu certo. Ambos acabaram presos, mas, alegando que não sabiam da origem judia de Irma, o casal acabaria absolvido por falta de provas. Eles foram instruídos, no entanto, a não manterem mais qualquer relação.
Foto de August Landmasser, Irma Eckler e suas filhas, Irma e Ingrid, em 1938. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

O amor de August falou mais alto do que o medo da punição e ele continuou amasiado com Irma, mesmo diante da determinação proferida. A filha recém-nascida, concebida pouco depois da fracassada tentativa de fuga, também deve ter pesado em sua decisão. Mas o risco era alto e novamente eles seriam denunciados apesar dos cuidados adotados para que o relacionamento ficasse em segredo. Dessa vez os nazistas não foram tão complacentes. Em julho de 1938, ao ser constatado que ele se recusava a deixar a esposa e as filhas, August Landmesser acabou condenado por seu ato. Ele foi enviado para um campo de trabalhos forçados em Borgermoor por 30 meses, separando-se de sua família, o que August tanto havia relutado. Acostumado com os dessabores causados pelos nazistas, provavelmente ele manteve a esperança de reencontrá-las. No entanto, o momento da despedida foi a última vez que ele esteve com sua companheira e filhas.
Foto enviada por Irma Eckler para August Landmesser quando ele estava preso. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

Pouco depois da prisão de August, Irma foi vítima da perseguição nazista. Como a lei previa que a mulher de um homem condenado por “desonrar a raça” também seria presa, ela caiu nas garras da Gestapo, a temida polícia secreta nazista. Transitando entre presídios e campos de concentração, Irma seria privada da convivência com as filhas. A filha mais velha, Ingrid, foi mandada para um orfanato por um curto período, até que teve autorização para viver com os avós paternos. Irene, por sua vez, foi concedida a pais adotivos. A agonia de Irma no campo de concentração se estendeu até fevereiro de 1942, quando ela foi morta na câmara de gás em Bernburg. Estima-se que 14 mil pessoas morreram nessa oportunidade.
Cartão de identificação de Irma Eckler. O governo nazista obrigou que os judeus portassem tal cartão de identificação, o qual deveria ser apresentado sempre que uma autoridade solicitasse. Fonte: ECKLER, Irene. A Family Torn Apart by “Rassenschande”. Schwetzingen, 1998.

August Landmesser foi libertado em janeiro de 1941, mas jamais conseguiu se reunir novamente com sua mulher ou filhas. Novamente em liberdade, August conseguiu emprego como capataz em uma empresa de transporte, na cidade de Warnemünde. Mesmo assim, a sua vida jamais seria a mesma. É possível que ele tenha se esforçado para entrar em contato com os seus familiares, sem sucesso. O seu destino, entretanto, seria trágico. Em fevereiro de 1944, diante da enorme demanda de soldados por parte do Exército Alemão, cada vez mais esgotado e em franca decadência, ele foi convocado para compor um batalhão penal. Pouco se sabe sobre a sua participação na guerra, mas ele foi dado como desaparecido em 17 de outubro de 1944, quando lutava na Croácia. O seu corpo nunca foi encontrado, mas ele foi considerado morto em 1949.

A história trágica foi em grande parte narrada no livro que Irene publicou após reconhecer o seu pai na fotografia. E o título da obra, A Lei de Tutela 1935–1958: perseguição de uma família por “desonrar a raça”, não poderia ter sido mais adequado. Como muitos sobreviventes do Holocausto, as filhas Irma e Irene carregaram marcas profundas da perseguição e da descriminação impostas pelo governo de Hitler. Vivendo em orfanatos ou junto à famílias adotivas, restavam apenas breves lembranças da vida com seus verdadeiros pais. O amor do casal, porém, desafiou a morte: em 1951, o Senado de Hamburgo reconheceu o casamento de August Landmesser e Irma Eckler, eternizando a relação condenada pelos nazistas.

O livro de Irene Eckler, publicado em 1996, e que apresentou fotos e documentos sobre a sua família

Não há consenso, porém, quanto à identidade do homem que se recusou a fazer a saudação nazista. Isso porque a família Wegert reivindica que quem está de braços cruzados é Gustav Wegert (1890–1959). Esse sujeito também trabalhou no estaleiro Blohm & Voss na mesma época em que a foto foi tirada, apresentando semelhança física significativa com o retrato famoso quando comparado com outras de suas fotos. E, ainda mais relevante, ele jamais fazia a saudação nazista. Mas o motivo não era o mesmo de August Landmesser. Cristão convicto, Gustav se recusava a venerar Hitler ou os nazistas, dizendo que “deve-se obedecer a Deus mais do que aos homens”. Sua esposa, inclusive, temia que o marido poderia acabar preso por se recusar a fazer a saudação, razão pela qual ele já havia sido advertido algumas vezes. Mas Gustav a acalmava: por precisar de trabalhadores especializados no estaleiro, a punição nunca ia além da advertência. A sua importância no estaleiro Blohm & Voss o favoreceu inclusive durante a guerra, já que ele nunca chegou a ser alistado.
Foto de Gustav Wegert (de sobretudo, com a mão no bolso). Arquivo pessoal da família Wegert. Disponível em: http://wegert-familie.de

Até hoje há dúvidas quanto a verdadeira identidade do homem de braços cruzados. A sua atitude de recusa à veneração ultranacionalista típica dos nazistas, porém, é inquestionável. E de algum modo a foto remete tanto a vida de August Landmesser quanto a de Gustav Wegert. Isso porque eles, cada um a sua maneira, ousaram dizer não ao nazismo. Em meio ao fanatismo, ao radicalismo e à violência aviltada em relação àqueles que não concordavam com Hitler ou seus seguidores, era preciso muita coragem para dizer não quando a imensa maioria dizia sim.


Luís Rafael Araújo Corrêa é professor do Colégio Pedro II e Doutor em História Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor de artigos e livros sobre História, como a obra Feitiço Caboclo: um índio mandingueiro condenado pela Inquisição.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Especial Coletivizando #DitaduraNuncaMais

 
FILMES HISTÓRICOS SOBRE A DITADURA MILITAR

Na data de hoje, 31 de março de 2021, completam-se 57 anos do golpe militar de 1964, que deu início a uma longa e tenebrosa noite de 21 anos. Foram anos de graves violações de direitos humanos, mortes, torturas, desaparecimentos, execuções, exílio, censura e humilhações contra os brasileiros.
No momento em que completamos 57 anos deste vergonhoso episódio da nossa história forças retrógradas buscam negar os fatos passados através de um revisionismo histórico. Temos um governante que explicitamente defende a tortura e celebra figuras de torturadores, além de estimular a comemoração de data tão terrível para qualquer ser civilizado.
Desta forma, nesta data, o Núcleo de Direitos Humanos do Departamento de Direito da PUC-Rio convida a todas e todos que assistam e divulguem alguns filmes que retratam aqueles momentos de terror.
Ditadura Nunca Mais
Tortura Nunca Mais
João Ricardo Dornelles

PROJETO COM SENTENÇAS CONDENATÓRIAS NAS AUDITORIAS MILITARES
TAMBÉM DISPONÍVEL O LIVRO BRASIL NUNCA MAIS NA INTEGRA
ACESSE CLICANDO NOS LINKS ABAIXO DO TEXTO

TÉCNICAS DE TORTURA UTILIZADAS PELA DITADURA MILITAR - DOCUMENTOS REVELADOS


Vídeos: Ditadura de 1964 - Para não esquecer jamais - Onde estão nossos desaparecidos políticos? Verdade! Justiça!


Observatório da Imprensa - A imprensa e o Golpe Militar de 1964 - TV Brasil 


'Marcha da Família com Deus pela Liberdade'; saiba quem a financiou e dirigiu - Ópera Mundi

 

Baixe o Relatório da Comissão Nacional da Verdade e veja os nomes dos heróis mortos e desaparecidos - CNV 


Professor de Literatura Comparada da Uerj, João Cezar de Castro Rocha se dedicou no último ano e pouco a ler, assistir, ouvir o principal da produção do bolsonarismo. O atual governo produziu uma visão muito particular da história recente do Brasil. É a partir dela que lê o país e o mundo, assim como escolhe atuar. Em sua entrevista ao editor Pedro Doria, Castro Rocha explica esta visão. Durante a entrevista, João Cezar menciona o Orvil. Cá está o link onde pode ser encontrado: https://drive.google.com/file/d/1cPgX...


Bomba na Comissão da Verdade: "Frias visitava o Dops"


PCdoB: Memória, História e Hegemonia - Portal Vermelho


Comissão da Verdade: Rubens Paiva foi morto pelo DOI-Codi - Portal Vermelho


Osvaldo Bertolino: A história da Chacina da Lapa  - Portal Vermelho 


40 anos do massacre da Comissão Nacional de Organização do PCdoB - Portal Vermelho


Torturador Brilhante Ustra denunciado pelo sequestro de Edgar de Aquino Duarte


Livro revela que a ditadura executou 41 guerrilheiros no Araguaia - Portal Vermelho


Há 40 anos, Guerrilha do Araguaia era noticiada pela 1ª vez - Portal Vermelho


40 anos da Guerrilha do Araguaia - Justiça e verdade para nossos herois insepultos - Paulo Vinícius

 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Dilma anuncia integrantes da Comissão da Verdade - Portal Vermelho


Blog do Luiz Aparecido: Ditadura torturou, matou, roubou e desaparecem com os corpos das vítimas! - Carta de Sílvio Tendler


Protesto expõe Harry Chibata, legista que encobriu tortura durante ditadura - Portal Vermelho - Portal Vermelho


O homem que criou a nova sigla, PCdoB - Portal Vermelho


Leia o Manifesto: PCdoB 90 anos, pelo Brasil e o socialismo - Portal Vermelho


Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Portal Vermelho


Major Curió será o primeiro torturador processado no Brasil - Portal Vermelho


Carta aos Comunistas - Luiz Carlos Prestes - Março de 1980 


Intrigas e golpes das elites no Brasil — os casos Vargas e Jango - Por Augusto César Buonicore*


Maurício Grabois e o heroísmo na selva « CartaCapital 


Bertolino:O Diário de Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista 


Gilse Cosenza: História viva do PCdoB - PCdoB. O Partido do socialismo. 


Depoimento de Gilse Cosenza à Comissão da Verdade sobre a Ditadura Militar

Acusado de torturar Dilma dá entrevista: “Era uma coisa comum” - Portal Vermelho


Entre os facínoras, assassino de Carlos Nicolau Danielli 


“Se pudesse, faria tudo outra vez” - Entrevista de Adelino Cassis na Revista Extratos do SEEB DF


Onde estão nossos heróis, mortos e desaparecidos pela Ditadura?



Mártires do PC do B

 

Bergson Gurjão Farias: Guerrilheiro do Araguaia 

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Em rompante de nostalgia, Folha saúda o regime militar


PCdoB propõe excluir torturadores da Lei da Anistia  - PCdoB. O Partido do socialismo.


sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Clipe oficial Mangueira 2019 - História para Ninar gente grande - Amor ao Brasil



Brasil, meu nego
Deixa eu te contar A história que a história não conta O avesso do mesmo lugar Na luta é que a gente se encontra Brasil, meu dengo A mangueira chegou Com versos que o livro apagou Desde 1500 Tem mais invasão do que descobrimento Tem sangue retinto pisado Atrás do herói emoldurado Mulheres, tamoios, mulatos Eu quero um país que não está no retrato Brasil, o teu nome é Dandara Tua cara é de cariri Não veio do céu Nem das mãos de Isabel A liberdade é um dragão no mar de Aracati Salve os caboclos de julho Quem foi de aço nos anos de chumbo Brasil, chegou a vez De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês Mangueira, tira a poeira dos porões Ô, abre alas pros teus heróis de barracões Dos Brasil que se faz um país de Lecis, jamelões São verde- e- rosa as multidões

sexta-feira, 13 de março de 2015

'Marcha da Família com Deus pela Liberdade' completa 50 anos; saiba quem a financiou e dirigiu - Ópera Mundi

Golpe de 64: 'Marcha da Família com Deus pela Liberdade' completa 50 anos; saiba quem a financiou e dirigiu


Tidas como protagonistas do movimento que depôs João Goulart, organizações femininas lideradas por mulheres de classe média eram, na verdade, financiadas e instruídas pelos homens da elite empresarial-militar que queriam derrubar Jango

Há 50 anos, em 19 de março de 1964, era realizada na cidade de São Paulo a "Marcha da Família com Deus pela Liberdade”. Estima-se que entre 500 mil e 800 mil pessoas partiram às 16h da Praça da República em direção à Praça da Sé, no centro, manifestando-se em resposta ao emblemático comício de João Goulart, seis dias antes, defendendo suas Reformas de Base na Central do Brasil. Passaram à história como as genuínas idealizadoras e promotoras da marcha organizações femininas e mulheres da classe média paulistana. No entanto, por trás deste aparente protagonismo feminino às vésperas do golpe que deu lugar a 21 anos de regime ditatorial, esconde-se um poderoso aparato financeiro e logístico conduzido por civis e militares que tramavam contra Jango. Um detalhe: quase todos eram homens.
Certamente, a atuação de alguns grupos femininos como “pontas-de-lança” da opinião pública contra o governo Goulart foi peça-chave na conspiração levada a cabo pelo complexo empresarial-militar do Ipês-Ibad (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais – Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Destas instituições femininas, as principais eram: a carioca CAMDE (Campanha da Mulher pela Democracia) e as paulistas UCF (União Cívica Feminina) e MAF (Movimento de Arregimentação Feminina).
Conforme disseca a historiadora Solange Simões em seu livro Deus, Pátria e Família: As mulheres no golpe de 1964, a inserção das mulheres na conspiração que resultou no golpe foi estratégica. Com o intuito de fomentar uma atmosfera de desestabilização política e convencer as Forças Armadas a intervir, as campanhas femininas buscavam dar "espontaneidade" e "legitimidade" ao golpismo, tendo sido as mulheres incumbidas — pelos homens — de influenciar a população.
“Aqueles homens, empresários, políticos ou padres apelavam às mulheres não enquanto cidadãs, mas enquanto figuras ideológicas santificadas como mães”, escreve a pesquisadora. A própria dona Eudóxia, uma das lideranças femininas, reconhece, em entrevista à historiadora, sua função tática:
Nós sabíamos que como nós estávamos incumbidas da opinião pública, os militares estavam à espera do amadurecimento da opinião pública. Porque sem isso eles não agiriam de maneira nenhuma. A não ser que a opinião pública pedisse. E foi isso que nós conseguimos.
Graças a uma bem-sucedida ação, eventos considerados aparentemente “desconexos” foram tomados como "reações espontâneas" de segmentos da população. Na verdade, essas manifestações apresentavam uma sólida coordenação por parte da elite.
Reprodução/Blog CPDOC Jornal do Brasil

Protagonismo feminino? Mulheres estavam na linha de frente da marcha, mas quem dirigiu e organizou foram os homens do Ipês
Neste sábado (22/03), 50 anos depois, haverá uma reedição da emblemática marcha, organizada por manifestantes e ativistas que acreditam haver no Brasil uma revolução comunista em processo e veem na intervenção militar a única saída.

Foto:

Elite econômica que deu golpe no Brasil tinha braços internacionais, diz historiadora


Veja abaixo os principais aspectos desse movimento feminino que esteve à frente da “Marcha da Família com Deus pela Liberdade” de 19 de março de 1964.
1.) COMO SURGIU E QUEM LIDERAVA?
Quem eram, afinal, essas mulheres que despontavam na rua, em passeatas e comícios, como “donas-de-casa” e “mães-de-família brasileiras”, envolvidas na conspiração civil-militar? Já chamadas de “guerrilheiras perfumadas” ou confundidas com mulheres “das classes médias”, as direções dos movimentos eram constituídas, essencialmente, por mulheres com baixa formação intelectual da burguesia e das elites militares e tecnoempresariais.
Essa ala feminina do golpe foi criada meses antes das eleições gerais de outubro de 1962. Suas principais líderes eram parentes próximas dos grandes nomes do setor empresarial e militar envolvidos na conspiração. Contaram, obviamente, com todo o aparato financeiro e logístico de seus cônjuges, primos e irmãos para erguer suas instituições. “O meu marido me incentivava: ‘Eu ajudo no que precisar’, dizia ele”, relembra em entrevista concedida a Solange Simões, a vice-presidente da CAMDE, Eudóxia Ribeiro Dantas, mulher de José Bento Ribeiro Dantas, empresário ipesiano presidente da Cruzeiro do Sul, uma das maiores companhias aéreas do país.

Do lado carioca, por exemplo, a CAMDE foi criada por Amélia Molina Bastos, irmã do general Antônio de Mendonça Molina, do setor de informação e contrainformação do Ipês. A ideia partiu declaradamente do vigário de Ipanema, Leovigildo Balestieri, e dos líderes ipesianos engenheiro Glycon de Paiva e general Golbery do Couto e Silva. A CAMDE foi lançada no auditório do jornal O Globo, no Rio, oferecido por seu diretor-proprietário, Roberto Marinho. Na manhã do dia 12 de julho de 1962, o periódico carioca estampava na capa: “A Mulher Brasileira está nas Trincheiras”.
Já em São Paulo, nas reuniões de fundação da UCF, compareceram figuras como: Antonieta Pellegrini, irmã de Júlio de Mesquita Filho, diretor-proprietário do jornal O Estado de S.Paulo, e Regina Figueiredo da Silveira, primeira presidente da união paulista e irmã do banqueiro João Baptista Leopoldo Figueiredo, presidente do Ipês e primo do último presidente do ciclo militar.
2.) EM TERMOS PRÁTICOS, O QUE FIZERAM?
Desde sua fundação, a CAMDE carioca e a UCF paulista se engajaram na ação política de combate e desestabilização do governo Goulart, orientadas ideologicamente e materialmente pelocomplexo Ipês-Ibad.
“Caravana a Brasília”: pelo veto a Santiago Dantas
Em 1962, as mulheres organizaram uma “Caravana a Brasília” com o objetivo de formar um efetivo “coro popular” para impedir a posse de San Tiago Dantas como primeiro-ministro. Esse movimento integrava parte da política de rejeição, pela elite, de uma composição com a ala moderada do trabalhismo. Para tanto, entregaram ao presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, 60 mil cartas pedindo a não aprovação do plebiscito antecipado, bem como o impedimento da delegação de poderes ao conselho de ministros, fundamental à continuidade das Reformas de Base do governo Goulart.
Reprodução/Mestrado Dharana Pérola Ricardo Sestini

A primeira-dama de SP, dona Leonor de Barros (cent.), ladeada pelos deputados Herbert Levy (últ. à dir.) e Cunha Bueno (penúlt. à dir.)
Boicote ao Última Hora, o “diário da guerra revolucionária”
Um dos poucos jornais que se atreveram a criticar a tentativa de deturpar o processo eleitoral por parte dessas organizações femininas, o Última Hora, de Samuel Wainer, foi sistematicamente perseguido pela CAMDE e UCF. Caracterizando o periódico como “o diário da guerra revolucionária que se travava no Brasil”, as senhoras passaram a formar comissões de visitas a empresários, industriais e comerciantes que anunciavam no jornal, pedindo para que suas verbas publicitárias fossem suspensas. A coordenação dessa campanha de boicote foi feita em grande parte em sincronia com o Ibad, liderado pelo integralista Ivan Hasslocher, outra figura central na campanha anti-Jango. Hasslocher se exilou em Genebra depois de comprovados, pela CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) de 1963, os atos de corrupção de seu instituto no processo eleitoral de outubro de 1962.
"Marchas da Família com Deus pela Liberdade": quem convocou, dirigiu e financiou
Logo após o discurso de Goulart na Central do Brasil, em 13 de março de 1964, a CAMDE se engajou em campanhas por telefone, incitando as mulheres a permanecerem em casa e acenderem velas em suas janelas como sinal de protesto e fé cristã. A massiva “Cruzada do Rosário em Família”, do padre norte-americano Patrick Peyton, pároco de Hollywood, foi o ensaio-geral para as marchas anticomunistas de abril e março de 1964, fundadas no lema “A família que reza unida permanece unida”.

Seis dias depois do comício de Jango, em 19 de março, data em que se comemora o dia de São José, padroeiro da família, realizou-se em São Paulo a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, coroando o auge dos esforços das associações femininas orientadas pelo Ipês.
["Marcha da Família com Deus pela Liberdade" percorre o Viaduto do Chá, no centro de São Paulo]
A marcha reuniu entre 500 mil e 800 mil pessoas para protestar contra o comício de Goulart na Central do Brasil. A idealização da marcha partiu do deputado federal Antônio Sílvio Cunha Bueno (PSD), um grande proprietário de terras e diretor da norte-americana Willys-Overland Motors do Brasil, cuja matriz ficou famosa pela fabricação, em parceria com a Ford, do jipe usado pelos norte-americanos na Segunda Guerra Mundial. Ao contrário da propagandeada supervalorização do papel dessas mulheres na condução dos protestos, a organização da marcha não ficou a cargo nem da UCF nem do MAF, ambas entidades sediadas em São Paulo. Quem levou o evento adiante foi o próprio Cunha Bueno, além de outros políticos paulistas, como o vice-governador Laudo Natel, Roberto de Abreu Sodré (UDN) e Conceição da Costa Neves (PSD), deputada mais votada no estado nas eleições de 1962.
Acompanhados de suas esposas, políticos importantes se fizeram representar nas marchas: Adhemar de Barros e sua mulher, dona Leonor; além de Carlos Lacerda, governador do Rio, e dona Letícia. O deputado Herbert Levy, integrante da UDN e líder do Ipês, bradava: “o povo não quer ditaduras, o povo não quer comunismo, o povo quer paz e progresso”. Cunha Bueno discursava: “Todos vocês nessa praça representam a pátria em perigo de ser comunizada. Basta de Jango!”.
Em São Paulo, os banqueiros Hermann Morais Barros (Banco Itaú), Teodoro Quartim Barbosa (Comind) e Gastão Eduardo Vidigal (Banco Mercantil), líderes ipesianos do primeiro escalão, ficaram incumbidos de articular e obter adesão das entidades de classe de todo o país para as marchas.
“O Ipês de São Paulo também fez contribuições diretas e em dinheiro para o movimento feminino: consta do relatório de despesas de 1962 e do orçamento de 1963 uma contribuição mensal para a UCF”, conclui a historiadora Solange Simões.
A organização logística da marcha foi feita no prédio da Sociedade Rural Brasileira, supervisionada pelo Ipês e contando com a presença de membros de diversas entidades patronais e associações industriais. No bem aparelhado quartel-general do movimento feminino fizeram-se ainda pôsteres, cartazes e bandeiras com as seguintes palavras de ordem:
Abaixo o Imperialismo Vermelho
Renúncia ou Impeachment
Reformas sim, com Russos, não
Getúlio prendia os comunistas, Jango premia os traidores comunistas
Vermelho bom, só o batom
Verde, amarelo, sem foice nem martelo
Reprodução/Blog CPDOC Jornal do Brasil

Cartaz na marcha estampava "Vitória da Democracia"; golpe que derrubou presidente eleito viria semanas depois
3.) HOUVE PROTAGONISMO FEMININO?
Uma vez vitorioso o golpe de Estado de 1º de abril de 1964, foi deflagrada a chamada “Marcha da Vitória”, reunindo 1 milhão de pessoas no Rio de Janeiro. Logo no dia 3 de abril, o líder do Ipês João Baptista Leopoldo Figueiredo, que estava em reunião na Guanabara na qual discutiam aescolha do “novo candidato” à presidência, telefonou para sua irmã Regina Figueiredo Silveira, presidente da UCF. Motivo: o banqueiro primo-irmão do último presidente militar solicitava à irmã-ativista que o lançamento da candidatura de Castello Branco fosse feito pela própria UCF.
Paulo Ayres Filho, outro líder ipesiano e empresário da indústria farmacêutica, ficou incumbido de elaborar, junto com uma equipe da UCF, o manifesto feminino de apoio ao marechal, levado às estações de TV e jornais pelas senhoras.
O general Olympio Mourão Filho, que marchou de Minas Gerais em 31 de março, antecipando-se ao plano dos conspiradores do eixo Rio-São Paulo, comentou, sobre as marchas das mulheres, que “como todos os homens que participaram da revolução, nada mais fez do que executar aquilo que as mulheres pregavam nas ruas para  acabar com o comunismo”. Cordeiro de Farias foi ainda mais longe, de acordo com Solange Simões, “ao afirmar que a revolução foi feita pelas mulheres”.
Reprodução/Blog CPDOC Jornal do Brasil

Generais que participaram do golpe de 64 exergam protagonismo feminino como ponto central para o sucesso do movimento
Historiadores que estudaram o período são mais céticos: não veem a movimentação das mulheres como sintoma do engajamento universal da população brasileira no combate a Jango. Na verdade, essas mulheres, teriam funcionado como massa de manobra dos conspiradores — todos homens — para criar uma sensação de “espontaneidade” e “clamor popular” apta a dar “legitimidade” ao novo governo. Como aponta a pesquisadora Solange Simões, a marcha foi “ostensivamente uma manifestação das classes média e alta”. E mais: foi muito restrita, pois em uma cidade de 6 milhões de habitantes, como São Paulo, apenas 500 mil pessoas participaram.
Até o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon, notório por seu apoio ao golpismo, percebeu a falta de apoio popular no movimento, conforme relata a Washington em um telegrama de 2 de abril de 1964: “A única nota destoante foi a evidente limitada participação das classes mais baixas na marcha”. Seu espião militar no Brasil, o coronel Vernon Walter também atesta que, até a realização das passeatas, havia um receio de que o movimento para derrubar João Goulart fracasse por falta de apoio popular.
Desferido o golpe em 1º de abril, as marchas do Rio e São Paulo foram seguidas de outras menores, organizadas pelas associações femininas em Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Santos.
“Se antes os maridos enalteciam o papel de mãe e esposa para manter a mulher no lar e discriminadas na esfera pública, passam agora a enaltecer aquele papel para comprometê-la na ‘política’”, arremata Solange Simões. Assim, revelando o ilusório protagonismo vislumbrado pelo espetáculo dessas marchas de massivas mobilizações, “a ‘mulher-dona-de-casa’ que respeitava, no lar, a autoridade do chefe da família, deveria, enquanto mulher-cidadã procurar a autoridade do Estado – autoridade que residia principalmente no seu braço armado”, conclui a historiadora.
(*) Principais fontes: René Armand Dreifuss (‘1964: A conquista do Estado: Ação Política, Poder e Golpe de Classe’) e Solange de Deus Simões (‘Deus, Pátria e Família: As mulheres no golpe de 1964’)

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