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sábado, 18 de dezembro de 2021

João Batista Franco Drummond, meu professor - ACQ - Antônio Carlos Queiroz

 João Batista Franco Drummond, meu professor

A última vez que estive com o Drummond foi no final de novembro daquele ano terrível, 1976, em Anápolis, Goiás, onde eu morava. Ele havia me encarregado de acompanhar, através do jornal O Popular, de Goiânia, os resultados das eleições municipais realizadas no dia 15.

Por Antônio Carlos Queiroz*

Naquela época, a apuração dos votos, manual, levava dias. Quarenta anos depois, ainda me lembro que estávamos eufóricos. Mesmo com as restrições da Lei Falcão à propaganda eleitoral, que permitia só a divulgação do nome, partido, número, currículo e foto do candidato na televisão, o MDB de Goiás havia eleito um número razoável de prefeitos, seguindo a tendência nacional de avanços significativos do voto de protesto contra a ditadura nas médias e grandes cidades do País.

Nas eleições legislativas de dois anos antes, o PCdoB havia pregado o voto nulo, sem perceber que o fim do “milagre econômico” iria solapar as bases da ditadura. Com os ventos virados, em 1974 a oposição conquistou 16 das 22 vagas em disputa para o Senado, e 161 das 364 (44%) das cadeiras da Câmara dos Deputados. Correndo o risco de perder o controle de sua abertura “lenta, gradual e segura”, o general Ernesto Geisel tomaria providências logo no início do ano seguinte, fechando o Congresso Nacional e decretando o Pacote de Abril, com a determinação de que um terço dos senadores deixariam de ser eleitos, passando a ser indicados pelo general-presidente de plantão. Estava criada a figura do “senador biônico”. Nessa conjuntura, o PCdoB fez ajustes em sua tática e, no começo daquele ano, lançou a “Mensagem aos Brasileiros”, o famoso “documento das três bandeiras”, que conclamava o povo à luta em favor da anistia ampla, geral e irrestrita, da abolição de todos os atos e leis de exceções, e da convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte Livre e Soberana. Desde então o partido passou a apoiar os candidatos do MDB mais aguerridos no combate à ditadura.

O primeiro encontro – No final de 1976, com 20 anos, eu já havia concluído o curso científico, mas em vez de ir para uma faculdade, havia me casado, e meu primeiro filho tinha acabado de nascer. Trabalhava na Fundação Educacional de Anápolis, onde calculava a folha de pagamento das professoras e merendeiras da rede pública, dava aulas de francês na escola de idiomas Yázigi, e era vendedor do jornal Movimento, um semanário de combate ao regime militar, que tinha em seu conselho editorial intelectuais de várias tendências políticas, entre os quais, o deputado Alencar Furtado, do grupo autêntico do MDB, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, e o cantor Chico Buarque. Eu também era um dos organizadores do MDB Jovem de Anápolis. O Drummond, cujo nome de guerra para nós era Osvaldo, me fora apresentado uns dois anos antes por um militante da Ação Popular, Adelite Moreira dos Santos, funcionário do Banco do Brasil e ativo sindicalista. Um dia o Adelite nos chamou, a mim e a outro amigo e colega de trabalho de Anápolis, o Tauny Mendes, e nos disse que havia sido procurado por um contato do PCdoB, encarregado de organizar o partido em nossa cidade. Perguntou se topávamos conversar com ele. Topamos. A partir daí nossos encontros se tornaram frequentes.

Algumas de nossas reuniões tinham um ar bucólico e romântico. Num determinado sábado ou domingo, a gente comprava sanduíches e refrigerantes e íamos para debaixo da ponte de algum rio nas redondezas da cidade para discutir a conjuntura nacional, ler manifestos, denúncias de torturas ou capítulos de algum livro. Ali na beira da água era como se estivéssemos fazendo um piquenique. Mais de uma vez fomos parar embaixo da ponte do rio Corumbá, entre Abadiânia e Alexânia, na BR—060, a caminho de Brasília.

Volta e meia, o Drummond nos perguntava se tínhamos alguma notícia do Araguaia. É que um comerciante amigo nosso tinha parentes e negócios em Imperatriz, no Maranhão, e sempre nos relatava os comentários que corriam entre o povo da região do Bico do Papagaio sobre a guerrilha, dizimada em 1975. A maior parte das histórias aludiam à brutalidade dos militares, à coragem do Osvaldão ou às façanhas da Dina, dois dos guerrilheiros que se tornaram mitos.

O espírito e o corpo – Quando conheci o Drummond, eu já estava escolado em política, apesar de nunca ter participado do movimento estudantil, virtualmente banido de Anápolis, ainda mais depois que a cidade fora declarada, em 1973, “área de segurança nacional”, alegadamente por causa da implantação da Base Aérea dos Mirages, mas é claro que o motivo real foi a tradicional força oposicionista da cidade. José Batista Júnior, sucessor do prefeito Henrique Santillo, do MDB, teve o seu mandato cassado.

Eu também já transitava no existencialismo de Jean-Paul Sartre, graças às conversas que tinha com uma grande amiga, a Maura Helena de Oliveira Simões, uma brilhante socióloga formada na extinta Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, meio incapacitada por causa dos surtos psicóticos que sofria. Uma vez Maura me convidou para um encontro a ser realizado no auditório da clínica de seu psiquiatra, o Dr. Neiron de Souza e Silva. Lá chegando, encontrei uma roda formada por uma dúzia de médicos aguardando a palestra de um professor francês, em francês mesmo, sem tradução simultânea. O cara era especialista na fenomenologia de Edmund Husserl. Devo ter ficado perplexo, mas, para quem andava lendo Os Caminhos da Liberdade e O Ser e o Nada do Sartre, a matéria não devia ser de todo estranha.

A essa altura, há muito havia perdido a fé, depois de receber sólida formação católica na escola primária e no ginásio, sob a direção de freiras e padres franciscanos. O engraçado é que me convenci do materialismo (sem ainda ter estudado as piruetas da dialética hegeliana nem a operação ortopédica que dela fez o Marx) não porque tivesse tomado a lição de algum manual marxista, mas graças à tese de um químico americano, que, num livro enciclopédico sobre drogas, esclarecia que uma pessoa fica atordoada quando toma uma bebida alcoólica porque as moléculas do álcool interagem com as células do cérebro, bloqueando algumas de suas conexões. Se o espírito fosse separado do corpo, argumentava o químico, o álcool não lhe faria qualquer efeito. Troquei o dualismo espírito/corpo da fé cristã pelo monismo materialista mas jamais deixei de ser fã do São Francisco, para mim ainda hoje um modelo de comunista, hippie e inspirador do naturalismo.

Oh là là! – Depois de aprender francês num curso oferecido pelo Museu Histórico que eu havia ajudado a fundar em 1972, acabei substituindo o professor e aperfeiçoei a conversação na casa de algumas famílias de técnicos franceses da Base Aérea. Daí passei a ler a revista Les Temps Modernes, que a gente comprava na livraria Ao Livro Técnico da Rua das Farmácias, em Brasília. Nessa época, eu acalentava a ideia maluca de um dia me encontrar com o diretor da revista, o Sartre, e também com o presidente Mao Zedong e com o general vietcongue Van Giap, três heróis do meu panteão, com quem eu imaginava poder conversar em francês sem o auxílio de intérpretes. A Internacional eu aprendi a cantar no original com Catherine Boissinot, uma garota de Bordeaux, integrante da juventude comunista francesa, filha de um engenheiro da Base Aérea e que passava férias em Anápolis. Oh, mon dieu! 

Conto essas intimidades para contextualizar a virada que significou na minha vida o convite para militar com o Partido Comunista do Brasil. Só com um pouquinho de exagero, tive a sensação de viver um personagem de um livro do Máximo Górki. Imaginem: com uma consciência social já bem adiantada, e sendo eu filho de uma lavadeira fã do Getúlio Vargas (até hoje!) e um padrasto que trabalhava numa fábrica de sapatos, o que mais eu podia almejar senão ser um soldado da Revolução?

Em casa a gente tinha um pôster gigante do meu padrasto de macacão, manejando uma fresadora. A foto tinha sido exposta no estande da fábrica de calçados Cosmos na Faiana, a Feira de Amostras da Indústria Anapolina, inaugurada em 72 ou 73. Depois do primeiro encontro com o Drummond, eu tratei de limpar a peça e a pendurei no ponto mais vistoso da sala de minha casa, com não disfarçado orgulho.

O pôster era fantástico, mas o meu padrasto não andava bem. Atingida pela crise, a fábrica em que ele trabalhava, de propriedade do grego Christos Papadopoulos, fechou. Meu padrasto foi obrigado a buscar emprego em Nova Hamburgo, no Rio Grande do Sul, e em Franca, São Paulo. Alcoólatra, nessas idas e vindas, ele acabou contraindo tuberculose e voltou a Anápolis para se tratar. Depois de algum tempo, ficou violento e passou a agredir a minha mãe. Um dia, num acesso de raiva, pinchou um gato numa parede. Depois da cena, chamei minha mãe, meu irmão e as duas irmãs que moravam com a gente e, sem titubear, decidimos expulsá-lo de casa. O pôster continuou pendurado na sala.

Peixe n'água – Muitos encontros com o Drummond eram feitos na minha casa, só nós dois. Minha mãe achava que ele era um professor. Meu entusiasmo comunista crescia. Uma vez me deu na cabeça escrever um artigo sobre o presidente Mao Zedong, discorrendo sobre a ideia dele de que um militante comunista deve viver entre o povo que nem um peixe n'água. Mostrei o artigo para o Drummond. Ele leu o texto rapidamente, acho que riu, mas não me lembro de seus comentários. No encontro seguinte, ele me trouxe uma biografia do presidente, séria, não hagiográfica, do historiador chinês Jérôme Ch'en, da Universidade de Leeds, Inglaterra, publicada em 1968 pela editora Mercure de France. Naquela biografia, que guardo até hoje, aprendi que Mao, ainda jovem, tinha flertado com as ideias anarquistas de Bakunin e Kropotkin antes de aderir ao marxismo. Com o Drummond eu logo aprenderia que o caminho do Brasil rumo ao socialismo jamais poderia ser igual ao da República Popular da China. Cada país faz a sua própria marcha, ensinava ele. É preciso estudar a realidade concreta do País para mudá-la. É possível que aqui tenha germinado a minha vocação de jornalista.

A memória que guardo do Drummond é a de um sujeito de mente aberta, carinhoso (certa vez presenteou meu irmão, o Sérgio, com uma gaitinha), bem informado e sintonizado nos debates intelectuais da época. Num encontro em Goiânia, provavelmente ocorrido no segundo semestre de 75, ele deu notícia do debate ainda muito acirrado em torno das teses de Ler o Capital, um livro coletivo capitaneado pelo filósofo francês Louis Althusser dez anos antes. Acho até que o Drummond fez uma piada sobre o conceito da “prática teórica”, parecida com a daquele físico teórico barrigudo zoado pela mãe por não fazer exercícios.

Em meados de 1976, o Drummond me deu de presente a peça O Rinoceronte, de Eugène Ionesco, que acabava de ser lançada na coleção Teatro Vivo da Abril Cultural. Em chave irônica, pensei com os meus botões: “Como é que um comunista sério presenteia um jovem recruta com a obra de um dramaturgo anticomunista 'insólito' como o Ionesco, que os puristas devem considerar o cúmulo da decadência da arte burguesa”? Matutando hoje, chego à conclusão de que o Drummond desafiava a caretice dos comunistas de então, apostando fichas na inteligência de um garoto que devia considerar esperto. Uma evidência disso foi o comentário que ele me fez nessa mesma época a propósito de uma entrevista do ator Juca de Oliveira, integrante do elenco da novela surrealista Saramandaia, de Dias Gomes, lançada em maio de 76 pela TV Globo. Juca fazia o papel do personagem João Gibão, cuja corcunda escondia um estupendo par de asas. “Essa novela é interessante porque educa os sentimentos artísticos do povo. Todo mundo sabe distinguir a fantasia da realidade, e diferencia as ações do ator na novela de suas ações na vida real”, ponderou o Drummond. Eu logo cogitei que ele devia estar aludindo ao efeito de distanciamento do Brecht, em oposição à catarse aristotélica, quer dizer, a identificação da plateia com o herói da peça. Dias Gomes, um comunista, era brechtiano desde os anos 60, quando trabalhou com Augusto Boal, um teórico da dramaturgia popular crítica e libertadora.

O alerta do general – Distinguir a realidade da fantasia é, por suposto, a primeira obrigação de um revolucionário. E a realidade no final de 1976 é que a ditadura estava capenga, como o próprio ditador de plantão, o general Ernesto Geisel, já havia reconhecido na virada do ano de 1974, após a derrota do partido oficial na disputa pelo Senado. Em cadeia nacional de rádio e televisão, Geisel havia dito que a Arena tinha se desgastado “com o largo período de confortável, mas emoliente posição majoritária” e que “as consequências estão agora à vista”. “Sirva isso de alerta”, concluiu. Diante desse aviso, cabia a nós acelerar a organização do partido e, com os parcos recursos disponíveis, fazer tudo o que pudéssemos para desgastar ainda mais o regime. Apoiar a ala progressista do MDB era o mínimo que podíamos fazer.

Uma das tarefas de nossa pequena célula anapolina era fazer cópias de documentos que o Drummond nos trazia. Essa atribuição cabia principalmente a mim, datilógrafo experiente, que sempre teclou com os dez dedos. Usando um papel fininho, papel-seda, quase transparente, a gente conseguia fazer cinco ou seis cópias por vez. Eu copiava artigos do jornal A Classe Operária e muitos outros materiais. Certa vez, reproduzi trechos do Livro Negro da Ditadura, publicado na clandestinidade pela Ação Popular Marxista-Leninista em 1972 para denunciar os crimes do regime militar. Assim que as cópias ficavam prontas, o Drummond as buscava em Anápolis, ou eu as levava para ele em Goiânia, menos de 60 quilômetros adiante, de ônibus. A recomendação de segurança para esse tipo de operação era a seguinte: “Nunca fique com o pacote dos documentos. Bote-o no bagageiro algumas poltronas à frente da sua, de maneira que fique à vista, para o seu controle. Se houver uma batida policial, será difícil que liguem o embrulho a você”.

Um dia, resolvemos investir em tecnologia… e compramos um mimeógrafo a álcool. Um dos trabalhos de que mais me orgulho foi ter produzido 150 cópias do “documento das três bandeiras”, provavelmente em maio ou junho de 1975. Na hora de bater o estêncil – a matriz com a tinta de reprodução -, o Adelite resolveu sofisticar: em vez de um, pediu que eu datilografasse dois estênceis, um com o texto, em cor azul, e o outro, com os títulos, em cor vermelha. O documento saiu tinindo de bonito. A primeira fase, da impressão, foi fácil. A segunda, da distribuição, é que seria complicada. Como distribuir 150 cópias de um documento do Partido Comunista em Anápolis, área de segurança nacional, cheia de milicos da Aeronáutica e de agentes da Polícia Federal? O primeiro nome da nossa lista foi o combativo deputado estadual Henrique Santillo, um neo-autêntico do MDB, que havia sido prefeito da cidade entre 1969 e 1972. Santillo era nosso amigo, dera todo o apoio da prefeitura para a fundação do Museu Histórico, e nós havíamos participado ativamente de sua campanha eleitoral em 1974, mas não confiávamos nele totalmente. Como entregar-lhe, pessoalmente, aquele documento “batata quente”, nos entregando juntos? Botamos a Mensagem aos Brasileiros num envelope e, de noite, o enfiamos debaixo da porta de entrada da casa dele. Fizemos isso com um monte de conhecidos. Para os amigos que moravam em outras cidades, e para alguns parlamentares em Brasília e Goiânia, mandamos o documento pelo correio. Um desses amigos, o Chico, mestrando de Ciências Sociais em Belo Horizonte, recebeu a Mensagem, mostrou-a a alguns colegas, e depois nos disse que, desde então, passou a ser muito mais respeitado na faculdade.

Guardar o mimeógrafo em casa era perigoso, mas o Drummond já tinha bolado uma solução. Concluídos os trabalhos de impressão, a gente embalava o aparelho, ia para a estação ferroviária, e despachava a caixa para outra cidade – Catalão, Ipameri ou Pires do Rio. Algumas semanas depois, o Drummond viajava até lá, resgatava o trambolho no depósito da estação e o redespachava. Era assim que a gente guardava o nosso cachacinha, em trânsito na estrada de ferro.

Contrafação – Se viver é muito perigoso, viver como comunista naquela época era muito mais perigoso ainda. Era preciso seguir as regras da estrita clandestinidade, sem vacilação, e é por isso que o PCdoB organizava células estanques, sem qualquer contato umas com as outras. Assumir uma outra identidade era também um recurso valioso de segurança. Por isso, mais de uma vez, surrupiei dos arquivos da Fundação Educacional algumas certidões de nascimento originais, devidamente substituídas por xerox, e as repassei ao Drummond. Depois da alteração dos dados, esses documentos serviam para que companheiros do partido pudessem obter novas carteiras de identidade ou carteiras de trabalho e, assim, sair da clandestinidade. Essa também foi uma das tarefas de que me orgulho, a despeito de sua evidente, ahn!, ilegalidade…

Comecei esse depoimento dizendo que vi o Drummond pela última vez quando estava acompanhando a apuração dos resultados das eleições municipais de 1976. Havíamos marcado um novo encontro para antes do final do ano, e tinha ficado acertado que ele teria um encontro com um amigo nosso, o professor Sílvio Costa, que depois se tornaria um dos dirigentes do partido em Goiânia. No dia 17 de dezembro, porém, fomos surpreendidos com a notícia do Massacre da Lapa. Vimos nos jornais e na revista Veja as fotos do Pedro Pomar, Ângelo Arroyo, Haroldo Lima e do Aldo Arantes, que a gente considerava um de nossos heróis, filho que é de Anápolis. Não vimos qualquer foto do Drummond. Um alívio! Também nada nos informou sobre o paradeiro de nosso companheiro a lista dos nomes dos mortos e dos presos. A gente não sabia o seu nome verdadeiro (para nós ele era o Osvaldo) e, por óbvio, não tínhamos a informação de que ele fizesse parte do Comitê Central do PCdoB. Ficamos então aguardando que ele nos procurasse ou desse notícia nos dias seguintes.



João Batista Franco Drummond


O anúncio do jornal – Passaram-se duas semanas, o ano virou e nenhum sinal dele. Passou a primeira semana de janeiro, passou a segunda, e nenhum sinal dele. As únicas notícias que tínhamos sobre o partido nos chegavam pelos boletins da Rádio Tirana, da Albânia, através do robusto Transglobe da Philco que eu havia comprado no início do ano. Pela rádio recebíamos a instrução de ficarmos quietos, de fingir que estávamos mortos, de não tentar fazer contatos com nenhum outro militante do partido. Com o passar do tempo, os boletins começaram a se repetir. O partido voltava a um estágio anterior, da mais completa clandestinidade. Foi então que, no dia 18 de janeiro, O Popular, de Goiânia, publicou um anúncio intitulado “Desaparecimento”, com uma foto do Drummond e um nome na legenda: José Edilson de Souza. O texto do anúncio dizia o seguinte: “Está desaparecido de sua residência, desde dezembro do ano passado, José Edilson de Souza. Ele tem aproximadamente 30 anos de idade, cabelo e olhos castanhos, 1,73 de altura. Trajava na ocasião calça azul US-TOP e camisa xadrez. Sua família, aflita, está solicitando a quem souber de seu paradeiro informar na 11ª Avenida, nº 677, na Vila Nova. O mesmo anúncio foi publicado no Correio Braziliense, não me lembro se no mesmo dia ou dias depois. Imediatamente, procurei o Tauny e o Adelite para discutir o significado daquele anúncio, que nos chocava mas também nos dava esperanças.

Na verdade, tudo indicava que se tratava de uma armadilha da polícia. Afinal, uma família não diz que um parente tem “aproxidamente” 30 anos. É claro que indicaria a idade do desaparecido com precisão. Mas, e se houvesse mesmo um parente agoniado? Essa dúvida e um monte de outras nos afligiram durante dias, até que eu tive uma ideia: e se eu desse um jeito de ir “casualmente” até o endereço transcrito no anúncio? E se eu fosse até lá disfarçado de vendedor? Discutimos um pouco mais, e decidimos que eu faria isso mesmo.

Comecei a me preparar, pesquisando comerciais publicados no Popular, até que achei uma oportunidade macabra, mas foi essa mesma que escolhi. Eu me disfarçaria de vendedor de um plano de saúde cujo principal produto era a cobertura das despesas do funeral do segurado. Para me habilitar tive que fazer um curso que durou uma manhã inteira numa sala localizada na Avenida Goiás, nas proximidades da Praça do Bandeirante. Ali recebi instruções de como falar com as pessoas, como negociar as prestações do plano etc. No final, recebi uma carteirinha de representante comercial, e uma pasta contendo tabelas de preços, um talão de recibos e um álbum de fotos de caixões, simples, medianos e até luxuosos. Tétrico! Tomei um lanche, respirei fundo e rumei para as imediações do endereço indicado no anúncio do Popular, na Vila Nova. Comecei a entrar de casa em casa, com jeito, tateando. Eu argumentava que a morte sempre é triste, mas inevitável. E que seria melhor que a gente se preparasse para ela com certa antecedência, sob pena de pegar a família de surpresa e desfalcar as suas economias com os custos do funeral. Na época eu era magro, usava cabelo comprido que nem hippie, e tinha um par de óculos redondos, parecidos com os do Trotsky ou do John Lennon. Parece que aquela aparência não oferecia perigo, e aquele papo de vendedor do outro mundo não deve ter ofendido ninguém.

Comércio macabro – Meia dúzia de visitas depois eu já estava craque no discurso, mas era preciso ter ainda paciência. Continuei a andar de porta em porta. Depois de bater perna por mais uma ou duas horas, alcancei a praça onde estava o meu alvo. Continuei a abordagem passo a passo, casa por casa, até chegar no número 677. Era uma residência coletiva. Na frente, uma casa maior, circundada por vários barracões. Bati na porta da casa principal e fui atendido por um casal de velhinhos. Ofereci o plano, recebi um não com os constrangimentos de praxe, e daí perguntei se não podia falar com os vizinhos. Parece que eram todos da mesma família, filhas e noras que cuidavam das crianças. Não me lembro de nenhum homem além do velhinho. Depois de conversar com todo mundo, perguntei se não havia mais alguém da família com quem eu pudesse conversar, mesmo que fosse no dia seguinte. Foi então que apareceu a informação que eu buscava: havia, sim, um outro filho do casal de velhinhos, mas ele só chegaria à noite. O indivíduo era funcionário da Secretaria de Segurança Pública, me disseram. Disfarcei o susto e me despedi, saindo dali com cautela. Respirei fundo e resolvi continuar a bater na porta de mais algumas casas da vizinhança, antes de cair fora e voltar para o escritório da empresa de seguros para devolver o material promocional como ficara combinado. Os meus esforços de vendedor naquela tarde não tiveram resultado comercial. Mas eu havia obtido uma informação de dar medo. Voltei para Anápolis e contei a escabrosa novidade para o Adelite e o Tauny. Decidimos seguir a orientação do partido de nos fingir de mortos.

Meses depois da tragédia da Lapa, continuamos no limbo, sem qualquer informação sobre o destino do Drummond. Não tínhamos contatos em São Paulo ou Belo Horizonte que pudessem nos dar notícias. Uma vez, uma conhecida comentou que “um rapaz do PCdoB que havia sido morto em São Paulo” tinha trabalhado como fotógrafo no jornal Cinco de Março, de Goiânia. Não fomos checar. Seguimos nossas vidas.

O Tauny continuou a trabalhar na Prefeitura Municipal. Exatamente no dia 31 de março de 1977, eu fui demitido pessoalmente pelo diretor da Fundação Educacional, o ex-prefeito Jonas Duarte, da Arena, depois que alguém lhe contou que eu andava “fazendo campanha política”, ao distribuir às professoras e merendeiras cartões de Feliz Aniversário e Boas Festas que o deputado Henrique Santillo costumava mandar pelos correios. “Eu sei que um dia vocês vão implantar o comunismo no Brasil, mas até lá eu estarei morto”, me disse o ex-prefeito, aos berros, antes de dizer que eu estava fora do serviço público. Seis meses depois, gastando os últimos trocados do FGTS, desisti do projeto de me mudar para Itaguaru, no interior de Goiás, para ajudar na organização do movimento sindical dos trabalhadores rurais. Rumei para Brasília, onde assumi a direção das vendas da sucursal do jornal Movimento, e onde recebi as primeiras lições de jornalismo do brilhante repórter Teodomiro Braga, chefe da redação.

Uma das minhas tarefas era datilografar os artigos do diretor da sucursal, o aguerrido ex-deputado baiano Chico Pinto, que havia sido preso em 1974 por denunciar os crimes do general Augusto Pinochet, exatamente na véspera da posse do general Geisel. Chico Pinto, que foi um dos articuladores do lançamento do Movimento, enquanto ainda estava preso no Pelotão de Investigações Criminais do Exército, em Brasília, virava a noite escrevendo seus artigos à mão, numa letra miudinha difícil de decifrar. Antes de levar as matérias, as fotos e a ilustrações do jornal para o departamento de censura da Polícia Federal, eu tinha que passar no apartamento do Chico, na SQN 402, para apanhar as folhas manuscritas e voltar para a sucursal para datilografá-las.

Vida que segue – Antes de mim, o Adelite já havia se mudado para Brasília, onde, em parceria com outra companheira de Anápolis, também professora e bancária, Elizabeth Alves Silva, ajudou a fundar o Sindicato dos Professores, na época ainda uma associação. Em 1980, os dois ajudaram a tomar o Sindicato dos Bancários da direita, quando se elegeu para a presidência da entidade o sociólogo Augusto Carvalho, então militante do Partido Comunista Brasileiro, hoje deputado federal pelo Solidariedade.

Adelite participou da reorganização do PCdoB em Brasília enquanto eu segui a carreira de jornalista. Mesmo sem voltar a militar “de carteirinha”, continuei a fazer política na chamada franja do partido. Em 79, passei a assessorar, esporadicamente, o deputado operário comunista Aurélio Peres, eleito pelo MDB em 1978, e reeleito em 1982. A gente compunha o boletim de prestação de contas do mandato, estampando na primeira página um editorial assinado pelo deputado, que se destacara nacionalmente como líder do Movimento Contra a Carestia em São Paulo. Quase sempre à esquerda da linha geral do partido, o jornalzinho não economizava críticas às políticas do presidente José Sarney, que, de “tudo pelo social”, só tinham o nome. Mais de uma vez encontrei no gabinete do Aurélio o presidente do PCdoB, João Amazonas. Ele sempre me tratava com simpatia enquanto folheava o boletim. Parece que achava graça. 

Em 1982, também participei, junto com o Adelite e a Beth, da campanha doe Aldo Arantes a uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo PMDB de Goiás. Um dos resultados dessa campanha, em que o Aldo conquistou a primeira suplência, foi a eleição do prefeito de uma cidade do Entorno do Distrito Federal, Brasilinha, o Edenval Vaz. Durante a campanha, Adelite descobriu que estava com câncer em estágio avançado; morreu logo depois.

Por incrível que pareça, eu só tive plena certeza do assassinato do Drummond quando, ao cobrir uma manifestação dos movimentos da anistia no Salão Verde da Câmara dos Deputados, provavelmente no segundo semestre de 1978, vi um grande cartaz com a sua fotografia, entre a de outros militantes tombados na luta contra a ditadura. Só nessa ocasião a ficha caiu, e a raiva me fez mal durante dias. Em março daquele ano havia nascido o meu segundo filho, e ele foi registrado com o nome Osvaldo.

Um dos moleques que participavam conosco das atividades do MDB Jovem de Anápolis, o Egmar José, tornou-se um grande advogado e cumpriu papel importante na Comissão da Verdade. Foi justamente o Egmar que obrigou o Estado brasileiro a admitir, pela primeira vez, de papel passado, em 2014, que um militante político havia sido morto sob tortura enquanto estava sob a sua guarda, no DOI-Codi de São Paulo. O nome do militante: João Batista Franco Drummond, herói do povo brasileiro, meu professor de comunismo!

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Luciana Santos e Carlos Lopes na despedida de Sérgio Rubens,emocionante - Hora do Povo no Youtube

 HORA DO POVO

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Na tarde desta segunda-feira (6), muitos companheiros, amigos e familiares do dirigente revolucionário Sérgio Rubens de Araújo Torres, vice-presidente do PCdoB, fizeram uma ato em sua despedida no cemitério da Vila Alpina, em São Paulo. Ele que nos deixou na noite de domingo, vitima de um aneurisma.
Sérgio Rubens discursa no Congresso do PCdoB e PPL (Foto: PCdoB) 

Carlos Lopes, diretor de redação da Hora do Povo, iniciou a despedida, apontando as caraterísticas que fizeram de Sérgio Rubens “um grande homem”. “Durante 20 ou 30 anos, eu discuti diariamente com ele. Sérgio era, e até agora foi, a alma do Hora do Povo”. “Ele era um homem extremamente inteligente, extremamente comprometido e rigoroso”, disse Carlos.

Assista aos dois pronunciamentos 

CARLOS: “SÉRGIO NÃO TEVE UM INIMIGO PESSOAL DURANTE TODA A SUA VIDA” 

“Eu sabia perfeitamente que quando as coisas publicadas no jornal não estavam rigorosamente exatas, eu ia receber um telefonema que não ia ser agradável, E, no entanto, meus amigos, era o que ele devia fazer mesmo e isso foi extremamente bom para todos nós”, prosseguiu o chefe de redação do HP.

Carlos Lopes

“Que qualidades o Sérgio tinha que tornavam ele tão especial, além da inteligência, e de outras qualidades que ele tinha? É fundamentalmente a identificação dele com tudo que é humano”, destacou Carlos Lopes, citando um verso latino que Marx reproduziu, “nada do que é humano me é estranho”. “É exatamente o que o Sérgio achava”, acrescentou.

“Vocês podem dizer, mas ele achava que tudo que os seres humanos fazem é bom? Não, ele não achava isso. Mas o que os seres humanos fazem de errado e ruim é exatamente aquilo que não é humano. Exatamente aquilo que os desumanizam e que desumanizam os outros. E era isso que ele não suportava”, apontou o jornalista.

“Desde cedo, desde secundarista, na ligação dele com a cultura, na ligação com a luta do povo brasileiro, ele foi um homem de partido. Brecht, poeta que ele gostava muito, escreveu uma coisa muito importante: ‘um homem sem partido é um homem medíocre’. E isso, Sérgio compreendia muito bem. Ele sempre foi um homem de partido”, destacou o dirigente do PCdoB.

“E isso não tem nenhuma contradição com o amor que ele dedicava à sua família, o amor que ele dedicava aos seus filhos”, prosseguiu. “Eu como amigo pessoal dele, várias vezes conversamos sobre os netos. E em tudo era aquele sentimento de humanidade e de humor. Era um homem severo, mas ao mesmo tempo um homem de uma compreensão imensa”, assinalou.

“Eu o conheci pessoalmente em 1978, durante as conferências regionais para o II Congresso do MR8. Na conferência, realizada na cidade baiana de Lagoinhas, eu estava bastante mal e disse algumas besteiras. No intervalo ele me chamou e começou a fazer perguntas. A capacidade do Sérgio de fazer perguntas que ninguém tinha pensado ainda para descobrir a verdade, para fazer com que a gente estudasse era impressionante”, contou. 

“Porque era isso que estava na cabeça dele. Se a classe operária, se os trabalhadores, se os setores progressistas não estudarem, não tiverem conhecimento, eles nunca vão chegar ao poder. E isso era uma questão ultra presente para ele”, completou.

“Se a classe operária, se os trabalhadores, se os setores progressistas não estudarem, não tiverem conhecimento, eles nunca vão chegar ao poder. E isso era uma questão ultra presente para Sérgio” 

Carlos Lopes enfatizou que “nós perdemos um grande homem”. “Engels, no enterro de Marx, disse que uma das qualidades impressionantes de Marx é que ele nunca teve um inimigo pessoal. E a mesma coisa nós podemos dizer do Sérgio. Era preciso ser um canalha para ser inimigo pessoal do Sérgio. Ele não teve um inimigo pessoal durante a sua vida”, concluiu o jornalista.

LUCIANA : SÉRGIO ERA UM IDEÓLOGO, UM FORMADOR DE GERAÇÕES 

Luciana Santos

“Falar de Sérgio Rubens, um homem como este, não é simples. De um brasileiro, um revolucionário que eu tive a honra de conhecer há três anos atrás, lá no escritório da Hora do Povo. Sabe aquela primeira impressão? A primeira impressão que eu tive foi de apaixonamento”, revelou Luciana. 

“Um homem tranquilo, sereno, com ideias consistentes, denso. Nós nos encontramos num momento muito adverso. Nada mais nada menos do que a vitória de Jair Bolsonaro em que as nossas duas legendas, PPL e PCdoB, não tinham alcançado a cláusula de barreira”, lembrou.

“E ali”, prosseguiu Luciana, “nós estávamos exercitando o que é que nos unia”, observou a vice-governadora de Pernambuco. 

“Ele, um homem de ideias, que conhecia bem a trajetória do PCdoB, e a gente também conhecia o MR8, depois o PPL. Ali a gente fez esse exercício de unidade. E ele dizia assim. Nós, num momento como este, temos que buscar muito as nossas convergências e nós temos muitas coisas em comum. Nós desejamos o mesmo para o Brasil, para os brasileiros e brasileiras. Nós queremos nada mais do que construir o socialismo no Brasil. E nós temos formulações, os caminhos para chegar nisso. Nós somos marxistas, defendemos o socialismo científico. E as nossas diferenças táticas, elas são secundárias neste momento”.

“E assim ele agiu, praticou”.

“E ao longo do tempo eu tive a honra de conviver com ele e admirá-lo cada vez mais. Pela sua consistência, pela sua capacidade de elaboração e, antes de tudo, pelo espírito partidário, o espírito de unidade. Ele, em qualquer que seja a circunstância do momento, ele é honesto intelectualmente. Ele nunca deixou de firmar as suas posições, mas ele sempre procurava o caminho de harmonizar”.

“Sérgio nunca deixou de firmar as suas posições, mas ele sempre procurava o caminho de harmonizar” 

“Sei depois o quanto cada um e cada uma de vocês, que conviveram com ele desde esse tempo, têm memória da afetividade, da generosidade dele. Isso parece óbvio, mas, o verdadeiro comunista é aquele que, ao entender que esse mundo tem jeito, ele procura cuidar, formar, dar consistência ideológica, persistir. Ele era um formador de gerações, um educador de gerações”.

APAIXONADO POR CINEMA

“Eu sei o quanto ele primava por isso. Apaixonado pelo cinema. Não tinha uma semana que Sérgio Rubens não me mandasse um filme para eu poder assistir. E agora mais recentemente, cuidadoso que ele é, estava cuidando de criar, ele estava montando com a CTB, um cineclube para passar os filmes que refletissem o debate sobre a luta dos trabalhadores”.

“Então, camaradas, Sérgio Rubens era um homem de perspectivas, e as suas ideias, elas estão entre nós. Elas permanecerão como uma necessidade de um futuro que ele sempre lutou para que nós percorrêssemos e alcançássemos. Então, nessas horas é fato que a gente se sente órfão. A gente se sente órfão porque essas são pessoas que são insubstituíveis”.

Amigos, familiares e companheiros se despediram de Sérgio Rubens nesta segunda-feira 

“Mas que essa convicção que sempre moveu ele, desse mundo que a gente tanto persegue, então, numa hora como essa, ele recai sobre nós com mais responsabilidade ainda. Quando a gente perde um guerreiro, a gente não enterra ele, a gente planta ele. A gente planta para que floresçam mais e mais guerreiros dessa luta, que é a luta por justiça, a luta pela humanidade”.

“Ainda mais ele que era um desses quadros políticos. Porque muitos de nós temos qualidades, defeitos, mas é impressionante como Sérgio era um quadro acima da média. Ele conseguia reunir muitas qualidades, qualidades difíceis de serem desenvolvidas por uma pessoa só. Além de grande capacidade de elaboração teórica, ele tinha opinião própria, ele era ideólogo e de uma densa cultura. Por isso, falava com fundamento, com consistência. Não tinha nada que ele falasse que não fosse fruto de alguma reflexão daquela circunstância, daquele determinado momento”.

Muita emoção na despedida

“Então, eu sei o quanto ele é amado e vocês podem ter certeza que eu passei a admirá-lo e amá-lo com tudo isso que a gente tem construído juntos”.

“Porque ele fez um gesto de grandeza num momento que não é fácil encontrar. Porque, afinal, ele foi sucessor de Cláudio Campos, ele é sucessor de um grande legado, de uma grande história. Não é uma história recente do povo brasileiro, é de feitos extraordinários, de grande momentos de virada da conjuntura brasileira. Ele podia simplesmente não engrossar essa fileira e ele fez um gesto político de grandeza, do tamanho das ideias dele, do tamanho da estatura que ele é”.

“E vocês podem ter certeza, camaradas, esse legado que Sérgio deixou para a gente, nós vamos fazer jus a ele. Vamos cada vez mais jogar luz, dar o peso e o tamanho que ele tem. E servir de referência pra gente, pra nossa perspectiva. Sérgio Rubens, camarada, presente!”


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

Sérgio Rubens: agora, teremos que seguir sem ele... Marco Antônio Campanella


A primeira sensação ao receber a notícia de sua morte foi de incredulidade. No fundo, não queria acreditar, aceitar, mas a ficha foi caindo até que veio a matéria do Carlos Lopes na Hora do Povo e, depois, a nota da presidenta Luciana Santos. A cada parágrafo, uma emoção e incontida lágrima. 
Conheci Sergio Rubens há 45 anos atrás, não exatamente como Sergio Rubens, em razão do nome de guerra que usava na clandestinidade. 
Passou a ser para mim e, tenho convicção, para toda uma geração de militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), uma permanente referência, como revolucionário e como ser humano. 
Desde que soube de sua partida, tentei encontrar palavras para expressar o sentimento de alguém que, como tantos outros, teve a honra de conviver com Sergio Rubens ao longo dessa caminhada.  
Difícil, muito difícil, conseguir traduzir o que Sergio Rubens representou para nossa geração e, certamente, continuará representando, mesmo para aqueles que não o conheceram. 
Arrisco-me, todavia, elencar algumas entre suas incontáveis qualidades: inteligência rara, perspicácia e fino humor, capacidade incomum de síntese, humildade, imensa grandeza e cultura revolucionária, teórica e prática, liderança real e natural, e, acima de tudo, compromisso com o seu coletivo, o povo e a Humanidade. 
Agora, recentemente, voltei a conviver mais frequentemente com ele, ainda que à distância, na edição da Hora do Povo. 
Sergio não tinha hora para se dedicar à luta e à causa revolucionária. 
Muitos foram os dias em que, de madrugada, ficávamos horas tratando de um determinado assunto que, invariavelmente, ramificava-se em tantos outros, pois raro era o tema que meu querido camarada não dominava – e com profundidade. 
Sempre saia mais revigorado dessas conversas, inclusive naquelas em que ele tecia suas críticas, mesmo as mais ácidas, diante da certeza de que as fazia pelo compromisso que tinha com o crescimento ideológico de cada um de nós e do coletivo. 
Em um dos nossos últimos contatos, que eu esperava para tratar de alguma questão política ou editorial do jornal, ele simplesmente me perguntou como eu estava, pois recebera, por outro camarada, a notícia de que um problema de saúde havia me acometido. 
Quis saber detalhes do problema e do tratamento proposto, concluindo a conversa com uma advertência: “camarada, nossa luta não pode prescindir de ninguém... se cuide!”, ao que secundei, como sempre, perguntando sobre sua saúde... Lembro-me que, muito recentemente, falou-me, animado, da evolução do seu tratamento, algo intrinsicamente ligado à nova fase da luta antifascista à qual Sergio estava se preparando. 
Assim era Sergio Rubens: compromisso sem limites com cada um e com todos ao mesmo tempo!
Uma perda imensa para cada um dos que o conheceram e conviveram com ele, mas, sobretudo, uma perda extraordinária para a luta revolucionária. 
Partiu um amigo, um companheiro, um camarada, um guia, para mim! 
Nossos profundos sentimentos à Júlia, sua esposa, e aos filhos Janaína e Bernardo. 
O único lenitivo para o momento é a convicção de que ele continuará vivendo em cada um de nós e em nossa luta, e a convicção de que a morte de um gigante revolucionário como Sergio Rubens já nos cobra um esforço redobrado para honrar sua memória, seu exemplo e seu legado. 
É isso que ele fez quando outros tantos partiram antes - e é isso que faremos! 
VIVA SERGIO RUBENS!!!
SERGIO RUBENS, PRESENTE!!!

Sérgio Rubens, obrigado, camarada! #luto

 

#luto - PCdoB e o Brasil perdem Sérgio Rubens, Vice-Presidente Nacional do PCdoB


É com o coração atravessado de dor e tristeza que comunicamos o falecimento de Sérgio Rubens de Araújo Torres, vice-presidente e membro do núcleo dirigente do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ocorrido na noite deste domingo (5). Perdemos um grande brasileiro e um revolucionário de estatura elevada.

Sérgio Rubens tem uma trajetória de décadas de militância e liderança, que vem do lendário Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8) e de seu sucedâneo, o Partido Pátria Livre (PPL), até chegar, com muita honra, ao PCdoB, em 2019.

Diante das graves ameaças advindas da vitória da extrema-direita em 2018, Sérgio Rubens tomou uma decisão histórica ao promover a união de forças entre o PPL e o PCdoB. Decisão que foi construída harmonicamente entre as direções das duas legendas.

Foi expoente e liderança de primeira grandeza de uma corrente política patriótica, revolucionária e marxista. Sua atuação como dirigente do PCdoB enriqueceu nossa legenda em sagacidade tática, visão estratégica, cultura patriótica e formação teórica marxista.

Seu exemplo de compromisso e dedicação sem limite ao Partido, ao Brasil, ao povo ficará para sempre em nosso coletivo militante. Foi de uma lealdade irretocável, e de uma generosidade que nos alimentava de valores revolucionários elevados.

Homem de cultura densa, amante do cinema, entremeio às suas tarefas gerais complexas, trabalhava com afinco para que os bons filmes pudessem ser assistidos pelo povo. Tinha convicção de que o cinema tem o grande papel de descortinar horizontes de liberdade e de impulsionar projetos políticos de transformação.

São apenas breves referências, sob o impacto da grande dor que sentimos pela morte de Sérgio Rubens. Sua biografia é longa, densa, rica, de amor ao Brasil e ao povo.

A bandeira vermelha de nosso Partido, entrelaçada à bandeira verde amarela de nossa pátria, se curva em honra à memória e ao legado de Sérgio Rubens. Nossos sentimentos afetuosos aos familiares, aos camaradas que com ele lutaram por décadas, ao conjunto de nossa militância e dirigentes que sabem da grande perda que o Brasil e o nosso Partido acabam de sofrer.

Camarada Sérgio Rubens, saberemos honrar seu exemplo de grande revolucionário, saberemos honrar teu rico legado!

Recife, 5 de dezembro de 2021

Luciana Santos

Presidenta do Partido Comunista do Brasil (PCdoB)

quarta-feira, 25 de março de 2020

Ramiro Sombra - um herói do povo - não corta eletricidade em quarentena

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Granma: Livres os cinco heróis cubanos - Vitória histórica

Cuba abre los brazos a sus hijos Gerardo, Ramón y Antonio en una bienvenida que emana calor humano y sentimiento sincero


La alegría del regreso en los héroes y Raúl. Foto: Estudio Revolución
El cielo cubano, ese que tanto soñaron ver, fue el primero en darles la bienvenida a nuestros Héroes; luego el olor y la brisa, esa sensación de libertad… Difícil para los ojos creer lo que ante ellos estaba aconteciendo, para el corazón recibir de golpe tanto regocijo, para el pueblo radiante, absorto y eufórico abrir los brazos finalmente a sus hijos y brindarles una taza de café. Once millones de lágrimas multiplicadas se derramaron mientras se daba a conocer la noticia, y más tarde cuando llegaron unas tras otras las imágenes donde Raúl les daba la bienvenida a nuestra Patria.
Quién no se electrizó junto a Elizabeth con el beso de Ramón, quién no se enterneció con la mirada de Gerardo a su amada Adriana, quién no sintió en la piel el mismo calor que emanó entre Mirta y su hijo Tony ante el abrazo que creían imposible recibir… A dónde salieron disparados todos los sentidos cuando se les escuchó decir “Para lo que sea”, a ellos que hasta en ese momento nos estaban dando una lección de genuino patriotismo.
Y afuera, en las calles, un mar humano para darles la bienvenida a casa, a este hogar confortable, caliente y amoroso, que en cuanto lo supo estremeció sus cimientos y llenó de júbilo cada rincón del país. En la grandeza de la patria y de sus hijos, dice una sentencia martiana, no es mentira decir que siente crecer el corazón.


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Diógenes Arruda Câmara: O guerreiro sem repouso (2) - Augusto Buonicore

Zé Duarte, João Amazonas e Arruda quando Amazonas volta do exílio, 
pouco antes de seu falecimento, em 1979





Augusto Buonicore *

“Certa vez, quando estávamos na China em pleno inverno, um fio de lascar, 39º abaixo de zero, olhávamos pela janela e tudo lá fora estava completamente branco, coberto de neve. Foi aí que vi Diógenes à beira da janela com lágrimas escorrendo pelo rosto. Como poucas vezes o vi chorar, perguntei: O que foi meu nego? Ai ele me disse: - Tereza, será que está chovendo no sertão?” Depoimento de Tereza da Costa Rego, companheira de Arruda. 

Retomando os laços perdidos

Após sair do Comitê Central no V Congresso do Partido Comunista do Brasil (PCB), Diógenes Arruda começou a trabalhar num escritório de planejamento na cidade de São Paulo. Em 1963, voltou a Pernambuco para assessorar o governador Miguel Arraes e realizar alguns projetos junto a SUDENE.

Ainda existem dúvidas sobre quando ele reingressou no PC do Brasil. João Amazonas, numa entrevista, descreveu a retomada dos contatos com o velho amigo: “Arruda ainda não tinha conseguido compreender a reorganização do Partido. Então, eu e Maurício Grabóis, passado algum tempo (...) fomos a casa dele e tivemos uma longa conversa. E o Arruda de cara fechada com a gente. Então, eu disse: ‘Você tem importância para o Partido. (...) O teu lugar é aqui e não fora daqui’. O Arruda conversou, conversou e foi mudando sua fisionomia. Na hora que saímos, lá vem ele andando conosco; uma distância grande até que nós pegássemos o ônibus. Então, o Arruda tinha reencontrado o seu partido”.

Por outro lado, o líder do PC brasileiro, Gregório Bezerra, falou de um fato ocorrido no dia do golpe militar de 1964: “Fui até a redação da Folha do Povo, mas não encontrei nenhum camarada. (...). Quando vou saindo, dou de cara com o camarada Diógenes Arruda Câmara, que diz: ‘Vim apresentar-me para a luta. Cumprirei qualquer tarefa que o partido me confiar.
Disponham de mim para tudo’. Eu tinha um pé atrás com esse companheiro (...) mas, diante de sua atitude de homem de partido, passei a respeitá-lo como verdadeiro revolucionário comunista”. Contudo, não houve resistência popular à altura da necessidade. Arruda deve ter se perguntado: qual teria sido a razão daquela derrota?

Sendo uma figura de esquerda, odiada pelas forças conservadoras, Arruda teve que se esconder. Primeiro refugiou-se no litoral norte de Pernambuco; depois, no Mosteiro de São Bento em Olinda. O local foi conseguido por Tereza Costa Rego, uma amiga que logo se tornou sua companheira.

Eles se conheceram em 1962 e dizem que foi amor à primeira vista. O problema é que ela era casada e tinha duas filhas. Pertencia a uma tradicional família pernambucana. Isso fez cair sobre ela todos os preconceitos de uma sociedade patriarcal e conservadora. Foi deserdada e perdeu a guarda das filhas. Como o amor que sentiam era maior, mandaram tudo para os ares. Tiveram que atravessar a via crucis da incompreensão familiar e o terror ditatorial.

Arruda e Tereza se mudaram para São Paulo. Foi uma verdadeira revolução na vida dela. Afirmou ela: “fui morar com ele, saindo de uma casa com 11 empregados, para um apartamento que tinha 4 por 6 metros, uma mini-cozinha e um banheiro. O apartamento tinha um monte de livros até o teto, um colchão no chão e um ramo de rosas sobre ele”. Agora em situação legal, Arruda passou a trabalhar num escritório de planejamento urbano.

De novo com os estudantes

Muito provavelmente, ele já tivesse reatado os contactos com aqueles que reorganizaram o PCdoB, embora ainda não tivesse se decidido pela reintegração àquela organização. Isso explicaria o fato de ter procurado Gregório Bezerra e se colocado à disposição para resistir ao golpe militar em Recife.

Também podemos supor que a gravidade da derrota sofrida naquele primeiro de abril de 1964 – uma derrota sem luta - tenha o levado a se decidir pelo reingresso no PC do Brasil. Afinal, este havia sido o Partido que mais criticara as ilusões reformistas predominantes na esquerda brasileira. As teses em voga que apregoavam a transição e a coexistência pacíficas sofreram um forte desgaste. A chamada burguesia nacional, tida como aliada preferencial na primeira etapa da revolução, mostrou toda sua pusilanimidade. O esquema militar de Jango, que muitos se fiavam, demonstrou-se ilusório. A estratégia política defendida pelo PCB, aos olhos de vários setores de esquerda, havia fracassado.

Por isso, vários militantes abandonaram o PC Brasileiro e aderiram ao PC do Brasil. Comitês inteiros trocaram de Partido, como aconteceu no Ceará e Maranhão. Um pouco mais tarde ingressou o pessoal do Comitê Marítimo e a Maioria Revolucionária do Comitê Regional da Guanabara, ambos ligados ao PCB. O pequeno PCdoB começava a ganhar musculatura.

A entrada de Arruda, no entanto, seria o pivô de mais uma polêmica. O pessoal que estava formando a Ala Vermelha acusava a direção de querer mudar o estatuto na VI Conferência (1966) para permitir o ingresso de Arruda diretamente no Comitê Central, sem precisar ter militado em uma organização de base. As acusações não tinham fundamento: 1º Arruda era um veterano comunista, que teve uma ação importante nas bases partidárias; 2º Ele não passou compor a direção nacional logo após a conferência. Isso só viria acontecer muitos anos depois.
Portanto, o que sabemos é que Arruda já estava de volta em 1966 e colaborava com a direção regional de São Paulo. Ficou responsável por dar assistência às bases estudantis. Assumiu a nova tarefa num momento bastante difícil. A Ala Vermelha – que havia sido expulsa do PCdoB - tinha causado grande estrago ao levar consigo parte da militância nessa frente. Tratava-se, então, de reorganizar o trabalho. Era quase um recomeço para um homem que já tinha 54 anos dos quais 33 dedicados à construção do Partido Comunista.

Um jovem que conviveu com ele naqueles dias foi Dalmo Ribas. O Arruda, afirmou ele, “começou dar assistência ao movimento estudantil em 1967. Nessa ocasião nós estávamos bastante desgastados com o ‘racha’ (da Ala Vermelha). Minha lembrança mais antiga me reporta à reunião em que fomos apresentados pelo jornalista e dirigente regional Armando Gimenez. Nessa ocasião era totalmente vedado ao militante especular quem era quem. Se alguém ousasse perguntar, isso valeria uma admoestação: ‘curiosidade é coisa de policial’. Arruda trazia para as reuniões, muita história do Partido. Somente após sua prisão é que soubemos de quem se tratava”.

Prisão, tortura e resistência 

Com a promulgação do AI-5, em dezembro de 1968, o regime se tornou ainda mais ditatorial. As prisões, torturas e assassinatos passaram a compor o cotidiano dos militantes de oposição. Fechava-se o cerco sobre as organizações de esquerda. O destino de Arruda começou a ser decidido quando um casal de militantes esqueceu uma pasta de documentos partidários dentro de um táxi. Através deles descobriu-se a casa na qual se reunia o pessoal do PCdoB. Os policiais ocuparam a residência, prenderam a moradora e montaram uma tocaia.
Em 11 de novembro, quando Arruda bateu na porta foi cercado por quase uma dezena de policiais fortemente armados. Eram agentes da temida Operação Bandeirantes (OBAN). Arruda foi barbaramente seviciado nos porões do DOPS e do CENIMAR. Durante as sessões de tortura teve duas paradas cardíacas, perdeu uma das vistas e seus dedos foram quebrados. Ficou tuberculoso e perdeu mais da metade de sua capacidade pulmonar. Mesmo assim não se rendeu. Não disse uma palavra que pudesse comprometer seus camaradas ou o Partido. Teve um comportamento exemplar e transformou-se num símbolo da resistência contra a ditadura.

Na sua defesa diante da auditoria militar declarou: “Sou dirigente comunista. Não presto contas senão ao meu partido e ao povo. Minhas idéias marxistas e minha honra têm maior valor que minha vida (...). Acredito que um dirigente comunista não se deixa abalar pelo suplício e tudo pode suportar por suas idéias, pois está plantando uma seara que irá frutificar (...) um mundo de pães e rosas”. Apesar de tudo que diziam dele, Arruda se tornou uma pessoa muito querida entre jovens de todas as correntes políticas. É consenso entre aqueles que o conheceram que, apesar do jeito às vezes grosseiro, tinha um grande coração.

Descrevo uma cena narrada por um de seus companheiros de cárcere. Numa noite muito fria, o jovem preso tentava dormir quando sentiu algo e, discretamente, abriu os olhos. Era Arruda que, silenciosamente, o tinha coberto com seu único cobertor. Nada de estranho se aquele garoto não fosse um militante da Ala Vermelha, um racha do PCdoB. O nome dele era Alípio Freire.

Arruda foi libertado em 21 de março de 1972. Diante do seu estado físico, foi solto na certeza que morreria em breve. Novamente, os esbirros da repressão erraram. Arruda sobreviveu e continuou o seu combate. Contudo, uma nova prisão lhe seria fatal. Então, a direção solicitou que ele deixasse o país e fosse ajudar no setor de relações internacionais, colaborando na divulgação da Guerrilha do Araguaia que havia se iniciado.

Santiago, Buenos Aires e Paris 

Arruda, Tereza e filhos atravessaram a fronteira da Argentina como se fosse uma família abastada. Em seguida foram para o Chile, presidido pelo socialista Salvador Allende. O pessoal do PCdoB articulou com outros exilados a construção de um comitê de solidariedade à luta do povo brasileiro. Criaram o boletim “Jornadas da Luta Popular”, que se transformou num instrumento de divulgação da resistência armada no sul do Pará. Arruda e Dynéas Aguiar eram os principais animadores dessa iniciativa.

Quando houve o golpe militar no Chile, em 11 de setembro de 1973, Arruda se refugiou na embaixada da Argentina. Este era um dos únicos países democráticos ainda existentes no Cone Sul. Entre os refugiados brasileiros estava Amarilio Vasconcelos, reorganizador do Partido Comunista em 1943, e um jovem militante comunista chamado Raul Carrion. Eles teriam que esperar mais de um mês até que o asilo lhes fosse concedido.

Mesmo na Argentina a situação estava mudando para pior. Em julho de 1974, o presidente Perón morreu e em seu lugar assumiu Isabelita. Este foi um governo fraco que permitiu o crescimento das ações terroristas, promovidas por grupos paramilitares. A situação exigiu que Arruda fosse rapidamente retirado dali. Depois de muita negociação ele conseguiu novo asilo na França.

Houve, então, uma espécie de divisão das tarefas. Arruda cuidaria das relações com os países da Europa e Dynéas com os da América Latina. Nessa condição visitou a Albânia, Itália, Suécia e Portugal – e, também, a China. Nos países socialistas Arruda era tratado como verdadeiro chefe de Estado. Em Portugal deu grande contribuição na organização do Partido Comunista Português Reconstruído (PCP-R) e da União Democrática e Popular (UDP).

Brasil as coisas haviam ficado muito difíceis para o PCdoB. Entre 1972 e 1973 foi destroçada a comissão nacional de organização. Tombaram assassinados os dirigentes Carlos Danielli, Lincoln Oest, Luis Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque. A ação repressiva tinha por objetivo cortar ligações entre o partido e os guerrilheiros no Araguaia. Foi nessa época que, visando preencher os vazios deixados na direção, Arruda ingressou no Comitê Central.

A situação se agravaria ainda mais com a derrota da Guerrilha e o assassinato da maioria dos seus combatentes, inclusive do comandante Maurício Grabóis. Pouco tempo depois, em dezembro de 1976, caiu nas mãos da repressão uma reunião do Comitê Central. Foram assassinados três dirigentes - Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond – e quase uma dezena foi presa e torturada. A grande imprensa chegou anunciar o fim do PCdoB.

Como ocorreu no início da década de 1940, o Partido Comunista do Brasil deveria passar por um uma nova reorganização. Os dirigentes que estavam no exterior – Amazonas, Arruda, Dynéas e Renato Rabelo – começaram a restabelecer os contactos com os militantes e os comitês regionais que ainda resistiam no interior do país. Em pouco tempo esse trabalho estava, no fundamental, concluído. Para Arruda era preciso coroar esse esforço com a realização de uma conferência nacional. A 7ª Conferência reuniu-se na Albânia entre 1978 e 1979. O PC do Brasil, como a Fênix da mitologia parecia renascer das cinzas.

Após a Chacina da Lapa, Arruda escreveu uma série de artigos sobre os deveres da militância comunista. Esses artigos, posteriormente, foram publicados em “A educação revolucionária do comunista” e cumpriram um grande papel na formação ideológica dos comunistas nos estertores da ditadura militar. Uma de suas frases que ficou famosa era: “Primeiro o partido. Depois a vida, se possível!”. Consigna que os comunistas levaram muito a sério naqueles anos de chumbo.

Outra característica de Arruda era a sua grande preocupação com a formação teórica dos militantes comunistas. Sobre isso anos disse Amazonas: “Onde Arruda chegava já estava pensando em fazer algumas palestras sobre problemas teóricos e, em pouco tempo, organizava um curso (...) Foi o camarada Arruda que iniciou os cursos Stalin. (...) Eles jogaram um papel importante na formação dos quadros do nosso Partido (...). Depois, conseguiu que, na escola Superior do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, se realizassem cursos para os comunistas brasileiros. (...) Esse capital teórico que adquirimos foi fruto da atividade do camarada Arruda”. Muitas pessoas testemunharam que ele adorava organizar cursos e dar aulas para os jovens estudantes na década de 1960. Mesmo no breve período que esteve na embaixada da Argentina não deixou de dar suas palestras. Também deu aula de marxismo-leninismo no presídio Tiradentes. Loreta Valadares, no seu livro autobiográfico, comentou sobre os cursos que Arruda organizou em Buenos Aires e na Albânia, para os exilados na Europa.

A volta do guerreiro

O general Figueiredo, depois de resistir muito, anunciou uma anistia parcial que excluía os autores dos chamados “crimes de sangue”. O povo nas ruas protestou contra tal limitação e exigiu que ela fosse “ampla, geral e irrestrita”. Os exilados se esforçaram para repercutir ao máximo a campanha no exterior e isolar o regime. Arruda participou desse processo. Esteve presente e falou no Congresso Internacional pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita, realizado em Roma em junho de 1979.

Em setembro daquele ano, logo após a decretação da anistia, retornou ao Brasil e envolveu-se numa pesada agenda política. Ele percorreu vários estados defendendo a ampliação da anistia e a unidade da oposição contra a ditadura militar. No II Encontro pela Anistia, realizado na Bahia, ocorreu um encontro simbólico. Na mesa de abertura reuniram-se, pela primeira vez desde a divisão do movimento comunista brasileiro, os camaradas Arruda, Prestes e Apolônio de Carvalho.

No dia 25 de novembro, Arruda estava muito ansioso, dormira mal a noite toda. Uma coisa o preocupa: o regresso do principal dirigente do PCdoB, João Amazonas. Nada poderia dar errado naquele dia. Chovia muito e uma multidão tomava conta do aeroporto de Congonhas. Arruda logo se colocou ao lado do amigo que acabava de chegar. Amazonas tinha uma aparência frágil e Arruda se preocupava muito com sua segurança. A emoção e a tensão eram grandes naquele local. As fotos tiradas naquele dia demonstram isso.

Ainda dentro do carro que o levaria ao ato público, começou a passar mal. O coração sertanejo marcado pelas torturas não resistiu e, pela primeira vez, entregou os pontos. Arruda não viveria para ver as bandeiras vermelhas tomarem as praças na memorável campanha das diretas, nem a derrota definitiva da ditadura militar, nem a conquista da legalidade de seu partido. Contudo, nenhuma dessas vitórias seria possível sem homens e mulheres como ele.

Teresa Costa Rego, A Partida (1981)



Quando estava preso redigiu uma declaração ao tribunal militar. Ela resumiria, de maneira exemplar, sua maneira revolucionária de encarar a vida: “Não me norteia a vida um viver tranqüilo e pacato, um viver de aconchegos e comodidades, encerrado no círculo estreito de interesses individuais. Meu caráter, meu temperamento, minhas idéias, meus critérios de valor, meu senso político, tudo me preserva da reflexão egoísta, do acomodamento circunstancial, do silêncio velhaco, do servilismo oportunista, da sonegação da verdade. É difícil viver com dignidade, mas somente assim vale a pena viver”. E, por esses critérios, viveu e morreu o sertanejo comunista Diógenes Arruda Câmara.

Leia a primeira parte
Bibliografia

Arruda, Diógenes – A educação revolucionária do comunista, Ed. Anita Garibaldi, 1982
Bezerra, Gregório – Memórias (2ª parte) Ed. Civilização Brasileira, 1979.
Câmara, Cristina Arruda – Um comunista em família: biografia de Diógenes da Arruda Câmara, Monografia de conclusão de curso na faculdade de Comunicação da UFRJ, 1997.
Falcão, João – O Partido Comunista que eu conheci. Ed. Civilização Brasileira, 1988.
Bertolino, Osvaldo – Maurício Grabóis: uma vida de combates, Ed. Anita Garibaldi, 2004
Souza, Cícero M & Andrade, Antonio R. – “Comunismo a brasileira: a trajetória da utopia revolucionária de Diógenes Arruda Câmara” In Universidade & Sociedade, nº19, maio/agosto de 1999. UNB
Valadares, Loreta – Estilhaços, Sec. Cultura e Turismo de Salvador, 2005

Documento

Declaração de Diógenes de Arruda Câmara ao Conselho de Justiça da II Auditoria da II Circunscrição Jurídica Militar, s/d

Entrevistas

Diógenes Arruda – Entrevista realizada pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza – Não chegou a ser publicada na época. Descoberta por Osvaldo Bertolino foi publicada no sítio Vermelho.

Tereza da Costa Rego – Entrevistas realizadas por Olívia Rangel (s/d) e por Olivia Rangel e Osvaldo Bertolino em 25/05/2005

João Amazonas – Entrevistas realizadas pela Comissão Especial sobre a história do PC do Brasil - 2001

Agradecemos também as informações prestadas por Dyneas Aguiar, Alípio Freire, Dalmo Ribas e Raul Carrion.



Imagens:

Download arruda_05Arruda e sua amada Teresa Costa Rêgo


Download arruda_04 Arruda e sua amada Teresa Costa Rêgo

Download arruda_03

Download arruda_02

Download Arruda_01 Arruda e Di Cavalcanti

domingo, 12 de julho de 2009

Bergson Gurjão Farias: Guerrilheiro do Araguaia

www.diariodonordeste.com.br

08/07/2009 - 09:58

Guerrilheiro cearense é identificado no Araguaia e será sepultado

Busca por ossadas no Araguaia começa hoje

Agência Estado / Portal Verdes Mares / Diário do Nordeste

Bergson Gurjão Farias, do PC do B, morto por tropas do Exército na guerrilha do Araguaia em maio de 1972. (Foto: Arquivo pessoal)

Começa nesta quarta-feira (8) a fase preparatória das novas buscas de corpos de integrantes da Guerrilha do Araguaia (1972-1975) no Sul do Pará. Uma equipe do Ministério da Defesa visitará a Casa Azul - principal base militar na região durante o conflito - e o cemitério São Miguel, no centro antigo de Marabá.

Cearense é um dos únicos corpos já identificados; família fará sepultamento

Dos 67 guerrilheiros mortos pelo Exército, apenas dois tiveram os corpos identificados até hoje pelo governo - Maria Lúcia Petit e do cearense Bergson Gurjão Farias.

Bergson Gurjão Farias, do PC do B, morreu em 1972

Identificado extraoficialmente em 2004, o corpo do guerrilheiro cearense Bergson Gurjão Farias, do PC do B, morto por tropas do Exército na guerrilha do Araguaia em maio de 1972, poderá enfim ser sepultado pelos familiares.

“É o dia mais importante da minha vida de pesquisadora"

O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, aceitou argumentos da pesquisadora Myrian Luiz Alves e anunciou a identificação do guerrilheiro por um laboratório de São Paulo, feita com base na análise mitocondrial. A família de Bergson foi notificada na última terça-feira (7) mesmo em Fortaleza para providenciar os funerais.

“É o dia mais importante da minha vida de pesquisadora, foram sete anos de trabalho e dedicação”, disse Myrian ao Estado, chorando, ao saber do anúncio. Ela, ligada ao PT, travou uma guerra contra setores do governo que não aceitavam seus argumentos de que o corpo era de Bergson.

FIQUE POR DENTRO Bergson foi torturado e morto a baioneta O cearense Bergson Gurjão Farias era estudante de Química da Universidade Federal do Ceará e vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE), em 1967. No ano seguinte, mudou-se para Caianos, na região do Araguaia e desapareceu em 8 de maio de 1972, após ter sido ferido em combate. Seu corpo foi levado para Xambioá, todo deformado, tendo sido pendurado em uma árvore de cabeça para baixo. O desaparecimento do jovem guerrilheiro foi denunciado em juízo pelos presos políticos Genoino Neto e Dower Moraes Cavalcante. De acordo com os presos, Bergson teria sido morto a baioneta. www.opovo.com.br

Da UFC para a luta armada

16 Mai 2009 - 18h53min

Segundo dados da organização não-governamental Tortura Nunca Mais, Bergson Gurjão Farias nasceu em 17 de maio de 1947, em Fortaleza, Estado do Ceará, filho de Gessiner Farias e Luiza Gurjão Farias, e desapareceu na Guerrilha do Araguaia. Ele era estudante de Química na Universidade Federal do Ceará, e vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes, em 1967. Foi preso no Congresso da UNE, em lbiúna, em 1968 e foi expulso da Faculdade com base no Decreto-lei 477. Indiciado no inquérito por participação no XXX Congresso da UNE, foi condenado em 1° de julho de 1969 pelo CPJ do Exército a 2 anos de reclusão. Em 1968, no Ceará, foi gravemente ferido à bala na cabeça quando participava de manifestações estudantis. Refeito dos ferimentos e sob feroz perseguição, foi para o interior, indo residir na região de Caianos, onde continuou suas atividades políticas. Ferido em combate, em 8 de maio de 1972. Seu corpo foi levado para Xambioá, todo deformado, tendo sido dependurado em uma árvore, com a cabeça para baixo, a qual era chutada constantemente pelos paraquedistas mobilizados na caça aos guerrilheiros. Segundo depoimento de Dower Cavalcanti, ex-guerrilheiro já falecido, o General Bandeira de Melo lhe dissera que Bergson estaria enterrado no Cemitério de Xambioá. Seu desaparecimento foi denunciado em juízo, em 1972 e 1973 pelos presos políticos José Genoino Neto e Dower Moraes Cavalcante.(PV)

Araguaia

O acerto de contas com o passado

Trinta e sete anos depois, o Ceará reencontra a história do guerrilheiro Bergson Gurjão. Na próxima quarta-feira, dia 20, a Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou julga o pedido de indenização para a família

Paulo Verlaine da Redação 16 Mai 2009 - 18h53min

A ossada é ou não é de Bergson Gurjão Farias? É a mais nova polêmica que se trava em Brasília. O motivo da discussão é o possível esqueleto de um guerrilheiro cearense, militante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), morto em combate na Guerrilha do Araguaia (sudeste do Pará, norte de Tocantins, então Goiás, e sul do Maranhão), em 8 de maio de 1972. Ele foi o primeiro guerrilheiro a morrer em choque com o Exército. Bergson Gurjão, de 25 anos, foi mortalmente ferido numa emboscada, após uma troca de tiros com uma equipe de pára-quedistas. Antes disso, ele atirou no então tenente Álvaro Pereira, que sobreviveu e hoje é general da reserva e um dos ideólogos das Forças Armadas. Transtornados, os demais integrantes da tropa trucidaram o guerrilheiro. Relato de um sobrevivente, Dower Moraes Cavalcante, conta que, o corpo, já sem vida, foi perfurado a golpes de baioneta e, depois, pendurado de cabeça para baixo em uma árvore na região do Araguaia. Anistia A Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou julgará no próximo dia 20, às 8h30min, no auditório da Reitoria da Universidade Federal do Ceará, o pedido de indenização para a família de Bergson Gurjão Farias. Segundo o presidente da comissão, Mário Albuquerque, o julgamento será público. “Esperamos contar com a presença de entidades e personalidades neste acontecimento”, disse Albuquerque. Enquanto isso, a família de Bergson Gurjão Farias quer uma definição sobre o caso da identificação da ossada e lamenta que assunto tão doloroso venha sendo explorado politicamente por setores da mídia, conforme disse ao O POVO Mário Albuquerque. Controvérsia Em 1996, um esqueleto foi exumado no cemitério de Xambioá (Tocantins). Peritos que examinaram a ossada admitiram que ela tem características idênticas ao do cearense oficialmente desaparecido durante o conflito. A ossada, denominada de X-2, está, até hoje, guardada num armário da Secretaria Especial de Direitos Humanos, no anexo do Ministério da Justiça, em Brasília. A confusão se estabeleceu quando a secretária-executiva da Comissão de Mortos e Desaparecidos, Vera Rotta, anunciou que dois exames de DNA feitos na ossada foram “inconclusivos”. Mas o perito Domingos Tocchetto, professor de criminalística da Escola Superior de Magistratura, apontou, na última semana, em parecer feito a pedido da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, coincidências entre as conclusões dos exames nos ossos recolhidos em 1996 e as características físicas de Bergson Gurjão Farias. Domingos Tochetto participou de casos famosos, como as mortes de PC Farias (1996) e da jornalista Sandra Gomide (2000). Tocchetto debruçou-se sobre o “Informe Antropológico Forense”, elaborado por peritos argentinos contratados pela Comissão de Mortos e Desaparecidos para tratar das ossadas da Guerrilha do Araguaia. Novos exames Na última quinta-feira, o ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, divulgou nota afirmando que novos exames serão realizados na ossada. Diz o ministro, no final da mensagem: “Considerando os avanços tecnológicos, que nessa área evoluem a cada ano, e a identificação positiva de três desaparecidos políticos por empresa do Brasil, esta Secretaria realizará, com urgência, novas análises de DNA na ossada ‘X-2’, para comparar com o cadastro do Banco de DNA de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, constituído a partir de 2006 e atualmente com os perfis genéticos de familiares de 108 mortos e desaparecidos políticos do Brasil”. O advogado Benedito Bizerril, diretor estadual do PCdoB no Ceará disse ao site Portal Vermelho: “Caso a confirmação ocorra e os restos mortais de Bérgson Gurjão de Farias voltem para o Ceará, o PCdoB, junto à família do guerrilheiro, prestará homenagem ao colega”. E-MAIS >A guerrilha do Araguaia foi organizada pelo Partido Comunista do Brasil, entre os anos de 1966 e 1974. Os integrantes do PCdoB pretendiam derrubar o regime militar instituído no Brasil desde 1964, começando o movimento pelo campo, como ocorrera na China e em Cuba. > O cenário do conflito se deu no Bico do Papagaio, região onde os estados de Goiás, Pará e Maranhão fazem fronteira. O nome foi dado por se localizar às margens do rio Araguaia, próximo às cidades de São Geraldo e Marabá no Pará e de Xambioá, no norte de Goiás. Participaram da guerrilha do Araguaia cerca de 80 guerrilheiros. >A maior parte deles entrou no ano de 1970. Entre eles, o ex-presidente do Partido dos Trabalhadores, José Genoíno, cearense, que foi preso pelo Exército em 1972. Outros cearenses que participaram da guerrilha, entre os quais: Custódio Saraiva Neto (desaparecido) e Dower Moraes Cavalcante, preso em 1972 e que, posteriormente se formou em Medicina, hoje falecido.

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