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segunda-feira, 17 de abril de 2017

Augusto Buonicore e João Amazonas: Em defesa da Guerrilha do Araguaia - Portal Vermelho

13 de abril de 2014 - 8h13

Augusto Buonicore: Em defesa da Guerrilha do Araguaia


Até muito recentemente a grande tarefa que cabia às forças progressistas, especialmente aos comunistas, era salvar a Guerrilha do Araguaia do esquecimento a que lhe pretendiam impor a ditadura militar e os setores mais conservadores da sociedade. Nestes últimos anos, no entanto, a Guerrilha foi tema de vários livros, teses e matérias especiais nos grandes jornais brasileiros.

Por Augusto C. Buonicore*

ReproduçãoCena do filme Araguaya, conspiração e silêncio

O que já está claro para todos é que as Forças Armadas utilizaram métodos bárbaros para sufocá-la – entre os quais, tortura, assassinato de militantes aprisionados, amputação de mãos, degola de cadáveres, ocultação e incineração dos corpos dos prisioneiros. Nem mesmo os militares envolvidos naqueles atos monstruosos podem negar que eles tenham ocorrido. Agora, tratam de justificar tal barbárie.

O mote para o revisionismo histórico foi dado pelo ex-ministro da ditadura militar, coronel Jarbas Passarinho. Segundo ele, a luta entre a Guerrilha e as forças da repressão foi uma “guerra suja” para os dois lados, sendo que os guerrilheiros tiveram maior responsabilidade por tê-la desencadeado ao adotarem o método da resistência armada ao regime. Estava dada a senha para a reconstrução da história do ponto de vista dos torturadores e assassinos.

Essas versões amarrotadas criadas pelo regime militar tiveram pouca repercussão na sociedade brasileira pós-ditadura. Poucos políticos ou intelectuais ousaram defendê-las. Por isso, ele precisou construir formulações mais refinadas. Estas não podiam partir de pessoas diretamente envolvidas com a repressão política, como Brilhante Ustra e major Curió. Precisavam vir de um espaço mais nobre, da imprensa ou da academia.

O livro do jornalista e historiador Hugo Studart, A Lei da Selva, se encaixa perfeitamente dentro dos objetivos dessa operação ideológica tentada pelos militares. A obra não pretende defender abertamente a repressão, mas mostrar que os guerrilheiros não eram tão diferentes dos seus algozes. Conseguido esse intento, estaria amenizada a culpa daqueles que os torturaram e assassinaram.

Studart, logo no início, afirma que seu objetivo “não era analisar o episódio (Guerrilha do Araguaia) sob o ponto de vista dos guerrilheiros, tampouco dos moradores da região”, e sim “relatar o significado do conflito sob a ótica de um dos lados envolvidos, os militares brasileiros”. O seu objeto de estudo seria o imaginário que os militares haviam construído sobre o conflito armado. Um tema pertinente e que poderia ser bastante útil para nos fazer entender melhor os acontecimentos ocorridos no sul do Pará entre 1972 e 1974.

O problema é que o imaginário militar deixa de ser apenas o objeto de estudo para se transformar na ideologia que norteia as próprias interpretações do autor. Isso se expressa nas escolhas feitas e na linguagem utilizada. No artigo publicado no primeiro número da revista Br História isto fica ainda mais claro e mais grave. Ali desaparece o imaginário militar e o que surge, sem retoques, é a ideologia conservadora do autor. Sigamos as trilhas tortuosas abertas por Studart.

Para ele, tanto as Forças Armadas quanto os guerrilheiros tinham coisas a esconder: “o Exército não explicou como venceu, nem a guerrilha revelou como perdeu”. Na revista é ainda mais claro: “Mais de três décadas depois, tanto o Exército quanto o PCdoB continuam em silêncio, se recusando a abrir seus próprios arquivos. Por quê? Há muitos esqueletos a desenterrar – de ambos os lados”. Do lado dos guerrilheiros e do PCdoB “o principal cadáver é a prática dos ‘justiçamentos’, eufemismo usado para justificar a execução sumária dos ‘inimigos da revolução’”. Eis aí, na sua pureza, a tese revisionista da “guerra suja” dos dois lados.

A afirmação de que a Guerrilha não revelou como perdeu é injusta diante do fato de que os guerrilheiros foram dizimados e o Diário do seu comandante Maurício Grabois, principal documento sobre a Guerrilha, confiscado pelo Exército. Um dos únicos sobreviventes, o subcomandante Ângelo Arroyo, se esforçou para trazer um relatório da Guerrilha e expor suas opiniões sobre as razões da derrota. Este documento há muitas décadas foi divulgado pelo PCdoB, enquanto os originais do Diário de Grabois continuam desaparecidos.

Justiçamentos de jagunços e delatores

A grande prova de que os guerrilheiros também haviam ingressado na Lei da Selva – ou na “guerra suja” – foram os justiçamentos realizados. Mas o que pretendia ser um dos pontos mais fortes do livro acabou como um dos mais fracos. Os fatos narrados demonstram apenas quão diferentes eram aqueles jovens guerrilheiros dos militares que os perseguiam.

O primeiro caso que Studart nos conta é sobre a morte de um informante do Exército: “Um jovem camponês, de 17 anos, que guiou um grupo de militares ao esconderijo dos guerrilheiros, foi capturado, julgado por um Tribunal Revolucionário e executado a golpes de facões”. Mais à frente afirma: “Teria sido morto a golpes de facão, segundo os militares espalharam na região; ou com um tiro pelas costas, de acordo com seus parentes. Tinha entre 17 e 18 anos”.

Eumano Silva e Taís Moraes, em Operação Araguaia, nos dão outra versão, menos escabrosa. Escreveram eles: “De surpresa, encontraram João Pereira em uma picada e o intimaram a levantar os braços. João não obedeceu. Os comunistas abriram fogo”. Assim, teria sido fuzilado ao resistir a uma ordem de prisão dos guerrilheiros. Nada de execução a golpes de facão ou tiros pelas costas. Qual dessas versões seria a correta? Studart sempre escolherá a mais desfavorável aos guerrilheiros.

Depois de tanta confusão de informação veja como Studart conclui o assunto: “Mas considero importante registrar esse possível episódio, visto que o justiçamento de um adolescente inocente, com métodos bárbaros – verídico ou fantasioso, não importa –, acabou se tornando um fato significativo no imaginário das tropas do Exército”. Bela conclusão para um historiador: se “esse possível episódio” é “verídico ou fantasioso não importa”.

Continuemos com Studart em sua vã tentativa de demonstrar o lado selvagem dos guerrilheiros: “Logo após a segunda campanha, teria havido a execução de mais três camponeses suspeitos de colaborar com o governo e pelo menos um companheiro de guerrilha”. Vamos por partes e comecemos pelos três camponeses “suspeitos”. O próprio Studart, numa nota de rodapé, escreveu: “Nesse caso, todos os três seriam de fato colaboradores, dois deles conhecidos pistoleiros de aluguel, apontados pelos moradores da região como responsáveis por mortes de posseiros a mando de latifundiários”. Num passe de mágica os pobres camponeses justiçados viraram perigosos jagunços, o que de fato eram.

Na verdade, houve casos de “justiçamentos” em número reduzidíssimo. O Relatório de Arroyo chegou a reconhecer que uma das deficiências da Guerrilha foi a “do não-justiçamento de determinados inimigos”. Tudo indica que, ao contrário do que diz o autor, os guerrilheiros estavam mais preparados para morrer do que para matar.

O livro cita vários casos que comprovam a superioridade moral dos guerrilheiros. Um dia estes entraram nas terras de um fazendeiro chamado Nemer Curi – acusado de colaborar com os militares. O objetivo era julgá-lo e justiçá-lo. Saíram da empreitada sem o ferir, apenas dando-lhe uma lição de moral. Num trecho do suposto Diário de Grabois, a que Studart teve acesso, está escrito: “O fazendeiro se defendeu, negando parte das acusações (...). O C do D (refere-se aos destacamentos guerrilheiros) foi magnânimo em relação ao acusado. Advertiu-o para que não incidisse em novos crimes. As contas estavam ajustadas”. Os inimigos presos pela Guerrilha tinham o direito de se defender e podiam até ser absolvidos.

Studart cita outro caso no qual os guerrilheiros saíram para justiçar um jagunço e, também, resolveram poupá-lo depois de ele ter pedido perdão pelos seus crimes. Novamente, o suposto Diário de Grabois justificou o perdão: “Não era dos mais raivosos. Por isso, a solução política dada ao caso talvez tenha sido a melhor”. Quando os guerrilheiros foram justiçar o temido pistoleiro Pedro Mineiro o encontraram com outro jagunço, mas resolveram executar apenas o chefe do grupo e libertar o seu comparsa.

Por fim, cabe-nos lembrar do assalto ao posto policial na Transamazônica, no qual os guerrilheiros vitoriosos se contentaram em colocar os soldados para correr de cuecas. Vejam a diferença entre o tratamento dado pelos guerrilheiros a seus inimigos vencidos e o que era feito pelas Forças Armadas.
Morte por adultério?

Uma das maiores infâmias divulgadas por Studart foi o suposto justiçamento do guerrilheiro Rosalindo Cruz Souza (Mundico). Ele, segundo as “fontes” militares, teria sido executado por ter tentado seduzir a mulher de outro guerrilheiro. Assim o autor descreve a cena da execução: “Dina estourou-lhe o peito por causa de uma transgressão moral, a conjunção carnal com a companheira de um camarada de armas, considerado algo terrivelmente ofensivo ao código revolucionário”. Aqui a imaginação e a má-fé dão as mãos.

Numa carta-resposta a Studart a ex-guerrilheira Luzia Reis Ribeiro escreveu: “nós mulheres éramos livres para escolher com qual companheiro quiséssemos nos relacionar, mesmo as casadas anteriormente (...) o comportamento tido como adultério não existia em nosso meio, podia sair de um relacionamento para outro relacionamento, sem repressão nem a intromissão da Comissão Militar”. Continuou ela: “A própria Dinalva e o Antônio, antes do início da guerra, (...) comunicaram à Comissão Militar que não eram mais marido e mulher e que Dina queria ir para o grupo onde se encontrava ‘Pedro’, Gilberto Olímpio, em outro destacamento”. Então, qual seria a grave transgressão moral em se apaixonar por outra pessoa e largar o marido ou a esposa? Nem uma evidência tão óbvia parece dissuadi-lo da sua “verdade”.

Studart nem ao menos se deu ao trabalho de ler o Regulamento do Tribunal Militar da Guerrilha. Ali não existe pena de morte para adultério. A pena de morte é prevista no caso de violência contra mulher, especialmente estupro. Mesmo assim o fuzilamento é a última e mais grave das punições. Ele também não dá qualquer valor às informações constantes no Relatóriode Arroyo e no suposto Diário de Grabois, que nunca procuraram esconder os casos de justiçamento, mas unanimemente afirmam que Mundico morreu devido a um acidente com sua própria arma. Acidente muito comum nos agrupamentos guerrilheiros. Studart foi induzido a erro pela sua opção ideológica, que o leva sempre a aceitar como mais plausível a versão dos inimigos da Guerrilha.

Por fim, cabe ressaltar que nenhuma das pesquisas realizadas entre o povo da região constatou a existência dessa execução. A notícia de uma execução, presenciada por meia dúzia de camponeses, como afirmaram os militares, se espalharia como fogo em mato seco e teria sido usada pela repressão como contrapropaganda. Por que isso não ocorreu na época? A resposta mais óbvia é de que essa foi uma versão construída posteriormente para mostrar o quão perigosos eram Dina, Osvaldão e André Grabois, que supostamente teriam participado da execução de Mundico. Assim, a morte desses guerrilheiros estaria plenamente justificada.

O mito da direção desertora

Outro mito que os militares pretendem difundir é o de que a direção do PCdoB teria abandonado os guerrilheiros e desertado da luta. Veremos que Studart passa a assumir esta versão sem a mínima sustentação factual e a partir de informações mentirosas, que ele mesmo poderia desmascarar se assim o quisesse.

Os alvos preferidos dos militares – e de Studart – são João Amazonas, Elza Monnerat e Ângelo Arroyo. Os militares, afirma o livro, “demonstram profundo desprezo pelos que fugiram dos combates, especialmente pelos dois dirigentes máximos do partido que deixaram a área ainda no início de 1972, no primeiro sinal da chegada das Forças Armadas – João Amazonas e Elza Monnerat”. Acredito que Studart, em sua santa ingenuidade, nunca se questionou sobre as razões desta unanimidade militar contra os três dirigentes comunistas.

Um historiador sério teria colocado no corpo do texto – e um menos sério em uma pequena nota de rodapé – que os dois dirigentes saíram do Araguaia em março de 1972. Foram participar da reunião do Comitê Central onde foi aprovado o documento 50 anos de Luta. João Amazonas fez o informe principal naquele evento. Quando começou a luta armada eles ainda estavam em São Paulo. Será que Studart não pode concluir por sua própria cabeça que algumas peças não se encaixavam na versão do pessoal da repressão?

Quando Elza e Amazonas estavam no caminho de volta para o Araguaia, a Guerrilha já havia sido descoberta e a área já estava cercada pelo Exército. Foi Elza a primeira a notar a movimentação das tropas; e voltou para avisar Amazonas, salvando-o de uma prisão certa. Somente uma organização irresponsável permitiria que seu principal dirigente fosse preso ou morto logo no início da batalha. Este fato é descrito nas bem documentadas biografias de Elza Monnerat e Maurício Grabois, escritas respectivamente por Verônica Bercht e Osvaldo Bertolino, e abordado em inúmeros artigos.

O melhor advogado de Amazonas é o próprio comandante guerrilheiro. Ao não ter notícia da Guerrilha através das rádios, Grabois chega a temer pela vida do velho amigo. No dia 7 de maio escreve em seu Diário: “Isso nos faz pensar sobre a sorte de Cid (Amazona). Aconteceu alguma coisa com ele? Não acreditamos que tenha sido preso. É suficientemente vivo e esperto para deixar que o apanhem (...). É indispensável romper a barreira da censura ditatorial”. Quando, dias depois, a Rádio Tirana furava o cerco e começava a dar as primeiras notícias do que ocorria no Araguaia, ele escreveu satisfeito: “Isso nos faz crer que Cid conseguiu se safar, colheu informações e pôde transmiti-las aos amigos da Albânia. Para nós o Cid em liberdade é um alívio”. Esse parece o tratamento que um comandante daria a um desertor? O que vemos aqui, na verdade, são sinais de uma amizade e de respeito profundos entre dois grandes revolucionários.

Mas uma das mais sórdidas injustiças cometidas pelo livro foi o tratamento dado a Ângelo Arroyo, apresentado como desertor. Aqui também Studart assume, sem contestação, o ponto de vista dos órgãos de repressão. Ele chega a aventar que Arroyo teria desertado duas semanas antes da queda da Comissão Militar e da morte de Maurício Grabois, ocorrida no natal de 1973. Ao mesmo tempo, cita as últimas anotações do comandante guerrilheiro, feitas poucas horas antes de morrer, que diziam: “Penso em sair da região, pois, se não o fizer, posso criar, com minha doença, uma situação difícil para os comandantes. Discutirei o assunto na próxima reunião da Comissão Militar, que se realizará logo que Joaquim chegue”. Ali não se vê nenhum sinal de dúvida do comandante da Guerrilha sobre o comportamento de Arroyo ou de sua fuga ocorrida duas semanas antes.

O próprio Relatório Arroyo fala do conflito ocorrido no dia 25 de dezembro, combate que dizimou a Comissão Militar da Guerrilha. Como ele poderia saber daquele acontecimento se tivesse fugido duas semanas antes? Prova mais do que suficiente para anular a calúnia dos militares. Mas, quem quereria esclarecer os fatos? Studart, com certeza, não. Por isso, continua se referindo a Arroyo como um desertor. Para os comunistas e demais correntes democráticas e populares, Arroyo é um herói do povo brasileiro. O ódio dos militares contra Arroyo, Amazonas e Elza se deve ao fato de terem sobrevivido ao Araguaia. Eles teriam gostado de que todos tivessem ali morrido. Afinal, como gostava de dizer a direita militar, “comunista bom é comunista morto”.

É comum os militares – e Studart – afirmarem que a cúpula do Partido estava instalada “em segurança” nas cidades enquanto os guerrilheiros se arriscavam nas matas. Será que esses parvos não sabem que não havia nenhuma segurança para os dirigentes comunistas nas cidades e que este foi o motivo pelo qual muitos deles tenham se deslocado para áreas do interior? Será que eles não sabem da prisão, tortura e do assassinato de Lincoln Cordeiro Oest, Carlos Danielli, Luiz Guilhardini, Lincoln Bicalho Roque, Armando Frutuoso e Ruy Frazão, todos dirigentes do PCdoB? Será que estavam em segurança Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond quando, em dezembro de 1976, foram surpreendidos e massacrados pelos órgãos de repressão?

Para sustentar esta versão sobre a deserção dos dirigentes comunistas é preciso violentar a história. Partindo da direita militar isso é natural. Para aqueles que chegaram a violentar prisioneiras indefesas que mal teria violentar alguns fatos históricos? Mas para um historiador e jornalista as coisas deveriam ser diferentes.

Afirma uma lenda grega que Procusto convidava suas visitas para deitar num leito. Quando elas não se encaixavam exatamente ao tamanho da cama, o anfitrião dava um jeito: esquartejava-as para que ali coubessem. Esta é a mesma lógica adotada por Studart: mutilar a realidade para que ela possa caber em seu esquema limitado.

Os pequenos erros de um livro errado

O livro comete uma série de pequenos erros de informação, que isoladamente não trariam grandes problemas. Mas, quando vistos de conjunto, revelam a ideologia do autor e comprometem a obra como um todo. Vejamos alguns desses pequenos grandes erros.

Segundo Studart, em 1975 “em segurança na Europa, os dirigentes do partido conseguiram veicular na Rádio Tirana e publicar no jornal Le Monde reportagens que sustentavam que a guerrilha teria o controle sobre uma área libertada do tamanho da Bélgica”.

Uma informação capciosa, pois é de conhecimento público que o núcleo dirigente do Partido permaneceu no Brasil até a época da Chacina da Lapa, em dezembro de 1976. Apenas Diógenes Arruda, que havia sido barbaramente torturado no final da década de 1960, recebeu incumbência de ficar no exterior. Havia outro dirigente no exterior, Dynéas Aguiar, mas ficava na América do Sul. Se os dirigentes estivessem em segurança no exterior não teriam sido massacrados em dezembro de 1976. O autor revela um espantoso desconhecimento sobre um dos elementos que deveria ser central de sua pesquisa: o PCdoB. Ele chega ao absurdo de afirmar que o Partido foi criado em 1960, enquanto toda a bibliografia existente afirma que o PCdoB foi reorganizado em fevereiro de 1962.
Studart se refere a Pedro Pomar como “guerrilheiro” – que além de ter sido um dos “idealizadores da guerrilha” teria estado na área antes do início dos combates para montar “uma base de apoio”. Continua ele: “Depois da derrota, o partido difundiu boletins internos garantindo uma estrondosa vitória no Araguaia e começou a divulgar no exterior que teria o controle sobre o território. Pomar então redigiu sua própria análise (...) relatando o que sabia sobre a derrota e tecendo autocrítica sobre a aventura”.

Parece que o autor não se deu ao trabalho de ler nenhuma das biografias de Pomar e nem mesmo o relatório que ele elaborou. Se o tivesse feito saberia que Pomar não foi guerrilheiro nem mesmo esteve no Araguaia. A “base de apoio” que ele montou se encontrava no Vale do Ribeira. Pomar nunca se referiu à Guerrilha do Araguaia como aventura. Tinha por ela grande respeito, apesar dos erros que acreditava terem sido cometidos. A grande polêmica ocorrida no Comitê Central desde 1974 se deu em torno da questão de que a Guerrilha teria sofrido uma derrota temporária ou definitiva e se ela teria tido ou não influências foquistas. Ninguém falou de “estrondosa vitória” da Guerrilha, especialmente depois de ter as notícias das derrotas sofridas.

Studart afirma que Maurício Grabois “foi um dos primeiros guerrilheiros a chegar à região em 1966”. Se tivesse lido a excelente biografia escrita por Osvaldo Bertolino saberia que ele lá chegou em dezembro de 1967. O primeiro a chegar na região foi Osvaldão.

Outro erro se refere ao próprio Osvaldão. O livro diz que ele tinha a patente de coronel concedida pelo Exército da Tchecoslováquia. Na revista ele foi ainda mais longe e afirmou que Osvaldão teria feito um curso de “partisan” no Exército da Tchecoslováquia. Na verdade, ele fez um curso de engenharia, que não chegou a concluir. Naquele mesmo país ele aderiu ao PCdoB e voltou ao Brasil para ajudar na organização do seu novo Partido. O curso político-militar ele fez na China em 1964. Studart confundiu o ano, a patente, o país e o continente.

Falando sobre Francisco Manoel Chaves, Studart diz que nem a direção do Partido sabia o seu nome verdadeiro e que ele somente foi descoberto em 1991, quando foram abertos os arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) no Paraná. Se Studart tivesse se dado ao trabalho de ler o artigo “Francisco Chaves – denotado lutador de Vanguarda”, publicado n’A Classe Operária de maio de 1974, teria descoberto que o PCdoB sabia o nome verdadeiro e parte da biografia daquele guerrilheiro. Esse artigo foi republicado na coletânea 50 anos de luta, publicada em 1975 pela editora Maria da Fonte.

Francisco Chaves, que é citado por Graciliano Ramos em Memórias do Cárcere, havia sido eleito membro suplente do Comitê Central na Conferência da Mantiqueira, ocorrida em 1943. Ou seja, ele era um velho conhecido de Maurício Grabois, João Amazonas, Pedro Pomar e Diógenes de Arruda Câmara.

Falarei apenas de mais um erro, para não cansar demasiadamente o leitor. Ele se refere à afirmação de que um dos fatos mais importantes ocorridos após 1996 “foi a direção do PCdoB ter decidido, finalmente, divulgar o discurso oficial do partido sobre os acontecimentos, publicando o livro-revista Guerrilha do Araguaia – Documentos do PCdoB”.

O problema é que a revista foi lançada em 1982 – quatorze anos antes do que afirma o autor. Sua primeira edição causou um alvoroço na esquerda brasileira e foi apreendida por ordem do ministro da Justiça de então. Na Bahia, dezenas de pessoas foram presas durante o seu lançamento. O acontecimento teve grande repercussão na imprensa nacional e internacional. No ano seguinte, o VI Congresso do PCdoB aprovou o documento Acerca da Violência Revolucionária, fazendo um balanço autocrítico do movimento armado no Araguaia. O texto foi publicado e teve grande circulação. Estranhamente Studart não cita este importante documento: o principal documento partidário tratando da Guerrilha do Araguaia. Pode-se discordar da avaliação do Partido, mas não afirmar que ela não existiu.

Como se vê, são muitos os erros de informação para um trabalho acadêmico. Uma banca mais exigente o teria reprovado e feito reescrever seu trabalho.

*Augusto Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e revolução brasileira: encontros e desencontros e Meu verbo é lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas, ambos pela Editora Anita Garibaldi.
**Artigo republicado (Maio de 2007)


Aula de João Amazonas sobre Guerrilha do Araguaia durante exílio

Imagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia RangelImagem resgatada na Albânia, com outros documentos e mídias, por Bernardo Joffily e Olivia Rangel

 O curso foi realizado e Tirana e durou 15 dias para algumas pessoas exiladas na Europa. Entre eles Loreta Valadares, Carlos Valadares, Bernardo Joffili, Olivia Rangel, José Luís Guedes, Nair Guedes, Maria Ester Drummond (Teinha), José Carlos Arruti Rey (Zé Carioca). Entre os professores estavam Amazonas, Arruda e Foto Çami, que era professor da Universidade de Tirana e ministrou as aulas de filosofia. Arruda deu aula de Fundamentos Leninistas de Partido e História do PCdoB. Amazonas tratou da formação histórica do Brasil, realidade brasileira, revolução brasileira, a tática e a estratégia do PCdoB e da Guerrilha do Araguaia. Suas aulas duraram cinco dias.

A fita com a gravação do curso faz parte do rico acervo do Centro de Documentação e Memória da Fundação Maurício Grabois (CDM-Grabois).



Fonte: Portal Maurício Grabois

quarta-feira, 14 de março de 2012

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Portal Vermelho

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história - Portal Vermelho
12 de Abril de 2011 - 17h30

Em 12 de abril de 1972, há exatamente 39 anos, teve início no sul do Pará a Guerrilha do Araguaia

Guerrilha do Araguaia: 12 de Abril de 1972 marcou nossa história

A “verdade” pode ter muitas faces, servir a muitos interesses, mas os fatos históricos falam por si. Só precisamos relatá-los com honestidade. E assim, o tempo se encarregará de fazer justiça àqueles que deram suas vidas para alterar o rumo de nosso país. Ao governo brasileiro resta dar respostas às famílias dos guerrilheiros sobre como se deram as condições de suas mortes e onde se encontram seus corpos.

por Romualdo Pessoa Campos Filho* em seu blog Carpe Diem - Gramática do Mundo
Em 1995, ao concluir a dissertação de mestrado, sobre a Guerrilha do Araguaia, eu tinha plena convicção que havia me envolvido em uma pesquisa cuja história demoraria a ser concluída. Muito embora eu carregue a satisfação de ver o primeiro livro publicado sobre o tema, a partir de uma pesquisa acadêmica, era visível o fato que pelos anos seguintes, principalmente com o país consolidando a democracia, novos estudos, pesquisas e livros publicados viessem a ampliar o volume de informações que estavam sendo sonegadas à sociedade e a nós, pesquisadores.


Leia também:
Jana Sá: "39 anos da Guerrilha do Araguaia: não esquecer jamais"
Quando comecei minha pesquisa, – e em minha primeira viagem à região contei com a companhia de um amigo e também pesquisador da guerrilha, Gilvane Felipe, que defendeu sua dissertação de mestrado na França, na Université de La Sorbonne Nouvelle (Paris III), em 1993 – tínhamos grandes dificuldades em ter acesso aos documentos sigilosos, das Forças Armadas, que nos ajudassem a compreender, pela ótica dos militares, aquele conflito. Ou que servissem para identificar as mortes daqueles guerrilheiros cujos corpos jamais foram encontrados.

Por isso o meu trabalho buscou outro foco. Compreender a Guerrilha do Araguaia pelo olhar dos habitantes daquela região, abrangendo desde Marabá, no Pará, até o outro lado do Rio Araguaia, então estado de Goiás (hoje Tocantins), em Xambioá e chegando até Araguanã. Subindo até a confluência dos estados do Maranhão e atual Tocantins, de um lado, Porto Franco, do outro Tocantinópolis.

Viajamos àquela região de Chevette (rebaixado, uma verdadeira aventura. Atolamos três vezes, pois o período era de chuvas) subindo pela Belém-Brasília até a cidade de Araguatins, onde alcançamos a Transamazônica após atravessarmos o Rio Araguaia. Dali, rumamos para Marabá, onde, obtendo o apoio da prefeitura daquela cidade (na época encontramos na secretaria de Comunicação um antigo colega de lutas no Movimento Estudantil em Goiás, o atual deputado estadual pelo Pará, João Salame Neto) pudemos fazer um ótimo trabalho de campo, com entrevistas importantes em um momento ainda de profundo silêncio, em decorrência do temor que se tinha de falar do tema.

O medo era sustentado pela presença de militares, mas também pelo trauma que ficou, criando no inconsciente das pessoas, às vezes, uma falsa convicção que estavam sendo sempre vigiados pelo “pessoal do Curió”, os “secretas” (Sebastião Moura, o Curió, foi um personagem central no combate à guerrilha. Na época era capitão, infiltrou-se na região no período anterior à terceira campanha e tornou-se responsável pela ordem de execução de muitos prisioneiros. Recentemente foi preso em Brasília, pela Polícia Federal, acusado de esconder documentos importantes sobre a Guerrilha).

Fizemos várias entrevistas, começando por Marabá, seguindo em direção a São Domingos do Araguaia (na época da Guerrilha, São Domingos das Latas), Brejo Grande, Palestina, Bacaba (uma antiga base militar e também local de prisão e tortura), São Geraldo e Xambioá.

Coincidentemente nos hospedamos, a partir do apoio da prefeitura, em uma casa no conjunto habitacional do antigo Incra. Aquele local, na época da guerrilha, havia se tornado uma espécie de quartel-general no combate ao movimento guerrilheiro. Bem em frente, ficava a antiga sede do DNER, que passou a ser conhecida como “Casa Azul”, local onde se definiam as operações antiguerrilha – portanto comando de ações das Forças Armadas –, e depois outro local para onde guerrilheiros e moradores da região eram presos e submetidos à tortura. Mas isso só viríamos saber depois, com o andamento de nossas investigações.

Descobrimos, pelos depoimentos colhidos, que as pessoas detidas eram levadas para Bacaba e para Xambioá. Nesses dois lugares haviam dois buracos, cobertos por uma grade cada um, onde os prisioneiros eram literalmente jogados. Um deles, os soldados apelidaram de Vietnã. Água suja, ratos, cobras, eram jogados para assustar e intimidar os presos. Dali, alguns eram levados para a “Casa Azul”, onde eram submetidos a novos tipos de torturas. Alguns voltavam para Bacaba, quando não ficavam comprovados maiores envolvimentos. Permaneciam mais algum tempo presos e depois eram libertados. Já a partir da terceira campanha, final de 1973 em diante, os prisioneiros mais diretamente envolvidos no movimento eram levados de volta à mata e sumariamente executados.

Quanto mais avançávamos em direção aos municípios onde os conflitos se deram com maior intensidade, mais compreendíamos a dimensão de um movimento que ainda tinha muito a nos revelar. A cada entrevista, a cada contato com um morador, a cada depoimento de camponeses agredidos e obrigados a tornarem-se guias dos pelotões militares, mais sentíamos que tínhamos em mãos um fato histórico que escondia feridas não cicatrizadas, protegidas a ferro e fogo por quem extrapolou os limites estabelecidos em acordos internacionais, principalmente no que diz respeito à proteção da população civil e aos combatentes aprisionados com vida. Aos poucos comprovávamos que aconteceram muitas execuções. Guerrilheiros, e até mesmo moradores da região, após serem torturados, eram assassinados friamente.

Gradativamente íamos descobrindo segredos guardados pelas Forças Armadas, cujo objetivo era impedir que os abusos que foram praticados no combate à guerrilha fossem apontados e submetidos às sanções como crimes de guerra. Além da tentativa desesperada de omitir para a história os erros que foram cometidos pelas forças militares institucionais. Estratégias e táticas equivocadas que levaram a três operações, sendo que duas delas foram mal-sucedidas, fracassadas em seus intentos de eliminarem rapidamente um conflito do qual não se tinham ainda maiores informações.

Erros de inteligência, na identificação do grau de capacidade de reação dos insurgentes, foram cruciais para derrotar as Forças Armadas nas duas primeiras ofensivas. Soldados mal preparados, e desconhecendo o real objetivo de suas presenças na região do Araguaia, completavam o festival de equívocos cometidos pelos comandantes militares, do Exército, principal força presente na área, mas também, em menor medida, da Aeronáutica e da Marinha. No apoio, polícias militares (mais despreparadas ainda) dos estados de Goiás, Maranhão, Pará e Mato Grosso, completavam o cerco. E alguns agentes da Polícia Federal e do Serviço de Segurança (SNI).

Incapazes de derrotar os guerrilheiros militarmente nas duas primeiras campanhas, os comandantes militares mudaram de tática, recuaram suas forças e elaboraram um plano de preparação antiguerrilha, com um contingente menor e mais preparado para esse tipo de confronto e com soldados adaptados para a guerra nas selvas. Um trabalho de inteligência infiltrou agentes por cerca de um ano, mapeou toda a região, identificou possíveis pontos de apoio dos guerrilheiros e nominou todos aqueles moradores da região que, de uma forma ou de outra, tinham contato com os inimigos.

No início da terceira campanha, em outubro de 1973, uma nova guerra também começava, desta vez os militares não estavam pensando em prender guerrilheiros. Pela dimensão do movimento, inclusive com repercussões internacionais, pela capacidade de formar rebeldes altamente capacitados para novos eventuais movimentos guerrilheiros, a ordem dada era eliminar todos os que ainda estavam vivos. De qualquer maneira.

Não foi uma ordem de generais de comando do combate ao movimento. Ela foi determinada pelos altos postos de direção do Estado Militar Brasileiro, a partir de seu presidente, na época o general Emílio Médici. E apoiada por todos que compunham o escalão maior das Forças Armadas Brasileiras. A determinação foi cumprida a contento do ódio nutrido por três anos à ousadia de um pequeno grupo de se preparar para uma guerra de guerrilha no Brasil rural. Ódio potencializado pelas derrotas iniciais e, claro, pelo embate que se travava internacionalmente, no âmbito da Guerra Fria, entre os que se alinhavam aos interesses dos Estados Unidos e defendiam com firmeza o capitalismo, e os que se alinhavam ao bloco socialista, diferenciado em regimes com perfis diferentes: China, Cuba e URSS.

Mergulhando no Araguaia

Em um encontro com blogueiros no começo deste ano, em um evento em Natal – RN, o neurocientista brasileiro, reconhecido internacionalmente, Miguel Nicolelis afirmou que é uma “balela” essa história de imparcialidade, tanto no jornalismo, como na ciência. “Como neurocientistas, estamos cansados de saber que não existe isso de imparcialidade, como pretendem os jornalistas. Não existe imparcialidade nem jornalística nem científica”, disse ele.(*)

Aproveito para dizer aqui o mesmo em relação à História. Em um evento que participei no final do ano passado, o “Simpósio Internacional sobre o Direito à Informação”, afirmei em palestra que proferi sobre o tema, “O Direito às Informações Pessoais – História e Verdade”, que como historiador não tenho medo de assumir, em absoluto, que o meu olhar é guiado pelos elementos que me conduziram ao longo de anos de intensa atividade política. Abdiquei, faz pouco tempo, de uma ativa militância partidária de três décadas, por uma necessidade premente de formação acadêmica. Mas não abdiquei dos paradigmas que foram responsáveis por construir a minha visão de mundo, porque ela é fundamentada em valores de respeito à vida humana e à defesa de uma sociedade em que as pessoas sejam respeitadas não pelo que possuem em termos de riqueza material, porém pela sua condição de indivíduos que merecem igualitariamente ser tratados com dignidade.

Por isso, não me preocupo em ser julgado por falta de isenção, desde que, dentro do meu critério de verdade, eu esteja me guiando por esses valores e, fundamentalmente, pela honestidade da análise dos fatos. Afirmo que não pode haver história isenta do olhar ideológico, e desconfio daquele historiador que vive a reafirmar a sua isenção enquanto pesquisador, pois isso é impossível. Sua vida está impregnada de valores culturais que conduzem a sua investigação e influenciam suas conclusões.

Quando escrevi o meu trabalho, sob uma orientação precisa da Profª Janaína Passos Amado, então do curso de História da Universidade Federal de Goiás, passei por um crivo importante, com o intuito de me conduzir pela honestidade, por uma linguagem que fosse acadêmica e que minha postura não fosse confundida com a de um militante. Difícil tarefa pelo grau de envolvimento ideológico que eu possuía naquele momento, mas acredito ter cumprido á risca, e os resultados podem ser vistos no que está escrito em meu livro (Guerrilha do Araguaia – A esquerda em armas, Ed. da UFG, 1997) e no que vem sendo divulgado na imprensa e em outras publicações desde então (veja bibliografia ao final) .

Isso, contudo, não foi o suficiente para evitar críticas, inclusive de historiadores conhecidos, que me acusavam de ser um historiador oficial do PCdoB. Muito embora muitos desses críticos jamais se dispuseram a ouvir sequer um único depoimento de pessoas que foram presas e torturadas e viveram de perto todo o desespero gerado pela brutalidade com que foram tratados. Tornaram-se críticos ao longe, simplesmente para fundamentarem suas críticas à guerrilha e, assim, julgarem-se capazes de se incluir como historiadores isentos, porque opositores do regime, mas confiáveis à tarefa de atacarem o movimento guerrilheiro. Tentavam, assim, intimidar aqueles que se dispunham a olhar a guerrilha com outros olhos, e não enxergar simplesmente uma aventura de colegiais irresponsáveis, conduzidos por dirigentes incompetentes, como esses vorazes críticos se dispunham a retratar a Guerrilha do Araguaia.

Os embates surgidos da avaliação da guerrilha, que dividiu o próprio partido que conduziu o movimento guerrilheiro, terminou por atrapalhar uma ação mais coordenada e ampla, no sentido de se encontrar respostas para os segredos que as Forças Armadas tentavam a todo o custo esconder. Enfraqueceu a luta dos familiares que lutavam para encontrar as informações sobre dezenas de combatentes, presos com vida, e dos quais não se teve mais notícias. E, acima de tudo, esses críticos deixaram de lado um aspecto essencial a ser compreendido na análise do movimento: tratou-se de uma escolha, entre as poucas que existiam naquele momento de absoluta falta de liberdade e ausência de democracia.

Por assim ser, cometeram um dos males imperdoáveis ao historiador, tornaram-se anacrônicos, e quanto mais o tempo passava mais se distanciavam da realidade que impôs à esquerda reagir às brutalidades cometidas por aqueles que perpetraram o golpe militar e silenciaram a política brasileira. Caracterizavam os guerrilheiros aos olhos do presente e, por um olhar parcial e evidentemente ideológico, julgavam-nos como aventureiros a insistirem numa prática isolacionista denominada de foquismo.

Aqui retorno aos fatos, e analiso-os com um viés claramente ideológico. Na análise da conjuntura política do país e na identificação do significado das políticas postas em prática pelos governos militares que instalaram uma ditadura aqui no Brasil, não receio em deixar bem claro a visão crítica e o engajamento político que sempre me colocou ao lado das bandeiras defendidas pelos guerrilheiros do Araguaia. Seria impossível que eu me despisse de tudo isso a fim de me colocar como um “historiador isento”. Se assim eu o fizesse repetiria alguns que modificam seus pontos de vista com o objetivo de tornarem-se confiáveis ao sistema e poder obter o sucesso como intelectual “respeitado”.

A mim, repugnava as atrocidades praticadas por indivíduos que se julgaram no direito de impor ao povo brasileiro o caminho que deveriam seguir. Afrontaram os valores democráticos e cometeram crimes abomináveis de torturas e assassinatos em nome da democracia; cercearam o direito de os indivíduos se manifestarem livremente, silenciaram a imprensa (alguns jornais sucumbiram aos delírios ditatoriais), fecharam o parlamento, impediram a organização sindical e fecharam as entidades estudantis, e, pela força, tentaram convencer o povo que tudo isso era feito em nome da liberdade.

Alguns desses militares, cujos depoimentos ainda hoje os aproximam de verdadeiros psicopatas, justificam os abusos com o argumento de que os comunistas pretendiam instalar aqui no Brasil o comunismo. Então, pela intenção e pela escolha política diferente do outro, tudo se tornava permitido, inclusive torturar e assassinar. Mesmo se tal regime que esses militantes quisessem instalar ainda se encontrasse na condição de utopia. Mas sonhar também não era permitido.

A Guerrilha do Araguaia não pode ser desconectada desse contexto, e as consequências dessa e de outras poucas escolhas que existiam naquele momento devem ser analisadas à luz do tempo em que tudo isso aconteceu. Mas não se pode negar a existência de uma brutal repressão que transformava em marginal todo aquele cidadão que se indignasse com o regime pérfido e ditatorial que se instalara pela força das armas. As outras escolhas poderiam ser fugir do país (e aqui não há nenhum juízo de valor por trás do verbo); manter-se na clandestinidade sem a opção pela luta armada (isso não impediu a prisão, tortura e assassinato de dezenas de militantes que não pegaram em armas); e tornar-se guerrilheiro, seja na cidade ou no interior. Qualquer uma delas, pelo alto grau de ferocidade do regime, principalmente a partir do final da década de 1960, implicava em riscos de vida. Inclusive o autoexílio, haja vista a famigerada “Operação Condor”, que perseguiu militantes de esquerda por todos os países do Cone Sul.

O que queriam os guerrilheiros do Araguaia?

Os moradores da região do Araguaia são testemunhas e também protagonistas do movimento que eclodiu naquele rincão do Brasil. Abandonados pelos governos e de frente para uma densa floresta, que era aberta para ali se instalarem pequenos roçados, os moradores daquele pedaço esquecido do Brasil começaram a ter como vizinhos jovens, idealistas e sonhadores, alguns poucos experientes e até cinquentenários. Fugindo da perseguição nas cidades grandes, os comunistas, em sua maioria militantes do movimento estudantil, aceitaram construir às margens do rio Araguaia e na entrada da Floresta Amazônica uma resistência guerrilheira ao movimento militar que instaurou no Brasil em 1964 uma ditadura.

Traziam na bagagem pouca experiência de guerrilha, algum treinamento feito em outros países, principalmente na China, muita determinação e alguns problemas de adaptação, que terminou por criar alguns conflitos no grupo. A estratégia assemelhava-se ao que tinha servido de prólogo à grande transformação levada a cabo por Mao Tsetung, na China: o cerco das cidades por um exército guerrilheiro a partir do avanço de colunas de combatentes vindo da área rural, do interior do país.

Mas a tática a ser adotada, pode-se também mudá-la com o tempo e as condições analisadas, depende obviamente do movimento que o inimigo fizer. A reação, se inesperada ou maior do que as forças guerrilheiras podem resistir, força a mudanças táticas. Desse jogo de xadrez, que caracteriza a guerra, é que sairá a definição de quem primeiro gritará “xeque-mate”.

Se nas duas primeiras investidas dos militares seus erros impediram que suas táticas fossem vitoriosas, na terceira campanha deu-se o inverso. Cercados e submetidos à uma nova postura tática e com objetivos estratégicos redefinidos pelos militares, os guerrilheiros não resistiram a uma bem montada operação de inteligência e ao uso de grupamentos melhor preparados para a guerra na selva. Assim, essa terceira ofensiva, muito embora com um prazo de tempo que deu aos guerrilheiros certa mobilidade para fazer um trabalho político, transformou-se, na verdade, em uma verdadeira caçada. Incapazes de resistirem à força e determinação com que se deu a organização de novos pelotões, agora não mais fardados e preparados para combater até o final, os guerrilheiros foram sendo abatidos e presos um a um.

O que se escondeu por tanto tempo, mas já não mais se constitui em segredo, não somente pelos documentos que já apareceram, mas pelos inúmeros depoimentos de moradores daquela região, muitos submetidos à humilhação, prisão e torturas, é que dezenas de militantes foram presos com vida e depois eliminados, seguindo a ordem de “não deixar nenhum vestígio da existência da guerrilha”.

Osvaldão, Dinaelza, Dinalva, Juca, Joca, Mário, Joaquim, Fátima, Cristina... São nomes de guerra, de quem vivia na clandestinidade, mas que representavam, junto com tantos outros que lutavam nas cidades, corajosos e valorosos militantes comunistas. Pouco mais de 70 bravos guerrilheiros. Lutadores abnegados de uma causa pela qual hoje todos nós, cidadãos brasileiros, julgamos ser responsável por estar levando o Brasil em direção à liderança mundial. Lutavam contra a ditadura, pela democracia e pela liberdade. Não eram marginais, constituíram-se em valorosos brasileiros que não se entregaram à covardia daqueles que se curvavam aos interesses imperialistas. Pagaram o valor mais caro à cada um de nós: a própria vida. Por isso merecem todo o nosso respeito e o engajamento na luta para garantir-lhes o devido reconhecimento e o enterro digno de seus corpos, segundo as crenças de suas famílias.

A “verdade” pode ter muitas faces, servir a muitos interesses, mas os fatos históricos falam por si sós. Só precisamos relatá-los com honestidade. E assim, o tempo se encarregará de fazer justiça àqueles que deram suas vidas para alterar o rumo de nosso país. Ao governo brasileiro resta cumprir a determinação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, da OEA, e dar respostas às famílias dos guerrilheiros sobre como se deram as condições de suas mortes e onde se encontram seus corpos.

Que isso não impeça, contudo, de compreendermos que vivemos outra realidade. A luta que travamos pela verdade não implica em condenar instituições, mas identificar aqueles que extrapolaram na condução de seus poderes. O Brasil vive um novo tempo e as Forças Armadas fazem parte das transformações que consolidam a importância e autoridade que o país exerce internacionalmente, bem como dão suporte às mudanças que possibilitam ao nosso povo atingir outro patamar de desenvolvimento. Isso não significa, no entanto, esquecer o passado. É preciso encarar nossos fantasmas, para que não nos encontremos no futuro com o repetir de farsas que se escondem por trás da história.

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Romualdo Pessoa Campos Filho é Professor de Geopolítica no Instituto de Estudos Sócioambientais da Universidade Federal de Goiás (IESA-UFG); Secretário Regional - SBPC/GO



NOTAS:

(*) Sobre a citação de Miguel Nicolelis, ver: http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_secao=8&id_noticia=146526
Lista dos guerrilheiros: http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_guerrilheiros_do_Araguaia
DVD – Camponeses do Araguaia, a guerrilha vista por dentro. Documentário. Diretor: Vandré Fernandes.
http://www.anitagaribaldi.com.br/produtos/default.aspx?codigo=591
Pequena bibliografia de referência:
Cabral, Pedro Correa. Xambioá, guerrilha no Araguaia. São Paulo: Ed. Record, 1993. http://xambioaguerrilha.blogspot.com/2008/10/xambio-guerrilha-no-araguaia-nota_24.html
Campos Filho, Romualdo Pessoa. Guerrilha do Araguaia – a esquerda em armas. Goiânia-GO, Editora da UFG, 1997
Felipe, Gilvane. A Guerrilha do Araguaia (Brasil, 1966 – 1975). Paris: Université de la Sorbounne Nouvelle (Paris III), Institute des Hautes Études de L’Amérique Latine, 1993. (http://www.esnips.com/doc/450d1797-d21e-49f9-ba2f-35d1f9ed94bf/Hist%C3%B3ria-da-Guerrilha-do-Araguaia)
Gaspari, Elio. A Ditadura Escancarada. São Paulo: Cia. das Letras, 2002
Maklouf, Luis. O coronel rompe o silêncio. São Paulo: Editora objetiva, 2004
Monteiro, Adalberto (org.). Guerrilha do Araguaia – uma epopeia pela liberdade. São Paulo: Editora Anita, 2002.
Morais, Tais e Silva, Eumano. Operação Araguaia – Os arquivos secretos da guerrilha. São Paulo: Geração Editorial, 1995
Studart, Hugo. A lei das Selvas. São Paulo: Geração Editorial, 1997

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