Hino da independência do Brasil, Evaristo da Veiga (letra), D. Pedro I (melodia)
O dinamitar da ordem mundial pactuada ao fim da Segunda Guerra segue a desafiar nosso entendimento, sob a batuta de Donald Trump, abusador, delinquente, chantagista, sequestrador e perigoso detentor de arsenal nuclear capaz de acabar com o mundo inúmeras vezes. A ordem multipolar não significa propriamente "ordem", a guerra é a realidade da época. O que não se sabe é se evoluirá para uma confrontação geral e nuclear ou se haverá um acordo amplíssimo, a exemplo do proposto pelo Presidente da China Xi Jinping em seu discurso no Fórum Econômico de Davos em 25/01/2021, "Que o multilateralismo ilumine o caminho da humanidade". Sim, como alertáva-nos Fidel, o futuro da espécie humana está em risco. São tantos os fatores destrutivos a ameaçar-nos que não é fácil manter uma atitude esperançosa. Contudo, é a própria decadência do imperialismo estadunidense a medida dos seus limites, de seu desespero e das possibilidades de termos mudanças, inclusive nos EUA, que apontem outro caminho que não a mútua destruição assegurada.
Recordo-me da expressão de João Amazonas sobre o século XXI, que seria no princípio mais trevas do que luz, e que somando-se as luzes que surgiriam aqui e ali, poderíamos viver um período de grandes esperanças, que é a própria perspectiva socialista, a conciliação da vida do ser humano com o planeta Terra, em busca da harmonia, ou ao menos da sobrevivência do gênero humano e do ecossistema tão maltratado. Mas é preciso defender tão pouca luz diante de tanta treva, e nisso nos estimulam os exemplos de Lula, mas também de Nicolás Maduro, com sua tranquilidade de esfinge mesmo sequestrado pelo imperialimo, como experiente motorista de ônibus que é, sangue frio, que mostra como há que se desviar dos problemas, não apenas confrontá-los. Não está morto quem peleia.
O "novo normal" de Trump é inaceitável, e visa a alargar os limites de ação do imperialismo estadunidense, tem natureza didática e exemplar. Com as big techs a seu serviço, suas ações violadoras da soberania das nações se somam ao que o Partido Democratas fez com a sua hipocrisia, com a Guerra ao Terror e a defesa do "feminismo" e da "democracia" que chega com as tropas estadunidenses. Trump testa os limites e arma seus instrumentos no interior das nações.
Lula mais uma vez foi campeão na leitura do sentimento do povo e dos perigos que enfrentamos. Ao zombar do Bananinha com a célebre mofa "Ô Trampi, defende meu pai!", armou o povo brasileiro para a defesa da soberania. Mas, seja no Brasil, no Irã, na Venezuela, em Cuba, o exemplo foi dado, e vemos como a denúncia desses traidores das nações em que vivem é decisiva para afirmar as frentes amplas que isolem o inimigo principal, que é o imperialismo estadunidense, o fascismo, e que possui como ponta de lança as Big techs e o rentismo parasitário.
Esse bloco histórico do 1% que quer lucrar com o fim do mundo precisa ser isolado, e os cordões que Trump puxa são exatamente aqueles que em cada país, clamam: "ô Trampi", "defende a Venezuela", "bombardeia a Baía de Guanabara", "defende a democracia e as mulheres no Irã", promovendo a traição nacional descarada como posição política legítima - que não é. Assim como a extrema direita ganhou espaço no campo político, o "jalabolismo macunche" denunciado por Chávez, ou em tradução livre, o "babaovismo fuleragem" dos lambe-botas do imperialismo, inimigos de seu próprio povo, traidores, Silvérios dos Reis, que querem ter legitimidade para crimes de lesa-pátria, terrorismo, subversão armada contra a democracia, assassinatos e conspiração com potência estrangeira para nos impôr um neocolonialismo descarado.
Tanto é falsa a polarização entre extrema-direita x esquerda, quanto é ilegítima a posição dos traidores da Nação. A extrema direita se opõe à democracia, e não apenas à esquerda. Por isso a Frente Ampla é incontornável, na defesa da democracia e da Nação Brasileira, ameaçadas. Crime de lesa-pátria não é posição política legítima. Pior, na Constituição de 1988 e no Brasil, são crimes de lesa-pátria os únicos que admitem a possibilidade de pena de morte, em caso de guerra, em conluio com potência estrangeira.
Então, abusador como é, alhures e aqui, Trump avança os limites para violar o que não deve ser admitido jamais, e encontra quem lhe dê guarida, aberta ou veladamente. É preciso desmascarar essa súcia, é preciso unir o povo, é preciso transcender do individualismo perverso e irracional, do medo e do ódio, para alcançar o sentimento de coletivo, fratria, pátria, que nos países subdesenvolvidos é inseparável da defesa do multilateralismo, da solidariedade, razão pela qual a luta pela soberania representa o proletariado, e não o ufanismo de direita. Essa é a diferença entre o nacionalismo de mentira de um Bolsonaro e a defesa do Brasil pelo Presidente Lula. A Nação é o Povo.
É preciso defender a soberania do Brasil e dos povos do mundo. Não podemos jamais atribuir ao imperialismo estadunidense a possibilidade de intervir em qualquer país, seja sob que pretexto for. E é preciso tomar lições sobre o eixo da defesa da soberania e da paz, diante de quem resiste ao imperialismo, assim como tirar lições do que pode acontecer com o Brasil, se ignorarmos os perigos diante de nós. A Líbia, o Haiti, a Palestina e a Síria nos demonstram o que se prepara para o Brasil. Ao mesmo tempo, vemos que é possível resistir.
Ao contrário do que muitos creram e divulgaram, o imperialismo não tem vida fácil em suas ações criminosas. Trump busca juntar a blitzkrieg - guerra relâmpago - e as mentiras dessa época, com o apoio dos "mercados" para dobrar as Nações. Propaga o pessimismo, o babaovismo, as mentiras e a ignorância, a impressão que não é possível resistir aos seus intentos de abuso, violação, que sequer se deve gritar, muito menos reagir, quando é precisamente do que se trata. Mas quebrou a cara três vezes.
Na Venezuela, longe de atemorizar, tocou os brios do povo que há tantos anos resiste ao bloqueio, à mentira e às agressões. No Irã, aproveitando-se das dificuldades que causa ao povo iraniano, não hesitou em infiltrar MOSSAD e a CIA, injetar dinheiro, promover o terrorismo e assassinar pessoas para derrubar a República Islâmica e devastar o país. E em Cuba, suas ameaças e bravatas não encontraram eco, pois a Revolução Cubana e seu líder, Díaz-Canel, há tempos tem sabido esclarecer ao seu povo do que se trata. É Pátria ou Morte.
Também o Brasil enfrenta esse desafio existencial. Também aqui se alimentam os traidores da Nação a cumprir o triste papel de conspirar contra nosso próprio povo. E querem ser aceitos como se fizessem política, como se não cometessem crimes, como os promovidos no 8/1/2023, entre atos terroristas, depredação de patrimônios nacionais, ações armadas, mentiras, conspirações e sabotagem da democracia em aliança com potência estrangeira. Eles mostram que não há limites, que têm lado. Não devemos ignorar, muito menos crer que os limites da nossa democracia mutilada são suficientes para os enfrentar. É preciso lançar pontes para a undade do povo.
Em todos esses países que conseguiram resistir até o momento ao acosso imperialista para destruir as suas nações, vemos que se impôs a vontade do povo nas ruas, aos milhões, mobilizado por frentes políticas e sociais firmemente entranhadas nos territórios e no coração das multidões. Não apenas um partido, ou o movimento sindical, ou os instrumentos da democracia burguesa, não apenas a representação. Há uma unidade superior que desarma mesmo a direita e a oposição, e arma de política as amplas massas populares, que passam a se ver como povo, como Nação. E são pautas civilizatórias aquelas que inserem a classe trabalhadora, mulheres, negros, a população LGBTQIAPN+ como legítimos filhos da Nação Brasileira, merecedores de direitos e deveres iguais.
Diz-nos o nosso Hino da Independência o que Venezuela, Cuba e Irã fizeram na prática, vencendo tudo, impedindo a destruição e a entrega de suas nações aos canalhas traidores. O Brasil também o ensaiou, a despeito da desarticulação de que padece o campo popular. Nós também temos um líder - ainda. Nós também temos um povo. Mas precisaremos de uma sólida unidade entre as forças de esquerda para resisitirmos a tanto poder, tanta mentira, tanta violência. E ao defender nossa Nação, reelegendo o presidente Lula e mudando o Congresso, transcenderemos os interesses particulares, unindo as forças consequentes e necessárias na luta contra o imperialismo, em especial as forças populares, a frente popular. Assim contribuiremos para a paz, para o multilateralismo, para tempos de grandes esperanças. Nossos peitos, nossos braços são muralhas do Brasil.
Depois de ter insistido, de início, que a Síria desse pleno acesso aos
investigadores da ONU, até os locais onde teria havido um atentado com gás
venenoso, o governo do presidente Barack Obama mudou de conversa no domingo; e
passou a tentar, sem sucesso, que a ONU abortasse sua própria investigação.
Essa virada repentina, que aconteceu horas depois de Síria e ONU terem acertado
os detalhes da ação dos investigadores, foi noticiada pelo Wall Street Journal na 2ª-feira e confirmada no mesmo dia, mais
tarde, por um porta-voz do Departamento de Estado.
No encontro com a imprensa na 2ª-feira, o secretário de Estado John Kerry, que
chegou a falar por telefone com o secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon, para que
suspendesse a investigação – a qual, segundo Kerry, teria chegado tarde demais
para obter provas válidas do ataque que, para fontes da oposição síria, teria
feito 1.300 vítimas.
A mudança repentina e a repentina aberta hostilidade contra a investigação da
ONU, que coincidem com indicações de que o governo Obama planeja um grande
ataque militar contra a Síria para os próximos dias, sugere que o governo Obama
entende que a ONU esteja atuando como obstáculo para seus planos de atacar
militarmente.
Na 2ª-feira, Kerry disse que, na 5ª-feira, havia alertado o ministro Moallem,
de Relações Exteriores da Síria, para que desse acesso imediato à equipe da ONU
e suspendesse os bombardeios naquela área, os quais, disse Kerry, estariam
“sistematicamente destruindo provas”. Disse que o acerto entre Síria e ONU, que
afinal deu pleno acesso aos investigadores, estaria acontecendo “tarde demais
para ter credibilidade”.
Mas logo depois de o acordo ter sido anunciado no domingo, Kerry já havia
telefonado a Ban, tentando cancelar completamente qualquer investigação.
O Wall Street Journal noticiou a
pressão sobre Ban, mas sem mencionar Kerry.[1]
Publicou que “funcionários não identificados do governo disseram ao
secretário-geral que já não é seguro que os inspetores continuem na Síria e que
a missão deles já não faz sentido.”
Mas Ban, que sempre foi visto como instrumento dócil das políticas dos EUA,
recusou-se a retirar da Síria a equipe de investigadores e, em vez de obedecer,
“manteve-se firme na defesa dos princípios” – como escreveu o WST. O que se sabe é que Ban ordenou que
a equipe de investigadores da ONU “continue seu trabalho.”
O WST noticia que “funcionários dos
EUA” disseram também ao secretário-geral que os EUA “não acham que os
inspetores conseguirão obter provas aproveitáveis, dado que já transcorreu
muito tempo e bombardeios subsequentes destruíram as provas que houvesse.”
A porta-voz do Departamento de Estado, Marie Harf, confirmou para jornalistas
que Kerry, sim, falou com Ban durante o fim-de-semana. Também confirmou a
mudança de posição dos EUA sobre as investigações. “Acreditamos que passou
tempo demais e houve tal destruição na mesma área que a investigação não terá
credibilidade” – disse ela.[2]
Essa mesma ideia apareceu também em declaração de “alto funcionário”, anônimo,
no domingo, para o Washington Post, segundo
a qual as provas teriam sido “significativamente corrompidas” por bombardeios
subsequente, pelo regime, na mesma área.[3]
“Agora já não cremos que a ONU possa fazer investigação confiável sobre o que
aconteceu” – disse Harf. – “Estamos preocupados, porque o regime sírio está
usando a tática de atrasar as investigações, para continuar a bombardear e
destruir provas na área.”
Mas Harf não explicou como o
cessar-fogo que o governo sírio impôs na área a ser investigada e a decisão de
dar pleno acesso aos investigadores da ONU poderiam ser interpretados como
“continuar a bombardear e destruir provas na área.”
Apesar dos esforços dos EUA para fazer-crer que a política síria seria política
de “atrasar”, a verdade é que o pedido formal da ONU para que a equipe chegasse
ao local não havia sido encaminhado ao governo sírio, até que Angela Kane, Alta
Representante da ONU para Temas de Desarmamento, chegou a Damasco no sábado;
foi o que informou Farhan Haq, como porta-voz de Ban, em briefing à imprensa, em New York, na 3ª-feira.
Na 3ª-feira, o ministro sírio de Relações Exteriores Walid al-Muallem disse, em
conferência de imprensa, que ninguém havia pedido à Síria qualquer autorização
para que a ONU tivesse acesso à área de East Ghouta, até que o pedido afinal
apareceu, encaminhado por Angela Kane, no sábado. No dia seguinte, a Síria
informou que o pedido fora a aceito, bem como o cessar-fogo na mesma área.
Haq discordou frontalmente do que Kerry dissera sobre ser tarde demais para
recolher provas sobre o incidente do dia 21/8. “O gás Sarin deixa rastros que
podem ser detectados meses depois de o gás ser usado”, disse ele, como o New York Times noticia.[4]
Especialistas em armas químicas também sugeriram, em entrevistas para nosso
InterPress Service, que a equipe de investigadores da ONU – coordenada pelo renomado
especialista sueco Ake Sellström e reunindo vários especialistas requisitados
da Organização para Prevenção de Armas Químicas – teria meio para confirmar ou
descartar, em apenas alguns poucos dias, a acusação de ataque com gás de efeito
neurológico ou por outra arma química na área investigada.
Ralph Trapp, consultor para temas relacionados à proliferação de armas químicas
e biológicas, disse que se sentia “razoavelmente confiante” de que a equipe da
ONU conseguirá esclarecer o que houve. “Eles podem oferecer resposta altamente
confiável à questão de saber se houve ataque químico; e eles podem também dizer
qual o produto químico usado como arma” – disse ele –, a partir de exame de
amostras de sangue, urina e cabelo dos mortos e feridos. Há até “alguma chance”
de recolher resíduos químicos, de pedaços de munição ou de cartuchos, nos
locais investigados. E uma análise completa, disse Trapp, exige “vários dias”.
Steve Johnson, que dirige um programa de investigação forense de armas
químicas, biológicas e radiológicas na Cranfield University na Grã-Bretanha,
disse que até o final da semana a ONU já saberá se “houve mortes provocadas por
agente químico de efeito neurológico”. Johnson disse também que, sendo
absolutamente urgente, a equipe conseguiria produzir “alguma espécie de
primeira estimativa tendencial” sobre a questão, no prazo de 24 a 48 horas.
Dan Kastesza, veterano que serviu durante 20 anos no Corpo de Armas Químicas do Exército
dos EUA [orig. U.S. Army Chemical Corps]
e foi conselheiro da Casa Branca sobre proliferação de armas químicas e
biológicas, disse à InterPress Service que, de fato, não se procura traços de
gás sarin em amostras de sangue, mas das substâncias químicas que são
produzidas quando o gás sarin se decompõe. Kastesza disse também que, depois de
recebidas as amostras, os especialistas podem saber, “no período de um ou dois
dias”, se houve contato com gás sarin ou outro produto químico dos que se usam
como arma.
A verdadeira razão da hostilidade do governo Obama contra a investigação pela
ONU parece ser o medo de que a decisão do governo sírio, de dar livre acesso
aos especialistas, indique que o governo sírio já sabe que os investigadores
não encontrarão qualquer evidência de uso de gás de efeito neurológico.
Os esforços do governo dos EUA em 2013 para desacreditar a investigação dos
especialistas fazem lembrar o que fez o governo de George W. Bush contra os
inspetores da ONU, em 2002 e 2003, depois que não encontraram qualquer prova de
que haveria armas de destruição em massa no Iraque; o governo Bush, daquela
vez, recusou-se a dar mais tempo aos inspetores, de modo que não conseguissem demonstrar
cabalmente, por prova irrefutável, que não havia no Iraque nenhum programa
ativo de produção armas de destruição em massa.
Nos dois casos, o governo dos EUA já decidiu ir à guerra. E não permitirá que
se produza informação que se contraponha à sua decisão.
LA FEDERACIÓN SINDICAL MUNDIAL SE SOLIDARIZA CON EL PUEBLO SIRIO Y DECLARA: NO A LA “DEMOCRACIA” IMPERIALISTA
29 Agosto 2013
La
Federación Sindical Mundial condena energicamente la agresividad
imperialista contra Siria que se va agudizando y exige el cese inmediato
de las preparaciones de intervención militar contra el país y el pueblo
Sirio.
Bajo condiciones de aguda competencia
interimperialista y condiciones de profunda y prolongada crisis
internacional del capitalismo, cuando las rivalidades sobre los recursos
naturales y los pasos geoestratégicos se agudizan, el conflicto en el
Oriente Medio y el Mediterráneo alcanza nuevos límites.
El pretexto falso del
supuesto uso de armas químicas por el ejército sirio es una obvia
calumnia provocativa con el fin de ofrecer la oportunidad de
intervencíon, deseada y preparada hace años por los EE.UU. y las otras
potencias.
Los medios de comunicación internacionales,
propiedad de grupos multinacionales, en plena coordinación con la agenda
imperialista, enriquecen la desinformación, con el fin de provocar la
inercia o el apoyo de la opinión pública a un nuevo masacre.
Las fuerzas dentro del
país, apoyadas moral y prácticamente por las potencias extranjeras y
también por Turquía, los reyes y emires de Qatar, Arabia Saudita y
otros, no tienen nada que ver con los intereses del pueblo sirio, o con
la paz y la democracia prometida.
La “democracia”aplicada
en Afganistán, Irak, Libia, Malí no la necesitamos y no la queremos. No
más sangre por los intereses de las empresas transnacionales.
Hacemos un llamado a todas las fuerzas sindicales, afiliados y amigos de
la FSM, así como a todos los amigos de la paz y las organizaciones
masivas en todo el mundo a demostrar su rechazo a la política
imperialista y su solidaridad con el pueblo de Siria.
El pueblo sirio, sin intervención extranjera, es el único que puede y debe decidir sobre su presente y futuro.
Uma poderosa campanha de propaganda foi lançada, mais uma vez, contra a Síria,
com acusações de que o exército estaria supostamente usando armas químicas. Todas
as campanhas anteriores morreram gradualmente, deixando atrás de si só espuma e
lama. Seja como for, o que está acontecendo parece uma “décima onda”[1] bem real.
O secretário de Estado Kerry aparece em declarações cada vez mais histriônicas,
sempre a quilômetros de distância de qualquer lógica. “Sabemos”, diz ele, “que
o regime sírio armazena armas químicas. Sabemos que o regime sírio tem
capacidade para construir os foguetes. Sabemos que o regime sírio está decidido
a varrer a oposição exatamente daqueles locais onde os ataques aconteceram...
Nosso senso básico de humanidade está ofendido, não só por esse crime covarde,
mas também pela tentativa cínica de encobri-lo.”[2] Como se ter capacidade para
fazer e fazer fossem a mesma coisa!
Outra das frases de Kerry: “Qualquer um que diga que ataque nessa escala
apavorante poderia ser encenado ou fingido, deve avaliar a própria consciência
e seus valores morais. O que está hoje à nossa vista é real, e terrível.” Será
que esse palavreado todo ainda enganaria alguém, depois do que vimos de atos
dos norte-americanos durante as guerras do Iraque e do Vietnã?
Ileana Ros-Lehtinen, deputada Republicana da Florida e presidente da
Subcomissão da Câmara de Representantes para Oriente Médio e Norte da África, disse
que “Entendo que é essencial que o presidente Obama venha ao Congresso e peça
autorização [para atacar a Síria], receba ou não a autorização. Entendo que um
ataque com mísseis contra as forças de Assad já é agora iminente, e tudo que
receberemos do presidente Obama, com ajuda do Congresso, será uma notificação:
‘o ataque começará dentro de 20 minutos’. E mais nada.”[3]
O presidente Obama e o secretário de Estado Kerry dizem repetidamente que teriam
prova irrefutável de que o governo sírio seria responsável por usar o gás sarin
dia 21/8 em Joubar. Mas quem os informou disso? Vai-se ver, a história é sempre
a mesma: O jornal Al-Jarida, do
Kwait, por exemplo, noticia que a informação de que al-Asad teria usado armas
químicas foi dada a Washington e países europeus por Israel.
A matéria publicada diz que o general comandante do estado-maior do exército de
Israel, Benny Ganz, disse ao general comandante do estado-maior do exército dos
EUA, Martin Dempsey, que “Israel tem provas irrefutáveis de que o exército de
al-Assad usou armas químicas contra população civil”.
E o jornal alemão Focus noticia que a
unidade de inteligência 8200 do exército de Israel teria interceptado uma
conversa entre altos funcionários do governo sírio e oficiais do exército,
durante a qual o governo ordenou o uso de armas químicas. A responsabilidade
seria do irmão caçula do presidente sírio, Maher al-Asad, comandante da unidade
que possui armas químicas. Mas... Israel, que tem interesses envolvidos
diretamente no conflito, pode ser considerada fonte confiável de informação,
nesse caso? Nunca. De modo algum.
Toda a história de que Israel teria interceptado essa conversa parece
fantástica. Os líderes sírios conhecem bem os vizinhos que têm e, nesse caso,
sobretudo, usariam meios de comunicação mais seguros, efetivamente sigilosos.
A resposta à imortal questão “quem se beneficia [cui bono] com o crime?” absolutamente não aponta na direção de
Damasco, que não se pode dizer que lute ao lado das gangues armadas que lhe
fazem oposição. O infame ataque químico do dia 21/8 aconteceu em área alta e
densamente povoada na região de Ghouta Leste, constituída de dúzias de vilas e
pequenas cidades, inclusive Joubar, onde o ataque aconteceu. Essa região era a
base dos rebeldes que operavam perto de Damasco. Se a perdessem, perderiam
qualquer esperança de manter outras posições, e não só nos arredores da capital.
Mas o que mais importa é que, nas últimas várias semanas, as forças antigoverno
em Goutha Leste estavam contidas. Toda a área foi tomada pela expectativa de
que se aproximava o dia de um cessar-fogo estável. Parece que, de fato, era a
sensação que se observava em todo o país.
Nos últimos poucos dias, 1.525 pessoas depuseram armas em várias províncias da
Síria: todas foram anistiadas. A Comissão Governamental para a Reconciliação
Nacional, presidida pelo ministro Ali Haidar, muito próximo de Bashar al-Asad, estava
em negociações com mais de 100 grupos militantes, alguns grandes, outros
menores, aos quais oferecia anistia total, em troca de eles deporem armas. Esperava-se
que vários milhares de milicianos armados seriam convencidos declarar
simultaneamente que abandonavam a guerra – o que seria enorme vitória para o
governo e tinha alta probabilidade de marcar um ponto de virada no rumo da
guerra.
Nessas circunstâncias, o que menos interessaria ao governo sírio seria usar
armas químicas contra gente que já quase convencera a aceitar a paz. Mas para
os líderes da oposição armada, o ataque com armas químicas seria muito útil,
não só para arrastar as potências estrangeiras para o conflito, e ao seu lado,
mas também para impedir o prosseguimento do processo de paz que já estava em
andamento na área de Ghouta Leste.
As sugestões de Kerry e outros, de que só o exército sírio teria mísseis e meios
para transporte e dispersão de agentes químicos não resiste à mínima análise. Testemunhas
e agências de notícias em todo o mundo noticiaram, com unanimidade, que ninguém
ouviu explosões de ogivas, nem a aproximação de aviões. Nada disso. De repente,
na manhã de 21/8, as pessoas simplesmente começaram a sufocar, ao aspirar
substâncias venenosas que encontravam em seus porões e túneis – onde muitos
viviam, para esconder-se da violência da guerra.
Observe-se que não se veem vítimas pelas ruas que, pela lógica ocidental,
teriam sido bombardeadas pelo exército. Todas as vítimas foram encontradas em
espaços subterrâneos. Para explicar isso, criaram-se várias teorias exóticas,
dentre outras que o gás sarin seria mais pesado que o ar e penetraria em porões
e não se concentraria pelas ruas. Nesse caso, que quantidades de sarin teriam
de ter sido usadas?
Mas se se considera que o território é cortado por muitos túneis, tanto os
escavados pelos rebeldes para seu uso, como os escavados como via de circulação
da vida diária, vê-se que, tecnicamente, um ataque daquele tipo seria mais
fácil de executar de fora para dentro, que o contrário.
Para preparar a cena monstruosa, os ‘rebeldes’ não precisariam mais que vários
ventiladores potentes e alguns botijões de gás sarin feito em casa, em algum
salão subterrâneo. Explodem-se as entradas dos túneis para fechá-las e nenhuma
comissão da ONU jamais encontraria prova alguma, de crime algum. E toda a culpa
poderia ser jogada sobre Damasco.
Por saber de tudo isso, o exército sírio tentou por três dias entrar em Joubar,
para tentar tomar, pelo menos, algumas daquelas instalações. De fato, dia 24 de
agosto, o exército sírio realmente chegou a um daqueles locais onde se
armazenavam agentes químicos produzidos na Arábia Saudita, antídotos e máscaras
para uso dos operadores. Naquela ocasião, mais de 50 soldados do exército sírio
foram intoxicados por gás sarin, entre os quais quatro combatentes do Hezbollah,
atualmente em tratamento num hospital no Líbano.[4] Assim se produziu algo que
os especialistas da ONU encontrariam.
A agência noticiosa estatal síria SANA noticiou que os soldados tiveram “convulsões”
quando o inimigo usou o gás como “último recurso” depois que as forças do
governo alcançaram “significativa vitória” contra eles num subúrbio de Damasco.
Mas, infelizmente, ninguém no ocidente consegue ouvir as declarações do governo
sírio. História já velha de 30 anos, que veio recentemente à luz, de que os
norte-americanos sabiam que Saddam Hussein estava preparando um ataque químico
contra o Irã,[5]
mas continuaram a fingir que nada sabiam, está-se repetindo. Por exemplo, está
circulando a acusação absurda de que Damasco não teria autorizado a comissão
internacional a entrar na área onde foram usados os produtos químicos, para ter
tempo de destruir as provas. Mas Damasco não tinha controle sobre essas
regiões, como ainda não tem. Só as gangues armadas da oposição poderiam ter
encoberto alguma coisa. Quanto à preservação das provas, sabe-se que o gás
sarin dissipa-se poucas horas depois de liberado, mas permanece no local
durante meses: cinco dias não fariam qualquer diferença. Segundo especialistas,
o gás sarin permanece no sangue das vítimas por de 16 a 26 dias, como informou
o jornal inglês The Independent, hoje.[6]
A Comissão da ONU apenas começou a trabalhar, mas ninguém quer esperar pelas
conclusões. A Casa Branca continua a insistir que não tem qualquer dúvida sobre
o que a Comissão concluirá; como se a Casa Branca as tivesse ditado.
Em tudo e por tudo, a situação faz lembrar dolorosamente os eventos da guerra
na Iugoslávia, quando, em 1994 depois de um ataque de provocação, com morteiro,
contra o mercado Markale em Sarajevo, vindo de posições dos muçulmanos bósnios,
o que adiante foi provado por especialistas militares de uma comissão
internacional, serviu como pretexto para que a OTAN bombardeasse os sérvios da
Bósnia. Ou quando apareceram comissões de vários locais do mundo para
investigar os eventos, e já chegaram com textos antecipadamente redigidos e
pré-aprovados pelos “superiores”.
Ataques militares pelas potências ocidentais contra a Síria, se acontecerem, terão
provavelmente o formato de guerra à distância, como o ataque à Iugoslávia, que
destruiu o exército e a infraestrutura civil do país.
O jornal britânico Guardian noticiou
dia 26/8,[7] que os principais alvos de
ataque à Síria serão, no primeiro estágio do ataque, as unidades de elite do
exército sírio, bases de mísseis e locais de armazenamento de mísseis. Os
primeiros e principais ataques acontecerão contra o complexo militar de Mazzeh (num
subúrbio de Damasco, ao sul), onde está localizada a 4ª Divisão Blindada, e
contra o complexo militar de Qasioun (no norte de Damasco), quartel da Guarda
Republicana do Presidente da Síria.
Ao todo, dez sítios militares na vizinhança de Damasco estão marcados para serem
atacados, além de bases militares e instalações de mísseis e forças blindadas
no sul de Aleppo, no norte de Deir ez-Zor e a sudoeste de Homs. Também estão
planejados ataques contra bases aéreas, bunkers
de comandos e sistemas de controle, de comunicações e prédios públicos.[8]
Aparentemente, a ideia é: se bombardeamos os sérvios até pacificá-los, também
podemos bombardear os sírios até pacificá-los. Mas fato é que o mundo mudou, ao
longo desses anos, e o Oriente Médio é hoje construção mais frágil e mais
complexa, até, que os Bálcãs. Qualquer tentativa de “dar uma lição à Síria”
pode ter consequências catastróficas para todos que começaram a coisa, quando o
caos respingar, das fronteiras do Oriente Médio, sobre outras regiões. Sobre a
Europa, por exemplo...
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[1] Expressão da tradição náutica,
segundo a qual as grandes ondas vêm em série crescente de dez (às vezes, nove) ondas,
depois da qual a série recomeça [NTs].
Enquanto escrevo, 5ª-feira de manhã cedo, muitos sírios estão sendo ‘agendados’
para pagar com a vida pela ‘credibilidade’ dos EUA. O bombardeamento de um país
já devastado pela guerra é dito “simbólico”, para simplesmente “dar um recado”.[1]
É obscenidade tão grnde quanto aquela contra a qual Washingto diz reagir. Mais
uma sociedade do Oriente Médio será ainda mais destroçada, e os destroçadores
nada terão a oferecer para substituir o que destroçarão.
Os EUA há muito tempo desperdiçaram qualquer credibilidade que talvez tenham
tido ou desejado ter no Oriente Médio. Se a credibilidade for a causa, Washington
precisa fazer muito mais que se pôr a desmontar a vila cenográfica que ela fez
dos princípios que tediosamente gagueja. Mas aí está pensamento que hoje em dia
já não vai a lugar nenhum.
E os EUA mergulham em outra guerra no Oriente Médio. Diferente das guerras do
Iraque e do Afeganistão – verdadeiras obras de arte norte-americanas –, o
conflito na Síria é quadro pintado por outros. Mas, exceto por isso, esses três
casos de hostilidade injustificável contra regimes ‘desobedientes’ são
espantosamente similares.
Melhor dizendo: são tragicamente similares. Ao longo da história, os
norte-americanos insistimos na virtude da ignorância, em nada aprender, não
saber de nada. E o que estamos à beira de fazer é o que sempre fazemos,
previsivelmente, sempre. Os norte-americanos somos povo singular. Não há
dúvida. Talvez, até, excepcional.
Como tantas vezes já aconteceu, o governo Obama está na mídia, rejeitando
qualquer deliberação que a ONU considere justa.[2]
Na noite de 4ª-feira, o primeiro-ministro britânico David Cameron rendeu-se às
objeções do Partido Trabalhista ao apoio que o ministro vinha dando aos planos
de Washington para invadir a Síria.[3] A Grã-Bretanha agora quer esperar um
relatório da ONU sobre os supostos ataques químicos, dos inspetores de armas, e
dar mais tempo ao processo do Conselho de Segurança.
Mas ouçam o que disse o presidente Obama na 4ª-feira, no programa Newshour, da PBS,
e é evidente que os EUA consideram atacar sozinhos o regime sírio, se preciso
for. “Estamos preparados para trabalhar com qualquer um – russos e outros –
para tentar reunir os grupos e resolver o conflito,” disse Obama. “Mas queremos
que o regime Assad entenda que, ao usar armas químicas em larga escala contra o
próprio povo (...) está criando uma situação na qual os interesses nacionais dos
EUA são afetados, e isso tem de parar.”
Portanto, já nada conta, nem a folha de parreira da concordância internacional.
Os eventos, desde o que parece ser ataques com armas químicas em quatro áreas
residenciais de Damasco semana passada já trazem todas as marcas de um assalto
violento de rua, com os bandidos atropelando e espancando vítima colhida em
alta velocidade. Dado que os mísseis cruzadores que o governo está a ponto de
disparar contra a Síria levarão a impressão digital de todos os
norte-americanos, como uma bomba da 2ª Guerra Mundial, os bandidos somos nós
(aliás, outra vez). Aí, a responsabilidade é partilhada. Somos cúmplices.
As mentiras e frases inventadas que nos contam, enquanto Washington prepara-se
para “responder” à mais recente selvageria contra os sírios são construídas de
modo tão esquisito, que é difícil acompanhar a jogada. O pessoal de Obama mudou
completamente a coisa, diametralmente, diante de nossos olhos, deixando de lado
qualquer preocupação com a verossimilhança, inventando argumentos conforme a
hora. É claro que é tudo inventado! E é sempre a mesma história que já
recitaram incontáveis vezes. Vai-se ver, é a única narrativa que os
norte-americanos sabemos articular ou compreender – ideia assustadora, mas da
qual é impossível fugir, considerando o que estamos vendo.
As narrativas precisam da imprensa-empresa, é claro, e aí está ela, no caso da
crise síria, distribuindo versões irresponsavelmente recolhidas de uma só
fonte, apresentadas como se fosse opinião responsavelmente exposta, recolhida de
várias fontes. E desde quando os jornalistas passaram a ver-se, eles mesmos,
como agentes clandestinos da segurança nacional? Já é insuportável, essa
atitude de moleque de recados do poder. Se os jornalistas fizessem o próprio
trabalho com decência e seriedade, os EUA nos tornaríamos responsáveis por muito
menos tragédias semelhantes à tragédia síria, e estaríamos todos, aqui, muito
mais seguros. Do jeito que estão as coisas, a imprensa-empresa é peça
defeituosa no mecanismo democrático.
No instante em que chegaram notícias de armas químicas e vítimas, semana
passada, Washington e aliados puseram-se a exigir que o presidente Bashar
al-Assad da Síria autorizasse uma equipe de inspetores da ONU a examinar os
locais em questão. Tinha de ser. Exigência absoluta. Era isso ou isso. Todos
lemos as ‘declarações’.
48 horas depois, o pessoal de Obama pôs-se a ‘declarar’ que não, que ninguém
precisava do relatório da ONU. Desnecessário.[4]
Quando Assad autorizou a visita da equipe da ONU, o que nem demorou,
considerando-se que se trata de zona de guerra, já era “tarde demais para ter
credibilidade.” As provas já estariam “degradadas”, como todos também lemos.
Tarde demais? Provas degradadas? A equipe da ONU é equipe de especialistas. Estão
na Síria para examinar locais nos quais se diz que há meses teriam sido usados
produtos químicos, e não estariam lá se a tal “degradação” tivesse algum
fundamento científico. Isso ninguém leu, com uma exceção. Na 4ª-feira, William
J. Broad, correspondente de ciências do New
York Times teve a decência e o bom
senso de citar fontes não governamentais – afinal! Alguém! – que informou que
esses agentes químicos que estão sendo discutidos não se dissipam por períodos
de tempo terrivelmente longos.[5]
Quem não acreditar, pode perguntar aos vietnamitas.
A matéria de Broad ganhou o pé da página oito. Como I.F. Stone disse certa vez
do Washington Post, jornais são
sempre problema, porque você nunca sabe onde encontrará a matéria de primeira
página.
Mas no início dessa semana, se é que se pode engolir essa, funcionários dos EUA
já estavam pressionando secretamente a ONU para que abortasse a missão na Síria.
Washington decidira que, dessa vez, nenhuma prova seria interessante. Isso
ninguém leu – não em publicação norte-americana.
Era o caminhãozão que o pessoal de Obama estava tentando estacionar em cima da
calçada. As “provas” de que haviam sido usadas armas químicas, por mais que o pessoal
de Obama tivesse tentado, antes, se esconder delas, logo se tornaram “inegáveis”
(secretário de Estado Kerry), assunto “sem dúvida” (vice-presidente Biden), e
mais várias coisas ‘declaradas’ e repetidas. Isso todos lemos em abundância – e
sem qualquer confirmação ou investigação profissional decente, de parte dos jornalistas
que escreviam ou diziam, sem parar.
E... você percebeu? “Prova de uso” imediatamente se converteu em prova de que o regime de Assad usou. Aí
está o truque sujo. Nenhum funcionário do governo dos EUA disse que a
responsabilidade poderia ser dos ‘rebeldes’. Claro que, se nenhum funcionário
do governo ‘declarou’, ninguém leu sobre essa possibilidade nos jornais
norte-americanos ou ouviu-a dos ‘âncoras’ e ‘comentaristas’ de rádio ou
televisão. O imperdoável lapso de lógica passou despercebido. Já não há palavras
para dizer o quão absolutamente idiotas eles supõem que nós sejamos.
Agora nos prometem prova incontroversa da culpa de Assad, para a 5ª-feira, ao
longo do dia.[6] Inútil
tentar adivinhar. Na guerra de imagens e espetáculo, frequentemente se repetem
variantes da rotina acima descrita. Lembrem do yellowcake, ou de Colin Powell na ONU, ou os “tubos de metal” de Judith
Miller ou os “laboratório de armas móveis” no Iraque – todos empenhadamente noticiados
pelo New York Times.
Nesse espaço, semana passada, aventei minhas suspeitas de que os ‘rebeldes’ bem
poderiam ser os culpados.[7]
Repito aqui os mesmos argumentos.
Os inimigos deAssad
não têm suprimentos de gás sarin ou de outros agentes químicos – como se sugere.
Bobagem. Podem ter, é claro.
Os ‘rebeldes’ não seriam
capazes de montar um ataque de grande escala como parece que foi o ataque em
Damasco semana passada – como disseram incansavelmente,
semana passada. Mais bobagem.
Posição defensável é a dos russos e de alguns elementos responsáveis na
Grã-Bretanha: querem investigação séria e propõem que todos aceitem os
resultados.
Carla del Ponte, conhecida especialista, investigadora de crimes de guerra e
membro da comissão da ONU que examina o caso da Síria, disse em maio[8]
que havia fundados motivos para examinar se os ‘rebeldes’ seriam responsáveis[9]
por uma obscenidade na Síria, naquele momento, envolvendo gás sarin. A
investigadora de direitos humanos da ONU disse que “segundo depoimentos que
reunimos, os ‘rebeldes’ usaram armas químicas, tendo feito uso de gás sarin”, e
acrescentou que sua comissão trabalhava, como hipótese mais bem fundada, com a
ideia de que “foi usado gás sarin (...) pela oposição ao governo, pelos ‘rebeldes’,
não pelo governo sírio.”
Foi depenada e assada, na melhor tradição do ‘jornalismo’ norte-americano.
Mas Obama parece decidido a atropelar a ONU, independente do que digam os
especialistas. Na 4ª-feira, a Grã-Bretanha apresentou projeto de resolução ao
Conselho de Segurança, exigindo a intervenção militar, mas só pro forma. O Conselho de Segurança tem
vários membros, para que várias visões de mundo estejam adequadamente
representadas. Obama honra visões de mundo alternativas, tanto quanto George W.
Bush. Assim sendo, da ONU nada sairá que se aproveite, não com o veto da
Rússia, membro do Conselho de Segurança. Melhor partir logo para o crime e a
marginalidade outra vez, e esse é o mundo para termos em mente, se os fogos de
artifício prometidos começarem a chover sobre a Síria nos próximos dias. (...)
Concluo com o que considero o máximo, a cereja do bolo, o prêmio de
notícia-mais-ridícula-da-semana, embora só se encontre, na ‘mídia’
norte-americana, online.
“A parte mais consistente das provas de que o regime de Assad usou armas
químicas – e que dá base legal essencial para justificar ação militar ocidental
– foi apresentada pela inteligência militar de Israel.” É. Aquele pessoal
confiável. Do Mossad. A notícia está no Guardian,[10]
grande jornal britânico, que simplesmente repete uma revista alemã, Focus.
Síria: repete-se o teatro do “gás sarin” Conversa dos EUA é repetição de repetição de repetição... 28/4/2012, Robert Fisk, The Independent – http://goo.gl/QOiQs
Será que não há meio para escaparmos do teatro das armas químicas? Primeiro, a “inteligência militar” de Israel diz que o exército da Síria teria usado/provavelmente usou/poderia talvez usar armas químicas. Depois, Chuck Hagel, secretário de Defesa dos EUA, surge em Israel, para prometer mais armas para Israel já super mega over militarizada – nem menciona as mais de 200 bombas atômicas do arsenal de Israel – e repete a conversa da “inteligência” de Israel sobre o uso/provável uso/possível uso/talvez uso de armas químicas pelo governo sírio.
Aí então o bom velho Chuck volta a Washington e conta ao mundo que “esse negócio é sério. Temos de reunir todos os fatos.” A Casa Branca conta ao Congresso que agências da inteligência dos EUA, presumivelmente as mesmas antes referidas como “inteligência” de Israel, porque o pessoal ali trabalha sempre em perfeita harmonia, têm “graus variáveis de confiança” na avaliação. Mas a senadora Dianne Feinstein, presidente da Comissão de Inteligência do Senado – a mesma que deu jeito de defender todas as ações de Israel em 1996, depois de Israel ter massacrado 105 civis, a maioria crianças, em Qana no Líbano – já diz, da Síria, que “as linhas vermelhas foram evidente e claramente transgredidas e é preciso agir para evitar uso em larga escala.” E lá vem o mais velho e gasto clichê da Casa Branca – ultimamente usado exclusivamente contra o Irã e o provável/possível desenvolvimento de armas atômicas: “Todas as opções estão sobre a mesa”.
Qualquer sociedade normal já estaria em estado de atenção, sirenes tocando, sobretudo nas redações das empresas-imprensa. Mas, não.
Jornalistas dedicam-se a lembrar o mundo que Obama disse, sim, que o uso de armas químicas na Síria “mudaria o jogo” – pelo menos, os jornalistas norte-americanos admitem que a coisa é jogo. – E jornalistas e mais jornalistas ‘confirmam’, pela repetição, o que ninguém, até agora, confirmou.
Usaram armas químicas. Em dois estúdios da televisão canadense, os produtores me abordam brandindo a mesma manchete. Digo logo que, se me perguntarem, desmontarei, ao vivo, aquela “prova” lixo. Então, repentinamente, a matéria desaparece dos dois programas de entrevista. Não porque não venham a usar a “prova” lixo (usarão logo depois), mas porque não querem correr o risco de alguém dizer, pela televisão, que aquilo tudo pode bem ser um amontoado de sandices.
A CNN não se inibe. Perguntaram ao repórter da CNN em Amã o que se sabe sobre o uso de armas químicas. E ele: “Menos do que o mundo gostaria de saber. É a psique do regime de Assad...”
Mas... e alguém tentou saber alguma coisa? Ou algum jornalista perguntou a pergunta óbvia que ouvi de um homem da inteligência síria, em Damasco, semana passada: “Dado que a Síria pode causar dano infinitamente maior se usar os seus jatos bombardeiros MiG, por que usaria armas químicas?”
Além disso, dado que tanto o governo Assad quanto seus inimigos acusaram-se mutuamente de estar usando armas químicas... Por que Chuck teme mais as armas químicas do governo sírio? As armas químicas dos ‘rebeldes’ estariam, talvez, liberadas?
Tudo se resume àquele clichê, o mais infantil dos clichês: que EUA e Israel teme(ria)m que as armas químicas de Assad “caiam em mãos erradas”. Em outras palavras, temem que todas essas ‘químicas’ acabem no arsenal dos mesmíssimos ‘rebeldes’, sobretudo islamistas fundamentalistas, que Washington, Londres, Paris, Qatar e Arábia Saudita estão apoiando. Se essas mão são “erradas”, então as armas do arsenal de Assad estariam em “mãos certas”.
Era exatamente o que se dizia, exatamente, das armas químicas que havia no arsenal de Saddam Hussein – até que foram usadas contra os curdos.
Dizem os jornalistas que em três incidentes específicos pode(ria)m ter sido usadas armas químicas na Síria: em Aleppo, onde os dois lados acusam-se (mas os vídeos de hospitais foram publicados pela televisão estatal síria); em Homs, aparentemente, em pequena escala; e nos arredores de Damasco. E, embora a Casa Branca pareça ter esquecido esse detalhe, três crianças sírias refugiadas chegaram ao hospital no norte de Trípoli, no Líbano, com profundas, terríveis queimaduras pelo corpo.
Há aí vários problemas. As bombas de fósforo provocam queimaduras profundas e é possível que gerem defeitos em fetos. Mas os EUA não estão dizendo que o exército sírio teria usado bombas de fósforo (que é bomba química). Afinal de contas, os EUA usaram bombas de fósforo na cidade iraquiana de Fallujah, onde há hoje um assustador aumento no número de nascituros com defeitos de formação.
Talvez o horror que o governo sírio provoca no ocidente deva-se às notícias sobre tortura pela polícia secreta síria. Mas aqui também há um problema: há apenas dez anos, os EUA também faziam “entrega especial” de homens inocentes, entre os quais um cidadão canadense, exatamente àquelas mesmas prisões sírias, para serem interrogados e torturados pelos mesmos torturadores da mesma polícia secreta síria.
E, já que se falou de armas químicas de Saddam, há mais uma: os componentes químicos dessas armas hoje amaldiçoadas eram (então) fabricados por uma empresa de New Jersey e entregues em Bagdá pelos EUA.
Mas nas redações, hoje, não se fala de nada disso, é claro. Quem entre em qualquer redação de qualquer rede de televisão, só vê jornalistas que leem jornais. E quem entre em qualquer redação de jornais... só vê jornalistas que assistem à televisão, dia e noite. O sistema é osmótico. Todas as manchetes são a mesma manchete: o governo sírio usa armas químicas. E assim seque o teatrinho.
Por: Agencia Venezolana de Noticias (AVN) | Sábado, 27/04/2013 04:57 PM | Versión para imprimir
EL MINISTRO DE INFORMACIÓN SIRIO, OMRAN AL ZOUABI
Credito: Archivo
27 Abril.- El ministro de Información de Siria, Omran Al Zouabi, manifestó este sábado que la historia creada por Estados Unidos sobre armas químicas tratan de desviar la atención de los éxitos que ha tenido el Ejército de Siria en el combate a los grupos terroristas.
De acuerdo con una nota divulgada por Prensa Latina, Al Zouabi afirmó que las especulaciones del gobierno norteamericano en las últimas 48 horas son resultados de los cambios cualitativos en los campos de batalla.
El ministro sirio celebró esta semana varios encuentros con autoridades rusas y medios de comunicación para explicar los pasos que da el Gobierno del presidente Bashar al Assad en favor del proceso negociador y para exponer la realidad de la situación en Siria.
Al Zouabi manifestó que el principal obstáculo para una pronta salida del conflicto radica en el creciente flujo de armamentos a los grupos armados radicales, que son contrarios a las negociaciones con el Gobierno y a una solución política de la crisis.
Las estadísticas, dijo el diplomático, demuestran que mercenarios de 29 países combaten en territorio sirio: "estamos hablando de unos cinco mil de Yemén, Libia, Túnez, Arabia Saudita, Turquía, y también de Reino Unido, Francia y Australia, precisó.
Al Zouabi denunció que la guerra informativa es uno de los instrumentos más importantes empleado por Estados Unidos y aliados de Occidente "en esta batalla contra Siria, que sirve para tergiversar la posición de nuestro gobierno".
"Quiero decir a través de ustedes, a todo el mundo, que lo que pasa en Siria es solo una guerra entre el terrorismo y un Estado cívico, entre el terrorismo y un pueblo que mira a un futuro a largo plazo", afirmó el diplomático.
Por su parte, el portavoz de la cancillería rusa, Alexander Lukashevich, lamentó el auge de los rumores de todo tipo sobre el empleo, no verificado, enfatizó, de armas químicas por parte del Ejército de Siria, y las pasiones que origina el tema.
El vocero invocó la petición formulada por el propio Gobierno sirio al Consejo de Seguridad de la ONU de llevar a cabo una investigación integral y objetiva sobre las explosiones ocurridas el 19 de marzo pasado, en la ciudad de Alepo, por grupos opositores.
Según Lukashevich, el drástico giro en la posición del secretario general de la ONU, Ban Ki-moon, como consecuencia de la influencia de algunos Estados, demuestra un enfoque politizado acerca de esa problemática.
Recordó que la investigación sobre el incidente concreto en las cercanías de Alepo sigue bloqueada.
La fuente original de este documento es:
Agencia Venezolana de Noticias (AVN) (http://www.avn.info.ve)
NEW DELHI: Alta funcionária do regime sírio agradeceu aos países do grupo BRICS, na 6ª-feira, pelo apoio que, segundo ela, impediu a intervenção militar ocidental e a destruição do país.
Bouthaina Shaaban, conselheira do Gabinete de governo do presidente Bashar al-Assad, disse a jornalistas em New Delhi que Damasco é muito grata ao Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul.
“Graças a Deus há Rússia, China, Índia e Brasil, nos BRICS, que, pelo menos, têm conseguido introduzir racionalidade no que acontece hoje na comunidade internacional. Sem esses países, a Síria já teria tido o destino que teve a Líbia” – disse ela.
Shabaan, que se reuniu com o ministro de Relações Exteriores da Índia Salman Khurshid, está viajando pelas capitais dos países do bloco BRICS, organizando o apoio ao governo do presidente Bashar al-Assad da Síria.
“A Síria é extremamente grata à posição equilibrada dos países BRICS, e pelo apoio que tem dado ao povo e ao governo da Síria, mas parece-me que poderiam assumir posição mais proativa, na luta para encontrar uma solução para a crise na Síria,” disse ela.
“Parece-nos necessário que esses grandes países falassem mais na direção de por fim à violência e à agressão em curso contra os sírios e a Síria. Por muito que já tenham feito, os países BRICS, creio, podem fazer ainda mais.”
Rússia e China — países que são membros permanentes e votam no Conselho de Segurança da ONU – têm-se oposto muito eloquentemente contra o uso da dorça e qualquer intervenção externa para superar a crise na Síria, o que tem frustrado os EUA e seus aliados.
Moscou absolutamente não aprova a decisão de Washington de fornecer armas e apoio logístico às gangues armadas da oposição ao regime sírio, e continua a resistir aos norte-americanos, que querem ‘mudança de regime’ antes de que se iniciem conversações entre o governo e a oposição política.
A enviada do governo sírio ao ocidente atacou firmemente também os movimentos ‘diplomáticos’ e de propaganda ocidental que visam a forçar a derrubada do presidente Assad. Disse que “esses países que querem ‘mudança de regime’ à força, na Síria, são os mesmos que querem a destruição da Síria”.
Damasco – Distante apenas alguns quarteirões do hotel em me hospedei, perto do centro de Damasco, o Teatro de Ópera de Damasco, onde o presidente Bashar al-Assad discursou ontem, foi inaugurado em maio de 2004, pelo presidente e sua esposa, depois de completada a construção projetada e iniciada pelo pai de Bashar, Hafez, que planejou detalhadamente a construção, interrompida no final dos anos 1970s. Situado na Praça Umayyad, o Teatro de Ópera é um centro cultural; há alguns meses, encenou-se ali As bodas de Fígaro, de Mozart.
Com cerca de 1.400 lugares, o Teatro estava absolutamente lotado para o discurso de ontem e, como na cena final da ópera de Mozart, depois do discurso de Bashar também se seguiu “uma noite de celebração” para os muitos apoiadores que o presidente tem em Damasco. A glória de Bashar al-Assad, ao tentar deixar o palco na noite passada, cercado por uma legião de apoiadores, pode não ser semelhante à de Cesar nas guerras da Gália, quando descreveu a crise doméstica e sua luta contra a oposição, como luta de defesa para salvar “Roma”. E dificilmente o presidente da Síria será visto por seus críticos, como um John Kennedy no Teatro de Ópera de Viena.
Mas havia conexão profunda entre o homem e seu (vasto) público, durante o discurso caudaloso. Foi um magnífico discurso político, em forma e conteúdo e, sobretudo, pelo calor com que o presidente defendeu o que, para ele, é a causa da salvação da Síria e a causa dos sírios. Sem descartar nenhuma ajuda solidária sobre como pôr fim a atual crise, o presidente insistiu na ideia de que a Síria tem longa história de resistência à ocupação; que várias vezes rejeitou a ideia de receber ordens de governos aos quais, na atual crise, Bashar referiu-se como “chefes dos fantoches” que hoje causam morte, destruição e privações na República Árabe Síria.
Admito que eu estava sem dormir há dois dias. Mas o discurso de Bashar Assad fez-me pensar em falas shakespeareanas de Macbeth ou Brutus. Veio-me à cabeça o argumento de Brutus, em Julio Cesar, de Shakespeare, ato 3, cena 2: Haverá aqui, neste momento, alguém tão vil que deseje ser escravo? Se houver, que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão grosseiro que não queira ser romano? Se houver, que fale, porque o ofendi. Haverá alguém tão desprezível, que não ame sua pátria? Se houver, que fale, porque o ofendi. Calo-me. Que falem.[1]
Depois do discurso do presidente, uma jornalista local, não raras vezes crítica do regime, comentou – em resposta ao que lhe perguntei, sobre a aparentemente persistente popularidade de Assad, durante época tão extraordinariamente difícil para os sírios: “É verdade. Assad continua popular, em parte porque é homem modesto, quase tímido – e excepcionalmente culto e bem educado, em comparação com alguns monarcas da região, que são, de fato, analfabetos, e absolutamente não se interessam pelo que aconteça fora dos seus palácios-fortalezas.” E continuou: “Antes da crise, não será raro encontrar o presidente, sem qualquer escolta, dirigindo ele mesmo o carro, o banco traseiro cheio de crianças, fazendo compras ou saindo para jantar com a família, ou, vez ou outra, à espera dos filhos na saída da escola. Viu-se, mesmo ontem, na entrada, que ele sorriu para vários conhecidos entre o público. Na saída, não parecia preocupado com sua segurança, nem deu sinais de pressa. Até cumprimentou várias pessoas. Todos sabem que Bashar al-Assad sente-se bem como cidadão comum, entre conhecidos. Não é, nem de longe, o tipo sinistro que seus críticos insistem em apresentar.”
No mesmo dia, já no fim da tarde, estava de volta ao hotel, lendo jornais e assistindo ao noticiário pela televisão, que mostrava cenas do discurso, quando uma camareira entrou para fazer alguma coisa. A moça entrou e imediatamente sorriu ao ver a imagem de Bashar. Repentinamente, deu dois passos até a televisão e abraçou a tela, rindo; aplicou vários beijos na imagem! Tive medo que fosse eletrocutada. Mas ela ria.
À noite, em conversa com um xeique que tem muitos contatos políticos em Damasco, ouvi dele que Assad falou exclusivamente ao povo sírio e aos estrangeiros solidários e aos ‘neutros’. “Assad não falou, absolutamente não, aos inimigos de seu governo.” Sugeriu também que Assad fará mais dois discursos em breve, o próximo, provavelmente, no formato de “conversa ao pé da lareira”, à moda Roosevelt.
O xeique sunita referiu-se à fala de Assad ontem, como o primeiro de três discursos “da vitória” que, pelo que sabe, acontecerão. Falou também sobre os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita em relação ao que está acontecendo na Síria; lembrou que são governos que também têm seus próprios problemas.
No caso do Reino Saudita, e no contexto das consultas cada vez mais frequentes entre iranianos e sauditas sobre a Síria e o grave estado de saúde do rei Abdullah, há a considerar a previsível luta pela sucessão, que já se intensificou recentemente, porque há vários potentados dentro da família real saudita que se opõem furiosamente à atual campanha para minar o regime de Assad. O governo sírio, digam o que digam os detratores, é visto por muitos, nos países do Golfo, como governo de respeitável pedigree árabe e nacionalista, com longa história de respeito mútuo com vários países da região.
Meu informante, xeique e sunita, também já vê sinais de que o governo Obama começa a desinteressar-se de sua guerra clandestina contra a Síria, em parte como resultado das fissuras que já se observam nas vozes, antes muito coesas, de vários porta-vozes da muito erradamente chamada “coalizão”. O presidente Assad, em fala que muitos analistas do Oriente Médio bem farão se virem um “discurso histórico”, ofereceu um novo plano aos sírios, situação e oposição e, também à comunidade internacional que, sim, pode e deve pôr fim imediatamente à crise.
Em ordem sequencial, como cronograma, o plano inclui:
* países estrangeiros param, imediatamente, de financiar, armar e insuflar as gangues terroristas, que deporão armas; * o governo sírio retira de campo o exército e declara uma anistia; * inicia-se um conferência-diálogo nacional; * dessa conferência-diálogo, produz-se um projeto de Constituição, a ser submetida a referendo popular; e * constitui-se um governo de coalizão que, presumivelmente, governará até as eleições marcadas para 2014.
Técnico que trabalha na Comissão de Relações Exteriores do Congresso dos EUA escreveu por e-mail, ontem à noite, que não se surpreenderá se o governo Obama mostrar sinais de interesse pela “fórmula que Bashar apresentou no Teatro de Ópera de Damasco”, dada a realidade geopolítica na região, que está mudando muito rapidamente, e dado o impasse militar que se vê em campo, na Síria. São duas evidências que já sugerem fortemente que não restarão muitas alternativas ao novo governo Obama, porque não há qualquer possibilidade realista de o regime Bashar ‘render-se’, jogar a toalha, entrar ‘em colapso’ ou ser vencido, no curto prazo.
Meu correspondente, que trabalha no setor de questões EUA-Oriente Médio, crê também que o novo secretário de Estado John Kerrey e o provável novo secretário de Defesa Chuck Hagel – que enfrentarão dura batalha para serem aprovados no Senado, mas que, sim, provavelmente serão aprovados, operam também nessa nova linha em que o governo Obama começa a investir.
Fato é que, diferente do presidente Assad, que apresentou um plano, um dos líderes da chamada ‘oposição’, George Sabra, nada encontrou para propor, que encaminhasse qualquer solução para a atual crise. Sabra só soube dizer que “Absolutamente não se considera qualquer possibilidade de diálogo com esse regime, de forma alguma. Não é uma possibilidade. Está fora de questão.”
É possível que a chamada “comunidade internacional” já esteja começando a considerar outra saída, melhor que essa, para a questão síria. ***************************************************** [1] [1] SHAKESPEARE, Julio Cesar, ato 3, cena 2. Fala Brutus, depois de ter assassinado Julio Cesar. Antes, na mesma fala, Brutus disse: “Se houver alguém nesta reunião, algum amigo afetuoso de César, dir-lhe-ei que o amor que eu [Brutus] dedicava a César não era menor do que o dele. E se esse amigo, então, perguntar por que motivo levantei-me contra César, eis minhas resposta: não foi por amar menos a César, mas por amar mais a Roma. Que teríeis preferido: que César continuasse com vida e vós todos morrêsseis como escravos, ou que ele morresse, para que todos vivêsseis como homens livres? Por haver amado César, pranteio-o; por ter sido ele feliz, alegro-me; por ter sido valente, honro-o; mas por ter sido ambicioso, matei-o. Logo: lágrimas para a sua amizade, alegria para sua fortuna, honra para o seu valor e morte para a sua ambição” (em português, em http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/william-shakespeare/julio-cesar-3.php) [NTs].
O ministro da Informação, Omrane al-Zohbi, convidou nesta terça-feira "todas as forças da oposição" da Síria a participar do diálogo nacional proposto pelo presidente Bashar al-Assad para tentar acabar com a crise que já dura 18 meses.
Depois de Assad ter avisado que não negociaria com "gangues que recebem ordens do exterior", a agência árabe-síria de notícias, Sana, indica que este é um convite "a um diálogo com base no respeito à soberania nacional e na rejeição a toda forma de intervenção externa" e está dirigido "a todas as forças de oposição" que aceitam esses princípios.
Isso exclui de fato a Coalizão opositora, principal concentração de forças hostis ao presidente Assad, que é favorável a uma intervenção externa para derrubar o regime. Durante esse diálogo, "as discussões serão longas, exaustivas e difíceis porque há diferentes opiniões, propostas e perspectivas", previu Zohbi.
Ele acrescentou que os participantes "analisarão todos os aspectos" da crise síria, principalmente "a violência, o terrorismo e a presença de elementos e de organizações terroristas, assim como as questões econômicas, das liberdades e dos direitos humanos, assim como a situação dos presos".
O presidente Assad propôs domingo (6) um plano para pôr fim a 21 meses de conflito prevendo o fim das operações militares, seguido de um diálogo nacional patrocinado pelo "atual governo", para o qual ele afirmou não ter encontrado um "parceiro" até o momento.
Apesar da rejeição a esse plano por parte da oposição fora do país e da oposição tolerada em Damasco, o governo começou a estabelecer os mecanismos de aplicação deste mapa do caminho apresentado no domingo por Assad. "O governo se reúne a pedido do presidente para elaborar os mecanismos e implementar as ideias e o programa nacional do discurso do presidente Bashar al-Assad", indicou Zohbi.
Russia Today: Pepe Escobar é um dos nossos correspondentes estrangeiros prediletos. Olá, Pepe, como vai? Que lindo sorriso, amigo! Feliz Ano Novo, Pepe!
Pepe Escobar: Feliz Ano Novo!
Russia Today: Pepe fala conosco, cada vez, de uma cidade diferente. Você está onde, hoje, Pepe?
Pepe Escobar: London Eye [risos].
Russia Today: Mas, diga, Pepe, por favor. Kofi Annan nada conseguiu. Foi substituído por Lakhdar Brahimi, que parece que pouco está conseguindo. Para onde irá a Síria, afinal?
Pepe Escobar: É muito triste, é muito triste, de fato, para todos, em todo o mundo, porque a principal tragédia geopolítica de 2013 será a principal tragédia geopolítica também de 2012: o estupro da Síria. Vou dizer uma coisa, porque é ‘visual’, permite ver as coisas: há poucos meses, na Suécia, em abril do ano passado, Kofi Annan deu uma palestra, e naquele momento ainda tentava articular algum tipo de acordo na Síria. Mas a palestra, de fato, foi, do começo ao fim, um relato, uma confissão de impotência. Se o próprio Kofi Annan não conseguiu levar todos os atores para uma negociação, sentá-los todos em volta da mesma mesa, até chegarem a algum acordo, sobretudo porque a oposição na Síria não queria acordo algum, é pouco provável que Lakhdar Brahimi consiga mais sucesso, onde Kofi Annan fracassou. Quer dizer: a coisa lá está andando diretamente na direção do que foi a guerra civil no Líbano, e pode durar 15 anos, em vez de alguns meses. É horrível.
Russia Today: O presidente Assad disse que não sairá de lá, quando falou com nosso correspondente em Damasco, há alguns meses. Perguntaram-lhe se tinha medo do futuro. Assad respondeu que não, não tinha medo algum. [A jornalista ao lado intervém:] Ao longo de 2012, praticamente todos os analistas previram que Assad não conseguiria ficar, que não aguentaria. [O jornalista prossegue]. Pois é. Apesar do muito que se disse, o que se vê hoje é que Assad lá está e lá continua. Essa posição do presidente não torna as coisas sempre mais difíceis, não só para a oposição, mas também para os seus seguidores?
Pepe Escobar: A coisa é que não se viram, até agora, as tais fissuras na liderança, que tantos esperavam. Não há deserções nem rupturas de nenhum tipo no centro do poder de Assad. A cada duas, três semanas, ouve-se falar de um desertor de importância secundária, e é o que basta para a imprensa-empresa ocidental pôr-se a noticiar que o mundo estaria desabando sobre a cabeça de Assad, que será derrubado amanhã e, assim, acabou-se a história. Não será derrubado amanhã e a história ainda não acabou. O regime mantém-se em grande parte intacto e operante, De fato, ninguém poderá vencer essa guerra civil. As forças de Assad mantêm-se no controle das grandes cidades. Se alguém conseguir vencer as forças de Assad em Aleppo ou em Damasco, sim, talvez se possa começar a pensar em fim do que se vê lá hoje. Mas, por hora...
Russia Today: Em poucas palavras, que nosso tempo está acabando: o que você acha cabível esperar para o futuro imediato da Síria?
Pepe Escobar: A única possibilidade seria a oposição – se conseguir se organizar para manifestar o desejo dos sírios –, decidir não dar ouvidos aos sauditas, nem aos turcos, nem aos qataris, nem aos norte-americanos, britânicos e franceses. E sentarem-se com o governo de Assad e construírem juntos o projeto de um governo de transição ou, no mínimo, um plano de transição que os leve a eleições livres. Pode acontecer? Acho que não. Não acho que seja provável.
Russia Today: Obrigado, Pepe. Feliz Ano Novo!
Pepe Escobar: Feliz Ano Novo a todos. Feliz Ano Novo.
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Al-Assad: "Não posso fugir ao desafio que a Síria enfrenta"
Em entrevista concedida pelo presidente da Síria ao jornalista Jürgen Todenhöfer, da emissora de televisão alemã ARD, Bashar al-Assad afirma que não pode deixar o governo do país apenas pela ilação de que fazendo assim determinaria o fim do conflito instalado na nação.
Para Al-Assad, somente eleições e a escolha livre do povo sírio, com ele concorrendo ou não ao cargo de presidente, é que podem decidir o destino do conflito. O presidente sírio também afirma que a agressão é externa e que o seu governo fez tudo o que o ex-enviado especial da ONU para a Síria, Kofi Annan, recomendou. A entrevista apresentada no programa Weltspiegel foi veículada em 8 de julho deste ano e tem quase 19 minutos de duração. A tradução segue abaixo do vídeo e foi feita pelo coletivo de tradutores Vila Vudu.
Jürgen Todenhöfer: Sr. Presidente, membros da oposição e políticos ocidentais têm dito que o senhor é o principal obstáculo à paz na Síria. O senhor estaria disposto a renunciar à presidência, sendo essa condição para a paz e para pôr fim ao banho de sangue?
Presidente Bashar al-Assad: Não posso fugir ao desafio que a Síria enfrenta hoje. Hoje a Síria enfrenta um desafio à própria nação. O presidente não pode fugir. Por outro lado, ninguém pode permanecer na presidência sem apoio popular. A resposta à sua pergunta não pode vir de mim. Tem de vir do povo sírio, essa resposta tem de ser resposta pública, que venha em eleições. Eu posso decidir concorrer ou não concorrer a eleições, mas não posso decidir ficar na presidência ou deixá-la. Essa é decisão que cabe ao povo sírio, em eleições.
O senhor ainda tem maioria de apoio popular na Síria?
Se eu não tivesse apoio popular, não poderia permanecer na posição onde estou. EUA estão contra mim, o ocidente está contra mim, muitos poderes e países regionais estão contra mim. Se o povo estivesse contra mim, já não estaria na posição em que estou. A resposta é sim, claro que tenho apoio popular. Porcentagens não sei, nem interessam. Mas não há dúvida de que, para permanecer na presidência da Síria, na situação que a Síria enfrenta hoje, sim, é claro que tenho apoio popular.
Assisti a algumas demonstrações pacíficas, mesmo em Homs. Não é legítimo que as pessoas exijam mais liberdade, mais democracia, menos poder nas mãos de uma família que governa o país, menos poder para os serviços secretos?
Para responder corretamente, temos de corrigir essa pergunta. Na Síria não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria, temos instituições, talvez não instituições ideais, mas temos Estado e não há “família que governa o país”. Temos Estado na Síria. Isso, quanto à pergunta. Agora, posso responder à primeira parte de sua pergunta: é claro que aqueles manifestantes têm direito legítimo de se manifestar. Mas não é verdade que os manifestantes só peçam ‘liberdade’. A maioria dos manifestantes legítimos pedem reformas, maior participação no poder e no governo. Essas reivindicações são legítimas, evidentemente, em qualquer lugar do mundo. Mas a maioria do povo sírio não está nas manifestações. Mas, sim, claro, as manifestações são legítimas.
A pergunta que todos estão fazendo no ocidente e em seu país é quem matou os milhares de vítimas civis inocentes que morreram nesse conflito? A oposição culpa o senhor.
Para saber quem matou, é preciso saber antes quem foi morto. Não há como descobrir o criminoso sem saber quem é a vítima. A vasta maioria dos mortos são apoiadores do governo. Como seria possível ser assassino e vítima, ao mesmo tempo? A maioria das vítimas eram apoiadores do governo; e outra grande parte das demais vítimas é gente inocente que estão sendo assassinados por vários diferentes grupos na Síria.
O senhor concorda que muitos, ou, pelo menos, uma certa porcentagem desses civis vítimas, foram mortos pelos serviços de segurança do seu governo? O senhor teria essa porcentagem?
Não, claro que não. O que temos é um Comitê que está investigando essas mortes. Até aqui, sobre os crimes investigados, os nomes que já temos, as vítimas foram assassinadas por gangues, diferentes tipos de gangues, da Al-Qaida, grupos extremistas, criminosos e grupos de criminosos procurados pela polícia há anos.
O senhor está dizendo que os rebeldes, que o senhor chama de terroristas, mataram mais civis que as forças de segurança?
Não. Estou dizendo que mataram mais agentes das forças de segurança e soldados, que civis que apoiam o governo.
Mas falando exclusivamente de civis. Os rebeldes mataram mais civis que as forças de segurança, ou as forças de segurança mataram mais civis?
Como eu disse, as vítimas que há nas forças de segurança e no exército são em número muito maior que o número de vítimas que há entre civis.
O senhor diz que há investigações sobre membros das forças de segurança que podem ter matado civis inocentes. E desses, alguém foi punido? Sim. Vários estão presos e vários estão sendo julgados por outros crimes.
Quem cometeu o massacre de Houla, onde mais de 100 pessoas foram brutalmente assassinadas, entre elas muitas crianças?
Gangues de criminosos de fora da cidade, não da cidade, que atacaram a cidade e as forças da lei daquela cidade. E mataram muitas famílias, como você diz, e muitas crianças e mulheres, e, de fato, as duas famílias que foram assassinadas eram apoiadoras do governo. Não eram da oposição.
Ouvi, de moradores de Houla, sobreviventes das famílias que foram atacadas e mortas, que os atacantes usavam uniformes militares do exército sírio. Por que usavam uniformes militares?
É prática que já se observou muitas vezes. O Comitê de investigação sabe que isso acontece: eles produzem vídeos e distribuem vídeos, vídeos falsos, onde aparecem homens fardados com nosso uniforme militar. Esses, ao que se sabe, assassinaram aquelas famílias.
O senhor está dizendo que é estratégia dos rebeldes?
Sim, é. Fazem isso sempre, desde o início. E não só em Houla, mas em vários pontos.
Quem são esses rebeldes, que o senhor chama de terroristas?
São uma mistura, um amálgama de Al-Qaida, outros extremistas, não necessariamente ligados à Al-Qaida, além de criminosos que a Polícia procura há muito tempo (traficantes e contrabandistas de drogas vindas da Europa e que transitam pela Síria, além de outros, muitos dos quais condenados e foragidos da Polícia. É uma mistura de coisas diferentes.
Quantos seriam esses que lutam contra o governo?
Não sei lhe dizer. Calculam-se em milhares.
Quantos? 20, 30?
Não posso lhe dar números, porque não há números precisos.
O senhor diria que todos esses rebeldes são terroristas?
Depende do ato que pratiquem. Se atacam e queimam e destroem, sim, fazem terrorismo em termos definidos na lei. Mas há muita gente implicada nos atos e que não são criminosos, por diferentes razões. Às vezes, a razão é o dinheiro (porque são pagos); às vezes, porque são ameaçados; às vezes movidos por algumas ideias ou ilusões delirantes. Nem todos são terroristas. Essa é a razão pela qual muitos foram absolvidos, quando aceitaram entregar as armas.
O governo sírio encontrou homens da Al-Qaida, entre esses já foram presos?
Sim, sim. Dezenas deles. [JT: De que países?] Acho que quase todos vinham da Líbia e da Tunísia.O senhor chegou a ter contato com esses prisioneiros? Com algum deles?
Sim.
Com intérprete?
É claro.
Qual é o papel dos EUA, nesse conflito?
São parte do conflito. Oferecem o guarda-chuva e o apoio político àquelas gangues, para romper a ordem, desestabilizar Síria.
O que o senhor está dizendo é que os EUA garantem o apoio político aos rebeldes, que o senhor chama de terroristas matam civis. É isso?Exatamente isso.
Nesse caso, o senhor está acusando o governo dos EUA de ser, pelo menos, parcialmente responsável também pelo assassinato de civis na Síria. É isso? É exatamente isso. Se você assegura qualquer tipo de apoio a terroristas, você é cúmplice. Se você garante aos terroristas armamento, dinheiro e apoio político (apoio na ONU, qualquer tipo de apoio), a implicação é que você é cúmplice dos terroristas.
O senhor sabe que os políticos ocidentais veem a mesma situação de modo diferente do seu...Sei.
...e que estão discutindo hoje uma intervenção militar na Síria. Como seu governo reagiria? O senhor retaliaria, contra países ocidentais?
Não se trata de retaliação. Trata-se de defender nosso país. É nosso dever e é nosso objetivo. Em nenhum caso se cogita de retaliar contra alguém, seja quem for.
E a Síria está preparada para um ataque desse tipo?
Bem... [semi-sorriso] Preparados ou não preparados, teremos de defender nosso país. Mas, sim, estaremos preparados.
Se, para o senhor, os EUA são parte do problema, por que não negocia com eles? Por que não convida Mrs. Hillary Clinton para que venha a Damasco? Por que o senhor não dá o primeiro passo? A Síria nunca fechou suas portas a país algum, nem a nenhum funcionário de nenhum governo que deseje ajudar a resolver o problema pelo qual estamos passando na Síria, desde, é claro, que sejam sérios e honestos. Mas [os EUA] fecharam todas as portas. Seja como for, não há problema conosco: no instante em que decidirem negociar, estamos preparados para ajudar.
O senhor estaria preparado para dialogar com Mrs. Hillary Clinton? Para andar com ela pelas ruas de Damasco, para mostrar-lhe a hospitalidade síria e atual situação nas ruas da cidade? Já lhe disse que não fechamos portas, nunca fechamos porta alguma, nem aos EUA nem a qualquer outro país. Não falo especificamente de Mrs. Clinton ou de qualquer outro funcionário do governo dos EUA. Sempre negociamos. E já andamos pelas ruas de Damasco com outros funcionários, como você lembrou. E, sim, claro, podemos fazer novamente, claro.
Passemos, por favor para a situação interna na Síria. As negociações com grupos da oposição é opção realista? Ou o senhor entende que esse conflito terá de ser objeto de disputa armada até o final, por amarga que seja a luta? Verdade é que em qualquer caso, o diálogo é necessariamente a primeira opção estratégica. O diálogo é indispensável. No mínimo, para confirmar que nada será possível fazer pela via pacífica. Mas, mesmo com diálogo, se o diálogo não funciona ou se você é atacado por terroristas, você é obrigado a combater o terrorismo. Você não decidir que só vai dialogar, que não vai responder nem vai defender-se, enquanto terroristas continuam matando seu povo e armando exércitos inimigos.
E o senhor não poderia dialogar com os que não são terroristas?
Dialogamos no verão passado. E repetimos nosso convite, alguns deles aceitaram, conversamos e a oposição apresentou candidatos às eleições, concorreram e hoje têm representantes eleitos no Parlamento. Semana passada apresentaram portfólios ao governo.
Mas só tiveram 2% dos votos nas eleições...
Isso, perdoe, não é nossa culpa [risos]. Não poderíamos ter dado a eles também os votos. Não criamos o governo.
O senhor estaria disposto a conversar também com a oposição em [Hexa?]?
Dissemos que conversaríamos com qualquer um.
O senhor aceitaria negociar com os rebeldes, se depuserem armas?
Sim, e já conversamos. Os que depuseram armas foram julgados, vários foram absolvidos e, hoje, vivem vidas normais, sem problema algum.
O senhor estaria disposto a negociar com qualquer um, desde que deponham armas.
Claro. As conversas começaram antes de eles terem deposto armas. Fizemos todo o possível, até alcançar um bom resultado.
E quanto ao plano de Kofi Annan? Fracassou?
Não. Kofi Annan continua fazendo, até aqui, um trabalho difícil, sim, mas bom trabalho. Está encontrando muitos obstáculos, mas não deve falhar. É excelente plano.
Qual é o principal obstáculo?
O principal obstáculo é que muitos países não desejam que o plano de Kofi Annan dê certo e funcione. Por isso dão apoio político e continuam a fornecer armas e dinheiro aos terroristas que operam dentro da Síria. Querem que o plano fracasse.
Quem envia armas para seu país? Qual é o país que envia armas?
Ainda não encontramos provas concretas, mas há muitas indicações, indícios, que apontam, posso dizer-lhe, principalmente, para Arábia Saudita e Catar, quanto ao fornecimento de armas contrabandeadas para a Síria. Quanto ao apoio logístico, os indícios apontam para a Turquia
E os EUA?
Pelo que sabemos até aqui, eles têm garantido apoio político.
Equipamento de comunicação?
Há alguma informação sobre isso, exatamente. Mas não comentei esse aspecto, porque ainda não temos informação concreta, completa, que confirme isso e que eu pudesse mostrar-lhe.
E sobre a ideia de Kofi Annan, de um governo de unidade, constituído por grupos de oposição, inclusive o Partido Baath. Você está falando do plano da Conferência de Genebra. Sim. Já temos esse governo na Síria. Já há membros do partido Baath no Parlamento e participando do atual governo. Mas é preciso critérios: como se define “oposição”? Podem ser dezenas de milhares, centenas de milhares ou milhões de partidos de ‘oposição’. Todos terão de participar necessariamente do governo? Conforme o número... e se não se define o que seja ‘oposição’, que ‘oposição’ seria essa, criada por força de lei? Não há democracia que opere assim. A democracia exige critérios e exige mecanismos. Para mim, o mecanismo tem de ser as eleições. Você representa uma posição, concorre em eleições, obtém votos, ganha lugar no Parlamento, pode participar legitimamente do governo. Mas, se você ‘se chama’ ‘oposição’, mas não tem votos, não consegue representação no Parlamento, você representa o quê? Você mesmo? Que sentido há nisso? Tivemos eleições parlamentares na Síria, há dois meses.
Por exemplo, a oposição [ininteligível] que participou das eleições... O senhor aceitaria que participasse de um governo de transição, interim, digamos, temporário... Se aceitarem nossas leis, nossas regras, se não cometerem atos criminosos, se não facilitarem as vias para que a Otan ou qualquer outra potência externa ataque a Síria, sim, por que não? Eles também têm direito de participar de eleições, se atenderem às condições que os demais partidos também atendem. Não vejo por que a oposição teria de ser banida do país.
Um homem como Ghalioun, o presidente do Conselho Nacional Sírio...
Não é questão que se possa resolver em geral, para todos. Não é questão de nomes. É questão de princípios para todos. Os dossiês policiais terão de ser examinados. Se não se encontrar indício de que tenham cometido crime, nada os obriga a viver fora da Síria, nada os impedirá de concorrer às eleições. Aplica-se a todos.
Senhor presidente, quando o senhor pensa no que aconteceu aos líderes de Egito e Líbia. Quando o senhor pensa nas imagens que todos viram pela televisão... O senhor não teme por sua família?
Estamos falando de coisas diferentes, de situações diferentes. O que aconteceu a El-Kadafi foi selvageria. Não importa o que tenha feito, não importa quem tenha sido. Com Mubarak a situação foi diferente. Mubarak foi julgado. Qualquer cidadão que tenha assistido ao julgamento pela televisão pode ter pensado: queria eu, estar naquela posição, vivendo como ele está vivendo. Para entender o que há a temer, é preciso diferençar essas duas histórias. É tudo completamente diferente. Não há qualquer semelhança entre o que houve no Egito e o que está havendo na Síria. O contexto histórico é completamente diferente, o tecido social é diferente, e nossa política sempre foi diferente. Se não se podem comparar esses destinos, não há o que temer. Talvez, no máximo, alguma emoção de piedade, ou de lástima por algum destino pessoal mais trágico.
O senhor enfrenta uma oposição dura, seu país enfrenta uma luta dura, há rebeldes e o senhor sabe o que esses rebeldes fazem e são capazes de fazer. Repito, então minha pergunta: o senhor não teme pela sua família? Nada importa mais, na vida de um homem, que viver conforme suas convicções. Claro que pode haver discordâncias, pode haver quem discorde de você, opiniões diferem. Mas se você trabalha para proteger o povo, por que temer? Há centenas de vítimas. Imagine se houver milhares, dezenas de milhares de vítimas? Esse, sim, é o problema a resolver.
Para terminar, qual é sua proposta para o final desse conflito? Volto à pergunta inicial: o senhor entende que tenha de lutar essa luta até o fim? Temos de chegar a uma solução, que tem dois eixos. Em primeiro lugar, não podemos aceitar o terrorismo. Esse é um eixo. Temos de combater o terrorismo. Quanto a isso não há discussão. A realidade na Síria é que há alguém matando civis, matando inocentes, matando mulheres, matando crianças, matando seus soldados, matando policiais, matando todos. Temos de combater os terroristas, se não aceitam dialogar. O outro eixo é construir um diálogo político com componentes diferentes, para, simultaneamente, poder promover reformas. Em todo esse processo, o povo resolverá quem serão seus representantes
Não há meio para que as reformas venham um pouco mais depressa.
Esse é um critério muito subjetivo. Parecerão mais lentas para uns, rápidas demais para outros. Você acha que a reforma é rápida, eu acho que é lenta... É critério muito subjetivo. Reformas são coisas que se faz o mais depressa possível, sem pagar preço caro demais em cada etapa, porque sempre há efeitos colaterais, que não podem ser tão severos a ponto de inutilizar a reforma. Isso não depende de mim, nem do governo, nem do Estado e é processo que tem de ser encaminhado conforme o ditem as circunstâncias objetivas na Síria.
E como, senhor presidente, o senhor espera ver seu país dentro de dois anos?
Tenho de ver a Síria, em dois anos, mais próspera. Mais prosperidade implica melhores condições econômicas e melhores condições em geral, em todos os campos. Para tudo isso, é indispensável construir, imediatamente, o que a Síria menos tem hoje e do que mais precisa: segurança. Sem segurança, não há como sonhar com prosperidade.
Muito obrigado, senhor presidente, por essa entrevista.