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sexta-feira, 28 de maio de 2021

Concepções Sindicais e Sindicalismo Classista



O que é sindicalismo classista?

Augusto César Petta - « CES Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho

PRINCÍPIOS DA CTB




UNIDADE

A busca da mais ampla unidade da classe trabalhadora é um princípio basilar da CTB. Nossa classe se compõe de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes categorias, ramos e setores da economia, jovens e idosos, ativos e aposentados,negros, brancos e índios, empregados e desempregados, formais e informais, rurais e urbanos, públicos e privados. A união das diferentes categorias contra a exploração capitalista quea todos aflige, no campo e nas cidades – independente da diversidade de profissões, qualificações, situação social, vínculo laboral, gênero, raça, etnia ou orientação sexual –, é fundamental para o êxito das lutas e conquista dos objetivos táticos e estratégicos do movimento sindical. Historicamente,a unicidade sindical, instituída em 1939 e consagrada no Artigo 8º da nossa Constituição, tem se revelado uma norma preciosa para garantir a unidade no âmbito dos sindicatos. A CTB defende com firmeza a unicidade, proclama a necessidade de união das centrais e combate, com vigor, todas as concepções e iniciativas que promovem a divisão das categorias e o desmembramento das bases.

DEMOCRACIA

A democracia, representativa e participativa, é essencial para a unidade e a luta da classe trabalhadora e do movimento sindical. A vida democrática que a CTB defende é fundamentada na participação ativa dos trabalhadores e trabalhadoras nos embates políticos e na vida das entidades sindicais,definição de suas reivindicações, mobilização para a luta, eleição dos órgãos dirigentes, revogação de mandatos, liberdade de expressão e debate, bem como o respeito às decisões da maioria. Uma democracia efetiva vem desde a base e busca transformar a todos e todas em sujeitos efetivos da história. Nossa central buscará ser exemplo e escola de democracia. Concebemos a democracia como um valor intrínseco à emancipação dos explorados, uma postura e uma forma de vida cotidiana, garantia do mais amplo processo de participação e diálogo. Entendemos, ao mesmo tempo, que democracia também pressupõe respeito e obediência às decisões e deliberações coletivas.

INDEPENDÊNCIA CLASSISTA

Defendemos a liberdade e autonomia sindical. Queremos nossas entidades livres e independentes dos patrões, governos, credos religiosos e partidos políticos na definição dos seus objetivos e campanhas e na luta pela transformação social. É fundamental que o reconhecimento de nossas entidades venha da representatividade efetiva e da confiança nelas depositadas pela base e pelo conjunto da classe trabalhadora.Não abriremos mão de direitos ou conquistas sociais arrancadas com muitas lutas ao longo da história. Lutaremos sempre para ampliar nossos direitos e melhorar a qualidade devida de todo o povo brasileiro.

SOLIDARIEDADE E INTERNACIONALISMO

A CTB deve promover os valores da solidariedade de classe, em âmbito local, nacional e internacional, em contraposição ao individualismo predatório propagado como suprema virtude pela concorrência capitalista e pelo neoliberalismo; deve contribuir para o fortalecimento e êxito das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, onde quer que se encontrem, contra todas as formas de injustiça, exploração e opressão social, política, econômica, religiosa ou cultural; deve fortalecer a idéia e a prática de que nossa força está na união e que somente unidos e organizados podemos enfrentar e vencer as forças neoliberais do capitalismo globalizado, imperialista, e seu neocolonialismo planetário.

A luta da classe trabalhadora é internacional. O capitalismo avança, constrói e destrói coisas belas em todos os continentes, mas revela-se insuportável e insustentável, pois promove um desenvolvimento desequilibrado, que em sua evolução histórica tem gerado guerra, morte, miséria, destruição, exclusão e injustiça econômica e social. Precisamos superar o corporativismo e unificar as lutas. Hoje mais que nunca é necessário fortalecer internacionalmente a luta daqueles que dependem única e exclusivamente de seu trabalho para sobreviver. É indispensável promover o internacionalismo proletário e defender projetos alternativos ao capitalismo e com orientação socialista.

ÉTICA NA POLÍTICA

A ação política deve ser guiada por princípios éticos,idéias e objetivos elevados. Nossa ética está embasada nos princípios do humanismo, do respeito e solidariedade entre os seres humanos e os povos, do compromisso com os interesses coletivos da classe trabalhadora, com a vida e o meio-ambiente, com a justiça social e com a paz e a fraternidade humana.

COMBATE À DISCRIMINAÇÃO

Não aceitamos os preconceitos, as discriminações e as intolerâncias, seja de cor, raça, etnia credo, origem, geração, classe social, gênero ou orientação sexual. Lutaremos com vigor por uma sociedade totalmente livre do machismo, da dominação de classe, do racismo e da homofobia, males estimulados pelo capitalismo que maculam e enfraquecem os ideais de igualdade e justiça social na sociedade brasileira.

EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES E DOS NEGROS

Compartilhamos a convicção de que sem a emancipaçãodas mulheres, dos negros e outros segmentos oprimidos e discriminados da nossa sociedade não se poderá falar em libertação da classe trabalhadora e tampouco será aberto o caminho para uma nação justa, fraterna e igualitária.

SOCIALISMO

A razão de ser do movimento sindical é a luta já secular contra a exploração do trabalho pelo capital. A vitória completa do sindicalismo pressupõe, por conseqüência, o fim da exploração e de todo tipo de discriminação, a prevalência daigualdade, da justiça social, da fraternidade e da paz entre asnações. Isto só virá com a derrocada do capitalismo e a construção de um novo sistema social, o socialismo, caminho obrigatório para a superação da divisão da sociedade em classes sociais e o fim das desigualdades sociais e da exploração dohomem pelo homem. É preciso reconhecer de forma crítica e autocrítica os erros cometidos nas diferentes experiências socialistas do século XX para não repeti-los no século XXI, ainda que seja também necessário frisar a grandiosa contribuiçã oda revolução soviética para o avanço dos direitos sociais em todo o mundo. Defendemos um socialismo fundado na soberania e na valorização da classe trabalhadora, com as cores e a cara do Brasil. Entendemos que a idéia e o projeto de uma sociedade justa, fraterna, sustentável e equilibrada, fazem parte do espírito humano e é o coroamento da luta contra todas as formas de opressão e exploração. A CTB defende outro modo de produção, uma forma de produção solidária, não predatória, não consumista e não centrada nos valores do individualismo, concorrência, anarquia e destruição característicos da sociedade capitalista. Lutamos por uma sociedade ética, fraterna e a caminho de um mundo mais justo e sóbrio para todo o planeta e a humanidade. O socialismo é o ideal maior da classe trabalhadora.

DEFESA DOS DIREITOS SOCIAIS

Frente à feroz ofensiva do capitalismo neoliberal contraos direitos conquistados pela classe trabalhadora durante os últimos séculos, é indispensável defender com energia a manutenção e ampliação dos direitos sociais; o efetivo direito ao trabalho, à saúde, à segurança, à livre escolha da profissão; o livre, inalienável e irrestrito direito de greve; a redução progressiva da jornada de trabalho; a universalização dos direitos sociais e dos serviços públicos; o aumento da participação dos salários na renda nacional; a remuneração digna e igualitária.A CBT não aceita nenhum direito a menos, só direitos a mais.

TRANSPARÊNCIA

Os sindicatos e entidades sociais e populares não são empresas. Seu objetivo central não é o lucro e sim a luta por igualdade e justiça econômica, política e social. Nossos sindicatos precisam estimular a reeducação dos corpos, almas e mentalidades, contribuindo para a preparação dos novos homens e das novas mulheres para uma nova sociedade. Temos que desenvolver em nossa central, confederações, federações e sindicatos espaços de participação e de prestação de contas. Devemos zelar pela transparência, ética, seriedade, competência e profissionalismo. Nossas organizações devem ser exemplos de dignidade, fraternidade e solidariedade, individual e de classe.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Vivemos hoje uma séria e profunda crise ambiental, que coloca em risco a sobrevivência do planeta e da civilização humana. Defendemos uma sociedade que valorize o ser humano, a natureza e a vida. Mais que nunca, hoje é fundamental construir um amplo movimento ambientalista de cunho socialista e anticapitalista. Um movimento de defesa da vida e contra a forma de desenvolvimento degradante e excludente resultante da livre expansão do capital. A CTB, enquanto Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil, luta poruma nação livre, soberana, próspera, justa, solidária, sustentável, democrática e progressista.

EDUCAÇÃO

A CTB concederá especial atenção à educação e formação da classe trabalhadora, indispensável à elevação da consciência social e consolidação de uma identidade classista, essencial à luta por uma sociedade sem explorados e/ou exploradores.


 

O Anarquismo - Concepções Sindicais - Centro de Estudos Sindicais

Concepções Sindicais - O Tradeunismo

ALTAMIRO BORGES

O trotskismo, corrente política contra-revolucionária (1984)

 João Amazonas

 

 

 

quinta-feira, 31 de maio de 2012

O Anarquismo - Concepções Sindicais - Centro de Estudos Sindicais

Anarquismo
Diferente da concepção tradeunionista, que surge e ganha fôlego nos países mais
desenvolvidos, a corrente anarquista terá maior destaque nas nações em que o processo de industrialização foi mais lento. O atraso dessas economias dará impulso à concepção anarquista, que expressava a revolta dos antigos artesãos e oficiais. Estes, com o avanço da industrialização, foram despojados de seus instrumentos de trabalho e tiveram que ingressar no trabalho fabril, proletarizando-se.

Nos países mais atrasados, como a França, a Itália e a Espanha do final do século passado, as burguesias locais não possuíam capital acumulado o suficiente para uma rápida expansão. As indústrias eram frágeis, dispersas. Para acumular capital e impulsionar a
industrialização, a burguesia se utilizava de mecanismos mais bárbaros de exploração - que o
gerava, como consequência, violentas explosões de revoltas dos operários, que trabalhavam em fábricas dispersas e pequenas, sem qualquer concentração. Essas condições econômicas criam um terreno fértil para o crescimento da concepção anarquista.

A palavra anarquia tem sua origem do vocabulário grego - an significa negação, ausência, e
arquia, poder, governo. O anarquismo preconiza a abolição total do Estado, com o fim das leis, dos partidos, da religião etc. “O poder exerce, por sua própria natureza, uma influência perniciosa”, afirmou o inglês Willian Godwin (1756-1836), um dos primeiros formuladores dessa doutrina social.

Pierre Joseph Proudhon (1809-1865 foi o grande ideólogo e divulgador dessa doutrina). Em sua clássica definção do capitalismo, afirma que “ a propriedade é um roubo”. Defende uma nova sociedade, auto gestionária, formada por produtores livres da cidade e do campo. Estes se reuniriam em cooperativas e comunas e fariam a gestão da economia de forma autárquica. 

Apesar da aparente radicalidade de sua proposta, Proudhon adotará uma estratégia reacionária para atingi-la. Diz que a sociedade autogestionária será alcançada através da ajuda da própria burguesia, que, via “bancos populares” e o crédito gratuito, financiaria as iniciativas dos trabalhadores com vistas a se tornarem produtos livres.

Proudhon será radicalmente contra as greves e fará críticas às jovens organizações
sindicais dos trabalhadores. Na sua obra mais conhecida, “filosofia da miséria”, será enfático: “a greve dos operários é ilegal, e não só o código penal que o diz: é o sistema econômico, é a
necessidade da ordem estabelecida...Que cada operário, individualmente, goze das livres
disposições das sua pessoa e dos seus braços, é a coisa que se pode tolerar. Mas que os
operários procurem, por meio de associações, violentar a liberdade e o direito dos patrões, é o que a sociedade não pode permitir. Aplicar a força contra os patrões, desorganizar as oficinas, paralisar o trabalho, pôr sob ameaça o capital, significa conspirar uma ruína geral. As autoridades quem mandaram assassinar os grevistas de River-de-Giex sentiram-se profundamente infelizes. Mas atuaram como o antigo Brutos, que se viu obrigado a escolher entre o amor ao pai e o dever ao cônsul. Impunha-se sacrificar os seus filhos, para salvar a república”.

Em outro texto da sua opinião sobre os sindicatos. “a lei que autoriza as associações é
fundamental antijurídica, antieconômica e contrária a todo o regime social e a toda
ordem...Repúdio, em especial, a nova lei, porque a associação, com o propósito de aumentar ou diminuir os salários, é absolutamente igual à associação com o propósito de aumentar ou diminuir os preços dos víveres e da mercadoria”, para se contrapor às idéias de Proudhon, que “seduziam e corrompiam a juventude dourada e depois os operários, principalmente de Paris”, Karl Marx, ideólogo do comunismo, escreverá o livro “Miséria da Filosofia”.O russo 

Michael Bakunin (1814-1817), de origem aristocrática, é quem dará um novo
impulso ao anarquismo. Dizendo-se discípulo de Proudhon, negará a sua fórmula reacionária e utópica para atingir a sociedade autogestionária. Ele se dá conta das aberrações produzidas por seu mestre. “Proudhon, apesar de todos os esforços para se colocar no plano da realidade, continuou sendo idealista e metafísico”, raciocina. Afirmando total descrença diante da burguesia, defenderá uma postura de combate dos trabalhadores contra o capital. Essa concepção passa a ser conhecida como anarcosindicalista. Ela prega a intensificação da luta de classes contra o capital. Para Bakunin, “a greve é tudo” e os sindicatos “são os únicos instrumentos de guerra verdadeiramente eficazes”. Ele também prega o uso da sabotagem, do boicote e da ocupação das fábricas como formas de luta dos trabalhadores. O ponto alto desse combate global seria a greve geral, que inviabilizaria o sistema e possibilitaria o surgimento da sociedade ácrata. As entidades sindicais inclusive seriam os embriões da nova sociedade autogestionária.

Com as idéias de Bakunin, o anarquista ganha base no meio operário. Em países de
economia frágil, onde se opera a super-exploração da mão de obra, a sua proposta de
radicalização das lutas encontra ressonância. Para essa concepção, o importante é a chamada “ação direta” - o desenvolvimento ininterrupto dos confrontos de classe. Nesse processo, os anarquistas têm noção de que encontrarão barreiras diante do atraso da consciência operária e das dificuldades da correlação de forças. Procurando superá-las, eles defendem o papel da “minoria ativa", como foco de galvanizaria as atenções dos trabalhadores, atraindo-os para a luta.

Daí o anarquismo ser taxado de vanguardista, por se afastar do nível de organização dos
trabalhadores, pregando uma radicalização artificial da luta de classe. No mesmo sentido, rotula-se essa concepção de voluntarista, já que coloca a sua vontade subjetiva acima das condições concretas de lutas existentes, sem analisar a correlação de forças.

Outra característica fundamental da concepção anarquista será a negação de qualquer ação política por parte dos trabalhadores. Partindo da compreensão de que toda a superestrutura emana da infra-estrutura capitalista, os anarquistas condenam a participação dos operários nas eleições institucionais, são contrários a atividade parlamentar e menosprezam as leis. Pelo seu projeto da sociedade futura, essa concepção prega o fim do estado - com todas as instituições e regras, como as leis e a justiça. Exatamente por isso, os anarquistas - tendo a frente Proudhon e, posteriormente Bakunin - polemizarão com os marxistas - que defende a luta do proletariado pela conquista do poder, com a constituição da ditadura do proletariado como forma transitória para o fim do estado. 

Para os anarquistas, não deve se colocar no caminho da “ação direta”, do confronto cotidiano.
Esse traço dará aos anarquistas um acerta marca economista.

Com o desenvolvimento do capitalismo, que leva a uma maior concentração de capital e da produção, a concepção anarquista vai perdendo terreno nos movimentos sociais. Além do aspecto econômico, da superação da fase artesanal e manufatureiras, há também o político. A complexidade da nova sociedade desarma os anarquistas. Algumas correntes chegam inclusive a defender o lumpen-proletariado (os mendigos e marginalizados) como a nova classe revolucionária, já que, segundo afirma, o proletariado industrial teria se tornado reacionário com os avanços da industrialização. 

Ao negarem a luta política e a utilização de outras formas de luta pelos trabalhadores, os anarquistas caem no isolamento. Com a primeira revolução proletária, na Rússia de 17, onde se afirma a necessidade da luta política e da organização do partido revolucionário, o anarquismo declina no mundo. As inúmeras tendências anarquistas, desde do adeptos do terrorismo, até os defensores do pacifismo passando pelo chamado anarquismo espiritual de Spindel, entram em crise.

Leia também: o Tradeunismo
 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Concepções Sindicais - ALTAMIRO BORGES - O Tradeunismo

A luta entre concepções no interior do sindicalismo não é nova. Desde o surgimento dos
sindicatos que ela se manifesta - ora com mais, ora com menos intensidade, dependendo de vários fatores. Alguns a encaram como algo extremamente negativo, que atrapalha a unidade dos trabalhadores - já que as várias correntes se digladiam numa luta intensa. No nosso entender, essa disputa não é nem positiva ou negativa. Ela é natural. Faz parte da própria natureza dos sindicatos, que procuram representar o conjunto dos trabalhadores.

Pode-se dizer que o sindicato é um campo fértil de idéias e de luta entre as várias propostas
existentes em seu meio. Querer impedir essa disputa de concepções, de forma artificial, fere a
própria essência do sindicato e representa a sua negação, resultando num tipo de partidarização.

Mesmo para combater o tendencismo, que seria o extremo negativo da disputa que é sempre
natural, é necessário democratizar as discussões no interior dos sindicatos. Só dessa maneira se
contribui para a educação da classe, que, na polêmica, vai se posicionar sobre as propostas que mais lhe interessam. A luta pela hegemonia, que está presente em toda vida social, manifesta-se com força nos sindicatos e não se pode temê-la ou nega-la.

Tradeunionismo
Uma das primeiras concepções a ganhar destaque no meio sindical foi a tradeunionista. O
próprio nome indica que ela surgiu no interior das trade unions da Inglaterra - e isso no final do
século passado. Fatores de ordem econômica e política explicam o florescimento dessa corrente
sindical. Num primeiro momento, as trade unions se caracterizaram pela combatividade e heroísmo de seus integrantes - que atuaram na clandestinidade, sofreram violentas perseguições e dirigiram as primeiras greves do novo sistema social. Através de memoráveis lutas, ganharam respaldo e conquistaram a legalidade.

Entretanto, a Inglaterra, como “berço do capitalismo”, passou por intenso desenvolvimento
econômico. Enquanto no restante dos países ainda imperava o modo de produção feudal, baseado no atraso do campo, a burguesia inglesa já passava pelo progresso gigantesco da revolução industrial. Acumulando capital, essa nova classe passa a interferir no mundo. Inicia-se a fase caracterizada por Lênin como imperialismo, um estágio do capitalismo. A burguesia inglesa internacionaliza o seu capital, em busca de inúmeras vantagens.

Nos países atrasados, os grupos industriais da Inglaterra podiam contar com uma mão-de-obra
barata, desorganizada. Na matriz, as trade unions já questionavam a exploração capitalista.
Nesses países coloniais também havia a vantagem da fartura de matéria-prima e a própria
existência de um mercado de consumo ainda virgem. Na Inglaterra, a disputa por fontes de
matéria-prima e a concorrência na venda das mercadorias aumentam as dificuldades dos
empresários. Além disso, nos países atrasados era mais fácil dirigir os governos, que serviriam
como testas-de-ferro para implantar políticas de interesse do capital inglês - via subsídios,
construção na infra-estrutura necessária etc.

Por último - e o que mais importa na discussão sobre a origem do Tradeunionismo -, a
exploração dos países coloniais permitia à burguesia inglesa obter altas taxas de mais-valia. Esse recurso extra vai possibilitar uma certa distribuição dos lucros para parcelas do operariado inglês.

Desta forma, a burguesia da Inglaterra podia amainar os conflitos na matriz, deslocando-os para as suas colônias. Essa distribuição de “migalhas”, obtidas em decorrência da super - exploração nos países atrasados, vai resultar no surgimento de uma parcela de trabalhadores com maior poder aquisitivo na Inglaterra - que Engels chamara de “aristocracia operária”.
Essa parcela “aburguesada” de trabalhadores é que vai ser responsável pela mudança de
comportamento do sindicalismo inglês. Aos poucos, nasce e se consolida uma nova concepção
sindical - o Tradeunionismo, que é uma corrente típica dos países mais avançados do capitalismo.

Nos setores de ponta da economia, que mais preocupavam e que foram beneficiados pela
burguesia, começam a se manifestar opiniões em defesa do próprio sistema capitalista. Nas
mesmas bases sindicais, que tiveram papel de relevo nas primeiras lutas contra a exploração,
surgem lideranças que justificam o saque das nações dependentes. O pragmatismo é uma das
principais características dessa concepção sindical. Com o objetivo de manter as “migalhas”, o
Tradeunionismo nega a luta de classes, deixa de questionar a própria lógica exploradora do capital.

Para ele, o que importa é o crescimento do capitalismo, sua difusão pelo mundo enquanto sistema imperialista. Para garantir esse avanço, essa tendência procura suavizar os conflitos. Ela prega abertamente a conciliação de classes. Seu interesse é unicamente pela conquista de pequenas melhorias imediatas. Daí sua pregação economista, que rejeita qualquer confronto político com o sistema em vigor. Em decorrência dessa concepção, o Tradeunionismo se contrapõe às greves, procurando evitá-las. A central sindical inglesa, a TUC (Trade Unions Congress), hegemonizada por essa corrente, vai inclusive condenar inúmeras paralisações de trabalhadores, colocando-se ao lado do patronato. Para obter pequenas vantagens econômicas, as trade unions vão priorizar as negociações, em detrimento da pressão organizada das bases sindicais. Isso resulta numa prática cupulista, que afasta as entidades sindicais das massas assalariadas. Além disso, essa concepção vai utilizar como tática o lobby político, pressionando os parlamentares - sem distinção de ideologias e partidos. As trade unions vão se contrapor a formação de um partido revolucionário, que lute contra o sistema capitalista. Com o tempo, torna-se apêndice de um partido de concepção burguesa - o Labour Party (Partido Trabalhista). Os sindicalizados são automaticamente contabilizados como filiados dessa agremiação partidária.

É preciso ter claro que a parcela aburguesada, a “aristocracia operária”, era minoritária
mesmo na Inglaterra. Apenas alguns segmentos, principalmente dos setores de ponta da economia são contemplados pelo saque imperialista. No restante, persistem as péssimas condições de trabalho e salário. Para esses, as trade unions adotam uma postura de discriminação. Cada vez mais, o sindicalismo inglês passa a representar apenas os setores aburguesados. Há uma forte tendência ao corporativismo, como os sindicatos encaminhando as reivindicações puramente profissionais dos trabalhadores dos setores mais dinâmicos da economia - em especial dos operários especializados. O sindicalismo tradeunionista inclusive se preocupa apenas com os sindicalizados, deixando o restante na marginalização. Os interesses da minoria organizada vão se contrapor aos conjuntos de classe. Predomina a defesa mesquinha dos interesses de algumas categorias de ponta, o que resulta numa maior divisão da classe.

Sob direção da corrente tradeunionista, o sindicalismo inglês - e posteriormente o
movimento sindical de outros países imperialistas - adota em vários momentos da história uma
postura nacional - chauvinista. Defende os interesses da burguesia local, a exploração dos
trabalhadores dos países dependentes. Essa característica ficará mais nítida nos períodos de
guerra - em especial as duas grandes guerras mundiais. Essa proximidade de concepção entre o patronato e os sindicalistas tradeunionistas terá como conseqüência um maior vínculo, inclusive orgânico, entre capital e trabalho. Em vários dos países onde essa concepção ganhou hegemonia, os sindicatos passaram a ter negócios empresariais, tornando-se ricas instituições.

Deu-se início ao chamado “bussiness -union” - sindicalismo de negócio. A central sindical americana vai comprar logo no início desse século, terra nas Flórida e ações de várias empresas, utilizando-se para isso das pensões dos assalariados por ela administrada.

Em síntese, pode-se afirmar que as principais características da corrente tradeunionista são
as seguintes: defesa do sistema capitalista, pragmatismo, economicismo, negação da luta de
classe, corporativismo e cupulismo. Em decorrência desse comportamento, o sindicalismo
hegemonizado por essa tendência terá sua história manchada por vários acontecimentos
negativos. Evidente que no decorrer da sua trajetória, ocorrerão situações diferenciadas - fruto de acontecimentos políticos e econômicos marcantes. No processo da II Guerra Mundial, por
exemplo, a TUC inglesa e parte do sindicalismo norte-americano, tendo a frente a CIO (Congress Industrial Organization), defende a constituição de uma frente anti - nazista - refletindo a própria postura de seus países na constituição das forças aliadas.

No entanto, o que se observa no geral é a manutenção da mesma concepção - o que resulta
em várias iniciativas contrárias aos interesses dos trabalhadores. As conseqüências da prática
tradeunionista ficam mais nítidas no estudo do sindicalismo do EUA, a principal potência
imperialista desse século. Antes do desenvolvimento industrial desse país, o sindicalismo
americano se caracteriza por uma prática de combate ao capital. Em 1866, é fundada a União
Nacional do Trabalho (National Labour Union), organizada por G. Sylvis, que dirigirá importantes greves e pedirá filiação a AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores).

Muitos dos fundadores dos sindicatos americanos nessa época são assassinados e perseguidos pela polícia e pelas milícias privadas dos patrões - como o conhecido bando de “pinkerton”. Nesse período, a concepção anarquista terá maior força no sindicalismo americano. Ele se fará sentir inclusive na Federação Americana do Trabalho - a famosa AFL (American Federation Of Labour), fundada em 1886.

Ocorre que os EUA vão passar por um intenso processo de desenvolvimento capitalista. Já
no final do século passado, a burguesia americana disputa a hegemonia econômica com a
Inglaterra e outras potências. Aos poucos, os EUA se transformam também numa potência
imperialista - investindo contra a soberania das nações mais frágeis. Primeiro, conquistam as
antigas colônias espanholas na América central. Depois, tendo acumulado capital suficiente,
passam a dominar nações do próprio continente e de outras partes do mundo.

A conseqüência desse crescimento, do ponto de vista do sindicalismo americano, é a
constituição também de uma aristocracia operária nos EUA. Aos poucos, o movimento sindical
abandona sua tradição de luta. A concepção tradeunionista derrota a anarquista, principalmente nos sindicatos representativos dos trabalhadores dos setores de ponta da economia. Samuel Gompers, fundador da AFL, renega o seu próprio passado. Como presidente da central americana, ele participou ativamente das atividades da Associação Internacional dos Trabalhadores, a I Internacional, fundada por Marx e Engels. Ele inclusive se dizia um “marxista” e teve como conselheiro o militante político F. A. Sorge, correspondente de Karl Marx nos EUA. Com o processo de formação do império americano, muda radicalmente de concepção.

Gompers será ideólogo do Tradeunionismo nos EUA. Para ele, os sindicatos não devem
mais questionar o sistema. Pelo contrário, devem contribuir para o seu crescimento. “O papel dos sindicatos é de simples regulador da mercadoria trabalho”, afirma. Outro dirigente da central americana, John Lewis, dará definição mais precisa da visão tradeunionista: “O sindicato é parte integrante do sistema capitalista. Ele é um fenômeno capitalista tanto quanto a sociedade anônima.

Um reúne operários objetivando uma nação comum na produção e na venda; a outra agrupa
capitalistas que tem a mesma finalidade. O objetivo econômico é o mesmo para ambos: o lucro”.

O processo de burocratização do sindicalismo norte-americano é marcante. Os contratos
coletivos de trabalho são celebrados pela cúpula da AFL-CIO, sem qualquer consulta a base. O número de sindicalizados não corresponde a 1/3 da mão-de-obra. As taxas de inscrição e a
mensalidade dos sócios são altas. Os dirigentes da AFL-CIO é que designam as direções das
entidades intermediárias e locais. As assembléias são espaçadas - às vezes ocorrem anos entre
uma e outra. A corrupção campeia na direção dos principais sindicatos nacionais e na AFL-CIO. Os cargos de direção são regiamente pagos. Há também notórias vinculações, até hoje, com a máfia.

Com sua política imperialista, a AFL apoiou o envio de tropas quando do cerco contra os
revolucionários russos, na guerra civil que se estendeu de 1918 a 1922. Ela também apoiou a
invasão do Vietnã para “defender o bem-estar dos trabalhadores americanos”. A resolução de
“apoio incondicional” foi aprovada no congresso de San Francisco, em 1965. Nesse caso, chegou a orientar os sindicatos nacionais a tornarem suas sedes centros de alistamento militar.

No último período apoiou, discretamente, os contras da Nicarágua, condicionando esse apoio a mudanças na política social do governo Reagan. Em decor6encia dessa identidade com a política imperialista do governo dos EUA, o departamento de relação internacional da AFL-CIO coleciona denúncias sobre seus vínculos com a CIA. Joy Lovestone, acusado de ser agente pago da agência de espionagem, foi durante três décadas, o responsável por este departamento. A AFL-CIO também cria institutos para interferir na política de outros países, como o IADESIL - que é uma entidade tripartite, dirigida pela central sindical, o governo dos EUA e a entidade patronal Council of America.

A história do sindicalismo americano é marcada por dois momentos. Um primeiro, antes dos
EUA se transformarem numa potência imperialista, que se caracteriza por uma ação combativa. Na jornada internacional de luta pela redução da jornada para oito horas diárias, em 1886, ele terá papel de destaque. Cerca de 5 mil greves ocorreram nesse ano em torno dessa reivindicação - inclusive a greve de Chicago, que deu origem ao 1o de maio.

Depois, a partir do final do século passado, o sindicalismo passa a ser hegemonizado pela
corrente tradeunionista. Há disputa de posições. As correntes mais à esquerda, anarquistas e
socialistas, fundam em 1905 a Industrial Workers of the World (IWW), que às vésperas da primeira guerra mundial congrega mais de 2 milhões de filiados. Essa entidade é dilacerada pela disputa entre anarquistas e comunistas e, em 1912, é dissolvida pelo governo.

Quando da queda da bolsa de 29, que significou profunda depressão econômica,
trabalhadores formam sindicatos por ramo de produção - contrariando a orientação da AFL, que defendia as entidades por profissão, apenas dos trabalhadores qualificados. Através de acordo com a máfia, os burocratas sindicais garantem certa estrutura financeira e o afastamento, via gangsters, das lideranças mais combativas. Al Capone confessa, em seu julgamento, que a máfia realiza o contrabando via sindicatos e que possui um membro no comitê executivo da AFL. Fruto do acirramento da luta de classes nesse período de crise no capitalismo, surge em 38 a CIO - uma central sindical de oposição à AFL e com posições mais combativas, sob a liderança do líder mineiro John Lewis. Ela se estrutura por ramo de produção, opõe-se a discriminação racial e defende a participação política dos trabalhadores. Ela chega a ter mais de 5 milhões de aderentes.

Durante a II Guerra, alia-se aos sindicatos soviéticos na luta contra o nazi-fascismo. Já a AFL
monta nos EUA os comitês em defesa de Hitler.

O clima de guerra fria, as perseguições do governo no período do Macartismo e as disputas
internas na CIO vão enfraquecê-las, a partir da década de 40. Ela se retira da FSM (Federação Sindical Mundial) e funda, justamente com a AFL e os sindicatos dirigidos pela social-democracia, a CIOSL (Confederação Internacional das Organizações Sindicais Livres) em dezembro de 49, no congresso de Bruxelas. Em 55 é completada a fusão com a AFL.
Outro caso é o do Japão. Após a II Guerra, o país fica sob intervenção dos EUA. O
sindicalismo que era conhecido por sua prática combativa, com grande influência de
revolucionários, é violentamente reprimido. Em 46/48 ocorrem os famosos “expurgos vermelhos”, quando cerca de 12 mil sindicalistas são presos e afastados da vida sindical. Há também a introdução do pluralismo sindical, o que gerou uma fragmentação em mais de 78 mil sindicatos - muitos deles dirigidos e fundados por empresas.

Em Israel, a Histradut é o segundo maior patrão do país, cabendo ao Estado o primeiro
lugar. Ela emprega cerca de 250 mil assalariados. Sua holding, Hevrat Ovdim, possui cerca de 600 fábricas e estabelecimento comerciais. Em 85 estas empresas foram responsáveis por 25% do produto interno bruto, por 2/3 dos bens manufaturados e por 85% da produção agrícola. O bando Hapoalin, o segundo maior do país, é da central sindical. Estas empresas exploraram a mão de obra palestina, que é remunerada em cerca da metade do salário dos israelenses.

Já na Alemanha, a DGB dirige a holding BGAG, que controla várias empresas e empregava,
em 82, mais de 40 mil assalariados. O BFG, segundo informações de 71, era o maior banco do país. E a Neue Heimat é a companhia de construções urbanas da Europa.

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