SIGA O COLETIVIZANDO!

Mostrando postagens com marcador trotsquismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trotsquismo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Concepções Sindicais e Sindicalismo Classista



O que é sindicalismo classista?

Augusto César Petta - « CES Centro Nacional de Estudos Sindicais e do Trabalho

PRINCÍPIOS DA CTB




UNIDADE

A busca da mais ampla unidade da classe trabalhadora é um princípio basilar da CTB. Nossa classe se compõe de trabalhadoras e trabalhadores de diferentes categorias, ramos e setores da economia, jovens e idosos, ativos e aposentados,negros, brancos e índios, empregados e desempregados, formais e informais, rurais e urbanos, públicos e privados. A união das diferentes categorias contra a exploração capitalista quea todos aflige, no campo e nas cidades – independente da diversidade de profissões, qualificações, situação social, vínculo laboral, gênero, raça, etnia ou orientação sexual –, é fundamental para o êxito das lutas e conquista dos objetivos táticos e estratégicos do movimento sindical. Historicamente,a unicidade sindical, instituída em 1939 e consagrada no Artigo 8º da nossa Constituição, tem se revelado uma norma preciosa para garantir a unidade no âmbito dos sindicatos. A CTB defende com firmeza a unicidade, proclama a necessidade de união das centrais e combate, com vigor, todas as concepções e iniciativas que promovem a divisão das categorias e o desmembramento das bases.

DEMOCRACIA

A democracia, representativa e participativa, é essencial para a unidade e a luta da classe trabalhadora e do movimento sindical. A vida democrática que a CTB defende é fundamentada na participação ativa dos trabalhadores e trabalhadoras nos embates políticos e na vida das entidades sindicais,definição de suas reivindicações, mobilização para a luta, eleição dos órgãos dirigentes, revogação de mandatos, liberdade de expressão e debate, bem como o respeito às decisões da maioria. Uma democracia efetiva vem desde a base e busca transformar a todos e todas em sujeitos efetivos da história. Nossa central buscará ser exemplo e escola de democracia. Concebemos a democracia como um valor intrínseco à emancipação dos explorados, uma postura e uma forma de vida cotidiana, garantia do mais amplo processo de participação e diálogo. Entendemos, ao mesmo tempo, que democracia também pressupõe respeito e obediência às decisões e deliberações coletivas.

INDEPENDÊNCIA CLASSISTA

Defendemos a liberdade e autonomia sindical. Queremos nossas entidades livres e independentes dos patrões, governos, credos religiosos e partidos políticos na definição dos seus objetivos e campanhas e na luta pela transformação social. É fundamental que o reconhecimento de nossas entidades venha da representatividade efetiva e da confiança nelas depositadas pela base e pelo conjunto da classe trabalhadora.Não abriremos mão de direitos ou conquistas sociais arrancadas com muitas lutas ao longo da história. Lutaremos sempre para ampliar nossos direitos e melhorar a qualidade devida de todo o povo brasileiro.

SOLIDARIEDADE E INTERNACIONALISMO

A CTB deve promover os valores da solidariedade de classe, em âmbito local, nacional e internacional, em contraposição ao individualismo predatório propagado como suprema virtude pela concorrência capitalista e pelo neoliberalismo; deve contribuir para o fortalecimento e êxito das lutas dos trabalhadores e trabalhadoras, onde quer que se encontrem, contra todas as formas de injustiça, exploração e opressão social, política, econômica, religiosa ou cultural; deve fortalecer a idéia e a prática de que nossa força está na união e que somente unidos e organizados podemos enfrentar e vencer as forças neoliberais do capitalismo globalizado, imperialista, e seu neocolonialismo planetário.

A luta da classe trabalhadora é internacional. O capitalismo avança, constrói e destrói coisas belas em todos os continentes, mas revela-se insuportável e insustentável, pois promove um desenvolvimento desequilibrado, que em sua evolução histórica tem gerado guerra, morte, miséria, destruição, exclusão e injustiça econômica e social. Precisamos superar o corporativismo e unificar as lutas. Hoje mais que nunca é necessário fortalecer internacionalmente a luta daqueles que dependem única e exclusivamente de seu trabalho para sobreviver. É indispensável promover o internacionalismo proletário e defender projetos alternativos ao capitalismo e com orientação socialista.

ÉTICA NA POLÍTICA

A ação política deve ser guiada por princípios éticos,idéias e objetivos elevados. Nossa ética está embasada nos princípios do humanismo, do respeito e solidariedade entre os seres humanos e os povos, do compromisso com os interesses coletivos da classe trabalhadora, com a vida e o meio-ambiente, com a justiça social e com a paz e a fraternidade humana.

COMBATE À DISCRIMINAÇÃO

Não aceitamos os preconceitos, as discriminações e as intolerâncias, seja de cor, raça, etnia credo, origem, geração, classe social, gênero ou orientação sexual. Lutaremos com vigor por uma sociedade totalmente livre do machismo, da dominação de classe, do racismo e da homofobia, males estimulados pelo capitalismo que maculam e enfraquecem os ideais de igualdade e justiça social na sociedade brasileira.

EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES E DOS NEGROS

Compartilhamos a convicção de que sem a emancipaçãodas mulheres, dos negros e outros segmentos oprimidos e discriminados da nossa sociedade não se poderá falar em libertação da classe trabalhadora e tampouco será aberto o caminho para uma nação justa, fraterna e igualitária.

SOCIALISMO

A razão de ser do movimento sindical é a luta já secular contra a exploração do trabalho pelo capital. A vitória completa do sindicalismo pressupõe, por conseqüência, o fim da exploração e de todo tipo de discriminação, a prevalência daigualdade, da justiça social, da fraternidade e da paz entre asnações. Isto só virá com a derrocada do capitalismo e a construção de um novo sistema social, o socialismo, caminho obrigatório para a superação da divisão da sociedade em classes sociais e o fim das desigualdades sociais e da exploração dohomem pelo homem. É preciso reconhecer de forma crítica e autocrítica os erros cometidos nas diferentes experiências socialistas do século XX para não repeti-los no século XXI, ainda que seja também necessário frisar a grandiosa contribuiçã oda revolução soviética para o avanço dos direitos sociais em todo o mundo. Defendemos um socialismo fundado na soberania e na valorização da classe trabalhadora, com as cores e a cara do Brasil. Entendemos que a idéia e o projeto de uma sociedade justa, fraterna, sustentável e equilibrada, fazem parte do espírito humano e é o coroamento da luta contra todas as formas de opressão e exploração. A CTB defende outro modo de produção, uma forma de produção solidária, não predatória, não consumista e não centrada nos valores do individualismo, concorrência, anarquia e destruição característicos da sociedade capitalista. Lutamos por uma sociedade ética, fraterna e a caminho de um mundo mais justo e sóbrio para todo o planeta e a humanidade. O socialismo é o ideal maior da classe trabalhadora.

DEFESA DOS DIREITOS SOCIAIS

Frente à feroz ofensiva do capitalismo neoliberal contraos direitos conquistados pela classe trabalhadora durante os últimos séculos, é indispensável defender com energia a manutenção e ampliação dos direitos sociais; o efetivo direito ao trabalho, à saúde, à segurança, à livre escolha da profissão; o livre, inalienável e irrestrito direito de greve; a redução progressiva da jornada de trabalho; a universalização dos direitos sociais e dos serviços públicos; o aumento da participação dos salários na renda nacional; a remuneração digna e igualitária.A CBT não aceita nenhum direito a menos, só direitos a mais.

TRANSPARÊNCIA

Os sindicatos e entidades sociais e populares não são empresas. Seu objetivo central não é o lucro e sim a luta por igualdade e justiça econômica, política e social. Nossos sindicatos precisam estimular a reeducação dos corpos, almas e mentalidades, contribuindo para a preparação dos novos homens e das novas mulheres para uma nova sociedade. Temos que desenvolver em nossa central, confederações, federações e sindicatos espaços de participação e de prestação de contas. Devemos zelar pela transparência, ética, seriedade, competência e profissionalismo. Nossas organizações devem ser exemplos de dignidade, fraternidade e solidariedade, individual e de classe.

DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

Vivemos hoje uma séria e profunda crise ambiental, que coloca em risco a sobrevivência do planeta e da civilização humana. Defendemos uma sociedade que valorize o ser humano, a natureza e a vida. Mais que nunca, hoje é fundamental construir um amplo movimento ambientalista de cunho socialista e anticapitalista. Um movimento de defesa da vida e contra a forma de desenvolvimento degradante e excludente resultante da livre expansão do capital. A CTB, enquanto Central dos Trabalhadores e das Trabalhadoras do Brasil, luta poruma nação livre, soberana, próspera, justa, solidária, sustentável, democrática e progressista.

EDUCAÇÃO

A CTB concederá especial atenção à educação e formação da classe trabalhadora, indispensável à elevação da consciência social e consolidação de uma identidade classista, essencial à luta por uma sociedade sem explorados e/ou exploradores.


 

O Anarquismo - Concepções Sindicais - Centro de Estudos Sindicais

Concepções Sindicais - O Tradeunismo

ALTAMIRO BORGES

O trotskismo, corrente política contra-revolucionária (1984)

 João Amazonas

 

 

 

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Lênin e o infame tratado de Brest-Litovsky - Augusto C. Buonicore


Publicado em 31.10.2017 pela Fundação Maurício Grabois

Um dos acontecimentos mais dramáticos que se seguiu à Revolução de Outubro, colocando-a em risco, foi o Tratado de Paz de Brest-Litovsky. Através dele a Rússia Soviética teve que abrir mão de parte do seu território e pagar pesada indenização ao imperialismo alemão. O Partido Bolchevique se dividiu diante do dilema: assinar ou não aquele tratado? Lênin foi um defensor da sua assinatura, mesmo considerando-o infame, pois era a única forma de tirar o país da guerra e salvar a revolução. Para conseguir isso, travou um duro combate às tendências esquerdistas existentes no interior do bolchevismo. As argumentações apresentadas por ele no debate são verdadeiras aulas de tática e estratégia marxistas aplicadas num período de defensiva revolucionária.

Os delegados soviéticos ao tratado


“Os partidos revolucionários têm que completar sua instrução. Aprenderam a desencadear a ofensiva. Agora têm que compreender que essa ciência deve ser completada por saber recuar ordenadamente. É preciso compreender (...) que não se pode triunfar sem saber atacar nem sem saber empreender retirada ordenadas”. V. I. Lênin

Uma “paz infame” que divide os bolcheviques

Quando eclodiu a revolução russa de fevereiro de 1917, uma das grandes bandeiras dos bolcheviques, liderados por Lênin, era o estabelecimento da paz. Naquele momento vivia-se em meio à hecatombe da Primeira Grande Guerra Mundial. Nesta carnificina de abrangência planetária, cerca de 10 milhões de soldados e um número quase igual de civis morreram. Apenas a Rússia perdeu dois milhões de homens e mais de cinco milhões ficaram feridos.

Em grande parte, foi a incapacidade de colocar o país fora daquele conflito sangrento que levou à queda do Governo Provisório e à ascensão dos bolcheviques ao poder em outubro. Não sem razão, a primeira proposta apresentada por Lênin ao 2º Congresso dos Sovietes foi o Decreto da Paz. Nele, se conclamava os governos e os povos das nações beligerantes a firmarem uma paz democrática, sem anexações e indenizações. Ao apresentarem e aprovarem aquele decreto, os bolcheviques cumpriam sua promessa. Coisa que o governo anterior, liderado por Kerensky, não havia feito. Contudo, as coisas não seriam tão simples assim.

Em 18 de novembro de 1917 uma delegação soviética seguiu até a cidade de Brest-Litovsky na Bielorrússia para firmar um armistício com o imperialismo alemão. Além de dirigentes bolcheviques (Adolf Ioffe, Leo Kamenev) e social-revolucionários de esquerda (Maslovski-Mstislavski e Grigori Solkonikov), para lá seguiam também uma mulher (Anastácia Bitsenko), um operário, um camponês e um marinheiro. Estes três últimos foram vestidos a caráter. Pretendia-se,dessa maneira, representar a composição política e social da revolução socialista vitoriosa. Esta comitiva plebeia se sentou ao lado de nobres e generais alemães e austro-húngaros engalanados com suas divisas e medalhas reluzentes. Naquela primeira rodada de negociações se conseguiu um armistício de 28 dias, período no qual se discutiria os termos do acordo de paz entre a Rússia Soviética e os Impérios Centrais.

O objetivo inicial do poder soviético era trazer todas as potências imperialistas para a mesma mesa de negociação e não entabular um acordo em separado com a Alemanha e a Austro-Hungria. Mas isso não foi possível. A França, Inglaterra e os Estados Unidos – que compunham a Entente – ignoraram os apelos formulados pelos bolcheviques e não compareceram à reunião.

Lênin e Trotsky tinham consciência de que o exército russo estava se desfazendo e não poderia mais continuar lutando. Dezenas de milhares de soldados abandonavam os seus postos e voltavam para suas casas, exaustos da guerra e pretendendo desfrutar da reforma agrária realizada pela revolução. Era nítido que o tempo corria contra o jovem poder soviético.

O Partido Bolchevique logo se dividiu quanto ao problema da paz em separado com a Alemanha. Surgiram três posições distintas. A de Lênin, que apregoava uma paz imediata mesmo à custa de concessões territoriais e financeiras. A dos chamados “comunistas de esquerda”, encabeçada por Bukharin, contrária à assinatura de qualquer tratado com o imperialismo alemão e que apregoava desencadear uma guerra revolucionária até Berlim. A última, defendida por Trotsky, se expressava na fórmula intermediária “nem paz nem guerra”; ou seja, devia-se sair da guerra imperialista unilateralmente, sem assinar formalmente nenhum tratado com a Alemanha.

Antes mesmo do fechamento da primeira rodada de negociações, em 10 de janeiro, os comitês regionais bolcheviques de Moscou e Petrogrado exigiram o fim imediato das negociações com a Alemanha. Inclusive, em 24 de fevereiro, o partido de Moscou aprovou uma moção de desconfiança em relação ao Comitê Central.“O Comitê Regional de Moscou”, dizia a nota, “considerando que se tornou muito provável a cisão do partido num futuro próximo, toma a si a tarefa de agrupar todos os revolucionários consequentes, todos os elementos comunistas em luta contra os partidários da paz em separado e contra os elementos moderados do movimento comunista. Julgamos que seria do interesse da revolução mundial concordar com o sacrifício do regime dos sovietes em vias de se tornar um regime puramente formal.”. Os “comunistas de esquerda” tinham força no interior do partido. Seus principais dirigentes eram Bukharin, Preobrazhenski, Bubnov, Alexandra Kolontai, Karl Radek, Uristski, entre outros. Para divulgar suas ideias fundaram um jornal: o Kommunist.

Do seu lado, o imperialismo alemão não pretendia estabelecer nenhuma paz democrática. Ele impôs como exigência que parte do território que compunha o antigo Império Russo passasse para sua área de influência – este era o caso de Finlândia, Polônia, Ucrânia e dos Países Bálticos. Além de insistir no pagamento de uma indenização no valor de três milhões de rubros-ouro. Apesar dessas condições escorchantes, Lênin defendeu que se devia assinar o Tratado de Paz. Esta era a única forma de salvar a revolução em perigo.“Ceder territórios para ganhar tempo”, apregoava ele.


Lênin derrotado pela fraseologia revolucionária

Na primeira reunião com a presença das principais lideranças bolcheviques, realizada em 21 de janeiro às vésperas do 3º Congresso dos Sovietes, Lênin ficou em minoria. Num total de 75 delegados, a sua proposta de paz conseguiu apenas 15 votos. A da guerra revolucionária 32 e a de Trotsky 16. Mesmo juntando as teses dos dois principais dirigentes da Revolução de 1917 não se conseguiria a maioria necessária. O sucesso subira à cabeça de grande parte dos bolcheviques, que perdeu a noção da correlação de forças existente tanto no nível nacional quanto no internacional.

O tema voltou à pauta três dias depois na reunião do Comitê Central Bolchevique. Lênin era, incontestavelmente, o principal e mais respeitado dirigente do partido e do país naquele momento, mas isso não significava que suas posições fossem automaticamente aprovadas pelos seus pares. Em muitas e cruciais discussões ele não teve a maioria. Lênin repetiu seus argumentos: “A paz que nos propõem é infame, mas se não a aceitarmos seremos exterminados e a paz será feita por outro governo.”. As condições desesperadoras em que se encontravam as tropas russas faziam-nas incapazes de impor a mínima resistência ao avanço alemão. Continuou: “Se considerássemos o movimento revolucionário alemão suscetível de estourar com o rompimento das negociações, deveríamos nos sacrificar, pois a revolução alemã seria muito mais importante que a nossa. Mas ela ainda não começou. Devemos resistir até a revolução socialista vença e só podemos fazê-lo por meio da paz.”.

Desta vez foi a proposta intermediária de Trotsky (nem guerra nem paz) que ganhou o debate. Lênin viu-se derrotado, contando apenas com o apoio de Stalin, Zinoviev e Solkonikov. Na reunião seguinte,da qual participavam dirigentes bolcheviques e social-revolucionários de esquerda (os dois partidos que compunham o governo soviético), a proposta de Trotsky saiu-se novamente vencedora. Nada de assinar acordo de paz com as potências imperialistas, pensava a maioria bolchevique. Muitos pretendiam “salvar a honra” da revolução socialista russa, mesmo à custa da sobrevivência dessa mesma revolução.

A tese leninista tinha 21 pontos nos quais se dizia, entre outras coisas: “Fazer a paz, cedendo à força, não significa trair o internacionalismo proletário (...). Os operários que, durante uma greve, aceitam condições de retorno ao trabalho, desvantajosamente para eles e vantajosas para os capitalistas, não estão traindo o socialismo.”.“A política de ‘gestos nobres’ não corresponderia, absolutamente, à proporção das forças que possuímos.”. “O exército (russo) está sem condições de opor resistência eficaz aos alemães, que podem tomar Petrogrado.”. “A guerra revolucionária somente seria admissível se a revolução alemã estivesse para eclodir em três ou quatro meses. Caso contrário, a derrota militar equivaleria à perda do poder socialista.”. “Apostar nisso o destino da revolução seria correr um grande risco.”.

A extrema-esquerda do partido, especialmente localizada em Moscou, exigia não só a rejeição de qualquer tratado de paz com a Alemanha como também o rompimento das relações diplomáticas e econômicas com todos os demais países capitalistas. Diziam que era “melhor perecer pela causa socialista do que baixar a cabeça.”. Uma típica fraseologia radical-revolucionária, despregada dos fatos concretos e sem ter em conta a correlação de forças existente.Mais uma vez submetiam a política revolucionária a uma moral abstrata, de fundo pequeno-burguês, assentada em termos vagos como “honra” e “vergonha”.

Ao contrário dos “comunistas de esquerda”, Trotsky sabia das debilidades do seu próprio exército e não apostava numa improvável guerra revolucionária. No entanto, acreditava honestamente que a Alemanha não teria condições de lançar uma nova ofensiva contra o território russo. Uma ação militar intempestiva levaria ao irrompimento de uma revolução socialista naquele país, que já apresentava sinais de cansaço. Lênin achava a ideia sedutora, mas perigosa demais. Não valeria a pena correr tal risco.
Lênin, Bukharin e Trotsky

As negociações foram retomadas em 18 de janeiro e a delegação russa agora tinha à frente o próprio Trotsky. Os alemães se mantiveram irredutíveis nas suas exigências territoriais e financeiras. Diante do impasse – indo contra a opinião de Lênin, mas dentro da linha aprovada pela direção do Partido Bolchevique e dos sovietes –,Trotsky levou a cabo a sua linha “nem guerra, nem paz”.

Declarou aos seus interlocutores: “Não queremos mais participar da guerra puramente imperialista (...) não mais concordamos em derramar sangue de nossos soldados (...). Na expectativa do momento, que julgamos estar próximo, em que as classes trabalhadoras oprimidas de todos os países tomarão o poder, como fez o povo trabalhador na Rússia, retiramos da guerra nosso povo e nosso exército. Nosso soldado-trabalhador retorna, a partir dessa primavera, a seu labor no cultivo pacífico da terra que a revolução fez passar das mãos dos proprietários fundiários às dos camponeses. Nosso operário-soldado deve retornar à fábrica para ali produzir não engenhos de destruição, mas ferramentas construtivas para, juntamente com os trabalhadores do campo, erguer a nova economia socialista.”. E concluiu: “Desmobilizamos os nossos exércitos. Recusamo-nos a assinar a paz de anexações. Declaramos terminado o Estado de Guerra entre os Impérios Centrais e a Rússia.”. Um discurso feito sob medida visando a servir de propaganda soviética aos trabalhadores dos países em guerra, especialmente na Alemanha.

Num primeiro momento os generais e os diplomatas alemães e austro-húngaros ficaram atônitos. Era a primeira vez que algum país declarava unilateralmente a paz e se retirava. A confusão realmente tornou-se grande. Quando a notícia chegou à Alemanha e à Áustria houve comemorações nas ruas.

Trotsky foi recebido com festa na sua volta: nada de acordo infame, nada de concessões aos alemães. Em 24 de fevereiro, o Soviete de Petrogrado aprovou, com apenas um voto contrário, a declaração da delegação russa em Brest-Litovsky. O Comitê Central Executivo dos sovietes de toda a Rússia – uma espécie de parlamento permanente que funcionava entre os congressos – também apoiou aquela posição. Trotsky confiante declarou: “posso afirmar calmamente que a nossa posição tornou mais difícil para o imperialismo tomar qualquer medida contra nós.”. À primeira vista, parecia que a sua tática havia sido vitoriosa e os governos imperialistas estavam num beco sem saída. Como justificar continuar uma guerra contra um adversário que decretara a paz e não mais lutaria? Lênin desejava ardentemente que aquilo fosse verdade, mas, no fundo, desconfiava. Esta não era a natureza do imperialismo.

O governo austro-húngaro – prevendo a sua queda iminente, caso se prosseguisse a guerra– chegou a sinalizar a aceitação daquela estranha paz. No entanto, o imperador e o alto comando alemães pensavam de maneira bastante diferente. Eles – mesmo correndo alguns riscos – consideraram melhor continuar a guerra, arrancando novos territóriosde uma Rússia em frangalhos. Estavam de olhos nas riquezas da Ucrânia e da Bielorrússia. Além do mais, interessava-lhes enfraquecer e derrubar os bolcheviques do poder.

Em 16 de fevereiro o governo soviético recebeu um radiograma dizendo que as hostilidades recomeçariam a partir do dia 18. Pelo acordado, qualquer rompimento deveria ser comunicado, no mínimo, com uma semana de antecedência. Os alemães roubaram-lhes cinco preciosos dias para os preparativos defensivos. O novo objetivo da guerra – anunciavam as autoridades dos impérios centrais – era colocar um fim à anarquia existente na Rússia e ao governo comunista que a promovia.

Lênin vira o jogo e salva a Revolução\

Como previsto por Lênin, o avanço dos exércitos alemães não encontrou nenhuma resistência. Em menos de uma semana ocuparam o que restava da Ucrânia e avançaram sobre a Bielorrússia. No dia 21 de fevereiro a pátria socialista foi declarada em perigo. Contra a vontade soviética, esboçava-se uma guerra revolucionária, em condições completamente desfavoráveis. Adotou-se então a política de “terra arrasada”. Ao recuar, os exércitos russos deveriam destruir tudo o que pudesse ser útil ao inimigo: pontes, ferrovias, armamentos, fábricas e plantações.

Determinou-se o alistamento compulsório de todos os elementos burgueses em batalhões especiais,destinados a construir sistemas defensivos nas cidades estratégicas, como Moscou e Petrogrado. Os que resistissem deveriam ser fuzilados. Também seriam executados sumariamente “os agentes inimigos, os especuladores, os saqueadores, os ladrões e os agitadores contrarrevolucionários.”. Os jornais e organizações políticas oposicionistas foram fechados e seus responsáveis presos. Repetiria o que ocorrera na Revolução Francesa: conclamação à guerra total e ao terror vermelho contra a reação que avançava.Todas essas medidas se mostraram insuficientes. Os camponeses continuavam se recusando a lutar. O que fazer?

Lênin não tinha nenhuma dúvida: retomar imediatamente as negociações de paz com os alemães, mesmo que tivessem que fazer maiores concessões. Apesar da catástrofe militar que se anunciava, as resistências no interior dos partidos e do governo soviético continuavam bastante fortes. Reverter esse quadro era uma questão de vida ou morte para a revolução socialista.

No momento que se recebeu a informação de que seriam retomadas as hostilidades,ocorreu uma reunião emergencial do Comitê Central bolchevique. Alia proposta de Lênin foi derrotada. Contra ela estavam Trotsky, Bukharin, Ioffe, Uritski, Krestinski e Lomov. A seu favor: Stálin, Sverdlov, Smilga, Sokolnikov. Dois dias depois – após a chegada da notícia do rápido avanço alemão –,houve nova reunião do CC. Lênin perdeu por 7 a 6. Poucas horas depois,a situação militar tornou-se catastrófica e convocou-se uma segunda reunião no mesmo dia. Desta vez Lênin apelou e ameaçou se demitir do Comitê Central caso não se aprovasse imediatamente a assinatura dos termos da paz impostos pelos alemães.

Afirmou Lênin: “Entramos na guerra revolucionária apesar de nós mesmos. Não se brinca com a guerra! Essa brincadeira nos levou a um impasse de tal ordem que a partir de agora a ruína da revolução passa a ser inevitável se nos ativermos por mais tempo em uma atitude indecisa. Ioffe nos escreveu de Brest que não há o menor sinal de uma revolução na Alemanha (...). Ficamos debatendo enquanto eles tomam os depósitos, os vagões e nos arrebentamos! (...) O camponês não quer a guerra e não lutará. A guerra permanente dos camponeses é uma utopia. A guerra revolucionária não deve ser uma fraseologia. Se não estamos preparados para ela, assinemos a paz!”.

Finalmente, ele saiu vitorioso – ainda que por pouquíssima diferença. Foram sete votos ao seu favor e seis contra. Imediatamente o governo soviético mandou um radiograma, assinado por Lênin e Trotsky, ao governo alemão dizendo-se dispostos a voltar à mesa de negociação. A resposta germânica demorou a chegar e os seus exércitos aproveitaram a situação para seguir avançando sobre o território russo. As coisas continuavam extremamente delicadas.

As lideranças soviéticas passaram a estudar seriamente a proposta de apoio militar oferecida pelos países da Entente, o que significaria uma volta indesejável ao bloco militar do qual a revolução de outubro havia tirado o país. Lênin e Trotsky consideravam essa uma saída possível, caso se mantivesse o avanço alemão sobre Petrogrado e Moscou. A esquerda dos bolcheviques continuava repudiando todo e qualquer acordo nesse sentido, independente da situação pela qual estava passando a revolução.

Não podendo participar da reunião do CC, Lênin enviou sua posição por escrito: “Queiram contar com o meu voto a favor do apoio e do armamento oferecido pelos bandidos imperialistas anglo-franceses.”. A proposta venceu por seis votos a cinco e, em protesto, Bukharin se demitiu do Comitê Central. Contudo, uma aliança com a Entente não foi necessária, pois em 23 de fevereiro chegou a resposta alemã concordando em restabelecer o processo de negociação.

Neste período, Lênin escreveu os seus primeiros trabalhos contra o esquerdismo. O primeiro – de 21 de fevereiro – intitulado Sobre a fraseologia revolucionária afirmava: “a fraseologia revolucionária é a repetição de palavras de ordem revolucionárias, sem nenhuma relação com as circunstâncias objetivas de um dado momento (...). Palavras de ordem excelentes, arrebatadoras, estimulantes, porém desprovidas de base objetiva.” E conclamava: “Guerra à fraseologia revolucionária!”. Num outro texto intitulado A Sarna, Lênin aproveitou para ironizar a esquerda partidária através de uma analogia histórica: “Na sua guerra de independência contra a Inglaterra, no fim do século XVIII, os norte-americanos recorreram à ajuda de um mesmo tipo de bandidos colonialistas que os ingleses: os governos espanhóis e franceses. Diz-se que os bolcheviques de esquerda se reuniram para escrever uma tese sobre ‘o sujo acordo daqueles americanos’.”.

As condições para a paz se tornaram ainda mais draconianas. A Rússia revolucionária deveria reconhecer a independência – e a entrada na área de influência alemã – de Finlândia, Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia e Ucrânia. Na prática significava permitir o esmagamento da revolução que se disseminava nessas regiões. Mantinha-se a necessidade de uma indenização no valor de três bilhões de rubros-ouro. Além da exigência de cessar toda e qualquer agitação contra as instituições dos países envolvidos no tratado; ou seja, estaria proibida a propaganda revolucionária entre os soldados e operários alemães e austro-húngaros. O Comitê Central se reuniu e a assinatura ao tratado foi aprovada por sete votos a quatro – e quatro abstenções. Lênin ganhara a votação, mas ainda sem maioria. O partido e o governo soviético continuavam perigosamente divididos.

A delegação soviética enviada para assinar o tratado se recusou a discuti-lo. Apenas assinou o documento e afirmou secamente: “Estamos aqui para assinar, sem nenhuma demora, uma paz que nos é imposta pela violência (...). A paz que assinamos nos é ditada pelas armas. A Rússia revolucionária se vê coagida a aceitá-la com os dentes cerrados.”. E concluiu: “Não aceitamos qualquer tipo de discussão, por considerá-la inútil.”. O tratado de Brest-Litovsky foi assinado em 3 de março de 1918.

A Rússia, finalmente, saía da guerra imperialista. Contudo, as divergências não cessavam no interior do poder soviético. Ainda no 7º Congresso do Partido, que se reuniu entre 6 e 8 de março, o tema do tratado de paz foi discutido. Nele, 30 delegados votaram a favor do tratado de paz, 12 contra e quatro se abstiveram. Eleitos naquele congresso, os membros da “esquerda” se recusaram a compor o novo Comitê Central. Lênin retrucou: “Os camaradas poderão muito bem defender os seus pontos de vista sem sair do CC.”. Aproveitou para dar-lhes uma nova estocada: “Sim, veremos uma revolução internacional mundial, mas para o presente isso não passa de um belo conto de fadas – um conto de fadas maravilhoso –, e eu acredito que as crianças devam amar esses contos de fadas. Mas pergunto: É natural que revolucionários sérios acreditem em contos de fada?”.

Aos poucos a maioria das pessoas foi sendo ganha para a justeza das posições leninistas. No 4º Congresso Extraordinário dos Sovietes de toda a Rússia, reunido em 14 de março, as teses de Lênin conseguiram maioria significativa de votos: 784 contra 261 e 115 abstenções, e entre estas estavam 64 “comunistas de esquerda”.

No mês de maio – diante da continuidade da crítica esquerdista ao tratado firmado –, ele publicou o artigo Do infantilismo de esquerda e do espírito pequeno-burguês. Ali escreveu: “Pois enquanto não rebentar a revolução socialista internacional, que abarque alguns países e tenha força suficiente que lhe permita vencer o imperialismo internacional, até então, o dever dos socialistas que venceram num único país (particularmente se for atrasado) consiste em não aceitar o combate com os gigantes do imperialismo, em tentar evitar o combate, em esperar que o conflito dos imperialistas entre si os enfraqueça ainda mais (...). Os nossos comunistas ‘de esquerda’ — que gostam também de se chamar comunistas ‘proletários’, mas têm particularmente pouco de proletário e muito de pequeno-burguês — não levam em conta a correlação de forças. E é justamente nisto reside o âmago do marxismo e da tática marxista.”.

Os esquerdistas se levantaram especialmente contra a conclamação leninista em defesa da pátria socialista, acreditando que isso iria contra o espírito do internacionalismo proletário e seria uma concessão ao nacionalismo burguês. A defesa da pátria não poderia constar de um programa verdadeiramente socialista. Em oposição a essa ideia, argui Lênin: “Colocais as palavras ‘defesa da pátria socialista’ entre aspas, que deve significar, provavelmente, uma tentativa de ironizar, mas que, de fato, demonstra a confusão nas vossas cabeças. Estais habituados a considerar o ‘defensismo’ como uma coisa infame e vil, retivestes e aprendestes isto, decorastes isto tão zelosamente que alguns de vós chegam ao ponto de dizer o absurdo de que, na época imperialista, a defesa da pátria é uma coisa inadmissível (de fato, ela é inadmissível só numa guerra imperialista, reacionária, conduzida pela burguesia) (...). Se a guerra é conduzida pela classe dos exploradores com o objetivo de reforçar o seu domínio como classe, é uma guerra criminosa, e o ‘defensismo’ em tal guerra é uma infâmia e uma traição ao socialismo. Contudo, se a guerra é conduzida pelo proletariado que venceu a burguesia no seu país, é conduzida no interesse do fortalecimento e desenvolvimento do socialismo, então é uma guerra legítima e ‘sagrada’.”. Por isso, concluiu: “Somos defensistas desde 25 de Outubro de 1917.”.

Alguns anos mais tarde, Lênin escreveria: “Aceitar o combate quando isso é manifestamente vantajoso para o inimigo, mas não para nós, é criminoso; os dirigentes políticos da classe revolucionária são absolutamente inúteis se não souberem manobrar ou propor compromissos para se evitar um combate evidentemente desfavorável.”. Os verdadeiros revolucionários deveriam saber recuar quando a correção de forças assim o exigia.

Do levante social-revolucionário ao sistema de partido único

Contrários ao Tratado de Brest-Litovsky, os social-revolucionários e a esquerda abandonaram o governo soviético. Na época eles possuíam três importantes ministérios: Justiça, Agricultura e Correios. A partir de então assumiram uma postura de oposição intransigente e logo passariam a adotar métodos ilegais e violentos, retomando antigas práticas terroristas dos populistas russos.

Saíram do governo e continuaram participando dos sovietes. No 5º Congresso, iniciado em 4 de julho de 1918, estiveram presentes 1.164 delegados: 773 deles eram bolcheviques e 353 social-revolucionários de esquerda. Como podemos ver, era ainda uma minoria expressiva.

Enquanto transcorria aquele congresso, dois social-revolucionários de esquerda assassinaram o embaixador alemão. Com isso pretendiam retomar a guerra interrompida. No mesmo dia tentaram assaltar o poder em Moscou. O movimento insurrecional, visando a derrubar o governo bolchevique, foi rapidamente derrotado e seus líderes acabaram presos, mas logo foram anistiados.

O resultado dessa intentona foi que os social-revolucionários de esquerda acabaram expulsos dos sovietes, acusados de promover ações contrarrevolucionárias. Este fato marcou, na prática, o estabelecimento do monopartidarismo. A Constituição soviética de 1924 institucionalizaria o sistema de partido único no lugar do sistema de partido dominante dentro de um pluralismo socialista. A necessidade – imposta pelas condições dramáticas da guerra civil – se transformaria em virtude. O modelo de partido único deveria ser adotado, necessariamente,em todos os países que quisessem transitar ao socialismo. Esta era uma coisa que não fora proposta ou prevista por Lênin e seus camaradas em outubro de 1917.

Em novembro de 1918 o Império Alemão desabou. Não suportou o esforço de guerra, sendo derrubado por uma rebelião operária e popular. A revolução alemã – tão esperada pelos soviéticos entre janeiro e março de 1917 – não seria socialista, se manteria democrático-burguesa, graças à capitulação dos dirigentes socialdemocratas. Os soviéticos aproveitam-se da débâcle da monarquia imperialista alemã para rasgar o Tratado de Brest-Litovsky e retomar vários territórios na Ucrânia e Bielorússia. Era uma vitória de Lênin. Ele, contudo, não teria condições de comemorá-la, pois estava em curso uma violenta guerra civil na qual se confrontavam furiosamente o Exército Vermelho e vários exércitos brancos, apoiados pelas potências ocidentais e o Japão. O imperialismo não daria trégua ao Estado Soviético, construindo em torno dele um verdadeiro “cordão sanitário”.

* Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução, publicados pela Editora Anita Garibaldi.

Bibliografia

CARR, E.H. A Revolução Russa de Lênin a Stálin. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.

FISCHER, Louis. A vida de Lênin. Vol.1, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

GRUPPI, Luciano. O pensamento de Lênin, Rio de Janeiro: Editora Graal, 1979

KRAUSZ, Tamás. Reconstruindo Lênin: uma biografia intelectual. São Paulo: Boitempo, 2017.

LENINE, V. I. Obras escolhidas, vol.2, São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1989

LENINE, V.I. Esquerdismo, doença infantil do comunismo, São Paulo: Editora Global, 1981.

SERGE, Victor. O ano I da Revolução Russa. São Paulo: Boitempo, 2007.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Esquerdismo, doença senil dos sectários - Por Altamiro Borges - Entenda a esquerda que a direita gosta! Fundação Maurício Grabois


Princípio 81 - 2005
www.grabois.org.br 
Na atual crise, as forças conservadoras contam com os aliados de discurso esquerdista.
Na grave crise política instalada no Brasil há cinco meses, os campos estão cada vez mais delimitados e a polarização se exacerba. Num pólo, as forças democráticas e populares que apóiam o governo Lula e que, mesmo criticando seus equívocos e contradições, enxergam nesta experiência sui generis a chance de o país superar o cancro do neoliberalismo. No outro lado, o bloco liberal-conservador que, derrotado na sucessão em 2002, agora investe sujo para retornar ao governo e para impor uma vingança maligna às forças populares que ousaram apeá-lo do poder. Ele almeja, de forma hipócrita e golpista, ver-se “livre desta raça pelos próximos 30 anos”, segundo a confissão fascistóide e racista do banqueiro Jorge Bornhausen, presidente do PFL.

No meio desse fogo cruzado, dois partidos procuram se firmar como “a autêntica” oposição de esquerda — o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), organizado em 1992, e o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que obteve seu registro legal em setembro último. Apesar da tímida diferença com a oposição liberal-conservadora, na prática, ambas organizações concentram sua artilharia contra o governo Lula e fazem de tudo para fustiga-lo em cada batalha. Elas gastam bem mais energias, recursos e verves nesta oposição inflexível do que na crítica às manobras sorrateiras da direita. Não é para menos que a mídia burguesa, sob o controle de nove famílias, tem dado generosos espaços para estes agrupamentos!

A recente eleição para a presidência da Câmara Federal evidenciou gritantes contradições dessa “tática”. Enquanto o bloco liberal-conservador se unificou em torno do candidato do PFL e o prefeito de São Paulo e presidenciável tucano, José Serra, chegou a liberar dois secretários para votar , o PSOL orientou seus deputados a se absterem; já o PSTU repetiu o slogan “Fora Todos”. A apertada vitória do deputado Aldo Rebelo (PCdoB/SP), que conteve a sanha direitista pelo impeachment do presidente, talvez até tenha sido motivo de tristeza para alguns que padecem há tempos do esquerdismo, a doença senil dos sectários! Partidários do quanto pior, melhor, eles lamentaram o adiamento da “revolução”... ou da próxima eleição.

Enquanto o bloco PSDB-PFL lidera a oposição de direita ao governo Lula, pregando o seu “sangramento” ou “morte prematura”, PSTU e PSOL encabeçam uma agressiva campanha “de esquerda” com o mesmo intento. Eles até já se uniram em atos de rua com este objetivo, sempre com o alarde da mídia. A oposição é intransigente, sem perdão. Para o PSTU, agora é a hora de “pôr para fora este governo, este Congresso, o PT e a oposição burguesa. Fora Todos! Uma alternativa real para este país só virá com um novo tipo de governo e regime, com uma revolução socialista” . Já o PSOL propões um mecanismo institucional para derrotar o governo Lula. Defende a “convocação de um plebiscito nacional para que o povo decida pela antecipação ou não das eleições de 2006. A posição do PSOL é pelas antecipações das eleições” .

Posição principista

Em linhas gerais, PSTU e PSOL têm avaliações similares sobre a natureza do governo Lula e a correlação de forças no Brasil e no mundo. Entretanto, divergem sobre a tática, a estratégia e a forma de organização partidária. Tanto que os dois partidos desenvolvem verdadeira guerra fratricida na disputa pela liderança da chamada “oposição de esquerda”. Nesta refrega, sobram discursos radicalizados. Mas, como já ensinou Vladimir Ilitch Lênin, “a fraseologia revolucionária é a repetição de palavras de ordem sem relação com as circunstâncias objetivas, ao sabor dos últimos acontecimentos... Palavras de ordem excelentes, que arrastam e embriagam, mas desprovidas de base sólida, tal é a essência da fraseologia revolucionária”

No caso do PSTU, a oposição frontal ao presidente Lula se manifestou antes mesmo de este tomar posse. Já em novembro de 2002, num libelo principista, Mariúcha Fontana, editora do jornal deste partido, anteviu: “O governo Lula, por suas alianças e programa, será um governo burguês de submissão ao imperialismo”. Ela também não poupou o PT, que ainda abrigava os futuros idealizadores do PSOL. “Antes de chegar ao governo central, o PT já era um obstáculo para uma ruptura das massas com a recolonização imperialista, a exploração e a institucionalidade burguesa. Hoje, no governo central, o partido sofreu uma mudança de qualidade: passou a ser o agente direto da aplicação do projeto burguês e imperialista no país” .

Desde o início, o PSTU apostou todas as suas fichas no rápido desgaste do governo Lula, na súbita ascensão do movimento de massas e, lógico, no seu crescimento. Chegou a teorizar que, da mesma forma como os metalúrgicos do ABC paulista foram responsáveis pela retomada da onda grevista e pela criação do PT e da CUT, o funcionalismo público seria a vanguarda de um novo ascenso revolucionário que, como efeito, desaguaria no PSTU. A partir deste “otimismo voluntarista”, ele fez de tudo para demarcar campos no interior das esquerdas, visando principalmente estimular fraturas no PT. Nem mesmo o MST, reconhecido por sua capacidade de mobilização social, foi poupado das ácidas críticas . O ápice desta demarcação hostil se deu com a criação da Conlutas, numa ação tresloucada de divisão do sindicalismo brasileiro .

A tática de “forjar um partido revolucionário de massas alternativo ao PT”, porém, não deu os resultados almejados. Os primeiros dissidentes petistas, que se rebelaram no triste processo de votação da regressiva reforma da Previdência, optaram por criar um partido próprio, num encontro realizado em junho de 2004, e decidiram excluir o PSTU, tachando-o de “seita sectária” adepta de uma organização “fossilizada, rígida e cristalizada” . Para piorar, algumas lideranças do funcionalismo aderiram ao novo partido e o PSTU ainda perdeu vários quadros, inclusive de sua direção. O projeto de eleger a senadora Heloísa Helena em 2006 parecia mais exeqüível e sedutor! As diferenças táticas e organizativas se tornaram abissais.

Diante do fiasco da iniciativa e dos estragos na sua base, o PSTU voltou as baterias contra o PSOL. De possíveis aliados, os dissidentes petistas viraram inimigos figadais. Eduardo Almeida, um dos ideólogos da organização, não se cansa de rotular o novo partido de reformista, “sem opção programática de ruptura anticapitalista”, e eleitoreiro, “a serviço da candidatura de Heloísa Helena” . José Maria de Almeida, presidente do PSTU, também critica a cópia do modelo petista de organização com base nas tendências. “A única liberdade é a dos dirigentes, parlamentares e figurões para fazer o que bem entendem, enquanto a base é chamada para fazer campanha eleitoral a cada dois anos” .

Pretensões eleitorais

Diferentemente do PSTU, que é uma organização ultracentralizada, o PSOL é quase um partido frentista. No seu interior convivem , nem sempre harmoniosamente, umas dez correntes. Na sua executiva nacional provisória — composta por 15 integrantes —, ao menos oito deles já tiveram ligação com a mesma matriz do PSTU — a Liga Internacional dos Trabalhadores (LIT), criada em 1982 pelo trotskista argentino Nahuel Moreno. Com dupla militância, atuam no Movimento de Esquerda Socialista (MÊS), da deputada Luciana Genro, na Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), do deputado Babá, no Movimento Terra, Trabalho de Liberdade (MTL) e no Socialismo e Liberdade (SOL) — o mais recente agrupamento a deixar o PSTU.

Repetindo a controversa experiência do PT, do partido de tendências, o PSOL reúne desde intelectuais adeptos da luta processual pela hegemonia na sociedade, como os gramscianos Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder, até seitas trotskistas ultraesquerdistas. “Dentro do partido temos setores que se declaram reformistas e outros que se declaram revolucionários”, explicou Luciana Genro ao Correio da Cidadania. Já no encerramento do prazo eleitoral para trocas de partidos, em 30 de setembro, o PSOL ainda recebeu cinco deputados federais e outras vertentes frustradas com o Processo de Eleições Diretas (PED) do PT.

Para evitar traumas, sua executiva nacional decidiu flexibilizar o estatuto, inventando uma tal de “filiação democrática” que permite aos novos integrantes não seguirem automaticamente as decisões partidárias. “O PSOL deixou claro que programa, estatuto e manifesto são provisórios, para ficar mais flexíveis para o ingresso de pessoas que queiram discutir a nova agremiação. É uma filiação generosa que nos ofereceram, sem que isto implique desde já um compromisso definitivo, porque nem eles têm cristalizadas as suas posições”, revelou Plínio de Arruda Sampaio, que ficou em quarto lugar na eleição petista e, logo depois, deixou o partido Tal decisão gerou mal-estar nos filiados que votaram na sua chapa e duras críticas.

Para o teólogo Leonardo Boff, os que saem do partido “agravam a dispersão das forças de esquerda que ficam enfraquecidas como alternativa às forças conservadoras”. Já o sociólogo Emir Sader acusou-os de “tomarem uma decisão eleitoralista, submetendo a sua decisão de saída do PT ao calendário eleitoral, para poder inscrever-se em outra sigla e eventualmente conseguir se reeleger” . E o deputado Raul Pont, candidato ao segundo turno do PED, lamentou a precipitação. “Em vários debates, Plínio disse que apoiaria a candidatura da esquerda no segundo turno. As outras candidaturas desse campo firmaram o mesmo compromisso, caso ele fosse para a disputa. Ao retirar seu nome, ele enfraquece a unidade.”

Em decorrência destes e de outros arranjos, o PSOL tem uma estrutura organizativa bastante frouxa, um programa genérico e uma estratégia difusa. O que garante o amálgama ao novo partido parece ser o projeto eleitoral de 2006, com o açodado lançamento da senadora Heloísa Helena para a Presidência da República. Essa “estranha combinação de ultra-esquerdismo e eleitoralismo” , ainda aposta na adesão de vários petistas desiludidos com o PT e o governo Lula. Enquanto algumas correntes internas mais esquerdistas já sonham em “aproveitar a crise para lutar pela ruptura democrática e anticapitalista” , outras bem mais pragmáticas ficam excitadas com os índices de popularidade de sua presidenciável no Ibope. Apesar das divergências latentes, todas vivem um clímax temporário! Arapuca da direita

O problema é que a burguesia também está atenta e as ilusões de classe costumam ser desastrosas. Por enquanto, o PSOL e mesmo o desidratado PSTU podem servir aos objetivos das elites de satanizar o PT e desgastar o governo. Enquanto o primeiro prega a convocação de um referendo revogatório do mandato do presidente Lula o segundo esbraveja “Fora Todos”, tudo bem; está dentro do script golpista da elite. Nesta hora, como fulmina Emir Sader, a direita eleva “os dissidentes do PT a novos queridinhos da mídia, cedendo-lhes o espaço que negam ao MST, para o ataque ao neoliberalismo e ao capitalismo, contra o imperialismo e suas guerras, bancos e especuladores. E essas pessoas se deixam manipular pela mídia”.

Os que padecem do esquerdismo senil e os antipetistas desiludidos parecem não perceber que a estratégia da direita não se limita a trucidar o PT e a desgastar o governo Lula; ela deseja mesmo é aniquilar toda a esquerda política e social brasileira. Na hora certa, ela tentará colocar no seu devido cantinho os setores que hoje esbanjam a “fraseologia revolucionária” e que investem na construção da chamada “oposição de esquerda”, sem levar em conta a brutal ofensiva do bloco liberal-conservador, a natureza contraditória do governo Lula e a adversa correlação de forças.

Neste rumo, vale sugerir aos companheiros a leitura do editorial de agosto da revista Primeira Leitura, o mais influente e hidrófobo panfleto dos tucanos: “[Heloísa Helena] é o Jair Bolsonaro da esquerda. Só que ele é tratado como débil mental ideológico; ela como pensadora alternativa... Boa parte do que HH diz junta ignorância de causa com bobagem. Com mais rigor do jornalismo, teria uma reputação à altura do desempenho: não é menos folclórica do que o Dr. Enéas... [Mas] quero que ela saia candidata e leve os votos da esquerda — ou sei lá que gente é essa” . O artigo grosseiro deveria, ao menos, servir de alerta para os desiludidos, os inocentes e os sectários.

Notas

Kennedy Alencar. “Intervenção do governo definiu a vitória”. Folha de S.Paulo, 29/09/05
Eduardo Almeida. “Por um governo socialista dos trabalhadores”. Jornal Opinião Socialista, 15/09/05.
“Resolução Política da Executiva Nacional do P-SOL”, 18/08/05.
Vladimir Lênin. Esquerdismo, doença infantil do comunismo. Estampa, Portugal, 1971.
Mariúcha Fontana. “Governo Lula e os desafios da esquerda revolucionária”. Revista Marxismo Vivo, novembro de 2002.
Altamiro Borges. “O governo Lula e a ‘tática’ do PSTU”. Portal Vermelho, 1º/07/03.
Altamiro Borges. “Trotsky, o PSTU e a cisão da CUT”. Revista Espaço Acadêmico, maio de 2005.
Ruy Polly. “O velho sectarismo e o novo partido”; Guilherme Vargues, “Porque um novo partido de esquerda socialista e democrática”; André Ferrari, “Construir um partido de esquerda de massas”; Pedro Fuentes, “Uma respuesta necesaria a ‘um vendaval oportunista recorre el mundo’”.
Eduardo Almeida. “O novo partido velho”, “Sobre reformistas e revolucionários” e “O novo partido, cada vez mais parecido com o PT”. Jornal Opinião Socialista.
José Maria de Almeida. editorial do jornal Opinião Socialista, fevereiro de 2004.
Verena Glass. “Quatro deputados federais, Plínio Sampaio e Hélio Bicudo deixam o PT”. Agência Carta Maior, 26/09/05.
Emir Sader, “O PT morreu? Viva o PT”. Agência Adital, 27/09/05.
Marco Aurélio Weissheimer. “Pont quer novos rumos para o PT”. Agência Carta Maior, 27/09/05.
Emir Sader. “A esquerda e o governo Lula”. Outro Brasil, maio de 2005.
Roberto Robaina e Pedro Fuentes. “Aproveitar a crise para lutar pela ruptura democrática e anticapitalista”. Portal do PSOL.
Reinaldo Azevedo. “HH”. Revista Primeira Leitura, agosto de 2005.

EDIÇÃO 81, OUT/NOV, 2005, PÁGINAS 38, 39, 40, 41

Coletivizando no Youtube