SIGA O COLETIVIZANDO!

Mostrando postagens com marcador Diógenes Arruda. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Diógenes Arruda. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

A Revolução Russa ilumina até hoje (escrevendo sobre tudo) - Paulo Vinícius da Silva

Tudo muda o tempo todo no mundo. Não adianta mentir, nem fingir pra si mesmo. Agora há tanta vida lá fora e aqui dentro, como uma onda no mar.

Lulu Santos - Como uma onda


Sem teoria revolucionária não pode haver também movimento revolucionário. Nunca se insistirá demasiadamente nesta ideia numa altura em que a prédica em voga do oportunismo aparece acompanhada de uma atracção pelas formas mais estreitas da actividade prática.(1)

Vladimir Lênin


Ampliar, radicalizando e radicalizar, ampliando. (2)

Diógenes Arruda

 (3)

Novembro é o mês do mais importante acontecimento da História para a Classe Trabalhadora e, negativamente, para a Burguesia: o dia em que a classe trabalhadora tomou o poder na Rússia dos tzares, 7 de novembro de 1917 e que era ainda contada no calendário juliano no país, 25 de outubro (representativo do atraso da reserva do reacionarismo na Europa e no mundo, a Rússia).

Muitas vezes ao longo da História, o povo foi capaz de se alçar ao poder, mas na Rússia, ao contrário da Comuna de Paris, o poder foi mantido, o povo não foi derrotado. E em menos de 30 anos, construiriam um desenvolvimento industrial tão impetuoso que mudou até as leis do capitalismo, com o advento do surgimento do New Deal nos EUA e do Estado de Bem Estar Social na Europa Ocidental. Tais concessões só houve graças à existência da URSS e a sua superioridade evidente sobre o capitalismo: a capacidade de resolver os problemas, de projetar o futuro. salvariam a Humanidade do Nazi-fascismo, batendo a Alemanha, deixando Hitler na sua ratoeira até seu final covarde e vil. O imensurável sacrifício dos povos da URSS para libertar a humanidade do nazi-fascismo não pode ser esquecido, suas lições não foram em vão. 

Talvez, uma dessas lições seja que a Linha Política é imprescindível à vitória. Quando a linha política é correta, até os oportunistas acertam. Quando a linha política tá errada, não tem Che Guevara que se salve. 

A Revolução Russa foi fruto da linha política perseguida ao longo de anos, e que teve movimentos decisivos sob a condução de Lênin. Na chegada de Lênin à Rússia, na Estação Finlândia, Petrogrado, o líder bolchevique desceu do trem "dando uma voadora" na aliança possível dos bolcheviques com a social-democracia e o governo Kerenski, porque a dita aliança manteria  a Guerra de pé. Havia uma linha que separava o oportunismo em que caíra a II Internacional, e que Lênin denunciara. E, ademais, ele ousou construir a unidade necessária para a construção do poder soviético, e foi ouvido. Ele foi capaz de compreender a necessidade de ajustes e mudanças na linha política para atingir o objetivo que se realizou efetivamente com a tomada do poder pela classe trabalhadora russa. À época, o "natural" seria uma aliança com Kerenski. Lênin desembarcou defendendo a guinada que levou à vitória, contando para isso com o inestimável apoio de Stalin.

Não existe isso de se fazer o que quer e chegar ao sublime objetivo de superar o capitalismo. Lênin há muito alertou o movimento da classe trabalhadora que "Sem consciência revolucionária não há movimento revolucionário". Essa consigna evidencia o papel da consciência para a ação vitoriosa no campo da luta da classe trabalhadora em seu caminho ao poder, em aliança com os camponeses. Lênin achou a chave de como fazer a classe trabalhadora se unir até o ponto de chegar ao poder, mantê-lo, e dirigir a sociedade. Esse é 1/3 do jogo.

Maquiavel afirmou no início do século XVI em sua obra, o Príncipe:

Não ignoro que muitos foram e são de opinião de que as coisas desse mundo são governadas pela fortuna e por Deus, e que os homens prudentes não se lhes podem opor, e até não têm remédio algum contra elas. Por isso, poder-se-ia julgar que não devemos incomodar-nos demais com as coisas, mas deixar-nos governar pela sorte. Esta opinião tem-se reforçado em nossos dias devido às grandes variações que foram e são vistas todos os dias, além de qualquer conjetura humana. Pensando nisto, às vezes me sinto um tanto inclinado a esta opinião: entretanto, já que o nosso livre-arbítrio não desapareceu, julgo possível ser verdade que a fortuna seja árbitro de metade de nossas ações, mas que também deixe ao nosso governo a outra metade, ou quase.(4) Maquiavel

A outra metade, ou quase a metade, dependeria da virtú, feita de mérito, de força, de condição, de correlação de forças suficiente. Essa virtú foi plasmada por Lênin no sistema de aliança que reúne a direção do movimento e as amplas massas do povo. Descobriu o jeito de unir a turma, ir pra cima e vencer a parada.

Essa chave que Lênin deu à classe trabalhadora corresponde à mesma pergunta que inspirava o célebre italiano, como reunir as forças e virtudes necessárias para chegar ao poder e unir a nação italiana. Além dessa força e dessa legitimidade, é preciso ainda o concurso da fortuna, condições gerais e o acaso, que não dependem da nossa vontade objetiva. 

A essas duas variáveis, somo uma terceira parte, e evoco Garrincha,  Anjo de Pernas Tortas,  que:

"teve atuação decisiva na conquista das Copas de 58 e 62. A ele se credita a hoje famosa expressão “combinar com os russos”. No mundial de 58, antes do jogo contra a extinta União Soviética, em que o Brasil venceu o time adversário por 2 X 0, teria ocorrido um diálogo sui generis entre Garrincha e o técnico Vicente Feola. Conta-se que Vicente disse ao atleta para pegar a bola, driblar o primeiro beque, driblar o segundo, ir até a linha de fundo e cruzar forte para trás para Vavá marcar. Garrincha, então, respondeu: “Tudo bem, mas o senhor já combinou com os russos?”.(5)

 

Ou seja, Virtú, Fortuna e o outro que joga o jogo, o adversário. Essa tríade é suficiente para dar nó na cabeça, dar nó em pingo d`água. Mas pelo menos coloca a luta como o motor da transformação e o caminho para vencer as grandes batalhas. 

Lênin achou o caminho, o regime tzarista não reuniu forças suficientes para se manter, os acontecimentos mundiais colocaram a urgência da Paz, do Pão e da Terra, e a classe trabalhadora e os camponeses russos chegaram ao poder no maior país da Terra. 

Essa resposta  ao dilema da chegada ao poder e da união necessária brilhou como um farol diante dos trabalhadores de todo o mundo - inclusive o movimento anarquista brasileiro, colocado diante do impasse face à greve geral não ter sido capaz de acabar com o capital. As vitoriosas greves multitudinárias que desembocaram na Greve Geral de 1917 não eram suficientes para assegurar os acordos, ou mesmo a democracia e o movimento sindical. Para isso era necessário uma organização política e a luta pelo poder. Foi essa a via que a Revolução Socialista Russa de 1917 apontou, o caminho das pedras, a linha política justa e inovadora de Lênin. A partir de Lênin e da Revolução Socialista de 1917 na Rússia, a classe trabalhadora passa a jogar o jogo principal, disputando contra a burguesia imperialista os caminhos do mundo.

(3)


Quando a linha política é justa, os caminhos se abrem, as coisas acontecem, e o jogo muda, inclusive ficando mais difícil. Mas devemos estar atentos a reconhecer os erros ainda mais que as vitórias, e o pior erro é achar que as coisas são paradas, que elas não mudam. Ruim não é ajustar a política, mas sim ser derrotado. Ser derrotado e não tirar lições só pode levar a novas derrotas.

Precisamos de uma linha política justa. Se ela estiver pensa, torta, perde-se o rumo. Diógenes Arruda Câmara Ferreira, refletindo sobre Lênin, brindou-nos com uma consigna dialética: "Ampliar, radicalizando e radicalizar, ampliando", voltada a analisar esse movimento de estica e puxa da vida, da luta, que não podemos apenas cuidar do peixe, tem também de cuidar do gato. Fica essa dica, de que há que ampliar, mas há que também fortalecer o campo popular para o enfrentamento das batalhas cada vez mais duras de nossa época. Cadê o povo? Cadê a juventude? 

A linha política justa funciona, ecoa no coração do povo. Mesmo quando a situação é muito difícil, ela ajuda a sobreviver. Mas a realidade é rápida e desafiadora, camarão parado a onda leva. Os chineses têm um dito que me vem à mente, diante de tantas tendências à dispersão do nosso povo, com o Brasil em perigo: "entregues a si mesmas as coisas tendem para o caos" (sic). Tem que ter consciência, unidade e tem de ter povo, só uma ação coordenada que unifique milhões poderá se aproximar do objetivo. 

É preciso trazer o povo para a batalha, pois a extrema direita e o fascismo estão a disputá-lo. Esses milhões foram o Bônus Demográfico de 2012, a Turma da Xuxa (ou seja, o povo que viu a Xuxa), e nossos filhos. É a geração dos anos 2000. E nessa turma estão a maioria da classe trabalhadora de mulheres, negros e pardos, precarizados, plataformizados, uberizados, soltos no mundo VUCA e esperando o apocalipse zumbi. Nossa aliança tem de ser ampla, mas também precisa ter a profundidade do resgate da classe trabalhadora brasileira pela sua valorização, na luta da Nação contra os juros e o rentismo parasitário.

Temos campo para isso. Basta combinar com os Chineses, com os Russos, com a Venezuela, inclusive.  Ai de nós, se não tivéssemos visto a necessidade da Frente Ampla. Se nos angustiam as falhas, talvez isso decorra de ainda faltar a Unidade Popular para organizar o próximo passo, quando não pudermos mais ser salvos pelo Lula. Ele já começou a entender isso, quando disse que Lula é o povo. É preciso chamar o povo para ser como o Lula, e resgatar a política. Getúlio ficou só. Lula não está sozinho, mas é preciso organizar essa maioria. É preciso juntar as pessoas, lutar pela Hegemonia, salvar o Brasil e, assim, abrir caminhos ao Socialismo. É uma tarefa de milhões que só pode ser vencida pela Unidade Popular.


REFERÊNCIAS:

(1) LENIN, Vladimir. Que Fazer? Dogmatismo e «Liberdade de Crítica» Marxist Internet Archive.

(2) BUONICORE, Augusto. O Partido Comunista do Brasil em 1968. Fuindação Maurício Grabois https://grabois.org.br/2018/11/23/o-partido-comunista-do-brasil-em-1968/

(3) Imagens da centenária história de lutas do Partido Comunista do Brasil (1922-2022) [recurso eletrônico] / organizado por Adalberto  Monteiro e Fernando Garcia de Faria. - São Paulo, SP : Anita Garibaldi ;  Fundação Maurício Grabois, 2021. 584 p. ; PDF ; 406 MB. ISBN: 978-65-89805-10-6 (Ebook)

(4) MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe, p. 119. Martins Fontes, 2001. São Paulo.

(5) Fundação Cultural Palmares. Garrincha: a vida escreve certo por pernas tortas https://www.gov.br/palmares/pt-br/assuntos/noticias/garrincha-a-vida-escreve-certo-por-pernas-tortas

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Diógenes Arruda Câmara: O guerreiro sem repouso (2) - Augusto Buonicore

Zé Duarte, João Amazonas e Arruda quando Amazonas volta do exílio, 
pouco antes de seu falecimento, em 1979





Augusto Buonicore *

“Certa vez, quando estávamos na China em pleno inverno, um fio de lascar, 39º abaixo de zero, olhávamos pela janela e tudo lá fora estava completamente branco, coberto de neve. Foi aí que vi Diógenes à beira da janela com lágrimas escorrendo pelo rosto. Como poucas vezes o vi chorar, perguntei: O que foi meu nego? Ai ele me disse: - Tereza, será que está chovendo no sertão?” Depoimento de Tereza da Costa Rego, companheira de Arruda. 

Retomando os laços perdidos

Após sair do Comitê Central no V Congresso do Partido Comunista do Brasil (PCB), Diógenes Arruda começou a trabalhar num escritório de planejamento na cidade de São Paulo. Em 1963, voltou a Pernambuco para assessorar o governador Miguel Arraes e realizar alguns projetos junto a SUDENE.

Ainda existem dúvidas sobre quando ele reingressou no PC do Brasil. João Amazonas, numa entrevista, descreveu a retomada dos contatos com o velho amigo: “Arruda ainda não tinha conseguido compreender a reorganização do Partido. Então, eu e Maurício Grabóis, passado algum tempo (...) fomos a casa dele e tivemos uma longa conversa. E o Arruda de cara fechada com a gente. Então, eu disse: ‘Você tem importância para o Partido. (...) O teu lugar é aqui e não fora daqui’. O Arruda conversou, conversou e foi mudando sua fisionomia. Na hora que saímos, lá vem ele andando conosco; uma distância grande até que nós pegássemos o ônibus. Então, o Arruda tinha reencontrado o seu partido”.

Por outro lado, o líder do PC brasileiro, Gregório Bezerra, falou de um fato ocorrido no dia do golpe militar de 1964: “Fui até a redação da Folha do Povo, mas não encontrei nenhum camarada. (...). Quando vou saindo, dou de cara com o camarada Diógenes Arruda Câmara, que diz: ‘Vim apresentar-me para a luta. Cumprirei qualquer tarefa que o partido me confiar.
Disponham de mim para tudo’. Eu tinha um pé atrás com esse companheiro (...) mas, diante de sua atitude de homem de partido, passei a respeitá-lo como verdadeiro revolucionário comunista”. Contudo, não houve resistência popular à altura da necessidade. Arruda deve ter se perguntado: qual teria sido a razão daquela derrota?

Sendo uma figura de esquerda, odiada pelas forças conservadoras, Arruda teve que se esconder. Primeiro refugiou-se no litoral norte de Pernambuco; depois, no Mosteiro de São Bento em Olinda. O local foi conseguido por Tereza Costa Rego, uma amiga que logo se tornou sua companheira.

Eles se conheceram em 1962 e dizem que foi amor à primeira vista. O problema é que ela era casada e tinha duas filhas. Pertencia a uma tradicional família pernambucana. Isso fez cair sobre ela todos os preconceitos de uma sociedade patriarcal e conservadora. Foi deserdada e perdeu a guarda das filhas. Como o amor que sentiam era maior, mandaram tudo para os ares. Tiveram que atravessar a via crucis da incompreensão familiar e o terror ditatorial.

Arruda e Tereza se mudaram para São Paulo. Foi uma verdadeira revolução na vida dela. Afirmou ela: “fui morar com ele, saindo de uma casa com 11 empregados, para um apartamento que tinha 4 por 6 metros, uma mini-cozinha e um banheiro. O apartamento tinha um monte de livros até o teto, um colchão no chão e um ramo de rosas sobre ele”. Agora em situação legal, Arruda passou a trabalhar num escritório de planejamento urbano.

De novo com os estudantes

Muito provavelmente, ele já tivesse reatado os contactos com aqueles que reorganizaram o PCdoB, embora ainda não tivesse se decidido pela reintegração àquela organização. Isso explicaria o fato de ter procurado Gregório Bezerra e se colocado à disposição para resistir ao golpe militar em Recife.

Também podemos supor que a gravidade da derrota sofrida naquele primeiro de abril de 1964 – uma derrota sem luta - tenha o levado a se decidir pelo reingresso no PC do Brasil. Afinal, este havia sido o Partido que mais criticara as ilusões reformistas predominantes na esquerda brasileira. As teses em voga que apregoavam a transição e a coexistência pacíficas sofreram um forte desgaste. A chamada burguesia nacional, tida como aliada preferencial na primeira etapa da revolução, mostrou toda sua pusilanimidade. O esquema militar de Jango, que muitos se fiavam, demonstrou-se ilusório. A estratégia política defendida pelo PCB, aos olhos de vários setores de esquerda, havia fracassado.

Por isso, vários militantes abandonaram o PC Brasileiro e aderiram ao PC do Brasil. Comitês inteiros trocaram de Partido, como aconteceu no Ceará e Maranhão. Um pouco mais tarde ingressou o pessoal do Comitê Marítimo e a Maioria Revolucionária do Comitê Regional da Guanabara, ambos ligados ao PCB. O pequeno PCdoB começava a ganhar musculatura.

A entrada de Arruda, no entanto, seria o pivô de mais uma polêmica. O pessoal que estava formando a Ala Vermelha acusava a direção de querer mudar o estatuto na VI Conferência (1966) para permitir o ingresso de Arruda diretamente no Comitê Central, sem precisar ter militado em uma organização de base. As acusações não tinham fundamento: 1º Arruda era um veterano comunista, que teve uma ação importante nas bases partidárias; 2º Ele não passou compor a direção nacional logo após a conferência. Isso só viria acontecer muitos anos depois.
Portanto, o que sabemos é que Arruda já estava de volta em 1966 e colaborava com a direção regional de São Paulo. Ficou responsável por dar assistência às bases estudantis. Assumiu a nova tarefa num momento bastante difícil. A Ala Vermelha – que havia sido expulsa do PCdoB - tinha causado grande estrago ao levar consigo parte da militância nessa frente. Tratava-se, então, de reorganizar o trabalho. Era quase um recomeço para um homem que já tinha 54 anos dos quais 33 dedicados à construção do Partido Comunista.

Um jovem que conviveu com ele naqueles dias foi Dalmo Ribas. O Arruda, afirmou ele, “começou dar assistência ao movimento estudantil em 1967. Nessa ocasião nós estávamos bastante desgastados com o ‘racha’ (da Ala Vermelha). Minha lembrança mais antiga me reporta à reunião em que fomos apresentados pelo jornalista e dirigente regional Armando Gimenez. Nessa ocasião era totalmente vedado ao militante especular quem era quem. Se alguém ousasse perguntar, isso valeria uma admoestação: ‘curiosidade é coisa de policial’. Arruda trazia para as reuniões, muita história do Partido. Somente após sua prisão é que soubemos de quem se tratava”.

Prisão, tortura e resistência 

Com a promulgação do AI-5, em dezembro de 1968, o regime se tornou ainda mais ditatorial. As prisões, torturas e assassinatos passaram a compor o cotidiano dos militantes de oposição. Fechava-se o cerco sobre as organizações de esquerda. O destino de Arruda começou a ser decidido quando um casal de militantes esqueceu uma pasta de documentos partidários dentro de um táxi. Através deles descobriu-se a casa na qual se reunia o pessoal do PCdoB. Os policiais ocuparam a residência, prenderam a moradora e montaram uma tocaia.
Em 11 de novembro, quando Arruda bateu na porta foi cercado por quase uma dezena de policiais fortemente armados. Eram agentes da temida Operação Bandeirantes (OBAN). Arruda foi barbaramente seviciado nos porões do DOPS e do CENIMAR. Durante as sessões de tortura teve duas paradas cardíacas, perdeu uma das vistas e seus dedos foram quebrados. Ficou tuberculoso e perdeu mais da metade de sua capacidade pulmonar. Mesmo assim não se rendeu. Não disse uma palavra que pudesse comprometer seus camaradas ou o Partido. Teve um comportamento exemplar e transformou-se num símbolo da resistência contra a ditadura.

Na sua defesa diante da auditoria militar declarou: “Sou dirigente comunista. Não presto contas senão ao meu partido e ao povo. Minhas idéias marxistas e minha honra têm maior valor que minha vida (...). Acredito que um dirigente comunista não se deixa abalar pelo suplício e tudo pode suportar por suas idéias, pois está plantando uma seara que irá frutificar (...) um mundo de pães e rosas”. Apesar de tudo que diziam dele, Arruda se tornou uma pessoa muito querida entre jovens de todas as correntes políticas. É consenso entre aqueles que o conheceram que, apesar do jeito às vezes grosseiro, tinha um grande coração.

Descrevo uma cena narrada por um de seus companheiros de cárcere. Numa noite muito fria, o jovem preso tentava dormir quando sentiu algo e, discretamente, abriu os olhos. Era Arruda que, silenciosamente, o tinha coberto com seu único cobertor. Nada de estranho se aquele garoto não fosse um militante da Ala Vermelha, um racha do PCdoB. O nome dele era Alípio Freire.

Arruda foi libertado em 21 de março de 1972. Diante do seu estado físico, foi solto na certeza que morreria em breve. Novamente, os esbirros da repressão erraram. Arruda sobreviveu e continuou o seu combate. Contudo, uma nova prisão lhe seria fatal. Então, a direção solicitou que ele deixasse o país e fosse ajudar no setor de relações internacionais, colaborando na divulgação da Guerrilha do Araguaia que havia se iniciado.

Santiago, Buenos Aires e Paris 

Arruda, Tereza e filhos atravessaram a fronteira da Argentina como se fosse uma família abastada. Em seguida foram para o Chile, presidido pelo socialista Salvador Allende. O pessoal do PCdoB articulou com outros exilados a construção de um comitê de solidariedade à luta do povo brasileiro. Criaram o boletim “Jornadas da Luta Popular”, que se transformou num instrumento de divulgação da resistência armada no sul do Pará. Arruda e Dynéas Aguiar eram os principais animadores dessa iniciativa.

Quando houve o golpe militar no Chile, em 11 de setembro de 1973, Arruda se refugiou na embaixada da Argentina. Este era um dos únicos países democráticos ainda existentes no Cone Sul. Entre os refugiados brasileiros estava Amarilio Vasconcelos, reorganizador do Partido Comunista em 1943, e um jovem militante comunista chamado Raul Carrion. Eles teriam que esperar mais de um mês até que o asilo lhes fosse concedido.

Mesmo na Argentina a situação estava mudando para pior. Em julho de 1974, o presidente Perón morreu e em seu lugar assumiu Isabelita. Este foi um governo fraco que permitiu o crescimento das ações terroristas, promovidas por grupos paramilitares. A situação exigiu que Arruda fosse rapidamente retirado dali. Depois de muita negociação ele conseguiu novo asilo na França.

Houve, então, uma espécie de divisão das tarefas. Arruda cuidaria das relações com os países da Europa e Dynéas com os da América Latina. Nessa condição visitou a Albânia, Itália, Suécia e Portugal – e, também, a China. Nos países socialistas Arruda era tratado como verdadeiro chefe de Estado. Em Portugal deu grande contribuição na organização do Partido Comunista Português Reconstruído (PCP-R) e da União Democrática e Popular (UDP).

Brasil as coisas haviam ficado muito difíceis para o PCdoB. Entre 1972 e 1973 foi destroçada a comissão nacional de organização. Tombaram assassinados os dirigentes Carlos Danielli, Lincoln Oest, Luis Guilhardini e Lincoln Bicalho Roque. A ação repressiva tinha por objetivo cortar ligações entre o partido e os guerrilheiros no Araguaia. Foi nessa época que, visando preencher os vazios deixados na direção, Arruda ingressou no Comitê Central.

A situação se agravaria ainda mais com a derrota da Guerrilha e o assassinato da maioria dos seus combatentes, inclusive do comandante Maurício Grabóis. Pouco tempo depois, em dezembro de 1976, caiu nas mãos da repressão uma reunião do Comitê Central. Foram assassinados três dirigentes - Pedro Pomar, Ângelo Arroyo e João Batista Drummond – e quase uma dezena foi presa e torturada. A grande imprensa chegou anunciar o fim do PCdoB.

Como ocorreu no início da década de 1940, o Partido Comunista do Brasil deveria passar por um uma nova reorganização. Os dirigentes que estavam no exterior – Amazonas, Arruda, Dynéas e Renato Rabelo – começaram a restabelecer os contactos com os militantes e os comitês regionais que ainda resistiam no interior do país. Em pouco tempo esse trabalho estava, no fundamental, concluído. Para Arruda era preciso coroar esse esforço com a realização de uma conferência nacional. A 7ª Conferência reuniu-se na Albânia entre 1978 e 1979. O PC do Brasil, como a Fênix da mitologia parecia renascer das cinzas.

Após a Chacina da Lapa, Arruda escreveu uma série de artigos sobre os deveres da militância comunista. Esses artigos, posteriormente, foram publicados em “A educação revolucionária do comunista” e cumpriram um grande papel na formação ideológica dos comunistas nos estertores da ditadura militar. Uma de suas frases que ficou famosa era: “Primeiro o partido. Depois a vida, se possível!”. Consigna que os comunistas levaram muito a sério naqueles anos de chumbo.

Outra característica de Arruda era a sua grande preocupação com a formação teórica dos militantes comunistas. Sobre isso anos disse Amazonas: “Onde Arruda chegava já estava pensando em fazer algumas palestras sobre problemas teóricos e, em pouco tempo, organizava um curso (...) Foi o camarada Arruda que iniciou os cursos Stalin. (...) Eles jogaram um papel importante na formação dos quadros do nosso Partido (...). Depois, conseguiu que, na escola Superior do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, se realizassem cursos para os comunistas brasileiros. (...) Esse capital teórico que adquirimos foi fruto da atividade do camarada Arruda”. Muitas pessoas testemunharam que ele adorava organizar cursos e dar aulas para os jovens estudantes na década de 1960. Mesmo no breve período que esteve na embaixada da Argentina não deixou de dar suas palestras. Também deu aula de marxismo-leninismo no presídio Tiradentes. Loreta Valadares, no seu livro autobiográfico, comentou sobre os cursos que Arruda organizou em Buenos Aires e na Albânia, para os exilados na Europa.

A volta do guerreiro

O general Figueiredo, depois de resistir muito, anunciou uma anistia parcial que excluía os autores dos chamados “crimes de sangue”. O povo nas ruas protestou contra tal limitação e exigiu que ela fosse “ampla, geral e irrestrita”. Os exilados se esforçaram para repercutir ao máximo a campanha no exterior e isolar o regime. Arruda participou desse processo. Esteve presente e falou no Congresso Internacional pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita, realizado em Roma em junho de 1979.

Em setembro daquele ano, logo após a decretação da anistia, retornou ao Brasil e envolveu-se numa pesada agenda política. Ele percorreu vários estados defendendo a ampliação da anistia e a unidade da oposição contra a ditadura militar. No II Encontro pela Anistia, realizado na Bahia, ocorreu um encontro simbólico. Na mesa de abertura reuniram-se, pela primeira vez desde a divisão do movimento comunista brasileiro, os camaradas Arruda, Prestes e Apolônio de Carvalho.

No dia 25 de novembro, Arruda estava muito ansioso, dormira mal a noite toda. Uma coisa o preocupa: o regresso do principal dirigente do PCdoB, João Amazonas. Nada poderia dar errado naquele dia. Chovia muito e uma multidão tomava conta do aeroporto de Congonhas. Arruda logo se colocou ao lado do amigo que acabava de chegar. Amazonas tinha uma aparência frágil e Arruda se preocupava muito com sua segurança. A emoção e a tensão eram grandes naquele local. As fotos tiradas naquele dia demonstram isso.

Ainda dentro do carro que o levaria ao ato público, começou a passar mal. O coração sertanejo marcado pelas torturas não resistiu e, pela primeira vez, entregou os pontos. Arruda não viveria para ver as bandeiras vermelhas tomarem as praças na memorável campanha das diretas, nem a derrota definitiva da ditadura militar, nem a conquista da legalidade de seu partido. Contudo, nenhuma dessas vitórias seria possível sem homens e mulheres como ele.

Teresa Costa Rego, A Partida (1981)



Quando estava preso redigiu uma declaração ao tribunal militar. Ela resumiria, de maneira exemplar, sua maneira revolucionária de encarar a vida: “Não me norteia a vida um viver tranqüilo e pacato, um viver de aconchegos e comodidades, encerrado no círculo estreito de interesses individuais. Meu caráter, meu temperamento, minhas idéias, meus critérios de valor, meu senso político, tudo me preserva da reflexão egoísta, do acomodamento circunstancial, do silêncio velhaco, do servilismo oportunista, da sonegação da verdade. É difícil viver com dignidade, mas somente assim vale a pena viver”. E, por esses critérios, viveu e morreu o sertanejo comunista Diógenes Arruda Câmara.

Leia a primeira parte
Bibliografia

Arruda, Diógenes – A educação revolucionária do comunista, Ed. Anita Garibaldi, 1982
Bezerra, Gregório – Memórias (2ª parte) Ed. Civilização Brasileira, 1979.
Câmara, Cristina Arruda – Um comunista em família: biografia de Diógenes da Arruda Câmara, Monografia de conclusão de curso na faculdade de Comunicação da UFRJ, 1997.
Falcão, João – O Partido Comunista que eu conheci. Ed. Civilização Brasileira, 1988.
Bertolino, Osvaldo – Maurício Grabóis: uma vida de combates, Ed. Anita Garibaldi, 2004
Souza, Cícero M & Andrade, Antonio R. – “Comunismo a brasileira: a trajetória da utopia revolucionária de Diógenes Arruda Câmara” In Universidade & Sociedade, nº19, maio/agosto de 1999. UNB
Valadares, Loreta – Estilhaços, Sec. Cultura e Turismo de Salvador, 2005

Documento

Declaração de Diógenes de Arruda Câmara ao Conselho de Justiça da II Auditoria da II Circunscrição Jurídica Militar, s/d

Entrevistas

Diógenes Arruda – Entrevista realizada pelos jornalistas Albino Castro e Iza Freaza – Não chegou a ser publicada na época. Descoberta por Osvaldo Bertolino foi publicada no sítio Vermelho.

Tereza da Costa Rego – Entrevistas realizadas por Olívia Rangel (s/d) e por Olivia Rangel e Osvaldo Bertolino em 25/05/2005

João Amazonas – Entrevistas realizadas pela Comissão Especial sobre a história do PC do Brasil - 2001

Agradecemos também as informações prestadas por Dyneas Aguiar, Alípio Freire, Dalmo Ribas e Raul Carrion.



Imagens:

Download arruda_05Arruda e sua amada Teresa Costa Rêgo


Download arruda_04 Arruda e sua amada Teresa Costa Rêgo

Download arruda_03

Download arruda_02

Download Arruda_01 Arruda e Di Cavalcanti

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Diógenes Arruda: O guerreiro sem repouso (1) - Augusto Buonicore






Zé Duarte, Amazonas, Arruda, vê-se em seu rosto a emoção e a dor.

Augusto Buonicore *



Era 25 de novembro de 1979, o aeroporto de Congonhas estava cheio de pessoas vindas de todas as partes do Estado de São Paulo. O clima era de festa. Dentro de alguns minutos desembarcaria ali o principal dirigente do PC do Brasil, João Amazonas, que acabava de voltar do exílio. À frente da comissão de recepção estavam duas históricas lideranças comunistas, José Duarte e Diógenes Arruda.


Contudo, a alegria logo se transformaria em tristeza. A emoção do reencontro com velhos amigos abalou o fraco coração do bravo guerreiro pernambucano. Ainda no carro que o levaria ao ato político em homenagem ao camarada João Amazonas, Arruda começou a passar mal e faleceu.


O enterro acabou se transformando na primeira manifestação pública realizada pelo PCdoB. O caixão foi coberto por uma bandeira vermelha estampada com a foice e o martelo. Na beira do túmulo, Elza Monnerat – recém libertada da prisão – falou em nome dos comunistas brasileiros. “Juntamente com as flores da nossa saudade, declarou ela, deixamos o nosso adeus de despedida. Mas um adeus que é também um compromisso de honra. O compromisso de que, quaisquer que sejam as vicissitudes, levaremos adiante a bandeira que ele sempre defendeu. A bandeira do Partido, a bandeira do socialismo”.


Pernambuco, Bahia

Diógenes Alves de Arruda Câmara nasceu em 23 de dezembro de 1914 no pequeno município de Afogados de Ingazeira, sertão de Pernambuco. Um lugar marcado pela pobreza e pela violência. Era neto de um dos coronéis da região e os primeiros presentes que lembrava ter ganhado do seu pai eram um revolver e um punhal. Com eles deveria defender sua vida e a honra da família. Afirmou Arruda: “Eu vivia na minha infância aquelas histórias de cangaceiros, aquelas lutas no sertão. E, assim, eu me criei sem ter medo de polícia, sem ter medo da luta”. O comunista Arruda Câmara continuou sendo a vida toda aquele menino sertanejo, com suas virtudes e vicissitudes.


Em 1930 mudou-se para Recife e ingressou no curso de Engenharia. Um primo, que estudava medicina, o introduziu na literatura socialista. Leu, entre outras coisas, “Um engenheiro Brasileiro na Rússia” e se tornou simpatizante do comunismo. Alguns anos mais tarde, em 1934, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB).


No final desse mesmo ano mudou-se para a Bahia. Em Salvador matriculou-se no curso de Engenharia Agronômica. Entre 1936 e 1938 foi um atuante líder estudantil, participando do Diretório Acadêmico da Faculdade de Engenharia e da União dos Estudantes da Bahia (UEB).


Teve um papel destacado na campanha em defesa da siderurgia nacional. Segundo João Falcão, ele “foi a mola mestra da semana (em defesa da siderurgia nacional), coordenando os trabalhos das diversas comissões selecionando os oradores. Arruda mobilizou o diretório da Escola de Agronomia, da qual era aluno, para se colocar à frente da organização do evento”. Esse foi “o maior trabalho de massa realizado até então pela frente legal”.


Quando o mesmo João Falcão teve a idéia de criar uma revista político-cultural, Arruda foi um dos seus principais incentivadores. Foi ele quem sugeriu que ela se chamasse Seiva. A publicação expressaria o pensamento da corrente democrática e antifascista da Bahia. Para burlar a censura, deveria ser dirigida por pessoas que não fossem identificadas com o Partido. Mas, atrás dos panos, Arruda ajudava na coleta e seleção dos artigos. Seiva foi a primeira revista legal dirigida pelos comunistas durante o Estado Novo e ajudou divulgar suas idéias entre setores mais amplos da sociedade. Transformou-se num importante instrumento na luta contra o fascismo.


Logo após o golpe do Estado Novo, ocorrido em novembro de 1937, Arruda foi preso. Ficou cerca de três meses na cadeia e não prestou nenhuma informação aos seus algozes. Assim, a polícia não conseguiu nenhuma prova de suas ligações com o Partido Comunista. Devido a sua combatividade e grande capacidade de organização, passou a compor o secretariado regional do PCB, chegando a ser indicado para sua secretaria-geral. Nessa época se enamorou – e, depois, casou - com a estudante de direito Aldeir (Déa) Paraguassú.


Sob a direção enérgica de Arruda, os comunistas da Bahia se tornaram os mais organizados do país. Nas vésperas do Primeiro de Maio de 1940, eles inundaram Salvador com faixas vermelhas dizendo “Abaixo o Estado Novo!”, “Abaixo a guerra e o fascismo!” e “Liberdade para Prestes!”. A ousadia daqueles jovens, que embaraçou o interventor e o chefe da polícia, custaria bastante caro. Poucos dias depois Arruda foi preso novamente.


Desta vez as coisas foram mais complicadas. Ele foi torturado por dois longos meses e passou mais oito meses incomunicável. Muitos temeram por sua vida. Graças ao seu comportamento exemplar, não houve nenhuma queda importante no estado. O partido praticamente se manteve intacto.


Após sair da prisão, seguindo orientação da direção nacional, transferiu-se para São Paulo. O objetivo era ajudar na reorganização do Partido que fora desbaratado pela polícia. Naquele momento Domingos Brás era o único membro do Comitê Central em liberdade. Mesmo ele seria preso pouco tempo depois. O fascista Felinto Miller gabava-se de ter eliminado o Partido Comunista do Brasil. Os últimos acontecimentos pareciam dar-lhes razão. Mas ...


Reconstruindo o Partido Comunista

Como podemos suspeitar, a tarefa de Arruda não seria nada fácil. “Eu era um pau-de-arara, afirmou Arruda, vinha com uma roupazinha de brim, no mês de abril, um frio que até minhas rótulas tremiam”. Continuou ele: “nós comíamos chuchu de manhã, chuchu à noite, chuchu a semana inteira, chuchu o mês inteiro. Não tínhamos outra coisa para comer senão chuchu com arroz e sal”. Além do mais, ele não tinha contatos com os comunistas paulistas. O clima era de muita desconfiança diante de tantas prisões inexplicáveis. Suspeitava-se que havia infiltração policial no interior do Partido.


Numa entrevista, dada poucos meses antes de morrer, Arruda contou como foi o início da reorganização partidária em São Paulo: “Depois de 1935, todo Comitê Regional caiu. Parece que o inimigo cortava a cabeça do Partido (...) e deixava algumas pontas para que eles pudessem acompanhar e golpear o Comitê Regional. Era assim todo ano – 1936, 37, 38, 39, 40, 41. Que fazer? Eu tracei um plano: botar de lado o velho partido, que a polícia tinha indicação, e fazer um Partido novo. Não tinha outra maneira. Então, tive que me apoiar nos baianos. Fui chamando baianos para São Paulo”.


Já na viagem havia trazido consigo o amigo Armênio Guedes. Depois chamou um camarada ligado ao trabalho junto à comunidade judaica visando estabelecer contatos nessa frente. Arruda tinha constatado que nessa colônia as quedas haviam sido pequenas. Uma prova que não havia infiltração policial. A mesma coisa acontecia com os imigrantes lituanos, compostos basicamente de operários. Justamente por ali deveria começar o trabalho. Outro baiano que viria para São Paulo era o médico Milton Caires de Brito, que mais tarde comporia o secretariado do Comitê Central.


No início de 1942, junto com João Falcão, viajou à Argentina para restabelecer contatos com o Secretariado Sul-Americano da Internacional Comunista (IC). Em Buenos Aires se encontraram com Rodolfo Ghioldi e Victório Codovilla. Várias reuniões ocorreram entre os dirigentes da Internacional e os comunistas brasileiros. Quando estavam ali receberam a notícia que o governo brasileiro tinha rompido relações diplomáticas com a Alemanha nazista e havia se iniciado uma grande campanha popular exigindo a declaração imediata de guerra às potências do Eixo.


A linha política aprovada em Buenos Aires era a de construir uma União Nacional, ao lado do governo Vargas, contra as potências nazi-fascistas e seus aliados internos (quinta-coluna). Arruda, rapidamente, voltou ao país com essa diretiva e a tarefa de apressar a reorganização do PC do Brasil. Como membro da direção paulista, procurou contatar com um ativo grupo de comunistas cariocas, comandado por Maurício Grabóis e Amarilio Vasconcelos. A relação foi estabelecida com a ajuda de Leôncio Basbaum.


Constituiu-se, a partir de então, a Comissão Nacional de Organização do Partido (CNOP). A ela se agregaram dois jovens comunistas, fugitivos das prisões paraenses, João Amazonas e Pedro Pomar. Estava formado o núcleo principal de dirigentes que reorganizaria e, ao lado de Prestes, dirigiria o Partido até meados da década de 1950.


A principal tarefa dessa comissão era a organizar da 3ª Conferência Nacional do PC do Brasil, que foi realizada clandestinamente em 1943. Arruda foi eleito secretário nacional de organização, tornando-se, nesse período, o primeiro homem da hierarquia partidária. Sinal da importância que tinha tido naquele difícil processo.


Com a conquista da anistia e o fim do Estado Novo, o Partido Comunista emergiu como uma poderosa força política nacional, conquistando cerca de 10% dos votos nas eleições de 1945. Elegeu um senador e mais 14 deputados federais. Arruda candidatou-se pela Bahia e não conseguiu eleger-se. Contudo, nas eleições complementares de 1947, ele e Pedro Pomar elegeram-se deputados federais por São Paulo. Os dois foram candidatos pela legenda do Partido Social Progressista (PSP) de Ademar de Barros. Nessa época, o Partido Comunista já estava ameaçado de perder o seu registro.


Após a cassação dos seus parlamentares, os comunistas foram obrigados a entrar na clandestinidade. Arruda e Pomar, embora tolhidos em sua ação, continuaram exercendo seus mandatos até o final de 1950.


O impacto das medidas repressivas do governo Dutra e o desencantamento com a tática de viés reformista adotada anteriormente - que teria conduzido a uma séria derrota -, levou os comunistas a adotar uma linha política esquerdista. A principal expressão disso foi o “Manifesto de Agosto” de 1950. Nele Prestes defendia que a única alternativa para o povo era a constituição de uma Frente Democrática de Libertação Nacional e o desencadeamento imediato da luta armada contra o governo de plantão, Dutra e depois Vargas. A estratégia era, nitidamente, inspirada no processo da revolução chinesa que acabava de ser vitoriosa.


Arruda esteve ainda à frente da organização do 4º Congresso do PCB em 1954. Foi ele que apresentou o informe mais importante que tratava do novo programa – o primeiro desde a sua fundação. Até 1943 o programa dos Partidos Comunistas era o da Internacional Comunista. Só com a dissolução deste órgão foi que começaram a surgir os programas nacionais.


As concepções voluntaristas e esquerdistas, especialmente entre 1949 e 1954, conduziram a posições sectárias e métodos autoritários no relacionamento com as outras forças políticas, inclusive às do campo democrático, nacional e popular. Os trabalhistas e socialistas independentes foram tratados como agentes do imperialismo norte-americanos e como forças a serem combatidas.


Diante da ausência de Prestes, recolhido à clandestinidade e fora da direção cotidiana, coube a Arruda impor essa linha ao conjunto do Partido. Por isso mesmo, acabou se transformando na “bete noir” do comunismo brasileiro. Exemplo do autoritarismo no tratamento das divergências internas e mesmo na condução do trabalho de direção. Foi denominado, pejorativamente, de “Stalin brasileiro” ou “pequeno Stalin”.


Anos terríveis


Podemos dizer que, no início da década de 1950, Arruda vivia o auge do seu prestígio enquanto dirigente nacional do Partido Comunista. O escritor Jorge Amado dedicou-lhe “Subterrâneos da Liberdade”, trilogia na qual ele era um dos personagens mais significativos, o camarada André. Contudo, as coisas estavam prestes a mudar drasticamente para ele e o Partido que ajudara a organizar. As origens dessa reviravolta estariam no próprio interior do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), considerado a vanguarda da revolução mundial.


O 20º Congresso do PCUS, realizado em fevereiro de 1956, teve muita importância para o movimento comunista internacional e brasileiro. Ele mudou a linha política predominante até então, passando advogar a transição pacífica ao socialismo e apostar num longo período de coexistência e competição pacífica entre o bloco socialista, capitaneado pela URSS, e o imperialismo estadunidense.


Numa sessão secreta daquele Congresso, o secretário-geral Nikita Krushov apresentou um polêmico relatório no qual denunciava os erros e os crimes cometidos por Stalin. Estranhamente, o conteúdo que era para ser sigiloso vazou para as agências noticiosas internacionais e a informação chegou antes mesmo que os delegados estrangeiros pudessem voltar aos seus países e comunicar Para suas direções o que havia ocorrido.


No caso brasileiro as coisas foram ainda mais graves. Arruda – que era o representante brasileiro naquele congresso – acabou viajando para China antes de retornar ao Brasil. A viagem, que durou vários meses, fazia parte de uma programação oficial. Contudo, a gravidade do momento exigia sua volta imediata. Quando, finalmente, ele chegou os jornais burgueses já haviam publicado o relatório “secreto” e a direção do PCB negado categoricamente sua autenticidade. Abriu-se então uma grande crise no interior do movimento comunista brasileiro, a maior de sua história.


O núcleo dirigente - composto por Prestes, Arruda, Grabóis, Amazonas e Marighella – foi duramente criticado em artigos publicados na própria imprensa partidária e nas primeiras reuniões do Comitê Central convocadas para tratar do 20º Congresso. O principal alvo dos ataques foi o secretário nacional de organização.


Em 1957 Arruda, Grabóis e Amazonas foram destituídos da Comissão Executiva, acusados de resistirem à nova linha expressa na resolução do 20º congresso e se recusarem a fazer autocrítica de sua atuação à frente do Partido. No entanto, não era correta essa idéia que Arruda tenha se recusado aderir às novas teses soviéticas e reconhecer os erros cometidos. Pelo contrário, num artigo publicado na Voz Operária, ele fez uma humilhante autocrítica de todas suas atitudes anteriores. Escreveu: “é muito grande e grave a minha responsabilidade pessoal nas violações dos princípios do marxismo-leninismo de organização e de direção, nas debilidades e falhas ideológicas do Presidium e do secretariado, na condução do Partido, nos erros de direção e nos reveses do Partido, de 1942 até hoje. Lutei, cometi erros e revelei debilidades e, por isso, devo ser criticado e preciso autocriticar-me. Estou disposto a me livrar das idéias incorretas e dos maus hábitos, a transformar-me e renovar-me, pois será assim – e somente assim – poderei servir bem ao Partido”.


Por isso, num primeiro momento, não deu seu apoio ao grupo, encabeçado por Amazonas e Grabóis, que denunciava a nova política partidária, acusando-a de reformista. Ainda, durante os debates do 5º Congresso do PCB, realizado em 1960, somou-se à maioria do Comitê Central na defesa das teses oficiais e na condenação aos seus críticos. Escreveu na Tribuna de Debates um duro artigo intitulado “Estertores e mimetismo de tradição sectária”. Nele criticava as posições defendidas por Grabóis, Amazonas e Pomar, embora não citasse os nomes dos seus velhos camaradas. Sem dúvida, isso lhe causava profundo desconforto.


A dura autocrítica e o alinhamento político com Prestes, que ele admirava muito, não garantiram sua recondução ao Comitê Central. E mais: Arruda não foi eleito para nenhum outro posto de direção – nem regional nem municipal - e se tornou um simples militante de base. Mesmo quando, entre 1961 e 1962, a crise interna agravou-se e ocorreu a cisão dando origem a dois partidos comunistas, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e o Partido Comunista Brasileiro (PCB), Arruda manteve-se eqüidistante daquele conflito. Essa neutralidade, no entanto, não duraria muito tempo.

Ladeada por Zé Duarte e Haroldo Lima, Elza Moneratt  discursa no na semeadura de Diógenes Arruda (Genoino ao fundo)


(continua)




sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Partido Comunista do Brasil de Congresso em Congresso



De: O Outro lado da Notícia
O Partido Comunista do Brasil (PCdoB) inicia a 05/11 seu XII Congresso. O I foi realizado em 1922. A seguir, um breve resumo de todos os Congressos do Partido.
__________
I Congresso: fundação do Partido
Segundo a revista Movimento Comunista, em meados de fevereiro de 1922, por iniciativa dos comunistas do Grupo de Porto Alegre, o Grupo do Rio de Janeiro entendeu-se com os demais grupos existentes sobre a necessidade de se apressar a realização do I Congresso do Partido Comunista do Brasil. O objetivo era definir a organização do Partido diante da aproximação do IV Congresso da Internacional de Moscou, no qual deveriam fazer-se representar os comunistas do Brasil. “Um trabalho ativo foi iniciado, neste sentido, marcando-se a data de reunião do Congresso: 25, 26 e 27 de março”, diz a revista.
Nos dois primeiros dias, o Congresso reuniu-se no Rio de Janeiro e no terceiro em Niterói. “Estavam representados por delegação direta os Grupos de Porto Alegre, do Recife, de São Paulo, de Cruzeiro (SP), de Niterói e do Rio. Não puderam enviar delegados os Grupos de Santos (SP) e Juiz de Fora (MG). Igualmente se fizeram representar o Bureau da IC (Internacional Comunista) para a América do Sul e o Partido Comunista do Uruguai”, explica a Movimento Comunista. Foi estabelecida a seguinte ordem do dia para os trabalhos do Congresso: 1) Exame das 21 condições de admissão na Internacional Comunista; 2) Estatutos do Partido Comunista; 3) Eleição da Comissão Central Executiva; 4) Ação pró-flagelados do Volga (União Soviética); 5) Assuntos vários.


II Congresso: consolidação do Partido
Em maio de 1925, o Partido Comunista do Brasil, então com a sigla PCB, realizou o seu II Congresso com uma representatividade maior e fisionomia de um verdadeiro partido comunista. Sobre a situação política nacional, predominou a concepção dualista “agrarismo-industrialismo”. Na verdade, essa concepção correspondia às análises contidas no livro Agrarismo e Industrialismo, escrito por Octávio Brandão — ele e Astrojildo Pereira eram então os principais teóricos do PCB — em 1924 e publicado em 1926.
Agrarismo e Industrialismo, um “ensaio marxista-leninista sobre a revolta de São Paulo e a guerra de classe no Brasil”, segundo o subtítulo do livro, dizia, em síntese, que os interesses agrários, em conluio com os do imperialismo anglo-americano, eram os principais entraves para a industrialização e o progresso do país. Para Brandão, uma terceira revolta — a primeira foi o levante do Forte de Copacabana em 1922 e a segunda o movimento de São Paulo de 1924 — deveria unir “o Exército e Marinha, o Rio e São Paulo, o Sul e o Norte, o proletariado, a pequena burguesia urbana e a grande burguesia industrial”. E ressalvava: “O proletariado entrará na batalha como classe independente, realizando uma política própria.”


III Congresso: revolução a vista
Entre os dias 29 e 31 de dezembro de 1928, o PCB realizou o seu III Congresso, em Niterói (RJ), e aprovou as resoluções com o Partido ainda sob a influência da concepção da “terceira revolta” como progressão natural dos levantes de 1922 e 1924. Para o Partido, havia uma conjuntura revolucionária, resultado da combinação da crise econômica em conseqüência da catástrofe na política do café com o fracasso do plano de estabilização monetária e a instabilidade política vinculada à sucessão presidencial de 1930.
Mas a análise da evolução da luta política no país revelou o limite das concepções que haviam no Partido. As resoluções falavam de “uma terceira explosão revolucionária”, continuação mais ampla e radical dos movimentos anteriores, para a qual “toda a tática do Partido Comunista do Brasil deve (…) subordinar-se”. Uma das mais importantes resoluções do 3º Congresso foi a que caracterizou o Bloco Operário e Camponês (BOC) como uma forma de trabalho legal do PCB.
Segundo o Congresso, dois perigos rondavam o BOC: o de o PCB perder a direção política do movimento e ele transformar-se em instrumento para “políticos parlamentares da pequena burguesia, colocando o proletariado a reboque desses elementos”, e o de o Partido perder sua fisionomia própria, “subordinando sua ação às possibilidades de trabalho legal”. Na edição de 15 de fevereiro de 1930, o jornal A Classe Operária publicou esta manchete: “Votar no Bloco Operário e Camponês é Votar pela Revolução!”
Mas a resolução que mereceu mais destaque foi a que tratou do combate ao fascismo. Segundo a direção do Partido, “a questão da luta contra o imperialismo e os perigos de guerra — posta no segundo ponto da ordem do dia — foi, a bem dizer, o fio condutor de todos os debates do Congresso”.


IV Congresso: programa do Partido
A edição de A Classe Operária de 1º de agosto de 1934 publicou um texto na capa, intitulado “Em Marcha para IV Congresso do PCB”, no qual o “prestismo” foi caracterizado como “teoria pequeno-burguesa direitista, golpista, que deixa de ter fé no proletariado”. Mas o Congresso seria adiado devido aos intensos acontecimentos daquela segunda metade da década de 30 — levante de 1935 e resistência à ditadura do Estado Novo.
Quando saiu a primeira edição do jornal A Classe Operária em sua nova fase, em meados de 1940, o e editor Maurício Grabois escreveu um texto intitulado “A Classe Operária será o órgão do IV Congresso”, no qual fez uma retrospectiva do heróico trabalho para reorganizar o Partido e conduzi-lo até ali. “É significativo o reaparecimento de A Classe Operária justamente quando o Partido Comunista do Brasil se mobiliza para a realização de seu IV Congresso, seu primeiro Congresso do período de legalidade. A Classe Operária será o órgão do Congresso, para discussões das teses e demais materiais a serem estudados durante este período preparatório”, escreveu.
A nova edição de A Classe Operária publicou ainda as “Normas orgânicas para o IV Congresso”. O PCB havia divulgado um folheto intitulado “Em marcha para o IV Congresso”, com orientações preliminares para o evento — que logo seria postergado. Uma nota da Comissão Executiva do dia 16 de abril de 1946 anunciou que o Congresso seria adiado “para data mais oportuna” e a convocação de uma Conferência Nacional.
O IV Congresso realizou-se entre os dias 7 e 11 de novembro de 1954. Na tribuna, na abertura do evento, Maurício Grabois apresentou uma intervenção especial, intitulada “Agitação e Propaganda Para Milhões, Fator Decisivo Para a Vitória do Programa do Partido”, e disse que nenhum documento do Partido foi tão popularizado e debatido como o Programa do PCB. Era, de fato, um documento importante para o Partido — resultado de uma experiência internacional, em conjunto com outros dois ou três partidos comunistas, de implantar programas socialistas. A iniciativa brasileira teve tanta importância mundial que dirigentes soviéticos leram e aprovaram o texto do PCB.


V Congresso: racha no Partido
O 5º Congresso realizou-se em agosto de 1960 e o grupo liderado por Luiz Carlos Prestes articulou o afastamento de quase a metade dos membros do Comitê Central. Embora no período que precedeu a realização do Congresso tivesse ocorrido um amplo debate na imprensa do Partido, houve interferências nas conferências e nas assembléias visando a aprovação da linha política que ficou conhecida como “revisionista”.
O Congresso afastou do Comitê Central doze de seus membros efetivos num conjunto de vinte e cinco, além de vários suplentes. Maurício Grabois, João Amazonas e Diógenes Arruda não foram reeleitos. Carlos Danielli, Pedro Pomar e Ângelo Arroyo algum tempo depois também seriam afastados. E, mais adiante, foram também destituídos da direção do Partido Lincoln Oest, José Duarte, Walter Martins e Calil Chade.
No dia 11 de agosto de 1961, o jornal Novos Rumos publicou um suplemento com o Programa e os Estatutos do Partido Comunista Brasileiro — anunciando a criação, na prática, de um novo partido. Prestes, em manifesto ao povo publicado na mesma edição, disse que aqueles documentos seriam encaminhados ao Tribunal Superior Eleitoral com a finalidade de obter a legalidade do novo PCB. Essa atitude revoltou os comunistas que combateram a linha vitoriosa no 5º Congresso.
Eles imediatamente enviaram à nova direção uma carta com cem assinaturas — a Carta dos Cem — solicitando a revogação das medidas anunciadas pelo jornal. O documento, que classificava as medidas da direção como uma “violação frontal dos princípios partidários, aberta infração das decisões do V Congresso (que) ferem a disciplina e atingem a própria unidade do Partido”. Ele acabaram expulsos de um partido do qual, a rigor, nunca pertenceram e reorganizaram o o Partido Comunista do Brasil, com a sigla PCdoB.


VI Congresso: balanço da repressão
O VI só seria realizado em 1983. O Partido saira de uma fase em que fora duramente atingido pela ditadura militar. No curso dos preparativos da Guerrilha do Araguaia, e depois na Chacina da Lapa, perdeu importantes dirigentes e militantes.
VIICongresso: encruzilhada histórica
Durante a Assembléia Nacional Constituinte, em maio de 1988, o PCdoB realizou o seu VII Congresso. O Partido avaliou sua trajetória desde a realização do VI Congresso e conclui, com base no informe político apresentado por João Amazonas, que chegava ao evento com um balanço positivo. E com um êxito significativo: havia ultrapassado a casa dos cem mil filiados.
O VII Congresso selou o afastamento do Partido das posições de defesa do governo do presidente José Sarney. O presidente Sarney, disse o PCdoB, a princípio viu-se forçado a cumprir, pelo menos em parte, a plataforma de Tancredo Neves, mas não demorou para investir contra os movimentos populares, as greves e as lutas camponesas. O peso das dificuldades originárias da inflação havia sido descarregado sobre as costas dos trabalhadores.
O PCdoB concluiu a sua análise apontando que o Brasil encontrava-se em uma encruzilhada histórica — ou rompia radicalmente com aquele estado de coisas a fim de assegurar um desenvolvimento econômico independente, abrindo clareiras para o progresso efetivo, para a democratização e a modernização da vida nacional, ou afundaria.


VIII Congresso: reafirmação do socialismo
Com os acontecimentos no campo socialista no final da década de 80 e início da de 90, o Partido decidiu antecipar o VIII Congresso para 1992 — que estatutariamente deveria ocorrer em 1993. Os novos problemas de indiscutível importância política e ideológica que convulsionavam o cenário mundial repercutiram fortemente no país e atingiram o PCdoB de frente. A causa da derrocada do socialismo na União Soviética, no Leste europeu e também na Albânia precisava de respostas no âmbito do marxismo-leninismo.
O PCdoB considerava que as condições para a resistência era difíceis porque mesmo antigas referências da luta anti-revisionista, como o Partido do Trabalho da Albânia (PTA), capitularam, mudaram de campo. O que havia de alentador era o fato de alguns países que construíam o socialismo com suas peculiaridades — como Cuba, Vietnã, Coréia do Norte e China Popular — manterem-se decididos a levar adiante a causa que defendiam.
No VIII Congresso, o PCdoB fez um amplo balanço das conquistas da Revolução Russa de 1917 e indicou que embora o novo sistema não tivesse ainda alcançado o nível de desenvolvimento econômico dos grandes países capitalistas, demonstrou inequívoca superioridade no equacionamento e na solução dos problemas angustiantes com que se defronta a humanidade. A União Soviética havia avançado séculos na luta por um mundo melhor, avaliou o Partido.
O PCdoB também passou em revista o período revisionista iniciado em fins da década de 1950 e começo da de 1960, quando uma tendência anti-socialista, de fundo liberal-burguês, assumiu o comando do país dos sovietes. E concluiu que Josef Stálin, como o principal dirigente do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e teórico marxista-leninista, teve responsabilidade no ocorrido. Ele não deixou cair a bandeira revolucionária, disse o Partido, mas revelou deficiências, cometeu erros — alguns graves —, equivocou-se em questões importantes da luta de classes, avaliou o PCdoB.
Para o Partido, particularmente no fim da vida Stálin exagerou seu papel de dirigente máximo. Caiu no subjetivismo e, de certo modo, no voluntarismo. Permitiu o culto à sua personalidade que conduzia à subestimação do PCUS. O PCdoB também constatou que as debilidades ideológicas no enfrentamento com os revisionistas, em 1956/57, quando toda a velha guarda bolchevique deixou se envolver nas maquinações de Nikita Kruschev, demonstrava que Stálin não deu atenção suficiente, em especial a partir da década de 1940, à formação leninista e à luta ideológica.
O Partido constatou ainda que a tese de Stálin de quanto mais avança a construção do socialismo, maior é o acirramento da luta de classes, mostrou-se equivocada. Conduziu a repressões continuadas e possivelmente desnecessárias, com repercussão negativa na credibilidade do regime. Dificultou o fortalecimento da legalidade democrática e socialista. O PCdoB ressalvou, entretanto, que os ataques a Stálin era um artifício para manifestar oposição a certos conceitos básicos do socialismo. O Partido concluiu que avaliava a figura de Stálin no plano histórico e que não era stalinista nem tampouco anti-stalinista.
No plano da reflexão nacional, VIII Congresso reviu o pensamento de duas etapas estratégicas da revolução brasileira, que vinha da III Internacional e da análise que se fazia da realidade brasileira — o caráter nacional, democrático, antiimperialista e anti-feudal da revolução na primeira etapa, e socialista na segunda. Esse relativo mecanicismo no pensamento do Partido cedeu lugar a uma compreensão mais interligada das duas etapas.


IX Congresso: cuidar do Partido
No apogeu da globalização neoliberal, em 1997, o PCdoB realizou o seu IX Congresso. O partido concentrou-se no caminho e plataforma para construir uma ampla frente com a finalidade de derrotar o neoliberalismo e abrir caminho para o socialismo. Teve início a definição de um tipo de partido revolucionário de princípios e feição moderna. O IX Congresso levantou a consigna de “cuidar mais e melhor do Partido”, com o objetivo de debater o tipo de partido revolucionário que deveria ser construindo no novo tempo.
O IX Congresso fez uma análise criteriosa da história do Partido e concluiu que a principal conquista foi a formação de uma corrente marxista-leninista em seu seio. A constituição dessa corrente tem antecedentes na Conferência da Mantiqueira (1943), mas se firmou e consolidou na luta contra o revisionismo contemporâneo e contra o retrocesso do PCB, que degenerou no final da década de 50, segundo o PCdoB.
O IX Congresso fez uma firme denúncia da ofensiva do neoliberalismo. Para o Partido, ela constituía séria ameaça à própria existência da nação brasileira. Afetava gravemente os direitos dos trabalhadores, golpeava as conquistas democráticas. Voltava-se particularmente contra a esquerda, em especial contra o PCdoB. Era preciso um Partido forte e coeso, capaz de formar a ampla união das correntes de esquerda e democráticas e de reforçar a unidade dos trabalhadores da cidade e do campo — um partido de princípios, marxista-leninista, de feição moderna.



X Congresso: presidência do Partido
O PCdoB chegou ao seu X Congresso, realizado em 2001, com esse propósito bem delineado. O quadro sucessório presidencial foi amplamente debatido. A batalha eleitoral de 2002, segundo o Partido, seria fundamental — a derrota da política neoliberal no Brasil teria grande repercussão em toda a América Latina.
Um fato marcante do X Congresso foi a transição da presidência do Partido. João Amazonas, sabiamente e de forma experimentada, vinha pavimentando a mudança — assumiu a presidência do Partido Renato Rabelo. Não foi uma transição abrupta, ou uma ruptura, mas um processo de desenvolvimento que envolveu o coletivo dirigente. João Amazonas continuou presente na transição e na nova direção, que levou em conta o trabalho coletivo e colegiado. Por isso, o X Congresso aumentou o número de vices-presidente e indicou João Amazonas para presidente de honra do Partido.
“Tenho sido, desde 1962, o principal dirigente do Partido Comunista do Brasil. Era um partido pequeno e perseguido, cuja direção coletiva era formada por homens como Maurício Grabois, Pedro Pomar, Luís Guilhardini, Carlos Danielli, Lincoln Oest e tantos outros que pagaram com a vida a ousadia de contrapor-se à ditadura militar. É com saudade, respeito e emoção que me recordo desses camaradas. Com seus desaparecimentos, couberam-me maiores responsabilidades de direção”, lembrou João Amazonas. Em abril de 2002, ele completaria 67 anos de militância ininterrupta no Partido e, no dia 1º de janeiro, 90 anos de idade.
A intervenção de João Amazonas foi interrompida por aplausos dos congressistas quando apresentou o nome de Renato Rabelo, então vice-presidente, para substituí-lo na presidência. “Um bom camarada, que vem se destacando, seguindo as tradições de luta do nosso Partido. Quero destacar que esta substituição se faz normalmente, como é devido. Quero também agradecer o grande apoio que sempre tive nas fileiras do nosso glorioso e heróico Partido Comunista do Brasil”, disse João Amazonas.
Uma de suas principais preocupações era a tática para as eleições presidenciais de 2002. João Amazonas tinha um ponto de vista que expunha desde a primeira campanha, em 1989. Era o de que, nas condições brasileiras, inseridas nas condições da América Latina e do mundo, seria muito difícil a esquerda sozinha, ou uma frente de esquerda, ganhar uma eleição presidencial. Daí a insistência para que se procurasse ampliar a frente, com pessoas honestas, brasileiros de nascimento e de espírito.
Ele ficou contente quando soube que Lula, na articulação de sua quarta campanha, procurava ampliar a frente. Disse-lhe pessoalmente, na sede do PCdoB, em São Paulo, no que provavelmente foi a última vez que avistou Lula, que a escolha de José Alencar para seu vice, era uma boa escolha. João Amazonas não chegou a ver a vitória de Lula nas eleições de 2002 — faleceu, cinco meses antes.
Para o PCdoB, a vitória de Lula abriu um novo ciclo histórico e político no Brasil. Essa vitória faz parte do vasto movimento mudancista que se instalou sobretudo na América do Sul, em resposta às crises agravadas pela vigência das políticas neoliberais, expressando as particularidades do Brasil.
A existência do governo Lula resultou do esforço conjugado das mais avançadas forças políticas, sociais e ideológicas — conformado nessas últimas décadas de redemocratização do país e das alianças alcançadas, Chegaram ao governo da República correntes políticas democráticas, patrióticas, revolucionárias e representantes de organizações sociais populares que nunca tinham alcançado tal intento.


XI Congresso: defesa do governo Lula
O XI Congresso ocorreu em outubro de 2005. O Congresso alertou que a oposição procurava tecer um quadro permanente de crise política, de provocações, a fim de forçar uma sinalização de instabilidade crescente do governo.
Filed under: Política, história

-->
« Stalin e o “grupo Amazonas-Grabois-Pomar”

Coletivizando no Youtube