SIGA O COLETIVIZANDO!

Mostrando postagens com marcador Goebbels. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Goebbels. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de julho de 2020

George Dimitrov: líder histórico da luta contra o nazifascismo - Pedro Oliveira - E a defesa de Dimitrov contra Goring e Goebbels (em inglês)- Portal Vermelho


George Dimitrov: líder histórico da luta contra o nazifascismo

Ao desmascarar o fascismo – ameaça que continua presente hoje em vários países e inclusive no Brasil –, Dimitrov apresentou uma tática de luta política inigualável.
por Pedro Oliveira

Publicado 19/07/2020 13:03 | Editado 19/07/2020 14:33


Normalmente costuma-se comemorar e relembrar datas redondas relacionadas a grandes líderes e fatos da história da humanidade. Agora mesmo, acabamos de celebrar os 75 anos da Vitória da Guerra Patriótica da União Soviética contra o Nazismo, que na verdade decidiu a II Guerra Mundial, com a realização em Moscou de um grandioso desfile referenciado em uma parada militar igualmente inesquecível, ocorrida em 1945, na Praça Vermelha.

Entretanto, as circunstâncias históricas atuais, tanto no mundo quanto no Brasil, fazem-nos lembrar da luta contra o nazismo e o fascismo, em seus primórdios, quando Adolf Hitler assumiu o poder na Alemanha. Em junho deste ano de 2020, recordamos o nascimento de uma figura emblemática desta luta encarniçada e de grande projeção estratégica para a luta dos trabalhadores e trabalhadoras de todo o mundo: o registro dos 138 anos do nascimento do líder comunista búlgaro George Dimitrov.

Ninguém melhor do que Bertolt Brecht para pontuar este artigo com os versos do seu poema


“Ao Camarada Dimitrov”, quando lutou diante do Tribunal fascista em Leipzig.

———————————————–
“Camarada Dimitrov!
Desde o dia em que lutastes diante do tribunal fascista
a voz do comunismo,
cercada pelos bandos de matadores e bandidos da SS,
através do ruído dos chicotes e cassetetes,
fala bem alto e nítida
no centro da Alemanha.”
————————————————

Na noite de 27 para 28 de fevereiro de 1933, agentes do recém-empossado novo chanceler da Alemanha, Adolf Hitler, sorrateiramente atearam fogo ao Reichstag, em Berlim – o Parlamento do país –, a partir de um local onde as ruas próximas eram vigiadas fortemente pela polícia política do nazismo, e acusaram os comunistas como autores do atentado.

Alguns dias depois, foram presos militantes comunistas, assim como o dirigente e membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista e do Comitê Central do PC Búlgaro, George Dimitrov, ao lado de alguns de seus camaradas que estavam na Alemanha. A polícia nazista tomou também a providência de prender um militante holandês, chamado Van der Lubbe.

Dimitrov foi indiciado por ter supostamente participado do plano do atentado ao Reichstag. Na ocasião, foi instaurado um processo jurídico-político – que passou para a história como uma gigantesca farsa nazifascista do Tribunal de Leipzig – para criminalizar os comunistas e desencadear feroz repressão contra as massas populares na Alemanha. Nesse processo, Dimitrov, não aceitou interpostos defensores e assumiu sua própria defesa. Rejeitou o estatuto de réu e transformou-se em acusador do Terceiro Reich e dos seus juízes.


O roteiro da peça farsesca montada pela propaganda hitlerista não havia previsto tal desfecho. Os chefes do Partido “Nacional-Socialista” alemão (NSDAP), sob o comando de Hitler, tinham a convicção plena de que os comunistas haveriam de sucumbir diante da condução do processo instaurado sob precárias condições prisionais e por obstáculos apresentados pelo Tribunal à defesa dos réus. O processo culminou com um julgamento por tribunal, como de fato aconteceu.

Todo o julgamento estava montado para consagrar o novo governo hitlerista e para se transformar num elemento decisivo para a criminalização e perseguição dos comunistas e, por consequência, de toda e qualquer oposição. A transmissão das sessões do Tribunal pelo rádio testemunhava a certeza que o novo governo tinha em relação a um desfecho do processo favorável ao nazismo. Os hitleristas não contavam é com a coragem e a grandeza moral do dirigente da Internacional Comunista.


O revolucionário búlgaro desmontou os alicerces da acusação e desmascarou, uma por uma, as testemunhas apresentadas, mesmo quando duas delas foram nada mais nada menos do que dois dos mais destacados dirigentes nazistas e ministros do Terceiro Reich: Herman Göering e Joseph Goebbels.


O tipógrafo e sindicalista, nascido há 138 anos – completados no mês de junho passado, em Kovachevtsi, uma localidade búlgara — primeiramente confrontou-se com o general do Exército nazista, que perdeu completamente as estribeiras. Göering saiu totalmente desacreditado com sua conduta de acusador. Já o ministro da Propaganda, Gobbels (recentemente imitado por um dos membros do governo Bolsonaro que acabou demitido por seu desempenho grotesco no episódio), nem mesmo recorrendo a toda a sua retórica, foi capaz de levar a melhor perante Dimitrov.

Com argumentos sólidos e firmeza inabalável, o dirigente comunista deixou evidente, aos olhos do mundo, que os nazistas, e tão-somente eles, beneficiavam-se do incêndio do Reichstag, e que o único golpe que se preparava era o de Hitler rumo ao poder absoluto.


————————————————

“(…)Voz que pôde ser ouvida em todas as nações da Europa,

que através das fronteiras ouvem o que vem


do escuro, elas mesmas no escuro,

mas também pôde ser ouvida

por todos os explorados e espancados e


incorrigíveis lutadores

na Alemanha.”

————————————————–


Desta maneira, Dimitrov protagonizou a primeira grande derrota ao nazismo, dentro de seus próprios tribunais, em Leipzig e posteriormente, em Berlim. Com isso, o dirigente comunista deu forte impulso à formação de uma ampla frente antifascista em nível mundial. Foi um grande exemplo dado à juventude e ao movimento operário e sindical para o combate ao pior inimigo dos povos naquela época: o nazismo.

Ao desmascarar o fascismo – ameaça que continua presente hoje em vários países e inclusive no Brasil –, Dimitrov apresentou uma tática de luta política inigualável: a síntese que fez em pleno tribunal da tática dos comunistas representa ainda hoje um lema mobilizador para os revolucionários de todo o mundo: trabalho de massas, luta de massas, resistência de massas, frente única, nenhuma aventura!

Em seu informe ao VII Congresso Mundial da Internacional Comunista, pronunciado em 13 de agosto de 1935, Dimitrov asseverou que os comunistas “são partidários da frente única, defendem, desenvolvem e fortalecem o movimento de frente única, visto que este movimento de frente única é um movimento de luta contra o fascismo e a reação, e será sempre a força motriz que empurra os governos de frente única para lutar contra a burguesia reacionária. Quanto com maior força se desencadeia este movimento de massas, tanto maior será a força que possa oferecer ao governo para lutar contra os reacionários. E quanto melhor organizado pela base, este movimento de massas, e maior seja o número dos órgãos de classe da frente única situados à margem do Partido nas empresas entre desempregados nos bairros operários, entre gente simples da cidade e do campo, tanto maiores serão as garantias que se terão contra uma possível degenerescência da política do governo de frente única”.


—————————————————

“(…) Com avareza utilizas, camarada Dimitrov, cada minuto
que te é dado, e o pequeno lugar que
ainda é público, utiliza-o
para todos nós.
Mal dominando a língua que não é a tua
sempre advertido aos gritos,
várias vezes arrastado para fora,
enfraquecido com as algemas,
fazes repetidamente as perguntas temidas.
Incriminas os criminosos e
leva-os a gritar e te arrastar e assim
confessar que não têm razão, apenas força.”

————————————————————

Apesar de derrotado jurídica e politicamente no julgamento do incêndio do Reichstag, a máquina nazista conseguiu empulhar em certa medida a população e, uma semana após, propagandeando o perigo dos comunistas, do que o incêndio seria a prova, chegou a uma vitória eleitoral vital para consolidar o poder de Adolf Hitler. A prisão havia sido utilizada não somente para angariar votos nas eleições gerais, que se realizaram em 5 de março de 1933, mas também para desencadear uma série de atos para garantir poderes ditatoriais ao nazismo.

Hitler conseguiu aprovar uma lei, em 23 de março daquele mesmo ano, que permitia a centralização total do poder em suas mãos e impunha o controle sobre a administração civil do governo e do Judiciário, banindo ou dissolvendo todos os partidos políticos, à exceção (como não poderia deixar de ser) do Partido Nazista.

Ao mesmo tempo, medidas racistas contra os judeus foram tomadas e todas as greves e as organizações sindicais dos trabalhadores colocadas na ilegalidade.

Imediatamente após a prisão de Dimitrov, a bancada comunista no Reichstag desencadeou uma grande campanha nacional e internacional em defesa do líder comunista romeno.

O processo do tribunal de Leipzig, como ficou conhecido, durou de 21 de setembro a 23 de dezembro de 1933, e transformou Dimitrov numa personalidade mundial.

——————————————————

“(…) Embora não tão visíveis
milhares de combatentes, mesmo os
ensanguentados em suas celas
que podem ser abatidos
mas nunca vencidos.
Assim como tu, suspeitos de combater a fome,
acusados de revolta contra os exploradores,
incriminados por lutar contra a opressão,
convictos da causa mais justa.”

Bertolt Brecht

—————————————————————-

Dimitrov consolidou-se como um líder destacado do Partido Comunista da Bulgária e um dos principais organizadores do movimento comunista internacional, dirigindo a Terceira Internacional Comunista. Ele seguiu nesta nobre tarefa até a dissolução da Internacional Comunista, o Comintern, em 1943. Após a Segunda Grande Guerra, Dimitrov voltou à sua terra natal, a Bulgária, onde exerceu a função de primeiro-ministro do país até sua morte em 1949.

Na edição de agosto/setembro de 1949, da Revista Problemas do Partido Comunista do Brasil, PCB na época, Dominique Desanti publicou uma tradução do Depoimento de Dimitrov e parte do diálogo travado por Dimitrov com seus algozes nazifascistas, que aqui reproduzimos:

———————————————————-

Extratos do depoimento de Dimitrov perante o tribunal nazista

“É verdade que sou um bolchevique, um revolucionário proletário. (…)

É verdade igualmente que, na qualidade de membro do Comitê Central do Partido Comunista búlgaro e do Comitê Executivo da Internacional Comunista, sou comunista dirigente e responsável. De bom grado, responderei integralmente por todos os atos, decisões e documentos de meu Partido búlgaro e da Internacional Comunista. Mas é precisamente por essa razão que não sou um aventureiro terrorista, um putschista, um incendiário.

Aliás, é perfeitamente verdadeiro que sou favorável à revolução proletária e à ditadura do proletariado. Estou firmemente convencido de que essa é a única saída, o único meio de salvação contra a crise econômica e a catástrofe guerreira do capitalismo.

E a luta pela ditadura do proletariado, pela vitória do comunismo, é, sem dúvida alguma, o conteúdo de minha vida. Desejaria viver ainda ao menos 20 anos para o comunismo e depois morrer tranquilo. Eis precisamente por que sou adversário decidido do terror individual e do putchismo.

E isso não por considerações sentimentais e humanitárias. De acordo com a nossa doutrina leninista, as decisões e a disciplina da Internacional Comunista, que são, para mim e para todo verdadeiro comunista, lei suprema, estou, do ponto de vista da atividade revolucionária, no interesse da revolução e do comunismo, contra o terror individual, contra as aventuras putchistas.

Sou sinceramente partidário, admirador do Partido Comunista da União Soviética, porque esse Partido dirige o maior país do mundo – uma sexta parte do globo – e constrói tão heroica e vitoriosamente o socialismo, sob a direção de nosso grande chefe Stalin”.

O processo movido pelos nazistas para a derrota do comunismo mostraria ao mundo a flagrante pusilanimidade dos homens de Hitler, o heroísmo sereno dos revolucionários.

George Dimitrov, esse homem que arrisca a cabeça, esse homem que ama apaixonadamente a vida em todas as suas manifestações, é o único protagonista do drama para o qual convergem as vistas do mundo. Göering, no papel de testemunha, esbraveja, injuria, perde o controle, ordena aos guardas (ele como testemunha) que agarrem o acusado. O búlgaro desafia, antes de se deixar segurar:

“Tendes medo de minhas perguntas, Sr. Presidente?”

Goebbels, outra testemunha, blasona: “Não é a mim que ele fará perder a paciência”. Mas, também desta vez, Dimitrov fica com a razão. Dir-se-ia que ele próprio preparou esse processo, onde arrisca a vida, para dizer à face do mundo essas palavras essenciais:

“Defendo minhas ideias, minhas convicções comunistas. Defendo a razão de ser de minha vida. Eis por que cada frase que pronuncio é, por assim dizer, carne da minha carne e sangue de meu sangue. Cada uma de minhas palavras exprime a minha indignação contra o fato de que um crime tão anticomunista seja atribuído aos comunistas”.

“Diante do avanço do fascismo, o Comitê Executivo conclama todos os Partidos Comunistas a tentarem mais uma vez estabelecer uma frente única com as massas operárias socialistas”.

Dimitrov desmonta também o próprio processo, apontando a incoerência da acusação e a manobra malévola de apontarem como responsável pelo incêndio o comunista holandês de base, há pouco chegado na Alemanha, desempregado, Van der Lubbe. (…)

Obrigados a libertar os acusados, com exceção de Van der Lubbe, os nazistas libertaram igualmente, por pressão da URSS, Dimitrov, que se dirigiu a Moscou. Em 1935, foi eleito Secretário-Geral da Internacional Comunista, em cuja posição permaneceu até a sua dissolução em 1943. Os informes de Dimitrov continuarão modelos de clara análise leninista. Os objetivos que ele propunha ao Partido Comunista e à classe operária da França, no Congresso de 1935, a 2 de agosto, continuam ainda sensivelmente iguais aos que objetivamos:

“Obter a efetivação da frente única não somente no domínio político, mas também no domínio econômico para organizar a luta contra a ofensiva do capital, quebrar, com seu entusiasmo, a resistência oposta à frente única pelos chefes reformistas”.

Em 1920, atravessando a Europa inteira, Dimitrov penetrou finalmente na URSS. No dia seguinte, era introduzido ao escritório de Lênin.

O responsável pelo proletariado búlgaro sentia seu coração bater apressadamente. Noites inteiras ele examinou frase por frase dos escritos desse homem cujos olhos estreitos e cuja fronte imensa pareciam dissecá-lo, penetrar nele. Não houve grandes frases: Fale-me da Bulgária, pediu Vladimir Ilitch.

Dimitrov fez uma exposição veemente e completa: a miséria, as lutas, a união, a força do proletariado búlgaro, parecia-lhe que nada poderia vencer o entusiasmo dos operários, sem a revolução…

“Eu o aconselho a não se deixar arrastar”, disse Lênin lentamente com sua voz sem ênfase.

E se pôs a falar da Bulgária. Dimitrov via se desfazerem suas ilusões, via surgirem as lacunas que ele havia dissimulado; tinha superestimado as vitórias de seu povo, subestimado as forças da reação. A união com o campesinato não estava feita, os campos não seguiam as reivindicações das cidades e os operários na Bulgária constituíam ainda uma parte muito fraca da população.

“A situação pode ainda se agravar”, concluiu Vladimir Ilitch. Depois conduziu seu hóspede, há tanto tempo aguardado, ao Congresso dos Sindicatos Soviéticos. Uma ovação os recebeu.

———————————————————–

Décadas depois desses acontecimentos, suas lições permanecem, alertando e orientando os povos frequentemente ameaçados por forças fascistas recorrentes.

Durante a ditadura militar implantada em 1964 no Brasil, particularmente depois de 1968, quando ela lançou mão do AI-5, brutalizando o tratamento a seus opositores, com torturas, assassinatos e prisões indiscriminadas, forças resistentes, como o PC do B, indicavam a seus membros e aliados, como a Ação Popular, AP, a leitura do livro “O incêndio do Reichstag”, para se armarem da ideia de que, no enfrentamento da ditadura, eventualmente em tribunais de exceção, a melhor defesa é o ataque, sob a forma de denúncia política.

Ainda agora, quando grupos fascistizantes, ligados a Jair Bolsonaro, fazem repetidas ameaças de fechar o Congresso e o Supremo Tribunal Federal, os democratas de uma maneira geral e os comunistas em particular não devem diminuir a importância dos grandes fatos históricos e não podem perder de vista que a consolidação do poder absoluto de Hitler na Alemanha, nos anos 1930, veio após um incêndio criminoso do Parlamento alemão.

* Este artigo contou com as observações críticas de dois dirigentes comunistas — Haroldo Lima e Luciano Siqueira — aos quais agradeço profundamente.

Referências bibliográficas

Fundação Mauricio Grabois – Departamento de Documentação e Memória

Fundação Dinarco Reis – Fundação de Estudos Políticos , Econômicos e Sociais

The Diary of Gergi Dimitrov 1933—1949, Edited by Ivo Banac, Yale University Press


Autor

Pedro Oliveira
Jornalista e membro da diretoria da Fundação Maurício Grabois e do Comitê Estadual do PCdoB de Pernambuco.


O Coletivizando reproduz a seguir, trecho das obras escolhidas de Dimitrov, volume I, em que o dirigente operário alemão enfrenta no Tribunal Alemão os Ministros Goring e Goebbels, vale a pena:

 















sábado, 5 de novembro de 2016

Dimitrov - o arquiteto da frente popular - Augusto Buonicore

Artigo publicado no Portal Vermelho em 13 de outubro de 2004, retirado do Blog do Carlos Maia - http://blogdocarlosmaia.blogspot.com.br/2015/07/dimitrov-o-arquiteto-da-frente-popular.html?m=1

"A roda da história não pára (...) Essa roda, posta em movimento pelo proletariado, não poderá ser paralisada pelos extermínios, pelos assassinatos, nem pelas condenações capitais. Ela se move e se moverá até a vitória final do comunismo" Dimitrov

A defesa acusa

O tribunal estava lotado, composto, em sua grande maioria, por adeptos da cruz gamada, as legiões pardas e negras das SA e SS nazistas. Lentamente levantou-se o acusado, um homem magro, pálido, trazendo nas mãos e nas pernas as marcas das pesadas correntes que fora obrigado a carregar por cinco longos meses. Ali estava o dirigente da Internacional Comunista, o operário revolucionário búlgaro Jorge Dimitrov. Um homem aparentemente solitário. No entanto sobre ele estavam depositadas as esperanças de milhões de outros homens e mulheres que nas fábricas, nas escolas e nos bairros operários lutavam para barrar a onda nazi-fascista que se espalhava rapidamente pelo mundo.

O acusado recusou o defensor nomeado pelo Estado e preferiu realizar a sua própria defesa. No primeiro dia do seu julgamento diante da pergunta do juiz: "Por que razão o senhor imagina ter sido trazido até aqui?", ele respondeu sem pestanejar: "Para defender o comunismo e defender-me!". Estava decidido em transformar o banco dos réus em uma tribuna da qual pudesse lançar suas acusações contra os criminosos nazistas. Por sua postura altiva diante dos acusadores seria censurado pelo juiz e expulso por cinco vezes do Tribunal.

Diante da infundada acusação de ser ele um perigoso TERRORISTA, responsável pelo incêndio do Reichstag — o parlamento alemão —, Dimitrov afirmou: "sou um revolucionário socialista por convicção (...) Sou membro do Comitê Central do Partido Comunista Búlgaro e do Comitê Executivo da Internacional Comunista (...) Esta é a razão por que não posso ser considerado um simples aventureiro terrorista".

Durante o seu tumultuado julgamento duas das principais figuras do novo governo nazista vieram ao Tribunal para acusá-lo: Hermann Göring — ministro do interior e presidente do Reichstag; e Goebbels — ministro da Propaganda.

No seu depoimento Göring falou durante horas a fio. Esbravejou contra a conspiração judaico-bolchevista. Conclamou a destruição do comunismo, considerando-o uma "doutrina criminosa". A intervenção do ministro de Hitler não deixou dúvida de que se tratava de um processo inquisicional contra o movimento comunista em geral. Usando a prerrogativa que lhe cabia Dimitrov levantou-se e dirigiu-se ao superministro de Hitler e questionou-o: "Sabe o senhor ministro que o partido que se inspira nessa doutrina criminosa governa triunfalmente uma sexta parte do mundo? Sabe o senhor ministro que a Alemanha mantém relação comercial com este país e que por meio de suas encomendas a União Soviética proporciona trabalho e pão para centenas de milhares de operários alemães?". Göring perdeu completamente a compostura, ficou transtornado e ofegante. Calmamente Dimitrov encerrou o assunto.

Diante da acusação de fazer propaganda comunista no tribunal ele, ironicamente, afirmou: "Em se falando de propaganda, temos de reconhecer que muitas das intervenções feitas neste tribunal tem tido este caráter. Também as intervenções de Goebbels e de Göring exerceram uma ação indireta de propaganda a favor do comunismo, porém não podemos fazê-lo responsável por isso".

No dia 23 de dezembro de 1933 o Tribunal de Leipzig foi obrigado a inocentar os acusados por falta de provas. Dimitrov não aceitou passivamente o resultado, exigiu ser considerado oficialmente inocente, que os nazistas fossem acusados formalmente pelo incêndio ao Reichstag e, por fim, que os detidos fossem indenizados pelos meses de prisão, pelas privações e tormentos que sofreram. Diante da recusa do presidente do tribunal em aceitar os seus pedidos, Dimitrov afirmou: "Chegará o dia em que meus pedidos se cumprirão e em que um tribunal popular julgará os verdadeiros incendiários do Reichstag". O juiz-presidente enfurecido mandou tirá-lo da sala do tribunal. No entanto, antes que os guardas cumprissem a ordem, ele lançou a sua própria sentença: "A roda da história não pára (...) Essa roda, posta em movimento pelo proletariado, não poderá ser paralisada pelos extermínios, pelos assassinatos, nem pelas condenações capitais. Ela se move e se moverá até a vitória final do comunismo". Essas foram as suas últimas palavras no julgamento de Leipzig. Dimitrov saiu-se vencedor.

No entanto, mesmo depois de inocentados, permaneceram presos por quase dois meses. Por fim, a URSS concedeu asilo aos revolucionários búlgaros e ofereceu-lhes a cidadania soviética. Dimitrov e seus companheiros de infortúnio foram recebidos como heróis pelo povo.

Um filho da classe operária Búlgara

Dimitrov nasceu na Bulgária em 18 de junho de 1882. Filho de operário, com apenas doze anos começou a trabalhar como aprendiz de tipógrafo e aos quinze já era um profissional. O jovem operário lia tudo o que lhe caía nas mãos e amava a sua profissão. Um dia afirmou: "Nosso ofício é o mais belo de todos, nós fabricamos livros".

Tornou-se, acima de tudo, um defensor intransigente de sua classe e por isso mesmo foi eleito diretor do sindicato. Tinha apenas 18 anos. Quatro anos depois, em 1904, participou da fundação da União Geral dos Sindicatos Operários da Bulgária da qual se tornou um dos principais dirigentes. O jovem líder sindical revolucionário ajudou a dirigir as mais importantes greves do proletariado de seu país.

Aos vinte anos Dimitrov ingressou no Partido Operário Social-Democrata Búlgaro, passando a atuar na sua ala esquerda. A exemplo do que ocorria na Rússia, o partido búlgaro se dividiu em duas correntes — uma reformista e outra revolucionária. A ruptura definitiva entre estas duas tendências ocorreu em 1903 e, em 1909, foi eleito para o Comitê Central desta nova organização.

Em 1913, Dimitrov elegeu-se deputado pela esquerda socialista. No ano seguinte eclodiu a Primeira Guerra Mundial e ele passou a COMBATER a guerra imperialista e a lutar pela neutralidade de seu país. As classes dominantes estavam por demais dependentes da burguesia alemã e acabaram levando a Bulgária a entrar no conflito ao lado do imperialismo alemão. Dimitrov, do alto da tribuna parlamentar, protestou e por isso foi condenado à prisão onde permaneceu por cerca de 11 meses. Eclodiram diversas manifestações em defesa dos presos políticos e o governo foi obrigado a libertá-los.

Mal saiu da prisão compareceu a um comício organizado pelos mineiros de Pernik e novamente discursou contra a guerra imperialista e por isso foi preso e em seguida libertado pelo povo quando desembarcou em Sofia. As prisões se sucederiam. A Revolução Russa de outubro de 1917 teve enorme influência sobre Dimitrov. Em 1919 foi fundado o Partido Comunista da Bulgária e ele foi enviado para a URSS onde manteve contato com o principal dirigente do Estado Soviético, Vladimir Lênin.

Em 1923 o ministério encabeçado pelo Partido Agrário — democrático — foi derrubado e substituído por uma coligação monárquico-reacionária. Concretizou-se um golpe de Estado fascista. Em setembro, diante da ofensiva conservadora, os comunistas em aliança com os agrários tentaram derrubar o governo através da luta armada. A insurreição foi derrotada e parte dos combatentes foi obrigada a se refugiar na vizinha Iugoslávia e depois a seguir para o exílio. Dimitrov foi condenado à morte em dois processos realizados sem a sua presença. No exílio passou a atuar junto ao Comitê Executivo da internacional Comunista em Moscou e Berlim.

Em janeiro de 1933 os nazistas tomaram o poder na Alemanha e um mês depois ocorreu o incêndio criminoso ao Reichstag. Este incidente foi amplamente utilizado pelos nazistas para ampliar a sua ofensiva contra os comunistas e social-democratas e impor definitivamente a sua ditadura TERRORISTA. Deste crime foram acusados, além do holandês Van der Lubbe, comprovadamente insano — e verdadeiro autor do incêndio —; um deputado comunista, Torgler; e três comunistas búlgaros, entre eles Dimitrov. Estava assim armada a farsa.

Os nazistas montaram um circo para se mostrarem ao mundo como os melhores e mais eficientes defensores da civilização ocidental, cristã e capitalista, contra as hordas comunistas. O tiro acabou saindo pela culatra. Após sua libertação, Dimitrov partiu para a URSS, onde se naturalizou como cidadão soviético e em 1937 foi eleito deputado do Conselho Supremo da União Soviética.

Dimitrov e a frente popular

Em 1935, Dimitrov foi destacado para apresentar o principal informe do VII Congresso da Internacional Comunista e acabou sendo eleito secretário-geral do Comitê Executivo da organização, cargo que manteve até a sua extinção em 1943.

Neste informe histórico Dimitrov enunciou a estratégia e a tática de luta contra o fascismo e a guerra imperialista que se aproximava. Ele representou uma "viragem" na política da Internacional Comunista e refletiu as mudanças na correlação de forças internacional com o avanço do nazi-fascismo. Nascia, assim, a política de frentes populares. O Congresso colocou no centro da ação do movimento comunista a luta contra o fascismo, especialmente o alemão.

O fascismo alemão, segundo o Informe, atuava como "tropa de choque da contra-revolução internacional, como incendiário principal da guerra imperialista, como instigador da cruzada contra a União Soviética". O documento desvendou também o caráter de classe do fascismo. Ele seria "a ditadura TERRORISTAaberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro".

Dimitrov combateu duramente o esquematismo das análises esquerdistas que não viam as diferenças existentes entre os regimes nazi-fascistas e os regimes democráticos burgueses, mesmo que autoritários. "A subida do fascismo ao poder, afirma ele, não é uma simples mudança de um governo burguês por outro, mas sim, a substituição de uma forma estatal de dominação de classe da burguesia — a democracia burguesa — por outra das suas formas, a ditadura terrorista declarada. Ignorar essa diferença seria um grave erro, que impediria o proletariado revolucionário de mobilizar as mais amplas camadas de trabalhadores da cidade e do campo para luta contra a ameaça de tomada do poder pelos fascistas, assim como também tirar proveito das condições existentes no seio da própria burguesia".

Dimitrov tirou importantes lições da derrota do movimento operário e socialista na Alemanha e Itália. "O fascismo chegou ao poder, antes de mais nada, porque a classe operária (...) achava-se dividida, desarmada política e organicamente". Portanto uma das condições para barrar o fascismo era a constituição da unidade da classe operária, ou seja, a construção da Frente Única proletária. Era preciso unificar o movimento sindical cindido entre social-democratas, comunistas, anarquistas e católicos. Esta era uma condição básica para a vitória sobre o fascismo e a guerra imperialista.

A Frente Única proletária deveria ser a base sobre a qual se erigiria "uma extensa frente popular antifascista". O êxito da luta contra o fascismo estava "intimamente ligado à criação da aliança do proletariado com o campesinato trabalhador e com as massas mais importantes da pequena burguesia urbana, que formam a maiorias da população."

Neste sentido os comunistas não deveriam colocar "nenhum tipo de condição para a unidade de ação com exceção de uma condição elementar, aceitável por todos os operários, ou seja, que a unidade de ação seja encaminhada contra o fascismo, contra a ofensiva do capital, contra a ameaça de guerra". No entanto, alerta Dimitrov, "neste trabalho de construção da Frente Única os comunistas não podem (...) renunciar, nem por um minuto, ao seu trabalho próprio e independente de educação comunista".

Naquela conjuntura as reivindicações democráticas adquiriram centralidade na estratégia comunista. "Nós somos partidários da democracia soviética, da democracia dos trabalhadores, a democracia mais conseqüente do mundo. Mas, defendemos e seguiremos defendendo, nos países capitalistas, palmo a palmo, as liberdades democrático-burguesas contra as quais atentam o fascismo e a reação burguesa, pois assim o exigem os interesses da luta de classe do proletariado". Esta mudança na política dos comunistas leva-os a apoiar e, até mesmo, participar de governos frentistas, não socialistas, que lutassem contra o perigo fascista "de modo efetivo não só em palavras, mas com fatos".

O documento de Dimitrov recolocou também, com força, a necessidade de se dedicar mais atenção ao chamado problema nacional. Era preciso tirar das mãos dos fascistas as bandeiras relativas a defesa da cultura e da identidade nacional. "Os comunistas que (...) não fazem nada (...) para esclarecer ante as massas trabalhadoras o passado do seu próprio povo (...) para ligar a luta atual com as tradições revolucionárias do passado, entregam voluntariamente aos falsificadores fascistas tudo o que há de valiosos no passado histórico da nação (...) Nós somos, em princípio, inimigos irreconciliáveis do nacionalismo burguês (...) Mas, quem pensa que isto nos permite, e inclusive nos obriga a cuspir na cara de todos os sentimentos nacionais das amplas massas dos trabalhadores, está muito longe do bolchevismo (...) Camaradas, o internacionalismo proletário deve 'aclimatar-se' (...) e em cada país e lançar raízes profundas no solo natal".

O Informe de Dimitrov teve uma poderosa influência na elaboração tática e estratégia de todo movimento comunista posterior a 1935. Por isso se transformou numa obra de consulta obrigatória para todos os militantes revolucionários.

O construtor da República Popular da Bulgária

Em 1939 eclodiu a Segunda Guerra Mundial e em 1941 as tropas nazistas invadiram o território soviético. A guerra contra a besta nazi-fascista adquiriu assim uma dramaticidade toda própria. A existência do primeiro Estado socialista estava em jogo e com ele o destino do movimento emancipacionista dos trabalhadores e dos povos coloniais.

A partir de 1941 o Partido Comunista da Bulgária adotou a linha da insurreição armada conta o governo fascista pró-alemão. Em 1942 foi formada a Frente da Pátria Búlgara, que seria o centro político aglutinador das forças revolucionárias antifascistas que poriam fim à dominação alemã na Bulgária em setembro de 1944. Dimitrov teve um papel de destaque nesta Frente e na derrota do fascismo nos Bálcãs. Por suas contribuições à causa de libertação dos povos o Soviete Supremo da URSS lhe concedeu a mais alta condecoração do país: a Ordem de Lênin. Em 6 de novembro de 1945 regressou triunfalmente a seu país libertado e foi eleito primeiro ministro da recém fundada República Popular da Bulgária.

Serão ainda necessários três longos anos para que fossem estabelecidas as bases que permitiriam a transição búlgara ao socialismo. Este seria um período rico de debates sobre as formas possíveis de transição ao socialismo — um debate que acabou sendo estancado com o desenvolvimento da guerra fria e o endurecimento do regime soviético. Num discurso realizado em 1946, na Conferência Regional do Partido em Sófia, Dimitrov chegou a afirmar: "Todos os povos passarão ao socialismo, não por um via idêntica, esteriotipada, não precisamente pela via soviética, mas pela sua própria via, de acordo com as suas condições históricas, nacionais, sociais, culturais e outras".

Em 2 de julho de 1949 o velho comunista, já bastante doente, morreria em território soviético, onde estava realizando tratamento de saúde. O proletariado do mundo perderia neste dia um dos seus maiores heróis e o marxismo-leninismo um dos seus grandes expoentes.

Augusto C. Buonicore é Historiador, membro do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil, Secretário Geral da Fundação Maurício Grabois e responsável pelo Centro de Documentação e Memória (CDM)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Os fundamentos do golpismo da mídia brasileira - Osvaldo Bertolino - www.grabois.org.br

aaaaaaaapig
Osvaldo Bertolino, no Grabois.org.br
O vendaval anticomunista que varre o país nestes dias trouxe à tona novamente um velho dilema brasileiro. A multiplicidade que caracteriza a nação implica em conviver com elementos que são verdadeiros entraves ao progresso, ao mesmo tempo em que estimulam a procura de caminhos flexíveis para o desenvolvimento com justiça social. A ampliação da democracia nas administrações do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva mostrou com mais nitidez a existência de vários “países”, superpostos ou enfileirados, que trazem consigo as mais variadas formas de consciência e comportamento políticos. 
Essa característica brasileira parece não existir para aqueles setores que se dedicam a criar e vender falsas imagens de ordem, progresso e moralidade. A pregação monolítica desses extratos sociais pretende, à força da repetição, condicionar atitudes, formar hábitos e conter os anseios populares em limites por eles estabelecidos. Uma complexa engrenagem publicitária se encarrega de fazer campanhas dessa natureza, mostrando um país com ares de gente rica, que compra mais carros e mais eletrodomésticos, que viaja mais, que festeja mais, graças a suas doutrinas e aos seus mandamentos.
Comunistas e os filo-comunistas
Os métodos desses arautos da mentira, que vivem de jogadas financeiras e de notórias negociatas, nada ficam a dever ao nazi-fascismo. Tenho sempre presente na memória esse fato porque as fórmulas da direita invariavelmente recorrem a tais práticas. Para documentar-me, procuro estudar o que foi aquela experiência, tão bem retratada em obras como Diário — últimas anotações, 1945, de Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Adolf Hitler; Ascensão e queda do Terceiro Reich, de William Shirer; e Por Dentro do Terceiro Reich, de Albert Speer. Nelas é fácil verificar, em inúmeras passagens, como se produzem ondas de mentiras ou de meias-verdades.
Hitler e Goebbels puseram a culpa dos seus atos de loucura nos “judeus internacionais” e nos “comunistas”. Os porta-vozes do conservadorismo brasileiro repetem monotonamente que os comunistas e os filo-comunistas são os culpados por não termos um país sustentado em bases morais ditadas por eles. Trata-se, sabemos muito bem, de espetacular hipocrisia. O que eles não toleram mesmo é a luta por uma vida melhor, mais justa e mais digna para o povo. Isso fica evidente nos ataques à vida política brasileira. Não se conhece outra forma para fazer o país avançar sem a ampliação da democracia, com partidos organizados e representativos, com vida regular das instituições e com amplo direito à informação.
O sistema partidário brasileiro, desde a política regional das oligarquias, tem sido caracterizado por organizações político-eleitorais de representação, predominantemente, das classes dominantes. Em poucos interregnos sobressaíram, como forças dominantes, partidos de raízes populares. As arenas decisórias sempre ofereceram alternativas que não ameaçavam o satus quo. Nas poucas ocasiões em que as forças progressistas se apresentaram com condições reais de assumir as rédeas do processo histórico brasileiro, essas representações dominantes reagiram com violência. Foi assim em 1937, com o golpe do Estado Novo após a insurreição de 1935; foi assim na década de 1940 com a densidade eleitoral do Partido Comunista do Brasil (então PCB); foi assim com a efervescência das massas no início da década de 1960; está sendo assim agora.
Atitude de Juscelino Kubitschek
Em poucos meses de governo da presidenta Dilma Rousseff a direita já acumulou um farto material que será usado nas campanhas eleitorais de 2012, cujos resultados serão decisivos para a sucessão presidencial de 2014. Essa condensação tem como fio condutor, que perpassa e une essas etapas golpistas, o que a etimologia define como mass media, “meios (de comunicação) de massas”, instrumento mediador, elemento intermédio. Ou por outra: aquilo que medeia uma ideologia. No Brasil, essa ideologia, que já foi chamada de “pensamento único”, expressa o propósito político e os usos e costumes dos conservadores — a elite brasileira.
Conferir credibilidade ao seu projeto equivale a fundar, hoje, um partido a favor do colonialismo. A ideologia conservadora guerreia com o Brasil em transformação pelo menos desde o início da década de 1940 do século XX, quando as forças populares começaram a deixar de ser marginais para tornarem-se capazes de influir no grande jogo político do país. Um exemplo disso foi a atitude de Juscelino Kubitschek que, por conta do sentimento patriótico entre o povo desenvolvido pelos setores progressistas da sociedade, em sua campanha eleitoral para a Presidência da República foi forçado a reformular a sua proposta de governo sobre o petróleo, conforme ele mesmo disse.
Por não expressar os anseios do povo, as organizações partidárias da ideologia conservadora sempre foram efêmeras, no mais das vezes formadas para disputar eleições. O que tem dado sustentação ao seu programa de governo, desde tempos remotos, é exatamente a mídia. Em torno dela se organizam movimentos que, por não ter nada a oferecer ao povo em termos de futuro, apelam para a hipocrisia, para as campanhas difamatórias, para os falsos moralismos. Numa palavra: para o golpismo. Nessa trajetória golpista, há uma data determinada para se ter uma referência da mídia que existe hoje no Brasil — 1º de abril de 1964, quando os conservadores consolidaram o golpe que tentavam há muito tempo.
Jornalismo americano
Os golpistas promoveram substanciais reformas legislativas com a outorga dos Atos Institucionais (AIs) que submeteram a mídia ao completo domínio da ideologia conservadora. O AI-2, de 27 de outubro de 1965, dizia que não seria “tolerada propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de raça e de classes”. Para o regime, “subversão”, conceito não definido na legislação, era tudo aquilo que as forças progressistas defendiam. A Constituição de 1967 consolidou todos os atos discricionários anteriormente preparados. O AI-5, de 13 de dezembro de 1968, reforçou ainda mais o controle do regime sobre a liberdade de expressão.
A mídia tratou de se adequar rapidamente ao novo sistema. Nelson Werneck Sodré, em sua obra História da imprensa no Brasil, publicada em 1966, insinua — possivelmente para fugir da censura e da repressão — que o jornalismo conservador se integrou facilmente às novas regras. “O desenvolvimento da imprensa no Brasil foi condicionado, como não podia deixar de ser, ao desenvolvimento do país. Há, entretanto, algo de universal, que pode aparecer mesmo em áreas diferentes daquelas em que surgem por força de condições originais: técnicas de imprensa, por exemplo, no que diz respeito à forma de divulgar, ligadas à apresentação da notícia”, escreveu.
Segundo ele, o jornalismo americano criou o lead, cujos princípios se fundaram na regra dos cinco W e um H; qualquer foca americano sabe que a notícia deve conter, obrigatoriamente, os seguintes elementos: Who, que; When, quando; Where, onde; Why, por quê; e How, como. “Qualquer jornalista sabe, por outro lado, estabelecer a distinção entre o que é a notícia e o que não interessa, dentro daquela malícia de Charles Dana que, para ensinar a alguém essa diferença elementar, contou: ‘Se um homem vai andando pela rua e um cão o morde, isso não é notícia, a não ser que esse homem tenha projeção política, social, financeira, notoriedade por qualquer motivo; mas se um homem morde um cão, isso é notícia’”, afirmou.
Orientação empresarial
Sempre se referindo ao jornalismo americano, Nelson Werneck Sodré escreveu que o “foca” (jornalista principiante), utilizando aplicadamente a técnica do lead, “transforma qualquer sinal de um problema social constante em fatos isolados que se repetem diariamente e cujas raízes reais ficam apagadas sob os detalhes específicos de cada história”. É o que se vê na mídia, um veículo repetindo o outro, todos divulgando as mesmas coisas, com a mesma conotação. A criminalidade, os efeitos da pobreza, a corrupção, os problemas ambientais e o que mais for de relevância para a sociedade se perdem entre doses diárias maciças de propaganda ideológica conservadora.
A informação fragmentada, sem mostrar a relação de um acontecimento e sua causa, na verdade é uma técnica de encobrir os interesses e as relações econômicas dos grupos monopolistas que controlam a mídia na estrutura da sociedade de classes. O golpe de 1964 moldou essa configuração de maneira mais sólida, mas ela vinha sendo ensaiada desde quando o movimento nacionalista no Brasil começou a ganhar projeção com o objetivo de combatê-lo. Em 1948, chegou ao país a Seleções do Reader’s Digest, uma publicação de matérias selecionadas em diversos veículos mundiais. Em 1950, foi a vez do grupo Vision Inc criar a revista Visão e várias publicações corporativas.
No golpe, segundo René Armand Dreifuss no livro A conquista do Estado — ação política, poder e golpe de classe, os clãs midiáticos eram o centro do que ele definiu como ''elite orgânica'', de “orientação empresarial”, que atuou intensamente na desestabilização do regime democrático pré-1964 para pôr no lugar a ''ordem empresarial'' após o ''golpe de classe''. O exemplo mais evidente é o da TV Globo, conforme relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) criada na época para apurar o papel do grupo Time-Life na criação da rede de televisão.
Intermediação de Victor Civita
O caso foi resumido pelo jornalista Genival Rabelo, em artigo publicado na Tribuna de Imprensa, em 1966, com o título “O exemplo americano de ‘liberdade’ de imprensa", onde se lê:
“As investigações sobre a invasão ianque na imprensa brasileira, ou melhor, sobre o complexo processo de alienação da consciência brasileira, no sentido de nos levar a admitir que a ‘solução está nos Estados Unidos’, chegarão, forçosamente, às seguintes conclusões:
1 -  A Constituição foi brutalmente burlada desde que Seleções obteve permissão para ser impressa em português no Brasil, acelerando, desde então, o processo de manipulação da opinião pública com objetivos políticos-ideológicos.
2 – Depois de dominar praticamente o setor de revistas, os americanos voltam suas vistas para os jornais, estações de rádio e televisão.
3 – A TV Globo, inequivocamente, foi financiada pelo grupo Time-Life.
4 – A discriminação publicitária, exercida por agências americanas (J. W. Thompson, McCann-Erickson, Grant Adversiting, International Adversit-ing Service, Multi Propaganda etc.), compromete a grande imprensa brasileira, quase toda ela constituída de jornais que baseiam suas receitas em mais de 80% de publicidade.”
A trama para a criação da TV Globo foi intermediada por Victor Civita, da Editora Abril. Ele quase foi convencido a criar a TV pretendida pelo grupo Time-Life, mas o temor de ser flagrado em delito por ser estrangeiro e possuir um grupo de comunicação — um impedimento legal, e por isso ele vivia no anonimato — o fez transferir o negócio para o amigo Roberto Marinho. Pelo acordo, a Globo comprou equipamentos a uma taxa de dólar um terço mais baixa do que o valor de mercado em vigor. O grupo Time-Life daria assessoria técnica à emissora.
Escândalo instaurado
De acordo com o contrato principal, o grupo norte-americano obteria parte dos lucros líquidos da Globo — ou seja, um ato ilegal, já que não podia haver participação estrangeira nos lucros de empresas brasileiras de comunicação. No contrato de assistência técnica constava a “obrigação” de o grupo Time-Life “colaborar” na elaboração do conteúdo da programação e noticiários — mais uma prática proibida.
Era uma violação do código brasileiro de telecomunicações da época. O acordo sequer foi apreciado pelo Conselho Nacional de Telecomunicações (Contel). Apenas dois anos após a assinatura dos contratos a Globo enviou um deles — o de assistência técnica — para a Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc) — hoje com o nome de Banco Central (BC). Mesmo assim, os documentos não puderam ser lidos porque continham muitas rasuras. O contrato sem rasuras só seria entregue, por ordem do Contel, em julho de 1965.
Novamente para burlar as leis, a Globo, com o escândalo instaurado, trocou o contrato principal por um de arrendamento de um terreno onde se localizava a sede da televisão. Pelo contrato, a Globo seria locatária de um prédio vendido ao grupo Time Life. O problema é que o documento foi feito antes da venda do local aos norte-americanos. A Globo alugou um prédio que era seu. Em troca do uso, a televisão se comprometeu a pagar 45% do lucro líquido da empresa pelo aluguel. Somado aos 5% do lucro liquido, destinado à assessoria técnica, o grupo norte-americano detinha 50% da Globo.
Condenação por unanimidade
Para impedir qualquer tipo de fiscalização, alguns documentos da transação desapareceram. Depois de muita insistência do Contel, a Câmara dos Deputados, contrariando os golpistas, decidiu instaurar a CPI para investigar o caso. O assunto ganhou dimensão de escândalo público.
Em 22 de agosto de 1966, a CPI divulgou a condenação, por unanimidade, da Globo. ''Os contratos firmados entre a TV Globo e o grupoTime-Life ferem o Artigo 160 da Constituição, porque uma empresa estrangeira não pode participar da orientação intelectual e administrativa de sociedade concessionária de canal de televisão; por isso, sugere-se ao Poder Executivo aplicar à empresa faltosa a punição legal pela infrigência daquele dispositivo constitucional'', dizia o parecer do relator, deputado Djalma Marinho, que pertencia à Arena, o partido que sustentava a ditadura.
O primeiro presidente do ciclo golpista, Humberto Castelo Branco, pedira que o caso fosse investigado. Mas seu sucessor, Artur da Costa e Silva, decidiu não acatar a decisão da CPI e apoiar oficialmente a Globo. Em 1969, o grupo Time-Life desistiu dos contratos. A emissora de televisão da família Marinho, no entanto, já era um poderoso meio de comunicação — posição conquistada por meio de linhas de créditos abertas pela então estatal Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel). “Sinto-me feliz todas as noites quando assisto ao noticiário, porque na Globo o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz”, disse o terceiro general no poder, Emílio Garrastazu Médici.
Devidamente recompensados
Outras negociatas favoreceram os grupos que hoje dominam a mídia — como O Estado de S. Paulo, a Folha de S. Paulo, a Editora Abril, que também deram amplo respaldo ao regime de 1964 e foram devidamente recompensados pelos golpistas. O rompimento de Júlio de Mesquita Filho, do grupo O Estado de S. Paulo, com a ditadura, por exemplo, começou quando Castelo Branco não contemplou todos os seus interesses na formação do ministério. Quem conta a história é ninguém menos do que Armando Falcão, homem das entranhas do regime, no livro Tudo a declarar. O grupo de Júlio Mesquita Filho continuou apoiando o regime, mas a relação com o governo começou a se deteriorar, explica Armando Falcão.
No dia 1º de abril de 1964, O Estado de S. Paulo saudou o golpe com um editorial intitulado “São Paulo repete 32” — uma alusão à chamada “revolução constitucionalista”, da qual o principal líder civil era o então dono do jornal, Júlio de Mesquita Filho, para quem “o império da lei e da justiça” só poderia ser restabelecido no dia em que São Paulo voltasse “à sua condição de líder insubstituível da nação''. Era o pensamento da direita brasileira, insatisfeita com a Revoluçãode de 1930 liderada por Getúlio Vargas, já manifestado por Hipólito da Costa em 1808 quando surgiu o primeiro jornal brasileiro, o Correio Brasiliense — mesmo ano da criação da imprensa no Brasil. “Ninguém deseja mais do que nós as reformas úteis, mas ninguém se aborrece mais do que nós que essas reformas sejam feitas pelo povo”, disse ele.
Quando se aproximava o período mais duro da ditadura, em 11 de junho de 1968, O Estado de S. Paulo defendeu, em editorial, a censura a peças teatrais. "Foi uma oportuna manifestação a que se registrou recentemente na Assembléia Legislativa, pela palavra do deputado Aurélio Campos, sobre os excessos que se tem verificado em representações teatrais no terreno do desrespeito aos mais comezinhos preceitos morais. O mundo teatral — tanto os atores e atrizes como os autores — vêm movendo uma campanha sistemática contra a censura, e como esta nem sempre é exercida por autoridades à altura de tão graves e, às vezes, tão delicadas questões, a tendência de muitos é cerrar fileiras entre os que combatem”, disse o jornal.
Cooptação de jornalistas
O alinhamento da mídia com os métodos daquele governo da ideologia conservadora também se deu com a formação de jornalistas no plano organizado pelo então diretor do Departamento de Projetos Sociais do Instituto Americano para o Desenvolvimento do Sindicalismo Livre — “American Institute for Free Labor Development” (AIFLD) —, William Doherty Jr., um célebre agente da Central Intelligence Agency (CIA). Ele foi diretor do AIFLD durante 30 dos 34 anos de existência daquela organização. Depois foi embaixador dos Estados Unidos na Guiana e ativo membro do fascista “Centro Por Uma Cuba Livre”.
O AIFLD surgiu no governo do presidente John Fitzgerald Kennedy por meio da Direção de Planificação da CIA para cercar a influência da revolução cubana na América Latina. Segundo o seu então presidente, George Meany, era “dever dos Estados Unidos contribuir para o desenvolvimento dos sindicatos livres na América Latina”. Foram ministrados cursos para 243.668 sindicalistas latino-americanos — muitos deles, jornalistas. Alguns receberam “capacitação especial” no “instituto de formação”, o Front Royal School, no Estado da Virginia.
A especialidade era, além da formação sindical, o comércio exterior norte-americano e a propaganda anticomunista. Um de seus braços era a Federação Interamericana de Organizações de Periodistas Profissionais (FIOPP). Seu secretário, o jornalista argentino Artur Scthirbu, esteve no Brasil por cerca de dois anos para cooptar o movimento sindical jornalístico brasileiro. A própria história da FIOPP explica a sua finalidade.
Interesses da categoria
Em 1959, o American Newspaper Guild, que é um sindicato de jornalistas dos Estados Unidos, e uma intitulada União de Jornalistas Livres, formada por exilados dos países do Leste Europeu, dirigiram um apelo a todo o continente americano para que os profissionais da imprensa participassem de uma reunião no Panamá, em 1960, quando seria criada uma entidade interamericana de organizações jornalísticas profissionais. Era uma resposta à tentativa de criação de uma federação latino-americana de jornalistas profissionais, com uma evidente linha de defesa dos interesses da categoria e de viés progressista.
As entranhas da FIOPP foram expostas quando uma vasta rede de corrupção mantida pela CIA foi desmontada, revelando como a organização — além da Federação Internacional de Jornalistas (FIJ), sediada em Bruxelas —, era financiada. No Brasil, a Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais denunciou a FIOPP quando uma “junta governativa” foi nomeada pela ditadura no lugar da direção eleita no X Congresso Nacional de Jornalistas, realizado em setembro de 1963. “Os mesmos grupos que em 1961 haviam sido derrotados (...), e que em 1963 não haviam logrado sequer compor uma chapa concorrente às eleições, alcançaram finalmente (...) o domínio da Federação”, dizia uma mensagem da diretoria destituída.
Sindicalismo jornalístico
Segundo o documento da Federação, a diretoria conhecia bem os planos dos agentes da FIOPP. Emissários do grupo teriam viajado pelo Brasil, “numa campanha de arregimentação sem precedentes”, financiados com recursos estrangeiros — conforme denunciou o jornalCorreio da Manhã. “Os jornalistas e os demais trabalhadores reconquistarão as organizações sindicais para nelas trabalhar na defesa dos seus interesses que se confundem com os interesses do Brasil independente, democrático, soberano, progressista e fraternal”, finalizava a mensagem.
A ''junta governativa'' logo filiaria a Federação à FIOPP. Para valorizar a decisão, o III Congresso da organização interamericana foi realizado no Rio de Janeiro em novembro de 1964. Uma mensagem do presidente dos Estados Unidos, Lyndon Johnson, registrou a sua satisfação por “ver profissionais da imprensa empenhados na campanha por melhores meios de desenvolver a cooperação interamericana”. Terminado o evento, a diretoria nomeada da Federação começou a aplicar as diretrizes da FIOPP. Quem se der ao trabalho de ler a coleção do boletim da entidade da época verá claramente os esforços para enquadrar o sindicalismo jornalístico brasileiro na linha daquela organização.
A corrupção e o anticomunismo eram discutidos publicamente — como foi o caso de uma nota da redação do Jornal do Brasil publicada no dia 13 de julho de 1966, quando as eleições na Federação entraram na ordem do dia e dois grupos (um deles apoiado pela FIOPP) disputavam o comando da entidade. “Agora — e é o mais grave —, uma estranha organização norte-americana, a FIOPP, a pretexto de fazer anticomunismo, está despejando muito dinheiro nos meios sindicais, prejudicando o andamento natural das eleições na Federação Nacional dos Jornalistas Profissionais”, disse o jornal. Apesar dos protestos, a chapa da FIOPP venceu as eleições.
Intolerância social
Graças às práticas dessa mídia golpista muita gente no Brasil vê a política como um gesto pouco nobre. Atribuem-se à sua lógica coisas como a depauperação dos valores. É comum se ouvir que política é feita pela escória da sociedade. Um marciano de boa índole que tivesse chegado à Terra pelo Brasil e estivesse estudando a humanidade munido do noticiário da mídia, certamente anotaria em sua agenda que política é uma das coisas ruins que se inventaram por aqui.
O nexo dessas práticas é o entrave conservador. Apesar de os ideais da Revolução Francesa e da Independência Americana ter estimulado movimentos como os inconfidentes de Minas Gerais e da Bahia, ainda hoje pode-se dizer que eles não se realizaram plenamente em nossa pátria. É do arcabouço filosófico dos ideais republicanos que advêm idéias como democracia, direitos individuais, liberdade de expressão. Ele gerou, entre outras coisas, a revolução industrial, os sistemas políticos modernos, o conceito de igualdade entre os cidadãos e o advento de governos contratuais e eleitos. Desde a Era das Luzes até hoje, essa lógica impulsiona a luta por justiça social e justeza política.

Uma sociedade democrática deve alargar ao máximo o leque de possibilidades individuais e garantir um lugar digno a cada um. Para isso, é preciso assegurar, por meio de um regime verdadeiramente democrático, o direito de a sociedade escolher seu destino. Remover entraves como esse representado pela mídia é uma necessidade que se impõe pela relevância da circulação de informações verdadeiras em uma sociedade civilizada. A democratização da comunicação não pode ser uma abstração com pouca relação com a realidade objetiva do país. Se esquecermos os ensinamentos da história, estaremos dando chance para o fortalecimento da tese de que um regime baseado na ideologia conservadora, de intolerância social e de homens autômatos, é insubstituível. Aí vem o fascismo.

Coletivizando no Youtube