SIGA O COLETIVIZANDO!

Mostrando postagens com marcador Kim Il Sung. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Kim Il Sung. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Apenas começamos - Paulo Vinícius da Silva e Flauzino Antunes




E nossa história não estará

pelo avesso, assim, sem final feliz:

teremos coisas bonitas pra contar.

E até lá, vamos viver,

temos muito ainda por fazer.

Não olhe pra trás, apenas começamos.

O mundo começa agora.

Apenas começamos. (Metal contra as Nuvens, Legião Urbana)


É longa e complexa a História dos Comunistas nas suas relações com o povo. Também no Brasil, os 101 anos de nossa existência foram marcados por, ao menos, 65 anos de ilegalidade. Comunistas de envergadura, com compromisso absoluto com o nosso povo, estivessem no PCB, PCdoB, MR8 ou na AP, viram-se bloqueados pela Ditaduras em seu contato com o povo, com a classe trabalhadora, com a juventude e a intelectualidade. Esse contato com o povo é tão importante que Kim Il Sung dizia: “O povo é o nosso Céu”. 


A Política é muito mais ampla que o estado, o governo, os mandatos, e não se reduz à institucionalidade. O fascismo se levanta precisamente quando a burguesia manda às favas seu “compromisso” com a democracia, e por isso bloqueia nosso contato com o povo, por propaganda, por mentira, por ditadura, por lei. Transformar democracia e institucionalidade burguesas em democracia popular exigirá muito mais que uma participação minoritária em um ou vários governos. 

A questão central é a nossa relação com o povo, e a Classe Trabalhadora é universal, diversa, é a coluna vertebral da Nação e do Povo Brasileiro. Daí ser essencial perguntarmos: que Classe Trabalhadora é essa de quem pretendemos ser vanguarda.


Quem é a Classe Trabalhadora?

A geração que compunha o bônus demográfico em 2012 e que engrossou as manifestações de 2013 continua em 2023 como a grande maioria da População Economicamente Ativa - PEA -, e imensa participação no mercado de trabalho nacional, tendo sofrido os impactos da regressão trabalhista. Atualmente, a PEA conta com 107.127.000 pessoas (abril/23), de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc)(1) do IBGE. A População Ocupada - PO - conta  98.031.000 de pessoas e a População Desocupada - PD - tem cerca de 9.095.000 de pessoas. Ou seja, 8,48% da PEA estão em desocupação plena. 

É preciso ver com maior atenção o universo daqueles que perderam seus direitos e que enfrentam as maiores dificuldades, num quadro em que o setor formal da economia tem a marca do empobrecimento, das perdas salariais e inflacionárias decorrentes da destruição da negociação coletiva e do fim da política de valorização do salário mínimo. No universo da População Ocupada, 35.943.000  pessoas trabalham na informalidade, sem carteira assinada. Somados à População Desocupada, chegam a 45.038.000. Essa fotografia ainda não traduz a situação. Quando somamos a esse conjunto as pessoas desalentadas - 3.769.000 - e as pessoas subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas - 5.053.000 - chegamos  a quase 54 milhões (2) de trabalhadores e trabalhadoras na precariedade, informalidade, no desemprego, e ainda faltam muitos invisibilizados pela mais extrema miséria! É nesse universo, considerados como Ocupados, que estão os informais e os trabalhadores de aplicativos! Assim, 50,27% da População Economicamente Ativa vive um presente sem direitos e pode acabar num futuro de vulnerabilidade e pobreza.


Ainda de acordo com a PNADc, fazendo um recorte geracional, verificamos que as pessoas de 18 a 39 anos, são  65,1% da População Desocupada. Segundo a economista Marilene Oliveira, com dados do primeiro trimestre de 2022 (3), a juventude entre 20 e 29 anos contava com 47,8% entre os trabalhadores informais. Mas a pesquisadora nos informa que o recorte etário de 20 aos 49 anos compõe  68,4% de todos os informais. Assim, a geração de jovens de que saíram às ruas em Junho de 2013 e seus filhos compõem hoje a maioria dos trabalhadores e trabalhadoras sem direitos, previdência, sem amparo algum. Não é à toa estar aí a maior distância dos partidos e sindicatos! É essa maioria da classe trabalhadora, sem direitos e organização que, curiosamente, merece a atenção da indústria cultural, das igrejas do pentecostalismo de negócios, e mesmo das milícias, do narcotráfico e das bigtecs que, assim, promoveram o sequestro da identidade de classe da maioria dos trabalhadores, comprometendo o futuro do Brasil. Esse é o campo aberto para a propaganda fascista.


Mas a tragédia não se resume aos precarizados(as), desempregados(as) e informais. Ao analisar os trabalhadores formais, vemos a fragilidade gritante decorrente da perda de representação sindical, expressa nas taxas de sindicalização em sua baixa contínua ao longo dos últimos anos. Em 2020, três anos após a Deforma Trabalhista, o Brasil de Fato já noticiara que:

“entre os anos de 2012 e 2019, os sindicatos perderam cerca de 3,8 milhões de filiados no Brasil. Desse modo, em 2019, das 94,6 milhões de pessoas ocupadas no país, apenas 11,2%, ou seja, 10,6 milhões de trabalhadores, eram filiados a um sindicato, de modo que esta é a menor taxa de sindicalização desde 2012, quando 16,1% dos trabalhadores brasileiros eram sindicalizados”. (4)


Veja os quadros comparativos por agrupamento de atividade econômica e por região:

Em 2019, tínhamos apenas 11,2% sindicalizados e 88,8% de não sindicalizados, considerando toda a população ocupada. Ora, é amplamente sabido que a filiação sindical se dá no âmbito da formalidade, e não do total da população ocupada, então o dado é melhor. Mas a realidade é que representamos uma pequena parcela, cerca de 11% de toda a população ocupada, no melhor cenário.

A unidade é indispensável, desde as centrais até os sindicatos. Colocar a pirâmide sobre sua base de trabalhadores é inadiável, mas não basta, pois trazer os formais para os sindicatos é apenas um primeiro passo para que possamos atingir toda a classe e em especial a parcela mais jovem e sem qualquer direito.

É a partir desse distanciamento do movimento sindical de quem deveria representar que se baseiam as teses da pulverização dos interesses da classe e da falta de futuro do movimento dos trabalhadores(as). Representando uma minoria da Classe, decrescem as lideranças e os resultados eleitorais da bancada trabalhista. Daí, também decorre o senso comum, de que essa relação com o povo seria “mediada” pelos movimentos sociais, sem lastro de classe, e a partir da incorporação desses movimentos pela representatividade no estado e nos governos, a partir de “políticas” públicas.

Em verdade, se formos olhar de frente a Classe Trabalhadora como um todo, nela encontraremos a raça, o gênero, todas as diversidades, mas o inverso não é verdadeiro. Não há histórico de uma revolução socialista liderada pelos “movimentos sociais”. A História ilustra o inverso, a centralidade do trabalho como mote para a representação e a inclusão da  totalidade do povo na construção da Nação, com a marca indelével do leninismo. É preciso resgatar esses ensinamentos.


"Ligação com as massas como condição fundamental para o trabalho dos sindicatos" (5)

As principais lições de Lênin quanto aos movimentos sociais e à ação dos comunistas são relativamente simples, até, se não as ignorarmos. 


Primeiro, o movimento social, se é o fim em si mesmo, não chega a lugar nenhum. O movimento social que não se vincule à classe revolucionária, trabalhadora, sem a perspectiva generalista da luta do poder, perde-se. Lênin não fez essa crítica ao movimento negro, nem ao movimento LGBTQIA+, à juventude, ou ao movimento das mulheres. Tal crítica foi dirigida com inaudita dureza ao movimento sindical, o movimento da classe trabalhadora, e em especial à sua direção, no célebre e mal citado livro “Que Fazer” (“Sonhos, acredite neles”, aff…) e em outras obras. 


A segunda lição, daí decorrente, é o papel imprescindível da consciência comunista avançada e organizada, sem cuja direção, sem cujo trabalho de base, sem cuja ligação com o povo, com os não comunistas, não há vanguarda de nada, nem de ninguém. A perspectiva do poder só pode vir “de fora”, ele dizia.  Mas esse “de fora”, para dirigir, para ser vanguarda, essa consciência precisa ser feita do mesmo povo que se quer dirigir, viver o que se predica. É preciso ir sempre ao imenso manancial do povo, não ficar fechados em nós mesmos.


Ou seja, guiados pelo espontâneo, pelo corporativo, pelos interesses do momento, guiados por indivíduos não se chega à CONSCIÊNCIA, nem ao PODER. É essa força da maioria do povo que permite chegar, manter e transformar o poder de Estado. Por isso, o rabo não deve balançar o cachorro. O espontaneísmo e o pragmatismo prometem vitórias, mas não as entregam. 


Além disso, há a importância da questão nacional, especialmente nos países da periferia do capitalismo, as colônias de ontem e de hoje, para quem o tema tem um sentido bastante distinto do nacionalismo burguês. Recentemente, sofremos muito com o abastardamento da Bandeira Nacional, já denunciado por castro Alves no poema O Navio Negreiro: 

“Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!..(6)


Arrancar esta bandeira da mão dos traidores é indispensável, mas não é mero ato simbólico, é o resgate material e espiritual de nossa Nação humilhada. Essa responsabilidade é da classe trabalhadora, em primeiro lugar. Há que lembrar de outra contribuição, do mais fiel seguidor de Lênin, ensinamento que pudemos viver na pele nos últimos anos…Em seu último discurso público, no XIX Congresso do PCUS, em 1952, alertava Stalin: 

Antes, a burguesia julgava-se líder das nações, cujos direitos e independência defendia e colocava “acima de tudo”. Hoje não resta um vestígio sequer desse “princípio nacional”: a burguesia vende por dólares os direitos e a independência das nações. A bandeira da independência e da soberania nacionais foi jogada fora. Não há dúvida de que cabe a vocês, representantes dos partidos comunistas e democráticos, recolhê-la e conduzi-la adiante, se vocês querem figurar como os patriotas de seus países e tornar-se a força dirigente das nações. Não há mais ninguém que possa fazê-lo. (7)


O sofrimento nacional, longe de dividir a nossa gente, precisa aproximá-la. A Nação é a Classe Trabalhadora, é o nosso povo.  Apenas uma visão consciente do movimento, a sua firme adesão aos interesses maiores da classe universal produtora da riqueza construída pela humanidade, defendendo o internacionalismo a partir de nossa Nação em perigo, de nosso povo tão judiado, só desta maneira atingiremos a libertação nacional, a ruptura com o jugo do imperialismo e a construção da verdadeira Nação - que é seu povo. Em um mundo em crise, não percamos a ambição de ver com nossos próprios olhos a primeira etapa da transição ao socialismo. Sim, com as características de hoje, com a classe na sua diversidade, mas jamais um voo de galinha face a um abismo.

Por que não somos eleitos? Se nossa relação com a classe trabalhadora legitimar a liderança, o voto, a defesa e a vitória face aos ataques à Nação e aos direitos da classe trabalhadora, só se essa relação ganhar força nas ruas e nas redes poderemos projetar uma representação eleitoral à altura dos desafios de assegurar o êxito do nosso governo, a vitória da Democracia e o resgate do Brasil aviltado. Será preciso vencer nas ruas e nas redes, e para isso, é preciso um giro em direção à Classe Trabalhadora real.

Mesmo já tendo conquistado o poder, em 1922, Lênin advertia ao movimento sindical classista do primeiro país aonde a Classe Trabalhadora chegou ao poder:

“Um dos maiores e mais terríveis perigos para um Partido Comunista, numericamente modesto, e que na qualidade de vanguarda da classe operária dirige um enorme país que efetua (no momento sem gozar ainda do apoio direto dos países mais adiantados) a transição para o socialismo, é o perigo de ficar afastado das massas, o perigo de que a vanguarda avance demasiadamente longe sem “a frente estar alinhada”, sem conservar uma estreita ligação com todo o exército do trabalho, isto é, com a imensa maioria da massa operária e camponesa."(5)

Isso foi dito com os bolcheviques já no poder… Imagina nós, que estamos só na beira… Imagina se o perigo for ficar atrasado e alheio ao sofrimento do povo…


Lutar desde Brasília é muito duro. Somos pequenos e assumimos imensa responsabilidade de representação nacional. Doeu, sermos porta-vozes de ameaças vãs aos poderosos, enquanto avançava o Golpe; ver o vácuo que sustentava nossos inflamados discursos. Não foi sempre assim, e precisamos estar conscientes de que as marchas de junho de 2013 ainda hoje não foram compreendidas profundamente. Já sabemos, contudo, que elas foram a eclosão da Guerra Híbrida, sob a direção do imperialismo estadunidense e a partir da traição de elementos apátridas, desmoralizados e corruptos, num contexto de revolução tecnológica, da internet, das redes sociais e da telefonia. Se olharmos nossa Classe Trabalhadora real, miraremos a geração que participou de tais protestos, e reconheceremos a pá de cal lançada sobre nossas esperanças, a tragédia imposta ao nosso maior bônus demográfico e, talvez, o comprometimento do futuro do Brasil. 


Aqueles eventos marcaram uma ruptura ainda atual entre a direção nominal da juventude, dos estudantes e da classe trabalhadora e seus representados. Desde então, abriu-se um fosso que só tem se ampliado. Perdas coletivas, de direitos, perda de recursos materiais dos sindicatos, perda de representação política e institucional dos trabalhadores(as); perdas individuais, do emprego, da microempresa, do nome limpo, dos entes queridos, da saúde física e mental, da perspectiva, da família, do direito de amar, do futuro. Cada perda dessas é a falência do Projeto Nacional de Desenvolvimento, que é feito da vida das pessoas. 


E para quem aspira a ser vanguarda da libertação do Brasil, o mais doloroso é a perda do apoio daqueles e daquelas por quem lutamos, a desconcertante solidão de ver o proletariado apontar para a própria cabeça a arma do fascismo. É sob essa luz que devemos enxergar a vitória estratégica da eleição de Lula e Alckmin, graças à Frente Ampla. Só lutaremos com todas as nossas forças e inteligências pelo êxito da missão do Governo Lula (Reconstruir e Transformar o Brasil), se disputarmos a opinião pública, a organização popular, a classe trabalhadora. Há que construir uma trincheira que impeça qualquer derrota e preparar novas vitórias, num mundo mais perigoso e em mudança acelerada. Não é hora de tapinhas nas costas, é hora de trabalho duro, de corrigir os erros, de assentar os alicerces da esperança a partir do instrumento consciente que possa unir e liderar a Classe trabalhadora. Do contrário, como assegurar que não haverá um novo retrocesso?


É preciso lembrar quem somos, olhar nossa classe nos olhos e caminhar para um futuro que só a classe trabalhadora poderá conquistar. Dói a picada, mas o que salva como nossa vacina é libertar o Brasil e construir o Socialismo. Como está no Programa do PCdoB: o Fortalecimento  do Brasil é o Caminho, o Socialismo é o Rumo. E não haverá futuro sem o Sindicalismo Classista Organizado desde a Base, como força motriz do resgate da Classe Trabalhadora.

NOTAS

 1) PNAD Contínua - Divulgação: Maio de 2023 Trimestre móvel: fev-mar-abr/2023 Quadro Sintético - fev-mar-abr_2023.xlsx (ibge.gov.br) <https://ftp.ibge.gov.br/Trabalho_e_Rendimento/Pesquisa_Nacional_por_Amostra_de_Domicilios_continua/Mensal/Quadro_Sintetico/2023/pnadc_202304_quadroSintetico.pdf>

2) 53.860.000 de trabalhadores, grosso modo, reúnem População Desocupada, Setor privado sem carteira, Trabalho doméstico sem carteira, Desalentados, Empregadores sem CNPJ, Trabalhadores(as) Por conta própria sem CNPJ e Subocupados por insuficiência de horas trabalhadas 

3) O mundo do trabalho e a informalidade - DIAP - Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar <https://www.diap.org.br/index.php/noticias/artigos/91166-o-mundo-do-trabalho-e-a-informalidade> 

4) Queda na taxa de sindicalização: o que esses dados falam? André Barreto, 4 de Setembro de 2020, Brasil de Fato <https://www.brasildefatope.com.br/2020/09/04/queda-na-taxa-de-sindicalizacao-o-que-esses-dados-falam>

5) Sobre o Papel e as Tarefas dos Sindicatos nas Condições da Nova Política Econômica - Resolução do CC do PC(b) da Rússia - V. I. Lênin  - 4 de Janeiro de 1922 <https://www.marxists.org/portugues/lenin/1922/01/04.htm> 

6) Castro Alves, O Navio Negreiro, Jornal de Poesia <http://www.jornaldepoesia.jor.br/calves01.html> 

7) Discurso na Sessão de Encerramento do XIX Congresso do PCUS -  J. V. Stálin - 14 de Outubro de 1952 <https://www.marxists.org/portugues/stalin/1952/10/14.htm>





quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Renato Rabelo: Folha de SP se esmera em ironias contra o PCdoB - Portal Vermelho

Renato Rabelo: Folha de SP se esmera em ironias contra o PCdoB - Portal Vermelho

A magra edição de hoje (28) do jornal paulista Folha de S.Paulo dedica um de seus principais editoriais a um exercício de provocações e ironias pobres. Talvez por falta do que dizer – nestes dias de comemorações e festas de final de ano -- seus editores resolveram atacar o PCdoB tendo como mote o falecimento, na semana passada, do líder da República Popular Democrática da Coréia, Kim Jong Il.

Por Renato Rabelo, em seu blog

JJ Coelho



Protest


Seus leitores mais atentos deverão, a esta altura do campeonato, se perguntar como pode um país -- cercado desde a década de 50 pelo maior exército do Planeta (as forças armadas dos EUA atualmente acantonados na Coréia do Sul possuem uma base com mais de 30 mil homens, armados com mísseis balísticos nucleares) -- resistir a todo o tipo de provocações e ações de contra-insurgência? Os fatos, entretanto, estão gravados na história dos povos daquela região da Ásia. Antes dos colonialistas japoneses empreenderem a dominação da península coreana, em 1905, mais exatamente em 1866, um navio pirata norte-americano, o “Sherman”, tentou tomar posse de Pyongyang, mas acabou afundado. Dois anos depois, em 1868, o “Shenandoah”, equipado com canhões, também procurou causar dano àquela cidade e foi rechaçado pelas defesas coreanas que o perseguiu pelo rio Taedong.

No início do século XX, entretanto, o Império Japonês invadiu a Coréia e dominou o país. Mais de 6 milhões de jovens e homens de meia-idade foram obrigados a trabalhos forçados, sendo que um milhão acabou morrendo. Cerca de 200 mil mulheres coreanas foram feitas escravas sexuais dos militares japoneses. Somente em 15 de agosto de 1945 termina a guerra de libertação da Pátria coreana. A República Popular e Democrática da Coréia foi proclamada em 1948, um ano antes da República Popular da China. Foi, então, que os setores mais reacionários dos EUA resolveram invadir a península coreana e interferir nos assuntos internos daquele país.

Com a deflagração da Guerra da Coréia, os norte-americanos sob o comando do General MacArthur, arrasaram Pyongyang em três anos de duros combates. A capital sofreu 1.431 ataques aéreos, quando 428 mil e 700 bombas desabaram sobre seus defensores, o que significou mais de uma bomba para cada habitante. O Exército americano acabou derrotado no campo de batalha e teve que recuar além da linha do Paralelo 38 N. Três milhões e meio de pessoas foram mortas nesta guerra. Os norte-coreanos, por sua vez, contaram nestas batalhas com a ajuda decisiva de 600 mil voluntários do Exército chinês e também com o apoio de vários outros países progressistas e socialistas daquela época, inclusive do movimento contra a Guerra da Coréia e pela paz realizado no Brasil. Por sua incúria guerreira, o general MacArhur foi demitido de suas funções, substituido pelo general Ridgway e os EUA foram obrigados a assinar um armistício.

Hoje, Pyongyang é uma cidade única no mundo, majestosa, com grandes avenidas arborizadas, pontuada por museus e coberta por uma rede moderna de metrô e ônibus elétricos. A atividade cultural, artística e esportiva é intensa. E, mais importante, a Coréia do Norte tem um projeto nacional que colocou em prática, com suas características próprias. Construiu uma indústria pesada e desenvolveu sua defesa nacional, chegando a montar mísseis balísticos nucleares de longo alcance. Não fosse este aparato e o poderoso Exército certamente seu destino teria sido outro, parecido com o imposto pelos EUA ao Iraque, ao Afeganistão e -- mais recentemente -- à Líbia.

Ao contrário do que sugere a Folha, na última reunião do Comitê Central do PCdoB, procuramos fazer uma avaliação da nova situação mundial com o desenvolvimento da terceira grande crise sistêmica do capitalismo e consideramos como positivo, em suas linhas gerais, o ciclo político aberto com a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, e continuado com a eleição de Dilma Rousseff, em 2010. Duas tarefas principais se colocam agora diante do povo brasileiro: avançar na defesa da economia do país para o enfrentamento da crise externa e o fortalecimento do mercado interno brasileiro, e lutar para que nosso povo tenha o direito a exprimir seu pensamento de forma democrática contra o monopólio exclusivo da mídia, capitaneada -- entre outros órgãos -- por esta mesma Folha de S.Paulo que nos ataca impunemente. Esta grande mídia, reacionária e conservadora, vem escolhendo o PCdoB como alvo de ataque, demonstrando com isso que este Partido a incomoda. Porém, como sempre, sem podermos ter o direito de defesa.

Fonte: Blog do Renato Rabelo

Norte-coreanos se despedem de Kim Jong-il - Portal Vermelho

A população da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) compareceu em massa nesta quarta-feira (28) ao funeral de seu líder, Kim Jong-il, que morreu em 17 de dezembro, em uma cerimônia encabeçada por Kim Jong-un, vice-presidente da Comissão Militar Central do Partido do Trabalho da Coreia.

A cerimônia teve início na esplanada próxima ao Palácio Memorial Kumsusan, onde repousou o féretro de Kim Jong-il e diante do qual Kim Jong-un e muitos outros dirigentes e o povo em geral se dirigiram para prestar condolências. Em seguida, o funeral percorreu cerca de 40 quilômetros de ruas e avenidas de Pyongyang, cobertas de neve.

Kim Jong-un caminhou junto ao carro fúnebre, em sua parte dianteira. Centenas de milhares de pessoas e membros do Exército, entre os quais a dor pela perda era mais que evidente, davam seu último adeus a seu líder, que tinha seu retrato montado sobre um dos veículos do funeral.

A despedida fez parte de uma homenagem iniciada em seguida à morte do ex-secretário-geral do PTC, que tinha 69 anos e estava em uma viagem de trabalho. O funeral regressou ao palácio após percorrer as ruas de Pyongyang.

Dezenas de estadistas, líderes políticos e de organizações internacionais enviaram mensagens de pesar às autoridades norte-coreanas pelo falecimento de seu líder, ao qual também renderem honras diplomáticas.

As condolências também foram expressadas por duas delegações civis da Coreia do Sul, encabeçadas por Lee Hee Ho, viúva do ex-presidente Kim Dae Jung e Hyun Jeong Eun, que é a presidente do grupo Hyundai.

Essas delegações da Coreia do Sul só tiveram a autorização para viajar porque a RPDC enviou representantes para o funeral do ex-líder do país e então presidente da empresa fabricante de automóveis Chung Mong Hun.

A cerimônia de despedida precede um ato de condolências, que será realizado amanhã, e que incluirá uma salva de tiros à primeira hora da manhã, na capital e em todas as capitais de província, enquanto navios e locomotivas soarão simultâneamente suas sirenes e a população guardará três minutos de silêncio.

Com agências

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Viagem à Coréia do Norte: o estado da economia - Elias Jabbour - Portal Vermelho

Viagem à Coréia do Norte: o estado da economia - Portal Vermelho
Setembro de 2009
Elias Jabbour *

A contradição é o motor do processo. Até ai nenhuma novidade. Portanto, após algumas leituras sobre a Idéia Juche não podemos nos surpreender caso a própria realidade concreta se confronte com determinados postulados filosóficos.

Quero dizer com isso que a própria lógica inerente às leis econômicas impõe certos limites à concretude total da Idéia Juche. A interdependência de fatores econômicos na economia internacional e a crescente necessidade de a Coréia do Norte se inserir na Divisão Internacional do Trabalho pode ser o ponto de desarmonia que poderá alçar ou não este país a melhorias constantes no padrão de vida de sua população.

Mas, para quem anda com “alma armada” quando o assunto é Coréia do Norte, sugiro a leitura e a análise de uma frase de Confúcio: “não importa a velocidade da caminhada, o mais importante é caminhar”. E nossos irmãos da RDPC estão caminhando. Em seu próprio ritmo, mas estão caminhando. Eis o “x” da, ao questão. Ombreando com este imperativo da realidade está a política, e seu sentido strictu sensu.

Pode ser animador saber que a política nada mais é do que a arte da busca constante da convergência. Aconselhado pelo chefe das SS, Himmler, de abrir negociações com o ocidente com o intuito de salvar seu podre Reich, Hitler – antes de se suicidar na iminência de ser capturado vivo pelos exércitos de Zukhov –, deixou claro à sua claque bandida que eles teriam de enfrentar muita política após (a boa notícia de) sua morte.

Ascensão e queda
Outrora, o país tinha participação ativa e independente na divisão social do trabalho do mundo socialista (apesar de não participar do Comecom), com mercado garantido a seus produtos, eles sempre tiveram uma posição econômica muito melhor que a cubana. Se Cuba recebia seus proventos financeiros e militares com açúcar, a Coréia do Norte disputava com o Japão e o Brasil o posto número um em matéria de crescimento econômico entre os anos de 1953 e 1972.

Acredito que a raiz deste desenvolvimento encontra-se tanto na milenar capacidade de empreendimento do camponês asiático, quanto em fatores conjunturais, entre tais o desenrolar e desfecho da Guerra da Coréia que demonstrou aos norte-coreanos (dada a retirada de corpo dos soviéticos [que tiveram de lançar os chineses ao abatedouro] após ver o espetacular desembarque anfíbio, em solo sul-coreano, na retaguarda do exército popular norte-coreano, estrangulando-o pouco-a-pouco com a quebra das linhas de suprimento e comunicação do norte do país; além da inconteste superioridade aérea do imperialismo) que sem uma indústria de base nacional nada poderia ser feito nem em termos de manutenção do regime do norte do país e muito menos em matéria de reunificação.

Vale demonstrar alguns dados que o inimigo (em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”) impingiu aos norte-coreanos, mais de quatro milhões de mortos; 50.941 plantas industriais destruídas, mais 28.632 escolas foram ao chão. Para quem defende a “independência do Tibet” por razões de “opressão cultural” é bom que se saiba que nem o templo budista de Myohyang, ao norte de Pionguiangue, e seus catorze prédios foram perdoados. Se duas torres foram ao chão em Nova Iorque em 11 de setembro de 2001, que as pessoas que amam a humanidade acima de quailquer coisa, devem ter em mente que Pionguiangue foi destruída até o último pilar!

O famigerado secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles, naquela época gabou-se de que nem 100 anos seriam suficientes para a Coréia do Norte se levantar.

O país se levantou: segundo dados colhidos no Museu da Revolução Coreana, entre 1956 e 1960, a indústria de base teve crescimento de 361%. A indústria ligeira, 332%. Em 1958, a parte norte da Península estava capacitada à produção de caminhões e tratores. Sua agricultura, vitaminada por uma competente indústria química, até o final da década de 1980 cumpria papel de relevo no abastecimento alimentar do bloco socialista. A destruição de seu país por conta da guerra serviu para desnudar capacidades ociosas inimagináveis, sendo a principal delas a impressionante capacidade de trabalho e disciplina de seu povo.

As coisas corriam, apesar da concentração militar norte-americana no sul, muito bem até que na segunda metade da década de 1980, quando Gorbatchev decide partir para uma suicida experiência de Glasnost e Perestroika. Ignácio Rangel, expôs em 1992 que, desde então, as críticas contra Brezhnev voltaram-se contra Stálin que por sua vez voltaram à Lênin. A proscrição do marxismo e do socialismo na URSS passou à ordem do dia.

O preço pago pela humanidade e pela Coréia foi muito pesado. Desde então, a Coréia do Norte está tendo de enfrentar muita política numa conjuntura caracterizada por uma nada agradável correlação de forças. Como diria Lênin sobre o imperialismo: é a contra-revolução, como política e método de subversão da subjetividade humana, em toda linha sua linha. Yeltsin em Moscou, Collor e FHC no Brasil, Fujimori no Peru, Menen na Argentina... africanização da América Latina.

Triste década de 1990
O colapso econômico e o problema externo

O fim da URSS e seus satélites europeus, levou ao fechamento de simplesmente todos seus mercados externos. Indo ao empírico, entre os anos de 1986 e 1990 a economia coreana cresceu em média estimada de 3,4% ao ano. Aliás, a Coréia do Norte foi o país que mais cresceu no mundo socialista na década de 1980 (média de 4,6%). Em grande parte, este crescimento esteve diretamente relacionado ao esforço nacional de construção da Eclusa do Mar do Oeste, concluída em 1986. Situada na cidade litorânea de Nampo, 80 km. de Pioguiangue, esta obra objetivou a separação da água do mar da água do rio Daetong, resolvendo o problema de abastecimento de água da indústria e das cidades do país.

Já, entre 1991 e 2000, o PIB sofreu um recuo de 38%. Entre 2000 e 2005, o PIB reage satisfatoriamente à crescente integração com a Coréia do Sul, a China e a Rússia e algumas reformas de mercado recuperando 23% do terreno pedido anteriormente. O retorno às tensões com o sul e calamidades naturais diversas levaram a economia norte-coreana a um recuo de 4,2% entre os anos de 2006 e 2007. Em 2008, o país cresceu 1,5%, 2009 1,8% e a previsão para o presente ano é de 2,8% (1). Índice superior ao do Brasil, diga-se de passagem. Tais taxas de crescimento poderiam ser maiores caso a Coréia do Sul retomasse o programa de repasse de fertilizantes acordado a posteriori com o norte do país.

O colapso econômico pode ser auferido sob o aspecto das mudanças o que cerne os setores da economia. Por exemplo, o programa industrializante levado a cabo por Kim Il Sung transforou uma terra arrasada em uma nação industrial e próspera: em 1990, 49% da economia do país girava em torno de indústria de mineração, siderurgia e construção, enquanto que os serviços participava com 23% e a agricultura com 27%. Em 1997, a manufatura passou por intensa queda e chegou a 32%, com lenta recuperação para 36% em 2003. Neste mesmo ano, 2003, os serviços alcançaram a marca de 37% da economia, enquanto a agricultura patinou em 29%. Em 2007, a tendência de melhora da indústria é sintetizado pela marca dos 40%, os serviços 39% e a agricultura declinou para 21% do PIB (2).

É muito claro que a queda da participação do setor secundário da economia não é reflexo da alta do setor terciário. Existe um problema sério de falta de matérias-prima e um capital financeiro nacional que toca adiante a recuperação e o incremento do setor.

Não podemos esquecer de, pelo menos, dois feitos espetaculares: o lançamento de dois satélites de observação ao espaço, um em 1998 e outro no presente ano.

Pois bem, quais consequências analíticas poderemos tirar de tais números

1) o território norte-coreano é um grande limitador ao seu processo de retomada de crescimento, não é a toa que o sul do país era o celeiro do Império Japonês, enquanto o norte abrigava, a trancos e barrancos, uma mínima manufatura;

2) a economia ainda não recuperou os patamares do final da década de 1980, sendo que – por exemplo – as capacidades ociosas em sua indústria de base beira a patamares próximos de 60%;

3) o crescimento econômico verificado tem sido aumentado ou retrasado de acordo com o nível de tensão na península, inclusive o processo de reformas internas segue esse ritmo ditado pela conjuntura;

4) A pendência econômica norte-coreana está diretamente relacionada com a ultra-necessária retirada militar norte-americana do território sul-coreano, o reconhecimento norte-americano e japonês do regime e a, consequente integração econômica total com a Coréia do Sul e

5) O Brasil tem grande papel político e econômico a jogar nesse processo.

O limitador externo fica muito claro, por exemplo, em conversas com estrangeiros hospedados no mesmo hotel em que me encontrei, o Hotel Koryo. Reclamam demais com a lentidão dos processos de fechamento de contratos. Por exemplo, conversando com três italianos vindos aqui para oferecer frutas para importação, segundo eles, já faz duas semanas que as coisas não andam. Argumentei com eles que em primeiro lugar, os norte-coreanos apesar de comunistas, são asiáticos e que, portanto, os norte-coreanos estavam à espera de novas e melhores condições de negócio. Afinal, qualquer primeiro-anista de economia sabe que a crise faz com que os países do centro do sistema, além de acelerarem processos de fusões e aquisições, partem para uma verdadeira corrida em busca de mercados alternativos. E a turma de Kim Jong Il sabe muito bem disso. Esse pessoal, a começar pelo brilhante Kim Jong Il, de maluco e burro não tem nada. Nesta terra não há espaço para criadouro de espécies como Henrique Meireles, Marina Yankee Silva etc.

Não somente isso, países como a França e a Itália, mantém ótimas relações com os EUA e a Coréia do Sul, e que portanto, qualquer elemento desse tipo deveria passar por muitos constrangimentos antes de quererem se instalar na Coréia do Norte. Olha que chance de ouro para o Brasil!

Mais, estrategicamente desde a crise financeira asiática de 1997 (cujo epicentro foi a Coréia do Sul),o imperialismo vem tratando de minar a a capacidade de financiamento da Coréia do Sul, ora pela imposição do FMI de privatização do sistema financeiro sul-coreano, ora por fazer a Coréia do Sul “engolir pela culatra” empréstimos “casca de banana” de curto prazo, além de ameaças de fechamento do mercado norte-americano à indústria automotiva sul-coreana. O alvo nem precisa explicar: a inviabilização de qualquer processo que encete a reunificação da península e a consequente perda de influência dos EUA na Ásia, tanto para a China quanto para uma “nova Alemanha reunificada”, agora em solo asiático.

Reformas, estrangulamento financeiro e política monetária

Na estação fronteiriça da China com a RDPC, uma leva de norte-coreanos adentraram ao vagão. Como disse antes, muito alegres e festeiros. Pensei comigo: vou tentar puxar papo. Após algumas tentativas frustradas por conta da barreira do idioma, consegui achar um que falava um inglês excelente. Profissão: comerciante. Comerciava magnesita coreana por petróleo e grãos da China, além de uma série de insumos industriais. Figura altamente politizada (aliás, a politização é uma marca registrada desse povo), de forma calma me explicava os mecanismos de estrangulamento financeiro impetrado pelos EUA,além dos passos dados pelo governo central no sentido de uma “certa” liberalização econômica.

Não resisti em perguntar ao camarada o quanto ele ganhava. Respondeu-me que seu salário dependia de seu rendimento em matéria de negociações. Quanto mais e melhores, mais retorno tinha para si.

***

Esse tipo de relação de produção pautada pela eficiência é uma marca registrada pelas incipientes reformas econômicas iniciadas em 2002 no setor comércio exterior. Essas reformas vieram para a institucionalização de relações que a priori já existiam desde o final da década de 1990, quando um fôlego dado pela tendência de recuperação econômica passou a permitir, por exemplo, a troca de cupons de racionamento por moeda circulante. Era a objetividade das leis econômicas batendo nas portas da RDPC. O aumento da massa salarial – e consequentemente da circulação monetária – necessariamente, redunda na necessidade de um mínimo jogo entre oferta e procura.

Analisando informações produzidas por órgãos estatais norte-americanos e sul-coreanos percebe-se o equívoco ao afirmarem da existência de algumas experiência de “contratos de responsabilidades” - similares aos chineses pós-1978 – foram assimiladas pelos norte-coreanos. A bem da verdade, conversando com economistas da RDPC, a permissão de existência de pequenos lotes privados sempre existiram. Aliás, fora uma exigência de grupos nacionalistas à fusão com o partido comunista em 1948 à formação do Partido do Trabalho da Coréia. O que passou existir, de fato, foi uma autorização e extensão para a compra e venda, em pequenos mercados rurais, de utensílios domésticos e a venda de víveres e cereais em mercados de pequeno e médio porte de cidades como a capital Pionguiangue. Sob particular ponto de vista – com uma ponta de especulação –, essas experiências de tipo mercantis pelo país esbarram em alguns obstáculos, entre eles: 1) a falta de um sistema de financiamento com um mínimo de liquidez; 2) a baixa produtividade da indústria química e da quebra de remessas de fertilizantes pela Coréia do Sul; 3) a ainda necessária ênfase a investimentos em seu complexo industrial-militar; 4) frequentes calamidades naturais e 5) em problemas de ordem puramente ideológicas.

O PIB da RDPC gira em torno de US$ 54 bilhões se levando em conta o padrão de cálculo via PPP (paridade de poder de compra). Sob a forma clássica de cálculo, o PIB cairia para US$ 26 bilhões. O governo norte-coreano se depara com uma situação de administrar déficits . Para uma população total de 
22, 6 milhões, tendo uma população economicamente ativa de 72% deste total, sua renda per capita é de US$ 2.248, semelhante a de países como Zimbábue, Bangladesh,Usbequistão e Sudão. Este déficit comercial é amainado por operações financeiras externas, entre elas a remessa de dinheiro de coreanos étnicos residentes do Japão e de operações financeiras em paraísos fiscais como Macau. Para a esmagadora maioria dos analistas internacionais, tais operações (em Macau, sob vistas grossas da China, p. ex.) são operações ilegais. Sob meu ponto de vista, o julgamento acerca da ilegalidade ou não de tais, dependem da consciência de classe de cada um. Para mim, são plenamente justificadas.

Para piorar a situação, os canais de remessa de dinheiro externo foram todos congelados pelos Estados Unidos. Para termos uma idéia, inclusive os salários dos diplomatas estrangeiros residentes em Pinguiangue tem sido tratado de forma constrangedora, pois boa parte desta remessa passam por bancos sediados em Nova Iorque.

Com esse quadro, fica mais claro perceber que ao se falar em reformas de ” tipo chinesa” na Coréia do Norte, devemos comparar distintas conjunturas históricas, sendo a principal delas o fato de atualmente a RDPC encontrar-se na “alça de mira” do imperialismo (ao contrário da China em 1978), imperialismo esse, cuja moeda é ainda (e por muito tempo ainda) o principal elemento de intercâmbios comerciais e financeiros do mundo. Esse poder sob o sistema monetário internacional capacita, inclusive, ao asfixionamento financeiro de terceiros países.

Neste caso, todas as operações comerciais externas, principalmente com os europeus, ficam à mercê de do gosto ou não dos Estados Unidos e da Coréia do Sul. Por exemplo, a França, do pró-norte americano Sarkoszi, não vede uma agulha à RDPC sem a anuência dos EUA e da Coréia do Sul. És uma situação muito diferente da chinesa em 1978, que pode contar, pasmem, em 1982 com empréstimos provindos de bancos japoneses. Não esqueçamos que outro complicador (imposto pela conjuntura) encontra-se no fato de, pelo menos 20% do orçamento estatal ter de estar voltado às atividades militares.

O que resta à Coréia do Norte, em matéria de política monetária, sendo que – para Lênin – a política monetária tem como uma de suas atribuições a administração econômica de determinadas conjunturas? O que é um “comunismo de guerra” em matéria de política monetária?

Então, ironicamente, se o imperialismo os estrangulam financeiramente, os estrangeiros em visita pelo país “pagarão o pato”. Inteligentemente, coexistem a moeda oficial (won) restrita aos locais, e o Euro, o Dólar e o Yuan utilizado pelos estrangeiros. A ausência de uma economia de mercado lhes permite que o financiamento do Estado e das importações sejam auxiliadas por uma elevação às alturas dos preços praticados aos estrangeiros. Por exemplo, se uma agulha tem custo de importação de 0,5 euros, essa mesma agulha vai ser vendida no varejo – a estrangeiros – pelo menos 5 euros. Evidente que paga esse preço quem quer, mas se a agulha (pode ser outros exemplos, como creme dental...), for essencial, não existe saída. Assim se estende essa politica para quem quer utilizar internet. Um copo de café (café solúvel importado da Alemanha – o Brasil deve quebrar esse monopólio vergonhoso) custa para um estrangeiro exatamente 1 euro. Comunismo de guerra muito bem gerido.

Investimentos estrangeiros e Zonas Econômicas Especiais

Interessante perceber, que apesar de as reformas econômicas terem ganho pulso a partir de 2002, uma lei permitindo investimentos estrangeiros data de 1984. Entre 1984 e 1994 ocorreram 148 casos de investimentos estrangeiro s com montante total de cerca de US$ 200 milhões, sendo que 131 proveram de norte-coreanos residentes no Japão (3).

Cerca de dez cidades do país tem recebido investimentos estrangeiros. A larga maioria das empresas investidoras são da Coréia do Sul, com cerca de 50. Os chineses e os russos, dividem o restante dos investimentos, quase todos eles voltados para o setor de mineração. Analisando o marco regulatório da RDPC para investimentos estrangeiros, veremos (tive acesso a contratos assinados por chineses com norte-coreanos) que os norte-coreanos não enquadram os chineses no artigo 41 que restringe investimentos capazes de “abrir portas à poluição espiritual”. Os chineses tem especial interesse numa “abertura” norte-coreana, pois o país além de maior produtor de magnesita do mundo, tem reservas razoáveis – e já comercializáveis com os chineses – em carvão e ferro. Outra reserva de mercado está no cabeamento óptico ligando a China a RDPC.

Existem relações com países periféricos, de tipo Egito. Existe, vamos dizer uma casta no país que anda munidos de celulares, geralmente os intelectuais e a alta burocracia do governo. Ao procurar saber a origem dos aparelhos e das linhas, descobri (por um egípcio que se encontrava no Hotel Koryo) que as tecnologias da linhas são fonte de joint-venture entre uma empresa privada egípcia (Orascom Telecom) e o Ministério das Telecomunicações do RDPC. Já, os aparelhos são fabricados pela estatal chinesa Huawei (4). O Egito, amigo da RDPC desde os antiimperialistas tempos de Nasser, também trabalha em conjunto com a Coréia do Norte em um hotel luxuoso, próximo do centro de Pionguiangue. Além destas parcerias, existem investimentos conjuntos RDPC-França- Egito na produção de cimento em território norte-coreano. Segundo este funcionário egípcio, uma larga reserva de mercado tem se aberto na RDPC. E completou: “é só termos só um pouco do 'espírito asiático'. Paciência, quis ele dizer...

***

Concentrando o foco na questão da assimilação de experiências de tipo Zonas Econômicas Especiais (ZEE's), seria importante dar ênfase à maior e melhor sucedida experiência vivida até o momento pela RDPC, a experiência do Complexo Industrial de Kaesong (CIK).

Empreendimento financeiro gerido pela Hyundai sul-coreana e um órgão estatal norte-coreano. Aberto em 2006, fica situado na fronteira entre os dois países. Linhas e transmissão de energia fora transferido diretamente de Seul. Seu projeto inclui três estágios no primeiro com o objetivo de alocar 300 empresas, o segundo com 700 e a terceira com 1000 empresas e com 300 mil trabalhadores. Em 2006 o CIK produziu US$ 7,5 milhões; esse montante chegou a US$ 17,1 milhões e em 2008, US$ 250 milhões (5).

O espaço é curto, e no futuro poderei escrever muito mais sobre esse empreendimento, que corre independente dos problemas diplomáticos entre os dois países. Mas, gostaria de me ater em dois aspectos puramente estratégicos que envolvem o projeto.

Primeiro, sobre a Coréia do Sul. O que mais me chamou a atenção estudando esse projeto, foi a – apesar de administrado pela Hyundai – não presença de nenhuma empresa de grande porte no CIK. O que isso significa? Significa que estes investimentos não são parte de nenhum “favor” feito da parte sul à parte norte do país. Muito pelo contrário, fica latente que o fato de os custos de produção na China estarem subindo, mais os pesados efeitos, sobre a economia sul-coreana, da crise financeira, uma das últimas chances de abertura de novos campos de acumulação está na absorção do território econômico da Coréia do Norte. Se as grandes empresas coreanas já encontram – a trancos e barrancos – seu lugar ao sol no mercado internacional, o momento é de fortalecer pequenas e médias empresas encetando no futuro a formação de novos chaebols, capazes de tocarem o capitalismo de Estado coreano adiante.

Já o lado norte-coreano da história. Não sou uma pessoa que gosta de incidir em superficialidades. Posso estar enganado, equivocado, mas cada opinião particular que emito é síntese de alguma reflexão nada tranquila. Neste sentido, reafirmo que Kim Jong Il é simplesmente brilhante. Pois, ele sabe que a unidade política e ideológica da parte norte da península é uma conquista que lhe garante tranquilidade para poder ter uma visão de conjunto do problema. Ou seja, ele sabe que o tempo corre a favor dele, que a Coréia do Sul depende desesperadamente dos potenciais 22 milhões de consumidores do norte para continuar sua marcha acumulativa. Tanto sabe, que em recente visita da presidente da Hyundai em Pionguiangue, a primeira condição posta por ele para iniciar a conversa passava por aumentos substantivos de salários dos trabalhadores empregados no CIK.

Enquanto que no Brasil, a “guerra fiscal” vai destruindo o caráter federativo de nossa república, o país mais sancionado, difamado, bloqueado e estrangulado do mundo, consegue gerir dirigentes capazes de enxergar muito além de seus narizes. Nação milenar.

O mais importante agora é nos concentrarmos nos próximos episódios. Nunca é demais falar que nosso país abriu uma embaixada por aqui. E devemos tirar as melhore consequências desta ação política.

2012 e o plano de “150 dias”
Falei, em certo momento do relato, de um “subjetivismo em matéria de política econômica”. Pois bem, cheguei por aqui em meio a duas campanhas de massa. O primeiro de curto prazo relacionado à transformação na RDPC em uma potência econômica e militar ano do centenário de nascimento do “pai da pátria” Kim Il Sung., no ano de 2012.

Outra campanha é encetada no objetivo (urgente urgentíssima) de elevar a produção entre os meses de abril e setembro deste ano, com término exato previsto para o dia 09 de setembro, dia nacional, 59 anos da proclamação da República Democrática Popular da Coréia.

Dificilmente o país irá se tornar uma potência econômica e militar em 2012. Na verdade, nosso Kim Jong Il sabe que precisa dar respostas (inclusive internas) ao dinamismo econômico sul-coreano. Além de ter clareza da situação econômica nada boa do país. Neste ínterim, contratos foram acelerados com empresas sul-coreanas para instalação de plantas industriais na Complexo Industrial de Kaesong. Bill Clinton fora recebido pessoalmente pelo dirigente máximo da nação e a presidente-executiva da Hyundai veio a Pionguiangue em missão quase-governamental, momento em que teve que ouvir uma sugestão (leia-se exigência) de elevar os salários dos 50.000 trabalhadores coreanos empregados em Kaezong.

Após conversar com Pedro de Oliveira (que recentemente assessorou Renato Rabelo em visita a Pionguiangue) creio que sua opinião é correta de afirmar que, talvez, o país esteja para 2012 um relaxamento, uma maior abertura ao exterior. Por outro lado, creio que – infelizmente – esse tipo de ação não depende somente de Kim Jong Il e sua entourage. Felizmente ou não, um processo é composto por múltiplas determinações.

Já a louvável campanha dos 150 dias, trás todas as marcas de o chamado Grande Salto Adiante encampado na China no final da década de 1950. Por exemplo, acordava pela manhã ao som de um alto falante instalado na estação ferroviária. Tocava-se músicas revolucionárias, entre elas uma que me tocou muito chamada Cadê nosso General? Tudo como incentivo moral ao Combate dos 150 dias. Estrangeiros comentam sobre um suposto desespero de Kim Jong Il ante a situação econômica do país. Não acredito nisso.

O país, para tanto, conta com dois apoios fundamentais a este objetivo: a recente conclusão da Usina Hidrelétrica de Nyongwon, uma das dez maiores do mundo, com geradores e turbinas fabricadas no próprio país. A conclusão desta obra possibilitou à RDPC a interrupção de uma era marcada por apagões e corte de energia o período noturno. Outro tento está na modernização do Complexo Químico de Namhung, abrindo perspectiva imediata de alívio para com a dependência de fertilizantes vindos da Coréia do Sul.

Por outro lado,apesar das imensas capacidades ociosas em sua siderurgia, não posso me esquecer de uma conversa com um empresário alemão no vôo Pionguiangue-Pequim, onde o mesmo tratou de se referir à intenção norte-coreana de importação de máquinas, com uma política de ajuste de preços que leva em alta conta uma conjuntura de retração do comércio internacional. Segundo esse alemão, contra as fabricantes alemãs, o regime do nada “maluco”, e sim brilhante, Kim Jong Il, está tratando de jogar tanto os chineses quanto os russos contra a Alemanha, demonstrando uma visão de conjuntura digna de um grande estadista.

É oportuna uma comparação. Enquanto isso no Brasil, dos intelectuais e economistas bem vestidos, com ternos bem cortados, estamos institucionalizando nossa reserva de mercado (outrora destinada a empresários nacionais) via câmbio serial killer da indústria nacional às empresas estatais chinesas. Mil motivos para os chineses abrirem um largo sorriso quando o assunto são relações comerciais com o Brasil.

Finalizando, acredito que se a conjuntura internacional não permite saltos espetaculares em matéria de PIB. Porém, a utilização de dados estatísticos pode nos servir de base para certas coisas, Entre elas, as informações passadas a mim pelo chefe da cadeia de economia da Associação Coreana de Cientistas Sociais, Kim Dung Sik. Em 1987, o país produziu 6.160.000 kw de energia, 83.000 toneladas de carvão, 6.900.000 toneladas de aço, 13.000.000 de toneladas de cimento e 5.460.000 toneladas de fertilizantes. Segundo o referido economista, em nenhuma das cadeias produtivas anexas a tais setores, a utilização da capacidade produtiva instalada atingiu, no ano de 2008, a 60%.Kim Dong Sik colocou ainda que o objetivo econômico mais imediato é o de alcançar a mesma produtividade de 1987.

Ora, se em economia atraso é fator de dinamismo. Pode estar ai a explicação para as projeções de analistas internacionais (CIA), onde visualizavam tendência de crescimento econômico no país variando de 2% a 3% para o presente ano. Fica a impressão de, caso haja um mínimo relaxamento da agressiva e assassina política imperialista contra a RDPC, o boom econômico é algo que virá em menos tempo do que imaginamos.

Sobre as estimativas de crescimento norte-coreanos, mais um detalhe: trata-se um crescimento pelo menos 150% maior que as mais otimistas projeções sobre o nosso país, o Brasil.

Notas:

(1) NANTO, Dick K., & CHANLETT-AVERY, Emma: “North Korea: Economic Leverage and Policy Analysis”. Congressional Research Service. 04/062009. pag. 19.

(2) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Inter-Korean Relations in 2008”. Seoul/Korea. February, 2009.

(3) Institute for Far Eastern Studies. “State of the Market in DPRK”. North Korea Brief. nº 07-2-2-1. December 11, 2007.

(4) “Arab Firm Earn First Mobile License in DPRK”. Yonhap. January 30, 2008.

(5) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Key Statistics for Gaesong Industrial Gomplex. Seoul/Korea. December, 2009.

Viagem à Coréia do Norte:  "dinastia revolucionária" - Portal Vermelho

Viagem à Coréia do Norte: "dinastia revolucionária" - Portal Vermelho
Setembro de 2009
Elias Jabbour *

Após lua-de-mel dos intelectuais europeus com as virtudes sintetizadas dos impérios nascidos ao longo dos vales do rio Yangtsé, Ganes e Nilo, “Despotismo oriental”, foi o termo predileto utilizado por Voltaire para (des) caracterizar, por exemplo, o “Império do Meio” chinês. Dessa forma o Iluminismo dava forma a um eurocentrismo que iria influenciar, inclusive, nosso Karl Marx.

Porém, Voltaire não fora o primeiro a utilizar este termo, alguma centenas de anos antes, Aristóteles em pleno centrismo helênico, classificou o Império Egípcio e seus similares orientais como variantes de “Despotismo oriental”. Aristóteles havia se esquecido que a “democracia grega” havia condenado Sócrates à morte, pelo simples fato de ao analisar a decadência do homem grego, o mesmo havia concluído que decadência humana grega era proporcional à decadência de uma democracia que nunca havia existido. O próprio Aristóteles depois de um tempo teve de se cuidar muito para não ser condenado à morte por esta mesma “democracia”.

Complexo de Aristóteles

Analogias históricas podem ser encontradas na atual decadência do homem ocidental. A mesma “democracia” que assassina Martin Luther King, sustenta um governo que manteve Mandela 28 anos preso e faz vista grossa à transformação de residências turcas em fogueiras em Berlim, é a mesma que quer condenar à morte por inanição a Coréia do Norte só pelo fato de o regime de Pionguiangue ter decidido ser um país onde “ninguém mete a colher” e que não se esconde atrás do biombo da correlação de forças. Correlação de forças, que de centro da tática para Lênin, se transforma em refúgio ante a covardia intelectual.

Esta conjuntura de plena decadência humana ocidental, cravou no pensamento acadêmico sua visão de mundo. Aliás, hegemônica visão de mundo, onde a objetividade histórica foi substituída pelo relativismo na base da teoria do conhecimento. O pós-modernismo positivista é expressão, em matéria de produção científica, da contra-revolução iniciada com o fim da URSS. Suas influências abarcam, de forma nada surpreendente, muitos intelectuais de “esquerda”, militantes e ativistas sociais.

Nove em cada dez pessoas de nosso campo ao se referir ao regime norte-coreano se assusta e dispara: “socialismo aquilo, com dinastia?” Surpreendente? Não sei.

Eurocentrismo atual reacionário mais preconceitos intelectuais (fruto de limitações conceituais e teóricas) acabam que redundando numa visão do regime de Pionguiangue que repete tragicamente a visão de Aristóteles com relação à “periferia oriental” grega. É a moral como visão de mundo em detrimento da consciência de classe.

O complexo de Aristóteles está aí em 90% das opiniões sobre o regime de Kim Jong Il.

Sobre o modo de produção asiático

A dinâmica da base econômica reflete-se diretamente na superestrutura. Desse modo Marx, fugindo da esfera da circulação (tão cara aos dependentistas – estruturalistas e muitos marxistas latinoamericanos – ultrabajulados de nosso tempo), se supera ao buscar a compreensão dos fenômenos sob a ótica do processo de produção. Sua capacidade de visão de conjunto e percepção da diferença das dinâmicas produtivas em diferentes partes do globo o levou a superar o generalismo da Economia Política burguesa, para quem as leis econômicas têm caráter universal e não pautadas historicamente. Em Engels (Anti-Düring), a Economia Política difere-se de país para país, de região para região. Daí nós, comunistas brasileiros, acertarmos em afirmar acerca da não-existência de “modelos prontos” de socialismo.

Desta forma, ao analisar as diferentes formas de produção no planeta (trabalho necessário e excedente) pode diferenciar no bojo de cada modo de produção, diferentes modos de produção de caráter complexo, frutos de combinações de antigas com novas formas de produção. Entre eles, o modo de produção asiático.

O modo de produção asiático é algo típico de regiões onde a economia de mercado surgiu de forma precoce, consequências de relações homem x natureza propícia ao rápido desenvolvimento das forças produtivas. Sendo a economia de mercado resultado da produção de excedentes agrícolas, logo – condição objetiva – condicionando o surgimento de uma diferenciação social, a necessidade de um Estado, capaz de mediar a diferenciação social e – concomitante – ser dinâmico à arrecadação de impostos e retorno à sua base camponesa sob forma de grandes obras hidráulicas, torna-se algo de grande necessidade. Esse complexo mecanismo de mediação pode ser analisado no fato de há pelo 1.500 anos, na China, o instituto do concurso público já ser método de seleção de quadros ao serviço estatal, mandarinato.

Abrindo parêntese, a complexidade do modo de produção asiático é perceptível no fato de, diferente da escravidão greco-romana cuja propriedade privada da terra era o centro, a propriedade da terra era estatal e a escravidão se resumia a trabalhos penosos como o das minas. Numa sociedade desse tipo, com possibilidade de ascensão social, o caráter da superestrutura torna-se fluida, dependendo da capacidade do imperador ou rei em atender ou não as demandas camponesas por obras de contenção de desastres naturais. Logo, encontra-se sentido na famosa frase de Confúcio, para quem, “o poder emana dos céus, porém é revogável pelo povo”.

Marx e Engels elaboraram um grande “esquema ideal” do funcionamento das diversas sociedades de forma que tornam-se inteligíveis suas possíveis evoluções. Representações de esquemas podem-se tornar modelos que nos capacitem a ter uma visão apurada de diferentes processos históricos. Porém, além de histórico, o materialismo também é dialético. Logo, os chamados esquemas não devem ser levados ao pé da letra como vem ocorrendo em cada vez maiores exigências de periodizações e trabalhos acadêmicos. A periodização é o oposto da visão de processo histórico.

Em matéria de ciências sociais devemos estar preparados para tudo. Menos para a negação do movimento. Assim, devemos estar preparados, municiados metodológica e teoricamente ao desafio de analisar o estancamento de fluidez no âmbito das superestruturas e sua relação com outras determinações formadoras do concreto. Apesar de a superestrutura parecer estanque, tudo está em movimento. Inclusive a busca por soluções de caráter nacional ante determinadas imposições da conjuntura. Afinal, a própria governança por “laços de sangue” são parte deste tipo de solução de problemas conjunturais.

Mil anos de “Estado de Excessão” e problema do socialismo

O “complexo de Aristóteles” impede que se perceba o fenômeno presente coreano como problema histórico. Esta forma a-histórica de observar o fenômeno fora denunciada por Lukács como algo burguês. Não “burguês” no sentido esquerdista do termo. E sim, burguês, no sentido metodológico, para quem as coisas devem ser observadas como uma “fotografia”. De forma positivista, pós-moderna. Estática, parada, sem história...

***

Assim como a China, a Coréia é uma nação com uma história corrida de 5.000 anos. Formada às marges dos rios Yalu e Daetong, a posição geográfica do país foi fator essencial para que os coreanos nunca tivessem uma vida tranquila, até hoje. Fronteira com Império Chinês, proximidade com a Rússia, a Mongólia e o Japão. O caráter guerreiro e até militarista deste povo se explica no fato de nunca Genghis Khan ter passado do monte Paektu, muito pelo contrário. Os coreanos adentraram o território, então mongol, da Manchúria e conquistaram-no. Assim puderam formar um cordão protetor sanitário por muito tempo

Por volta do ano 1.000 d.C. é formado o reino da Coréia e em 1.300, o confucionismo, expressão da crescente influência chinesa, é absorvido neste país. Pressões japonesas desde o primeiro dia de funcionamento do Reino de Koryo, foram uma constante. Este reino até seus estertores teve de “armar até os dentes”. No século XIX sucumbiu diante da dupla pressão norte-americana (pressão pela abertura dos portos do país) e japonesa. Uma combinação geopolítica levou os japoneses a entrarem num acordo com os EUA: “não mexemos em seus interesses nas Filipinas e, em contrapartida, vocês não se metem e nossos negócios na Coréia”. Era o Congresso de Viena bipartite para o saqueio da Coréia e das Filipinas.

Assim como na Europa oriental do final do século XIX e início do de XX, tentativas de restaurações modernizadoras de tipo burguesa foram afogadas e revertidas em refeudalizações sangrentas, como a ocorrida na Hungria. Lênin, afirmou na época que: “o imperialismo japonês com toda sua brutalidade asiática fincava sua faca no coração da nação coreana.”

Assim, se contarmos todo esse tempo passado, mais a contemporânea existência da RDPC, contabilizaremos mais de 1000 anos de Estado de exceção.

***

Neste momento é importante cotizarmos esta questão mais ligada a história da Coréia com a própria história do socialismo. Independente do que pensam os assolados pela doença burguesa do “complexo de Aristóteles”, a opção que esse povo fez, e faz, cotidianamente é a da construção do socialismo. E estão pagando um preço muito caro por isso. Sublinhemos: caro demais.

A história das transições anteriores demonstra que a decadência de um modo de produção era acompanhada tanto pela incapacidade de as forças produtivas sociais darem conta das constantes necessidades materiais da população, quanto da ascensão econômica de um determinado setor da sociedade. Uma classe que aspirasse o poder necessitava de deter o poder econômico e como consequência, o poder político tornava-se a cristalização deste processo.

Pois bem, neste caso dois problemas à transição capitalismo x socialismo são postas: 1) o proletariado não aspira o poder político como demanda de acúmulo de forças no cerne de concentração de riqueza material. Ao contrário, para se tornar classe dominante economicamente, faz-se necessária a tomada do poder político, seguida pela instalação de uma ditadura (ao contrário das ditaduras burguesas, trata-se de uma ditadura da maioria sob a minoria: a ditadura do proletariado) que lhe permita concentrar, pouco a pouco, os meios de produção a seu controle e 2) Também diferentemente de outros processos de transição, a estratégia socialista é a primeira que enceta a abolição da exploração do homem pelo próprio homem.

Numa tendência histórica dada, fica a necessidade de refletirmos sobre como este tipo de abstração se aplica à RDPC com suas características moldadas pela história. Assim, creio eu com meus botões e limitações, que sobra muito pouco espaço para melodramas de tipo, “construção de canais sucessórios democráticos”, aplicação do modelo geracional chinês. A realidade é esta: país pobre, com recursos naturais escassos, uma geografia complicada... Nenhum país do mundo passou por uma campanha de difamação internacional tão grande quanto a Coréia do Norte. A União Soviética passou por algo semelhante? Sim, mas venceu a 2º Guerra Mundial, em seu território contavam com 97% dos recursos naturais necessários para a manutenção autóctone de uma nação e o mais significativo do ponto de vista político: contava com milhares de amigos e simpatizantes pelo mundo. Stálin não somente era um “deus” dentro da URSS, mas também uma figura divina nos quatro cantos do mundo onde houvesse um militante comunista e antiimperialista. Afinal, Stálin com todos os seus limites, em seu tempo, foi declaradamente o inimigo número 1 do capitalismo internacional.

Além do já exposto, o agravante da Coréia Popular reside, também, em outras determinações: além de ser o país mais cercado, estrangulado e sancionado do mundo, para muitos potenciais amigos, esta experiência não pode ser levada a sério. É pouco?

Evidente que uma nação em constante estado de excepcionalidade, pronta para ser estuprada e degustada pelos mais sedentos abutres da história humana, somente o que lhe resta é a busca de soluções nacionais para seus problemas. E é isto que reside a característica central da necessidade e imperiosidade da instalação de uma dinastia de caráter revolucionária.

Algumas questões para o debate (desculpem o mal jeito): se a URSS não suportou 70 anos de uma condição excepcional de cerco e aniquilamento imperialista (D. Losurdo), o que dizermos da Coréia Popular, um pequeno país montanhoso e com escassos recursos naturais? Pautaremos o problema partindo de pressupostos morais ou analisaremos a realidade da forma como ela é, e não de acordo com nossas brilhantes e incompreendidas mentes, capazes de ditar a velocidade do movimento de rotação do planeta Terra?

O socialismo Juche

Somente os ventos de uma revolução, executada por duas centenas de revolucionários bem organizados, capaz de derrubar uma das monarquias mais consolidadas do mundo, poderia lançar luz à novas formas de revitalização da nação coreana. A Revolução Russa, abriu as portas à organização consequente de revoltas camponesas que sangrassem até a morte a dominação japonesa na Ásia. Assim, surgem gênios políticos e militares da estatura de Mao Tsétung, Zhu De, Ho Chi Minh, Nguye Von Giag e Kim Il Sung.

Kim Il Sung nascido em 1912, filho e neto de líderes revolucionários, aos 14 anos de idade já era reconhecido como uma das principais lideranças antijaponesas do país. Sua produção intelectual, somente é comparada, quantitativamente, com a produção conjunta de Marx, Engels e Lênin. Para termos uma noção, suas Obras Completas são compostas por 82 volumes e suas Memórias em outros oito. Nada desprezível, tanto sua obra teórica quanto suas façanhas políticas. Ante o comando deste gigante, os EUA tiveram de assinar pela primeira vez na história uma declaração (quase) final de uma guerra em que eles não saíram vitoriosos. Saibamos, que desde sua independência (1776) os norte-americanos nunca ficaram pelo menos dez anos sem se meter em uma guerra fora de seus domínios territoriais.

Os 1.000 anos de Estado de exceção pela qual passa a Coréia produziu uma variante própria de teoria revolucionária. O que se chama de Idéia Juche, não se trata como eu acreditava, de um marxismo com características coreanas. Produzida por Kim Il Sung, a Idéia Zuche, aos coreanos, é uma transcendência do marxismo, sua superação, a solução dos limites das filosofias anteriores, entre elas o próprio marxismo. Particularmente classifico, a Idéia Juche, um mix de leninismo soviético (organização), mais herança confuciana (autoridade, ordem e a noção da nação como uma família chefiada por um chefe leal) mais igualitarismo típico das antigas sociedades agrárias (pequena produção mercantil) mais ultranacionalismo progressista asiático. Pode ser que esteja sendo superficial, mas em primeira vista é disto que me parece se tratar.

Em colóquios para exposição da Idéia Juche para mim organizadas pela Associação Coreana de Cientistas Sociais, os camaradas coreanos não escondiam suas desconfianças da dialética materialista. A diferença entre o marxismo e a Idéia Juche reside justamente nesta relação dialética entre homem e natureza. Aos “jucheanos”, o homem é a variável independente do processo. Capaz de moldar a natureza à sua imagem e semelhança.

Daí os inúmeros pontos de inflexão levantados por mim os debates, sendo o principal a defesa, de minha parte, da fator natureza como o (dialeticamente) limite e o potencializador da ação humana. Coloquei, por exemplo, aos camaradas coreanos que uma justa noção do funcionamento das leis da natureza é nodal à práticas racionais de política econômica. Como consequência desta visão de mundo, aos coreanos, a centralidade não se encontra no desenvolvimento das forças produtivas e sim no desenvolvimento de um ser-humano com firme caráter e formação ideológica. Disse a eles, fraternal e camaradamente, que desta forma umas de suas consequências poderá residir em práticas amplamente subjetivistas de planos de desenvolvimento, semelhantes às estudadas por muitos como o Grande Salto Adiante, levado a cabo por Mao Tsétung na China em fins dos anos de 1950.

O mais importante neste momento é evitarmos o subjetivismo e o “complexo de Aristóteles” no sentido de melhor compreender o surgimento desta forma Juche de enxergar as coisas. A principal delas, seria buscar analisar sucessivos processos históricos que vão desde a formação da nação coreana, até o processo de sua libertação nacional e a atual resistência ao cerco imperialista.

A filosofia e, consequentemente, a ideologia são produto de causa/consequencia das relações entre o homem e o meio que ele modifica e convive e essa relação não se restringe a isso, mas também – na mesma grandeza – com as relações sociais produzidas pelo homo sapiens, entre elas a sua exterioridade social; o noção que guardam de diferentes formas de os homens enxergarem a seus congêneres frutos de diferentes processos históricos.

Assim sendo não podemos desprezar a capacidade deste povo de enfrentar processos de ameaças, invasões e resistência ante inimigos nocivos e prontos para por fim a qualquer rastro de história da nação coreana. Os coreanos enfrentaram todos os seus desafios impostos externamente com um sucesso no mínimo surpreendente. Construíram uma nação industrializada quase que do nada. Infelizmente, a realidade como ela é se mostra suficiente para muitos simplesmente - e covardemente – não enfrentá-la.

***

Não me surpreenderia, caso alguns não estivessem estranhando minhas posições expostas. Com relação a esta experiência nunca pensei diferente. Que o diga meu amigo Pedro Cross. Nesse assunto (Coréia do Norte e outros), apenas dava – e me dou o direito de colocar – a cara a bater a meu mestre Mamigonian, e, invariavelmente... às vezes bato a “cara na parede”. É da exposição à contradição que se desenvolve a capacidade humana de avançar intelectualmente. Quem me conhece sabe que nem mil homilias, proferidas pelos mais “brilhantes” intelectuais “da moda”, são capazes de me convencer. A única forma de me convencer de tal ou qual assunto é a prova da história. Fora disso, não existe muita escolha, a não ser manifestações de insegurança intelectual, tentativa – sob os mais variados pretextos – de isolamento e de desqualificações de tipo fascista. Paciência.

O governo Songun

Vejamos e sejamos justos: Kim Jong Il é um estadista brilhante, não um arremedo de “enrolador social” - porém nacionalista – bem ao estilo de um certo personagem (João Grilo) criado por um nada “enrolador” Ariano Suassuna. Retornando, em meio ao “quiprocó” dos testes nucleares e o isolamento internacional, nossos irmãos coreanos ainda tiveram forças para enviar (sem parcerias com ninguém,muito pelo contrário) um satélite de observação ao espaço (2009), enquanto que a Coréia do Sul, humilhante e recentemente, falhou no lançamento de um similar com parceria russa. Como pode?

Mais impressionante, foi a recente visita de Bill Clinton ao país. Sob o pretexto de “ação humanitária”, Clinton veio em missão de resgate de duas jornalistas norte-americanas, justamente, presas pelo regime norte-coreano. Na verdade, Bill Clinton, chegou ao país em missão dada pelo atual presidente norte-americano Barack Obama, certamente com uma carta de intenções. Mas, ao observador mais arguto, uma imagem vale por mil coisas: nas fotografias espalhadas por agências do mundo inteiro,é muito clara a diferença de postura, pois enquanto Kim Jong Il parecia tranquilo, sorridente, vencedor, Clinton teve de sustentar uma verdadeira cara de intranquilidade, típica de um imperador que não está diante de um súdito tipo FHC. O objetivo, máximo do regime, de reconhecimento político e diplomático por parte dos EUA e o Japão, pode estar menos distante.

Retornando, acerca da “cara de tacho” de Clinton, na verdade, mais parecia um imperador romano pensando numa forma de se defender das armadilhas armadas, ao seu decadente escravismo, tanto por revoltas escravistas (Espártaco) quanto pelo dinamismo do modo de produção germânico.

Lá e aqui, “bárbaros” vencedores pregam peças, a seu modo, a impérios decadentes e em franco processo de busca por soluções que ao menos tornem mais soft seu pouso.

***

Qual a expressão superestrutural resultante da visão Juche de mundo?

Além de arremates históricos, das proezas da guerrilha antijaponesa, a expulsão dos invasores norte-americanos, recrudescimento da cruzada norte-americana pela Ásia e os estilhaços da Crise dos Mísseis envolvendo URSS, Estados Unidos e Cuba, tornaram-se condições objetivas à implementação de um chamado governo Songun, na segunda metade de agosto de 1962.

A governança Songun é a institucionalização e o pleno reconhecimento de um Estado de exceção que se recrudesceu com o fim da URSS, a primeira agressão, pelos EUA, ao Iraque em 1991 e à resposta norte-americana à sua lenta decadência econômica. Se o Iraque fora uma vítima, qual o motivo de não pensar o mesmo de um país que, repito, imputou – aos Estados Unidos – sua primeira derrota militar em quase 180 anos de busca de seu espaço vital pelo mundo?

Trata-se da primazia o militar sobre o civil, do soldado em relação ao proletário.

Fator de juízos de moral? Pode ser.

De minha parte comemorei o sucesso dos recentes testes nucleares executados pelo país e seu, consequente, poder de dissuasão ante ameaças externas.

O direito à existência da Coreia Popular, Por Elias Jabbour - Fundação Maurício Grabois

www.grabois.org.br

A morte do líder norte-coreano, Kim Jong Il, está fazendo renascer os mais podres sentimentos possíveis nos círculos reacionários, sobretudo na mídia colonizada. Uma infinidade de desinformações e caricaturas visando desqualificar o regime estão sendo lançadas hora após hora. Conforme feito com Kadhafi, o direito de um povo ao cultivo de sua história tem sido instrumento corriqueiro de desmoralização, no que tange as razões da comoção de um povo diante de seu líder e símbolo centenário de uma família cujo maior patrimônio foi a luta pela existência deste próprio povo em prantos. É como se o povo norte-americano fosse proibido, a partir de hoje, de cultuar os heróis de sua independência em 1776.

O mote midiático é demonstrar que a República Democrática e Popular da Coreia é uma anomalia internacional. Uma verdadeira entidade “maléfica”, pronta a invadir o seu vizinho do Sul e se possível se aliar e promover o terrorismo internacional. È apresentada como uma ameaça real à paz mundial. Um país que literalmente está matando seu povo de fome. Algo abominável cujo destino deveria ser o mesmo da Líbia de Kadhafi e do Iraque de Saddam Hussein. Um regime de “loucos”, agora prontos a explodir uma bomba nuclear no momento e na hora que acharem necessário. Esta história já conhecemos: é a mesma cantilena amplificada pelo imperialismo desde que em 1786 lançou-se em suas aventuras guerreiras externas. Ao desprover de história um país de 25 milhões de habitantes, busca-se condições objetivas ao fim de dominação. Mas a Coreia do Norte não é a Líbia ou o Iraque.

Aquele mesmo país que propugna os “direitos humanos” e a “democracia” foi capaz de destruir cada pilastra em pé da capital norte-coreana, Pyongyang, durante uma das mais brutais guerras do século XX. Além da Guerra do Vietnã, a chamada Guerra da Coréia (1951-1953) terminou com um armísticio em que a face da derrota não esteve com os coreanos do norte. Foi a primeira guerra em que os Estados Unidos, desde sua independência, tiveram de assinar um cessar fogo sem os louros da vitória. Evidente que dentro de uma subjetividade guerreira, assassina e suja, este mesmo regime que fez o imperialismo sentir o gosto da derrota, deveria ser derrotado e se possível ter sua terra salgada conforme feito pelos romanos em Cartago.

Essa condição de quase vitoriosa numa guerra com o mais brutal poder militar da história humana fez a Coreia do Norte desde então lutar diariamente pela sua sobrevivência como país. Fundada no bojo da ação de guerrilhas camponesas lideradas na década de 1930 por Kim Il Sung contra o nada democrático ocupante japonês, chegou ao poder em 1945 no embalo da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Membro da chamada Comunidade Socialista, desde o princípio buscou construir sua independência diante de seus próprios aliados. Forjou uma subjetividade de “autodeterminação” (Juche), constituiu sua própria base industrial e ainda no final da década de 1970 estava entre os 25 países mais industrializados do mundo, à frente da própria Coreia do Sul. Sempre fustigada pela presença do inimigo do outro lado da fronteira (30 mil soldados e ogivas nucleares acantonados no sul da península) tem passado por uma verdadeira prova de fogo desde o fim do bloco socialista no início da década de 1990, momento em que 78% de seu comércio externo desapareceu da noite para o dia.

Em 1994, morre Kim Il Sung o fundador do país, figura tida pelo ex-presidente Jimmy Carter como um dos “maiores estadistas do século XX”. As ameaças do imperialismo recrudescem a ponto de se impor um mortífero bloqueio econômico e financeiro. Algo de maior alcance que o imposto à Cuba e ao Iraque em seu tempo. A verdade é que a Coréia do Norte passou a ser a nação do mundo mais bloqueada, ameada e difamada desde o início da era dos Estados Nacionais formados na Europa no final da primeira metade do século XIX. Sua soberania é mantida a um grande custo financeiro que teve ápice há alguns anos atrás. A solução nuclear foi um imperativo diante de mais de 100 ogivas nucleares apontadas para o seu território e de ameaças cotidianas por todas as vias possíveis. O objetivo estratégico de reunificação com o sul da península tem sido solapado dia após dia pela própria presença do imperialismo na região. A solução pacífica do dilema da unificação coreana é algo cada vez mais distante diante de um imperialismo capaz de responder com mais violência diante de sua própria decadência.

É tarefa de todos os progressistas do mundo conhecer a real dimensão das opções norte-coreanas sob um verdadeiro cerco e aniquilamento imposto externamente. A defesa do direito à existência da Coreia do Norte se confunde com o próprio direito humano à vida. É algo de muito maior alcance do que nós próprios imaginamos.

Coletivizando no Youtube