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sábado, 15 de novembro de 2014

Carcereiro da Casa da Morte, Camarão é encontrado pela PF - Pragmatismo Político

Carcereiro da Casa da Morte, Camarão é encontrado pela PF - Pragmatismo Político

Polícia Federal encontra Camarão, o carcereiro da Casa da Morte de Petrópolis - um dos centros de tortura mais bárbaros do regime militar. Ele foi reconhecido pela Inês Etienne Romeu, única sobrevivente do local

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Antonio Waneir Pinheiro Lima, o ‘Camarão’ (Reprodução)
Das tristes lembranças que Inês Etienne Romeu carrega sobre os 96 dias de tortura a que foi submetida, uma imagem é mais presente que as outras. Ela jamais conseguiu esquecer o rosto redondo e a pele avermelhada do soldado cearense de codinome Camarão. Sentinela em uma casa no alto do morro Caxambu, em Petrópolis, na Região Serrana, o militar trabalhou em 1971 — auge da ditadura militar—naquela que ficou conhecida como a “Casa da Morte”, uma das principais estruturas do Centro de Informações do Exército (CIE) para assassinar opositores do regime.
VEJA TAMBÉM: Stuart, torturado e assassinado aos 25 anos
Inês só não conseguiu gravar com exatidão o nome do militar. “Wantuil ou Wantuir”, diz ela, desde que foi libertada da prisão em 1979. E durante mais de quatro décadas, por trás de “Camarão” estava o soldado paraquedista Antonio Waneir Pinheiro Lima, descoberto pelo jornal O DIA há três meses. “Eu reconheço”, afirmou Inês, ao verificar duas imagens do militar.
Poucas horas antes do dia em que a reportagem chegou a sua casa, Lima viajou e nunca mais retornou. Foi localizado na semana passada pelo Ministério Público Federal do Rio no Ceará. Amigos próximos confessaram que ele temia ser convocado pela Comissão Nacional da Verdade para prestar esclarecimentos sobre sua atuação na repressão. Por isso, se abrigou na casa de familiares no Nordeste.
Inês foi a única que conseguiu sobreviver à Casa da Morte. No depoimento que prestou à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ela denunciou que foi estuprada por Lima duas vezes no período em que esteve na casa. A um mês da divulgação do relatório final da CNV, a identificação do agente pode ajudar a elucidar o destino de cerca de 20 desaparecidos políticos que passaram pelo cárcere clandestino no Rio.
Entre eles, há expectativa de informações sobre um dos líderes da VAR-Palmares: Carlos Alberto Soares de Freitas, amigo de Inês e da presidenta Dilma Rousseff. De acordo com a sobrevivente, Lima confessou que Beto ou o comandante Breno, como era chamado pelos amigos e pelos colegas de militância, respectivamente, foi o primeiro prisioneiro da Casa da Morte. “Disse-me que Breno foi o primeiro terrorista que esteve preso naquela casa”, descreveu ela.
Aos 71 anos, Lima vivia até agosto deste ano uma vida modesta em Araruama, na região dos Lagos. Dividia os dias entre caminhadas à beira da lagoa e a leitura de jornais. O tênis de corrida ficava postado na garagem aberta, perto da porta de entrada. Ele é um homem que posa carrancudo. Não sorri nem nas imagens feitas por amigos em datas festivas. Na parede da sala de casa está o que restou da passagem pela tropa: o certificado de integrante da Brigada Paraquedista do Exército. Aos amigos mais próximos, Camarão dividiu o mesmo orgulho que exibiu a Inês sobre seu trabalho como segurança do presidente João Goulart antes do golpe militar. E também a cobiça que sentia ao observar a beleza da ex-­primeira-dama Maria Thereza Goulart em trajes de banho na piscina.
Camarão foi recrutado para a Casa da Morte pelo coronel reformado Paulo Malhães, falecido em abril. O oficial demonstrava intimidade com o antigo subordinado e se negou diversas vezes a fornecer a identificação do soldado. Homem de confiança de Malhães, Camarão esteve com o coronel em diversas missões importantes do Exército. Entre elas, aquela que ficou conhecida como a ‘Operação Juriti ou Medianeira’ e que teve como objetivo a captura e morte de Onofre Pinto, líder da VPR, e de outros cinco militantes em Foz do Iguaçu, no Paraná.
O soldado reformado do Exército integrou a Brigada Paraquedista e trabalhou como caseiro da Casa da Morte de Petrópolis no ano de 1971. Inês Etienne Romeu o reconheceu por meio destas imagens acima e o acusou de estupro durante o tempo em que ficou presa.

Camarão baleou pagodeiro do Grupo Molejo em 2004

A longa trajetória policialesca do soldado Antonio Wenair Pinheiro Lima não terminou quando os militares deixaram o poder. Camarão sempre foi conhecido na tropa por seus excessos com bebida, mulheres e festas — costume que impediu a ascensão de sua carreira militar.
Em 2004, Lima estava em um quarto da Pousada Veleta Flat, na Praia Seca, em Araruama, Região dos Lagos quando baleou o pagodeiro do Grupo Molejo Lúcio Francisco do Nascimento, 52 anos. Os dois que eram amigos, segundo testemunhas, acabaram discutindo e Camarão disparou quatro tiros em Nascimento: dois no tórax, um no punho e outro na coxa. O pagodeiro foi operado e sobreviveu aos ferimentos. Ele acabou acusado por tentativa de homicídio e ficou preso por 30 dias, mas depois foi absolvido.
Pouco antes de morrer, Malhães falava de Camarão com decepção ao citar as confusões envolvendo bebida. Ele contou que após as primeiras entrevistas nas quais admitiu seu trabalho na Casa da Morte em 2012, o ex-subordinado foi o único que o procurou, mas ele estava a caminho do médico. “Vem outro dia porque hoje eu estou indo ao médico e tal”, afirmou Malhães. Camarão nunca mais retornou.

Parentes querem que agente seja chamado pela Comissão da Verdade

A identificação de mais um agente desconhecido da Casa da Morte de Petrópolis reacendeu as esperanças de familiares de desaparecidos políticos. Sérgio Ferreira, primo de Carlos Alberto Soares de Freitas, considerou a descoberta “importantíssima”.
“É obrigação da Comissão Nacional da Verdade procurar essa pessoa reservadamente ou publicamente. Essa é uma novidade importante que não podemos deixar escapar. É fundamental que a CNV convoque ele ”, afirmou Ferreira.
Desaparecido na Zona Sul do Rio em fevereiro de 1971, o comandante Breno teve sua trajetória recontada no livro “Seu amigo esteve aqui”, de Cristina Chacel, em 2012.
Inês Etienne Romeu foi a única sobrevivente do centro de torturas. Ela contou que, quando esteve presa no local, foi informada por seus torturadores que Beto havia sido executado naquela casa. A dirigente da VPR também viu e conversou com Mariano Joaquim da Silva, ouviu as torturas a que foram submetidos Aluísio Palhano, Heleny Telles Guariba e Paulo de Tarso Celestino. Além disso, conforme depoimentos de militares, ao menos outros 15 desaparecidos podem ter morrido no local.
Juliana Dal Piva, O Dia

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Entre os facínoras, assassino de Carlos Nicolau Danielli

Portal Vermelho
Delegados de SP são indiciados por tortura e morte na ditadura

O Ministério Público Federal (MPF) ingressou nesta segunda-feira (30) na Justiça com um pedido de afastamento, perda de cargos e aposentadorias de três delegados da Polícia Civil de São Paulo que participaram diretamente de atos de tortura, abuso sexual, desaparecimentos e homicídios durante o regime militar (1964–1985).

Entre as vítimas apontadas na ação, estão o ministro da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Paulo Vannuchi, e seu antecessor na pasta, Nilmário Miranda.

A ação pede a responsabilização pessoal dos delegados do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Aparecido Laertes Calandra, David dos Santos Araújo e Dirceu Gravina. Além disso, o MPF quer que os três sejam condenados a reparar danos morais coletivos e a devolver as indenizações pagas pela União.

"Essas providências são indispensáveis para a consecução do objetivo da não repetição: as medidas de justiça transicional são instrumentos de prevenção contra novos regimes autoritários partidários da violação de direitos humanos, especialmente por demonstrar à sociedade que esses atos em hipótese alguma podem ficar impunes, ignorados e omitidos”, diz a ação assinada por seis procuradores federais.

Repressão

O Dops foi o órgão governamental que tinha por objetivo controlar e reprimir os movimentos políticos e sociais contrários ao regime. Calandra e David Araújo já estão aposentados. Gravina, o mais jovem dos acusados, ainda atua como delegado da Polícia Civil, em Presidente Prudente, no interior de São Paulo. De acordo com MPF, Calandra utilizava o codinome de Capitão Ubirajara, Araújo era conhecido como Capitão Lisboa e Gravina utilizava o apelido de JC.

A ação é assinada pelos procuradores Eugênia Augusta Gonzaga, Jefferson Aparecido Dias, Marlon Alberto Weichert, Luiz Fernando Costa, Adriana da Silva Fernandes e Sério Gardenghi Suiama. Eles identificaram os três policiais com base em depoimentos de ex-presos políticos e parentes de pessoas mortas pelo regime militar. Elas reconheceram os acusados em imagens de reportagens veiculadas em jornais, revistas e na televisão.

Torturas

A denúncia cita que Calandra teria torturado o secretário especial de Direitos Humanos da Presidência da República, ministro Paulo Vannuchi e seu antecessor, na pasta, Nilmário Miranda. Além dos dois ministros do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, Calandra, de acordo com o Ministério Público, participou também da tortura e do desaparecimento de Hiroaki Torigoe; da tortura, morte de Carlos Nicolau Danielli; da tortura do casal César e Maria Amélia Telles, além da montagem da versão fantasiosa de que o jornalista Vladimir Herzog teria cometido suicídio na cadeia.

O depoimento de Maria Amélia Telles, uma das peças da ação, indica métodos de tortura física e psicológica que teriam sido aplicados por Calandra e outros agentes a serviço do Doi-Codi, que envolveriam os filhos do casal. Maria Amélia relata que, numa oportunidade, após terem sido barbaramente torturados, ela e o marido foram expostos nus, marcados pelas agressões, aos filhos, então com 5 e 4 anos de idade, trazidos especialmente para o local como forma de pressioná-los.

Também prestou depoimento no Ministério Público Federal o atual presidente do Conselho Estadual de Defesa da Pessoa de São Paulo, Ivan Seixas, que foi preso aos 16 anos, junto com o pai, Joaquim Alencar de Seixas, torturado e morto pela equipe do Doi-Codi.

De acordo com o relato de Ivan Seixas, David Araújo, o “capitão Lisboa”, estava entre os torturadores. “Era o que mais batia”, disse. Seixas também contou que, como forma de pressão, os policiais o levaram para uma área deserta e simularam seu fuzilamento. Depois, foi colocado em uma viatura onde havia a edição da Folha da Tarde com a manchete sobre a morte de seu pai, mas, ao chegar no Doi-Codi, seu pai ainda estava vivo. Ele disse que, após a prisão, sua casa foi saqueada. Uma das irmãs de Seixas afirmou ao MPF que foi abusada sexualmente por Araújo.

De acordo com o Ministério Público Federal, Dirceu Gravina foi reconhecido em 2008, por Lenira Machado, uma de suas vítimas, durante uma reportagem sobre uma investigação que o delegado conduzia na cidade de Presidente Prudente. Presa por três dias no Dops, Lenira afirmou que teve toda a roupa rasgada por Gravina e mais dois policiais. Depois foi transferida para o Doi/Codi, ficando por 45 dias apenas com um casaco e um lenço.

A ação detalha que, em seu primeiro interrogatório no Doi/Codi, Lenira foi pendurada no pau de arara e submetida a choques elétricos. “Nesta sessão de tortura, conseguiu soltar uma de suas mãos e, combalida, acabou por abraçar Gravina – que estava postado a sua frente, jogando água e sal na boca e nariz da presa. O contato fez com que o delegado sentisse o choque, caindo sobre Lenira e, em seguida, batendo o rosto, na altura do nariz, em um cavalete”, destaca o documento.

“Após algumas horas, Gravina voltou do Hospital Militar, onde levou pontos no rosto, e retomou a tortura, a ponto de provocar uma grave lesão na coluna de Lenira e, mesmo assim, não suspendeu a sevícia. A tortura contra ela era tão intensa que, em um determinado dia, teve que ser levada ao hospital, onde lhe foi aplicado morfina para poder voltar às dependências da prisão”, relata a ação do Ministério Público Federal.

Gravina é também apontado pelos procuradores como o último agente a torturar o preso político Aluízio Palhano Pedreira Ferreira. Também foram vítimas de Gravina, de acordo com a ação os presos políticos Manoel Henrique Ferreira e Artur Scavone.

Agência Brasil e Vermelho









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