O
artigo abaixo foi escrito vice-presidente do Sinproep-DF, Trajano
Jardim, integrante da Comissão da Verdade dos Trabalhadores em
Educação do Setor Privado de Ensino, instaurada pela Contee. É um
testemunho vivo do que aconteceu há 61 anos. O golpe de 1º de abril
de 1964, não pode jamais se repetir.
Trajano
Jardim*
Alberto Broch, Chaparral, Victor Frota (CTB DF) e Trajano Jardim que do nosso lado enfrentou o negacionismo e o Bolsonarismo
Nos
dias que antecederam o 1º de abril (de 1964), a agitação deixava
todos dirigentes sindicais e políticos tensos. O comício da Central
do Brasil, de 13 de março, criara um misto de confiança e ao mesmo
tempo de preocupação sobre que rumo o País tomaria. Cada setor da
sociedade tinha uma avaliação particular de qual seria o caminho. A
imprensa corporativa, como sempre, semeavam provocações e boatos
sacudiam os noticiários dos jornais, do rádio e da televisão, que
nessa época ainda engatinhava. O Comando Geral dos
Trabalhadores (CGT), de há muito, vinha se reunindo com
regularidade, com o objetivo de avaliar a situação e organizar a
resistência ao golpe que, na opinião de vários diigentes, “estava
em marcha”.
Na
sede da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria
(CNTI), a maior organização laboral da América Latina, o entra e
sai era constante. A cada minuto chegava nova informação sobre a
situação. Os dirigentes do CGT, o portuário Osvaldo Pacheco, os
tecelões Clodesmidt Riani, e Hércules Correia, o marceneiro Roberto
Morena, o metalúrgico Benedito Cerqueira e o ferroviário e deputado
federal Batistinha, estavam em contato permanente com o comitê de
crise formado pelos partidos políticos e pela Frente Parlamentares
Nacionalistas e representantes do governo, com o objetivo de se
informar sobre o andamento da crise.
Em
vista do agravamento da situação, o CGT convocou uma reunião de
emergência no dia 29 de março, para avaliar a correlação de
forças em relação aos setores golpistas, na Guanabara liderados
pelo governador Carlos Lacerda, que no dia 19 liderara a “Marcha
com Deus pela Família” e se articulavam para derrubar o presidente
João Goulart e instituir uma ditadura no País. Participei dessa
reunião como representante dos gráficos do então Estado da
Guanabara. Naquela reunião foi discutida a proposta do deputado
Leonel Brizola, - líder da Rede da Legalidade em 196 - de
implantação do Estado de Sítio pelo governo João Goulart. A
maioria das principais lideranças das forças democráticas e
progressistas se posicionou contra tal proposta, endossando a
argumentação do líder do PCB, Luis Carlos Prestes, de que
“historicamente o Estado de Sítio sempre foi contra a classe
trabalhadora”.
O
Comando Geral dos Trabalhadores, na reunião da noite de 30 de março,
avaliou que o golpe era iminente. Assim, foi aprovada a deflagração
da Greve Geral Nacional no dia 1º de abril. Na nota dirigida à
Nação, o CGT afirmava que “só a resistência dos trabalhadores
nas ruas poderia barrar o golpe”. Afinal, só na Guanabara o
movimento sindical tinha conseguido mobilizar mais de 100 mil pessoas
no comício de 13 de março.
O
trabalho de mobilização foi intenso. O transporte de massa, que
naquela época era feito pelos trens da Central do Brasil e da
Leopoldina. No dia 1º foram totalmente paralisados. A Rádio
Nacional foi ocupada pelos funcionários liderados PE ló radialista
Emilson Froes, presidente do sindicato. A rádio abriu espaço para
os dirigentes sindicais convocarem os trabalhadores de suas
categorias a apoiar à greve geral. Fui indicado pela diretoria do
Sindicato dos Gráficos para conclamar os trabalhadores gráficos ao
movimento grevista.
Deixei
a rádio com alguns companheiros e quando chegamos ao Sindicato
soubemos que a polícia e o exército haviam ocupado a Rádio
Nacional e prendido os radialistas e funcionários que estavam no
comando da emissora e que o presidente Jango tinha embarcado para
Brasília, com o objetivo de organizar a resistência ao golpe.
Ficamos
de vigília no Sindicato esperando alguma orientação para lutar
contra o golpe. Corriam boatos de que o almirante Aragão comandante
do Corpo de Fuzileiros Navais iria organizar grupos de voluntários.
O local de encontro seria na Cinelândia. Nós, os militantes
comunistas, vimos que a situação estava sob o controle do exército
e da polícia. Algumas dezenas de pessoas se manifestavam com
palavras de ordem de “fora Lacerda”, “viva Jango”. Sabia-se
que o prédio da UNE fora incendiado pelo “Comando de Caça aos
Comunistas” e que em Brasília os militares favoráveis ao golpe de
Estado tinham pretensões de prender o presidente Jango e este, por
segurança, embarcara para o Rio Grande do Sul. Nossas esperanças se
esvaíram com a fina chuva daquela fatídica quarta-feira.
A
movimentação de carros da polícia era intensa. Naquele momento
éramos cinco, talvez seis gráficos militantes comunistas,
desnorteados em pleno centro da cidade do Rio de Janeiro. Um deles,
Francisco Nunes, que era secretário da base dos gráficos do PCB, o
“Velho Partidão” morava na Piedade, um bairro de classe média,
distante 30 km do centro do Rio.
Começamos
a caminhar pela Avenida Rio Branco vagarosamente fazendo as nossas
conjecturas do que seria o dia seguinte. Como não tínhamos
informações do desfecho daquela situação, a nossa expectativa era
de que o esquema militar do Jango funcionaria a partir do Rio Grande
do Sul, onde o comandante do Exército general Ladário Teles, era
fiel a João Goulart. Essa nossa esperança esvaiu-se. Nos dias que
se seguiram mostrou-se que não passava de vã esperança. Jango não
aceitou o enfrentamento. Hoje temos conhecimento que fora aconselhado
pelo ministro das Relações Exteriores Santiago Dantas, a não tomar
este caminho, tendo em vista que o governo estadunidense havia
postado a Quarta Frota no litoral brasileiro em apoio ao golpe.
Caminhávamos sob a fina chuva há algumas horas. Não havíamos nos
alimentado por todo o dia e não sentíamos fome nem sede. Francisco
Nunes instintivamente seguia rumo a Piedade.
Analisando
a situação de cada um de nós do grupo, concluímos que o mais
visado era eu. Por este motivo não deveria ir para minha casa
naquela noite. O Nunes aconselhou-me ir com ele para a sua. Todos
aceitaram a ideia. Os demais companheiros tomaram seu rumo e eu segui
com o camarada Francisco Nunes. Chegamos à piedade por volta das
10,30 horas. Tínhamos saído da Cinelândia às 15 horas. Caminhamos
7 horas e meia e estávamos molhados até os ossos.
A
nossa preocupação maior era saber das notícias pela televisão,
que naquela época era em preto e branco. Na telinha, ainda oval,
aparecia o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, (um dos líderes
da UDN, partido que era o esteio civil do movimento golpista), com
uma metralhadora em cima da bancada. Ele se apresentava como o grande
responsável de ter livrado o Brasil de ser dominado pelos
comunistas. Para nossa decepção, os noticiários davam conta de que
o Congresso, sob a presidência do senador Auro Moura Andarade,
embora o presidente constitucionalmente eleito estivesse ainda em
território nacional, considerou vaga a presidência da República,
destituindo de forma ilegal o mandatário do País e colocado na
presidência o deputado Ranieri Mazili.
Naquela
noite, por motivos óbvios, não pregamos os olhos. As emissoras eram
poucas. TV Tupi, Rio, Excelsior e as rádios. Ficamos
freneticamente girando os botões da televisão e do rádio, em busca
de notícias que pudessem nos dar algum alento. Para nossa decepção,
tanto nas TVs quanto nas rádios davam conta de que estávamos sendo
derrotados. O golpe se consolidava. Algumas lideranças sindicais já
apareciam como procuradas. Principalmente os dirigentes do Comando
Geral dos Trabalhadores. O dia amanheceu. E só aí a “ficha caiu”.
E agora, o que fazer? (voltávamos a Lênin, na derrota de 1905 na
Rússia).
Naquela
época a comunicação não tinha as facilidades de hoje. Os contatos
eram interpessoais e institucionais. Francisco Nunes e eu resolvemos
ir até o centro da cidade – agora de condução – ver como
estava a situação do Sindicato. No prédio onde funcionava a sede
fizemos contato com o Fabrício, que era o nosso companheiro que
administrava a entidade. Ele nos colocou a par da situação e disse
que só havia feito contato com Walter Torres, diretor-tesoureiro do
Sindicato.
Walter
Torres era de família religiosa e conservadora, mas era um
companheiro leal e solidário. Com o golpe militar nossas relações
estreitaram-se de forma muito forte. Ele sabia que, pelas minhas
atividades políticas partidárias, a qualquer momento eu poderia ser
preso e ele, junto comigo, por certo, iria ter complicações. Mas
Torres resolveu enfrentar e nós garantimos a continuidade do
Sindicato dos Gráficos, enquanto todos os demais diretores
desapareceram.
Torres
tinha um parente que era o pároco da Igreja Nossa Senhora da
Lampadosa, na Avenida Passos, 15, perto da Praça Tiradentes, próximo
ao Sindicato. Por três meses fizemos da igreja o nosso local de
funcionamento do sindicato. Ajudávamos a fazer velas e outros
trabalhos na igreja. A polícia ocupou o Sindicato por cinco dias,
Revirou tudo. Perguntou aos funcionários pelos diretores e levaram
uma bandeira da CGT argentina que viram pendurada na parede.
A
poeira baixou e retornamos ao Sindicato. Eu voltei para a empresa
onde trabalhava desde 1959. Em 1966, a com a repressão cada vez mais
intensa e com inclusão do meu nome no IPM da imprensa, fui demitido
por razões óbvias, embora a empresa tenha me pago todos os
direitos. A partir daquele instante concluí que a minha vida iria
virar “de ponta a cabeça”.
Não
queria acreditar nas previsões do velho Erasmo, camarada que me
filiou ao Partidão, quando dizia “esse é um golpe para 20 anos”.
Infelizmente ele acertou em cheio. Foram 20 anos, dos quais sete eu
vivi na clandestinidade e por quase dois exilado na saudosa
União Soviética.
Hoje
fui reconhecido como “perseguido político” e recebi as
“desculpas do Estado brasileiro”. Um sofisma que jamais trará de
volta milhares de militantes mortos, alguns fraternos camaradas, como
Itaí Veloso, (considerado meu querido irmão pela nossa semelhança
física), João Macena Melo, e muitos outros, que sofreram torturas
físicas e psicológicas, perderam aa sua vidas, por terem como crime
a esperança de construir uma sociedade justa, fraterna e
igualitária.
Deixaram
pela estrada da vida seus sonhos, interrompidos pela violência
absurda e cruel, que esperamos ver reparada de fato, sem sofismas.
Com a condenação dos criminosos torturadores. Embora, sessenta anos
depois, presenciemos cenas como a de oito de janeiro de 2023.
Aquele
1º de abril, eu vivi e sobrevivi.
_____________
*Trajano
Jardim é jornalista profissional, militante comunista há 65 anos.
Atualmente filiado ao PCdoB-DF. É diretor do Sinproep-DF e
integrante da Comissão da Verdade dos Trabalhadores em Educação do
Setor Privado de Ensino, instaurada pela Contee.