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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Mudanças no Brasil, no mercado de trabalho e na juventude - 4º Encontro Sindical do PCdoB - 2011 Paulo Vinícius Santos da Silva

Milhões de trabalhadores e trabalhadoras ingressam todos os anos no mercado de trabalho formal. Durante os oito anos do governo Lula foram gerados pelo menos 15 milhões de empregos formais (1). Segundo o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, a pirâmide populacional concentra na faixa etária de 15 a 34 anos mais de 35% da população brasileira (2), ou quase 67 milhões de pessoas. A População Economicamente Ativa (PEA), segundo dados do mesmo Instituto, reunia mais de 95 milhões de brasileiros(as) (3).

“Segundo dados do IBGE e projeções do IPEA, temos hoje a maior população jovem da nossa história em termos absolutos. Algo em torno de 50 milhões de brasileiros(as) entre 15 e 29 anos. Por outro lado, temos, neste momento histórico, um número proporcionalmente reduzido de crianças e idosos, em relação à população em idade ativa, o que proporciona uma baixa taxa de dependência econômica. Os especialistas chamam esta situação especial de bônus demográfico. Ou seja, os próximos 20 anos serão cruciais, se quisermos aproveitar este bônus demográfico e explorar cada vez mais o nosso potencial de crescimento. Por isso, cada ação voltada para a formação educacional e científica, de inclusão econômica e cidadã da juventude, hoje, não está simplesmente relacionada aos direitos individuais de uma parcela da população. Tal investimento está umbilicalmente ligado ao desenvolvimento do país” (4).



A nova realidade é marcada pelos efeitos da 3ª revolução técnico-científica. A cibernética e a informática levaram a um grande avanço na produtividade, com grande exploração, flexibilização e precarização do trabalho. A classe trabalhadora teve alterado profundamente o “seu perfil, mais diferenciado e heterogêneo, mais feminino e também mais numeroso. Categorias e ramos inteiros têm alterada a composição etária e de gênero. Ocorrem alterações nas relações e na proporção entre trabalho manual e trabalho intelectual e também na indústria cultural”. O acesso à internet, às redes sociais, à telefonia celular altera a comunicação, participação e informação.

Elevou-se a escolaridade média da força de trabalho. A dinâmica entre educação e trabalho também se altera, com consequências profundas num mercado de trabalho com altíssima rotatividade. Hoje é impensável uma trajetória profissional exitosa sem permanente qualificação.

A marcha do desenvolvimento brasileiro também interfere no mercado de trabalho. Amplia-se a construção civil, as obras de infraestrutura pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e as perspectivas da exploração do Pré-Sal alteram ramos fundamentais. O Estado se recompôs com concursos públicos em todos os níveis.

Amplia-se o ensino técnico, profissionalizante e universitário, tanto público quanto privado, e até setores populares chegam a carreiras elitizadas, com as políticas de cotas: Programa Universidade para Todos (PROUNI) e a Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). Com as 214 novas escolas técnicas federais teremos um grande impacto na formação profissional de nossa juventude. E a educação superior forma o triplo do que se formava há dez anos (950 mil contra 350 mil) (5).

Nesse curso, não devemos ignorar a característica da juventude como transição, marcada pela incorporação ao mundo do trabalho e a constituição de novo núcleo familiar, com particularidades e uma subjetividade própria. É avessa a preconceitos de gênero e de orientação sexual, conectada ao mundo, carente das lições da luta do século XX, profundamente marcada pela hegemonia neoliberal, disputada pelo capital e por outras formas de participação e ativismo, incluindo as demais forças políticas. E, embora ansiosa por participação, desconfia dos partidos políticos e dos sindicatos.




Atrair essa juventude para a luta dos trabalhadores significa abrir caminhos para uma militância que transborde das aspirações juvenis para ter consequência em uma militância para toda uma vida. Devemos aproveitar este momento para atualizar a possibilidade da realização pessoal com a luta pelo socialismo.

As mudanças no Brasil, na Classe e no Sindicato Classista


Ante tão importantes mudanças em menos de uma década, há que se refletir sobre a constatada “subestimação da composição social das fileiras partidárias e de suas direções” (6) – no que concerne à incorporação da classe trabalhadora, mais jovem e mais feminina –, em especial no seu movimento próprio, o sindical.

Com o avanço da juventude e das mulheres na composição da classe trabalhadora, devemos ser proativos na sua incorporação no movimento sindical classista, o que pode ser decisivo para a consolidação da CTB e a afirmação crescente do protagonismo conquistado. A CTB tem possibilidades tais que a vantagem estratégica da incorporação juvenil e feminina pode contar a nosso favor no desenlace futuro da atual correlação de forças entre as centrais sindicais. É elemento de vulto para armar o sindicalismo classista para a disputa da hegemonia na classe trabalhadora.

A vida aponta para o desafio do desenvolvimento permanente. O que não evolui, degenera. “As defasagens são sempre dinâmicas; supera-se uma, criam-se outras. A questão é se está em progresso ou em involução. A escala atingida hoje pelo PCdoB permite enfrentar o desafio proposto com novas possibilidades” (7).

Nesse sentido, as perspectivas são promissoras, mediante o enfrentamento das debilidades atuais com espírito criador e coletivo, em busca de superar o espontaneísmo dominante para aproveitar excepcionais oportunidades e posicionar o Partido para a estruturação consciente da CTB, de modo a fazer da central classista a mais juvenil e feminina central sindical brasileira.

Ao assumir tais consignas poderemos também contribuir para superar lacunas importantes da nossa política de quadros. Nossa destacada influência estudantil vinda da União da Juventude Socialista (UJS) entre os estudantes secundaristas, universitários e pós-graduandos não corresponde à incorporação dos quadros no movimento sindical, com influência social mais ampla entre os(as) trabalhadores(as) em profissões-chave ou na luta de ideias.

Tais limites cobram alto preço em uma política de quadros de largo curso. Somos portadores de uma eficaz tecnologia social que sensibiliza os jovens e adolescentes para a luta pelo socialismo de modo amplo e flexível, com vitórias em quase três décadas de hegemonia na luta estudantil e em suas entidades representativas. Cumpre-nos refletir sobre a debilidade de seguir adiante e levar esta juventude a seguir militando e se incorporar à classe trabalhadora. Trata-se de fazer da luta socialista mais que aspiração juvenil, um objetivo de toda uma vida.

O desafio de incorporar o trabalho à formação de nossa juventude corresponde à necessidade de incorporar a juventude em nosso movimento sindical. E na etapa inédita vivida pelo nosso país, e pelo Partido, pode ser uma chave importante na luta que travamos por uma influência maior na sociedade e por um novo projeto de desenvolvimento.

Cumpre-nos, portanto, levar adiante a reflexão feita no 12º Congresso do PCdoB, que colocou para si o desafio de: “impulsionar a consciência de classe e ser a representação política e social dos trabalhadores e das trabalhadoras brasileiros da cidade e do campo, no sentido de constituí-los como classe que lidere um novo poder político. E capaz de conquistar apoio de massa a seu pensamento político, aglutinar as bases sociais fundamentais em torno desse projeto – os trabalhadores, a juventude, as mulheres e a intelectualidade avançada”.

Ao identificar claramente os atores desse processo, o 12º Congresso do Partido resgatou a síntese do 11º Congresso, realizado em 2005, ao apontar: “a chave para os futuros desafios do Partido é, agora, formar larga estrutura de quadros, de nível superior, intermediário e de base, assentada em uma profunda compreensão da exigência de unidade de ação de todo o Partido”.

De tal sorte que as oportunidades se situam na centralidade dos trabalhadores e trabalhadoras enquanto classe fundamental, capaz de lograr a influência necessária nos setores prioritários para a revolução brasileira, bem como na possibilidade dessa incorporação dos filiados permitir distintos níveis de responsabilidade, com destaque para o nível intermediário e de base. Vivemos um momento alvissareiro, que conta com um instrumento de massas privilegiado, a CTB, e os momentos político e econômico favoráveis, em uma sinergia jamais vista em nossa história. A simultaneidade de possibilidades não é fortuita, mas coerente com a luta pelo socialismo. Mas pode esbarrar no espontaneísmo, pois tais desafios demandam movimento consciente e planejado.

A importância das Gerações Militantes

A renovação do movimento não é tarefa exclusiva dos jovens, ainda que protagonistas do presente e do futuro, mas de quem está comprometido com a luta pelo socialismo. Parte importante de nossa militância atual no movimento sindical forjou-se na luta contra o regime militar, foi combatente inflexível contra o neoliberalismo, protagonizou a vitória na eleição de Lula e ajudou a fundar a CTB. Mas seu êxito só será completo se assegurar nosso crescimento contínuo, acolhendo e armando a nova geração para a luta pela hegemonia classista na classe trabalhadora. E, observando o crescimento da juventude nas bases de categorias tão importantes, devemos concretamente nos perguntar: que percentual de jovens e mulheres devemos ter em nossas direções para representar verdadeiramente a classe?

Decisivo é criar condições para que a juventude trabalhadora encontre na central classista o seu melhor instrumento na luta contra o capital. Deve partir dos(as) comunistas a iniciativa de construir na CTB espaços amigáveis à juventude, com horários, dinâmicas e, principalmente, responsáveis permanentes para a consolidação da frente, desenvolvendo uma dinâmica de atividades (inclusive esportivas e culturais) e linguagem que possibilitem sua incorporação na CTB.

Trata-se de desenvolver uma tecnologia social própria, a exemplo do que nossos camaradas comunistas do PCdoB já fazem no movimento estudantil, de incorporar a nova geração de trabalhadores ao movimento sindical e apontar- -lhes a perspectiva socialista. Isso só será possível se constituirmos um contingente próprio de comunistas jovens a tratar da organização juvenil classista entre os trabalhadores.

A geração atual de dirigentes sindicais comunistas é a fiadora do ambiente que estimule estreita colaboração entre estudantes e sindicalistas, jovens e adultos, comunistas, socialistas e independentes, homens e mulheres, para consolidar a CTB e assegurar-lhe um futuro vitorioso. Importante também é usar em nosso favor a necessidade de realizar as transições, de tratar concretamente da renovação e da permanência nas direções dos sindicatos, de nos constituir em todos os sindicatos os departamentos juvenis e de observar as mudanças na classe e entender a importância de influenciar o local de trabalho, o que demanda uma militância mais extensa ao nível intermediário e da base, com significado particular para a juventude.

Se aos(às) trabalhadores(as) não se admite no mundo produtivo uma trajetória profissional exitosa dissociada da qualificação permanente, devemos alterar o ideal do militante liberado permanentemente para o movimento sindical e incorporar à nossa lógica de militância a dinâmica de permanência-renovação, compreendendo que sua direção natural é a da renovação das direções, sem rupturas com o legado de luta, mas rompendo com o personalismo, o cupulismo e a burocratização que são obstáculos reais a uma sólida e mobilizada base de massas.

À pluralidade de categorias prevista no estatuto partidário (filiado, militante, quadro) devem corresponder distintas possibilidades de participação na luta dos trabalhadores, em consonância com a responsabilidade das tarefas de uma militância na base, de nível intermediário e de quadros, com a construção de um sistema mais amplo que esteja voltado a uma influência muito maior na sociedade brasileira.

Tal percepção deve romper com a estagnação muitas vezes verificada a partir da liberação sindical, e deve ousar ao abrir horizontes, compatibilizando a vida individual e a militância. Num contexto democrático, a participação política não deve ser sinônimo de sacrifício ilimitado ou paralisação e estagnação das possibilidades profissionais de cada um(a), apesar de não nos iludirmos quanto à importância do compromisso imenso que se exigirá sempre dos quadros. Somente uma rede mais estruturada e ampla poderá assegurar uma influência maior dos sindicatos sobre os(as) trabalhadores(as), e da Classe organizada sobre a sociedade. Isso demandará uma presença militante não apenas nas diretorias das entidades, mas nos locais de trabalho e na vida cotidiana, uma influência social muito maior da militância comunista, de seus aliados e amigos.

Essa ligação mais profunda com a base chama o movimento sindical a ser um espaço intergeracional, democrático, de igualdade entre homens e mulheres, e não reprodutor de discriminações. Para nós, é claro que a incorporação destas mudanças pode assegurar ao movimento sindical o espaço que lhe cabe no mundo de hoje e descortinar novos horizontes para o futuro. Que possamos, ao olhar para as transformações em curso, nos preparar para não menos que a vitória, dizendo corajosamente, como Che: “O alicerce fundamental de nossa obra é a juventude. Nela depositamos nossa esperança e a preparamos para tomar a bandeira de nossas mãos”.

*Paulo Vinícius é sociólogo, bancário do Banco do Brasil, secretário de Juventude Trabalhadora da CTB Nacional e diretor de Imprensa da CTB/DF.

Notas


(1) http://www.mte.gov.br/sgcnoticia.asp?IdCo nteudoNoticia=7577&PalavraChave=caged (2) http://www.ibge.gov.br/censo2010/piramide_etaria/index.php

(3) http://www.ipeadata.gov.br/ExibeSerie.x?se rid=486696855&module=M

(4) MOREIRA, Danilo. Juventude e desenvolvimento: uma nova agenda para um novo tempo.

(5) http://portal.mec.gov.br/index.php? option=com_content&view=article&id=16511

(6) 3º Encontro Sindical Nacional do PCdoB.

(7) Livreto virtual “Mais vida militante para um Partido do tamanho de nossas ideias” – Material de subsídio para o 7º encontro Nacional sobre Questões de Partido, disponível em http:// admin.paginaoficial1.tempsite.ws/admin/ arquivos/biblioteca/7_encontro_questoes_partido15119.pdf, p. 62

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

A comunicação é uma parte da solução - Paulo Vinícius da Silva

Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a tua, sem a tua
Sem a tua companhia?
Peixe-vivo - Domínio Público

Eu tô te explicando pra te confundir
Eu tô te confundindo pra te esclarecer
Tô iluminado pra poder cegar
Tô ficando cego pra poder guiar
Tô, Tom Zé.


O Presidente Lula avança para centralizar e repercutir seu discurso e as ações de seu governo e também de seu partido. Atende, assim, à principal demanda de sua base de apoio. Na boca da esquerda, a expressão “o problema é a comunicação” só perde para Lula Presidente.

Assim, ter quadros políticos como Sidônio e Edinho une o melhor dos dois mundos. Sidônio é muito bem referido entre quem militou com ele no Glorioso, em política e técnica. Edinho Silva tampouco pode ter ignorada sua exitosa experiência na Prefeitura de Araraquara, em meio ao tiroteio das fake news e sob a COVID 19. Militância, confiança, domínio das ferramentas, tudo isso concorre para o bem, quando avultam as evidências da nossa defasagem nessa frente de luta.

Ao mesmo tempo, evidencia-se o elogio da substituição da política pela técnica e esse deslumbramento diante das “redes sociais”, ambas expressões da nossa condição de “usuários”, e não “desenvolvedores”. Cabe um parêntese: curioso, em termos de adicção química se utiliza a mesma expressão, “usuários”, para referir-se a quem sob seu domínio. Se o conhecimento de si mesmo, do adversário e das condições em que a batalha ocorre, compõem os elementos básicos para vencer qualquer guerra, precisamos de um olhar distinto do adicto, diferente do usuário, um olhar que penetre nas aparências e supere as necessidades de curtíssimo prazo, a próxima dose.

“Resolvido” o problema da comunicação, venceremos?! De fato, sem comunicação será impossível vencer. Mas, igualmente vã é a ilusão de vencer sem política. A política é insubstituível. A verticalidade do comando de Lula é a solução de curtíssimo prazo para um problema sistêmico, a unidade popular e sua feição. Nosso Garrincha pede a bola, toma a responsabilidade, e isso é sinal de boas jogadas, mas ao mesmo tempo ilustra nossa dependência e a judiação que promovemos contra nosso Líder. É preciso apoiar esse esforço, mas sem condescender com nossas próprias deficiências, nem criar problemas.

A primeira metade do terceiro mandato de Lula esgota muitas ilusões com a Frente Ampla, ao mesmo tempo que explicita uma correlação de forças dificílima, que indica não ser possível abrir mão dos “aliados”, sejam reais ou falsos. Mas é evidente que falta no nosso esquema tático a participação do povo organizado. Nossos grilhões não serão quebrados a partir da institucionalidade capturada pelo neoliberalismo. O tempo ruge. Se o povo for espectador na guerra de posições que envolve os poderes da República, a oligarquia financeira e seus instrumentos políticos e midiáticos, teremos resultados que sempre subordinarão as conquistas da Frente Ampla aos limites do Arcabouço Fiscal. É preciso o povo entrar no jogo.

Nosso batente está muito alto para o nosso povo saber-se parte dessa luta. É preciso baixar o batente para que multidões possam participar do jogo de mudar a democracia. A luta pela hegemonia não é uma conversão às ferramentas do inimigo, muito menos um caminho suave, sem dores, como se nossas vidas não estivessem em jogo. É uma luta de milhões, e o líder encarna essa força. Mas essa liga do(a) líder com a Nação através das massas, o Bloco Histórico, precisa de instrumentos, sob a pena de o legado se perder, mais uma vez. Pensem no Getúlio, em JK, no Jango. Não nos faltaram líderes, não faltou generosidade, não faltaram amplas alianças. Falta a política descer ao nível das pessoas reais e subir como força organizada, tomando parte do processo de mudança.

Precisamos de Lula, de Frente Ampla, de comunicação eficiente, mas, sobretudo, de Política e de Unidade Popular.

terça-feira, 14 de janeiro de 2025

Centro de Estudos Sindicais - Ciclo de Palestras - Como enfrentar a Extrema-Direita?




ATENÇÃO - INSCRIÇÕES PARA O CICLO DE PALESTRAS REMOTAS FORAM PRORROGADAS ATÉ 18 de janeiro de 2025!

Nos dias 21, 22,23 e 24 de janeiro de 2025, em períodos alternados, matutinos e noturnos, será realizado o Ciclo Nacional Remoto de Palestras Formativas do CES.

📌 A programação está imperdível. Confira:

Tema central: “Como o movimento sindical pode contribuir para conter o avanço da extrema-direita”.

 21.01.2025 – 9h às 12h - Fundamentos básicos da extrema-direita: O que é guerra cultural? Qual o impacto da extrema-direita sobre a classe trabalhadora? Por que ela atinge mais a classe trabalhadora do que a esquerda? Palestrante – Sr. Michel Ghermann 

 22.01.2025 – 19h às 22h - Respostas da esquerda: Como a esquerda tem enfrentado concretamente o avanço da extrema-direita? Quais ajustes são necessários na atuação? Palestrantes: Sr. Aldo Arantes e Sr. Renato Meirelles 

 23.01.2025 – 9h às 12h - O avanço da extrema-direita no Brasil e no mundo: Uma análise do Brasil, América Latina, Palestina e outros países. Palestrantes: Sr. João Cézar de Castro e Sr. Wevergton Brito Lima

 24.01.2025 – 19h às 22h - Situação atual do movimento sindical no Brasil: Desafios e estratégias no enfrentamento à extrema-direita. Palestrantes – Sra. Andréia Galvão e Sr. Altamiro Borges

🎫Sobre os valores de inscrição:

👉Entidades não conveniadas com o CES:

📍De 1 a 4 participantes: R$150,00 por pessoa

📍5 ou mais participantes: R$130,00 por pessoa

👉Entidades conveniadas com o CES:

📍De 1 a 4 participantes: R$120,00 por pessoa

📍5 ou mais participantes: R$100,00 por pessoa

🧍‍♀️Inscrição individual (pessoa física): diretor(a) de entidade sindical ou não:

📌1 participante: R$150,00 por pessoa

📌5 ou mais inscrições: R$130,00 por pessoa

✏️Para efetivar sua inscrição realize o pagamento através dos dados abaixo:

☑️CENTRO NACIONAL DE ESTUDOS SINDICAIS E DO TRABALHO - CES

Banco do Brasil

Agência: 303-4 (incluir o dígito da Agência somente se for solicitado)

Conta Corrente: 106781-8

CNPJ: 08.742.211/0001-01

PIX – Código CNPJ: 08.742.211/0001-01

🗣E não esqueça, envie o comprovante de pagamento para o e-mail: inscricao@cesforma.org.br - informando nome completo, telefone, e-mail do inscrito e nome da entidade.


😉Não perca essa importante atividade formativa. Será uma honra contar com sua presença. Inscreva-se!

❤️Quem se forma, transforma!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

A luta continua - Paulo Vinícius da Silva


Porque no unirnos?

Y luchamos como hermanos

Por la patria que esta herida!

Nuestra patria la que amamos!

Alí Primera - Dispersos

Finda o ano de 2024, importante por nos abrir os olhos para a complexidade e a dureza da batalha pelo Brasil. A finitude de Lula se expôs aos olhos de todos, assim como a correlação de forças. Roberto Campos Neto, Arthur Lira e muitos mais, assumiram a ribalta para dizer não ao Povo Brasileiro. Lula pediu juros menores; e os juros subiram. Lula fez o emprego e a economia crescerem mais do que se esperava; e foi criticado por isso. Ele pediu que os ricos pagassem mais impostos; e eles disseram não. Só com Lula doente, o mercado celebrou,  ficou na torcida contra sua saúde, mantendo a afiada faca no pescoço do governo. E exigiram no altar de Mamom o sacrifício dos mais pobres no Pacote, colocando o Arcabouço Fiscal como moldura a enquadrar a Frente Ampla.

Em economia, Bolsonaro fez o que quis, impunemente. Já o Presidente Lula é cercado, atacado, contido, sabotado. Presente de Natal é para bom menino, e ninguém é melhor menino que o Brasil - Haddad e Galípolo o provam - mas não apenas eles. Nosso pedido de ata de eleição à Venezuela, nossas ilusões com o Partido Democrata estadunidense, nossa crença numa política externa altiva sem soberania nacional e sem as FFAA, o pensamento positivo mágico da via institucional brasileira, nossa crença no judiciário brasileiro e no Xandão. Haja esperança no nosso Garrincha, para dar o drible da vaca em todos. Não basta ser bom menino, nem diversas vitórias no PIB, na indústria, na distribuição de renda, na redução da miséria e no emprego. Uniu-se o andar de cima para dizer “assim, não pode, assim não dá”, o presente é deles, a conta é para o povo. Não se trata, portanto, de ser um bom governo, mas ter força suficiente para o defender da fome canina dos especuladores financeiros, insaciáveis.

Ao líder comunista paraense João Amazonas se atribui afirmar ser necessário ao povo “fazer sua própria experiência”. Sempre comentamos isso sobre a importância de ver desfazerem-se ilusões, e assim entender os limites e buscar saídas. Contudo, se apenas quebrar convicções e afirmar princípios bastasse, o trotskismo teria dado certo… É preciso encontrar e trilhar caminhos, ou ver prevalecer o medo e a desconfiança, a antessala da derrota. O que aprendemos com esses dois anos? Qual a lição da história das mudanças no Brasil sem a organização popular? Bastam o líder e o acordo? As virtudes de D. Pedro II anularam a manutenção da escravidão por décadas?

Tempos interessantes são os que vivemos; uma de suas vantagens é quebrar as certezas do passado, tão fortes no presente, tão distantes do futuro. É aí que se afirma a capacidade de agir frente à História e, no Brasil, frente a si próprio, como Nação. O papel de Lula é muito maior que fazer seu governo “dar certo”. A política é muito mais que a sua institucionalidade. Líderes de sua estirpe falharam exatamente quando não foi possível manter o seu legado, não em em empresas, não em leis, mas em povo organizado. Getúlio caminhou muito desde uma inicial posição de direita - quando reprimiu o Partido Comunista - até escrever o apelo ao Povo Brasileiro, na Carta Testamento. 

Ao relembrar tantas obras e direitos que marcam o Brasil ainda hoje, Getúlio afirma uma esperança: “meu nome será a vossa bandeira de luta”. Sua trajetória política foi em direção ao Povo Brasileiro e contra o imperialismo, e foi aí que reencontrou os comunistas, foi aí que o Lula o achou, na prisão em Curitiba. De fato, o nome de Getúlio segue vivo até hoje, mas faltou-lhe a organização, ele ficou sozinho, apesar do tanto que organizou os trabalhadores, as leis e a economia brasileira. Na hora final, nem os comunistas o apoiamos. Entre o líder e as massas havia um fosso, e por aí o imperialismo se impôs, para dividir e reinar. Num supremo gesto de sacrifício e palavra, Getúlio nos lembra que nem o melhor dos líderes basta, sozinho.

Lula deixará seu nome tanto mais cravado na História quanto mais abrir caminho à afirmação da Nação Brasileira, cuja defesa só pode ser feita pelo seu povo, pela classe trabalhadora. Nada está assegurado. Qual instrumento será capaz de continuar essa via de transformação? Reconhecer o gigantesco patrimônio do PT e da CUT para a esquerda brasileira e a sua classe trabalhadora deveria precisamente levar-nos a construir a solidariedade organizada entre quem cerre fileiras em defesa do Brasil, da classe trabalhadora e da democracia.

Parte dos problemas que enfrentamos repousa na crença dos poderes mágicos da democracia burguesa brasileira e do Presidente Lula, que se expressam na crença do Executivo rompedor de barreiras… Mas foi precisamente esse Executivo mutilado em seus poderes de transformação social, inclusive no orçamento público, na independência do Banco Central e na permanente ameaça de deposição pelo Congresso. Não fosse isso suficiente, vivemos uma época de ascensão do fascismo, com o protagonismo da extrema direita a serviço do capital rentista parasitário. É uma forma de imperialismo tão extrema quanto incapaz de sanar as chagas ambientais que comprometem o futuro. Só são capazes de se enriquecer, empobrecer-nos e enganar, mas são impotentes diante dos problemas urgentes, muito maiores que dinheiro e mentiras.

Diante da mudança do eixo da economia mundial para a Ásia, o imperialismo só conhece a resposta do fascismo e da Guerra, que se faz com armas jamais imaginadas, nucleares, cibernéticas, conceituais, econômicas. A perspectiva socialista é a única capaz de reunir pluralidade, diversidade e a ruptura com o consumismo suicida, capaz de unir a inteligência, a arte, a técnica, o trabalho nas novas tecnologias para que possamos sobreviver e caminhar rumo ao futuro da evolução humana. Há todavia muita treva, é preciso brilhar mais forte, é preciso desviar-se de armadilhas, de becos sem saída.

Não são idênticos o governo e o Líder. Em 2003, já era o governo em disputa, avalie agora. Lula tampouco se limita ao PT, nem está definido o seu futuro. Por isso mesmo, eles precisam impedir o Lula de dar resultados. Já em nosso campo, como ele mesmo disse, é preciso fazer com que Lula se torne o povo.

Precisamente nesse momento, há imensa confusão no debate entre a relação Líder-Massas e mesmo na relação Líder-Governo-Partido-Movimentos. Um dos limites da formação da Nação Brasileira repousa precisamente no papel repressor do Estado em relação à maioria do povo, a sua incapacidade de nuclear a Nação como um todo. Nesse sentido, é ardilosa a trilha fácil da crença ilimitada na via institucional, esperança do burocrata. 

Há 200 anos, alertou José Bonifácio, já na primeira Constituinte sobre os limites do Estado brasileiro em cumprir o papel de nuclear a Nação, e seu alerta dói até hoje, por ignorado que foi:

“não temais os urros do sórdido interesse ; cumpre progredir sem pavor na carreira da justiça e da regeneração politica ; mas todavia cumpre que sejamos precavidos e prudentes. Se o antigo despotismo foi insensivel a tudo, assim lhe convinha ser por utilidade propria ; queria que fossemos um povo mesclado e heterogeneo, sem nacionalidade, e sem irmandade,para melhor nos escravizar. Graças aos céos, e à nossa posição geographica, já somos um povo livre e independente. Mas como poderá haver uma constituição liberal e duradoura em um paiz continuamente habitado por uma multidão immensa de escravos brutaes e inimigos? Comecemos pois desde ja esta grande obra pela expiação de nossos crimes e peccados velhos. Sim, não se trata sómente de sermos justos, devemos tambem ser penitentes ; devemos mostrar à face de Deos e dos outros homens, que nos arrependemos de tudo o que nesta parte temos obrado ha seculos contra a justiça e contra a religião,que nos bradam accordes que não façamos aos outros o que queremos que não nos façam a nós.

Em vez do papel progressista, o Estado serviu para afirmar a divisão de cidadãos de primeira e segunda classes.  O Estado aparece na favela com o caveirão, do mesmo modo como aparecia diante dos quilombos de outrora.  Não dá para ter essa fé no Estado, no governo, em especial quando não se tem fé na capacidade de luta do povo brasileiro, nosso sujeito histórico. É ainda o projeto de José Bonifácio que Lula defende, mas seguem pulverizados os interesses maiores da Nação. O grande problema histórico do Brasil não é a construção de grandes acordos nacionais, mas que a maioria conservadora se volte contra e alije o povo de sua própria vitória. É preciso construir uma força popular de massas capaz de nuclear a luta em defesa do Brasil e, ainda é tempo, sob a liderança de Lula.

Gramsci aludiu ao Partido Comunista como o Príncipe Moderno, capaz de encarnar o protagonismo que Maquiavel reservava ao soberano, aquele que une as forças dispersas para a fundação do Estado Nacional italiano. Muita água passou sob essa ponte, desde então, e não enxergo como atual a crença no partido, seja qual for, que permitisse essa união. Na passagem do século XX para o XXI, a esquerda lartino-americana rompeu com essa segmentação e com a via da correia de transmissão entre partidos e movimentos. Foi no caldo de cultura dos grandes eventos e redes latinoamericanos que a luta social e política se transformou em frentes heterogêneas, progressistas e críticas ao neoliberalismo que ascenderam ao governo de nossos países. Por isso mesmo,a  noção de Bloco Histórico, de Frente Ampla e Frente Popular são importantes para compreendermos o desafio de unificação que nos cumpre para a preservação do Brasil, sua afirmação como Nação. 

Quando deixou de ser importante a realização dos fóruns sociais mundiais, dos congressos estudantis massivos, das grandes marchas e encontros de trabalhadores? O povo é o verdadeiro heroi da nacionalidade. É preciso ter lugar ao povo organizado na Frente Ampla. Permanecemos desconfiados uns dos outros, seguros por um fio de esperança que se chama Lula. 

Diante de nós, ameaçadores, perfilados, estão a extrema direita, o “mercado”, a imprensa empresarial financeira, o centrão e os 1% mais ricos. Estamos como gestores de uma máquina que sempre foi deles, que faz nosso trabalho fluir da produção para a especulação, do pequeno para o grande, do pobre para o rico, da maioria para a minoria, pois para isso servem o capitalismo, a polícia, o “mercado”, as forças armadas e o judiciário. Para isso serve a separação de poderes articulada aos poderes ocultos de sempre. Quando foi que a via institucional, o Estado Burguês, ainda mais no Brasil, adquiriu poderes supremos em favor da classe trabalhadora em tempos de fascismo? É a teoria errada, na hora errada, com as ferramentas erradas. Nem se fosse monarquia absoluta. Falta povo nesse jogo em que o poder de veto é da burguesia rentista, parasitária e entreguista.

Hugo Chávez cortou o nó górdio que separava as vias da Reforma e da Revolução, pedra de toque da divisão no seio da esquerda mundial no século XX. Em vez de render-se ao Estado, cercá-lo. Erigir o espaço do povo na Constituição. Disputar o poder com o aval popular como recurso final, antes das armas, mas jamais confiar em exércitos mercenários para cuidar dos interesses do país. E o povo seguiu com capacidade de se defender do imperialismo, mesmo sem Chávez, em frente popular. Não é a forma, é a luta e aonde ela quer chegar. Poderá o Presidente Lula pactuar o Povo com o Estado e dar continuidade à construção da Nação Brasileira, a exemplo de Getúlio Vargas? Dependerá muito de Lula, mas lhe ultrapassa, depende também de nós.

Já estão ao nosso lado quem poderá salvar o Brasil. O século XX esmaece e forças novas pulsam, aflitas, diante de um mundo aferrado ao passado e ao abismo. Nosso papel e o de Lula são semelhantes. Precisamos de um degrau mais baixo, em que o povo possa subir, crescer em força e decisão, em defesa do Brasil. Os limites da Frente Ampla são claros, estão no Arcabouço Fiscal. As possibilidades de Lula, do Brasil, do legado da nossa geração, do futuro, dependem da Frente Popular e do “novo equilíbrio do universo”, para usar as palavras de Bolívar.  São do tamanho das carências de nosso povo, imensas. Ensinou Glauber Rocha, “mais fortes são os poderes do povo”. Quem sabe quanto pode o nosso povo organizado?! Nós, que não impedimos o Golpe contra a Dilma, não devemos contar apenas com nossas forças para defender o futuro que é da nova geração. Nós elegemos Lula para trazer o povo e a juventude de volta ao orçamento, à política e ao poder. declaremos guerra à solidão, ao cupulismo. O povo organizado é o nosso céu, isolados do povo não somos nada.

Você pode me dizer, é impossível. Assim como o povo soube evitar o bolsonarismo duro e deu uma mão à Frente Ampla, nós nos reconheceremos luta afora, companheiro, camarada. É preciso organizar essas boas gentes que atuam como Lula, para além de suas caixinhas, com solidariedade, generosidade, amor. É preciso reconhecer o poder da juventude e do povo. É preciso libertar o Brasil dos juros e do imperialismo. Essas convicções de amor e verdade são nossa força para construir uma Frente Popular, como expressão de um Bloco Histórico comprometido com a defesa da Nação Brasileira através de seu Povo. É preciso reunir as dores, juntar multidões, aprender e ensinar que o futuro é possível. Tem muito jogo pela frente, Lula está conosco, e a luta continua! Por um Feliz 2025 de vitórias!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

CTB Bancários DF termina 2024 em plena luta: #semAnistia, defesa do BB Público, Concursados CEF e Sarau do Cebolão

Edição de Brasília do Ato Nacional #SemAnistia na Praça Zumbi dos Palmares no dia 10/12.

Rafael Guimarães, participa de audiência pública na Câmara dos Deputados em defesa da posse dos concursados da Caixa, em 9/12





Sindicato dos Bancários de Brasília amplia participação na Fórum

Lula, Haddad e o Brasil na cama de Procusto – Por Paulo Vinícius da Silva

O atual momento da luta é marcado pela especulação a favor do dólar e pela pressão do “mercado” para tirar dos mais pobres e preservar privilégios



Unir a juventude e a classe trabalhadora pela Redução da Jornada e pela Valorização do Trabalho - por Paulo Vinicius da Silva

Em artigo, diretor de Política Sindical dos Bancários de Brasília debate o papel da juventude na luta contra a escala 6x1


Ajuste fiscal mais uma vez no lombo da classe trabalhadora? | Fórum Sindical | 13.11.24 



Entrevista com secretário de Política econômica, Guilherme Mello, participação Ricardo Berzoini 





Sarau do Cebolão de dezembro, Viva o Forró!, ocorre nesta quinta-feira, 12/12, na Praça do Cebolão, no Setor bancário Sul, perto do metrô.




 



terça-feira, 10 de dezembro de 2024

A batalha de Fortaleza e as lições imediatas das eleições de 2024 - Paulo Vinícius da Silva


A impressão que tenho, diante das diversas análises acerca do resultado das eleições municipais, é que venceu a Frente Ampla, bem ampla mesmo - foló, em bom Cearês. Na real, o povo preferiu evitar o mal maior, mesmo que não tenha votado do jeito que queríamos. 

Um amigo querido, quadro, fulminou-me ao ler o artigo anterior, numa mensagem de texto: "Frente Ampla, onde"?! E eu respondi: basta pensar em como seria o clima político se o Bolsonarismo tivesse ganho nas disputas do segundo turno. Aí você veria o tamanho do buraco. 

Mas, em parte, ele tem razão. A Frente Ampla ainda é uma aspiração, não é uma organização, não tem sede, presidente, ações próprias. Ela é, em boa política brasileira, um xadrez tridimensional com as mais diversas alianças, malgrado a crueza da luta de classes. Poderiam ser tais alianças contra nós, e muitas vezes são, sabemos o gosto amargo. Mas desde que vencemos, passou a ser contra o Bolsonarismo, daí a definição de que a vitória foi da Frente Ampla, no sentido de negar o protagonismo ao extremismo golpista. E é um fato muito positivo, pois seu isolamento é essencial para que os caminhões de provas e as milhares de vítimas possam valer na balança da justiça, sem anistia para golpistas nem para Bolsonaro.

Os acontecimentos seguintes na cena política despencaram de abismo em abismo, como poderia dizer o poeta Paraibano Augusto dos Anjos. Rejeitar o Bolsonarismo não é pouca coisa, é notável.  

A despeito dos manuais de eleições municipais, tivemos um grande peso nacional, superando até o debate local, na eleição de Fortaleza. 

Fortaleza é rebelde, elegeu Maria Luíza Fontenele, então no PT, ainda em 1985.  O neoliberalismo propriamente dito também por lá principia, com a chegada ao governo do Ceará, ainda em 1986, dos então "jovens empresários" liderados por Tasso Jereissati, "o galeguim dos zói azul", figura importante no PSDB desde então, rompendo o domínio "dos coronéis" que estavam no poder sob o Regime Militar de 1964. Paes de Andrade, Mauro Benevides, Gonzaga Mota marcaram a política cearense quando Sarney presidiu a democratização, a constituinte e a eleição de 1989. 

A virada do Brasil neoliberal tucano para a era Lula encontrou correspondência com o crescimento da esquerda, projetando uma hegemonia das forças progressistas no cenário local. O surgimento de lideranças femininas é ainda minoritário, mas mesmo nesse contexto, indelével, inclusive pela projeção da Prefeita Luiziane Lins (PT), vinda ela também do movimento estudantil.

Muita vez, a capital alencarina antecipa tendências e grandes debates nacionais nos processos eleitorais que, desde 1985 tem sentido progressista (como me alertou recentemente o amigo Aécio Holanda, coetâneo do movimento estudantil secundarista). De fato, Fortaleza tem uma característica progressista e liberta, assim como o humor político do Ceará Moleque. Em 1922, Fortaleza elegeu o Bode Ioiô vereador, como voto de protesto. O pessoal fresca mesmo.

Fortaleza também antecedeu o padrão televisivo e midiático da implantação da TV e da Propaganda Eleitoral ao fim da Ditadura, como bem mapeado pela Socióloga Rejane Accioly. Isso é coerente com uma sólida tradição cearense em fotografia, artes visuais, cinema e marketing, inclusive eleitoral. O Ceará é presença constante na TV Brasileira, em especial pelo peso do Sistema Verdes, Mares, afiliada local da TV Globo.

A vitória de Brizola sobre Lula na eleição do primeiro turno de 1989 mostra uma outra característica, que é a pluralidade da esquerda cearense. Lideranças do quilate de Heitor Férrer,  André Figueiredo, Roberto Cláudio, Eudoro, Sérgio Novais, Cid Gomes e os camarada Inácio Arruda, Chico Lopes e Eliana Gomes protagonizaram um primeiro ciclo de lideranças que ainda hoje têm protagonismo. Uma segunda geração se projeta, com a chegada ao governo nacional e as vitórias locais, que resistem até retomada, com o terceiro Governo lula.  Exemplos são Camilo Santana, mas também o decano José Guimarães, líder do governo na Câmara e, agora, Eumano Silva, atual governador. Irrelevante nacionalmente, Ciro Gomes tentou deter essa tendência e a acelerou, perdendo ainda mais relevância. 

Das grandes cidades do Brasil, Fortaleza, Terra do Sol foi palco de uma aposta arriscada, diante da força extraordinária da candidatura conservadora, representada pelo deputado André Fernandes, aposta da extrema-direita, fenômeno ainda oculto pelo enigma das redes sociais. A discussão foi, basicamente, PT ou anti-PT. Disso resultou a margem apertada da vitória maiúscula de Evandro Leitão, que virou a eleição. Camilo Santana e Cid Gomes impulsionaram a candidatura do Presidente da Assembleia, pedetista, para ser candidato pelo PT, liderando a frente que reuniu o apoio de Lula e Elmano. Eles peitaram a renovação de direita.

Renovação que veio através da figura constrangedora de André Fernandes, que obteve uma projeção espantosa, ademais na juventude. Jovem, bom de conversa, bonito e adestrado, mostra pouco conteúdo, muito preconceito e ambições desmedidas. Surfou no abismo que separa a esquerda da  juventude que compunha o bônus demográfico de 2012. A dificuldade da esquerda em renovar lideranças se expressou sobretudo na juventude, com a demagogia do bolsonarismo se apresentar como força "anti-sistêmica". André navegou nessa oposição, não encontrado quem lhe disputasse espaço. O campo conservador pôde, assim, superar a liderança em declínio do capitão Wagner, e apostar as fichas no jovem. Não importou a fragilidade do material, pois em tempos de influencers e redes sociais, isso é o de menos. 

E ele fez bonito em fazer feio. A cumplicidade com o negacionismo genocida, o irracionalismo, o humor ofensivo, a misoginia, o discurso do falso profeta, o bolsonarismo e tantos constrangimentos lhe valeram a célebre reprimenda de Flávio Dino na Câmara. 


Nesse tempo era bom. Levantaram a capivara do falador e acharam o apelido "raspa". Do Bode Ioiô pra cá, piorou, muito, havemos de concordar. Mas é claro que a língua ferina cearense jamais perdoaria uma criatura que quer ser levado a sério dando aula de depilação aonde o sol não costuma bater. "Raspa" já é o diminutivo, gentil e de duplo sentido, podendo ser dito sem problemas, embora a expressão completa não possa ser dita, pelo decoro.

Seu protagonismo teve base em duas forças inegáveis. A primeira, da própria direita conservadora cearense que aderiu ao Bolsonarismo. A instrumentalização do campo conservador pela extrema direita ganhou força com a sua instalação no poder Executivo nacional. É a esse bloco que Ciro leva pela mão o ex-prefeito Roberto Cláudio, gesto cuja racionalidade só se explica contra o plano de fundo das figuras de Camilo e Cid Gomes. Ciro poderia ter apoiado Izolda Cela ao governo. Perdeu. Poderia ter reunido apoio a seu prefeito, Sarto. Muito ao contrário. E após fazer de tudo em vão para implodir a esquerda, acabou explodiu seu próprio campo e segue em direção à direita. Nacionalmente já se omitira em 2018, foi para Paris. Localmente, queima as pontes e abre outras, sem nojinho. Resta saber se tais estripulias são capazes de fazer rodar a roda do tempo ao contrário. Não são.

As modificações na esquerda cearense se deram com a manutenção de um bloco hegemônico que sobrepassa os partidos e que foi capaz de sobreviver ao bolsonarismo. A liderança evoluiu num contexto de presença nos espaços de poder, liderança nos movimentos sociais e acordo entre os maiores partidos de esquerda. Camilo, Cid, Elmano e Evandro Leitão compõem uma nova página da liderança que tem raízes no primeiro ciclo mudancista que afastou o PSDB do controle sobre a Política Cearense, ainda são da mesma geração. Essa transição trouxe setores políticos que compunham a hegemonia anterior, sob Tasso. O sentido progressista persistiu até agora, quando se colocou uma disputa acirradíssima e Camilo topou o jogo. Por já ter ampliado a composição interna até do PT (Evandro veio do PDT), afirmou-se simbolicamente a unidade em torno do PT e de Camilo com a onda 13. 

Logo depois da vitória de virada, as placas tectônicas tremeram. Diante da possibilidade de o PT acumular a Prefeitura, o Governo, a Presidência e a Presidência da Assembleia, Cid Gomes se insurgiu, mas com jeitinho. Deixou claro que a hegemonia é plural. E o próprio candidato, Santana, do PT do Juazeiro do Norte, declinou da proposição de seu nome. Cid deve ter lembrou da estreiteza da margem da vitória, questionado sobre o futuro da Frente Ampla e também a aliança que pilota, ao lado de Camilo. Ganhou por ter mostrado o óbvio. O topo é duro de alcançar, mas de manter, é muito mais difícil. 

Esse chamado não foi contradito. Vi muita gente de todas as denominações - e no Ceará tem de tudo - botando o 13 no peito, a despeito das tretas, entoando as divertidas músicas da campanha, que alertaram:

"Só quer ferrar com a vida do povo. 

Geral sabe que ele vai estragar nossa cidade, 

Ele não tem experiência nem maturidade. 

Mentiroso, não vai governar

Fortal do jeito certo. 

O povo tá comentando:

não vota em raspa caneco! 


Deixa ele achar que

vai comandar

Fortaleza ...

Leitão não vai

deixar!


 A tropa do 13 é fogo, 

vai botar pra correr da cidade 

o mini Bozo!"


A aposta plebiscitária foi aceita, e a resultante foi a superação da liderança de Ciro Gomes; obstaculizou-se uma liderança jovem de extrema direita a partir da confiança em um campo já longevo que lidera a política cearense desde a perda da influência de Tasso e do PSDB e que tem uma liderança também nova, Camilo Santana, agora Ministro da Educação. 

A unidade, a mobilização bairro a bairro, a contraofensiva nas redes sociais e nas músicas de campanha, o alerta permanente sobre o perigo para a cidade e sobre as fragilidades do adversário, foi a soma desses atores que levou à vitória. Se, no caso de Paes (Rio de Janeiro) e Campos (Recife), a Frente Ampla sem o protagonismo direto do PT levou a esmagadoras vitórias, no caso de Fortaleza, a Frente Ampla foi representada pelo PT, sendo criticada por não ser ainda mais à esquerda. Foi com a entrada do povo na campanha que o jogo virou.  Em minha perspectiva, isso alerta-nos para a vitalidade da Frente Ampla e para a necessidade de buscar uma hegemonia distinta e brasileira, no seio dos setores mais progressistas, como Frente Popular. 

Mas isso não é tarefa de governos, de caciques, de lideranças que pontuam e passam, mas a tarefa de organizar o povo para que não sejam possíveis os retrocessos. O cearense é muito vivo. Tem uma opinião muito desconfiada sobre política, porque dela participa, e muito. Todos com quem conversei disseram-me a mesma coisa: vamos por aqui, mas há problemas. E talvez o maior problema seja o do futuro, mas não qualquer futuro. O fascismo se apresentou sob o manto da juventude, e foi rejeitado, ainda que por pouco, o que dá orgulho de Fortaleza. Mas isso não nos exime de chamarmos a turma que lotou os bairros e as redes e renovarmos as lideranças, as práticas, corrigir erros. Aí sim, poderemos considerar que estamos no caminho da disputa da hegemonia. Por ora, ganhamos por um pelinho, então precisamos nos unir mais e ir em direção ao povo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Lula, Haddad e o Brasil na cama de Procusto - Paulo Vinícius da Silva

“Um dos malfeitores chamava-se Procusto e tinha um leito de ferro, no qual costumava amarrar todos os viajantes que lhe caíam nas mãos. Se eram menores que o leito, ele lhes espichava as pernas e, se fossem maiores, cortava a parte que sobrava.”(1)


O Golpe contra a  Presidenta Dilma marcou o êxito da ocupação estrangeira do Brasil, comandada pelo imperialismo estadunidense e pela elite financeira. Não chegou nenhum porta-aviões, não perdemos território, ainda. Foi feito por nossos próprios sabujos, que mordem o povo e lambem as mãos do imperialismo. Aportou com os smartphones, as redes sociais e a imprensa golpista, no desatar da Guerra Híbrida, em junho de 2013.

O atual momento da luta é  marcado pela especulação a favor do dólar e pela pressão do “mercado” para tirar dos mais pobres e preservar privilégios, como a isenção tributária para 17 setores da economia, incluindo a mídia empresarial. Custo Brasil?! Gritante, imoral é o Custo Sistema Financeiro, o Custo Rentista.

Temer, Bolsonaro, a maioria venal do Congresso, a imprensa empresarial, o centrão e a extrema direita, todos uniram-se contra Dilma, para rasgar a soberania popular em favor do domínio do rentismo e para entregar o Pré-Sal. 

Ao afirmar que o desafio é colocar o povo no orçamento e o rico no Imposto de Renda e ao denunciar a alta taxa SELIC, Lula cometeu dois “pecados mortais” diante da vaca sagrada que muge: “os banqueiros, os rentistas, os especuladores mandam no Brasil’. Essa construção de décadas é a própria pirâmide de classes brasileira.

Sob FHC, o Plano Real internalizou a hiperinflação, com a criação do mercado da dívida pública. A Lei de Responsabilidade Fiscal estabeleceu que os  “compromissos” com a dívida valem mais que as políticas públicas. Os “fundamentos macroeconômicos” se estabeleceram, com Câmbio flutuante, Superávit Primário e Regime de Metas de inflação. O Brasil é realmente rico. Mesmo com essa âncora no pescoço, Lula conseguiu fazer os melhores governos para o povo E para os banqueiros. Manteve a sangria, mas melhorou os indicadores sociais, cumprindo mesmo o que seus adversários criaram. De nada valeu esse bom-mocismo. Eles deram o Golpe do mesmo jeito, e radicalizaram o neoliberalismo. 

Estabeleceu o brutal Teto de Gastos, promoveu a liberalização no sistema financeiro graças a um dos mais altos spreads do mundo, promoveu a desconcentração privada do sistema financeiro para a “tigrada” e o capital estrangeiro, além de impor uma agenda privatista nos bancos públicos. Some-se a isso o cassino da dívida pública e as isenções tributárias, e vemos quem manda no orçamento, nos juros e no país. Luta de classes na veia. ((2)


A Casa Grande vive sob dupla vassalagem, aos EUA e ao capital financeiro rentista e parasitário. Daí veio o comando para o cerco econômico ao Governo Lula 3, impedindo a aplicação do programa decidido nas urnas. 

Não se duvide disso do que significa descumprir esse mandato do alto.  Afinal, o Golpe foi dado sob a falsa acusação de “pedaladas fiscais”, rasgando o voto popular. Já Bolsonaro, fez o que quis, e tava tudo certo. Pouco importou que o Teto de Gastos nunca fosse aplicado, e mal se lembra que ele quebrou o Brasil, colocando sempre a raposa a cuidar do galinheiro. O que importava era a agenda antitrabalhista e a privatização da ELETROBRAS. Para Lula, a história é outra, um rigor orçamentário jamais praticado nos EUA, na Europa, na OCDE. 

É a cama de Procusto,  montada para que nela caiamos,  pequena para o Brasil, obrigando a decepar no crescimento do país, na redução da desigualdade, nos investimentos indispensáveis.  O povo não pode, outra vez, mudar o país através do voto e pelo Executivo. O Teto de Gastos foi desfeito, mas não sem um amplo conjunto de travas para beneficiar o sistema financeiro rentista, contra a produção. A “Autonomia” do Banco Central e  Campos Neto no leme foram para isso. O Arcabouço Fiscal e o Pacote Fiscal decorrem desse poder neoliberal, que não foi anulado na eleição de 2022. 

É muita ilusão crer que a aprovação do Orçamento da Transição e do Arcabouço Fiscal se daria sem concessões, ou que o amplo apoio era sinal de trégua. Ao contrário, era só o começo do jogo. Será que a institucionalidade burguesa no Brasil permitiria a ruptura com o neoliberalismo? O povo vota, mas a economia, o orçamento, o fruto do seu trabalho, os juros, as dívidas, tudo pertence à elite financeira, que hoje não se resume aos banqueiros. O SFN foi profundamente alterado desde o Golpe. Instalou-se uma farra do boi que permitiu a inúmeras instituições participarem do banquete das altas taxas de juros e se beneficiassem integralmente com a nova fronteira tecnológica sem qualquer contrapartida. É a essa tigrada que as dicas privilegiadas  nas palestras de Campos Neto são dadas. 


Não é o governo Lula, ou Haddad que é neoliberal, é o Brasil. Diversas reformas asseguraram a ordem correta da “cadeia alimentar”, com os especuladores no topo e a nossa condição subalterna face aos EUA. É um crime continuado contra a economia popular: o Brasil não pode crescer. Mas, com Lula, cresce.

Daí o medo-pânico do “mercado” e da mídia à ascensão dos BRICS e à possibilidade de transição na moeda de reserva internacional. É preciso exorcizar os BRICS e travar o Brasil, deixar-nos sem saída. Para isso, nada melhor que o próprio Campos Neto declarar em abril deste ano, na data da chegada das caravelas de Portugal ao Brasil:

“Se a incerteza diminuir, voltamos para a forma de atuação que tínhamos começado. Outra forma é o aumento da incerteza ficar mais tempo e criar ruídos crescentes, então teremos que trabalhar como seria o ‘pace’ [ritmo], teríamos que diminuir o ‘pace'”, disse, em participação em evento da Legend Capital, em São Paulo. (3)


O combinado não fica caro para eles, só para nós. Por isso, a eufemização e o inglês escondem do povo, mas são o apito de cachorro que deixa claro ao “mercado”:  a hora era de sentar a marreta, especular contra, gerar incertezas, se o interesse fosse os juros altos, #ficaadica. A firme identidade entre o presidente do BC e o “mercado” para cercar o governo são reafirmadas por  outra dica bilionária:

Campos Neto repetiu que a autarquia só vai intervir no câmbio se houver problemas relacionados a uma distorção do mercado, mas não por uma mudança no valor do real decorrente de alteração nos fundamentos. “Se tiver uma percepção de que o risco piorou, o câmbio vai refletir”, disse o presidente do BC.”


La distortion, c´est moi. Nos meses seguintes, o recado se demonstrou mais que útil. Desde que Lula assumiu, minguaram  as intervenções do Banco Central no câmbio. A palestra mostrou que o caminho não era apenas prever, mas botar “o PIB para baixo” com juros, câmbio e a defesa dos privilégios e sabotar a economia produtiva e o governo.

Os ataques covardes contra Dilma não impediram seus detratores de manter as isenções tributárias que somam centenas de bilhões de reais. A apropriação do orçamento do Executivo pelo Congresso, sob Arthur Lira, mantém a força local das oligarquias e, ao mesmo tempo, sangra o governo, rasgando de novo a Constituição, instaurando um semipresidencialismo. Vale, com certeza, impedir a tributação dos mais ricos. Assim, cercado pela ganância dos que mandam, Lula reclama sozinho, e pode cair, se vacilar. Será que não percebemos que é preciso o povo nessa história?

As forças populares precisam entender essa virada de chave que une neoliberalismo e fascismo e os limites da institucionalidade burguesa. A libertação do Brasil depende da ruptura com o neoliberalismo no curso da mudança no mapa do mundo. A defesa da Nação como povo é o alicerce para unir a Frente Popular, e abrir um novo horizonte histórico. Contudo, há imensa confusão sobre os papeis de Lula e do seu governo, como a expressão da Frente Ampla, e o papel dos setores populares na disputa dos rumos do governo, na luta para afirmar o mandato das urnas, para questionar o neoliberalismo e a elite financeira. Também para isso servirá a Frente Popular, ao organizar as maiorias. Se a bola segue tocada do governo para o “mercado”, será sempre 7X1 contra o Brasil. É preciso que o povo entre no jogo, a Frente Ampla e o Governo não podem tudo. 

Os especuladores e rentistas perderam a vergonha. A ata unânime do COPOM (4) de novembro de 2024, em seus 23 pontos, cita a palavra  “trabalho” 12 vezes, 10 vezes como “mercado de trabalho”. A palavra “emprego” aparece 3 vezes e, “desemprego”, uma apenas. Na História, se coubesse a ela um título, poderia ser: “Mais Juros e Menos Emprego, gente!” Sim. É isso, sem tirar nem pôr. O problema do país para o COPOM é o crescimento e o emprego aquecidos, tá lá. O imenso peso dos juros e do dólar inflado não geram inflação, e sim uma suposta inflação de serviços em alta. Reconhecendo que não foi suficiente a sabotagem da economia, o BC sinaliza aumentar ainda mais os juros!

Foi sobre essa cama de ferro de Procusto que Haddad teve de encaixar o “pacote fiscal”. Pelo menos, dessa vez, ele gemeu. Sob a orientação de Lula, pela primeira vez, o governo deixou claro à sociedade que se trata de luta de classes, liderada pelos ricos. Todo o ano de 2024 foi consumido pela luta do governo para cumprir o Arcabouço e as dicas de Campos Neto para que a instabilidade crescesse, e os juros, e o dólar também. O povo foi espectador silente nesse debate. A maioria dos brasileiros não entendem os juros compostos na sua vida. A pessoa se assusta com uma inflação ANUAL inferior a 5% e paga taxas maiores que 5% AO MÊS, e acha normal.

 A  ganância dos rentistas morde inacreditavelmente mais fundo que toda a corrupção, e é chamada de “responsabilidade fiscal”. Como o povo poderia entender? É preciso amplo e didático diálogo, é preciso linha política. Nosso batente é muito alto para o povo subir na escada da consciência, para entender a verdadeira luta de classes no Brasil. Onde estão os grandes espaços de debate, trabalho de base e mobilização? Como fazer as redes sociais servirem à unidade da luta popular pela libertação do Brasil?  Lula denuncia, mas ao final é obrigado a trilhar o beco sem saída, porque não há mobilização popular para responder aos seus apelos. A Frente Popular deve ser esse grande espaço que aproxime a esquerda do povo e impulsione a defesa da Nação, da Democracia e dos Direitos. 

Do outro lado, o sistema financeiro e a mídia empresarial escutam, entendem e agem segundo as orientações  de inflar o dólar e os juros, cercar o governo e arrancar dos pobres o que sobra aos ricos. 

Se, por um lado, o governo buscou ao máximo evitar os aspectos mais brutais do corte sobre os pobres, a sua maior contribuição foi precisamente colocar a injustiça no centro da mesa do debate. Assim, o governo indica  por onde podemos retomar no imposto o que agora se perde em salário, produção e emprego.  Mas o que fica evidente é  a derrota, a falta de unidade e mobilização social para travar a grande luta.

A despeito de toda a inteligência de Haddad e da boa vontade de Lula, radicalizar o arcabouço fiscal, estendendo seus limites para o aspecto mais benéfico da economia, o consumo popular, apenas nos deixa mais longe da reversão da tragédia que se abateu sobre o Brasil, tornando ainda mais dramática a falta de tempo  e de unidade no nosso campo. Ainda que cortando menos do que “o mercado” propõe, cortar no abono, no aumento real do salário mínimo, impor um rigor imenso sobre o BPC, mostra que estamos sendo derrotados na política, nas ruas, nas redes. O jogo é muito maior do que podem Lula e o Governo. A política é muito mais que a institucionalidade, mesmo quando nelas ocupamos uma beirinha. E, ao contrário do que as vivandeiras vermelhas do apocalipse predicam, não há panaceia, bala de prata, cerco ao Palácio de Inverno. Essas fanfarronices são apenas o mais rápido caminho para a derrota, este sim o pecado mortal. 

Precisamos de trabalho de base, mobilizar milhões para que se dispute o governo e cerquemos o rentismo parasitário, que é a mãe do fascismo e da extrema direita. É preciso unir o Brasil contra a brutal exploração que a elite financeira impõe a quem trabalha e produz, enorme parasita sugando a seiva da vida, o trabalho, relegando o nosso povo a sofrimentos inauditos, à pobreza, à violência e ao desespero. Esse é o caldo de

cultura para a radicalização fascista. E é, ao mesmo tempo, o ponto frágil que, se devidamente atacado, pode abrir caminhos para uma outra fase, para um novo projeto nacional de desenvolvimento em que caiba a classe trabalhadora e o povo, e não apenas a elite financeira, parasitária, obstáculo à libertação e beneficiária única de nossas misérias.


Referências:


1) Bulfinch, Thomas. O livro de ouro da mitologia: (a idade da fábula) :histórias de deuses e heróis / tradução de David Jardim Júnior — 26a. ed. — Rio de janeiro, 2002
2) Todos os gráficos foram gentilmente selecionados pela subseção do DIEESE que funciona no Sindicato dos Bancárias de Brasília, no que agradecemos a colaboração da Socióloga Paula Reisdorf e do Diretor Daniel de Oliveira.
3) Isto é Dinheiro, 22/4/2024. Se incerteza continuar alta, BC pode ter que diminuir ritmo de cortes de juros, diz Campos Neto, disponível em https://istoedinheiro.com.br/se-incerteza-continuar-alta-bc-tem-de-trabalhar-no-ritmo-de-cortes-afirma-campos-neto/
4) Ministério da Fazenda. Apresentação Medidas de Fortalecimento da Regra Fiscal, disponível em medidas-de-fortalecimento-da-regra-fiscal.pdf
5) COPOM. Atas do Copom Atas do Comitê de Política Monetária - Copom 266ª Reunião - 5-6 novembro, 2024, disponível em https://www.bcb.gov.br/publicacoes/atascopom




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