terça-feira, 24 de setembro de 2024
quarta-feira, 2 de março de 2022
Conflito na Ucrânia:A paz deve ser o objetivo imediato alcançado - CEBRAPAZ
Conflito na Ucrânia: A paz deve ser o objetivo imediato alcançado
“O atual conflito tem suas raízes na agressiva expansão dos EUA e da OTAN, após o fim da União Soviética, em direção às fronteiras da Federação Russa, ali instalando bases militares e armas nucleares, ignorando os repetidos e insistentes protestos da Rússia, hoje totalmente cercada por forças hostis”, diz, em nota, o Cebrapaz.
Publicado 01/03/2022 14:34 | Editado 01/03/2022 21:49
O Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) defendeu, em nota, um cessar-fogo que construa o ambiente de diálogo na Ucrânia; uma solução política para o conflito que contemple as preocupações de segurança da Rússia e desmantele os grupos neonazistas; e o fim da política de provocações e guerra da Otan/EUA.
Conheça a íntegra da nota do Cebrepaz:
A humanidade acompanha com extrema preocupação o desenrolar dos acontecimentos na Europa Oriental, com a eclosão do conflito militar envolvendo a Rússia e a Ucrânia.
O Cebrapaz defende negociações que conduzam ao cessar-fogo e que permitam criar um ambiente de diálogo e a construção de uma saída política para esse conflito.
A paz deve ser o objetivo imediato e urgente a ser alcançado!
A defesa consequente da paz exige que as causas e os principais responsáveis pela guerra sejam identificados.
O atual conflito tem suas raízes na agressiva expansão dos EUA e da OTAN, após o fim da União Soviética, em direção às fronteiras da Federação Russa, ali instalando bases militares e armas nucleares, ignorando os repetidos e insistentes protestos da Rússia, hoje totalmente cercada por forças hostis.
Após as ondas de expansão militar, os EUA e a OTAN patrocinaram, em 2014, um golpe de estado, que destituiu o presidente eleito da Ucrânia – por resistir a uma integração à OTAN – levando grupos neonazistas ao poder.
A rebelião das populações do leste da Ucrânia contra esse golpe foi reprimida “a ferro e fogo” pelo governo de Kiev, com a conivência e o apoio dos EUA e da OTAN.
Os acordos de Minsk, de 2014, que buscaram pacificar o país, foram ignorados por Kiev – sob os olhos complacentes dos EUA e da União Europeia. Seguiram-se oito anos de ataques das Forças Armadas ucranianas às populações de Lugansk e Donetsk, causando a morte de milhares de cidadãos ucranianos, em especial de origem russa, na região de Donbass.
Por essas razões, não pode restar dúvidas de que os EUA e a OTAN são os principais responsáveis pelo atual conflito na Europa Oriental.
Denunciamos também a manipulação do vasto aparato midiático hegemônico que torna invisível a expansão guerreira da OTAN e dos EUA e o apoio prestado por eles aos grupos neonazistas ucranianos, procurando colocar sobre a Federação Russa toda a responsabilidade da atual crise.
Condenamos, além disso, as sanções econômicas contra a Federação Russa, que em nada contribuem para a paz e, ao contrário, tornam ainda mais tensa a situação.
Assim, o Cebrapaz defende:
- Um cessar-fogo que construa o ambiente de diálogo.
- Uma solução política para o conflito que contemple as preocupações de segurança da Rússia e desmantele os grupos neonazistas.
- O fim da política de provocações e guerra da Otan/EUA.
Executiva Nacional Ampliada do Cebrapaz
28/02/2022
Fonte: Portal do Cebrapaz
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Lênin e o infame tratado de Brest-Litovsky - Augusto C. Buonicore
Publicado em 31.10.2017 pela Fundação Maurício Grabois
Um dos acontecimentos mais dramáticos que se seguiu à Revolução de Outubro, colocando-a em risco, foi o Tratado de Paz de Brest-Litovsky. Através dele a Rússia Soviética teve que abrir mão de parte do seu território e pagar pesada indenização ao imperialismo alemão. O Partido Bolchevique se dividiu diante do dilema: assinar ou não aquele tratado? Lênin foi um defensor da sua assinatura, mesmo considerando-o infame, pois era a única forma de tirar o país da guerra e salvar a revolução. Para conseguir isso, travou um duro combate às tendências esquerdistas existentes no interior do bolchevismo. As argumentações apresentadas por ele no debate são verdadeiras aulas de tática e estratégia marxistas aplicadas num período de defensiva revolucionária.
“Os partidos revolucionários têm que completar sua instrução. Aprenderam a desencadear a ofensiva. Agora têm que compreender que essa ciência deve ser completada por saber recuar ordenadamente. É preciso compreender (...) que não se pode triunfar sem saber atacar nem sem saber empreender retirada ordenadas”. V. I. Lênin
Uma “paz infame” que divide os bolcheviques
Quando eclodiu a revolução russa de fevereiro de 1917, uma das grandes bandeiras dos bolcheviques, liderados por Lênin, era o estabelecimento da paz. Naquele momento vivia-se em meio à hecatombe da Primeira Grande Guerra Mundial. Nesta carnificina de abrangência planetária, cerca de 10 milhões de soldados e um número quase igual de civis morreram. Apenas a Rússia perdeu dois milhões de homens e mais de cinco milhões ficaram feridos.
Em grande parte, foi a incapacidade de colocar o país fora daquele conflito sangrento que levou à queda do Governo Provisório e à ascensão dos bolcheviques ao poder em outubro. Não sem razão, a primeira proposta apresentada por Lênin ao 2º Congresso dos Sovietes foi o Decreto da Paz. Nele, se conclamava os governos e os povos das nações beligerantes a firmarem uma paz democrática, sem anexações e indenizações. Ao apresentarem e aprovarem aquele decreto, os bolcheviques cumpriam sua promessa. Coisa que o governo anterior, liderado por Kerensky, não havia feito. Contudo, as coisas não seriam tão simples assim.
Em 18 de novembro de 1917 uma delegação soviética seguiu até a cidade de Brest-Litovsky na Bielorrússia para firmar um armistício com o imperialismo alemão. Além de dirigentes bolcheviques (Adolf Ioffe, Leo Kamenev) e social-revolucionários de esquerda (Maslovski-Mstislavski e Grigori Solkonikov), para lá seguiam também uma mulher (Anastácia Bitsenko), um operário, um camponês e um marinheiro. Estes três últimos foram vestidos a caráter. Pretendia-se,dessa maneira, representar a composição política e social da revolução socialista vitoriosa. Esta comitiva plebeia se sentou ao lado de nobres e generais alemães e austro-húngaros engalanados com suas divisas e medalhas reluzentes. Naquela primeira rodada de negociações se conseguiu um armistício de 28 dias, período no qual se discutiria os termos do acordo de paz entre a Rússia Soviética e os Impérios Centrais.
O objetivo inicial do poder soviético era trazer todas as potências imperialistas para a mesma mesa de negociação e não entabular um acordo em separado com a Alemanha e a Austro-Hungria. Mas isso não foi possível. A França, Inglaterra e os Estados Unidos – que compunham a Entente – ignoraram os apelos formulados pelos bolcheviques e não compareceram à reunião.
Lênin e Trotsky tinham consciência de que o exército russo estava se desfazendo e não poderia mais continuar lutando. Dezenas de milhares de soldados abandonavam os seus postos e voltavam para suas casas, exaustos da guerra e pretendendo desfrutar da reforma agrária realizada pela revolução. Era nítido que o tempo corria contra o jovem poder soviético.
O Partido Bolchevique logo se dividiu quanto ao problema da paz em separado com a Alemanha. Surgiram três posições distintas. A de Lênin, que apregoava uma paz imediata mesmo à custa de concessões territoriais e financeiras. A dos chamados “comunistas de esquerda”, encabeçada por Bukharin, contrária à assinatura de qualquer tratado com o imperialismo alemão e que apregoava desencadear uma guerra revolucionária até Berlim. A última, defendida por Trotsky, se expressava na fórmula intermediária “nem paz nem guerra”; ou seja, devia-se sair da guerra imperialista unilateralmente, sem assinar formalmente nenhum tratado com a Alemanha.
Antes mesmo do fechamento da primeira rodada de negociações, em 10 de janeiro, os comitês regionais bolcheviques de Moscou e Petrogrado exigiram o fim imediato das negociações com a Alemanha. Inclusive, em 24 de fevereiro, o partido de Moscou aprovou uma moção de desconfiança em relação ao Comitê Central.“O Comitê Regional de Moscou”, dizia a nota, “considerando que se tornou muito provável a cisão do partido num futuro próximo, toma a si a tarefa de agrupar todos os revolucionários consequentes, todos os elementos comunistas em luta contra os partidários da paz em separado e contra os elementos moderados do movimento comunista. Julgamos que seria do interesse da revolução mundial concordar com o sacrifício do regime dos sovietes em vias de se tornar um regime puramente formal.”. Os “comunistas de esquerda” tinham força no interior do partido. Seus principais dirigentes eram Bukharin, Preobrazhenski, Bubnov, Alexandra Kolontai, Karl Radek, Uristski, entre outros. Para divulgar suas ideias fundaram um jornal: o Kommunist.
Do seu lado, o imperialismo alemão não pretendia estabelecer nenhuma paz democrática. Ele impôs como exigência que parte do território que compunha o antigo Império Russo passasse para sua área de influência – este era o caso de Finlândia, Polônia, Ucrânia e dos Países Bálticos. Além de insistir no pagamento de uma indenização no valor de três milhões de rubros-ouro. Apesar dessas condições escorchantes, Lênin defendeu que se devia assinar o Tratado de Paz. Esta era a única forma de salvar a revolução em perigo.“Ceder territórios para ganhar tempo”, apregoava ele.
Lênin derrotado pela fraseologia revolucionária
Na primeira reunião com a presença das principais lideranças bolcheviques, realizada em 21 de janeiro às vésperas do 3º Congresso dos Sovietes, Lênin ficou em minoria. Num total de 75 delegados, a sua proposta de paz conseguiu apenas 15 votos. A da guerra revolucionária 32 e a de Trotsky 16. Mesmo juntando as teses dos dois principais dirigentes da Revolução de 1917 não se conseguiria a maioria necessária. O sucesso subira à cabeça de grande parte dos bolcheviques, que perdeu a noção da correlação de forças existente tanto no nível nacional quanto no internacional.
O tema voltou à pauta três dias depois na reunião do Comitê Central Bolchevique. Lênin era, incontestavelmente, o principal e mais respeitado dirigente do partido e do país naquele momento, mas isso não significava que suas posições fossem automaticamente aprovadas pelos seus pares. Em muitas e cruciais discussões ele não teve a maioria. Lênin repetiu seus argumentos: “A paz que nos propõem é infame, mas se não a aceitarmos seremos exterminados e a paz será feita por outro governo.”. As condições desesperadoras em que se encontravam as tropas russas faziam-nas incapazes de impor a mínima resistência ao avanço alemão. Continuou: “Se considerássemos o movimento revolucionário alemão suscetível de estourar com o rompimento das negociações, deveríamos nos sacrificar, pois a revolução alemã seria muito mais importante que a nossa. Mas ela ainda não começou. Devemos resistir até a revolução socialista vença e só podemos fazê-lo por meio da paz.”.
Desta vez foi a proposta intermediária de Trotsky (nem guerra nem paz) que ganhou o debate. Lênin viu-se derrotado, contando apenas com o apoio de Stalin, Zinoviev e Solkonikov. Na reunião seguinte,da qual participavam dirigentes bolcheviques e social-revolucionários de esquerda (os dois partidos que compunham o governo soviético), a proposta de Trotsky saiu-se novamente vencedora. Nada de assinar acordo de paz com as potências imperialistas, pensava a maioria bolchevique. Muitos pretendiam “salvar a honra” da revolução socialista russa, mesmo à custa da sobrevivência dessa mesma revolução.
A tese leninista tinha 21 pontos nos quais se dizia, entre outras coisas: “Fazer a paz, cedendo à força, não significa trair o internacionalismo proletário (...). Os operários que, durante uma greve, aceitam condições de retorno ao trabalho, desvantajosamente para eles e vantajosas para os capitalistas, não estão traindo o socialismo.”.“A política de ‘gestos nobres’ não corresponderia, absolutamente, à proporção das forças que possuímos.”. “O exército (russo) está sem condições de opor resistência eficaz aos alemães, que podem tomar Petrogrado.”. “A guerra revolucionária somente seria admissível se a revolução alemã estivesse para eclodir em três ou quatro meses. Caso contrário, a derrota militar equivaleria à perda do poder socialista.”. “Apostar nisso o destino da revolução seria correr um grande risco.”.
A extrema-esquerda do partido, especialmente localizada em Moscou, exigia não só a rejeição de qualquer tratado de paz com a Alemanha como também o rompimento das relações diplomáticas e econômicas com todos os demais países capitalistas. Diziam que era “melhor perecer pela causa socialista do que baixar a cabeça.”. Uma típica fraseologia radical-revolucionária, despregada dos fatos concretos e sem ter em conta a correlação de forças existente.Mais uma vez submetiam a política revolucionária a uma moral abstrata, de fundo pequeno-burguês, assentada em termos vagos como “honra” e “vergonha”.
Ao contrário dos “comunistas de esquerda”, Trotsky sabia das debilidades do seu próprio exército e não apostava numa improvável guerra revolucionária. No entanto, acreditava honestamente que a Alemanha não teria condições de lançar uma nova ofensiva contra o território russo. Uma ação militar intempestiva levaria ao irrompimento de uma revolução socialista naquele país, que já apresentava sinais de cansaço. Lênin achava a ideia sedutora, mas perigosa demais. Não valeria a pena correr tal risco.
As negociações foram retomadas em 18 de janeiro e a delegação russa agora tinha à frente o próprio Trotsky. Os alemães se mantiveram irredutíveis nas suas exigências territoriais e financeiras. Diante do impasse – indo contra a opinião de Lênin, mas dentro da linha aprovada pela direção do Partido Bolchevique e dos sovietes –,Trotsky levou a cabo a sua linha “nem guerra, nem paz”.
Declarou aos seus interlocutores: “Não queremos mais participar da guerra puramente imperialista (...) não mais concordamos em derramar sangue de nossos soldados (...). Na expectativa do momento, que julgamos estar próximo, em que as classes trabalhadoras oprimidas de todos os países tomarão o poder, como fez o povo trabalhador na Rússia, retiramos da guerra nosso povo e nosso exército. Nosso soldado-trabalhador retorna, a partir dessa primavera, a seu labor no cultivo pacífico da terra que a revolução fez passar das mãos dos proprietários fundiários às dos camponeses. Nosso operário-soldado deve retornar à fábrica para ali produzir não engenhos de destruição, mas ferramentas construtivas para, juntamente com os trabalhadores do campo, erguer a nova economia socialista.”. E concluiu: “Desmobilizamos os nossos exércitos. Recusamo-nos a assinar a paz de anexações. Declaramos terminado o Estado de Guerra entre os Impérios Centrais e a Rússia.”. Um discurso feito sob medida visando a servir de propaganda soviética aos trabalhadores dos países em guerra, especialmente na Alemanha.
Num primeiro momento os generais e os diplomatas alemães e austro-húngaros ficaram atônitos. Era a primeira vez que algum país declarava unilateralmente a paz e se retirava. A confusão realmente tornou-se grande. Quando a notícia chegou à Alemanha e à Áustria houve comemorações nas ruas.
Trotsky foi recebido com festa na sua volta: nada de acordo infame, nada de concessões aos alemães. Em 24 de fevereiro, o Soviete de Petrogrado aprovou, com apenas um voto contrário, a declaração da delegação russa em Brest-Litovsky. O Comitê Central Executivo dos sovietes de toda a Rússia – uma espécie de parlamento permanente que funcionava entre os congressos – também apoiou aquela posição. Trotsky confiante declarou: “posso afirmar calmamente que a nossa posição tornou mais difícil para o imperialismo tomar qualquer medida contra nós.”. À primeira vista, parecia que a sua tática havia sido vitoriosa e os governos imperialistas estavam num beco sem saída. Como justificar continuar uma guerra contra um adversário que decretara a paz e não mais lutaria? Lênin desejava ardentemente que aquilo fosse verdade, mas, no fundo, desconfiava. Esta não era a natureza do imperialismo.
O governo austro-húngaro – prevendo a sua queda iminente, caso se prosseguisse a guerra– chegou a sinalizar a aceitação daquela estranha paz. No entanto, o imperador e o alto comando alemães pensavam de maneira bastante diferente. Eles – mesmo correndo alguns riscos – consideraram melhor continuar a guerra, arrancando novos territóriosde uma Rússia em frangalhos. Estavam de olhos nas riquezas da Ucrânia e da Bielorrússia. Além do mais, interessava-lhes enfraquecer e derrubar os bolcheviques do poder.
Em 16 de fevereiro o governo soviético recebeu um radiograma dizendo que as hostilidades recomeçariam a partir do dia 18. Pelo acordado, qualquer rompimento deveria ser comunicado, no mínimo, com uma semana de antecedência. Os alemães roubaram-lhes cinco preciosos dias para os preparativos defensivos. O novo objetivo da guerra – anunciavam as autoridades dos impérios centrais – era colocar um fim à anarquia existente na Rússia e ao governo comunista que a promovia.
Lênin vira o jogo e salva a Revolução\
Como previsto por Lênin, o avanço dos exércitos alemães não encontrou nenhuma resistência. Em menos de uma semana ocuparam o que restava da Ucrânia e avançaram sobre a Bielorrússia. No dia 21 de fevereiro a pátria socialista foi declarada em perigo. Contra a vontade soviética, esboçava-se uma guerra revolucionária, em condições completamente desfavoráveis. Adotou-se então a política de “terra arrasada”. Ao recuar, os exércitos russos deveriam destruir tudo o que pudesse ser útil ao inimigo: pontes, ferrovias, armamentos, fábricas e plantações.
Determinou-se o alistamento compulsório de todos os elementos burgueses em batalhões especiais,destinados a construir sistemas defensivos nas cidades estratégicas, como Moscou e Petrogrado. Os que resistissem deveriam ser fuzilados. Também seriam executados sumariamente “os agentes inimigos, os especuladores, os saqueadores, os ladrões e os agitadores contrarrevolucionários.”. Os jornais e organizações políticas oposicionistas foram fechados e seus responsáveis presos. Repetiria o que ocorrera na Revolução Francesa: conclamação à guerra total e ao terror vermelho contra a reação que avançava.Todas essas medidas se mostraram insuficientes. Os camponeses continuavam se recusando a lutar. O que fazer?
Lênin não tinha nenhuma dúvida: retomar imediatamente as negociações de paz com os alemães, mesmo que tivessem que fazer maiores concessões. Apesar da catástrofe militar que se anunciava, as resistências no interior dos partidos e do governo soviético continuavam bastante fortes. Reverter esse quadro era uma questão de vida ou morte para a revolução socialista.
No momento que se recebeu a informação de que seriam retomadas as hostilidades,ocorreu uma reunião emergencial do Comitê Central bolchevique. Alia proposta de Lênin foi derrotada. Contra ela estavam Trotsky, Bukharin, Ioffe, Uritski, Krestinski e Lomov. A seu favor: Stálin, Sverdlov, Smilga, Sokolnikov. Dois dias depois – após a chegada da notícia do rápido avanço alemão –,houve nova reunião do CC. Lênin perdeu por 7 a 6. Poucas horas depois,a situação militar tornou-se catastrófica e convocou-se uma segunda reunião no mesmo dia. Desta vez Lênin apelou e ameaçou se demitir do Comitê Central caso não se aprovasse imediatamente a assinatura dos termos da paz impostos pelos alemães.
Afirmou Lênin: “Entramos na guerra revolucionária apesar de nós mesmos. Não se brinca com a guerra! Essa brincadeira nos levou a um impasse de tal ordem que a partir de agora a ruína da revolução passa a ser inevitável se nos ativermos por mais tempo em uma atitude indecisa. Ioffe nos escreveu de Brest que não há o menor sinal de uma revolução na Alemanha (...). Ficamos debatendo enquanto eles tomam os depósitos, os vagões e nos arrebentamos! (...) O camponês não quer a guerra e não lutará. A guerra permanente dos camponeses é uma utopia. A guerra revolucionária não deve ser uma fraseologia. Se não estamos preparados para ela, assinemos a paz!”.
Finalmente, ele saiu vitorioso – ainda que por pouquíssima diferença. Foram sete votos ao seu favor e seis contra. Imediatamente o governo soviético mandou um radiograma, assinado por Lênin e Trotsky, ao governo alemão dizendo-se dispostos a voltar à mesa de negociação. A resposta germânica demorou a chegar e os seus exércitos aproveitaram a situação para seguir avançando sobre o território russo. As coisas continuavam extremamente delicadas.
As lideranças soviéticas passaram a estudar seriamente a proposta de apoio militar oferecida pelos países da Entente, o que significaria uma volta indesejável ao bloco militar do qual a revolução de outubro havia tirado o país. Lênin e Trotsky consideravam essa uma saída possível, caso se mantivesse o avanço alemão sobre Petrogrado e Moscou. A esquerda dos bolcheviques continuava repudiando todo e qualquer acordo nesse sentido, independente da situação pela qual estava passando a revolução.
Não podendo participar da reunião do CC, Lênin enviou sua posição por escrito: “Queiram contar com o meu voto a favor do apoio e do armamento oferecido pelos bandidos imperialistas anglo-franceses.”. A proposta venceu por seis votos a cinco e, em protesto, Bukharin se demitiu do Comitê Central. Contudo, uma aliança com a Entente não foi necessária, pois em 23 de fevereiro chegou a resposta alemã concordando em restabelecer o processo de negociação.
Neste período, Lênin escreveu os seus primeiros trabalhos contra o esquerdismo. O primeiro – de 21 de fevereiro – intitulado Sobre a fraseologia revolucionária afirmava: “a fraseologia revolucionária é a repetição de palavras de ordem revolucionárias, sem nenhuma relação com as circunstâncias objetivas de um dado momento (...). Palavras de ordem excelentes, arrebatadoras, estimulantes, porém desprovidas de base objetiva.” E conclamava: “Guerra à fraseologia revolucionária!”. Num outro texto intitulado A Sarna, Lênin aproveitou para ironizar a esquerda partidária através de uma analogia histórica: “Na sua guerra de independência contra a Inglaterra, no fim do século XVIII, os norte-americanos recorreram à ajuda de um mesmo tipo de bandidos colonialistas que os ingleses: os governos espanhóis e franceses. Diz-se que os bolcheviques de esquerda se reuniram para escrever uma tese sobre ‘o sujo acordo daqueles americanos’.”.
As condições para a paz se tornaram ainda mais draconianas. A Rússia revolucionária deveria reconhecer a independência – e a entrada na área de influência alemã – de Finlândia, Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia e Ucrânia. Na prática significava permitir o esmagamento da revolução que se disseminava nessas regiões. Mantinha-se a necessidade de uma indenização no valor de três bilhões de rubros-ouro. Além da exigência de cessar toda e qualquer agitação contra as instituições dos países envolvidos no tratado; ou seja, estaria proibida a propaganda revolucionária entre os soldados e operários alemães e austro-húngaros. O Comitê Central se reuniu e a assinatura ao tratado foi aprovada por sete votos a quatro – e quatro abstenções. Lênin ganhara a votação, mas ainda sem maioria. O partido e o governo soviético continuavam perigosamente divididos.
A delegação soviética enviada para assinar o tratado se recusou a discuti-lo. Apenas assinou o documento e afirmou secamente: “Estamos aqui para assinar, sem nenhuma demora, uma paz que nos é imposta pela violência (...). A paz que assinamos nos é ditada pelas armas. A Rússia revolucionária se vê coagida a aceitá-la com os dentes cerrados.”. E concluiu: “Não aceitamos qualquer tipo de discussão, por considerá-la inútil.”. O tratado de Brest-Litovsky foi assinado em 3 de março de 1918.
A Rússia, finalmente, saía da guerra imperialista. Contudo, as divergências não cessavam no interior do poder soviético. Ainda no 7º Congresso do Partido, que se reuniu entre 6 e 8 de março, o tema do tratado de paz foi discutido. Nele, 30 delegados votaram a favor do tratado de paz, 12 contra e quatro se abstiveram. Eleitos naquele congresso, os membros da “esquerda” se recusaram a compor o novo Comitê Central. Lênin retrucou: “Os camaradas poderão muito bem defender os seus pontos de vista sem sair do CC.”. Aproveitou para dar-lhes uma nova estocada: “Sim, veremos uma revolução internacional mundial, mas para o presente isso não passa de um belo conto de fadas – um conto de fadas maravilhoso –, e eu acredito que as crianças devam amar esses contos de fadas. Mas pergunto: É natural que revolucionários sérios acreditem em contos de fada?”.
Aos poucos a maioria das pessoas foi sendo ganha para a justeza das posições leninistas. No 4º Congresso Extraordinário dos Sovietes de toda a Rússia, reunido em 14 de março, as teses de Lênin conseguiram maioria significativa de votos: 784 contra 261 e 115 abstenções, e entre estas estavam 64 “comunistas de esquerda”.
No mês de maio – diante da continuidade da crítica esquerdista ao tratado firmado –, ele publicou o artigo Do infantilismo de esquerda e do espírito pequeno-burguês. Ali escreveu: “Pois enquanto não rebentar a revolução socialista internacional, que abarque alguns países e tenha força suficiente que lhe permita vencer o imperialismo internacional, até então, o dever dos socialistas que venceram num único país (particularmente se for atrasado) consiste em não aceitar o combate com os gigantes do imperialismo, em tentar evitar o combate, em esperar que o conflito dos imperialistas entre si os enfraqueça ainda mais (...). Os nossos comunistas ‘de esquerda’ — que gostam também de se chamar comunistas ‘proletários’, mas têm particularmente pouco de proletário e muito de pequeno-burguês — não levam em conta a correlação de forças. E é justamente nisto reside o âmago do marxismo e da tática marxista.”.
Os esquerdistas se levantaram especialmente contra a conclamação leninista em defesa da pátria socialista, acreditando que isso iria contra o espírito do internacionalismo proletário e seria uma concessão ao nacionalismo burguês. A defesa da pátria não poderia constar de um programa verdadeiramente socialista. Em oposição a essa ideia, argui Lênin: “Colocais as palavras ‘defesa da pátria socialista’ entre aspas, que deve significar, provavelmente, uma tentativa de ironizar, mas que, de fato, demonstra a confusão nas vossas cabeças. Estais habituados a considerar o ‘defensismo’ como uma coisa infame e vil, retivestes e aprendestes isto, decorastes isto tão zelosamente que alguns de vós chegam ao ponto de dizer o absurdo de que, na época imperialista, a defesa da pátria é uma coisa inadmissível (de fato, ela é inadmissível só numa guerra imperialista, reacionária, conduzida pela burguesia) (...). Se a guerra é conduzida pela classe dos exploradores com o objetivo de reforçar o seu domínio como classe, é uma guerra criminosa, e o ‘defensismo’ em tal guerra é uma infâmia e uma traição ao socialismo. Contudo, se a guerra é conduzida pelo proletariado que venceu a burguesia no seu país, é conduzida no interesse do fortalecimento e desenvolvimento do socialismo, então é uma guerra legítima e ‘sagrada’.”. Por isso, concluiu: “Somos defensistas desde 25 de Outubro de 1917.”.
Alguns anos mais tarde, Lênin escreveria: “Aceitar o combate quando isso é manifestamente vantajoso para o inimigo, mas não para nós, é criminoso; os dirigentes políticos da classe revolucionária são absolutamente inúteis se não souberem manobrar ou propor compromissos para se evitar um combate evidentemente desfavorável.”. Os verdadeiros revolucionários deveriam saber recuar quando a correção de forças assim o exigia.
Do levante social-revolucionário ao sistema de partido único
Contrários ao Tratado de Brest-Litovsky, os social-revolucionários e a esquerda abandonaram o governo soviético. Na época eles possuíam três importantes ministérios: Justiça, Agricultura e Correios. A partir de então assumiram uma postura de oposição intransigente e logo passariam a adotar métodos ilegais e violentos, retomando antigas práticas terroristas dos populistas russos.
Saíram do governo e continuaram participando dos sovietes. No 5º Congresso, iniciado em 4 de julho de 1918, estiveram presentes 1.164 delegados: 773 deles eram bolcheviques e 353 social-revolucionários de esquerda. Como podemos ver, era ainda uma minoria expressiva.
Enquanto transcorria aquele congresso, dois social-revolucionários de esquerda assassinaram o embaixador alemão. Com isso pretendiam retomar a guerra interrompida. No mesmo dia tentaram assaltar o poder em Moscou. O movimento insurrecional, visando a derrubar o governo bolchevique, foi rapidamente derrotado e seus líderes acabaram presos, mas logo foram anistiados.
O resultado dessa intentona foi que os social-revolucionários de esquerda acabaram expulsos dos sovietes, acusados de promover ações contrarrevolucionárias. Este fato marcou, na prática, o estabelecimento do monopartidarismo. A Constituição soviética de 1924 institucionalizaria o sistema de partido único no lugar do sistema de partido dominante dentro de um pluralismo socialista. A necessidade – imposta pelas condições dramáticas da guerra civil – se transformaria em virtude. O modelo de partido único deveria ser adotado, necessariamente,em todos os países que quisessem transitar ao socialismo. Esta era uma coisa que não fora proposta ou prevista por Lênin e seus camaradas em outubro de 1917.
Em novembro de 1918 o Império Alemão desabou. Não suportou o esforço de guerra, sendo derrubado por uma rebelião operária e popular. A revolução alemã – tão esperada pelos soviéticos entre janeiro e março de 1917 – não seria socialista, se manteria democrático-burguesa, graças à capitulação dos dirigentes socialdemocratas. Os soviéticos aproveitam-se da débâcle da monarquia imperialista alemã para rasgar o Tratado de Brest-Litovsky e retomar vários territórios na Ucrânia e Bielorússia. Era uma vitória de Lênin. Ele, contudo, não teria condições de comemorá-la, pois estava em curso uma violenta guerra civil na qual se confrontavam furiosamente o Exército Vermelho e vários exércitos brancos, apoiados pelas potências ocidentais e o Japão. O imperialismo não daria trégua ao Estado Soviético, construindo em torno dele um verdadeiro “cordão sanitário”.
* Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução, publicados pela Editora Anita Garibaldi.
Bibliografia
CARR, E.H. A Revolução Russa de Lênin a Stálin. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
FISCHER, Louis. A vida de Lênin. Vol.1, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
GRUPPI, Luciano. O pensamento de Lênin, Rio de Janeiro: Editora Graal, 1979
KRAUSZ, Tamás. Reconstruindo Lênin: uma biografia intelectual. São Paulo: Boitempo, 2017.
LENINE, V. I. Obras escolhidas, vol.2, São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1989
LENINE, V.I. Esquerdismo, doença infantil do comunismo, São Paulo: Editora Global, 1981.
SERGE, Victor. O ano I da Revolução Russa. São Paulo: Boitempo, 2007.
domingo, 4 de maio de 2014
Barbárie nazista na Ucrânia - Queimados vivos comunistas na Casa dos sindicatos - La Haine
La mayoría de las personas quemadas vivas en Odesa eran del Partido Comunista o de izquierda
En las redes comienzan a aparecer las primeras informaciones sobre la pertenencia política de las víctimas de la carnicería que organizaron ayer los activistas de “Praviy Séktor” en Odessa en la zona del “campo de Kulikovo”. La mayoría de los que ayer fueron quemados vivos pertenecían a organizaciones de izquierda, al Partido Comunista y “Borotba”.
“La “druzhina” de Odessa sigue viva. Hay heridos, detenidos, gente que ha pasado a la clandestinidad, pero no parece que haya muertos. La peor parte se la han llevado las organizaciones de izquierda, PCU y “Borotba”. Son ellos en su mayoría a los que han quemado en la Casa de los sindicatos”, informan los usuarios de las redes sociales.
Aquellos que sobrevivieron en la Casa de los Sindicatos, son enviados a prisión preventiva, acusados de terrorismo y separatismo, informa el usuario @pmzher
Todas esas fábulas sobre supuestos agentes rusos entre los quemados, que se difunden por los medios ucranianos, son desmentidas por las Fuerzas del Orden de Odessa y las grabaciones donde se muestra como los fallecidos tenían documentación ucraniana.
Una vez que fue sofocado el incendio en el edificio de la Federación regional de los Sindicatos, fueron hallados 36 cuerpos de fallecidos, informa el servicio de prensa de la Dirección General de Protección Civil de la región de Odessa.
En total tras los enfrentamientos entre “Praviy Sektor” y militantes de antimaidán, se informa de 43 fallecidos entre los partidarios de la federalización y 174 heridos.
Uno de los supervivientes: “Nos arrinconaron dentro del edificio y cerraron todas las vías de salida”
El redactor de “Antifascista” consiguió ponerse en contacto por teléfono con uno de los activistas en el campo de Kulikovo, que sobrevivió de milagro en el terrible incendio, desatado por los asesinos de la Junta en el edificio de la Casa de los Sindicatos de Odesa. Este alférez de la reserva de 49 años, Yuri, después de varias horas, continúa en estado de shock y da gracias a dios por haber podido regresar del infierno.
En palabras de Yuri, en Kulikovo en el momento de los enfrentamientos con los “perros” de Praviy Séktor”, no estaban más de 250 compañeros. En ese número entraban alrededor de tres decenas de jóvenes del servicio de seguridad; el resto eran odesitas de mediana edad y personas de edad avanzada, entre los que había muchas mujeres.
“Tras los enfrentamientos en la calle Gréchaskaya y la plaza Sobornaya, los fascistas comenzaron el ataque en el campo de Kulikovo. Eran miles. Las fuerzas eran claramente desiguales y además nosotros no teníamos ningún tipo de arma. Nos vimos obligados a retroceder y refugiarnos en la Casa de los Sindicatos, que se encontraba al lado. Tolo lo que vino después, es algo que no me cabe en la cabeza”, la voz del testigo sigue temblorosa.
Según Yuri, a él le dispararon con armas de fuego y pistolas de aire comprimido. El chaval que tenía a mi lado, fue uno de los primeros en caer. Nos arrinconaron dentro del edificio y cerraron todas las vías de salida. Yo acabé en el ala derecha del tercer piso. Éramos unas diez personas en una habitación. Los nazis de Praviy Séktor comenzaron a arrojar cócteles molotov y a disparar a las ventanas. El primer piso estaba en llamas e iban subiendo. El humo invadía los pasillos. No había forma de salir. Hubo quien saltó. Abajo los acababan de rematar. Se oían gritos de “Slava Ukrainie” y “Smert vragam” (gloria a Ucrania, muerte a los enemigos)…Era un auténtico infierno. Llegaron los bomberos y comenzaron a sofocar el primer piso…”, relata el testigo.
Luego con dificultad consigue recordar lo que hizo después. “Todos alrededor se estaban asfixiando, en el edificio se oían gritos de desesperación y súplicas pidiendo compasión…
Recuerdo como me quité el traje de camuflaje, y el chaval que tenía al lado “de civil” me dio una sudadera deportiva. Nos lanzamos al pasillo, tropezando con los cadáveres. Había una gran cantidad, no sabría decir cuantos, pero muchos…todo estaba a oscuras, algo crujía alrededor. Como zombis llegamos a la escalera de incendios del 1-er piso. No sé ni cómo lo conseguimos. En el 1-er piso, el fuego ya había sido sofocado. Junto a la salida de emergencia vimos a varios nazis. Se estaban haciendo los tontos y cuando nos dieron el alto, les respondimos: “eh chavales que somos de los vuestros”. Por lo que fuese tampoco entraron a hacer averiguaciones. Por lo visto tenían otras tareas encomendadas… Así conseguimos salir al exterior y sin nada que nos identificase, confundirnos entre la multitud…”, relata Yuri.
“Perdimos esa batalla porque no estábamos listos ni organizados. Pero todos los caídos en Kulikovo son unos héroes. Fueron a una muerte segura. Es el Játyn de Odessa… cuando pude coger aire y volver en sí (me iba a estallar a cabeza, apenas podía hablar), marqué el número de mi amigo, que estaba en el edificio de la Casa de los Sindicatos, en alguno de los pisos inferiores…alguien descolgó y dijo que estaba muerto…nunca olvidaré este horror…” resumió nuestro interlocutor y pusimos fin a la entrevista, mientras nos decía que iba a seguir llamando a todos los compañeros de los que tiene el número de teléfono, para intentar averiguar quién ha sobrevivido.
segunda-feira, 10 de março de 2014
Ucrânia - Expulsan a los fascistas e izan en el edificio del gobierno de Lugansk la bandera soviética - La República
En la ciudad de Lugansk el pueblo salió masivamente a la calle y se dirigió al edificio del gobierno regional que estaba tomado por un grupo de neo nazis de la organización paramilitar “Right Sector”.
Es la primera vez que se hiza la bandera roja en la ciudad después de más de 20 años de saqueo y latrocionio neoliberal.El edificio fue desalojado por la multitud y los individuos que allá se encontraban fueron reducidos. La multitud tomó el edificio e izó la bandera roja con el martillo y la hoz. Es la primera vez que se hiza la bandera roja en la ciudad después de más de 20 años de saqueo y latrocionio neoliberal. Los fascistas de Svovoda y “Right Sector” utilizan simbología neonazi.
La ciudad de Lugansk prefiere utilizar viejos símbolos del movimiento obrero internacional. La ciudad de momento ha quedado bajo el control de las milicias populares y limpia de fascistas.
sábado, 8 de março de 2014
A Alemanha e a restauração dos oligarcas na Ucrânia - Coletivo Vila Vudu
http://www.german-foreign-policy.com/de/fulltext/58816 (alemão)
7/3/2014, Tlaxcala Rede Internacional de Tradutores (Trad. de Fausto Giudice, do alemão ao francês)
http://www.tlaxcala-int.org/article.asp?reference=11642
KIEV/BERLIN – O governo instalado em Kiev por um golpe de estado encorajado por Berlim amplia sua cooperação com os oligarcas ucranianos.
Dois deles foram nomeados governadores das grandes regiões de Donetsk e de Dnipropetrovsk, e um terceiro, até aqui tido como partidário do presidente deposto Viktor Yanoukovitch, manifesta-se agora como aliado do governo, contra as forças pró-Rússia.
O que se vê cada vez mais claramente é uma restauração dos centros de poder contra os quais foi dirigida a rebelião da praça Maidan, no início do movimento, antes de ser instrumentalizada pela Alemanha e outros estados ocidentais, com o objetivo de levar ao poder em Kiev um governo pró-ocidente – com vistas a integrar a Ucrânia aos seus próprios sistemas de aliança.
A luta pela influência em Kiev trava-se mais uma vez entre a Alemanha e a Rússia: no início da 1ª Guerra Mundial, Berlim começou a tentar arrancar a Ucrânia da esfera de influência russa, para enfraquecer o inimigo. Em 1918, Berlim conseguiu por alguns meses ter Kiev sob seu controle. Antes, o reino fizera campanha para libertar a Ucrânia do jugo opressivo do czar; mas os alemães rapidamente levaram ao poder em Kiev um representante dos grandes proprietários de terras ucranianos, o que levou partes da população a novas revoltas.
O governo putschista de Kiev apoiado por Berlim coopera cada vez mais abertamente com os oligarcas ucranianos detestados pela população. Já durante as manifestações populares na praça Maidan, os dirigentes de oposição foram empossados pelos milhardários.
Petro Porochenko, conhecido como “rei do chocolate”, porque é proprietário de uma rede de lojas que vale bilhões de dólares, declarou-se abertamente ao lado de Vitali Klitchko. Os órgãos da imprensa-empresa pertencentes ao oligarca Victor Pinchuk sempre informaram com simpatia, sobre as manifestações. Klitshko confirmou que mantinha contato também com outros oligarcas. [1]
Arseni Yatseniouk , atual primeiro-ministro, já pertencia, de fato, ao partido da oligarca Yulia Timochenko. Entrementes, o governo putschista também começou a empossar outros oligarcas em altos cargos do estado: Sergueï Taruta e Ihor Kolomoisky, por exemplo, apareceram com destaque.
A questão é que parte considerável da população falante de russo rejeita firmemente o governo putschista de Kiev; teme-se que, depois dos eventos na Crimeia, outras secessões virão, ou dificuldades duradouras, para os ucranianos falantes de russo.
A maior parte dos oligarcas são vistos como uma espécie de garantia contra esses perigos, porque eles têm massivo interesse em manter o estado ucraniano: não querem que o país seja integrado mais estreitamente à Rússia, porque temem ser engolidos pelos oligarcas russos, mais poderosos.
É o que explica que o magnata do aço, Taruta, tenha sido nomeado governador da região de Donetsk, onde Kiev enfrenta a reivindicação de secessão, pela população falante de russo, majoritária, que deseja separar-se da Ucrânia.
Logo depois de nomeado, Taruta falou aos habitantes de Donetsk: “Caros compatriotas. Dirijo-me a vocês, como presidente da Associação Industrial da Bacia [rio] Donetz e como cidadão falante de russo, com sangue ucraniano [sic]. Convoco todos aqueles para quem a Ucrânia e seu futuro são importantes, a unir esforços para preservar a integridade territorial de nosso país” [2].
Declaração semelhante fez Rinat Akhmetov, aliado de longa data de Viktor Yanoukovitch , mas que também teme influência mais forte da Rússia. O fato de que a União Europeia não impôs qualquer sanção contra ele, faz sentido: como defensor do estado ucraniano, Akhmetov tem vantagens notáveis, aos olhos do ocidente.
Deve-se dar atenção especial também à nomeação de Ihor Kolomoisky como governador de Dnipropetrovsk. Os motivos da nomeação são os mesmos que levaram à nomeação de Taruta: os interesses comerciais de Kolomoisky excluem qualquer aproximação entre Ucrânia e Rússia e qualquer aproximação com a esfera de influência direta de oligarcas russos, seus concorrentes.
Além disso, Kolomoisky, uma das maiores fortunas da Ucrânia, desentendeu-se com seu ex-amigo Yanoukovitch e mudou-se para a Suíça, onde é sensível à pressão ocidental. Sua popularidade na Ucrânia não aumentou pelo fato de ele, cujo banco controla quase 1/5 de todas as transações do país, ter assumido, por meios duvidosos, o controle da maior refinaria da Ucrânia nos anos 2008-2010 – quando, em Kiev, reinava a “coalizão laranja”, pró-ocidente. Depois da vitória eleitoral de Viktor Yanoukovitch em 2010, Kolomoisky, mesmo assim, conseguiu estabelecer boas relações com o novo governo.
Sua nomeação, agora, como governador de Dnipropetrovsk, é uma nova etapa na direção da restauração dos círculos de poder contra os quais se fez a rebelião da praça Maidan, antes de que Berlim a capturasse para sua própria luta contra a influência de Moscou.
Laranja russa
Mais uma vez, a luta por maior influência em Kiev, trava-se entre Alemanha e Rússia: Berlim engajou-se na luta aberta pela primeira vez, há 100 anos, no início da 1ª Guerra Mundial.
O objetivo, então, do plano alemão, era enfraquecer o adversário russo, atiçando questões internas, até a secessão de algumas áreas. Uma das figuras mais influentes na política da Alemanha para a Ucrânia, o jornalista Paul Rohrbach, depois funcionário do ministérios de Negócios Exteriores, muitas vezes recorreu a uma imagem depreciativa, comparando a Rússia a uma laranja: “Como a laranja é composta de gomos destacáveis, assim também o Império russo e seus diferentes territórios, as províncias do Báltico, a Ucrânia, a Polônia, etc.”
Rohrbach estava convencido de que bastaria “destacar essas partes do território (...) umas das outras e dar-lhes certo grau de autonomia”, para “pôr fim ao Império russo”[3]. Essas suas ideias foram muitas vezes designadas como “teoria da decomposição”.
A arma da insurreição
O plano formulado concisamente por Rohrbach entrou na fase operacional nas primeiras semanas da 1ª Guerra Mundial. Em documento datado de 11/8/1914, o chanceler Theobald von Bethmann-Hollweg declarava o desejo de recorrer, como “arma contra a Rússia”, à insurreição (Insurgierung), dentre outras “partes”, da Ucrânia. Pouco mais tarde, o ministro de Negócios Estrangeiros do Império dos Habsburgos confirmava que “nosso principal objetivo, como o da Alemanha, é o maior enfraquecimento possível da Rússia. Esperamos portanto obter a libertação da Ucrânia e dos demais povos que a Rússia oprime nas nossas fronteiras” [4].
O projeto de dividir a Rússia oferecia, principalmente, oportunidades políticas internas. De um lado, permitia alimentar ressentimentos tradicionais anti-Rússia, no seio da população alemã; de outro lado, permitira rotular a agressão militar como luta contra o despotismo do império czarista e, assim, ganhar, para os combates, os círculos que mais resistiam contra a aventura militar”.
“O efeito anti-czar da social-democracia” foi “elemento essencial para facilitar a tomada de posição a favor da guerra” – constatava em 1961 o historiador Fritz Fischer, em seu estudo pioneiro Griff nach der Weltmacht [Aposta na potência mundial] [5].
Libertados e controlados
Nas memórias e manifestos, selecionaram-se algumas formulações adequadas, para falar sobre os objetivos alemães naquela guerra. Assim, por exemplo, Matthias Erzberger, do Partido do Centro, falava, em setembro de 1914, a favor de combater para a “libertação” dos povos não russos, submetidos ao jugo moscovita” e pela criação de uma “autonomia” “no interior de cada vila”. Mas não esquecia de destacar que “tudo isso” tinha de ser feito “sob a supremacia militar da Alemanha”.
Erzberger não escondia que a “libertação” e a “autonomia” sob controle armado alemão não visavam apenas a penetrar economicamente na Ucrânia; também serviam a um objetivo geoestratégico claramente definido: tratava-se, escreveu ele, “de separar a Rússia, ao mesmo tempo, do Mar Báltico e do Mar Negro” [6].
A valsa das marionetes
No início de 1918, Berlim conseguiu pela primeira vez alcançar seu objetivo estratégico. Dia 9/2/1918, o Reich [império] alemão assina acordo com o Parlamento central [Rada] ucraniano, que acabava de proclamar a soberania da Ucrânia e rapidamente pedira ajuda a Berlim, contra a Rússia. O Império alemão então assumiu o controle de facto em Kiev: mas se “manteria a ficção” de que o Parlamento continuava a governar, como anunciou o general Wilhelm Groener, verdadeiro detentor do poder na Ucrânia de fins de março a fins de outubro de 1918 [7].
Mas, no instante em que perceberam que o Parlamente central ucraniano – dominado por liberais e sociais-democratas – não tinha condições para pôr em prática os planos de Berlim para a Ucrânia, os alemães instalaram no poder, pela força, um grande proprietário de terras, muito impopular entre a população camponesa empobrecida, Pavlo Skoropadsky, representante dos meios mais ricos. Houve revoltas imediatas, como antes já houvera, contra o regime czarista. Berlim reprimiu todas, com extrema brutalidade.
Quer dizer: antes, os alemães já demonstraram amplamente sua total indiferença às condições internas da Ucrânia, como se diz, “a ser libertada”; antes de perderem a 1ª Guerra Mundial e, com ela, o controle sobre Kiev.
Notas
[1] Cf. Oligarchen-Schach.
[2] Kiew ruft die Oligarchen. www.n-tv.de 05.03.2014.
[3] Walter Mogk: Paul Rohrbach und das "Größere Deutschland". Ethischer Imperialismus im Wilhelminischen Zeitalter. München 1972.
[4] Apud Fritz Fischer: Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland 1914/18. Düsseldorf 1961.
[5] Fritz Fischer: Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland 1914/18. Düsseldorf 1961.
[6] Apud Fritz Fischer: Griff nach der Weltmacht. Die Kriegszielpolitik des kaiserlichen Deutschland 1914/18. Düsseldorf 1961.
[7] Winfried Baumgart: General Groener und die deutsche Besatzungspolitik in der Ucrânia 1918. In: Geschichte 6/1970, S. 325-340.
Vladimir Putin sobre a situação na Ucrânia (2/3) - Coletivo Vila Vudu
http://eng.news.kremlin.ru/news/6763
[continuação]
VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: Suas perguntas, por favor.
PERGUNTA: Sr. Presidente, pode dizer se o senhor esperava reação tão forte dos seus parceiros ocidentais, contra as ações da Rússia? Pode dar-nos detalhes de suas conversas com seus parceiros ocidentais? A única coisa que se ouviu foram notícias do seu serviço de imprensa. E o que pensa sobe a reunião do G8 em Sochi – acontecerá?
VLADIMIR PUTIN: Sobre a reação esperada, se o G8 se realizará e sobre as conversas. Todas essas conversas são confidenciais, algumas acontecem até por linhas protegidas. Assim sendo, não estou autorizado a divulgar o que discuti com os parceiros. Mas posso comentar algumas declarações públicas, feitas por meus colegas ocidentais; sem dar nomes; comento-as só em termos gerais.
A que prestar atenção? Sempre há alguém a dizer que o que a Rússia faz não seria ilegítimo. Pergunto: “Será que supõem que tudo que o que eles fazem é sempre legítimo?” A resposta é “Sim, eles supõem”. Então, tenho de lembrar-lhes o que os EUA fizeram no Afeganistão, Iraque e Líbia, onde agiram sem autorização da ONU ou distorceram completamente o conteúdo daquelas resoluções, como no caso da Líbia. Nesse caso, como vocês sabem, a resolução só autorizava a fechar o espaço aéreo para a aviação de Gaddafi. E a coisa terminou, como se sabe, com bombardeios aéreos e operação em terra, pelas forças especiais.
O que se vê é que nossos parceiros, especialmente os EUA, sempre claramente formular seus próprios interesses geopolíticos e de estado, e os seguem persistentemente. Então, usando o princípio “Ou estão conosco ou estão contra nós”, dividem o mundo. E os que não se enquadrem, são ‘espancados’ até se enquadrar.
Nossa abordagem é diferente. Partimos da convicção de que sempre temos de agir com legitimidade. Eu, pessoalmente, sempre defendi que temos de agir em estrito cumprimento da lei internacional. Quero reforçar, mais uma vez, que, se tomarmos a decisão, se eu decidir usar as Forças Armadas russas, será decisão legítima, em plena obediência a todas as normas gerais da lei internacional – porque recebemos um pedido de ajuda do presidente legítimo –, e, também, em plena obediência aos nossos compromissos, que, nesse caso, coincidem com nossos interesses de proteger um povo com o qual temos estreitos laços históricos, culturais e econômicos. Essa é missão humanitária. Não visamos a subjugar ninguém nem a dar ordens a ninguém. Mas não podemos ficar indiferentes se vemos aquele povo ser perseguido, destruído e humilhado.
Seja como for, espero sinceramente que não seja necessário chegar até isso.
PERGUNTA: Como o senhor avalia a reação do ocidente aos eventos na Ucrânia e as ameaças contra a Rússia: estamos diante de possíveis sanções ou da expulsão do G8?
VLADIMIR PUTIN: Quanto às sanções. Quem mais se deve preocupar com as consequências das sanções é quem aplica as sanções. Entendo que, no mundo moderno, no qual tudo está interconectado e é interdependente, é possível causar danos a outro país, mas sempre será dano mútuo. Aí está algo que todos devem manter sempre em mente. Isso é uma coisa.
A segunda coisa, e a mais importante: já disse aos senhores o que nos motiva. Mas... o que motiva nossos parceiros? Eles apoiaram um golpe para tomada armada e inconstitucional do poder; declararam o novo poder legítimo e agora estão tentando dar-lhes apoio.
Devo dizer que, apesar de tudo isso, temos sido pacientes e até dispostos a cooperar; não queremos romper nossa cooperação. Como vocês devem saber, há alguns dias instruí o governo a considerar como se podem preservar os contatos até com aqueles poderes em Kiev que não consideramos legítimos, para não comprometer nossos laços na economia e na indústria. Entendemos que nossas ações têm sido absolutamente razoáveis. Entendemos também que ameaçar a Rússia sempre é contraproducente e danoso.
Quanto ao G8, não sei. Estaremos prontos para hospedar o encontro com nossos colegas. Se não querem vir... que seja.
PERGUNTA: Posso acrescentar algo, sobre os contatos? Como vejo as coisas, o senhor considera legítimo o primeiro-ministro da Crimeia, sr. Aksyonov, como representante das autoridades do governo. O senhor está pronto a ter contatos com os que se consideram legítimas autoridades em Kiev?
VLADIMIR PUTIN: Já falei sobre isso. O senhor talvez não tenha ouvido.
PERGUNTA: Quero dizer, em alto nível, para uma solução política.
VLADIMIR PUTIN: Não parceiro no alto nível, lá. Lá não há presidente. E não pode haver, até que haja eleições gerais.
Quanto à Crimeia, o Parlamento foi formado em 2010, em dezembro de 2010, se bem me lembro. Há 100 deputados eleitos, que representam seis partidos políticos. Depois da renúncia do ex-primeiro-ministro, o Parlamento da Crimeia, como ordena a legislação vigente e pelos procedimentos legais, elegeram um novo primeiro-ministro em sessão do Conselho Superior da Crimeia. É claro que é definitivamente legítimo. Foram respeitados todos os procedimentos de lei; não houve sequer um ato ilegal.
E, quando há alguns dias, um grupo de homens armados tentou ocupar o prédio do Soviet Superior da Crimeia, houve indignação dos habitantes locais. Pareceu-lhes que alguém tentava aplicar na Crimeia o mesmo cenário de Kiev, lançar séries de atos terroristas e provocar o caos. É claro que os habitantes locais têm boas razões para preocupação. Por isso organizaram comitês de autodefesa e assumiram o controle sobre as forças armadas da Crimeia.
Casualmente, examinei as notícias, ontem, para ver sobre o que, exatamente, a população da Crimeia assumiu o controle. Há várias dúzias de unidades C-300, várias dúzias de sistemas de mísseis de defesa aérea, 22 mil soldados e mais. Mas, como eu disse, tudo já está sob controle do povo da Crimeia, e sem disparar um único tiro.
PERGUNTA: Sr. Presidente, um esclarecimento, por favor. As pessoas que bloqueavam o acesso às unidades do Exército da Crimeia usavam uniformes muito parecidos com o uniforme do Exército Russo. Eram soldados russos, o exército russo?
VLADIMIR PUTIN: Examine os uniformes dos exércitos dos soldados dos estados pós-soviéticos. Há muitos uniformes parecidos. E sempre se pode entrar numa loja e comprar qualquer tipo de fardamento.
PERGUNTA: Mas eram ou não eram soldados russos?
VLADIMIR PUTIN: Eram unidades locais de autodefesa.
PERGUNTA: Eram treinados? Se se comparam aqueles soldados com as unidades de autodefesa em Kiev…
VLADIMIR PUTIN: Meu caro amigo, veja o quão bem treinado era o pessoal que operou em Kiev. Todos sabemos que foram treinados em bases especiais em estados vizinhos: na Lituânia, na Polônia e na própria Ucrânia. Foram treinados por instrutores, por longos períodos. Foram divididos em dúzias e centenas, as ações foram coordenadas e havia bons sistemas de comunicação. Funcionava como um relógio. Você os viu em ação? Operavam como profissionais, pareciam forças especiais. Por que você pressupõe que os defensores da Crimeia teriam de ser menos bem organizados, piores?
PERGUNTA: Então, me explico melhor: tomamos parte no treinamento das forças de autodefesa da Crimeia?
VLADIMIR PUTIN: Não.
PERGUNTA: Como o senhor vê o futuro da Crimeia? O senhor considera a possibilidade de a Crimeia unir-se à Rússia?
VLADIMIR PUTIN: Não, não consideramos. De modo geral, creio que só residentes de um determinado país, com plena liberdade para escolher e em completa segurança, podem determinar o futuro do próprio país. Se isso sempre tivesse sido garantido aos albaneses do Kosovo, se fosse tornado possível em muitas diferentes partes do mundo, ninguém teria roubado a ninguém o direito à autodeterminação, o qual, que eu saiba, está fixado em vários documentos da ONU. Não, de modo algum. Não provocaremos essa decisão, nem promoveremos esses sentimentos.
Quero destacar que acredito que só quem viva num dado território tem o direito de determinar o próprio destino naquele território.
PERGUNTA: Duas perguntas. O senhor disse que enviar tropas à Ucrânia é medida extrema, mas o senhor não a descartou. Mas, se tropas russas entrarem na Ucrânia, pode ser o início de uma guerra. Isso não o preocupa?
E uma segunda pergunta: o senhor diz que Yanukovych não deu ordem para seus policiais atirarem contra o povo. Mas alguém atirou e, claramente, eram atiradores treinados.
VLADIMIR PUTIN: Muita gente, inclusive pessoas que estavam entre os manifestantes, manifestaram a opinião de que eram provocadores, de um dos partidos da oposição. O senhor não ouviu esses relatos?
RESPOSTA: Não, não ouvi.
VLADIMIR PUTIN: Procure esses relatos – não é difícil encontrá-los. Por isso é tão difícil chegar ao fundo dessa situação. Mas não há dúvidas de que o senhor e eu vimos, com certeza, quando os policiais Berkut lá estavam, só com seus escudos, sob fogo – e não eram armas de ar comprimido, que foram usadas contra eles, mas armas de assalto, que perfuraram os escudos. Isso, com certeza, nós vimos, todo mundo viu. E quanto a quem ordenou os tiros, não sei. Sei o que o sr. Yanukovych contou-me. E ele me disse que não deu ordem de tiro, em nenhum momento. Mais do que isso, depois de assinar o acordo de 21/2, ele deu instruções para que todas as unidades policiais se retirassem da capital.
Posso, até, lhe contar mais. Yanukovych telefonou-me; e eu lhe disse que não retirasse os policiais das ruas. Disse a ele “Você terá anarquia, você gerará o caos na capital. Pense no povo.” Mas, mesmo assim, ele retirou os policiais. Imediatamente seu próprio gabinete foi tomado, e o prédio do governo, e foi o caos, o mesmo do qual eu falei a Yanukovych, e que continua até hoje.
PERGUNTA: E sobre a primeira pergunta? Não o preocupa a possibilidade de uma guerra?
VLADIMIR PUTIN: Não. Porque não planejamos guerra alguma, nem combateremos contra o povo da Ucrânia.
PERGUNTA: Mas há soldados ucranianos, o exército ucraniano.
VLADIMIR PUTIN: Ouça com atenção. Quero que me compreendam claramente: se nós tomarmos essa decisão, será, sempre e necessariamente e unicamente, para proteger os cidadãos da Ucrânia. Quero ver que exército ucraniano se atreverá a atirar contra o próprio povo, com os russos lá, com os ucranianos; por trás dos ucranianos, não à frente, mas no apoio. Queria saber quem, na Ucrânia, daria ordem ao exército ucraniano para atirar contra mulheres e criança ucranianas que estão sob nossa proteção.
PERGUNTA: Posso fazer uma pergunta, sr. presidente? Nossos colegas, meus colegas jornalistas que estão atualmente trabalhando na Ucrânia, dizem, todos os dias, que a situação dos Berkut piora dia a dia (com exceção, talvez, da Crimeia). Em Kiev, especialmente, há oficiais da polícia antitumultos feridos, agora hospitalizados, mas que não recebem nenhum tipo de tratamento. Alguns, sequer recebem comida. E as famílias deles não podem nem sair de casa, porque estão cercados: há barricadas em torno das casas. Não têm comida, são humilhados. O senhor pode comentar isso? Há meio de a Rússia ajudar aquelas famílias e os policiais?
VLADIMIR PUTIN: Sim, é assunto que muito nos preocupa. Não são soldados nossos, nem estamos diretamente envolvidos nessa situação. Mas é, sim, uma questão humanitária grave. Seria oportuno que nossas organizações de direitos humanos se envolvessem nessa questão. Podemos pedir que Vladimir Lukin, só ou com seus colegas [da ONU], representantes da França, Alemanha e Polônia, que trabalharam para construir o conhecido acordo de 21/2/2014, que viajem até lá e verifiquem in loco a situação desses policiais Berkut, que não ofenderam nenhuma lei e agiram em obediência às ordens. São oficiais militares, enfrentaram os tiros, os coquetéis molotov, foram feridos. Aquela situação é difícil até de imaginar. Há leis que obrigam a alimentar e dar tratamento médico até a prisioneiros de guerra. As organizações de direitos humanos devem dar toda a atenção a esse caso. Desde já, garanto que receberão atendimento médico aqui na Rússia.
PERGUNTA: Sr. Presidente, voltando à reação ocidental. Depois do duro pronunciamento do secretário de Estado dos EUA, o Conselho da Federação sugeriu que chamássemos de volta nosso embaixador nos EUA. O senhor apoia essa ideia?
VLADIMIR PUTIN: O secretário de Estado dos EUA é, sem dúvida, homem muito importante, mas não é a autoridade que determina a política externa dos EUA. Ouvimos declarações de vários políticos e representantes de variadas forças políticas. A medida sugerida é medida extrema. Será usada, se for necessária. Mas realmente não quero usá-la, porque acho que a Rússia não é a única interessada na cooperação com nossos parceiros num plano internacional, e em áreas como economia, política e segurança internacional, a cooperação interessa tanto a nossos parceiros quanto a nós. É muito fácil destruir esses instrumentos de cooperação, e seria muito difícil reconstruí-los.
PERGUNTA: Rússia envolveu-se no destino de Yanukovych. Como o senhor vê seu papel futuro e seu destino futuro?
VLADIMIR PUTIN: É difícil dizer, não analisei detidamente essas questões. Acho que ele não tem nenhum futuro político – e disse a ele. Quanto a nos ter envolvido no “destino” dele – o que fizemos foi feito por questão de consideração humanitária. Assassinar presidente legítimo é o meio mais fácil para livrar-se dele. Acho que, se ficasse lá, teria sido assassinado. Mais uma vez, ressurge a mesma pergunta: mas por quê?
Afinal, vejam como tudo começou, o que desencadeou esses eventos. A razão formal é que ele não assinou o Tratado de Associação com a União Europeia. Hoje, já soa como total nonsense; é ridículo, até, falar disso. Mas o que quero dizer é que ele não se recusou a assinar o tal Tratado.
Yanukovych disse: “Analisamos detidamente esse Tratado e o conteúdo dele não atende aos nossos interesses nacionais. Não podemos aumentar o preço do combustível para os ucranianos, tanto quanto o Tratado exige, porque os ucranianos já vivem situação muito difícil. Não podemos fazer isso, nem isso, nem aquilo. Não podemos romper completamente e imediatamente nossos laços econômicos com a Rússia, porque nossa cooperação é muito extensa. (...) Yanukovych disse “Não posso fazer isso, assim, de repente. Vamos discutir mais.” Yanukovych não se recusou a assinar o Tratado: só pediu mais tempo para discutir o documento. E, na sequência, essa loucura toda começou.
E por quê? Teria feito algo que extrapolasse a autoridade que tinha? Não. Agiu estritamente no limite de sua autoridade; não infringiu lei alguma. Simplesmente se recusou a apoiar as forças que lhe faziam oposição, numa luta pelo poder. Nada há aí de excepcional. Como, por que, esse ‘nada’ inicial foi levado ao atual nível de anarquia, à derrubada ilegal de governo legítimo, com a Ucrânia lançada no caos em que está hoje? Tudo, aí, me parece inaceitável.
Não é a primeira vez que nossos parceiros ocidentais fazem isso na Ucrânia. Às vezes tenho a sensação de que em algum lugar naquele poço imenso, nos EUA, alguém senta-se num laboratório e põe-se a fazer testes, como se todos fôssemos ratos de gaiola, sem realmente compreender as consequências do que fazem. Por que tinham de fazer isso? Quem explica o que fizeram? Não há explicação.
O mesmo aconteceu durante o primeiro levante na praça Maidan, quando Yanukovych foi bloqueado longe do poder. Quem precisava daquele terceiro turno de eleições? Em outras palavras, a coisa toda virou farsa – a vida política da Ucrânia foi convertida em farsa. Nenhuma consideração à Constituição. Agora, vocês veem, estão ensinando às pessoas que, se uma pessoa pode violar a lei, todos podem; assim, geraram o caos. O perigo é esse.
Em vez disso, é preciso ensinar as sociedades a seguir outras tradições: a tradição de respeitar a lei maior do país, a Constituição, e todas as demais leis. Claro, nem sempre se conseguirá. Mas... agir como touro em loja de porcelana é contraproducente e muito perigoso. Há mais perguntas, por favor? [Continua]
Entrevista de Vladimir Putin, sobre a situação na Ucrânia (1/3) - Coletivo Vila Vudu
4/3/2014, Encontro com jornalistas, Kremlin (texto transcrito)
http://eng.news.kremlin.ru/news/6763
VLADIMIR PUTIN, PRESIDENTE DA RÚSSIA: Boa-tarde, senhores.
Sugiro que organizemos as coisas do seguinte modo, como uma conversa, mais do que como entrevista. Peço então que apresentem suas perguntas, vou reunindo e tentarei respondê-las todas. Em seguida, podemos ter conversa mais detalhada sobre pontos específicos que os interessem mais. Podemos começar.
PERGUNTA: Sr. Presidente, queria perguntar-lhe (faz tempo que o senhor não conversa conosco, então há muitas perguntas) como o senhor avalia os eventos em? O senhor entende que o Governo e o presidente em exercício, que estão no poder em Kiev, são legítimos? O senhor está disposto a fazer contato com eles, e sob que termos? O senhor entende que seja possível agora voltar aos acordos de 21/2, sobre o qual todos nós falamos tanto?
PERGUNTA: Sr. Presidente, a Rússia prometeu ajuda financeira à Crimeia e, ontem, o Ministério das Finanças recebeu instruções. Já se sabe claramente quanto estamos dando, de onde está saindo o dinheiro, sob que condições está sendo entregue e quando? A situação lá é muito difícil.
PERGUNTA: Quando, em que termos e para que objetivo pode ser usada força militar na Ucrânia? Em que medida o movimento está sendo feito conforme acordos internacionais assinados pela Rússia? Os exercícios militares que acabam de ser encerrado tem algo a ver com o possível uso da força?
PERGUNTA: Queremos saber mais sobre a Crimeia. O Sr. entende que acabaram as provocações, ou que ainda há alguma ameaça contra os cidadãos russos que estão agora na Crimeia e contra os falantes de russo? Qual a dinâmica geral da situação lá – as coisas estão mudando para melhor ou para pior? Ouvem-se os relatos mais diferentes.
PERGUNTA: Se o senhor decidir usar a força, o senhor já avaliou os possíveis riscos para o senhor, para o país e para o mundo: sanções econômicas, menos segurança global, possível fim dos vistos de entrada em vários países ou maior isolamento para a Rússia, como estão exigindo políticos ocidentais?
PERGUNTA: Ontem, o mercado de ações caiu muito na Rússia, em resposta à votação no Conselho da Federação, e o rublo atingiu o recorde de menor valor de câmbio. O senhor esperava essa reação? Quais, na sua avaliação, são as possíveis consequências para a economia? São necessárias medidas especiais agora, e de que tipo? Por exemplo, o Sr. acha que a decisão do Banco Central de mover-se para uma taxa flutuante de câmbio para o rublo, pode ter sido prematura? Na sua opinião, a decisão deve ser revogada?
VLADIMIR PUTIN: Ótimo. Comecemos por essas perguntas. Depois, continuamos. Não se preocupem: tentarei responder o maior número possível de perguntas.
Para começar, minha avaliação de o que aconteceu em Kiev e na Ucrânia em geral. Só pode haver uma avaliação: foi tomada anticonstitucional, tomada armada, do poder. Alguém questiona isso? Não, ninguém questiona. Há aqui uma pergunta que nem eu nem meus colegas com os quais discuti muito a situação na Ucrânia nos últimos dias, como vocês sabem – uma pergunta que nenhum de nós pode responder. A pergunta é: por que tudo aquilo foi feito?
Queria chamar a atenção de vocês para o fato de que o presidente Yanukovych, através da mediação de Ministros de Relações Exteriores de três países europeus – Polônia, Alemanha e França – e na presença de um de meus representantes (o Comissário Russo para Direitos Humanos, Vladimir Lukin) assinou um acordo com a oposição, dia 21 de fevereiro. Quero destacar que, nos termos desse acordo (e não estou dizendo que seja bom ou ruim, só estabelecendo um fato), o Sr. Yanukovych, na verdade, entregou o poder.
Aceitou todas as demandas da oposição: aceitou que se antecipassem as eleições parlamentares, as eleições presidenciais, e o retorno à Constituição de 2004, como a oposição demandava. Deu resposta positiva ao nosso pedido, ao pedido dos países ocidentais e, sobretudo, ao pedido da oposição, para que não usasse a força. Não emitiu uma única ordem ilegal, para atirar naqueles infelizes manifestantes. Além disso, ordenou a retirada de todas as forças policiais da capital, o que elas fizeram. Foi a Carcóvia, para participar de um evento e, no momento em que ele saiu, em vez de esvaziar e liberar os prédios públicos ocupados, eles imediatamente ocuparam a residência do presidente e o prédio do governo. Exatamente o oposto do acordo que acabavam de assinar.
Pergunto-me a mim mesmo, qual o objetivo disso tudo? Quero muito entender por que isso foi feito. O presidente de fato já cedera o poder, e creio que, como eu disse a ele, ele não tinha chances de ser reeleito. Quanto a isso, todos concordam, todos com quem falei pelo telefone nos últimos dias. Qual o objetivo de todas aquelas ações ilegais e inconstitucionais? Por que criaram tamanho caos no país? As ruas de Kiev ainda estão cheias de milicianos mascarados e armados. Aí estão uma questão ainda sem resposta. Queriam humilhar alguém e mostrar poder? Aí, só vejo ações absolutamente tresloucadas. O resultado é o exato oposto do que esperavam, porque suas ações desestabilizaram significativamente o leste e o sudeste da Ucrânia.
Agora, sobre como isso tudo aconteceu.
Na minha opinião, essa situação revolucionária já estava fermentando há muito tempo, desde os primeiros dias da independência da Ucrânia. O cidadão ucraniano comum, a gente comum, sofreu durante o reinado de Nicolau 2º, durante o governo de Kuchma, e Yushchenko e Yanukovych. Nada, ou praticamente nada, jamais mudou para melhor. A corrupção alcançou dimensões das quais nunca nem se ouviu falar na Rússia. Acumulação de riqueza e estratificação social – problema também agudo na Rússia – são muito piores, radicalmente piores na Ucrânia. A coisa lá é além do que possamos imaginar. De modo geral, todas as pessoas queriam mudanças. Mas ninguém apoiará mudança ilegal.
No espaço pós-soviético, onde as estruturas políticas ainda são frágeis e as economias ainda são fracas, é essencial que se usem só meios constitucionais. Nessa situação, ir além do marco constitucional sempre será erro cardinal. Devo dizer que compreendo aquelas pessoas na praça Maidan, embora não apoie o rumo que as coisas tomaram. Entendo que as pessoas em Maidan exigissem mudança radical, não alguma simples remodelagem cosmética, do poder. Por que exigem isso? Porque cresceram vendo um grupo de ladrões trocar de lugar com outro grupo de ladrões. Além do mais, as pessoas da Regiões não participam sequer da formação de seus próprios governos regionais. Houve tempo, na Rússia, quando o presidente nomeava os líderes regionais, mas eles tinham de ser aprovados pelas autoridades regionais. Na Ucrânia, são diretamente noemados. Nós já temos eleições; eles ainda não estão nem perto disso. E, lá, puseram-se a nomear todos os tipos de oligarcas e bilionários para governarem as regiões leste do país. Não é surpresa que as pessoas não aceitassem isso. Não é surpresa que vejam que, como resultado de uma privatização desonesta (e também aqui há muita gente que tem o mesmo pensamento), alguns tenham ficado imensamente ricos e que, agora, estivessem sendo levados ao poder.
Por exemplo: Kolomoisky foi nomeado Governador de Dnepropetrovsk. É escroque conhecido. Conseguiu ludibriar até um oligarca russo, Roman Abramovich, há dois ou três anos. “Tungou” Roman Abramovich, como nossos intelectuais gostam de dizer. Os dois assinaram um negócio; Abramovich transferiu vários bilhões de dólares; o sujeito jamais entregou o que vendera e embolsou o dinheiro. Quando eu perguntei a ele [Roman Abramovich]: “Por que você fez aquele negócio?”, ele disse: “Nunca pensei que esse golpe fosse possível”. Não sei, até hoje, se conseguiu reaver seu dinheiro, ou se acabaram por consumar o negócio. Mas aconteceu, realmente, bem assim, há alguns anos. Agora, esse mesmo escroque aparece nomeado Governador de Dnepropetrovsk. Não surpreende que as pessoas estejam insatisfeitas. Estavam insatisfeitas e continuarão insatisfeitas, se os que se autodesignam autoridades legítimas continuam a gir do mesmo modo.
O mais importante é que as pessoas têm de ter o direito de decidir o próprio futuro, de suas família, da região onde vivem, e têm de ter participação igual. Aí está algo que quero destacar: não importa em que parte do país alguém viva, ele ou ela tem de ter o direito de participar em condições de igualdade, para determinar o futuro do país.
As atuais autoridades são legítimas? O Parlamento tem ainda alguma legitimidade, mas os demais não, não são legítimos. O presidente-em-exercício, esse, definitivamente não é legítimo. De um ponto de vista legal, só a um presidente. Sabemos que não tem poder. Mas, ainda assim, já disse e repito: Yanukovych é o único presidente legítimo.
Pela lei ucraniana há três modos de remover um presidente: por morte, se ele pessoalmente renuncia, ou por impeachment. O impeachment é processo constitucional, com regras bem claras. Envolve a Corte Constitucional, a Suprema Corte e o Rada (Parlamento). É procedimento complicado e demorado. Não houve nada disso. Portanto, do ponto de vista legal, não há sequer o que discutir.
Acredito, além do mais, que essa foi a razão pela qual extinguiram a Corte Constitucional – o que contradiz todas as normas legais, da Ucrânia e da Europa. Não apenas dissolveram a Corte Constitucional de modo ilegítimo, mas eles também – vejam só! – deram ordens ao Gabinete do Procurador Geral para iniciar processos criminais contra todos os juízes da Corte Constitucional. O que é isso? É o que chamam de justiça? Como é possível alguém mandar alguém iniciar processo criminal, sem acusação formal, sem inquérito? Iniciar um processo criminal por ordem superior é nonsense. É falcatrua.
Agora, sobre a ajuda financeira à Crimeia. Como vocês talvez já saibam, decidimos organizar o trabalho nas regiões russas, para ajudar a Crimeia, que nos pediu apoio humanitário. Claro que atenderemos o pedido. Não posso ainda dizer quanto, quando ou como – o governo está trabalhando nisso, reunindo as regiões que têm fronteira com a Crimeia, garantindo apoio adicional às nossas regiões, para que possam ajudar o povo da Crimeia. Não há dúvida de que ajudaremos, é claro.
Sobre o deslocamento de tropas, o uso de forças armadas. Até aqui, não houve necessidade, mas a possibilidade permanece. Quero dizer aqui que os exercícios militares que fizemos recentemente nada têm a ver com os eventos na Ucrânia. São exercícios planejados há muito tempo, mas não foram divulgados, naturalmente, porque era inspeção surpresa da prontidão da forças para combate. Estava planejado há muito tempo, o Ministro da Defesa informou-me e eu já tinha a ordem pronta para iniciar o exercício. Vocês talvez já saibam que os exercícios já foram concluídos; ontem, dei ordem para que as tropas voltem aos deslocamento regulares.
O que daria motivo para usar as Forças Armadas? – uma medida que, com certeza, só será tomada como último recurso.
Em primeiro lugar, a questão da legitimidade. Como vocês devem saber, recebemos pedido direto do presidente eleito e, como eu disse, do único presidente legítimo da Ucrânia, Sr. Yanukovych, que nos pediu o uso das forças armadas para proteger a vida, a liberdade e a integridade física dos cidadãos da Ucrânia.
Qual a nossa maior preocupação? Vemos o crescimento de forças reacionárias, nacionalistas e antissemitas em várias partes da Ucrânia, inclusive em Kiev. Vocês, jornalistas, com certeza viram um dos governadores algemado e preso com correntes a um poste, e atacado com baldes de água, no auge do inverno. Depois disso, foi trancado num celeiro e torturado. O que é isso? Seria democracia? Seria manifestação democrática? Esse governador havia sido nomeado recentemente, em dezembro, me parece. Ainda que se aceite que, lá, todos são corruptos, esse governador ainda nem teria tido tempo de roubar coisa alguma.
Sabem o que aconteceu quando tomaram o prédio do Partido das Regiões. Não havia no prédio membros do partido. Apenas dois, três empregados saíram, um deles um engenheiro, que disse aos invasores: “Por favor, deixem-nos sair. Deixem sair as mulheres, por favor. Sou engenheiro, nada tenho a ver com política.” Esse foi assassinado a tiros, ali, à frente de todos. Outro dos empregados foi preso num celeiro e o celeiro incendiado com coquetéis molotov. Foi queimado vivo. Seria manifestação de democracia?
Quando se veem essas coisas, entende-se o que preocupa os cidadãos da Ucrânia, sejam russos ou ucranianos, e a população que fala russo nas regiões leste e sul da Ucrânia. O que os preocupa é esse crime descontrolado.
Assim sendo, se virmos esse crime descontrolado espalhando-se para as regiões leste do país, e se aquele povo nos pedir ajuda, dado que já temos o pedido formal, legal do presidente legítimo, nos reservamos o direito de usar todos os meios ao nosso alcance para proteger aquelas pessoas. É resposta absolutamente legítima. Será usada como último recurso.
Há uma coisa que eu gostaria de dizer: nós sempre consideramos a Ucrânia não só como vizinho, mas como república vizinha irmã. E assim continuaremos. Nossas Forças Armadas são camaradas em armas, amigos, muitos dos quais se conhecem pessoalmente. Tenho certeza, e insisto, que militares ucranianos e russos jamais se enfrentarão: em combate, todos estarão do mesmo.
Aliás, isso de que estou falando – essa unidade – é o que já se vê na Crimeia. Vocês sabem que, graças a Deus, nenhum tiro foi disparado ali; não há mortes, exceto um atropelamento na praça há uma semana. O que se viu ali? As pessoas chegaram, cercaram unidades das forças armadas e conversaram com os soldados, convencendo-os a atender às demandas populares e o desejo do povo que vive ali. Não houve um tiro, um único confronto armado.
Assim, a tensão na Crimeia, associada à possibilidade de usarmos nossas forças armadas simplesmente se esvaiu, e não foi preciso usá-las. A única coisa que tínhamos de fazer e fizemos, foi reforçar a defesa de nossas instalações militares, porque estavam recebendo ameaças, e sabíamos de nacionalistas armados que tentavam aproximar-se. Reforçamos nossa proteção, e era a coisa certa a fazer e fizemos no momento certo. Parto da ideia de que não será necessário fazer nada desse tipo, no leste da Ucrânia.
Mas há algo que quero destacar. Obviamente, o que vou dizer não está compreendido na minha autoridade e não temos nenhuma intenção de interferir. Mas cremos firmemente que todos os cidadão da Ucrânia, repito: vivam onde viverem, devem ter iguais direitos de participar na vida de seu país e determinar seu futuro.
Se eu estivesse na pele daqueles que se consideram autoridades legítimas, não perderia tempo e cuidaria de seguir logo todos os procedimentos legais necessários, porque eles não tão mandado nacional para conduzir políticas domésticas, externas ou econômicas da, nem, especialmente, para determinar o futuro da Ucrânia.
Agora, a questão das Bolsas de ações. Como vocês talvez saibam, o mercado já estava oscilante antes de que a situação na Ucrânia deteriorasse. Tem a ver, basicamente, com a política do Federal Reserve dos EUA, cujas decisões recentes tornaram mais atraente investir na economia dos EUA, e os investidores puseram a mover seus investimentos, dos países emergentes para o mercado norte-americano. É uma tendência geral e nada tem a ver com a Ucrânia. Parece-me que o país que mais sofreu, dentre os BRICS, foi a Índia. A Rússia também foi atingida, não tão duramente como a Índia, mas foi atingida. A razão fundamental é essa.
Quanto aos eventos na Ucrânia, a política sempre influencia os mercados de ações, de um modo ou de outro. O dinheiro gosta de tranquilidade, estabilidade e calma. Mas acho que é desenvolvimento só tático, temporário, e influência temporária [continua].
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