C'mon baby, incendeie o meu incêndio (crimeano) *
7/3/2014, Pepe Escobar, Asia Times Online
http://www.atimes.com/atimes/Central_Asia/CEN-01-070314.html
16 de março é o dia C. O Parlamento da Crimeia – por 78 votos e com oito abstenções – decidiu que naquele dia os eleitores crimeanos escolheram entre integrar-se à Federação Russa ou permanecer parte da Ucrânia, como região autônoma, com poderes muito efetivos, nos termos da Constituição de 1992.
Seja qual for o terremoto “diplomático” que Washington e Bruxelas continuem a estimular, e será incendiário, incandescente, os fatos em solo falam por eles mesmos. A conselho da cidade de Sevastopol – quartel-general da Frota Russa no Mar Negro – já votou pela integração à Rússia. E semana que vem, em Moscou, a Duma [Parlamento] estudará uma resolução para simplificar os procedimentos e mecanismos da adesão.
Recapitulando rapidamente: aí está o resultado direto do gasto de $5 bilhões de Washington – número oficial, fornecido por Victoria “Foda-se a União Europeia” Nuland – para promover a ‘mudança de regime’ na Ucrânia. O que se vê é que a Crimeia pode ser incorporada gratuitamente à Rússia, enquanto o ‘Ocidente’ ficará com o atraso e a bancarrota (Oeste da Ucrânia), do que um leitor de Asia Times Online descreveu, descrição indelével, como o “Khaganato dos Nulands” (reino de Gengis, por exemplo, dentre outros khans), misturado com terra de ninguém, onde reina o marido de Victoria (“Foda-se” etc.) Nuland Kagan.[1]
O governo que para Moscou é governo ilegal infiltrado de neonazistas em Kiev, comandado pelo primeiro-ministro Arseniy "Yats" Yatsenyuk – ucraniano, judeu e banqueiro, no papel de fantoche do ocidente –, insiste que a Crimeia deve permanecer como parte da Ucrânia. E não só Moscou: metade da própria Ucrânia não reconhece a gangue de Yats como governo legítimo, agora já impondo inúmeros oligarcas como governadores de províncias.
Esse tal ‘governo’ – apoiado pelos EUA e pela União Europeia – já declarou ilegal o referendo. Comprovando suas impecáveis credenciais “democráticas”, eles já proibiram o uso do idioma russo na Ucrânia; já se livraram do Partido Comunista (que recebeu 13% dos votos nas últimas eleições, mais votos, aliás, que o Partido Svoboda [“Liberdade”] infestado de neonazistas, e agora encarregado dos ministérios da ‘segurança’ do novo governo; e também já fecharam uma estação de televisão russa, a qual, por falar dela, é a mais popular das televisões ucranianas a cabo.
No meio de toda a histeria que se vê em Washington e em algumas capitais europeias, o que ninguém explica à engambelada opinião pública é que esses fascistas-neonazistas que chegaram ao poder mediante golpe, jamais permitirão que se façam eleições verdadeiras na Ucrânia; afinal, é praticamente certo que, se houver eleições, eles serão varridos do mapa.
Isso implica que “Yats” e sua gangue – além de já ter sido recebido com tapete vermelho numa pomposa, embora inócua, reunião da União Europeia em Bruxelas – não sairá de onde está. Por exemplo, já usaram força pesada para pôr a correr manifestantes pró-Rússia que se reuniram em frente à sede do governo na cidade de Donetsk. Cidade fortemente industrializada, Donetsk têm muitos laços comerciais com a Rússia.
E outro cenário, ainda mais sinistro, já começa a aparecer no horizonte: uma possível instrumentalização da franja de jihadistas lunáticos dos 10% de tártaros que vivem na Crimeia, para tudo: de ataques preparados para serem atribuídos a outros, até suicidas-bomba. A Casa de Saud, segundo sólida fonte saudita, está imensamente interessada na Ucrânia e pode ser tentada a prestar alguns favores à inteligência ocidental.
Nosso amor se converterá em pira funerária?[2]
Pode-se dizer que, para Moscou, é muito melhor negócio manter a Crimeia dentro da Ucrânia, com amplos poderes autônomos, mais o acordo vigente para manter ali a base naval de Sevastopol, que a anexação. É como se a Rússia estivesse anexando o que, para todos os objetivos práticos, já é província russa.
Assim, o Kremlin pode sempre decidir não anexar, e usar o resultado praticamente já decidido do referendo como peão chave numa negociação complexa, não com a União Europeia, mas, fundamentalmente, com a Alemanha. A União Europeia é hoje um saco de gatos. O ‘governo em Kiev é só confusão. O que realmente interessa é o que Vladimir Putin está discutindo por telefone com Angela Merkel.
Muita coisa aí tem a ver com o Oleogasodutostão – por exemplo, o Ramo Norte (Nord Stream) de 9 bilhões de euros (EUA$12,4 bilhões), o cordão umbilical de aço que liga Rússia e Alemanha pelo Mar Báltico. Merkel, o então presidente russo Dmitri Medvedev e o ex-chanceler alemão e hoje presidente do Ramo Norte, Gerhard Schroeder, estavam muito próximos e unidos, quando o projeto de gasoduto para levar gás russo até a Alemanha entrou em operação em 2011. O projeto foi inicialmente proposto em 2005, quando Schroeder era chanceler e Putin era presidente da Rússia pela primeira vez. No início dessa semana, Schroeder disse que a OTAN devia calar o bico.
Além de tudo mais, dois terços do comércio entre Rússia e a União Europeia estava, em 2012 (ainda não há dados de 2013), em torno de estonteantes EUA$370 bilhões, com a Rússia exportando, principalmente petróleo, gás e cereais, e a União Europeia exportando, principalmente, carros, medicamentos, componentes de máquinas. Esqueçam todas as sanções, o tal sacrossanto mantra de Washington. Sanções são péssimas para os negócios.
Mas Moscou, sim, tem uma real, tangível e muito séria linha vermelha. Não precisa nem se preocupar com a Ucrânia na União Europeia, porque a maioria dos europeus não quer a Ucrânia como membro do clube deles. A linha vermelha é as bases da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) na Ucrânia. Moscou pode, inclusive, aceitar que a Ucrânia permaneça como uma espécie de Finlândia, entre a Rússia e a Europa, com a Crimeia ainda dentro da Ucrânia. Uma base da NATO ali, ao lado da base russa em Sevastopol seria totalmente psicodélico.
Assim sendo, uma decisão na Crimeia – não importa para que lado vá – envia, sim, uma mensagem muito clara, de Moscou para o “ocidente”: prestem atenção à nossa linha vermelha. Diferentes de outros por aí, nós falamos sério. Defenderemos nossa linha vermelha com tudo que temos.
Não é hora de chafurdar em conversa fiada[3]
Primeiro, o presidente Barack Obama dos EUA declarou solenemente que o referendo na Crimeia “viola(ria) a lei internacional” (mas o Kosovo, sim, pôde separar-se alegremente da Sérvia, em 2008, com ruidosa comemoração em Washington.)
E, isso, depois de ele ter declarado a Crimeia “ameaça extraordinária à segurança e à política externa dos EUA”. O que mais falta?! Nacionalistas da Crimeia invadirem o Iowa? Não, não. É ardil da Casa Branca, para iniciar a usual guerra financeira.
E tudo isso, quando a mais brilhante “estratégia” da equipe Obama – continuar a demonizar Putin até o Juízo Final – estava atingindo o clímax.[4]
Mas foi quando Obama – percebendo que Angela Merkel estava roubando para ela todos os holofotes – telefonou a Putin e ficou por quase uma hora tentando “engajar” o homem. Por que, diabos, tão súbita mudança de sentimentos?
Uma possível resposta pode vir do inescapável Dr. Zbigniew “O Grande Tabuleiro de Xadrez” Brzezinski, ex-conselheiro de segurança nacional de Jimmy Carter, aquele Hamlet caipira; o homem que deu aos sovietes “o Vietnã deles”; o homem que sempre sonhou que os EUA deveriam reinar sobre a Eurasia; e principal mentor “invisível” de Obama para sua política externa.
Como o Dr. Zbig disse a Nathan Gardels do WorldPost, “A estratégia do ocidente nesse momento deve ser complicar o planejamento de Vladimir Putin.” Ora... Não funcionou muito bem, né-não? Então vem o Dr. Zbig e diz que “a OTAN deve convidar os russos a participar das discussões em andamento”. Não funcionou.
Dr. Zbig foi firme: “temos de reconhecer formalmente o novo governo na Ucrânia, o qual, creio, manifesta o desejo do povo de lá”. Na verdade, o desejo de talvez metade da nação, se tanto. “Interferência nos negócios da Ucrânia será considerado ato hostil por potência estrangeira”. Era o que Obama tinha na cabeça. Até que telefonou para Putin.
O Dr. Zbig ficou ainda mais apocalíptico, e disse que “Temos de pôr em operação os planos de contingência da OTAN, deslocar forças na Europa Central, para estarmos em posição de responder, no caso de a guerra eclodir e espalhar-se”. Não surpreende que a imprensa-empresa nos EUA tenha entrado em surto de total piração.
Mas foi quando o Dr. Zbig recuperou a sanidade: “A melhor solução para a Ucrânia será tornar-se o que a Finlândia foi para a Rússia.” Assim sendo, no final, ele parece ter sugerido a Obama “uma solução de compromisso que seja aceitável para a Rússia e para o Ocidente”. E que envolverá “ajuda econômica e investimento sérios”. E adivinhe quem deve liderar, garantindo o dinheiro? “A Alemanha, a economia mais próspera e mais forte da União Europeia.”
Assim sendo, no fim, voltamos, mais uma vez, ao que Angela e Vlad já discutem há tempos. É a finlandização? Ou é só questão de decidir quem tenta incendiar a noite?
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* “Light my fire” é verso e título de The Doors, 1967. Ouve-se [e versos traduzidos] em http://letras.mus.br/the-doors/11476/traducao.html [NTs]
[1] Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Khanate. Há aí também um eco semântico, audível para falantes de português e espanhol: “cagar” é variante (muito) chula, para “defecar”. Mas o Urban Dictionary registra o verbete “cagada”, no inglês norte-americano, provavelmente, pelo espanhol, com o mesmo significado que tem em português e espanhol (em http://www.urbandictionary.com/define.php?term=cagada) [NTs].
[2] Orig. Will our love become a funeral pyre? Também é verso de The Doors, em “Light my fire”, cantado pelo coro: http://rock.rapgenius.com/The-doors-light-my-fire-lyrics#note-1789948 [NTs].
[3] Orig. “No time to wallow in the mire”. Também é verso de The Doors, em “Light my fire”, cantado pelo coro: http://rock.rapgenius.com/The-doors-light-my-fire-lyrics#note-1789948 [NTs].
[4] http://time.com/13040/putin-ukraine-obama-white-house-attacks/
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sábado, 8 de março de 2014
sábado, 31 de agosto de 2013
Na pressa para atacar a Síria, EUA tenta impedir que a ONU investigue - Gareth Porter - Tradução Vila Vudu
27/8/2013, Gareth Porter, InterPress Service
http://www.ipsnews.net/2013/
Depois de ter insistido, de início, que a Síria desse pleno acesso aos investigadores da ONU, até os locais onde teria havido um atentado com gás venenoso, o governo do presidente Barack Obama mudou de conversa no domingo; e passou a tentar, sem sucesso, que a ONU abortasse sua própria investigação.
Essa virada repentina, que aconteceu horas depois de Síria e ONU terem acertado os detalhes da ação dos investigadores, foi noticiada pelo Wall Street Journal na 2ª-feira e confirmada no mesmo dia, mais tarde, por um porta-voz do Departamento de Estado.
No encontro com a imprensa na 2ª-feira, o secretário de Estado John Kerry, que chegou a falar por telefone com o secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon, para que suspendesse a investigação – a qual, segundo Kerry, teria chegado tarde demais para obter provas válidas do ataque que, para fontes da oposição síria, teria feito 1.300 vítimas.
A mudança repentina e a repentina aberta hostilidade contra a investigação da ONU, que coincidem com indicações de que o governo Obama planeja um grande ataque militar contra a Síria para os próximos dias, sugere que o governo Obama entende que a ONU esteja atuando como obstáculo para seus planos de atacar militarmente.
Na 2ª-feira, Kerry disse que, na 5ª-feira, havia alertado o ministro Moallem, de Relações Exteriores da Síria, para que desse acesso imediato à equipe da ONU e suspendesse os bombardeios naquela área, os quais, disse Kerry, estariam “sistematicamente destruindo provas”. Disse que o acerto entre Síria e ONU, que afinal deu pleno acesso aos investigadores, estaria acontecendo “tarde demais para ter credibilidade”.
Mas logo depois de o acordo ter sido anunciado no domingo, Kerry já havia telefonado a Ban, tentando cancelar completamente qualquer investigação.
O Wall Street Journal noticiou a pressão sobre Ban, mas sem mencionar Kerry.[1] Publicou que “funcionários não identificados do governo disseram ao secretário-geral que já não é seguro que os inspetores continuem na Síria e que a missão deles já não faz sentido.”
Mas Ban, que sempre foi visto como instrumento dócil das políticas dos EUA, recusou-se a retirar da Síria a equipe de investigadores e, em vez de obedecer, “manteve-se firme na defesa dos princípios” – como escreveu o WST. O que se sabe é que Ban ordenou que a equipe de investigadores da ONU “continue seu trabalho.”
O WST noticia que “funcionários dos EUA” disseram também ao secretário-geral que os EUA “não acham que os inspetores conseguirão obter provas aproveitáveis, dado que já transcorreu muito tempo e bombardeios subsequentes destruíram as provas que houvesse.”
A porta-voz do Departamento de Estado, Marie Harf, confirmou para jornalistas que Kerry, sim, falou com Ban durante o fim-de-semana. Também confirmou a mudança de posição dos EUA sobre as investigações. “Acreditamos que passou tempo demais e houve tal destruição na mesma área que a investigação não terá credibilidade” – disse ela.[2]
Essa mesma ideia apareceu também em declaração de “alto funcionário”, anônimo, no domingo, para o Washington Post, segundo a qual as provas teriam sido “significativamente corrompidas” por bombardeios subsequente, pelo regime, na mesma área.[3]
“Agora já não cremos que a ONU possa fazer investigação confiável sobre o que aconteceu” – disse Harf. – “Estamos preocupados, porque o regime sírio está usando a tática de atrasar as investigações, para continuar a bombardear e destruir provas na área.”
Mas Harf não explicou como o cessar-fogo que o governo sírio impôs na área a ser investigada e a decisão de dar pleno acesso aos investigadores da ONU poderiam ser interpretados como “continuar a bombardear e destruir provas na área.”
Apesar dos esforços dos EUA para fazer-crer que a política síria seria política de “atrasar”, a verdade é que o pedido formal da ONU para que a equipe chegasse ao local não havia sido encaminhado ao governo sírio, até que Angela Kane, Alta Representante da ONU para Temas de Desarmamento, chegou a Damasco no sábado; foi o que informou Farhan Haq, como porta-voz de Ban, em briefing à imprensa, em New York, na 3ª-feira.
Na 3ª-feira, o ministro sírio de Relações Exteriores Walid al-Muallem disse, em conferência de imprensa, que ninguém havia pedido à Síria qualquer autorização para que a ONU tivesse acesso à área de East Ghouta, até que o pedido afinal apareceu, encaminhado por Angela Kane, no sábado. No dia seguinte, a Síria informou que o pedido fora a aceito, bem como o cessar-fogo na mesma área.
Haq discordou frontalmente do que Kerry dissera sobre ser tarde demais para recolher provas sobre o incidente do dia 21/8. “O gás Sarin deixa rastros que podem ser detectados meses depois de o gás ser usado”, disse ele, como o New York Times noticia.[4]
Especialistas em armas químicas também sugeriram, em entrevistas para nosso InterPress Service, que a equipe de investigadores da ONU – coordenada pelo renomado especialista sueco Ake Sellström e reunindo vários especialistas requisitados da Organização para Prevenção de Armas Químicas – teria meio para confirmar ou descartar, em apenas alguns poucos dias, a acusação de ataque com gás de efeito neurológico ou por outra arma química na área investigada.
Ralph Trapp, consultor para temas relacionados à proliferação de armas químicas e biológicas, disse que se sentia “razoavelmente confiante” de que a equipe da ONU conseguirá esclarecer o que houve. “Eles podem oferecer resposta altamente confiável à questão de saber se houve ataque químico; e eles podem também dizer qual o produto químico usado como arma” – disse ele –, a partir de exame de amostras de sangue, urina e cabelo dos mortos e feridos. Há até “alguma chance” de recolher resíduos químicos, de pedaços de munição ou de cartuchos, nos locais investigados. E uma análise completa, disse Trapp, exige “vários dias”.
Steve Johnson, que dirige um programa de investigação forense de armas químicas, biológicas e radiológicas na Cranfield University na Grã-Bretanha, disse que até o final da semana a ONU já saberá se “houve mortes provocadas por agente químico de efeito neurológico”. Johnson disse também que, sendo absolutamente urgente, a equipe conseguiria produzir “alguma espécie de primeira estimativa tendencial” sobre a questão, no prazo de 24 a 48 horas.
Dan Kastesza, veterano que serviu durante 20 anos no Corpo de Armas Químicas do Exército dos EUA [orig. U.S. Army Chemical Corps] e foi conselheiro da Casa Branca sobre proliferação de armas químicas e biológicas, disse à InterPress Service que, de fato, não se procura traços de gás sarin em amostras de sangue, mas das substâncias químicas que são produzidas quando o gás sarin se decompõe. Kastesza disse também que, depois de recebidas as amostras, os especialistas podem saber, “no período de um ou dois dias”, se houve contato com gás sarin ou outro produto químico dos que se usam como arma.
A verdadeira razão da hostilidade do governo Obama contra a investigação pela ONU parece ser o medo de que a decisão do governo sírio, de dar livre acesso aos especialistas, indique que o governo sírio já sabe que os investigadores não encontrarão qualquer evidência de uso de gás de efeito neurológico.
Os esforços do governo dos EUA em 2013 para desacreditar a investigação dos especialistas fazem lembrar o que fez o governo de George W. Bush contra os inspetores da ONU, em 2002 e 2003, depois que não encontraram qualquer prova de que haveria armas de destruição em massa no Iraque; o governo Bush, daquela vez, recusou-se a dar mais tempo aos inspetores, de modo que não conseguissem demonstrar cabalmente, por prova irrefutável, que não havia no Iraque nenhum programa ativo de produção armas de destruição em massa.
Nos dois casos, o governo dos EUA já decidiu ir à guerra. E não permitirá que se produza informação que se contraponha à sua decisão.
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[2] http://www.scoop.co.nz/ stories/WO1308/S00483/us- state-department-daily-press- briefing-august-26-2013.htm
[4] http://mobile.nytimes.com/Síria: inúmeras evidências apontam para uma farsa assassina no ataque químico - Tradução Vila Vudu
Síria:
Mecanismos abertos e clandestinos da provocação química
29/8/2013, Dmitry MININ, Strategic Culture
http://www.strategic-culture. org/news/2013/08/29/the-overt- and-covert-mechanisms- chemical-provocation-syria. html
29/8/2013, Dmitry MININ, Strategic Culture
http://www.strategic-culture.
Uma poderosa campanha de propaganda foi lançada, mais uma vez, contra a Síria, com acusações de que o exército estaria supostamente usando armas químicas. Todas as campanhas anteriores morreram gradualmente, deixando atrás de si só espuma e lama. Seja como for, o que está acontecendo parece uma “décima onda”[1] bem real.
O secretário de Estado Kerry aparece em declarações cada vez mais histriônicas, sempre a quilômetros de distância de qualquer lógica. “Sabemos”, diz ele, “que o regime sírio armazena armas químicas. Sabemos que o regime sírio tem capacidade para construir os foguetes. Sabemos que o regime sírio está decidido a varrer a oposição exatamente daqueles locais onde os ataques aconteceram... Nosso senso básico de humanidade está ofendido, não só por esse crime covarde, mas também pela tentativa cínica de encobri-lo.”[2] Como se ter capacidade para fazer e fazer fossem a mesma coisa!
Outra das frases de Kerry: “Qualquer um que diga que ataque nessa escala apavorante poderia ser encenado ou fingido, deve avaliar a própria consciência e seus valores morais. O que está hoje à nossa vista é real, e terrível.” Será que esse palavreado todo ainda enganaria alguém, depois do que vimos de atos dos norte-americanos durante as guerras do Iraque e do Vietnã?
Ileana Ros-Lehtinen, deputada Republicana da Florida e presidente da Subcomissão da Câmara de Representantes para Oriente Médio e Norte da África, disse que “Entendo que é essencial que o presidente Obama venha ao Congresso e peça autorização [para atacar a Síria], receba ou não a autorização. Entendo que um ataque com mísseis contra as forças de Assad já é agora iminente, e tudo que receberemos do presidente Obama, com ajuda do Congresso, será uma notificação: ‘o ataque começará dentro de 20 minutos’. E mais nada.”[3]
O presidente Obama e o secretário de Estado Kerry dizem repetidamente que teriam prova irrefutável de que o governo sírio seria responsável por usar o gás sarin dia 21/8 em Joubar. Mas quem os informou disso? Vai-se ver, a história é sempre a mesma: O jornal Al-Jarida, do Kwait, por exemplo, noticia que a informação de que al-Asad teria usado armas químicas foi dada a Washington e países europeus por Israel.
A matéria publicada diz que o general comandante do estado-maior do exército de Israel, Benny Ganz, disse ao general comandante do estado-maior do exército dos EUA, Martin Dempsey, que “Israel tem provas irrefutáveis de que o exército de al-Assad usou armas químicas contra população civil”.
E o jornal alemão Focus noticia que a unidade de inteligência 8200 do exército de Israel teria interceptado uma conversa entre altos funcionários do governo sírio e oficiais do exército, durante a qual o governo ordenou o uso de armas químicas. A responsabilidade seria do irmão caçula do presidente sírio, Maher al-Asad, comandante da unidade que possui armas químicas. Mas... Israel, que tem interesses envolvidos diretamente no conflito, pode ser considerada fonte confiável de informação, nesse caso? Nunca. De modo algum.
Toda a história de que Israel teria interceptado essa conversa parece fantástica. Os líderes sírios conhecem bem os vizinhos que têm e, nesse caso, sobretudo, usariam meios de comunicação mais seguros, efetivamente sigilosos.
A resposta à imortal questão “quem se beneficia [cui bono] com o crime?” absolutamente não aponta na direção de Damasco, que não se pode dizer que lute ao lado das gangues armadas que lhe fazem oposição. O infame ataque químico do dia 21/8 aconteceu em área alta e densamente povoada na região de Ghouta Leste, constituída de dúzias de vilas e pequenas cidades, inclusive Joubar, onde o ataque aconteceu. Essa região era a base dos rebeldes que operavam perto de Damasco. Se a perdessem, perderiam qualquer esperança de manter outras posições, e não só nos arredores da capital.
Mas o que mais importa é que, nas últimas várias semanas, as forças antigoverno em Goutha Leste estavam contidas. Toda a área foi tomada pela expectativa de que se aproximava o dia de um cessar-fogo estável. Parece que, de fato, era a sensação que se observava em todo o país.
Nos últimos poucos dias, 1.525 pessoas depuseram armas em várias províncias da Síria: todas foram anistiadas. A Comissão Governamental para a Reconciliação Nacional, presidida pelo ministro Ali Haidar, muito próximo de Bashar al-Asad, estava em negociações com mais de 100 grupos militantes, alguns grandes, outros menores, aos quais oferecia anistia total, em troca de eles deporem armas. Esperava-se que vários milhares de milicianos armados seriam convencidos declarar simultaneamente que abandonavam a guerra – o que seria enorme vitória para o governo e tinha alta probabilidade de marcar um ponto de virada no rumo da guerra.
Nessas circunstâncias, o que menos interessaria ao governo sírio seria usar armas químicas contra gente que já quase convencera a aceitar a paz. Mas para os líderes da oposição armada, o ataque com armas químicas seria muito útil, não só para arrastar as potências estrangeiras para o conflito, e ao seu lado, mas também para impedir o prosseguimento do processo de paz que já estava em andamento na área de Ghouta Leste.
As sugestões de Kerry e outros, de que só o exército sírio teria mísseis e meios para transporte e dispersão de agentes químicos não resiste à mínima análise. Testemunhas e agências de notícias em todo o mundo noticiaram, com unanimidade, que ninguém ouviu explosões de ogivas, nem a aproximação de aviões. Nada disso. De repente, na manhã de 21/8, as pessoas simplesmente começaram a sufocar, ao aspirar substâncias venenosas que encontravam em seus porões e túneis – onde muitos viviam, para esconder-se da violência da guerra.
Observe-se que não se veem vítimas pelas ruas que, pela lógica ocidental, teriam sido bombardeadas pelo exército. Todas as vítimas foram encontradas em espaços subterrâneos. Para explicar isso, criaram-se várias teorias exóticas, dentre outras que o gás sarin seria mais pesado que o ar e penetraria em porões e não se concentraria pelas ruas. Nesse caso, que quantidades de sarin teriam de ter sido usadas?
Mas se se considera que o território é cortado por muitos túneis, tanto os escavados pelos rebeldes para seu uso, como os escavados como via de circulação da vida diária, vê-se que, tecnicamente, um ataque daquele tipo seria mais fácil de executar de fora para dentro, que o contrário.
Para preparar a cena monstruosa, os ‘rebeldes’ não precisariam mais que vários ventiladores potentes e alguns botijões de gás sarin feito em casa, em algum salão subterrâneo. Explodem-se as entradas dos túneis para fechá-las e nenhuma comissão da ONU jamais encontraria prova alguma, de crime algum. E toda a culpa poderia ser jogada sobre Damasco.
Por saber de tudo isso, o exército sírio tentou por três dias entrar em Joubar, para tentar tomar, pelo menos, algumas daquelas instalações. De fato, dia 24 de agosto, o exército sírio realmente chegou a um daqueles locais onde se armazenavam agentes químicos produzidos na Arábia Saudita, antídotos e máscaras para uso dos operadores. Naquela ocasião, mais de 50 soldados do exército sírio foram intoxicados por gás sarin, entre os quais quatro combatentes do Hezbollah, atualmente em tratamento num hospital no Líbano.[4] Assim se produziu algo que os especialistas da ONU encontrariam.
A agência noticiosa estatal síria SANA noticiou que os soldados tiveram “convulsões” quando o inimigo usou o gás como “último recurso” depois que as forças do governo alcançaram “significativa vitória” contra eles num subúrbio de Damasco.
Mas, infelizmente, ninguém no ocidente consegue ouvir as declarações do governo sírio. História já velha de 30 anos, que veio recentemente à luz, de que os norte-americanos sabiam que Saddam Hussein estava preparando um ataque químico contra o Irã,[5] mas continuaram a fingir que nada sabiam, está-se repetindo. Por exemplo, está circulando a acusação absurda de que Damasco não teria autorizado a comissão internacional a entrar na área onde foram usados os produtos químicos, para ter tempo de destruir as provas. Mas Damasco não tinha controle sobre essas regiões, como ainda não tem. Só as gangues armadas da oposição poderiam ter encoberto alguma coisa. Quanto à preservação das provas, sabe-se que o gás sarin dissipa-se poucas horas depois de liberado, mas permanece no local durante meses: cinco dias não fariam qualquer diferença. Segundo especialistas, o gás sarin permanece no sangue das vítimas por de 16 a 26 dias, como informou o jornal inglês The Independent, hoje.[6]
A Comissão da ONU apenas começou a trabalhar, mas ninguém quer esperar pelas conclusões. A Casa Branca continua a insistir que não tem qualquer dúvida sobre o que a Comissão concluirá; como se a Casa Branca as tivesse ditado.
Em tudo e por tudo, a situação faz lembrar dolorosamente os eventos da guerra na Iugoslávia, quando, em 1994 depois de um ataque de provocação, com morteiro, contra o mercado Markale em Sarajevo, vindo de posições dos muçulmanos bósnios, o que adiante foi provado por especialistas militares de uma comissão internacional, serviu como pretexto para que a OTAN bombardeasse os sérvios da Bósnia. Ou quando apareceram comissões de vários locais do mundo para investigar os eventos, e já chegaram com textos antecipadamente redigidos e pré-aprovados pelos “superiores”.
Ataques militares pelas potências ocidentais contra a Síria, se acontecerem, terão provavelmente o formato de guerra à distância, como o ataque à Iugoslávia, que destruiu o exército e a infraestrutura civil do país.
O jornal britânico Guardian noticiou dia 26/8,[7] que os principais alvos de ataque à Síria serão, no primeiro estágio do ataque, as unidades de elite do exército sírio, bases de mísseis e locais de armazenamento de mísseis. Os primeiros e principais ataques acontecerão contra o complexo militar de Mazzeh (num subúrbio de Damasco, ao sul), onde está localizada a 4ª Divisão Blindada, e contra o complexo militar de Qasioun (no norte de Damasco), quartel da Guarda Republicana do Presidente da Síria.
Ao todo, dez sítios militares na vizinhança de Damasco estão marcados para serem atacados, além de bases militares e instalações de mísseis e forças blindadas no sul de Aleppo, no norte de Deir ez-Zor e a sudoeste de Homs. Também estão planejados ataques contra bases aéreas, bunkers de comandos e sistemas de controle, de comunicações e prédios públicos.[8]
Aparentemente, a ideia é: se bombardeamos os sérvios até pacificá-los, também podemos bombardear os sírios até pacificá-los. Mas fato é que o mundo mudou, ao longo desses anos, e o Oriente Médio é hoje construção mais frágil e mais complexa, até, que os Bálcãs. Qualquer tentativa de “dar uma lição à Síria” pode ter consequências catastróficas para todos que começaram a coisa, quando o caos respingar, das fronteiras do Oriente Médio, sobre outras regiões. Sobre a Europa, por exemplo...
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[1] Expressão da tradição náutica,
segundo a qual as grandes ondas vêm em série crescente de dez (às vezes, nove) ondas,
depois da qual a série recomeça [NTs].
[4] http://mignews.ru/news/ disasters/world/270813_71939_ 76725.html. Ver também, 18/8/2013, Robert Fisk,
“Outro “estadista” que falasse como John Kerry seria tratado como ladrão”, The Independent, traduzido em http://redecastorphoto. blogspot.com.br/2013/08/ robert-fisk-outro-estadista- que-falasse.html
[NTs]
[5] 28/8/2013, MK Bhadrakumar, “Iran Can Finesse
Obama’s Legacy”, Strategic Culture, http://www.strategic-culture. org/news/2013/08/28/iran-can- finesse-obama-legacy.html
[em tradução) [NTs].
domingo, 28 de abril de 2013
Quando os russos chegaram em Israel - Uri Avnery - Media with Conscience - Tradução Coletivo Vila Vudu
27/4/2013, Uri Avnery, Media with Conscience, MWC
http://mwcnews.net/focus/analysis/26519-russians-came.html
Quando a grande onda de imigrados russos chegou, vindos da União Soviética, em 1990, todos em Israel nos alegramos.
Em primeiro lugar, porque cremos que a imigração faz bem ao país. Em geral, faz.
Segundo, porque estávamos convencidos de que esses específicos imigrantes empurrariam Israel na direção certa.
Essas pessoas, dizíamos a nós mesmos, foram educados, durante 70 anos, num espírito internacionalista. Acabam de pôr fim a um sistema ditatorial cruel, e devem vir ávidos de democracia. Muitos não eram judeus, mas parentes (às vezes remotos) de judeus. Ganhávamos centenas de milhares de novos cidadãos secularistas, internacionalistas, não nacionalistas, exatamente o de que muito precisamos. Acrescentariam um elemento positivo ao coquetel demográfico que é Israel.
Sobretudo, dado que a comunidade de judeus do pré-estado no país (a chamada yishuv) foi largamente modelada por imigrantes da Rússia czarista e dos primeiros anos da Revolução, os novos imigrantes com certeza se misturariam facilmente com a população em geral. Pelo menos, era o que esperávamos que acontecesse.
Hoje, a situação é praticamente o total oposto disso.
Os imigrantes da ex-União Soviética – “os russos”, como se diz na fala diária – absolutamente não se misturaram a coisa alguma. São até hoje comunidade à parte, que vive num ghetto criado por eles mesmos.
Até hoje, falam russo. Leem seus próprios jornais russos, todos furiosamente nacionalistas e racistas. Só votam no partido deles, liderado pelo moldaviano Evet (hoje trocou o prenome: decidiu chamar-se Avigdor) Lieberman. Vivem praticamente sem qualquer contato com outros israelenses.
Nos dois primeiros anos em Israel, votaram predominantemente em Yitzhak Rabin do Partido Labor, mas não porque prometia paz: porque era general e apresentava-se sempre como militar destacado. Daí em diante, os russos sempre votaram, sem variação, na extrema direita.
A grande maioria deles odeiam árabes, rejeitam a paz, apoiam os colonos e votam para eleger governos de direita.
Dado que hoje constituem quase 20% da população israelense, aí está um dos principais motores da marcha de Israel rumo à direita.
Por que, santo Deus?!
Há várias teorias, todas, provavelmente, certas.
Uma delas, ouvi-a de um funcionário russo de alto escalão: “Durante a era soviética, os judeus eram cidadãos soviéticos como todos os outros. Com o fim da URSS, cada cidadão recolheu-se para a nação de origem. Os judeus ficaram num vazio. Então partiram para Israel. E tornaram-se os mais israelenses dos israelenses. Até os não judeus que havia entre eles tornaram-se israelenses super patriotas.”
Outra teoria diz que “Quando o comunismo entrou em colapso na Rússia, só restou o nacionalismo (ou a religião) para substituí-lo. A população aprendera atitudes totalitárias, desdém pela democracia e pelo liberalismo, uma nostalgia por líderes fortes. E havia também o racismo disseminado da população ‘branca’ do norte da URSS, contra os povos ‘escuros’ do sul. Quando os judeus (e não judeus) russos vieram para Israel, trouxeram com eles essas atitudes. Apenas substituíram, por árabes, os armênios, chechenos e os demais povos que desprezavam. Essas atitudes são eternamente alimentadas pelos jornais russos diários e pelas redes de televisão em Israel.”
Observei essas atitudes quando visitei a URSS pela primeira vez em 1990, durante a Glasnost de Mikhail Gorbachev. Nunca pudera ir antes, porque meu nome era sempre riscado em todas as listas de gente convidada a conhecer as glórias da pátria soviética. Não sei por quê. (Curiosamente, também fui cortado de listas de convidados às festas do 4 de julho na embaixada dos EUA, e em algumas oportunidades encontrei dificuldades até para conseguir um visto norte-americano. Talvez porque participei de manifestações contra a Guerra do Vietnã. Devo ser das poucas pessoas no mundo que se podem orgulhar de constar simultaneamente nas listas da CIA e da KGB.)
Viajei à Rússia para escrever sobre o fim dos regimes comunistas na Europa Oriental (livro que foi publicado em hebraico, sob o título “Lênin não mora mais aqui”). Rachel e eu gostamos muito de Moscou, mas só precisamos de alguns dias para começar a ver o espantoso, crescente racismo que havia por todos os cantos. Os cidadãos de pele morena, ou mais escura, eram tratados com indisfarçado desprezo. No mercado, quando conversávamos e ríamos com os vendedores, gente do sul, com os quais nos relacionamos imediatamente, nosso simpático, mas de rosto sério, jovem e agradável intérprete distanciava-se bem acintosamente.
Meus amigos e eu nos encontramos às 6as-feiras, há cerca de 50 anos. Quando os russos começaram a chegar, nossa ‘mesa’ ficava no Café Kassit, em Telavive, local mitológico de reunião de escritores e artistas.
Um dia, vimos um grupo de jovens imigrantes russos, que haviam estabelecido ‘mesa’ própria. Cheios de simpatia – e também muita curiosidade – vez ou outra nos juntávamos a eles.
De início, funcionou. Formaram-se ali algumas amizades. Até que aconteceu uma coisa curiosa. Eles afastaram-se de nós, deixando bem claro que, para eles, não passávamos de bárbaros do Oriente Médio, sem cultura, gente à qual não tinham interesse de associar-se, gente que lia Tolstoi e Dostoyevski. Em pouco tempo, desapareceram de circulação.
Lembrei-me disso na 6ª-feira passada, quando irrompeu em nossa mesa uma discussão surpreendentemente acalorada. Tínhamos uma convidada, uma jovem cientista “russa”, que acusou a esquerda de ser indiferente e de promover um tipo de atitude, em relação à comunidade russa, que a teria empurrado na direção da direita. Uma líder feminista presente reagiu com fúria. Disse que os russos já chegaram ao país com atitude bem perto de fascista.
Concordei com ambas. A atitude de Israel em relação a novos imigrantes sempre foi um tanto estranha.
Líderes como David Ben-Gurion trataram a imigração sionista como se não passasse de um problema de transporte. Fizeram grandes esforços e foram bem longe para trazer judeus, do outro lado do mundo, para Israel; mas, depois de chegados, eram esquecidos, entregues aos próprios meios. Sim, recebiam ajuda material, tinham moradia, mas fazia-se praticamente nada para integrá-los à sociedade.
Foi exatamente assim na imigração em massa de judeus alemães nos anos 1930s, de judeus orientais nos anos 1950s e de russos nos anos 1990s. Quando os judeus russos manifestaram clara preferência pelos EUA, o governo israelense pressionou o governo dos EUA para que batesse a porta na cara deles. Foram praticamente forçados a vir para Israel. Quando chegaram, foram deixados nos seus ghettos, sem qualquer movimento local que os induzisse a espalhar-se e integrar-se conosco.
Não foi diferente, na esquerda israelense. Quando falharam alguns frágeis esforços para atraí-los para o grupo da paz, lá ficaram. A organização da qual participo, Gush Shalom [Bloco da Paz], distribuiu certa vez 100 mil cópias de nosso principal manifesto (“Truth against Truth” [Verdade contra Verdade], a história do conflito) em russo. Mas desistimos, quando recebemos uma única resposta. Obviamente, os russos não tinham interesse algum pela história de Israel, da qual não tinham sequer uma mínima ideia, que fosse.
Para entender a importância desse problema, é preciso visualizar a composição da sociedade israelense tal qual é (escrevi, no passado, sobre isso), formada de cinco setores principais, praticamente de igual tamanho, a saber:
Judeus de origem europeia, chamados Ashkenazim, grupo no qual se inclui quase toda a elite cultural, econômica, política e militar. Nesse grupo está praticamente toda a esquerda israelense.
Judeus de origem oriental, em geral chamados (erradamente) Sephardim, de países árabes e de outros países muçulmanos. São a base do Partido Likud.
Judeus religiosos, grupo que inclui os Haredim ultra-ortodoxos, Ashkenazi e orientais; e os sionistas, nacional-religiosos, grupo que inclui as lideranças dos colonos.
Cidadãos árabe-palestinos, concentrados quase todos em três grandes blocos geográficos.
E os “russos”.
Alguns desses cinco setores se sobrepõem em pequena parte, mas o quadro é claramente esse. Os árabes e muitos dos Ashkenazim trabalham no campo da paz. Todos os demais são declarada e solidamente de direita.
Por isso, é absolutamente imperativo conquistar pelo menos alguns grupos dos judeus orientais, dos judeus religiosos e – claro – de “russos”, para constituir uma maioria em Israel a favor da paz. Na minha opinião, essa é a mais importante tarefa para o campo da paz, nesse momento.
Ao final de um furioso debate em nossa mesa, tentei acalmar os contendores: “Não precisam brigar tanto. Há culpa que chegue, para todos.”
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