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sábado, 12 de setembro de 2026

Uma pequena vitória e um adiamento, mas essenciais para vencer adiante - Paulo Vinícius da Silva


"Radicalizar, ampliando. E ampliar, radicalizando." 
Diógenes Arruda Câmara Ferreira

En la lucha de clases
todas las armas son buenas
- piedras, 
noches, 
poemas.
Paulo Leminski

Uma vitória pequena não é uma derrota. Digo mais: até as derrotas ensinam.  Na vida, nada é garantido. Assim, é preciso fazer uma análise fria do resultado da negociação coletiva e dos acordos coletivos nessa campanha salarial dos bancários de 2026. Mais que fria, exige-se uma análise sincera, que respeite os méritos e combata as ilusões que vigem na categoria bancária, reconhecendo o nível da exploração, do seu adoecimento e dos responsáveis pela situação de que padece. Além disso, cumpre falar sobre a greve na Caixa Econômica Federal em defesa do Saúde Caixa, e a necessidade de finalizar uma greve para poder continuar a luta.

Derrotadas na Campanha Nacional dos Bancários foram as gestões da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil. Longe, muito longe do conto da carochinha que eles recitam ao Presidente Lula, o cenário de desgaste, desvalorização e revolta nos principais bancos públicos do país explicita que para os bancários da CEF e do BB, pouco ou nada mudou. A falta de diálogo, a demagogia, a apropriação de pautas de luta importantes e caras ao funcionalismo (como o atendimento aos brasileiros sem recursos, a luta antirracista, o combate à discriminação, a defesa da diversidade e das mulheres) tem sido feita com requintes de crueldade para atender os interesses do próprio mercado financeiro que sabota o país. É verdade esse bilhete de que o MOVE Brasil foi recebido com medidas aquém das possibilidade de atender um público mais amplo de motoristas de aplicativos. 

O mesmo se dá quando se avalia o papel dos Bancos públicos e do Banco Central em manter as taxas de juros mais altas do mundo e de jogar gelo na atividade econômica. Também é verdade que o povo mais pobre foi tangido do atendimento humanizado de todos os bancos, numa digitalização forçada, e que os bancários e bancárias que são a ponta da flecha, que atuam nas agências junto ao povo, são desvalorizados, sobrecarregados, postos no seu limite, com o objetivo sinistro de fechar as agências nas periferias, cidades do interior. 

A régua que pauta os bancos públicos é a mesma que tem pautado as demais estatais no terceiro governo Lula, que é a sua subordinação ao rentismo financeiro e a colocação dos interesses do Brasil em segundo plano, expressa no arcabouço fiscal. É a manutenção do ordenamento anterior, deixado por Temer e Bolsonaro, e não desfeito, porque a minoria rentista e parasitária do sistema financeiro manda no Congresso, manda no Judiciário, manda na Imprensa e definiu as regulações dentro das quais o governo pode se mexer. Objetivamente, as estatais seguem atendendo aos interesses privados, dos sócios minoritários, das amarras da condição de minoria do governo liderado por um Lula cercado, fustigado e combatido por todos os lados. Mais que isso, a apropriação dos avanços na tecnologia bancária foi feito exclusivamente pelos banqueiros contra os clientes e seus trabalhadores, gerando uma crise sem precedente na saúde mental dos bancários, à redução da categoria bancária, enquanto crescem os trabalhadores no ramo financeiro. Crescem, mas apenas os precarizados, pejotizados, os que estão fora da Convenção Coletiva Nacional, enquanto se fecham agências em todo o país, se extingue o atendimento de caixa e se obriga à digitalização forçada até mesmo quem não tem condição.

E do mesmo modo que a tecnologia entra na consciência para difundir fascismo, intolerância, misoginia e homofobia, ela milita para difundir o ódio ao sindicato, ao partido de esquerda, à política, e para dizer que é tudo igual, como de resto ocorre em todos os campos, pois esse discurso é irmão gêmeo da polarização. Como é tudo igual, tanto faz. Nada mais conveniente quando estamos numa eleição decisiva em que de um lado está Tiradentes, e de outro, Silvério dos Reis, e em xeque a própria Nação, ameaçada pelo imperialismo estadunidense, pelo crime infiltrado na política e pela sanha para saquear e dividir o Brasil.

Esse reconhecimento é importante, não para culpar o governo, mas para entender a resiliência da extrema direita que persiste disputando a eleição presidencial a despeito de seus crimes, de sua traição, de sua incompetência e de seu cinismo estarem escancarados. E é por isso que se autonomizaram as gestões nos bancos públicos, em que se mantém os bolsonaristas e se colocam pessoas diferentes e até representativas para aplicar a mesma política sem alma que se entrincheirou no Banco Central. Lula denuncia os juros, mas eles mantém os juros altos. Lula pede que se trate bem os funcionários e o povo, e eles fecham agências, acabam com caixas, ampliam a exploração e quando o adoecimento se amplia de maneira gritante, eles apresentam a conta para o funcionário doente que assim ficou graças a uma política de metas impossíveis e à política de lavagem cerebral da novilíngua que diz uma coisa e faz outra, enlouquecendo, deprimindo, deixando a categoria sem saída.

Essa é a realidade de uma negociação coletiva pós-deforma trabalhista, sucedânea ao fim da ultratividade dos acordos coletivos, manietada pelas regras draconianas que privilegiam o rentismo e a especulação em vez da produção, do emprego e da construção do Projeto Nacional de Desenvolvimento. Assim, as gestões se esmeram no máximo em fazer caixa para atender os compromissos financeiros com a dívida pública e o arcabouço fiscal, sem mudar o roteiro deixado pelo Golpe contra a Presidenta Dilma, através da nova legislação que se aprovou para o Sistema Financeiro Nacional. E com os ataques dos EUA e o bombardeio midiático dos grandes veículos, do big data e das redes sociais, isso se multiplica. Daí porque até a própria lógica do trabalhador bancário explorado é capturada pela ideologia dominante, e isso se vê em três lugares comuns na nossa própria visão de mundo.

O primeiro é a revolta porque os bancos têm lucros bilionários e o aumento dos bancários é miserável. Ele se  baseia em duas premissas falsas. A primeira é que os bancários são sócios dos banqueiros e que a justiça seria partilharem desse butim feito das maiores taxas de juros sobre o povo. Essa é a pegadinha do malandro dos bancos, e claro que na hora de distribuir o fruto do saque, eles vêm e dizem: ié, ié, pegadinha do malandro! E a segunda premissa falsa é que os bancários dos bancos públicos estariam numa situação horrível, sem se os comparar com o conjunto dos trabalhadores do ramo financeiro. Não é boa a nossa situação, é certo. É adoecedora e cruel. 

Mas, para ser consequentes, precisamos olhar para os 1,1 milhão de trabalhadores bancários FORA DO ACORDO. Se olharmos para as lotéricas, seguradoras, fintechs, bancos privados, cooperativas de créditos, agentes individuais de crédito e trabalhadores informais nas plataformas, aí perceberemos que a superexploração dos trabalhadores do ramo financeiro e a sua desorganização são a âncora que puxam para baixo a remuneração dos bancários, pois em nenhum ramo da economia - ensina o marxismo - a força de trabalho é remunerada pelo mérito do trabalho, pela produção ou pelo lucro obtido pelo patrão, mas sim pela capacidade que os patrões têm de pagar MENOS aos trabalhadores, 

Na verdade, a categoria bancária ,na negociação que é uma guerra, só tem o escudo, mas não tem a espada. E as gestões dos bancos públicos agiram com essa certeza e em conluio com os banqueiros privados. Por isso, no BB, se valeram do fim da ultratividade e jogaram com o endividamento e a dependência da categoria da remuneração variável. Na Caixa, foram para o autoritarismo puro e simples, encerrando a negociação. Nos dois casos, foi um tapa na cara do funcionalismo e o custo para o campo progressista é gigantesco. Por outro lado, é o fim das ilusões, e isso deve ser saudado como esclarecimento, jamais usado para rebaixar o nível da consciência política na categoria. Nenhum movimento que prescinda da luta de classes e da disputa do poder pode ser avançado, vira identitarismo, sindicalismo amarelo. Até uma greve pode servir aos inimigos dos trabalhadores. Por isso Lenin alertou que é preciso uma consciência externa, superior, para que o movimento não se perca nos becos sem saída diante dos quais só a política pode abrir largas avenidas. 

O adoecimento da categoria milita contra a clareza, mas é dever do movimento sindical politizar e elevar o nível de consciência da sua classe, e armá-la para que não caia em derrotas, nem seja usada pelos seus próprios inimigos. O objetivo da FENABAN é desmoralizar a negociação coletiva, humilhar os sindicatos e isolar os bancos públicos, para poder seguir na desregulamentação do trabalho bancário e implodir o movimento sindical que se manteve mesmo depois de tudo que houve nos anos Temer e Bolsonaro.

O segundo lugar comum é de que a Greve por tempo indeterminado do passado é possível nos dias de hoje, que era exatamente a espada do movimento. A guinada conservadora do judiciário nas questões trabalhistas é a mesma ou até pior do que a que houve na legislação, com a Deforma Trabalhista, da Previdência, a plataformização do trabalho, a terceirização sem limites e a precarização universal. A tecnologia bancária, com o teletrabalho, a possibilidade de dispersão da categoria bancária e com o protagonismo da digitalização desconstruiu os piquetes e as grandes concentrações bancárias. Parar as agências hoje ajuda os bancos a fechá-las e a acabar com os caixas, atrai antipatia dos mais pobres que a elas recorrem e virou um teste de robustez do autoatendimento. Além disso, como ficou claro em 2026, o fim da ultratividade não é um detalhe, mas a perda dos direitos e da remuneração variável dos bancários, que os fazem se matar e enlouquecer para pagar as dívidas crescentes dos mesmos juros que eles cobram dos clientes. Ou seja, uma espada de Dâmocles pende sobre a negociação coletiva. 

Por isso, não foi um detalhe ou insignificante a paralisação de 24 horas em plena negociação no dia 20 de agosto. Daí ter sido um ato de coragem e heroísmo a rejeição da proposta da FENABAN, do BB e da CEF pela amplíssima maioria dos trabalhadores desses bancos. Por isso mesmo, os dois dias de greve, 10 e 11 de setembro, entrarão para a história como um ato de rebeldia contra o sistema financeiro, como o desmascaramento das gestões do BB e da CEF e o fim de sua demagogia, como uma ato de coragem dos sindicatos que, mesmo sob o fim da ultratividade, deixaram de assinar o acordo coletivo e a convenção, esticando a corda até o dia 11 de setembro, ou mais, no caso da Caixa, quando existe o risco objetivo de rompimento da mesa da negociação coletiva, e sem possuirmos hoje qualquer acordo que garanta direitos que são vistos como básicos, apesar de os trabalhadores da ampla maioria do sistema financeiro não os terem.

Na verdade, as grandes conquistas dessa greve não são o índice, mas sim ter mantido a lógica de não aceitar perda salarial, nem a fragmentação da categoria. Houve perdas salariais nos governos Temer e Bolsonaro e não houve greve, exceto na Greve Geral contra a Deforma Trabalhista, em 2017, dia de trabalho até hoje não pago, mas que receberemos depois de uma luta de 9 anos, por um dia! Então, os três dias de paralisação/greve nos bancos públicos e o fato de que a parte mais mobilizada da categoria bancária ficar quase 15 dias sem nenhum acordo que a garantisse, nesse momento delicado em que o futuro do país está em jogo, é sim um ato de coragem, rebeldia e disposição de luta, e que só foi possível pela cooperação dos sindicatos na CONTEC, CONTRAF e na CTB (que não é de nenhuma) e as bases da categoria bancária no BB e na CEF.

A terceira ilusão é que nosso patrão é o governo de turno, e não o sistema financeiro. O fato de Lula ser o Presidente não quer dizer que superamos todas as amarras que havia antes de sua eleição, haja vista a contribuição apequenada que os bancos públicos deram para que o Brasil baixasse as taxas de juros, a começar pelo Banco Central. O golpe contra a Presidenta Dilma, além de fazer a Deforma Trabalhista, colocou sob correntes as estatais brasileiras, em especial os bancos públicos, subordinando-os aos acionistas minoritários e ao capital financeiro rentista e especulador, dos juros altos e da escravidão do povo. Foi para isso que derrubaram a Dilma. E o recado está dado: se mexer, cai. Quem tiver ouvidos, ouça. 

Na Caixa há uma realidade ainda mais delicada, assim como é estratégico esse banco fundamental para o Brasil. A Caixa segurou uma onda na pandemia que deveria ser considerada como um feito heroico de solidariedade dos trabalhadores bancários com o povo brasileiro, tornando possível o pagamento do Auxílio Emergencial em plena COVID. Esse heroísmo foi pago com a saúde dos empregados e com a fatura das contas do Saúde Caixa que passou a morder imenso pedaço de seu orçamento, além de se buscar a qualquer preço romper a solidariedade intergeracional, que é a vantagem mais importante das autogestões sobre os planos de saúde. É a saúde privada que sabota o SUS e as autogestões e o Saúde Caixa. Numa situação de impasse, o presidente da Caixa diz que romperá com a negociação para o dissídio coletivo.  Assim, o cria do Lira faz seu papel abjeto de sabotar a negociação coletiva e queimar o governo, além de ficar evidente que ele não é a Rita Serrano, a companheira que presidiu a Caixa e foi saída por vacilo do próprio movimento sindical ligado ao governo. Ele já tentou sabotar a negociação passada. Agora, quer implodir a presença da CEF na mesa e chantageia a categoria a aceitar a conta e o fim da solidariedade, criando uma crispação sem precedentes quando a Caixa, sozinha, segue na greve.

Claro, como sempre, os trotsquistas (com nobres exceções no seio da frente popular que se busca construir), servem de quinta-coluna do movimento, e paqueram com o judiciário, contra a negociação coletiva, vendendo ilusões, esquecendo que as cláusulas sociais do acordo não são julgadas em dissídio, ignorando o isolamento, promovendo o baixo astral, desmerecendo a batalha das eleições de outubro, as mesmas que podem decretar o fim dos Bancos públicos, da categoria bancária e do Saúde Caixa. Quando até esses farsantes admitem em seus materiais que só restaria o dissídio e que não sabem o que vai sair daí, essa é uma confissão velada, hipócrita e covarde, de que a negociação acabou e que se esgota a possibilidade da continuação da greve.

A Caixa mantém características únicas que os planos de saúde precisam destruir. É solidária entre as gerações, é ainda parte da empresa, sem ser um ente separado autogerido, e tem a responsabilidade maior no custeio de quem adoece, e não de quem é adoecido. É justa a revolta, heroica a greve, e os empregados da CEF merecem todo o apoio e a solidariedade, Isso não significa dizer que será a greve o instrumento adequado para a solução desse impasse. Chantageados pelos banqueiros, os bancários e o governo deveriam lutar pela exclusão do Saúde Caixa do acordo e sua discussão em mesa separada, isso seria uma imensa vitória. Ensinou Getúlio, adiar uma batalha perdida já é uma vitória. Mas é preciso reconhecer que será pela política, e não mais pela greve, que poderemos encontrar uma alternativa para o Saúde Caixa, e não apenas para ele, mas para a saúde em todas as estatais, conquistando uma maioria que ultrapasse o Executivo e chegue no Legislativo, mudando as leis e as gestões conservadoras e traidoras, e persistindo na luta unitária e organizada que ocorre sempre. 

A greve não é um fim em si mesma, é um instrumento de luta. Não é pouco o que mantivemos e ampliamos, não foram pequenos nossos esforços de luta, não temos motivos de vergonha, muito ao contrário, forçamos o que foi possível e precisamos reconhecer o ponto em que persistir só arma os inimigos da Caixa, dos Bancários e do Brasil. Ignorar o momento político, flertar com a extrema direita golpista, semear o desânimo e a negação da política, radicalizar sem ampliar, dividir e isolar os trabalhadores de uma empresa, levar o tema para o dissídio nas mãos do judiciário, não são apenas caminhos para a derrota, mas uma traição vergonhosa àqueles que se diz defender. É preciso politizar o debate e achar as saídas políticas, seguir acumulando força, em unidade e mobilização, porque a luta continua. 

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