quarta-feira, 8 de novembro de 2017
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
O PCdoB acerta e muda o jogo: Manuela Pré-Candidata a Presidenta - Paulo Vinícius Silva
O PCdoB acerta ao lançar Manuela Pré-Candidata a Presidenta da República. Esse gesto, absolutamente normal para um Partido (ter candidato), anunciado há tempos, causa surpresa pelo significado e pela sua própria qualidade. Denota uma realista análise de impossibilidade de unificação de esquerda no primeiro turno, qualifica a disputa, que estava até agora num nível da rede de esgoto. O PCdoB demonstra autonomia e desejo de protagonismo e formulação na unidade da esquerda, dos democratas e patriotas. Essa formulação já é um diferencial: o PCdoB propõe uma Frente, mas uma Frente Ampla.
Como expressão do PCdoB, teremos essa jovem mãe, guerreira, política experiente e habilíssima, brilhante, umas das melhores oratórias do Brasil. Ela expressará magistralmente a política do PCdoB, política complexa, mas combativa, radical, mas com capacidade de diálogo respeitoso e democrático. Será uma mensagem em defesa do Brasil, da Democracia e das conquistas do povo. Quando uma tão necessária mensagem encontra porta-voz à altura, isso é mais que alvissareiro. O resultado imediato é o impacto na cena política. O fato teve ampla repercussão, e isso é, de saída, uma vitória, um tento da Presidenta Luciana Santos e do Comitê Central dos comunistas, que mostram possuir uma nova geração disposta a ousar nas lutas que antecedem à comemoração do Centenário do PCdoB em 2022.
Manu vai dar trabalho e eleva o potencial eleitoral do PCdoB em um momento grave e urgente da luta pela democracia, que tem como uma de suas colunas a legalidade dos partidos de esquerda, e do PCdoB, o mais antigo, ameaçados pelas maquinações da maioria no Congresso, que joga com todas as cartas na Reforma Política e na cláusula de barreira.
Manuela e o PCdoB são necessários para o debate da esquerda e do Brasil. Manuela debaterá o Brasil, a Democracia, os direitos do povo, a juventude.Significa uma grande vitória tê-la como candidata pelo significado para as mulheres, para a luta contra o ódio; será uma coisa linda de se ver.
O PCdoB terá de revolucionar suas campanhas eleitorais nessa experiência eleitoral alvissareira. Treino é treino, mas, agora, jogo é jogo. Que bote em campo um símbolo da juventude e das mulheres - como é a camarada Manuela Dávila - , mostra habilidade, ousadia, sabedoria.
Quanto à unidade? É a bandeira da esperança. Mas fazer unidade é bicho enjoado, dá trabalho. E a primeira condição para a unidade é o respeito, reconhecer o outro como igual, e também constituir relações políticas democráticas, sem hegemonismo, para unificar programas; vai muito além de ter inimigos comuns. Há diversos graus de unidade. Atualmente não existe esse ente unificador de uma Frente Política, Social e Eleitoral. Não somos o Uruguai. E nem o PCdoB rompe nada, só atua com realismo político ante a incerteza na eleição de 2018, as exigências da cláusula de barreira, o baixo nível do debate político e o esgotar de todas as gestões que tem feito há cerca de 30 anos pela constituição de uma Frente Popular.
Como expressão do PCdoB, teremos essa jovem mãe, guerreira, política experiente e habilíssima, brilhante, umas das melhores oratórias do Brasil. Ela expressará magistralmente a política do PCdoB, política complexa, mas combativa, radical, mas com capacidade de diálogo respeitoso e democrático. Será uma mensagem em defesa do Brasil, da Democracia e das conquistas do povo. Quando uma tão necessária mensagem encontra porta-voz à altura, isso é mais que alvissareiro. O resultado imediato é o impacto na cena política. O fato teve ampla repercussão, e isso é, de saída, uma vitória, um tento da Presidenta Luciana Santos e do Comitê Central dos comunistas, que mostram possuir uma nova geração disposta a ousar nas lutas que antecedem à comemoração do Centenário do PCdoB em 2022.
Manu vai dar trabalho e eleva o potencial eleitoral do PCdoB em um momento grave e urgente da luta pela democracia, que tem como uma de suas colunas a legalidade dos partidos de esquerda, e do PCdoB, o mais antigo, ameaçados pelas maquinações da maioria no Congresso, que joga com todas as cartas na Reforma Política e na cláusula de barreira.
Manuela e o PCdoB são necessários para o debate da esquerda e do Brasil. Manuela debaterá o Brasil, a Democracia, os direitos do povo, a juventude.Significa uma grande vitória tê-la como candidata pelo significado para as mulheres, para a luta contra o ódio; será uma coisa linda de se ver.
O PCdoB terá de revolucionar suas campanhas eleitorais nessa experiência eleitoral alvissareira. Treino é treino, mas, agora, jogo é jogo. Que bote em campo um símbolo da juventude e das mulheres - como é a camarada Manuela Dávila - , mostra habilidade, ousadia, sabedoria.
Quanto à unidade? É a bandeira da esperança. Mas fazer unidade é bicho enjoado, dá trabalho. E a primeira condição para a unidade é o respeito, reconhecer o outro como igual, e também constituir relações políticas democráticas, sem hegemonismo, para unificar programas; vai muito além de ter inimigos comuns. Há diversos graus de unidade. Atualmente não existe esse ente unificador de uma Frente Política, Social e Eleitoral. Não somos o Uruguai. E nem o PCdoB rompe nada, só atua com realismo político ante a incerteza na eleição de 2018, as exigências da cláusula de barreira, o baixo nível do debate político e o esgotar de todas as gestões que tem feito há cerca de 30 anos pela constituição de uma Frente Popular.
Mais que uma ruptura, o gesto ilustra tirocínio político e uma novidade para a construção da UNIDADE na esquerda, que agora passará pela voz ativa dos comunistas no conjunto das Forças de que possam compor a Frente Ampla, e que pode ocorrer em qualquer dos turnos da eleição de 2018. O PCdoB, que sempre apoiou o PT, de saída, quer ser ouvido, e não apenas pelo PT, ou pela esquerda. O PCdoB quer falar ao Brasil.
Fala, Manuela, o Brasil vai te ouvir.
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Lênin e o infame tratado de Brest-Litovsky - Augusto C. Buonicore
Publicado em 31.10.2017 pela Fundação Maurício Grabois
Um dos acontecimentos mais dramáticos que se seguiu à Revolução de Outubro, colocando-a em risco, foi o Tratado de Paz de Brest-Litovsky. Através dele a Rússia Soviética teve que abrir mão de parte do seu território e pagar pesada indenização ao imperialismo alemão. O Partido Bolchevique se dividiu diante do dilema: assinar ou não aquele tratado? Lênin foi um defensor da sua assinatura, mesmo considerando-o infame, pois era a única forma de tirar o país da guerra e salvar a revolução. Para conseguir isso, travou um duro combate às tendências esquerdistas existentes no interior do bolchevismo. As argumentações apresentadas por ele no debate são verdadeiras aulas de tática e estratégia marxistas aplicadas num período de defensiva revolucionária.
“Os partidos revolucionários têm que completar sua instrução. Aprenderam a desencadear a ofensiva. Agora têm que compreender que essa ciência deve ser completada por saber recuar ordenadamente. É preciso compreender (...) que não se pode triunfar sem saber atacar nem sem saber empreender retirada ordenadas”. V. I. Lênin
Uma “paz infame” que divide os bolcheviques
Quando eclodiu a revolução russa de fevereiro de 1917, uma das grandes bandeiras dos bolcheviques, liderados por Lênin, era o estabelecimento da paz. Naquele momento vivia-se em meio à hecatombe da Primeira Grande Guerra Mundial. Nesta carnificina de abrangência planetária, cerca de 10 milhões de soldados e um número quase igual de civis morreram. Apenas a Rússia perdeu dois milhões de homens e mais de cinco milhões ficaram feridos.
Em grande parte, foi a incapacidade de colocar o país fora daquele conflito sangrento que levou à queda do Governo Provisório e à ascensão dos bolcheviques ao poder em outubro. Não sem razão, a primeira proposta apresentada por Lênin ao 2º Congresso dos Sovietes foi o Decreto da Paz. Nele, se conclamava os governos e os povos das nações beligerantes a firmarem uma paz democrática, sem anexações e indenizações. Ao apresentarem e aprovarem aquele decreto, os bolcheviques cumpriam sua promessa. Coisa que o governo anterior, liderado por Kerensky, não havia feito. Contudo, as coisas não seriam tão simples assim.
Em 18 de novembro de 1917 uma delegação soviética seguiu até a cidade de Brest-Litovsky na Bielorrússia para firmar um armistício com o imperialismo alemão. Além de dirigentes bolcheviques (Adolf Ioffe, Leo Kamenev) e social-revolucionários de esquerda (Maslovski-Mstislavski e Grigori Solkonikov), para lá seguiam também uma mulher (Anastácia Bitsenko), um operário, um camponês e um marinheiro. Estes três últimos foram vestidos a caráter. Pretendia-se,dessa maneira, representar a composição política e social da revolução socialista vitoriosa. Esta comitiva plebeia se sentou ao lado de nobres e generais alemães e austro-húngaros engalanados com suas divisas e medalhas reluzentes. Naquela primeira rodada de negociações se conseguiu um armistício de 28 dias, período no qual se discutiria os termos do acordo de paz entre a Rússia Soviética e os Impérios Centrais.
O objetivo inicial do poder soviético era trazer todas as potências imperialistas para a mesma mesa de negociação e não entabular um acordo em separado com a Alemanha e a Austro-Hungria. Mas isso não foi possível. A França, Inglaterra e os Estados Unidos – que compunham a Entente – ignoraram os apelos formulados pelos bolcheviques e não compareceram à reunião.
Lênin e Trotsky tinham consciência de que o exército russo estava se desfazendo e não poderia mais continuar lutando. Dezenas de milhares de soldados abandonavam os seus postos e voltavam para suas casas, exaustos da guerra e pretendendo desfrutar da reforma agrária realizada pela revolução. Era nítido que o tempo corria contra o jovem poder soviético.
O Partido Bolchevique logo se dividiu quanto ao problema da paz em separado com a Alemanha. Surgiram três posições distintas. A de Lênin, que apregoava uma paz imediata mesmo à custa de concessões territoriais e financeiras. A dos chamados “comunistas de esquerda”, encabeçada por Bukharin, contrária à assinatura de qualquer tratado com o imperialismo alemão e que apregoava desencadear uma guerra revolucionária até Berlim. A última, defendida por Trotsky, se expressava na fórmula intermediária “nem paz nem guerra”; ou seja, devia-se sair da guerra imperialista unilateralmente, sem assinar formalmente nenhum tratado com a Alemanha.
Antes mesmo do fechamento da primeira rodada de negociações, em 10 de janeiro, os comitês regionais bolcheviques de Moscou e Petrogrado exigiram o fim imediato das negociações com a Alemanha. Inclusive, em 24 de fevereiro, o partido de Moscou aprovou uma moção de desconfiança em relação ao Comitê Central.“O Comitê Regional de Moscou”, dizia a nota, “considerando que se tornou muito provável a cisão do partido num futuro próximo, toma a si a tarefa de agrupar todos os revolucionários consequentes, todos os elementos comunistas em luta contra os partidários da paz em separado e contra os elementos moderados do movimento comunista. Julgamos que seria do interesse da revolução mundial concordar com o sacrifício do regime dos sovietes em vias de se tornar um regime puramente formal.”. Os “comunistas de esquerda” tinham força no interior do partido. Seus principais dirigentes eram Bukharin, Preobrazhenski, Bubnov, Alexandra Kolontai, Karl Radek, Uristski, entre outros. Para divulgar suas ideias fundaram um jornal: o Kommunist.
Do seu lado, o imperialismo alemão não pretendia estabelecer nenhuma paz democrática. Ele impôs como exigência que parte do território que compunha o antigo Império Russo passasse para sua área de influência – este era o caso de Finlândia, Polônia, Ucrânia e dos Países Bálticos. Além de insistir no pagamento de uma indenização no valor de três milhões de rubros-ouro. Apesar dessas condições escorchantes, Lênin defendeu que se devia assinar o Tratado de Paz. Esta era a única forma de salvar a revolução em perigo.“Ceder territórios para ganhar tempo”, apregoava ele.
Lênin derrotado pela fraseologia revolucionária
Na primeira reunião com a presença das principais lideranças bolcheviques, realizada em 21 de janeiro às vésperas do 3º Congresso dos Sovietes, Lênin ficou em minoria. Num total de 75 delegados, a sua proposta de paz conseguiu apenas 15 votos. A da guerra revolucionária 32 e a de Trotsky 16. Mesmo juntando as teses dos dois principais dirigentes da Revolução de 1917 não se conseguiria a maioria necessária. O sucesso subira à cabeça de grande parte dos bolcheviques, que perdeu a noção da correlação de forças existente tanto no nível nacional quanto no internacional.
O tema voltou à pauta três dias depois na reunião do Comitê Central Bolchevique. Lênin era, incontestavelmente, o principal e mais respeitado dirigente do partido e do país naquele momento, mas isso não significava que suas posições fossem automaticamente aprovadas pelos seus pares. Em muitas e cruciais discussões ele não teve a maioria. Lênin repetiu seus argumentos: “A paz que nos propõem é infame, mas se não a aceitarmos seremos exterminados e a paz será feita por outro governo.”. As condições desesperadoras em que se encontravam as tropas russas faziam-nas incapazes de impor a mínima resistência ao avanço alemão. Continuou: “Se considerássemos o movimento revolucionário alemão suscetível de estourar com o rompimento das negociações, deveríamos nos sacrificar, pois a revolução alemã seria muito mais importante que a nossa. Mas ela ainda não começou. Devemos resistir até a revolução socialista vença e só podemos fazê-lo por meio da paz.”.
Desta vez foi a proposta intermediária de Trotsky (nem guerra nem paz) que ganhou o debate. Lênin viu-se derrotado, contando apenas com o apoio de Stalin, Zinoviev e Solkonikov. Na reunião seguinte,da qual participavam dirigentes bolcheviques e social-revolucionários de esquerda (os dois partidos que compunham o governo soviético), a proposta de Trotsky saiu-se novamente vencedora. Nada de assinar acordo de paz com as potências imperialistas, pensava a maioria bolchevique. Muitos pretendiam “salvar a honra” da revolução socialista russa, mesmo à custa da sobrevivência dessa mesma revolução.
A tese leninista tinha 21 pontos nos quais se dizia, entre outras coisas: “Fazer a paz, cedendo à força, não significa trair o internacionalismo proletário (...). Os operários que, durante uma greve, aceitam condições de retorno ao trabalho, desvantajosamente para eles e vantajosas para os capitalistas, não estão traindo o socialismo.”.“A política de ‘gestos nobres’ não corresponderia, absolutamente, à proporção das forças que possuímos.”. “O exército (russo) está sem condições de opor resistência eficaz aos alemães, que podem tomar Petrogrado.”. “A guerra revolucionária somente seria admissível se a revolução alemã estivesse para eclodir em três ou quatro meses. Caso contrário, a derrota militar equivaleria à perda do poder socialista.”. “Apostar nisso o destino da revolução seria correr um grande risco.”.
A extrema-esquerda do partido, especialmente localizada em Moscou, exigia não só a rejeição de qualquer tratado de paz com a Alemanha como também o rompimento das relações diplomáticas e econômicas com todos os demais países capitalistas. Diziam que era “melhor perecer pela causa socialista do que baixar a cabeça.”. Uma típica fraseologia radical-revolucionária, despregada dos fatos concretos e sem ter em conta a correlação de forças existente.Mais uma vez submetiam a política revolucionária a uma moral abstrata, de fundo pequeno-burguês, assentada em termos vagos como “honra” e “vergonha”.
Ao contrário dos “comunistas de esquerda”, Trotsky sabia das debilidades do seu próprio exército e não apostava numa improvável guerra revolucionária. No entanto, acreditava honestamente que a Alemanha não teria condições de lançar uma nova ofensiva contra o território russo. Uma ação militar intempestiva levaria ao irrompimento de uma revolução socialista naquele país, que já apresentava sinais de cansaço. Lênin achava a ideia sedutora, mas perigosa demais. Não valeria a pena correr tal risco.
As negociações foram retomadas em 18 de janeiro e a delegação russa agora tinha à frente o próprio Trotsky. Os alemães se mantiveram irredutíveis nas suas exigências territoriais e financeiras. Diante do impasse – indo contra a opinião de Lênin, mas dentro da linha aprovada pela direção do Partido Bolchevique e dos sovietes –,Trotsky levou a cabo a sua linha “nem guerra, nem paz”.
Declarou aos seus interlocutores: “Não queremos mais participar da guerra puramente imperialista (...) não mais concordamos em derramar sangue de nossos soldados (...). Na expectativa do momento, que julgamos estar próximo, em que as classes trabalhadoras oprimidas de todos os países tomarão o poder, como fez o povo trabalhador na Rússia, retiramos da guerra nosso povo e nosso exército. Nosso soldado-trabalhador retorna, a partir dessa primavera, a seu labor no cultivo pacífico da terra que a revolução fez passar das mãos dos proprietários fundiários às dos camponeses. Nosso operário-soldado deve retornar à fábrica para ali produzir não engenhos de destruição, mas ferramentas construtivas para, juntamente com os trabalhadores do campo, erguer a nova economia socialista.”. E concluiu: “Desmobilizamos os nossos exércitos. Recusamo-nos a assinar a paz de anexações. Declaramos terminado o Estado de Guerra entre os Impérios Centrais e a Rússia.”. Um discurso feito sob medida visando a servir de propaganda soviética aos trabalhadores dos países em guerra, especialmente na Alemanha.
Num primeiro momento os generais e os diplomatas alemães e austro-húngaros ficaram atônitos. Era a primeira vez que algum país declarava unilateralmente a paz e se retirava. A confusão realmente tornou-se grande. Quando a notícia chegou à Alemanha e à Áustria houve comemorações nas ruas.
Trotsky foi recebido com festa na sua volta: nada de acordo infame, nada de concessões aos alemães. Em 24 de fevereiro, o Soviete de Petrogrado aprovou, com apenas um voto contrário, a declaração da delegação russa em Brest-Litovsky. O Comitê Central Executivo dos sovietes de toda a Rússia – uma espécie de parlamento permanente que funcionava entre os congressos – também apoiou aquela posição. Trotsky confiante declarou: “posso afirmar calmamente que a nossa posição tornou mais difícil para o imperialismo tomar qualquer medida contra nós.”. À primeira vista, parecia que a sua tática havia sido vitoriosa e os governos imperialistas estavam num beco sem saída. Como justificar continuar uma guerra contra um adversário que decretara a paz e não mais lutaria? Lênin desejava ardentemente que aquilo fosse verdade, mas, no fundo, desconfiava. Esta não era a natureza do imperialismo.
O governo austro-húngaro – prevendo a sua queda iminente, caso se prosseguisse a guerra– chegou a sinalizar a aceitação daquela estranha paz. No entanto, o imperador e o alto comando alemães pensavam de maneira bastante diferente. Eles – mesmo correndo alguns riscos – consideraram melhor continuar a guerra, arrancando novos territóriosde uma Rússia em frangalhos. Estavam de olhos nas riquezas da Ucrânia e da Bielorrússia. Além do mais, interessava-lhes enfraquecer e derrubar os bolcheviques do poder.
Em 16 de fevereiro o governo soviético recebeu um radiograma dizendo que as hostilidades recomeçariam a partir do dia 18. Pelo acordado, qualquer rompimento deveria ser comunicado, no mínimo, com uma semana de antecedência. Os alemães roubaram-lhes cinco preciosos dias para os preparativos defensivos. O novo objetivo da guerra – anunciavam as autoridades dos impérios centrais – era colocar um fim à anarquia existente na Rússia e ao governo comunista que a promovia.
Lênin vira o jogo e salva a Revolução\
Como previsto por Lênin, o avanço dos exércitos alemães não encontrou nenhuma resistência. Em menos de uma semana ocuparam o que restava da Ucrânia e avançaram sobre a Bielorrússia. No dia 21 de fevereiro a pátria socialista foi declarada em perigo. Contra a vontade soviética, esboçava-se uma guerra revolucionária, em condições completamente desfavoráveis. Adotou-se então a política de “terra arrasada”. Ao recuar, os exércitos russos deveriam destruir tudo o que pudesse ser útil ao inimigo: pontes, ferrovias, armamentos, fábricas e plantações.
Determinou-se o alistamento compulsório de todos os elementos burgueses em batalhões especiais,destinados a construir sistemas defensivos nas cidades estratégicas, como Moscou e Petrogrado. Os que resistissem deveriam ser fuzilados. Também seriam executados sumariamente “os agentes inimigos, os especuladores, os saqueadores, os ladrões e os agitadores contrarrevolucionários.”. Os jornais e organizações políticas oposicionistas foram fechados e seus responsáveis presos. Repetiria o que ocorrera na Revolução Francesa: conclamação à guerra total e ao terror vermelho contra a reação que avançava.Todas essas medidas se mostraram insuficientes. Os camponeses continuavam se recusando a lutar. O que fazer?
Lênin não tinha nenhuma dúvida: retomar imediatamente as negociações de paz com os alemães, mesmo que tivessem que fazer maiores concessões. Apesar da catástrofe militar que se anunciava, as resistências no interior dos partidos e do governo soviético continuavam bastante fortes. Reverter esse quadro era uma questão de vida ou morte para a revolução socialista.
No momento que se recebeu a informação de que seriam retomadas as hostilidades,ocorreu uma reunião emergencial do Comitê Central bolchevique. Alia proposta de Lênin foi derrotada. Contra ela estavam Trotsky, Bukharin, Ioffe, Uritski, Krestinski e Lomov. A seu favor: Stálin, Sverdlov, Smilga, Sokolnikov. Dois dias depois – após a chegada da notícia do rápido avanço alemão –,houve nova reunião do CC. Lênin perdeu por 7 a 6. Poucas horas depois,a situação militar tornou-se catastrófica e convocou-se uma segunda reunião no mesmo dia. Desta vez Lênin apelou e ameaçou se demitir do Comitê Central caso não se aprovasse imediatamente a assinatura dos termos da paz impostos pelos alemães.
Afirmou Lênin: “Entramos na guerra revolucionária apesar de nós mesmos. Não se brinca com a guerra! Essa brincadeira nos levou a um impasse de tal ordem que a partir de agora a ruína da revolução passa a ser inevitável se nos ativermos por mais tempo em uma atitude indecisa. Ioffe nos escreveu de Brest que não há o menor sinal de uma revolução na Alemanha (...). Ficamos debatendo enquanto eles tomam os depósitos, os vagões e nos arrebentamos! (...) O camponês não quer a guerra e não lutará. A guerra permanente dos camponeses é uma utopia. A guerra revolucionária não deve ser uma fraseologia. Se não estamos preparados para ela, assinemos a paz!”.
Finalmente, ele saiu vitorioso – ainda que por pouquíssima diferença. Foram sete votos ao seu favor e seis contra. Imediatamente o governo soviético mandou um radiograma, assinado por Lênin e Trotsky, ao governo alemão dizendo-se dispostos a voltar à mesa de negociação. A resposta germânica demorou a chegar e os seus exércitos aproveitaram a situação para seguir avançando sobre o território russo. As coisas continuavam extremamente delicadas.
As lideranças soviéticas passaram a estudar seriamente a proposta de apoio militar oferecida pelos países da Entente, o que significaria uma volta indesejável ao bloco militar do qual a revolução de outubro havia tirado o país. Lênin e Trotsky consideravam essa uma saída possível, caso se mantivesse o avanço alemão sobre Petrogrado e Moscou. A esquerda dos bolcheviques continuava repudiando todo e qualquer acordo nesse sentido, independente da situação pela qual estava passando a revolução.
Não podendo participar da reunião do CC, Lênin enviou sua posição por escrito: “Queiram contar com o meu voto a favor do apoio e do armamento oferecido pelos bandidos imperialistas anglo-franceses.”. A proposta venceu por seis votos a cinco e, em protesto, Bukharin se demitiu do Comitê Central. Contudo, uma aliança com a Entente não foi necessária, pois em 23 de fevereiro chegou a resposta alemã concordando em restabelecer o processo de negociação.
Neste período, Lênin escreveu os seus primeiros trabalhos contra o esquerdismo. O primeiro – de 21 de fevereiro – intitulado Sobre a fraseologia revolucionária afirmava: “a fraseologia revolucionária é a repetição de palavras de ordem revolucionárias, sem nenhuma relação com as circunstâncias objetivas de um dado momento (...). Palavras de ordem excelentes, arrebatadoras, estimulantes, porém desprovidas de base objetiva.” E conclamava: “Guerra à fraseologia revolucionária!”. Num outro texto intitulado A Sarna, Lênin aproveitou para ironizar a esquerda partidária através de uma analogia histórica: “Na sua guerra de independência contra a Inglaterra, no fim do século XVIII, os norte-americanos recorreram à ajuda de um mesmo tipo de bandidos colonialistas que os ingleses: os governos espanhóis e franceses. Diz-se que os bolcheviques de esquerda se reuniram para escrever uma tese sobre ‘o sujo acordo daqueles americanos’.”.
As condições para a paz se tornaram ainda mais draconianas. A Rússia revolucionária deveria reconhecer a independência – e a entrada na área de influência alemã – de Finlândia, Polônia, Estônia, Letônia, Lituânia e Ucrânia. Na prática significava permitir o esmagamento da revolução que se disseminava nessas regiões. Mantinha-se a necessidade de uma indenização no valor de três bilhões de rubros-ouro. Além da exigência de cessar toda e qualquer agitação contra as instituições dos países envolvidos no tratado; ou seja, estaria proibida a propaganda revolucionária entre os soldados e operários alemães e austro-húngaros. O Comitê Central se reuniu e a assinatura ao tratado foi aprovada por sete votos a quatro – e quatro abstenções. Lênin ganhara a votação, mas ainda sem maioria. O partido e o governo soviético continuavam perigosamente divididos.
A delegação soviética enviada para assinar o tratado se recusou a discuti-lo. Apenas assinou o documento e afirmou secamente: “Estamos aqui para assinar, sem nenhuma demora, uma paz que nos é imposta pela violência (...). A paz que assinamos nos é ditada pelas armas. A Rússia revolucionária se vê coagida a aceitá-la com os dentes cerrados.”. E concluiu: “Não aceitamos qualquer tipo de discussão, por considerá-la inútil.”. O tratado de Brest-Litovsky foi assinado em 3 de março de 1918.
A Rússia, finalmente, saía da guerra imperialista. Contudo, as divergências não cessavam no interior do poder soviético. Ainda no 7º Congresso do Partido, que se reuniu entre 6 e 8 de março, o tema do tratado de paz foi discutido. Nele, 30 delegados votaram a favor do tratado de paz, 12 contra e quatro se abstiveram. Eleitos naquele congresso, os membros da “esquerda” se recusaram a compor o novo Comitê Central. Lênin retrucou: “Os camaradas poderão muito bem defender os seus pontos de vista sem sair do CC.”. Aproveitou para dar-lhes uma nova estocada: “Sim, veremos uma revolução internacional mundial, mas para o presente isso não passa de um belo conto de fadas – um conto de fadas maravilhoso –, e eu acredito que as crianças devam amar esses contos de fadas. Mas pergunto: É natural que revolucionários sérios acreditem em contos de fada?”.
Aos poucos a maioria das pessoas foi sendo ganha para a justeza das posições leninistas. No 4º Congresso Extraordinário dos Sovietes de toda a Rússia, reunido em 14 de março, as teses de Lênin conseguiram maioria significativa de votos: 784 contra 261 e 115 abstenções, e entre estas estavam 64 “comunistas de esquerda”.
No mês de maio – diante da continuidade da crítica esquerdista ao tratado firmado –, ele publicou o artigo Do infantilismo de esquerda e do espírito pequeno-burguês. Ali escreveu: “Pois enquanto não rebentar a revolução socialista internacional, que abarque alguns países e tenha força suficiente que lhe permita vencer o imperialismo internacional, até então, o dever dos socialistas que venceram num único país (particularmente se for atrasado) consiste em não aceitar o combate com os gigantes do imperialismo, em tentar evitar o combate, em esperar que o conflito dos imperialistas entre si os enfraqueça ainda mais (...). Os nossos comunistas ‘de esquerda’ — que gostam também de se chamar comunistas ‘proletários’, mas têm particularmente pouco de proletário e muito de pequeno-burguês — não levam em conta a correlação de forças. E é justamente nisto reside o âmago do marxismo e da tática marxista.”.
Os esquerdistas se levantaram especialmente contra a conclamação leninista em defesa da pátria socialista, acreditando que isso iria contra o espírito do internacionalismo proletário e seria uma concessão ao nacionalismo burguês. A defesa da pátria não poderia constar de um programa verdadeiramente socialista. Em oposição a essa ideia, argui Lênin: “Colocais as palavras ‘defesa da pátria socialista’ entre aspas, que deve significar, provavelmente, uma tentativa de ironizar, mas que, de fato, demonstra a confusão nas vossas cabeças. Estais habituados a considerar o ‘defensismo’ como uma coisa infame e vil, retivestes e aprendestes isto, decorastes isto tão zelosamente que alguns de vós chegam ao ponto de dizer o absurdo de que, na época imperialista, a defesa da pátria é uma coisa inadmissível (de fato, ela é inadmissível só numa guerra imperialista, reacionária, conduzida pela burguesia) (...). Se a guerra é conduzida pela classe dos exploradores com o objetivo de reforçar o seu domínio como classe, é uma guerra criminosa, e o ‘defensismo’ em tal guerra é uma infâmia e uma traição ao socialismo. Contudo, se a guerra é conduzida pelo proletariado que venceu a burguesia no seu país, é conduzida no interesse do fortalecimento e desenvolvimento do socialismo, então é uma guerra legítima e ‘sagrada’.”. Por isso, concluiu: “Somos defensistas desde 25 de Outubro de 1917.”.
Alguns anos mais tarde, Lênin escreveria: “Aceitar o combate quando isso é manifestamente vantajoso para o inimigo, mas não para nós, é criminoso; os dirigentes políticos da classe revolucionária são absolutamente inúteis se não souberem manobrar ou propor compromissos para se evitar um combate evidentemente desfavorável.”. Os verdadeiros revolucionários deveriam saber recuar quando a correção de forças assim o exigia.
Do levante social-revolucionário ao sistema de partido único
Contrários ao Tratado de Brest-Litovsky, os social-revolucionários e a esquerda abandonaram o governo soviético. Na época eles possuíam três importantes ministérios: Justiça, Agricultura e Correios. A partir de então assumiram uma postura de oposição intransigente e logo passariam a adotar métodos ilegais e violentos, retomando antigas práticas terroristas dos populistas russos.
Saíram do governo e continuaram participando dos sovietes. No 5º Congresso, iniciado em 4 de julho de 1918, estiveram presentes 1.164 delegados: 773 deles eram bolcheviques e 353 social-revolucionários de esquerda. Como podemos ver, era ainda uma minoria expressiva.
Enquanto transcorria aquele congresso, dois social-revolucionários de esquerda assassinaram o embaixador alemão. Com isso pretendiam retomar a guerra interrompida. No mesmo dia tentaram assaltar o poder em Moscou. O movimento insurrecional, visando a derrubar o governo bolchevique, foi rapidamente derrotado e seus líderes acabaram presos, mas logo foram anistiados.
O resultado dessa intentona foi que os social-revolucionários de esquerda acabaram expulsos dos sovietes, acusados de promover ações contrarrevolucionárias. Este fato marcou, na prática, o estabelecimento do monopartidarismo. A Constituição soviética de 1924 institucionalizaria o sistema de partido único no lugar do sistema de partido dominante dentro de um pluralismo socialista. A necessidade – imposta pelas condições dramáticas da guerra civil – se transformaria em virtude. O modelo de partido único deveria ser adotado, necessariamente,em todos os países que quisessem transitar ao socialismo. Esta era uma coisa que não fora proposta ou prevista por Lênin e seus camaradas em outubro de 1917.
Em novembro de 1918 o Império Alemão desabou. Não suportou o esforço de guerra, sendo derrubado por uma rebelião operária e popular. A revolução alemã – tão esperada pelos soviéticos entre janeiro e março de 1917 – não seria socialista, se manteria democrático-burguesa, graças à capitulação dos dirigentes socialdemocratas. Os soviéticos aproveitam-se da débâcle da monarquia imperialista alemã para rasgar o Tratado de Brest-Litovsky e retomar vários territórios na Ucrânia e Bielorússia. Era uma vitória de Lênin. Ele, contudo, não teria condições de comemorá-la, pois estava em curso uma violenta guerra civil na qual se confrontavam furiosamente o Exército Vermelho e vários exércitos brancos, apoiados pelas potências ocidentais e o Japão. O imperialismo não daria trégua ao Estado Soviético, construindo em torno dele um verdadeiro “cordão sanitário”.
* Augusto Buonicore é historiador, presidente do Conselho Curador da Fundação Maurício Grabois. E autor dos livros Marxismo, história e a revolução brasileira, Meu Verbo é Lutar: a vida e o pensamento de João Amazonas e Linhas Vermelhas: marxismo e os dilemas da revolução, publicados pela Editora Anita Garibaldi.
Bibliografia
CARR, E.H. A Revolução Russa de Lênin a Stálin. Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
FISCHER, Louis. A vida de Lênin. Vol.1, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
GRUPPI, Luciano. O pensamento de Lênin, Rio de Janeiro: Editora Graal, 1979
KRAUSZ, Tamás. Reconstruindo Lênin: uma biografia intelectual. São Paulo: Boitempo, 2017.
LENINE, V. I. Obras escolhidas, vol.2, São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1989
LENINE, V.I. Esquerdismo, doença infantil do comunismo, São Paulo: Editora Global, 1981.
SERGE, Victor. O ano I da Revolução Russa. São Paulo: Boitempo, 2007.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
Haroldo Lima: Alípio de Freitas se foi - Portal Vermelho
Haroldo Lima: Alípio de Freitas se foi - Portal Vermelho:
Alípio de Freitas, o ex-padre Alípio, acaba de falecer em Lisboa, a 13 de junho de 2017. Português de nascimento, naturalizado brasileiro, aos 88 anos, foi-se um revolucionário. Destemido, corajoso como poucos, culto, era um batalhador contra as injustiças sociais e os desmandos políticos.
Alípio de FreitasOrdenado padre em Portugal, por lá mesmo teve suas primeiras experiências de vida no meio dos estratos sociais mais pobres e com a gente mais simples. De Portugal, veio para o Brasil, para o Maranhão, onde organizou trabalhadores rurais na luta contra o latifúndio. Sua atividade política, antes de 1964, se espalhou, tornou-se líder de Ligas Camponesas pelo Nordeste, o que lhe valeu dois processos políticos antes do golpe.
A ditadura, logo após instalada, procurou o Alípio como a poucos, mas não o encontrou, pois que ele logo se escondera, não esperou o golpe. Entrou então em Ação Popular, jovem organização revolucionária.
Esteve em Cuba, estudando táticas de guerrilha. Voltou ao Brasil, na mais completa clandestinidade. Na época, AP já tinha deliberado oferecer resistência armada ao regime militar, mas não tinha ainda se decidido por que tipo de luta armada iria optar. Discutia-se a teoria do “foco guerrilheiro”, de suposta inspiração cubana, e a teoria da “guerra popular”, vitoriosa na China e no Vietnam. Estudávamos arte militar, ardis de guerrilha, pesquisávamos o Brasil, viajávamos muito, procurávamos áreas para guerrilha.
Na direção de AP, aí pelos meados de 1968, eu estava me preparando para entrar na clandestinidade, mas ainda morava em apartamento no bairro de Brotas em Salvador, com minha companheira Solange, quando recebemos a notícia de que chegaria na Bahia, para ministrar aulas, simplesmente Alípio de Freitas. Onde escondê-lo, ele, que era, provavelmente, dos políticos mais procurados pela repressão na época. Ainda não estávamos calejados na rigidez da segurança clandestina. Também não tínhamos muitas alternativas. Resolvi “esconder” o Alípio de Freitas em meu próprio apartamento. E lá ele passava os dias estudando, de onde saia, escondido, para dar suas aulas, também no apartamento de Péricles de Sousa, esvaziado para esse fim.
Certo dia o ex-padre disse-me estar desejoso de conhecer D. Timóteo Amoroso Anastácio, o Arquiabade do Mosteiro de S. Bento, em Salvador, figura de grande tirocínio, coragem, humildade e muito amigo meu. Foi montada uma operação absolutamente sigilosa para levar D. Abade até minha casa e lá encontrar o ex-padre, com quem o beneditino conversou bastante e a quem ministrou a comunhão. Tudo numa noite.
Preocupado com a segurança do Alípio, resolvemos transferi-lo para lugar “mais seguro”, o apartamento de Rubem e Anete Ivo, de AP, que ficava no andar de cima do meu, no mesmo prédio na D. João VI, em Brotas.
Fizemos uma viagem pelo interior, até a região de Palmas de Monte Alto, no vale do São Francisco, olhando lugares apropriados para a luta guerrilheira. Voltamos para Salvador e finalmente Alípio partiu para outra viagem com Ronald Freitas.
Por divergência políticas, Alípio deixa AP e funda, com alguns outros, o PRT, Partido Revolucionário do Trabalhador, de vida efêmera.
Preso, foi barbaramente torturado e ao sair da cadeia, 8/9 anos depois, voltou às terras de sua origem, Portugal.
Pelo final da década de 1990, eu já fora preso, já fora solto, Solange também. Estava deputado federal, quando fomos a Portugal, eu representando o PC do B em um congresso partidário. O Alípio soube, apareceu pelo congresso, nos abraçou comovido. Convidou-nos a um jantar, regado a vinho e a manifestações de amizade. Cada um expressou ter boas recordações dos demais.
O jantar foi regado também a reminiscências de um período áspero, de arbítrio e truculência no Brasil, em que, altivo, desafiando a tudo e a todos, desfilava a figura de um revolucionário, Alípio Cristiano de Freitas, procurado intensamente pela repressão, admirado profundamente pelos seus companheiros e pelo povo, que o conheciam como o padre Alípio.
Ficam aqui as homenagens a Alípio de Freitas, seguramente de todos os que o conheceram.
Alípio de Freitas, o ex-padre Alípio, acaba de falecer em Lisboa, a 13 de junho de 2017. Português de nascimento, naturalizado brasileiro, aos 88 anos, foi-se um revolucionário. Destemido, corajoso como poucos, culto, era um batalhador contra as injustiças sociais e os desmandos políticos.
Por Haroldo Lima*
A ditadura, logo após instalada, procurou o Alípio como a poucos, mas não o encontrou, pois que ele logo se escondera, não esperou o golpe. Entrou então em Ação Popular, jovem organização revolucionária.
Esteve em Cuba, estudando táticas de guerrilha. Voltou ao Brasil, na mais completa clandestinidade. Na época, AP já tinha deliberado oferecer resistência armada ao regime militar, mas não tinha ainda se decidido por que tipo de luta armada iria optar. Discutia-se a teoria do “foco guerrilheiro”, de suposta inspiração cubana, e a teoria da “guerra popular”, vitoriosa na China e no Vietnam. Estudávamos arte militar, ardis de guerrilha, pesquisávamos o Brasil, viajávamos muito, procurávamos áreas para guerrilha.
Na direção de AP, aí pelos meados de 1968, eu estava me preparando para entrar na clandestinidade, mas ainda morava em apartamento no bairro de Brotas em Salvador, com minha companheira Solange, quando recebemos a notícia de que chegaria na Bahia, para ministrar aulas, simplesmente Alípio de Freitas. Onde escondê-lo, ele, que era, provavelmente, dos políticos mais procurados pela repressão na época. Ainda não estávamos calejados na rigidez da segurança clandestina. Também não tínhamos muitas alternativas. Resolvi “esconder” o Alípio de Freitas em meu próprio apartamento. E lá ele passava os dias estudando, de onde saia, escondido, para dar suas aulas, também no apartamento de Péricles de Sousa, esvaziado para esse fim.
Certo dia o ex-padre disse-me estar desejoso de conhecer D. Timóteo Amoroso Anastácio, o Arquiabade do Mosteiro de S. Bento, em Salvador, figura de grande tirocínio, coragem, humildade e muito amigo meu. Foi montada uma operação absolutamente sigilosa para levar D. Abade até minha casa e lá encontrar o ex-padre, com quem o beneditino conversou bastante e a quem ministrou a comunhão. Tudo numa noite.
Preocupado com a segurança do Alípio, resolvemos transferi-lo para lugar “mais seguro”, o apartamento de Rubem e Anete Ivo, de AP, que ficava no andar de cima do meu, no mesmo prédio na D. João VI, em Brotas.
Fizemos uma viagem pelo interior, até a região de Palmas de Monte Alto, no vale do São Francisco, olhando lugares apropriados para a luta guerrilheira. Voltamos para Salvador e finalmente Alípio partiu para outra viagem com Ronald Freitas.
Por divergência políticas, Alípio deixa AP e funda, com alguns outros, o PRT, Partido Revolucionário do Trabalhador, de vida efêmera.
Preso, foi barbaramente torturado e ao sair da cadeia, 8/9 anos depois, voltou às terras de sua origem, Portugal.
Pelo final da década de 1990, eu já fora preso, já fora solto, Solange também. Estava deputado federal, quando fomos a Portugal, eu representando o PC do B em um congresso partidário. O Alípio soube, apareceu pelo congresso, nos abraçou comovido. Convidou-nos a um jantar, regado a vinho e a manifestações de amizade. Cada um expressou ter boas recordações dos demais.
O jantar foi regado também a reminiscências de um período áspero, de arbítrio e truculência no Brasil, em que, altivo, desafiando a tudo e a todos, desfilava a figura de um revolucionário, Alípio Cristiano de Freitas, procurado intensamente pela repressão, admirado profundamente pelos seus companheiros e pelo povo, que o conheciam como o padre Alípio.
Ficam aqui as homenagens a Alípio de Freitas, seguramente de todos os que o conheceram.
*Foi da Direção Nacional da Ação Popular quando Alípio de Freitas era da mesma entidade. Hoje é do Comitê Central do Partido Comunista do Brasil.
PCdoB na TV aborda resistência contra retrocesso de Temer
O programa nacional do PCdoB foi exibido nesta terça-feira (24) em cadeia de rádio e televisão em todo o país. Ele retrata de forma lúdica a conjuntura de crise que o país atravessa e chama a atenção aos graves retrocessos nos direitos sociais promovidos pelo governo de Temer. Gravado em Olinda e no sertão pernambucano, o programa fala da resistência sertaneja por meio de cordel animado. Para o PCdoB, “se for necessário o povo, para fazer um país novo, ele não vai faltar”.
Assista a íntegra abaixo:
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
O PCdoB, a Juventude e a Classe Trabalhadora – III - Paulo Vinícius Silva - Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB
“Tudo muda o tempo todo no mundo”
Lulu Santos – Zen Surfismo
O sindicalismo classista acumulou exponencial influência no decorrer da última década, após a criação da CTB. É esse patamar atual – exatamente – o que está em xeque, e por isso se exige que o sindicalismo classista atue ainda mais organizadamente junto à sua base, a fim de mobilizá-la em defesa dos seus direitos, de suas entidades e da sua representação no legislativo. Primeiro, porque é preciso tirar lições da experiência concreta que o povo faz sobre o erro de desconhecer a política, ignorância que lhe tem afetado de modo cada vez mais duro. Segundo, pois pode ser uma eleição em que ainda é possível às representações classistas se dirigirem de modo pleno e organizado para a ampla maioria de suas bases e para o povo. Quem melhor falará para as nossas bases, senão nós?!
Por Paulo Vinícius Santos da Silva*
Em terceiro lugar, porque devemos responder à questão de como as vias de acumulação de forças – luta de ideias, de massas e político-eleitoral – se entrelaçam com nosso crescimento orgânico e eleitoral. Por que decrescemos em influência eleitoral em grandes municípios? Como a crise de legitimidade e a derrota na esquerda nos afeta, e que laços devemos ter com o povo? Objetivamente há um natural desnível quando vemos as influências eleitorais possíveis a partir de espaços de governo/parlamento, luta social, intelectualidade/cultura. É preciso sabedoria e realismo para não embarcarmos num eleitoralismo marqueteiro de quinta, desconhecendo muitas vezes a nossa influência real e potencial, acabando nem lá, nem cá, deixando de falar para quem devemos e podemos. Será que não é possível uma via orgânica de crescimento eleitoral, inclusive dirigindo esforços de recrutamento de lideranças de esquerda?
| Congresso eleito de 2014 |
Ou seja, é preciso destapar o bloqueio natural da “democracia burguesa” que impede a projeção político-eleitoral de lideranças populares, notadamente juvenis e de trabalhadores(as), no curso de uma eleição que amplia a necessidade de o Partido dirigir-se ao povo. Uma parte disso pode ser respondida no primeiro turno, com uma candidatura própria, persistindo o quadro mais amplo de fragmentação da esquerda. Uma candidatura nacional é possibilidade de o PCdoB falar direto ao povo. Mas é decisivo montar chapas que encarnem a dimensão do atual peso institucional conquistado, da força de nosso crescimento na classe trabalhadora e o nosso celeiro de quadros juvenis, e ampliar a cesta de votos do PCdoB na Câmara dos Deputados. Temos condições para afirmar esse lastro classista e nele expressar a sua diversidade, projetando lideranças mulheres, negras, LGBTT, do campo e da cidade, da cultura e da intelectualidade, expressas nas candidaturas, feitas de pessoas reais e diversas. Se não ousarmos, notadamente quanto às candidaturas de trabalhadores(as), poderemos perder um espaço importante e sob ameaça, em que progredimos, mas que precisa se reforçar quanto à sua capacidade de sair da luta corporativa e econômica, lançando-se à luta política e dirigindo-se a toda à sociedade.
Essa ousadia passa por enfrentar a necessidade da renovação geracional, da ampliação dos espaços sindicais às mulheres e da preocupação crescente com a nossa capacidade de representar a nossa base inclusive na composição geracional, de gênero e no entrelaçamento das lutas dos direitos humanos com a luta dos trabalhadores. Parte dessas orientações já foram aprovadas nos Encontros Sindicais Nacionais do PCdoB. Isso é um movimento necessário, que em nosso meio ocorre já atrasado, sob o ataque da direita. Não adianta escandalizar-se quando parte da juventude e dos trabalhadores(as) ouve a direita, precisamos é falar pra nossa base. Em vez da fragmentação devemos afirmar a síntese expressa na constituição da Classe, a união das pautas e o reconhecimento das lideranças que temos projetado.
Para enfrentar tais desafios, urge o fortalecimento das Secretarias Sindicais, de Juventude e de Organização, aprofundando a política de quadros voltada às lideranças intermediárias. Que o PCdoB se dirija ao povo brasileiro através de um veículo unificado e de massas periódico que torne mais nítidas suas posições. E para os(as) comunistas na luta dos trabalhadores, urge ousar libertar-se da pirâmide invertida, reconhecer que ela desabará. Ter a coragem de pô-la sobre sua verdadeira base, dirigir-se aos trabalhadores(as), à juventude, às mulheres, chamá-los a defender a democracia e posicionar-se no decisivo embate em que o povo possa outra vez decidir o destino do Brasil.
*Milita em Brasília. Sociólogo e Bancário, é egresso da UJS
O PCdoB, a Juventude e a Classe Trabalhadora – II - Paulo Vinícius Silva - Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB
O Socialismo como necessidade histórica e o papel da Classe Trabalhadora
“Tudo, tudo o que existia. Era ele quem o fazia. Ele, um humilde operário. Um operário que sabia. Exercer a profissão.”
Vinícius de Morais, O Operário em Construção
Amplia-se a centralidade da Classe Trabalhadora para a Humanidade, ela, classe que já é central para o Partido Comunista, por sua história e sentido. Mas também pelas mudanças tecnológicas que avançam para a precarização do trabalho e para uma escalada de substituição do trabalho vivo, no curso da 4ª Revolução Tecnológica. O sistema capitalista, no curso de sua crise, aprofunda a polarização social. Apenas 1% da humanidade possui mais riqueza que os 99% restantes, a maioria dos quais parte da Classe Trabalhadora, produtora da riqueza e da economia real. Nos dizeres de Engels, “a classe dos trabalhadores assalariados modernos, os quais, não tendo meios próprios de produção, estão reduzidos a vender a sua força de trabalho para poderem viver”.
Por Paulo Vinícius Santos da Silva*
Cumpriu-se – infelizmente – a previsão marxista da inevitável concentração de riqueza e polarização social sob o capitalismo. Mais do que nunca, o socialismo é necessidade histórica, de libertar a humanidade do jugo parasitário do capitalismo financeiro, jugo que ameaça a vida na Terra, e também o nosso Brasil. O socialismo pontua como sociedade organizada em favor das amplas maiorias, que busca elevar o desenvolvimento à condição de Ciência, utilizando-se do Estado e do Mercado, tendo em conta a complexidade da humanidade e o desafio de redefinir a relação da espécie humana com a natureza, a fim de assegurar a própria sobrevivência da espécie.
O retrocesso civilizacional e em curso no país é parte do esquema geral da subordinação de todos os interesses da humanidade à Ditadura do capital financeiro, com a exclusão de um potencial ator de primeira grandeza no mundo multipolar. O caráter subalterno, rentista e corrupto de nossa classe dominante ficou exposto no Golpe que depôs a Presidenta Dilma, antecipando a atual ofensiva de direita contra a CLT, a Constituição de 1988 e as políticas públicas de Lula e Dilma. Por que?
Ora, do Orçamento da União se reserva religiosamente (com FHC, Lula e Dilma) quase a metade para despesas de juros e amortização da dívida pública. Ora, agora, com o “teto de gastos”, a fatia que é uma banda poderá tranquilamente crescer (e viva à “responsabilidade fiscal”). Por isso que pagamos tamanhos juros em empréstimos pessoais, cartões, financiamentos e dívidas, por isso o empresário tanto paga e deve aos bancos. Cada família a receber a sinistra visita da fome, cada choro de pai e mãe demitido, a destruição dos serviços públicos, o abandono da velhice na Reforma da Previdência, a juventude sem trabalho e sem estudo, a morte na fila do médico, as mentiras do Partido da Imprensa Golpista, a escola sucateada, a professora mal paga, a mordaça e a lavagem cerebral da “teologia da prosperidade” e do ódio, tudo, tudo isso e o Golpe só existem para aprofundar a já vergonhosa supremacia da especulação financeira sobre a economia real, sobre quem trabalha e produz. É por isso que sobressaem como objetivos destacados unir a Classe Trabalhadora a uma ampla frente de classes e setores sociais para resgatar a Democracia violentada e isolar o rentismo parasitário que ameaça a Nação Brasileira.
Vivemos um cenário de destruição de direitos, precarização e terceirização, que se soma à desindustrialização, à queda dos investimentos, à reprimarização e aos intentos de desmonte do Banco Central, do BNDES, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, do sistema ELETROBRÁS e das Universidade Públicas. Isso é feito a mando de fora, para destruir qualquer chance de Desenvolvimento, é uma expedição punitiva de uma ocupação estrangeira.
Pirâmide invertida, representatividade política e autonomia financeira
Essa situação de terra arrasada afeta o movimento sindical de múltiplas e decisivas formas. O ataque brutal promovido pela Deforma Trabalhista não está ainda mensurado, mas aponta para uma fragmentação das categorias pela terceirização ilimitada, o que nos obriga a aprofundar a consciência da unidade da classe trabalhadora por ramos, rompendo com o corporativismo. Precisamos romper com as barreiras que ainda separam trabalhadores(a) com as mesmas funções e locais de trabalho. A Deforma quer quebrar o papel dos sindicatos como representação unificada dos trabalhadores(as). Devemos ampliar e lutar incansavelmente pela unidade e a representação do conjunto dos trabalhadores(as).
Devemos ousar também nas respostas à crise do Financiamento Sindical. Para além de um criterioso estudo de racionalização econômica, precisamos refletir sobre alternativas organizativas que monetizem uma base que já possuímos, para responder ao problema financeiro pelo fortalecimento dos laços com nossa base. Dado o exponencial crescimento dos últimos 10 anos, o sindicalismo classista se depara com uma realidade nova em três aspectos: 1) uma base social maior, no campo e na cidade, cerca de 10% das entidades sindicais do país; 2) as mudanças tecnológicas que afetam em profundidade o mundo do trabalho; 3) o ataque sem precedentes contra a organização sindical. É preciso um estudo abrangente sobre a composição do proletariado brasileiro, as mudanças do seu perfil, sua subjetividade e a nossa maneira de nos relacionarmos com a nossa classe na nova realidade, que de acirramento a luta de classes e ofensiva da direita.
Diante de tais problemas, exige-se da vanguarda para a Classe uma praxis virtuosa. Segundo nosso 4º Encontro Sindical, isso passa por superar a pirâmide invertida:
“A pirâmide invertida (muitos militantes na cúpula sindical e poucos na base) acaba sendo o caldo de cultura para o burocratismo sindical, para o espírito de rotina e o rebaixamento do trabalho sindical. Esse engessamento da vida partidária e sindical afunila os espaços para o surgimento de novas lideranças e estimula a prática da reeleição indefinida dos mesmos dirigentes. Em alguns casos, esse fenômeno gera fadiga de material, desgaste na base e mesmo derrotas eleitorais”.
A torre de marfim em que se rodiziam as principais funções – geralmente em mãos masculinas – nas direções sindicais, ironicamente também nos distancia de nossa base, é topo e fim de carreira, impede a existência de uma corrente de opinião nítida da Classe Trabalhadora, assim como uma base eleitoral que nos assegure a legalidade e maiores espaços à disputa da hegemonia. Por isso o projeto CTB é decisivo, um passo adiante na consciência da classe para si, um processo que carece da direção comunista consciente, de prioridade e investimento.
A busca da unidade das centrais sindicais evidenciou limites, divisões e problemas que terão novos contornos com a mudança geral promovida pelo ataque ao movimento sindical. Devemos nos preparar para as mudanças nas categorias e entidades, sem temor de avançar como força organizada. É essa perspectiva estratégica de reforço dos laços com a Classe que deve animar o movimento sindical classista para estreitar seus laços com o movimento juvenil e de mulheres numa ofensiva consciente para a ação na juventude trabalhadora, em especial em categorias-chave.
*Milita em Brasília. Sociólogo e Bancário, é egresso da UJS
Conferência do PCdoB-CE - Joan Edesson: Uma rosa para os que partiram - Portal Vermelho
Conferência do PCdoB-CE - Joan Edesson: Uma rosa para os que partiram - Portal Vermelho
21 de Outubro de 2017 - 17h34

“Nosso dever, nossa tarefa, é dar continuidade a essa luta. E lembrar com carinho desses homens e dessas mulheres. E lembrar deles com alegria, mesmo que a dor ainda seja tão grande, mesmo que o espinho ainda esteja cravado em nosso coração e que o nó ainda esteja preso em nossa garganta. Por eles, por elas, continuamos lutando”.
A revolução se faz com homens e mulheres. Com homens e mulheres que amam, choram, riem, constroem laços de amizade, e que lutam incansavelmente para que, no mundo inteiro, outros homens e mulheres possam ter direito a um mundo novo, a uma sociedade nova.
Esses homens e mulheres lutam, na maioria das vezes, por pessoas que sequer conhecem. Não lutam por alguém especificamente, lutam pela humanidade em geral. O que os move é a confiança de que, coletivamente, braços dados, mãos entrelaçadas, os trabalhadores podem construir uma sociedade nova, um mundo novo; é a confiança de que os trabalhadores podem e irão construir o socialismo.
Ocorre que, humanos, esses homens e mulheres que têm defeitos e virtudes, são finitos. E por mais que doa naqueles que ficam um pouco mais, esses homens e mulheres partem um dia. Nós, que ainda permanecemos por mais tempo, sofremos com a partida desses homens e mulheres.
Sofremos porque fomos seus amigos, porque ombreamos com eles na luta pelo futuro, porque partilhamos com eles dos mesmos sonhos, porque dividimos com eles alegrias e tristezas, porque tantas vezes, junto com eles, sofremos também por outros que haviam partido. Nós sofremos de saudade, quando partem esses homens e mulheres que conviveram e lutaram conosco, lado a lado, e que brindaram à vida conosco tantas vezes.
Nos últimos dois anos nós tivemos algumas grandes perdas. Pessoas partiram do nosso convívio. Não os veremos mais, não os teremos mais ao nosso lado nas batalhas do dia a dia, no papo besta do bar, nas discussões e debates sérios sobre os nossos rumos. Não os veremos mais, partiram para não mais voltar.
Partiu Gilse, o “aço em flor”, a “moça de Minas”, a que não se dobrou e que, como grande que era, jamais perdeu a ternura. Partiu Edson Pereira, veterano combatente das causas populares, permanente abraço aberto para os amigos. Partiu Marcinha, com sua inabalável confiança de que o futuro será melhor para as mulheres. Partiu Expedito, o sonoro bom dia a nos receber e a nos envolver em amizade e camaradagem. Partiu Miguel, que cultivava a crença na luta e na folia, no socialismo e no carnaval. Partiram para não mais regressar. E nos deixaram com nossa dor imensurável, com nossa dor que não tem nome e nem tamanho.
Cada uma dessas partidas levou um tanto de nós, arrancou um pedacinho da nossa alma, tornou mais miúda e mais triste a nossa existência. Cada uma dessas partidas, num momento em que vivemos uma tão grande ameaça à paz, à democracia, aos direitos de homens e mulheres, cada uma dessas partidas tornou ainda mais dura a nossa luta, pois que as lacunas deixadas não se preenchem. Esses homens e mulheres que partiram eram únicos, insubstituíveis.
Por isso choramos tanto quando eles se foram. Por isso choramos até hoje, ao lembrar de cada um deles.
Mas não devemos. Não devemos porque aquilo que motivou cada um desses a viver, a luta que os movia, permanece. Os sonhos que eles sonharam são os mesmos que ainda sonhamos. Nós, que permanecemos mais um pouco antes de nos irmos também, temos o dever, a tarefa, de continuar a luta que esses homens e essas mulheres travaram conosco, ombro a ombro.
Nosso dever, nossa tarefa, é dar continuidade a essa luta. E lembrar com carinho desses homens e dessas mulheres. E lembrar deles com alegria, mesmo que a dor ainda seja tão grande, mesmo que o espinho ainda esteja cravado em nosso coração e que o nó ainda esteja preso em nossa garganta. Por eles, por elas, continuamos lutando.
Por eles, por elas, cultivamos a rosa rubra da revolução, a rosa vermelha do futuro. E diremos, como da nossa tradição, quando se pronunciarem os nomes de Gilse, Edson, Márcia, Expedito e Miguel, quando eles forem nomeados, nós diremos, ainda que embargada a voz, nós diremos: PRESENTE!
21 de Outubro de 2017 - 17h34
Conferência do PCdoB-CE - Joan Edesson: Uma rosa para os que partiram
“Nosso dever, nossa tarefa, é dar continuidade a essa luta. E lembrar com carinho desses homens e dessas mulheres. E lembrar deles com alegria, mesmo que a dor ainda seja tão grande, mesmo que o espinho ainda esteja cravado em nosso coração e que o nó ainda esteja preso em nossa garganta. Por eles, por elas, continuamos lutando”.
Por *Joan Edesson
A revolução se faz com homens e mulheres. Com homens e mulheres que amam, choram, riem, constroem laços de amizade, e que lutam incansavelmente para que, no mundo inteiro, outros homens e mulheres possam ter direito a um mundo novo, a uma sociedade nova.
Esses homens e mulheres lutam, na maioria das vezes, por pessoas que sequer conhecem. Não lutam por alguém especificamente, lutam pela humanidade em geral. O que os move é a confiança de que, coletivamente, braços dados, mãos entrelaçadas, os trabalhadores podem construir uma sociedade nova, um mundo novo; é a confiança de que os trabalhadores podem e irão construir o socialismo.
Ocorre que, humanos, esses homens e mulheres que têm defeitos e virtudes, são finitos. E por mais que doa naqueles que ficam um pouco mais, esses homens e mulheres partem um dia. Nós, que ainda permanecemos por mais tempo, sofremos com a partida desses homens e mulheres.
Sofremos porque fomos seus amigos, porque ombreamos com eles na luta pelo futuro, porque partilhamos com eles dos mesmos sonhos, porque dividimos com eles alegrias e tristezas, porque tantas vezes, junto com eles, sofremos também por outros que haviam partido. Nós sofremos de saudade, quando partem esses homens e mulheres que conviveram e lutaram conosco, lado a lado, e que brindaram à vida conosco tantas vezes.
Nos últimos dois anos nós tivemos algumas grandes perdas. Pessoas partiram do nosso convívio. Não os veremos mais, não os teremos mais ao nosso lado nas batalhas do dia a dia, no papo besta do bar, nas discussões e debates sérios sobre os nossos rumos. Não os veremos mais, partiram para não mais voltar.
Partiu Gilse, o “aço em flor”, a “moça de Minas”, a que não se dobrou e que, como grande que era, jamais perdeu a ternura. Partiu Edson Pereira, veterano combatente das causas populares, permanente abraço aberto para os amigos. Partiu Marcinha, com sua inabalável confiança de que o futuro será melhor para as mulheres. Partiu Expedito, o sonoro bom dia a nos receber e a nos envolver em amizade e camaradagem. Partiu Miguel, que cultivava a crença na luta e na folia, no socialismo e no carnaval. Partiram para não mais regressar. E nos deixaram com nossa dor imensurável, com nossa dor que não tem nome e nem tamanho.
Cada uma dessas partidas levou um tanto de nós, arrancou um pedacinho da nossa alma, tornou mais miúda e mais triste a nossa existência. Cada uma dessas partidas, num momento em que vivemos uma tão grande ameaça à paz, à democracia, aos direitos de homens e mulheres, cada uma dessas partidas tornou ainda mais dura a nossa luta, pois que as lacunas deixadas não se preenchem. Esses homens e mulheres que partiram eram únicos, insubstituíveis.
Por isso choramos tanto quando eles se foram. Por isso choramos até hoje, ao lembrar de cada um deles.
Mas não devemos. Não devemos porque aquilo que motivou cada um desses a viver, a luta que os movia, permanece. Os sonhos que eles sonharam são os mesmos que ainda sonhamos. Nós, que permanecemos mais um pouco antes de nos irmos também, temos o dever, a tarefa, de continuar a luta que esses homens e essas mulheres travaram conosco, ombro a ombro.
Nosso dever, nossa tarefa, é dar continuidade a essa luta. E lembrar com carinho desses homens e dessas mulheres. E lembrar deles com alegria, mesmo que a dor ainda seja tão grande, mesmo que o espinho ainda esteja cravado em nosso coração e que o nó ainda esteja preso em nossa garganta. Por eles, por elas, continuamos lutando.
Por eles, por elas, cultivamos a rosa rubra da revolução, a rosa vermelha do futuro. E diremos, como da nossa tradição, quando se pronunciarem os nomes de Gilse, Edson, Márcia, Expedito e Miguel, quando eles forem nomeados, nós diremos, ainda que embargada a voz, nós diremos: PRESENTE!
*Joan Edesson é educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará e colunista do Portal Vemelho.
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
Falarei na Semana Universitária da UnB, 24/10, das 14h-16h “100 Anos da Reforma Universitária de Córdoba”
Falarei na Semana Universitária da UnB, terça, 24/10, das 14h-16h “100 Anos da Reforma Universitária de Córdoba”
A Reforma de Córdoba foi a afirmação do governo democrático para a gestão nas universidades pelo co-governo, a partir de uma revolta estudantil em Córdoba, Argentina, que projeta o movimento estudantil latino-americano.
A mesa está muito boa!
Moderação- Murilo Camargo (UnB)
- Paulo Speller (OEI)
- Rony Corbo (Diretor de Ensino Superior do Ministério de
Educação e Cultura do Uruguai)
- Paulo Vinícius Silva(Sociólogo, Ex- RRII da UNE) - Executiva Nacional da CTB)
- Mateus Barroso - Coord Geral do DCE UnB
- Luiza Calvette - Cientista Política
Local: Anfiteatro 10 - Campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB)
A Reforma de Córdoba foi a afirmação do governo democrático para a gestão nas universidades pelo co-governo, a partir de uma revolta estudantil em Córdoba, Argentina, que projeta o movimento estudantil latino-americano.
A mesa está muito boa!
Moderação- Murilo Camargo (UnB)
- Paulo Speller (OEI)
- Rony Corbo (Diretor de Ensino Superior do Ministério de
Educação e Cultura do Uruguai)
- Paulo Vinícius Silva(Sociólogo, Ex- RRII da UNE) - Executiva Nacional da CTB)
- Mateus Barroso - Coord Geral do DCE UnB
- Luiza Calvette - Cientista Política
Local: Anfiteatro 10 - Campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB)
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
All things must pass - Paulo Vinícius Silva
Toda noite - tem auroras,
Raios - toda escuridão,
Moços,
creiamos, não tarda
A aurora da redenção.
Castro Alves
Faz escuro mas eu canto,
porque a manhã vai chegar.
Vem ver comigo, companheiro,
a cor do mundo mudar.
Vale a pena não dormir para esperar
a cor do mundo mudar.
Já é madrugada,
vem o sol, quero alegria,
que é para esquecer o que eu sofria.
Quem sofre fica acordado
defendendo o coração.
Vamos juntos, multidão,
trabalhar pela alegria,
amanhã é um novo dia.
Thiago de Mello
Tudo
há de passar, inclusive nós mesmos. Perpétua impermanência,
movimento, e estamos nesse fluxo. Não é possível voltar. Nada se
repete, nunca. Tragédia e farsa são coisas diametralmente opostas.
E temos essa busca incessante de, hoje, dirigir nossos passos segundo
fins e meios, na "esperança de um bem", como diria
Aristóteles. Ora, o futuro não existe, o devir é em grande medida
imperscrutável. A gente tenta.
Essa
percepção do fluxo, da dialética da vida, é um desafio. A gente
ganha, perde, sofre, goza, erra, luta, luta muito, e o tempo passa
com a sua força, afastando, unindo, colocando e tirando as pessoas
na nossa vida. Aí, entramos nós. E não pode vacilar, porque, num
instante, sabe-se lá quando, como, já era.
Então, só por isso, que dia lindo! Faz escuro, mas eu canto. Indignação para lutar e alegria para lutar, sempre, na fraternidade de muita gente de bem que não aceita o injusto.
Então, só por isso, que dia lindo! Faz escuro, mas eu canto. Indignação para lutar e alegria para lutar, sempre, na fraternidade de muita gente de bem que não aceita o injusto.
Queremos
que o mal passe e o bem dure para sempre, só isso... Outrossim, não
estranha ansiarmos por reter as pessoas que amamos iguaizinhas a esse
instante amável, segurar as coisas boas, a perpetuação do prazer,
do conforto, do belo, isso tudo igual. Ilusão. Alertam Vinícius e
Baden, no Canto de Ossanha: “Pergunte pr'o seu Orixá / O amor só
é bom se doer.”
Então, nesse intervalo que me é dado, que pessoas lindas e cheias de amor pontilham exatamente essa minha passagem (oxalá só tenha meiado)! E, se contra terríveis inimigos nos temos batido, não menos verdadeiro é termos os mais belos ideais a defender!
O
movimento é perpétuo porque a contradição é inexorável. E dessa contradição - que existe até realidade até física - emerge a luta. A contradição, que gera a luta é o motor desse movimento. Viver é lutar,
ensinou Gonçalves Dias, na Canção do Tamoio. E essa mesma luta também é fluxo e
perpetuidade. Nela, muitas vezes, jogamos a nossa vida, ganhando,
perdendo-a para dá-la à Humanidade, vivendo o seu dia-a-dia, no
movimento estonteante da política. E nessa época de derrotas é
preciso ter fibra para ver que podemos conquistar um futuro melhor,
unindo amplas forças. A luta é complexa, não nos é dado perder-se, muito menos ser instrumentalizados por interesses estranhos ao Brasil, à Democracia, aos direitos e ao bem estar dos trabalhadores e do povo. Isso
que vivemos não é eterno. Pode piorar, inclusive, se prevalecer “o
silêncio dos bons”, de que falava Martin Luther King, . Daí a
urgência do nosso engajamento nessa causa.
A realidade é conosco, até parados, influenciamos. "Estamos condenados a perserverar", diz-me um amigo brizolista, com o riso de quem quem se anima ao ver uma briga boa para entrar. Afinal, a despeito da impermanência, ou talvez por ela, há que se definir, decidir que lugar, que marca havemos de ter nesse ser e vir-a-ser em disputa. Os caras estão numa desfaçatez que merece resposta, e já é tempo de cair a ficha de que fomos golpeados por uma minoria corrupta, parasita, baba-ovo do imperialismo ianque.
A realidade é conosco, até parados, influenciamos. "Estamos condenados a perserverar", diz-me um amigo brizolista, com o riso de quem quem se anima ao ver uma briga boa para entrar. Afinal, a despeito da impermanência, ou talvez por ela, há que se definir, decidir que lugar, que marca havemos de ter nesse ser e vir-a-ser em disputa. Os caras estão numa desfaçatez que merece resposta, e já é tempo de cair a ficha de que fomos golpeados por uma minoria corrupta, parasita, baba-ovo do imperialismo ianque.
Tudo
bem? Fora Temer, tudo bem. Estamos aqui firmes na luta. E vamos
juntar gente, vontades, forças, para empatar e virar o jogo.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
O PCdoB, a juventude e a Classe Trabalhadora - I - Paulo Vinícius Silva - Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB
Tribuna de Debates do 14º Congresso do PCdoB
Juventude e Classe Trabalhadora, o PCdoB e o Projeto Nacional de Desenvolvimento - I
Juventude e Classe Trabalhadora, o PCdoB e o Projeto Nacional de Desenvolvimento - I
(Título original).
Na medida em que vençamos o golpe, o PCdoB chegará ao seu centenário vitorioso. Ainda assim, no momento atual, é notável o rol de vitórias que acumulamos, haja vista termos enfrentado incomparáveis pressões para nos afirmar na vida brasileira. A formação do núcleo marxista-leninista na Conferência da Mantiqueira, em 1943, marca um ponto de partida, uma visão nacional própria, que se prova na crise do movimento comunista do 20º Congresso do PC soviético, em 1956. Da Carta dos Cem, outra vez pequenino, sem a URSS; depois, sangrado no Araguaia, nos Estados, na Lapa, mantendo a bandeira do socialismo mesmo com a queda do Leste, quem diria, foi exatamente essa raiz que sobreviveu. São, afinal, os, as comunistas do Brasil.
Representamos os comunistas na urna eletrônica em todo o território nacional. Fizemos muito pelo Brasil, através dos governos de Lula e Dilma. Com Flávio Dino e o povo do Maranhão travamos uma Histórica batalha do desenvolvimento e da democracia. Somos o Partido das líderes mulheres. No que pese o inclemente tiroteio, somos reconhecidos pelo trato republicano e ético e podemos olhar o povo olhos nos olhos. O PCdoB foi o primeiro a denunciar o golpe contra a Presidenta Dilma e a hastear a bandeira das Diretas Já, mas defende seja levantada por uma Frente Ampla. Estamos firmes na luta, em defesa do Brasil, da Democracia e dos direitos do povo.
Dois êxitos importantes, após o fim da Ditadura de 1964, foram a criação da União da Juventude Socialista e da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, feitos dos comunistas, mas também resultado do apoio de aliados e de lideranças independentes. Têm especial importância nesse desafio de ligar o Partido às massas. São organizações amplas, de luta, da juventude e da classe trabalhadora, e classistas. A direção nelas se exercita pela política justa, combativa e capaz de unir amplas massas do povo, não se faz por decreto, e obedece sua institucionalidade autônoma própria, estutária. A CTB tem sentido especial para o Partido da classe trabalhadora, é nosso maior legado orgânico após 2003, e alcançou grande dimensão.
São esses movimentos escadas para a consciênca popular ascender da luta corporativa mais simples, pelo salário e pela saúde no trabalho, pela solidariedade, pela liberdade e contra qualquer discriminação. São como colunas do lastro de classe de nosso Partido: a juventude filha da classe e a própria classe trabalhadora. Contém em seu seio as mulheres, o movimento negro e comunitário, a luta pelo respeito à diversidade. São os espaços de formação das lideranças intermediárias e de base a fisionomia e o modo de fazer política do PCdoB.
Mas é nesses espaços que enfrentamos desafios à expansão partidária e à nossa afirmação eleitoral que constituem a própria defesa da nossa legalidade. E é a partir desses espaços que devemos dar resposta ao dilema e ao escândalo que nos causa o avanço das posições de extrema direita entre jovens e trabalhadores e a nossa forma de organizar-nos é parte da resposta. Aqui também se explicitam dois graves gargalos que tem impedido o avanço da ligação do Partido com o povo, que ocorrem num momento da vida dos e das militantes quadros intermediários: na juventude, quando da passagem da condição estudantil para o mundo do trabalho; entre trabalhadores(as), quando precisamos projetar as lideranças consolidadas para a sociedade como um todo, e em especial a política eleitoral.
Nos dois casos, formamos as lideranças até um certo momento, e depois há um desvio movimentista que prejudica a militância, a liderança e mesmo os projetos de vida. Muitos se perdem, infelizmente. E uma grande parcela, precarizada, terceirizada, informal e desempregada fica sem política, e são parte cada vez maior da classe trabalhadora. Solucionar esse gargalo significa ter mais tempo na formação desse contingente e a ampliaçao de nosa ligação com o povo.
Nosso projeto juvenil exclusiviza a luta estudantil. À militância juvenil falta o coroamento da juventude socialista: o ingresso no mundo do trabalho e na vida adulta. É a hora da opção de ser comunista, que poderá ser perene, ou perder-se. Uma efetiva ligação com o povo se faz com o tempo, com a vida, a partir de uma disciplina pessoal e coletiva que estimule uma vida mais completa e sustentável como coluna para uma consciência e ações livres. É a liberdade que a profissão, o trabalho e a saúde conferem.
O ideal do e da militante comunista na juventude deve ser uma vida completa, autônoma, que lhe permita exercer sua opção ideológica por toda a vida. Há que responder à incômoda pergunta de Renato Russo: “O que você vai ser quando você crescer?” para ter independência necessária e manter a ideologia adquirida ainda na escola, na universidade. Esse enfoque é necessário e contribui para o sentido de viver e lutar, elemento subjetivo destacado para o resgate da juventude exposta a fenômenos como a dependência química, a violência e a pobreza.
Só uma parte da militância terá atividade política integral, e deve ser uma minoria. Muito mais gente deve ser do Partido no meio do próprio projeto de desenvolvimento, na sociedade, pelo trabalho, com diferentes contribuições à causa a partir do lugar de cada um(a) no mundo. E a arte é fazê-lo de modo a ampliar nossa vinculação com amplas massas do povo. Ou seja, vida militante real na vida real, tarefas correspondentes às categorias de pertencimento (filiados(as), militantes e quadros) e uma vinculação profunda com o povo brasileiro.
Assim, a juventude que trabalha, que estuda, que nem trabalha nem estuda, do campo, da cidade, da periferia, a juventude negra, vítima diária do estado policial desde a escravidão, a maioria proporcional de desempregados, as jovens mulheres que lutam contra o machismo, essa geração vem encontrar no nosso Partido uma escola de formação política e de vida. Face a essa diversidade, o trabalho da UJS não pode terminar na luta estudantil, deve desenhar um capítulo novo à juventude, e formar seus melhores filhos e filhas para a Classe Trabalhadora, estimulando que floresçam por toda a vida as convicções semeadas nas lutas desde o grêmio estudantil. Por isso, também, há que romper com uma visão estanque que não estabelece a continuidade de laços entre a juventude e a classe trabalhadora e entre a educaçao e o trabalho.
Indicações preciosas ao nosso trabalho juvenil foram dadas por Che Guevara - que há 50 anos deixou a vida, mas jamais deixou nossa luta. Ele dizia que
“coloca-se para todo(a) jovem comunista ser essencialmente humano, ser tão humano que se queira chegar ao melhor do ser humano, purificar o melhor do ser humano através do trabalho, do estudo, do exercício da solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo”. E “lutar para melhorar, por ser primeiro lugar. Claro que todos não podem estar em primeiro, mas sim estar entre os primeiros(as), no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho em que se mirem os companheiros(as) que não pertençam às juventudes comunistas”.
É a esse desafio mais completo que somos chamados, a uma formação integral, poder lutar pela vida inteira, no trabalho, no desevolvimento brasileiro. Um passo adiante no projeto da UJS após o Relançamento. Precisamos de uma juventude que tenha como consignas estudar, trabalhar e lutar por toda a vida, e ser felizes com a nossa luta. Isso não guarda contradição, mas impulsiona a conquista de mais espaço não só nas entidades, mas na sociedade e na vida política do país. É uma das tarefas da Revolução Brasileira.
Seguiremos com a reflexão em artigo voltado ao debate sobre a Classe Trabalhadora.
Paulo Vinícius Santos da Silva – Milita em Brasília. Sociólogo e Bancário, é egresso da UJS e membro da Executiva Nacional da CTB e do Sindicato dos Bancários de Brasília.
PAULO VINÍCIUS SANTOS DA SILVA
Na medida em que vençamos o golpe, o PCdoB chegará ao seu centenário vitorioso. Ainda assim, no momento atual, é notável o rol de vitórias que acumulamos, haja vista termos enfrentado incomparáveis pressões para nos afirmar na vida brasileira. A formação do núcleo marxista-leninista na Conferência da Mantiqueira, em 1943, marca um ponto de partida, uma visão nacional própria, que se prova na crise do movimento comunista do 20º Congresso do PC soviético, em 1956. Da Carta dos Cem, outra vez pequenino, sem a URSS; depois, sangrado no Araguaia, nos Estados, na Lapa, mantendo a bandeira do socialismo mesmo com a queda do Leste, quem diria, foi exatamente essa raiz que sobreviveu. São, afinal, os, as comunistas do Brasil.
Representamos os comunistas na urna eletrônica em todo o território nacional. Fizemos muito pelo Brasil, através dos governos de Lula e Dilma. Com Flávio Dino e o povo do Maranhão travamos uma Histórica batalha do desenvolvimento e da democracia. Somos o Partido das líderes mulheres. No que pese o inclemente tiroteio, somos reconhecidos pelo trato republicano e ético e podemos olhar o povo olhos nos olhos. O PCdoB foi o primeiro a denunciar o golpe contra a Presidenta Dilma e a hastear a bandeira das Diretas Já, mas defende seja levantada por uma Frente Ampla. Estamos firmes na luta, em defesa do Brasil, da Democracia e dos direitos do povo.
Dois êxitos importantes, após o fim da Ditadura de 1964, foram a criação da União da Juventude Socialista e da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, feitos dos comunistas, mas também resultado do apoio de aliados e de lideranças independentes. Têm especial importância nesse desafio de ligar o Partido às massas. São organizações amplas, de luta, da juventude e da classe trabalhadora, e classistas. A direção nelas se exercita pela política justa, combativa e capaz de unir amplas massas do povo, não se faz por decreto, e obedece sua institucionalidade autônoma própria, estutária. A CTB tem sentido especial para o Partido da classe trabalhadora, é nosso maior legado orgânico após 2003, e alcançou grande dimensão.
São esses movimentos escadas para a consciênca popular ascender da luta corporativa mais simples, pelo salário e pela saúde no trabalho, pela solidariedade, pela liberdade e contra qualquer discriminação. São como colunas do lastro de classe de nosso Partido: a juventude filha da classe e a própria classe trabalhadora. Contém em seu seio as mulheres, o movimento negro e comunitário, a luta pelo respeito à diversidade. São os espaços de formação das lideranças intermediárias e de base a fisionomia e o modo de fazer política do PCdoB.
Mas é nesses espaços que enfrentamos desafios à expansão partidária e à nossa afirmação eleitoral que constituem a própria defesa da nossa legalidade. E é a partir desses espaços que devemos dar resposta ao dilema e ao escândalo que nos causa o avanço das posições de extrema direita entre jovens e trabalhadores e a nossa forma de organizar-nos é parte da resposta. Aqui também se explicitam dois graves gargalos que tem impedido o avanço da ligação do Partido com o povo, que ocorrem num momento da vida dos e das militantes quadros intermediários: na juventude, quando da passagem da condição estudantil para o mundo do trabalho; entre trabalhadores(as), quando precisamos projetar as lideranças consolidadas para a sociedade como um todo, e em especial a política eleitoral.
Nos dois casos, formamos as lideranças até um certo momento, e depois há um desvio movimentista que prejudica a militância, a liderança e mesmo os projetos de vida. Muitos se perdem, infelizmente. E uma grande parcela, precarizada, terceirizada, informal e desempregada fica sem política, e são parte cada vez maior da classe trabalhadora. Solucionar esse gargalo significa ter mais tempo na formação desse contingente e a ampliaçao de nosa ligação com o povo.
Nosso projeto juvenil exclusiviza a luta estudantil. À militância juvenil falta o coroamento da juventude socialista: o ingresso no mundo do trabalho e na vida adulta. É a hora da opção de ser comunista, que poderá ser perene, ou perder-se. Uma efetiva ligação com o povo se faz com o tempo, com a vida, a partir de uma disciplina pessoal e coletiva que estimule uma vida mais completa e sustentável como coluna para uma consciência e ações livres. É a liberdade que a profissão, o trabalho e a saúde conferem.
O ideal do e da militante comunista na juventude deve ser uma vida completa, autônoma, que lhe permita exercer sua opção ideológica por toda a vida. Há que responder à incômoda pergunta de Renato Russo: “O que você vai ser quando você crescer?” para ter independência necessária e manter a ideologia adquirida ainda na escola, na universidade. Esse enfoque é necessário e contribui para o sentido de viver e lutar, elemento subjetivo destacado para o resgate da juventude exposta a fenômenos como a dependência química, a violência e a pobreza.
Só uma parte da militância terá atividade política integral, e deve ser uma minoria. Muito mais gente deve ser do Partido no meio do próprio projeto de desenvolvimento, na sociedade, pelo trabalho, com diferentes contribuições à causa a partir do lugar de cada um(a) no mundo. E a arte é fazê-lo de modo a ampliar nossa vinculação com amplas massas do povo. Ou seja, vida militante real na vida real, tarefas correspondentes às categorias de pertencimento (filiados(as), militantes e quadros) e uma vinculação profunda com o povo brasileiro.
Assim, a juventude que trabalha, que estuda, que nem trabalha nem estuda, do campo, da cidade, da periferia, a juventude negra, vítima diária do estado policial desde a escravidão, a maioria proporcional de desempregados, as jovens mulheres que lutam contra o machismo, essa geração vem encontrar no nosso Partido uma escola de formação política e de vida. Face a essa diversidade, o trabalho da UJS não pode terminar na luta estudantil, deve desenhar um capítulo novo à juventude, e formar seus melhores filhos e filhas para a Classe Trabalhadora, estimulando que floresçam por toda a vida as convicções semeadas nas lutas desde o grêmio estudantil. Por isso, também, há que romper com uma visão estanque que não estabelece a continuidade de laços entre a juventude e a classe trabalhadora e entre a educaçao e o trabalho.Indicações preciosas ao nosso trabalho juvenil foram dadas por Che Guevara - que há 50 anos deixou a vida, mas jamais deixou nossa luta. Ele dizia que
“coloca-se para todo(a) jovem comunista ser essencialmente humano, ser tão humano que se queira chegar ao melhor do ser humano, purificar o melhor do ser humano através do trabalho, do estudo, do exercício da solidariedade continuada com o povo e com todos os povos do mundo”. E “lutar para melhorar, por ser primeiro lugar. Claro que todos não podem estar em primeiro, mas sim estar entre os primeiros(as), no grupo de vanguarda. Ser um exemplo vivo, ser o espelho em que se mirem os companheiros(as) que não pertençam às juventudes comunistas”.
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| 14º Congresso da UJS, junho de 2008, em São Paulo |
É a esse desafio mais completo que somos chamados, a uma formação integral, poder lutar pela vida inteira, no trabalho, no desevolvimento brasileiro. Um passo adiante no projeto da UJS após o Relançamento. Precisamos de uma juventude que tenha como consignas estudar, trabalhar e lutar por toda a vida, e ser felizes com a nossa luta. Isso não guarda contradição, mas impulsiona a conquista de mais espaço não só nas entidades, mas na sociedade e na vida política do país. É uma das tarefas da Revolução Brasileira.
Seguiremos com a reflexão em artigo voltado ao debate sobre a Classe Trabalhadora.
Paulo Vinícius Santos da Silva – Milita em Brasília. Sociólogo e Bancário, é egresso da UJS e membro da Executiva Nacional da CTB e do Sindicato dos Bancários de Brasília.
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
Morte em viatura policial é inacreditável, repudia Vanessa Grazziotin - Portal Vermelho
Morte em viatura policial é inacreditável, repudia Vanessa Grazziotin - Portal Vermelho:
12 de outubro de 2017 - 9h13
“Aí o agressor, o ex-companheiro, pediu aos policiais que dessem uma paradinha na casa dele, porque precisava pegar um documento. E, quando parou na casa, sabem o que pegou? Uma faca. E, com a faca, matou a mulher dentro da viatura da Polícia Militar. É algo inacreditável”, disse.
Segundo Vanessa, é comum que autoridades façam “pouco caso” da violência contra a mulher. “Dizem que mulher fica no mimimi. Não há nada de mimimi. O que há aqui é uma realidade nua e crua da situação em que vivem as mulheres hoje no país”, disse.
A procuradora Especial da Mulher do Senado disse que as mulheres têm um maior nível de escolaridade e ganham menos; são penalizadas pela concepção, por darem à luz e terem que ter licença-maternidade para garantir os primeiros cuidados dos filhos, sendo que 90% delas, dois anos depois, são demitidas do emprego, como uma prevenção do patrão para que não engravidem novamente e não peçam outra licença-maternidade.
A Procuradoria Especial da Mulher do Senado emitiu uma nota de solidariedade sobre o caso do assassinato de Laís Andrade Fonseca e acompanha o caso.
12 de outubro de 2017 - 9h13
Morte em viatura policial é inacreditável, repudia Vanessa Grazziotin
A procuradora da Mulher no Senado, Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), repudiou a morte de Laís Andrade Fonseca, assassinada no sábado (7), pelo ex-companheiro dentro de um carro de polícia, em Minas Gerais.
Jefferson Rudy/Agência Senado
De acordo com notícias divulgadas pela imprensa, Laís, 30 anos, mãe de uma criança de 8 anos, descobriu que o ex-companheiro havia colocado uma câmera filmadora dentro do banheiro da casa dela e foi registrar a denúncia. Mas quando foi dar o depoimento, foi colocada no mesmo carro que o agressor.“Aí o agressor, o ex-companheiro, pediu aos policiais que dessem uma paradinha na casa dele, porque precisava pegar um documento. E, quando parou na casa, sabem o que pegou? Uma faca. E, com a faca, matou a mulher dentro da viatura da Polícia Militar. É algo inacreditável”, disse.
Segundo Vanessa, é comum que autoridades façam “pouco caso” da violência contra a mulher. “Dizem que mulher fica no mimimi. Não há nada de mimimi. O que há aqui é uma realidade nua e crua da situação em que vivem as mulheres hoje no país”, disse.
A procuradora Especial da Mulher do Senado disse que as mulheres têm um maior nível de escolaridade e ganham menos; são penalizadas pela concepção, por darem à luz e terem que ter licença-maternidade para garantir os primeiros cuidados dos filhos, sendo que 90% delas, dois anos depois, são demitidas do emprego, como uma prevenção do patrão para que não engravidem novamente e não peçam outra licença-maternidade.
A Procuradoria Especial da Mulher do Senado emitiu uma nota de solidariedade sobre o caso do assassinato de Laís Andrade Fonseca e acompanha o caso.
Fonte: Procuradoria Especial da Mulher
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
PCdoB pode lançar Manoela candidata a Presidenta - Blog do Renato e Portal Vermelho
A presidenta nacional do PCdoB, deputada federal (PE), Luciana Santos falou sobre a possibilidade de seu partido lançar candidatura própria à Presidência da República nas eleições de 2018. A dirigente participou do ato político na conferência municipal da legenda em Porto Alegre, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, nesta sexta-feira (6), ao lado da deputada estadual do PCdoB, Manuela D’ávila.

Luciana Santos apresentou o debate da candidatura própria, que a sigla está discutindo pela primeira vez depois da redemocratização do Brasil. Entre os nomes debatidos para representar as ideias do PCdoB estão três mulheres: a deputada federal Jandira Feghali (RJ), a senadora Vanessa Grazziotin (AM) e a deputada estadual Manuela d`Ávila (RS).
A presidenta do PCdoB relembrou ainda a ofensiva que a esquerda brasileira sofreu ano passado, “o golpe que tirou a presidenta Dilma do poder foi totalmente sem fundamentos, baseado no combate à corrupção, mas o que vemos hoje em dia é um cenário bem diferente daquele que os golpistas defendiam”. Sobre o assunto, ela ainda finalizou, “sofremos uma derrota estratégica, não podemos aceitar que a corrupção seja o motivo para barrar um projeto de nação”.

As principais pautas em discussão na conferência muncipal foram relacionadas a situação do país e as estratégias que podem ser traçadas para que o atual quadro de crise seja superado, com a defesa e articulação de uma frente ampla.
O encontro contou ainda com a presença do presidente da Fundação Maurício Grabois, Renato Rabelo . Em sua fala, o ex-presidente do Partido alertou para o declínio do capitalismo no mundo, “o mundo de hoje tem tendências fundamentais na transição dos polos de poder, vindo da periferia, como em países como a China e a Rússia”. O presidente da fundação Maurício Grabois também destacou o atual cenário político brasileiro. O governo federal está nem aí para o povo brasileiro, temos é que unir a classe trabalhadora, que é a maior parte da classe média, para que juntos revertemos esse quadro”, disse.
Entre a fala de Renato Rabelo e da presidente Luciana Santos, a deputada Manuela aproveitou para saudar os novos filiados do partido, em especial, Roberto Seitenfus, organizador da Parada de Lutas LGBT de Porto Alegre, do Coletivo Desobedeça e das lutas dos povos de matriz africana, e que agora junta-se às fileiras do PCdoB. Manuela destacou que a filiação de Seitenfus “ é uma amostra de que os ideais traçados pelo partido estão no caminho certo, uma vez que ele se desliga de um partido onde milita há 20 anos para se juntar a nós, pois aqui, acredita que seus ideais poderão ser concretizados”.
Do Portal Vermelho, com informações de Porto Alegre
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