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terça-feira, 28 de abril de 2020
sexta-feira, 3 de abril de 2020
quarta-feira, 17 de abril de 2019
A hora da filosofia (que fazer?) - Elias Jabbour e Alexis Dantas - Brasil Debate
Brasil Debate
Hegel ensinou que quando tudo parece dividido é a hora da filosofia, do grande pensamento, de construir uma outra lógica e subverter os sentidos do discurso oficial. É preciso mostrar ao Brasil um caminho de futuro
16/04/2019
Não é mais segredo para ninguém que teremos mais um ano de crescimento pífio. O desemprego voltou a subir e a capacidade ociosa na indústria já beira os 40%. A taxa de investimentos (um ótimo indicador à verificação do nível de barbárie social) está em 15,5%. Este índice na China, que necessita gerar 13 milhões de empregos urbanos ao ano, está acima dos 40% há anos. No caso brasileiro uma taxa mínima para somente manter o atual nível de (des) emprego seria de 18%.
Liberais protofascistas aterrorizam a sociedade com a necessidade de uma propalada reforma da previdência e a venda de mais patrimônio público. Os bancos estatais já são fustigados publicamente por um ministro da economia que parece viver sob pressão da vida e da morte para entregar a abutres o futuro de 210 milhões de pessoas. Nem economistas ortodoxos alemães, nem tampouco nossos amigos economistas liberais chineses entenderiam essa obsessão por abrir mão de ativos bancários em épocas de certeza zero por parte dos investimentos privados.
A mentira virou verdade. Desde alunos de economia até donas de casa são levados a acreditar que o problema do país é o Estado. Afinal o Estado está longe das pessoas. E quando comparece é para matar, de forma seletiva, negros e pobres. A urbis, no capitalismo periférico sem perspectivas, transforma-se num Moloch que a tudo devora. Inclusive os sonhos que só podem ser renovados no momento em que o empresário olhar para o orçamento público e decidir investir sozinho e solitário, pois o Estado está fazendo sua parte ao se abster de gerar demanda efetiva. Certamente os empresários varejistas afeitos ao fascismo que hoje financiam uma blitz pela reforma da previdência não utilizaram este argumento para tomar emprestado dezenas de bilhões de reais de nosso BNDES.
O que restou de consciência na sociedade se bate em questões caras aos revolucionários russos do início do século 20. Que fazer? Se render diante da realidade, esbravejar e eleger o vizinho como inimigo? Aceitar a pauta e o campo de debate proposto pelo presidente como parece ser o rumo também escolhido pela “resistência”? Ou, o mais difícil, que é fazer política grande e aceitar o desafio de unir o país? E desde já dizemos que unir um país heterogêneo como o Brasil é tarefa de gigantes que não aceitam a pauta de “resistência” como variável estratégica. Aceitar este desafio é colocar o particular no plano da totalidade. É fazer política dentro e fora da bolha, não se utilizando da gritaria e do ódio como argumentos. Este método de ação deixemos para os nossos inimigos.
Lembrando de nosso amigo Cristiano Capovilla, percebemos Hegel que nos ensinou acerca do momento em que tudo parece dividido e cindido ser a hora da filosofia, do grande pensamento. Não aceitar o jogo vigente é construir uma outra lógica para nomearmos novos valores e verdades para os fenômenos. O que significa, em linha de continuidade com o mesmo Hegel, subverter os sentidos do discurso oficial em sua essência. Logo, não aceitando a polarização proposta como algo dado, imutável.
Logo, a tarefa é óbvia. Pela filosofia chegamos à necessidade de um novo léxico de caráter nacional e popular, adequado aos tempos de hoje no Brasil. No concreto isso significa unir os mais amplos setores da sociedade contra o atual estado de coisas. Não existe saída fora da política, ainda mais quando liberais não neoclássicos já começam a serem chamados de comunistas e perseguidos por convicções democráticas. Mas não chegaremos longe com bandeiras do passado. Não fazemos história sob condições escolhidas por nós e devemos saber que a tarefa de unir o país e reconstruí-lo não será tarefa simples a ser executada, por esta ou aquela força política “iluminada”.
Ignacio Rangel, o maior pensador da brasilidade, nos alertara sobre os riscos das nações que se negaram o direito de se desenvolver. Todas elas pereceram. O Brasil corre este risco. Logo, devemos construir e mostrar à sociedade um caminho de futuro. Uma rota por onde seguir. E como seguir. É crível a necessidade de não aceitarmos o jogo e os termos do jogo propostos pelo inimigo sob forma de uma polarização que só interessa, em Clausevitz, a quem tem a iniciativa de combate. Não é o nosso caso: estamos em franco processo de isolamento desde 2016. A única saída é a amplitude. Observamos o grande jogo que está sendo jogado. Ninguém mira em jogar na descrença do poder legislativo e do STF sem nenhuma boa carta na manga.
Existe método na loucura, sim. O que virá poderá ser um 1964 sem o instituto da correção monetária e, muito menos, um 2° PND. Poderemos acordar num Chile miserável com mais de 200 milhões de habitantes. A nação está em perigo. A bandeira nacional e o lema “Brasil Acima de Tudo” deve ser honraria nossas. Não deles.
Crédito da foto da página inicial: Reprodução/Vídeo Chico Prado/Revista Fórum
Hegel ensinou que quando tudo parece dividido é a hora da filosofia, do grande pensamento, de construir uma outra lógica e subverter os sentidos do discurso oficial. É preciso mostrar ao Brasil um caminho de futuro
16/04/2019
Não é mais segredo para ninguém que teremos mais um ano de crescimento pífio. O desemprego voltou a subir e a capacidade ociosa na indústria já beira os 40%. A taxa de investimentos (um ótimo indicador à verificação do nível de barbárie social) está em 15,5%. Este índice na China, que necessita gerar 13 milhões de empregos urbanos ao ano, está acima dos 40% há anos. No caso brasileiro uma taxa mínima para somente manter o atual nível de (des) emprego seria de 18%.
Liberais protofascistas aterrorizam a sociedade com a necessidade de uma propalada reforma da previdência e a venda de mais patrimônio público. Os bancos estatais já são fustigados publicamente por um ministro da economia que parece viver sob pressão da vida e da morte para entregar a abutres o futuro de 210 milhões de pessoas. Nem economistas ortodoxos alemães, nem tampouco nossos amigos economistas liberais chineses entenderiam essa obsessão por abrir mão de ativos bancários em épocas de certeza zero por parte dos investimentos privados.
A mentira virou verdade. Desde alunos de economia até donas de casa são levados a acreditar que o problema do país é o Estado. Afinal o Estado está longe das pessoas. E quando comparece é para matar, de forma seletiva, negros e pobres. A urbis, no capitalismo periférico sem perspectivas, transforma-se num Moloch que a tudo devora. Inclusive os sonhos que só podem ser renovados no momento em que o empresário olhar para o orçamento público e decidir investir sozinho e solitário, pois o Estado está fazendo sua parte ao se abster de gerar demanda efetiva. Certamente os empresários varejistas afeitos ao fascismo que hoje financiam uma blitz pela reforma da previdência não utilizaram este argumento para tomar emprestado dezenas de bilhões de reais de nosso BNDES.
O que restou de consciência na sociedade se bate em questões caras aos revolucionários russos do início do século 20. Que fazer? Se render diante da realidade, esbravejar e eleger o vizinho como inimigo? Aceitar a pauta e o campo de debate proposto pelo presidente como parece ser o rumo também escolhido pela “resistência”? Ou, o mais difícil, que é fazer política grande e aceitar o desafio de unir o país? E desde já dizemos que unir um país heterogêneo como o Brasil é tarefa de gigantes que não aceitam a pauta de “resistência” como variável estratégica. Aceitar este desafio é colocar o particular no plano da totalidade. É fazer política dentro e fora da bolha, não se utilizando da gritaria e do ódio como argumentos. Este método de ação deixemos para os nossos inimigos.
Lembrando de nosso amigo Cristiano Capovilla, percebemos Hegel que nos ensinou acerca do momento em que tudo parece dividido e cindido ser a hora da filosofia, do grande pensamento. Não aceitar o jogo vigente é construir uma outra lógica para nomearmos novos valores e verdades para os fenômenos. O que significa, em linha de continuidade com o mesmo Hegel, subverter os sentidos do discurso oficial em sua essência. Logo, não aceitando a polarização proposta como algo dado, imutável.
Logo, a tarefa é óbvia. Pela filosofia chegamos à necessidade de um novo léxico de caráter nacional e popular, adequado aos tempos de hoje no Brasil. No concreto isso significa unir os mais amplos setores da sociedade contra o atual estado de coisas. Não existe saída fora da política, ainda mais quando liberais não neoclássicos já começam a serem chamados de comunistas e perseguidos por convicções democráticas. Mas não chegaremos longe com bandeiras do passado. Não fazemos história sob condições escolhidas por nós e devemos saber que a tarefa de unir o país e reconstruí-lo não será tarefa simples a ser executada, por esta ou aquela força política “iluminada”.
Ignacio Rangel, o maior pensador da brasilidade, nos alertara sobre os riscos das nações que se negaram o direito de se desenvolver. Todas elas pereceram. O Brasil corre este risco. Logo, devemos construir e mostrar à sociedade um caminho de futuro. Uma rota por onde seguir. E como seguir. É crível a necessidade de não aceitarmos o jogo e os termos do jogo propostos pelo inimigo sob forma de uma polarização que só interessa, em Clausevitz, a quem tem a iniciativa de combate. Não é o nosso caso: estamos em franco processo de isolamento desde 2016. A única saída é a amplitude. Observamos o grande jogo que está sendo jogado. Ninguém mira em jogar na descrença do poder legislativo e do STF sem nenhuma boa carta na manga.
Existe método na loucura, sim. O que virá poderá ser um 1964 sem o instituto da correção monetária e, muito menos, um 2° PND. Poderemos acordar num Chile miserável com mais de 200 milhões de habitantes. A nação está em perigo. A bandeira nacional e o lema “Brasil Acima de Tudo” deve ser honraria nossas. Não deles.
Crédito da foto da página inicial: Reprodução/Vídeo Chico Prado/Revista Fórum
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
De Cromwell, Gorbachev e abertura da conta de capitais... Por Elias Khalil Jabbour
“Mentiras convencionais” travestidas de “bom senso econômico” é mais comum do que imaginamos. Vira e mexe aparece um “especialista” para vaticinar as ditas (não) verdades convencionais sobre a China: “cresce porque acumulou poupança interna” (sic), “a inflação é uma ameaça” (sic), “sobreinvestimento na indústria pesada” (sic), “o sistema financeiro está por um fio” (sic), “trabalho escravo, cuidado” (sic). Existem verdades a serem lamentadas: “os oligopólios são estatais”, “O Estado é pesado”, “o câmbio é manipulado”, “o crédito é estatizado e politizado”, “o mercado é um passarinho na gaiola”.
A China não cresce porque poupou antes de investir. Na China o que meus amigos keynesianos chamam de “princípio da demanda efetiva” não é observada de forma “estática” e sim “dinâmica”. Ou seja, o “princípio da demanda efetiva” foi alçado à política oficial de Estado, logo instrumento de planejamento, assim como o próprio comércio exterior. Para isso existe o sistema financeiro e o crédito. “Poupança financeira” é com Wall Street e não com Wanfuging Street.
Inflação em países com as características da China se soluciona com manejo de alguns mecanismos macroeconômicos e aumento da produção agrícola e industrial. A produção de cereais da China cresceu pelo oitavo ano consecutivo e bateu um novo recorde este ano, chegando a 571,21 milhões de toneladas, uma alta anual de 4,5%. A produção industrial cresceu 13,5%. Assim, o “problema da inflação” foi domado e decresceu no último semestre de 2011. O crescimento de 9,2% em 2011 pegou de surpresa a todos. Menos os chineses, evidentemente.
Mas este “problemático” país, na falta de viabilização de uma solução líbia, precisa gestar urgentemente um Cromwell, pronto para matar o rei (no caso, o Partido Comunista da China). Cromwell está muito longe. Pode ser um “Gorbachev chinês”. É assim que a cada dez anos que os “especialistas em China” estabelecem parâmetros para a análise da sucessão presidencial no país. Jiang Zemin foi o primeiro Gorbachev chinês. A China entrou na OMC e está subvertendo a ordem estabelecida em Bretton Woods. Hu Jintao foi alçado ao mesmo status do apóstata soviético. Outro problema, pois em sua gestão encerrou um amplo processo de fusões e aquisições culminando na formação de 149 conglomerados estatais, o país tornou-se a segunda economia do mundo, Karl Marx tornou-se o autor estrangeiro mais comentado nas universidades e as Obras Completas de Marx e Engels estão prontas a serem editadas – pela primeira vez na história – em inéditos 100 volumes.
Agora o candidato a Gorbachev, o atual vice-presidente Xi Jinpeng, é o “novo príncipe”, ou seja, um filho de burocratas que ascendeu ao poder por seu “guangxi” (contatos). A ignorância como argumento impede os “especialistas” perceberem que numa sociedade confuciana onde uma revolução nacional-popular (1949) mobilizou toda a sociedade, o que mais existe são “filhos de príncipe”.
Sua visita recente aos Estados Unidos foi mais um “sinal”, segundo a imprensa norte-americana, de que agora vai. Gorbachev está vivo na China! Nada. Antes de desembarcar em Washington, Xi Jinpeng deu uma passada em Cuba onde assinou 36 contratos de investimentos e deixou por lá US$ 2 bilhões para os “irmãos socialistas cubanos” (nas palavras do próprio candidato à Gorbachev chinês) pagarem quando puder. “Fundo perdido” como tem sido nos últimos dez anos da relação entre os dois países. Nem Brejnev fez melhor.
Sinal de frenesi. A “revolução capitalista” está a ser completada na China. Abertura da conta de capitais no horizonte. É verdade, está bem no horizonte. No mínimo cinco anos. A doença da “análise estática” parece não ter cura. Se for pela “dinâmica” dará para se perceber que abertura da conta de capitais deve ser precedida pelo fortalecimento de empresas internamente. Firmas capazes de agüentar o tranco da concorrência externa. Os chineses tiveram 30 anos para construir as condições para uma abertura lenta, gradual e segura de suas contas de capitais. E com sistema financeiro agindo de acordo com os interesses nacionais e os instrumentos cruciais do processo de acumulação sob controle de mãos bem visíveis.
A taxa de juros é baixa e o que mais se transaciona nos mercados de capitais chineses são ações de “empresas públicas concedidas para empresas públicas” voltadas a financiar imensas obras de infraestrutura. O dinheiro de fora deve servir, no limite, para financiar imensas empresas públicas. Operações de hedge fund serão bem improváveis.
Mas o “nó estratégico” é outro. O yuan deverá se tornar conversível, logo moeda de troca no comércio internacional. Petróleo e outras commodities em breve serão transacionados em yuan. Pela “dinâmica”, no fundo quem tinha razão era Keynes. Os chineses estão ressuscitando a agenda apresentada (e infelizmente derrotada) por John Maynard em Bretton Woods. Como bons comunistas, os chineses leram e levaram á sério o britânico genial. Será o início do fim da hegemonia do dólar? Essa é a questão a ser respondida.
A China não cresce porque poupou antes de investir. Na China o que meus amigos keynesianos chamam de “princípio da demanda efetiva” não é observada de forma “estática” e sim “dinâmica”. Ou seja, o “princípio da demanda efetiva” foi alçado à política oficial de Estado, logo instrumento de planejamento, assim como o próprio comércio exterior. Para isso existe o sistema financeiro e o crédito. “Poupança financeira” é com Wall Street e não com Wanfuging Street.
Inflação em países com as características da China se soluciona com manejo de alguns mecanismos macroeconômicos e aumento da produção agrícola e industrial. A produção de cereais da China cresceu pelo oitavo ano consecutivo e bateu um novo recorde este ano, chegando a 571,21 milhões de toneladas, uma alta anual de 4,5%. A produção industrial cresceu 13,5%. Assim, o “problema da inflação” foi domado e decresceu no último semestre de 2011. O crescimento de 9,2% em 2011 pegou de surpresa a todos. Menos os chineses, evidentemente.
Mas este “problemático” país, na falta de viabilização de uma solução líbia, precisa gestar urgentemente um Cromwell, pronto para matar o rei (no caso, o Partido Comunista da China). Cromwell está muito longe. Pode ser um “Gorbachev chinês”. É assim que a cada dez anos que os “especialistas em China” estabelecem parâmetros para a análise da sucessão presidencial no país. Jiang Zemin foi o primeiro Gorbachev chinês. A China entrou na OMC e está subvertendo a ordem estabelecida em Bretton Woods. Hu Jintao foi alçado ao mesmo status do apóstata soviético. Outro problema, pois em sua gestão encerrou um amplo processo de fusões e aquisições culminando na formação de 149 conglomerados estatais, o país tornou-se a segunda economia do mundo, Karl Marx tornou-se o autor estrangeiro mais comentado nas universidades e as Obras Completas de Marx e Engels estão prontas a serem editadas – pela primeira vez na história – em inéditos 100 volumes.
Agora o candidato a Gorbachev, o atual vice-presidente Xi Jinpeng, é o “novo príncipe”, ou seja, um filho de burocratas que ascendeu ao poder por seu “guangxi” (contatos). A ignorância como argumento impede os “especialistas” perceberem que numa sociedade confuciana onde uma revolução nacional-popular (1949) mobilizou toda a sociedade, o que mais existe são “filhos de príncipe”.
Sua visita recente aos Estados Unidos foi mais um “sinal”, segundo a imprensa norte-americana, de que agora vai. Gorbachev está vivo na China! Nada. Antes de desembarcar em Washington, Xi Jinpeng deu uma passada em Cuba onde assinou 36 contratos de investimentos e deixou por lá US$ 2 bilhões para os “irmãos socialistas cubanos” (nas palavras do próprio candidato à Gorbachev chinês) pagarem quando puder. “Fundo perdido” como tem sido nos últimos dez anos da relação entre os dois países. Nem Brejnev fez melhor.
Sinal de frenesi. A “revolução capitalista” está a ser completada na China. Abertura da conta de capitais no horizonte. É verdade, está bem no horizonte. No mínimo cinco anos. A doença da “análise estática” parece não ter cura. Se for pela “dinâmica” dará para se perceber que abertura da conta de capitais deve ser precedida pelo fortalecimento de empresas internamente. Firmas capazes de agüentar o tranco da concorrência externa. Os chineses tiveram 30 anos para construir as condições para uma abertura lenta, gradual e segura de suas contas de capitais. E com sistema financeiro agindo de acordo com os interesses nacionais e os instrumentos cruciais do processo de acumulação sob controle de mãos bem visíveis.
A taxa de juros é baixa e o que mais se transaciona nos mercados de capitais chineses são ações de “empresas públicas concedidas para empresas públicas” voltadas a financiar imensas obras de infraestrutura. O dinheiro de fora deve servir, no limite, para financiar imensas empresas públicas. Operações de hedge fund serão bem improváveis.
Mas o “nó estratégico” é outro. O yuan deverá se tornar conversível, logo moeda de troca no comércio internacional. Petróleo e outras commodities em breve serão transacionados em yuan. Pela “dinâmica”, no fundo quem tinha razão era Keynes. Os chineses estão ressuscitando a agenda apresentada (e infelizmente derrotada) por John Maynard em Bretton Woods. Como bons comunistas, os chineses leram e levaram á sério o britânico genial. Será o início do fim da hegemonia do dólar? Essa é a questão a ser respondida.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Viagem à Coréia do Norte: o estado da economia - Elias Jabbour - Portal Vermelho
Viagem à Coréia do Norte: o estado da economia - Portal Vermelho
Setembro de 2009
Elias Jabbour *
A contradição é o motor do processo. Até ai nenhuma novidade. Portanto, após algumas leituras sobre a Idéia Juche não podemos nos surpreender caso a própria realidade concreta se confronte com determinados postulados filosóficos.
Setembro de 2009
Elias Jabbour *
A contradição é o motor do processo. Até ai nenhuma novidade. Portanto, após algumas leituras sobre a Idéia Juche não podemos nos surpreender caso a própria realidade concreta se confronte com determinados postulados filosóficos.
Quero dizer com isso que a própria lógica inerente às leis econômicas impõe certos limites à concretude total da Idéia Juche. A interdependência de fatores econômicos na economia internacional e a crescente necessidade de a Coréia do Norte se inserir na Divisão Internacional do Trabalho pode ser o ponto de desarmonia que poderá alçar ou não este país a melhorias constantes no padrão de vida de sua população.
Mas, para quem anda com “alma armada” quando o assunto é Coréia do Norte, sugiro a leitura e a análise de uma frase de Confúcio: “não importa a velocidade da caminhada, o mais importante é caminhar”. E nossos irmãos da RDPC estão caminhando. Em seu próprio ritmo, mas estão caminhando. Eis o “x” da, ao questão. Ombreando com este imperativo da realidade está a política, e seu sentido strictu sensu.
Pode ser animador saber que a política nada mais é do que a arte da busca constante da convergência. Aconselhado pelo chefe das SS, Himmler, de abrir negociações com o ocidente com o intuito de salvar seu podre Reich, Hitler – antes de se suicidar na iminência de ser capturado vivo pelos exércitos de Zukhov –, deixou claro à sua claque bandida que eles teriam de enfrentar muita política após (a boa notícia de) sua morte.
Ascensão e queda
Outrora, o país tinha participação ativa e independente na divisão social do trabalho do mundo socialista (apesar de não participar do Comecom), com mercado garantido a seus produtos, eles sempre tiveram uma posição econômica muito melhor que a cubana. Se Cuba recebia seus proventos financeiros e militares com açúcar, a Coréia do Norte disputava com o Japão e o Brasil o posto número um em matéria de crescimento econômico entre os anos de 1953 e 1972.
Acredito que a raiz deste desenvolvimento encontra-se tanto na milenar capacidade de empreendimento do camponês asiático, quanto em fatores conjunturais, entre tais o desenrolar e desfecho da Guerra da Coréia que demonstrou aos norte-coreanos (dada a retirada de corpo dos soviéticos [que tiveram de lançar os chineses ao abatedouro] após ver o espetacular desembarque anfíbio, em solo sul-coreano, na retaguarda do exército popular norte-coreano, estrangulando-o pouco-a-pouco com a quebra das linhas de suprimento e comunicação do norte do país; além da inconteste superioridade aérea do imperialismo) que sem uma indústria de base nacional nada poderia ser feito nem em termos de manutenção do regime do norte do país e muito menos em matéria de reunificação.
Vale demonstrar alguns dados que o inimigo (em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”) impingiu aos norte-coreanos, mais de quatro milhões de mortos; 50.941 plantas industriais destruídas, mais 28.632 escolas foram ao chão. Para quem defende a “independência do Tibet” por razões de “opressão cultural” é bom que se saiba que nem o templo budista de Myohyang, ao norte de Pionguiangue, e seus catorze prédios foram perdoados. Se duas torres foram ao chão em Nova Iorque em 11 de setembro de 2001, que as pessoas que amam a humanidade acima de quailquer coisa, devem ter em mente que Pionguiangue foi destruída até o último pilar!
O famigerado secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles, naquela época gabou-se de que nem 100 anos seriam suficientes para a Coréia do Norte se levantar.
O país se levantou: segundo dados colhidos no Museu da Revolução Coreana, entre 1956 e 1960, a indústria de base teve crescimento de 361%. A indústria ligeira, 332%. Em 1958, a parte norte da Península estava capacitada à produção de caminhões e tratores. Sua agricultura, vitaminada por uma competente indústria química, até o final da década de 1980 cumpria papel de relevo no abastecimento alimentar do bloco socialista. A destruição de seu país por conta da guerra serviu para desnudar capacidades ociosas inimagináveis, sendo a principal delas a impressionante capacidade de trabalho e disciplina de seu povo.
As coisas corriam, apesar da concentração militar norte-americana no sul, muito bem até que na segunda metade da década de 1980, quando Gorbatchev decide partir para uma suicida experiência de Glasnost e Perestroika. Ignácio Rangel, expôs em 1992 que, desde então, as críticas contra Brezhnev voltaram-se contra Stálin que por sua vez voltaram à Lênin. A proscrição do marxismo e do socialismo na URSS passou à ordem do dia.
O preço pago pela humanidade e pela Coréia foi muito pesado. Desde então, a Coréia do Norte está tendo de enfrentar muita política numa conjuntura caracterizada por uma nada agradável correlação de forças. Como diria Lênin sobre o imperialismo: é a contra-revolução, como política e método de subversão da subjetividade humana, em toda linha sua linha. Yeltsin em Moscou, Collor e FHC no Brasil, Fujimori no Peru, Menen na Argentina... africanização da América Latina.
Triste década de 1990
O colapso econômico e o problema externo
O fim da URSS e seus satélites europeus, levou ao fechamento de simplesmente todos seus mercados externos. Indo ao empírico, entre os anos de 1986 e 1990 a economia coreana cresceu em média estimada de 3,4% ao ano. Aliás, a Coréia do Norte foi o país que mais cresceu no mundo socialista na década de 1980 (média de 4,6%). Em grande parte, este crescimento esteve diretamente relacionado ao esforço nacional de construção da Eclusa do Mar do Oeste, concluída em 1986. Situada na cidade litorânea de Nampo, 80 km. de Pioguiangue, esta obra objetivou a separação da água do mar da água do rio Daetong, resolvendo o problema de abastecimento de água da indústria e das cidades do país.
Já, entre 1991 e 2000, o PIB sofreu um recuo de 38%. Entre 2000 e 2005, o PIB reage satisfatoriamente à crescente integração com a Coréia do Sul, a China e a Rússia e algumas reformas de mercado recuperando 23% do terreno pedido anteriormente. O retorno às tensões com o sul e calamidades naturais diversas levaram a economia norte-coreana a um recuo de 4,2% entre os anos de 2006 e 2007. Em 2008, o país cresceu 1,5%, 2009 1,8% e a previsão para o presente ano é de 2,8% (1). Índice superior ao do Brasil, diga-se de passagem. Tais taxas de crescimento poderiam ser maiores caso a Coréia do Sul retomasse o programa de repasse de fertilizantes acordado a posteriori com o norte do país.
O colapso econômico pode ser auferido sob o aspecto das mudanças o que cerne os setores da economia. Por exemplo, o programa industrializante levado a cabo por Kim Il Sung transforou uma terra arrasada em uma nação industrial e próspera: em 1990, 49% da economia do país girava em torno de indústria de mineração, siderurgia e construção, enquanto que os serviços participava com 23% e a agricultura com 27%. Em 1997, a manufatura passou por intensa queda e chegou a 32%, com lenta recuperação para 36% em 2003. Neste mesmo ano, 2003, os serviços alcançaram a marca de 37% da economia, enquanto a agricultura patinou em 29%. Em 2007, a tendência de melhora da indústria é sintetizado pela marca dos 40%, os serviços 39% e a agricultura declinou para 21% do PIB (2).
É muito claro que a queda da participação do setor secundário da economia não é reflexo da alta do setor terciário. Existe um problema sério de falta de matérias-prima e um capital financeiro nacional que toca adiante a recuperação e o incremento do setor.
Não podemos esquecer de, pelo menos, dois feitos espetaculares: o lançamento de dois satélites de observação ao espaço, um em 1998 e outro no presente ano.
Pois bem, quais consequências analíticas poderemos tirar de tais números
1) o território norte-coreano é um grande limitador ao seu processo de retomada de crescimento, não é a toa que o sul do país era o celeiro do Império Japonês, enquanto o norte abrigava, a trancos e barrancos, uma mínima manufatura;
2) a economia ainda não recuperou os patamares do final da década de 1980, sendo que – por exemplo – as capacidades ociosas em sua indústria de base beira a patamares próximos de 60%;
3) o crescimento econômico verificado tem sido aumentado ou retrasado de acordo com o nível de tensão na península, inclusive o processo de reformas internas segue esse ritmo ditado pela conjuntura;
4) A pendência econômica norte-coreana está diretamente relacionada com a ultra-necessária retirada militar norte-americana do território sul-coreano, o reconhecimento norte-americano e japonês do regime e a, consequente integração econômica total com a Coréia do Sul e
5) O Brasil tem grande papel político e econômico a jogar nesse processo.
O limitador externo fica muito claro, por exemplo, em conversas com estrangeiros hospedados no mesmo hotel em que me encontrei, o Hotel Koryo. Reclamam demais com a lentidão dos processos de fechamento de contratos. Por exemplo, conversando com três italianos vindos aqui para oferecer frutas para importação, segundo eles, já faz duas semanas que as coisas não andam. Argumentei com eles que em primeiro lugar, os norte-coreanos apesar de comunistas, são asiáticos e que, portanto, os norte-coreanos estavam à espera de novas e melhores condições de negócio. Afinal, qualquer primeiro-anista de economia sabe que a crise faz com que os países do centro do sistema, além de acelerarem processos de fusões e aquisições, partem para uma verdadeira corrida em busca de mercados alternativos. E a turma de Kim Jong Il sabe muito bem disso. Esse pessoal, a começar pelo brilhante Kim Jong Il, de maluco e burro não tem nada. Nesta terra não há espaço para criadouro de espécies como Henrique Meireles, Marina Yankee Silva etc.
Não somente isso, países como a França e a Itália, mantém ótimas relações com os EUA e a Coréia do Sul, e que portanto, qualquer elemento desse tipo deveria passar por muitos constrangimentos antes de quererem se instalar na Coréia do Norte. Olha que chance de ouro para o Brasil!
Mais, estrategicamente desde a crise financeira asiática de 1997 (cujo epicentro foi a Coréia do Sul),o imperialismo vem tratando de minar a a capacidade de financiamento da Coréia do Sul, ora pela imposição do FMI de privatização do sistema financeiro sul-coreano, ora por fazer a Coréia do Sul “engolir pela culatra” empréstimos “casca de banana” de curto prazo, além de ameaças de fechamento do mercado norte-americano à indústria automotiva sul-coreana. O alvo nem precisa explicar: a inviabilização de qualquer processo que encete a reunificação da península e a consequente perda de influência dos EUA na Ásia, tanto para a China quanto para uma “nova Alemanha reunificada”, agora em solo asiático.
Reformas, estrangulamento financeiro e política monetária
Na estação fronteiriça da China com a RDPC, uma leva de norte-coreanos adentraram ao vagão. Como disse antes, muito alegres e festeiros. Pensei comigo: vou tentar puxar papo. Após algumas tentativas frustradas por conta da barreira do idioma, consegui achar um que falava um inglês excelente. Profissão: comerciante. Comerciava magnesita coreana por petróleo e grãos da China, além de uma série de insumos industriais. Figura altamente politizada (aliás, a politização é uma marca registrada desse povo), de forma calma me explicava os mecanismos de estrangulamento financeiro impetrado pelos EUA,além dos passos dados pelo governo central no sentido de uma “certa” liberalização econômica.
Não resisti em perguntar ao camarada o quanto ele ganhava. Respondeu-me que seu salário dependia de seu rendimento em matéria de negociações. Quanto mais e melhores, mais retorno tinha para si.
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Esse tipo de relação de produção pautada pela eficiência é uma marca registrada pelas incipientes reformas econômicas iniciadas em 2002 no setor comércio exterior. Essas reformas vieram para a institucionalização de relações que a priori já existiam desde o final da década de 1990, quando um fôlego dado pela tendência de recuperação econômica passou a permitir, por exemplo, a troca de cupons de racionamento por moeda circulante. Era a objetividade das leis econômicas batendo nas portas da RDPC. O aumento da massa salarial – e consequentemente da circulação monetária – necessariamente, redunda na necessidade de um mínimo jogo entre oferta e procura.
Analisando informações produzidas por órgãos estatais norte-americanos e sul-coreanos percebe-se o equívoco ao afirmarem da existência de algumas experiência de “contratos de responsabilidades” - similares aos chineses pós-1978 – foram assimiladas pelos norte-coreanos. A bem da verdade, conversando com economistas da RDPC, a permissão de existência de pequenos lotes privados sempre existiram. Aliás, fora uma exigência de grupos nacionalistas à fusão com o partido comunista em 1948 à formação do Partido do Trabalho da Coréia. O que passou existir, de fato, foi uma autorização e extensão para a compra e venda, em pequenos mercados rurais, de utensílios domésticos e a venda de víveres e cereais em mercados de pequeno e médio porte de cidades como a capital Pionguiangue. Sob particular ponto de vista – com uma ponta de especulação –, essas experiências de tipo mercantis pelo país esbarram em alguns obstáculos, entre eles: 1) a falta de um sistema de financiamento com um mínimo de liquidez; 2) a baixa produtividade da indústria química e da quebra de remessas de fertilizantes pela Coréia do Sul; 3) a ainda necessária ênfase a investimentos em seu complexo industrial-militar; 4) frequentes calamidades naturais e 5) em problemas de ordem puramente ideológicas.
O PIB da RDPC gira em torno de US$ 54 bilhões se levando em conta o padrão de cálculo via PPP (paridade de poder de compra). Sob a forma clássica de cálculo, o PIB cairia para US$ 26 bilhões. O governo norte-coreano se depara com uma situação de administrar déficits . Para uma população total de
Mas, para quem anda com “alma armada” quando o assunto é Coréia do Norte, sugiro a leitura e a análise de uma frase de Confúcio: “não importa a velocidade da caminhada, o mais importante é caminhar”. E nossos irmãos da RDPC estão caminhando. Em seu próprio ritmo, mas estão caminhando. Eis o “x” da, ao questão. Ombreando com este imperativo da realidade está a política, e seu sentido strictu sensu.
Pode ser animador saber que a política nada mais é do que a arte da busca constante da convergência. Aconselhado pelo chefe das SS, Himmler, de abrir negociações com o ocidente com o intuito de salvar seu podre Reich, Hitler – antes de se suicidar na iminência de ser capturado vivo pelos exércitos de Zukhov –, deixou claro à sua claque bandida que eles teriam de enfrentar muita política após (a boa notícia de) sua morte.
Ascensão e queda
Outrora, o país tinha participação ativa e independente na divisão social do trabalho do mundo socialista (apesar de não participar do Comecom), com mercado garantido a seus produtos, eles sempre tiveram uma posição econômica muito melhor que a cubana. Se Cuba recebia seus proventos financeiros e militares com açúcar, a Coréia do Norte disputava com o Japão e o Brasil o posto número um em matéria de crescimento econômico entre os anos de 1953 e 1972.
Acredito que a raiz deste desenvolvimento encontra-se tanto na milenar capacidade de empreendimento do camponês asiático, quanto em fatores conjunturais, entre tais o desenrolar e desfecho da Guerra da Coréia que demonstrou aos norte-coreanos (dada a retirada de corpo dos soviéticos [que tiveram de lançar os chineses ao abatedouro] após ver o espetacular desembarque anfíbio, em solo sul-coreano, na retaguarda do exército popular norte-coreano, estrangulando-o pouco-a-pouco com a quebra das linhas de suprimento e comunicação do norte do país; além da inconteste superioridade aérea do imperialismo) que sem uma indústria de base nacional nada poderia ser feito nem em termos de manutenção do regime do norte do país e muito menos em matéria de reunificação.
Vale demonstrar alguns dados que o inimigo (em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”) impingiu aos norte-coreanos, mais de quatro milhões de mortos; 50.941 plantas industriais destruídas, mais 28.632 escolas foram ao chão. Para quem defende a “independência do Tibet” por razões de “opressão cultural” é bom que se saiba que nem o templo budista de Myohyang, ao norte de Pionguiangue, e seus catorze prédios foram perdoados. Se duas torres foram ao chão em Nova Iorque em 11 de setembro de 2001, que as pessoas que amam a humanidade acima de quailquer coisa, devem ter em mente que Pionguiangue foi destruída até o último pilar!
O famigerado secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles, naquela época gabou-se de que nem 100 anos seriam suficientes para a Coréia do Norte se levantar.
O país se levantou: segundo dados colhidos no Museu da Revolução Coreana, entre 1956 e 1960, a indústria de base teve crescimento de 361%. A indústria ligeira, 332%. Em 1958, a parte norte da Península estava capacitada à produção de caminhões e tratores. Sua agricultura, vitaminada por uma competente indústria química, até o final da década de 1980 cumpria papel de relevo no abastecimento alimentar do bloco socialista. A destruição de seu país por conta da guerra serviu para desnudar capacidades ociosas inimagináveis, sendo a principal delas a impressionante capacidade de trabalho e disciplina de seu povo.
As coisas corriam, apesar da concentração militar norte-americana no sul, muito bem até que na segunda metade da década de 1980, quando Gorbatchev decide partir para uma suicida experiência de Glasnost e Perestroika. Ignácio Rangel, expôs em 1992 que, desde então, as críticas contra Brezhnev voltaram-se contra Stálin que por sua vez voltaram à Lênin. A proscrição do marxismo e do socialismo na URSS passou à ordem do dia.
O preço pago pela humanidade e pela Coréia foi muito pesado. Desde então, a Coréia do Norte está tendo de enfrentar muita política numa conjuntura caracterizada por uma nada agradável correlação de forças. Como diria Lênin sobre o imperialismo: é a contra-revolução, como política e método de subversão da subjetividade humana, em toda linha sua linha. Yeltsin em Moscou, Collor e FHC no Brasil, Fujimori no Peru, Menen na Argentina... africanização da América Latina.
Triste década de 1990
O colapso econômico e o problema externo
O fim da URSS e seus satélites europeus, levou ao fechamento de simplesmente todos seus mercados externos. Indo ao empírico, entre os anos de 1986 e 1990 a economia coreana cresceu em média estimada de 3,4% ao ano. Aliás, a Coréia do Norte foi o país que mais cresceu no mundo socialista na década de 1980 (média de 4,6%). Em grande parte, este crescimento esteve diretamente relacionado ao esforço nacional de construção da Eclusa do Mar do Oeste, concluída em 1986. Situada na cidade litorânea de Nampo, 80 km. de Pioguiangue, esta obra objetivou a separação da água do mar da água do rio Daetong, resolvendo o problema de abastecimento de água da indústria e das cidades do país.
Já, entre 1991 e 2000, o PIB sofreu um recuo de 38%. Entre 2000 e 2005, o PIB reage satisfatoriamente à crescente integração com a Coréia do Sul, a China e a Rússia e algumas reformas de mercado recuperando 23% do terreno pedido anteriormente. O retorno às tensões com o sul e calamidades naturais diversas levaram a economia norte-coreana a um recuo de 4,2% entre os anos de 2006 e 2007. Em 2008, o país cresceu 1,5%, 2009 1,8% e a previsão para o presente ano é de 2,8% (1). Índice superior ao do Brasil, diga-se de passagem. Tais taxas de crescimento poderiam ser maiores caso a Coréia do Sul retomasse o programa de repasse de fertilizantes acordado a posteriori com o norte do país.
O colapso econômico pode ser auferido sob o aspecto das mudanças o que cerne os setores da economia. Por exemplo, o programa industrializante levado a cabo por Kim Il Sung transforou uma terra arrasada em uma nação industrial e próspera: em 1990, 49% da economia do país girava em torno de indústria de mineração, siderurgia e construção, enquanto que os serviços participava com 23% e a agricultura com 27%. Em 1997, a manufatura passou por intensa queda e chegou a 32%, com lenta recuperação para 36% em 2003. Neste mesmo ano, 2003, os serviços alcançaram a marca de 37% da economia, enquanto a agricultura patinou em 29%. Em 2007, a tendência de melhora da indústria é sintetizado pela marca dos 40%, os serviços 39% e a agricultura declinou para 21% do PIB (2).
É muito claro que a queda da participação do setor secundário da economia não é reflexo da alta do setor terciário. Existe um problema sério de falta de matérias-prima e um capital financeiro nacional que toca adiante a recuperação e o incremento do setor.
Não podemos esquecer de, pelo menos, dois feitos espetaculares: o lançamento de dois satélites de observação ao espaço, um em 1998 e outro no presente ano.
Pois bem, quais consequências analíticas poderemos tirar de tais números
1) o território norte-coreano é um grande limitador ao seu processo de retomada de crescimento, não é a toa que o sul do país era o celeiro do Império Japonês, enquanto o norte abrigava, a trancos e barrancos, uma mínima manufatura;
2) a economia ainda não recuperou os patamares do final da década de 1980, sendo que – por exemplo – as capacidades ociosas em sua indústria de base beira a patamares próximos de 60%;
3) o crescimento econômico verificado tem sido aumentado ou retrasado de acordo com o nível de tensão na península, inclusive o processo de reformas internas segue esse ritmo ditado pela conjuntura;
4) A pendência econômica norte-coreana está diretamente relacionada com a ultra-necessária retirada militar norte-americana do território sul-coreano, o reconhecimento norte-americano e japonês do regime e a, consequente integração econômica total com a Coréia do Sul e
5) O Brasil tem grande papel político e econômico a jogar nesse processo.
O limitador externo fica muito claro, por exemplo, em conversas com estrangeiros hospedados no mesmo hotel em que me encontrei, o Hotel Koryo. Reclamam demais com a lentidão dos processos de fechamento de contratos. Por exemplo, conversando com três italianos vindos aqui para oferecer frutas para importação, segundo eles, já faz duas semanas que as coisas não andam. Argumentei com eles que em primeiro lugar, os norte-coreanos apesar de comunistas, são asiáticos e que, portanto, os norte-coreanos estavam à espera de novas e melhores condições de negócio. Afinal, qualquer primeiro-anista de economia sabe que a crise faz com que os países do centro do sistema, além de acelerarem processos de fusões e aquisições, partem para uma verdadeira corrida em busca de mercados alternativos. E a turma de Kim Jong Il sabe muito bem disso. Esse pessoal, a começar pelo brilhante Kim Jong Il, de maluco e burro não tem nada. Nesta terra não há espaço para criadouro de espécies como Henrique Meireles, Marina Yankee Silva etc.
Não somente isso, países como a França e a Itália, mantém ótimas relações com os EUA e a Coréia do Sul, e que portanto, qualquer elemento desse tipo deveria passar por muitos constrangimentos antes de quererem se instalar na Coréia do Norte. Olha que chance de ouro para o Brasil!
Mais, estrategicamente desde a crise financeira asiática de 1997 (cujo epicentro foi a Coréia do Sul),o imperialismo vem tratando de minar a a capacidade de financiamento da Coréia do Sul, ora pela imposição do FMI de privatização do sistema financeiro sul-coreano, ora por fazer a Coréia do Sul “engolir pela culatra” empréstimos “casca de banana” de curto prazo, além de ameaças de fechamento do mercado norte-americano à indústria automotiva sul-coreana. O alvo nem precisa explicar: a inviabilização de qualquer processo que encete a reunificação da península e a consequente perda de influência dos EUA na Ásia, tanto para a China quanto para uma “nova Alemanha reunificada”, agora em solo asiático.
Reformas, estrangulamento financeiro e política monetária
Na estação fronteiriça da China com a RDPC, uma leva de norte-coreanos adentraram ao vagão. Como disse antes, muito alegres e festeiros. Pensei comigo: vou tentar puxar papo. Após algumas tentativas frustradas por conta da barreira do idioma, consegui achar um que falava um inglês excelente. Profissão: comerciante. Comerciava magnesita coreana por petróleo e grãos da China, além de uma série de insumos industriais. Figura altamente politizada (aliás, a politização é uma marca registrada desse povo), de forma calma me explicava os mecanismos de estrangulamento financeiro impetrado pelos EUA,além dos passos dados pelo governo central no sentido de uma “certa” liberalização econômica.
Não resisti em perguntar ao camarada o quanto ele ganhava. Respondeu-me que seu salário dependia de seu rendimento em matéria de negociações. Quanto mais e melhores, mais retorno tinha para si.
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Esse tipo de relação de produção pautada pela eficiência é uma marca registrada pelas incipientes reformas econômicas iniciadas em 2002 no setor comércio exterior. Essas reformas vieram para a institucionalização de relações que a priori já existiam desde o final da década de 1990, quando um fôlego dado pela tendência de recuperação econômica passou a permitir, por exemplo, a troca de cupons de racionamento por moeda circulante. Era a objetividade das leis econômicas batendo nas portas da RDPC. O aumento da massa salarial – e consequentemente da circulação monetária – necessariamente, redunda na necessidade de um mínimo jogo entre oferta e procura.
Analisando informações produzidas por órgãos estatais norte-americanos e sul-coreanos percebe-se o equívoco ao afirmarem da existência de algumas experiência de “contratos de responsabilidades” - similares aos chineses pós-1978 – foram assimiladas pelos norte-coreanos. A bem da verdade, conversando com economistas da RDPC, a permissão de existência de pequenos lotes privados sempre existiram. Aliás, fora uma exigência de grupos nacionalistas à fusão com o partido comunista em 1948 à formação do Partido do Trabalho da Coréia. O que passou existir, de fato, foi uma autorização e extensão para a compra e venda, em pequenos mercados rurais, de utensílios domésticos e a venda de víveres e cereais em mercados de pequeno e médio porte de cidades como a capital Pionguiangue. Sob particular ponto de vista – com uma ponta de especulação –, essas experiências de tipo mercantis pelo país esbarram em alguns obstáculos, entre eles: 1) a falta de um sistema de financiamento com um mínimo de liquidez; 2) a baixa produtividade da indústria química e da quebra de remessas de fertilizantes pela Coréia do Sul; 3) a ainda necessária ênfase a investimentos em seu complexo industrial-militar; 4) frequentes calamidades naturais e 5) em problemas de ordem puramente ideológicas.
O PIB da RDPC gira em torno de US$ 54 bilhões se levando em conta o padrão de cálculo via PPP (paridade de poder de compra). Sob a forma clássica de cálculo, o PIB cairia para US$ 26 bilhões. O governo norte-coreano se depara com uma situação de administrar déficits . Para uma população total de
22, 6 milhões, tendo uma população economicamente ativa de 72% deste total, sua renda per capita é de US$ 2.248, semelhante a de países como Zimbábue, Bangladesh,Usbequistão e Sudão. Este déficit comercial é amainado por operações financeiras externas, entre elas a remessa de dinheiro de coreanos étnicos residentes do Japão e de operações financeiras em paraísos fiscais como Macau. Para a esmagadora maioria dos analistas internacionais, tais operações (em Macau, sob vistas grossas da China, p. ex.) são operações ilegais. Sob meu ponto de vista, o julgamento acerca da ilegalidade ou não de tais, dependem da consciência de classe de cada um. Para mim, são plenamente justificadas.
Para piorar a situação, os canais de remessa de dinheiro externo foram todos congelados pelos Estados Unidos. Para termos uma idéia, inclusive os salários dos diplomatas estrangeiros residentes em Pinguiangue tem sido tratado de forma constrangedora, pois boa parte desta remessa passam por bancos sediados em Nova Iorque.
Com esse quadro, fica mais claro perceber que ao se falar em reformas de ” tipo chinesa” na Coréia do Norte, devemos comparar distintas conjunturas históricas, sendo a principal delas o fato de atualmente a RDPC encontrar-se na “alça de mira” do imperialismo (ao contrário da China em 1978), imperialismo esse, cuja moeda é ainda (e por muito tempo ainda) o principal elemento de intercâmbios comerciais e financeiros do mundo. Esse poder sob o sistema monetário internacional capacita, inclusive, ao asfixionamento financeiro de terceiros países.
Neste caso, todas as operações comerciais externas, principalmente com os europeus, ficam à mercê de do gosto ou não dos Estados Unidos e da Coréia do Sul. Por exemplo, a França, do pró-norte americano Sarkoszi, não vede uma agulha à RDPC sem a anuência dos EUA e da Coréia do Sul. És uma situação muito diferente da chinesa em 1978, que pode contar, pasmem, em 1982 com empréstimos provindos de bancos japoneses. Não esqueçamos que outro complicador (imposto pela conjuntura) encontra-se no fato de, pelo menos 20% do orçamento estatal ter de estar voltado às atividades militares.
O que resta à Coréia do Norte, em matéria de política monetária, sendo que – para Lênin – a política monetária tem como uma de suas atribuições a administração econômica de determinadas conjunturas? O que é um “comunismo de guerra” em matéria de política monetária?
Então, ironicamente, se o imperialismo os estrangulam financeiramente, os estrangeiros em visita pelo país “pagarão o pato”. Inteligentemente, coexistem a moeda oficial (won) restrita aos locais, e o Euro, o Dólar e o Yuan utilizado pelos estrangeiros. A ausência de uma economia de mercado lhes permite que o financiamento do Estado e das importações sejam auxiliadas por uma elevação às alturas dos preços praticados aos estrangeiros. Por exemplo, se uma agulha tem custo de importação de 0,5 euros, essa mesma agulha vai ser vendida no varejo – a estrangeiros – pelo menos 5 euros. Evidente que paga esse preço quem quer, mas se a agulha (pode ser outros exemplos, como creme dental...), for essencial, não existe saída. Assim se estende essa politica para quem quer utilizar internet. Um copo de café (café solúvel importado da Alemanha – o Brasil deve quebrar esse monopólio vergonhoso) custa para um estrangeiro exatamente 1 euro. Comunismo de guerra muito bem gerido.
Investimentos estrangeiros e Zonas Econômicas Especiais
Interessante perceber, que apesar de as reformas econômicas terem ganho pulso a partir de 2002, uma lei permitindo investimentos estrangeiros data de 1984. Entre 1984 e 1994 ocorreram 148 casos de investimentos estrangeiro s com montante total de cerca de US$ 200 milhões, sendo que 131 proveram de norte-coreanos residentes no Japão (3).
Cerca de dez cidades do país tem recebido investimentos estrangeiros. A larga maioria das empresas investidoras são da Coréia do Sul, com cerca de 50. Os chineses e os russos, dividem o restante dos investimentos, quase todos eles voltados para o setor de mineração. Analisando o marco regulatório da RDPC para investimentos estrangeiros, veremos (tive acesso a contratos assinados por chineses com norte-coreanos) que os norte-coreanos não enquadram os chineses no artigo 41 que restringe investimentos capazes de “abrir portas à poluição espiritual”. Os chineses tem especial interesse numa “abertura” norte-coreana, pois o país além de maior produtor de magnesita do mundo, tem reservas razoáveis – e já comercializáveis com os chineses – em carvão e ferro. Outra reserva de mercado está no cabeamento óptico ligando a China a RDPC.
Existem relações com países periféricos, de tipo Egito. Existe, vamos dizer uma casta no país que anda munidos de celulares, geralmente os intelectuais e a alta burocracia do governo. Ao procurar saber a origem dos aparelhos e das linhas, descobri (por um egípcio que se encontrava no Hotel Koryo) que as tecnologias da linhas são fonte de joint-venture entre uma empresa privada egípcia (Orascom Telecom) e o Ministério das Telecomunicações do RDPC. Já, os aparelhos são fabricados pela estatal chinesa Huawei (4). O Egito, amigo da RDPC desde os antiimperialistas tempos de Nasser, também trabalha em conjunto com a Coréia do Norte em um hotel luxuoso, próximo do centro de Pionguiangue. Além destas parcerias, existem investimentos conjuntos RDPC-França- Egito na produção de cimento em território norte-coreano. Segundo este funcionário egípcio, uma larga reserva de mercado tem se aberto na RDPC. E completou: “é só termos só um pouco do 'espírito asiático'. Paciência, quis ele dizer...
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Concentrando o foco na questão da assimilação de experiências de tipo Zonas Econômicas Especiais (ZEE's), seria importante dar ênfase à maior e melhor sucedida experiência vivida até o momento pela RDPC, a experiência do Complexo Industrial de Kaesong (CIK).
Empreendimento financeiro gerido pela Hyundai sul-coreana e um órgão estatal norte-coreano. Aberto em 2006, fica situado na fronteira entre os dois países. Linhas e transmissão de energia fora transferido diretamente de Seul. Seu projeto inclui três estágios no primeiro com o objetivo de alocar 300 empresas, o segundo com 700 e a terceira com 1000 empresas e com 300 mil trabalhadores. Em 2006 o CIK produziu US$ 7,5 milhões; esse montante chegou a US$ 17,1 milhões e em 2008, US$ 250 milhões (5).
O espaço é curto, e no futuro poderei escrever muito mais sobre esse empreendimento, que corre independente dos problemas diplomáticos entre os dois países. Mas, gostaria de me ater em dois aspectos puramente estratégicos que envolvem o projeto.
Primeiro, sobre a Coréia do Sul. O que mais me chamou a atenção estudando esse projeto, foi a – apesar de administrado pela Hyundai – não presença de nenhuma empresa de grande porte no CIK. O que isso significa? Significa que estes investimentos não são parte de nenhum “favor” feito da parte sul à parte norte do país. Muito pelo contrário, fica latente que o fato de os custos de produção na China estarem subindo, mais os pesados efeitos, sobre a economia sul-coreana, da crise financeira, uma das últimas chances de abertura de novos campos de acumulação está na absorção do território econômico da Coréia do Norte. Se as grandes empresas coreanas já encontram – a trancos e barrancos – seu lugar ao sol no mercado internacional, o momento é de fortalecer pequenas e médias empresas encetando no futuro a formação de novos chaebols, capazes de tocarem o capitalismo de Estado coreano adiante.
Já o lado norte-coreano da história. Não sou uma pessoa que gosta de incidir em superficialidades. Posso estar enganado, equivocado, mas cada opinião particular que emito é síntese de alguma reflexão nada tranquila. Neste sentido, reafirmo que Kim Jong Il é simplesmente brilhante. Pois, ele sabe que a unidade política e ideológica da parte norte da península é uma conquista que lhe garante tranquilidade para poder ter uma visão de conjunto do problema. Ou seja, ele sabe que o tempo corre a favor dele, que a Coréia do Sul depende desesperadamente dos potenciais 22 milhões de consumidores do norte para continuar sua marcha acumulativa. Tanto sabe, que em recente visita da presidente da Hyundai em Pionguiangue, a primeira condição posta por ele para iniciar a conversa passava por aumentos substantivos de salários dos trabalhadores empregados no CIK.
Enquanto que no Brasil, a “guerra fiscal” vai destruindo o caráter federativo de nossa república, o país mais sancionado, difamado, bloqueado e estrangulado do mundo, consegue gerir dirigentes capazes de enxergar muito além de seus narizes. Nação milenar.
O mais importante agora é nos concentrarmos nos próximos episódios. Nunca é demais falar que nosso país abriu uma embaixada por aqui. E devemos tirar as melhore consequências desta ação política.
2012 e o plano de “150 dias”
Falei, em certo momento do relato, de um “subjetivismo em matéria de política econômica”. Pois bem, cheguei por aqui em meio a duas campanhas de massa. O primeiro de curto prazo relacionado à transformação na RDPC em uma potência econômica e militar ano do centenário de nascimento do “pai da pátria” Kim Il Sung., no ano de 2012.
Outra campanha é encetada no objetivo (urgente urgentíssima) de elevar a produção entre os meses de abril e setembro deste ano, com término exato previsto para o dia 09 de setembro, dia nacional, 59 anos da proclamação da República Democrática Popular da Coréia.
Dificilmente o país irá se tornar uma potência econômica e militar em 2012. Na verdade, nosso Kim Jong Il sabe que precisa dar respostas (inclusive internas) ao dinamismo econômico sul-coreano. Além de ter clareza da situação econômica nada boa do país. Neste ínterim, contratos foram acelerados com empresas sul-coreanas para instalação de plantas industriais na Complexo Industrial de Kaesong. Bill Clinton fora recebido pessoalmente pelo dirigente máximo da nação e a presidente-executiva da Hyundai veio a Pionguiangue em missão quase-governamental, momento em que teve que ouvir uma sugestão (leia-se exigência) de elevar os salários dos 50.000 trabalhadores coreanos empregados em Kaezong.
Após conversar com Pedro de Oliveira (que recentemente assessorou Renato Rabelo em visita a Pionguiangue) creio que sua opinião é correta de afirmar que, talvez, o país esteja para 2012 um relaxamento, uma maior abertura ao exterior. Por outro lado, creio que – infelizmente – esse tipo de ação não depende somente de Kim Jong Il e sua entourage. Felizmente ou não, um processo é composto por múltiplas determinações.
Já a louvável campanha dos 150 dias, trás todas as marcas de o chamado Grande Salto Adiante encampado na China no final da década de 1950. Por exemplo, acordava pela manhã ao som de um alto falante instalado na estação ferroviária. Tocava-se músicas revolucionárias, entre elas uma que me tocou muito chamada Cadê nosso General? Tudo como incentivo moral ao Combate dos 150 dias. Estrangeiros comentam sobre um suposto desespero de Kim Jong Il ante a situação econômica do país. Não acredito nisso.
O país, para tanto, conta com dois apoios fundamentais a este objetivo: a recente conclusão da Usina Hidrelétrica de Nyongwon, uma das dez maiores do mundo, com geradores e turbinas fabricadas no próprio país. A conclusão desta obra possibilitou à RDPC a interrupção de uma era marcada por apagões e corte de energia o período noturno. Outro tento está na modernização do Complexo Químico de Namhung, abrindo perspectiva imediata de alívio para com a dependência de fertilizantes vindos da Coréia do Sul.
Por outro lado,apesar das imensas capacidades ociosas em sua siderurgia, não posso me esquecer de uma conversa com um empresário alemão no vôo Pionguiangue-Pequim, onde o mesmo tratou de se referir à intenção norte-coreana de importação de máquinas, com uma política de ajuste de preços que leva em alta conta uma conjuntura de retração do comércio internacional. Segundo esse alemão, contra as fabricantes alemãs, o regime do nada “maluco”, e sim brilhante, Kim Jong Il, está tratando de jogar tanto os chineses quanto os russos contra a Alemanha, demonstrando uma visão de conjuntura digna de um grande estadista.
É oportuna uma comparação. Enquanto isso no Brasil, dos intelectuais e economistas bem vestidos, com ternos bem cortados, estamos institucionalizando nossa reserva de mercado (outrora destinada a empresários nacionais) via câmbio serial killer da indústria nacional às empresas estatais chinesas. Mil motivos para os chineses abrirem um largo sorriso quando o assunto são relações comerciais com o Brasil.
Finalizando, acredito que se a conjuntura internacional não permite saltos espetaculares em matéria de PIB. Porém, a utilização de dados estatísticos pode nos servir de base para certas coisas, Entre elas, as informações passadas a mim pelo chefe da cadeia de economia da Associação Coreana de Cientistas Sociais, Kim Dung Sik. Em 1987, o país produziu 6.160.000 kw de energia, 83.000 toneladas de carvão, 6.900.000 toneladas de aço, 13.000.000 de toneladas de cimento e 5.460.000 toneladas de fertilizantes. Segundo o referido economista, em nenhuma das cadeias produtivas anexas a tais setores, a utilização da capacidade produtiva instalada atingiu, no ano de 2008, a 60%.Kim Dong Sik colocou ainda que o objetivo econômico mais imediato é o de alcançar a mesma produtividade de 1987.
Ora, se em economia atraso é fator de dinamismo. Pode estar ai a explicação para as projeções de analistas internacionais (CIA), onde visualizavam tendência de crescimento econômico no país variando de 2% a 3% para o presente ano. Fica a impressão de, caso haja um mínimo relaxamento da agressiva e assassina política imperialista contra a RDPC, o boom econômico é algo que virá em menos tempo do que imaginamos.
Sobre as estimativas de crescimento norte-coreanos, mais um detalhe: trata-se um crescimento pelo menos 150% maior que as mais otimistas projeções sobre o nosso país, o Brasil.
Notas:
(1) NANTO, Dick K., & CHANLETT-AVERY, Emma: “North Korea: Economic Leverage and Policy Analysis”. Congressional Research Service. 04/062009. pag. 19.
(2) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Inter-Korean Relations in 2008”. Seoul/Korea. February, 2009.
(3) Institute for Far Eastern Studies. “State of the Market in DPRK”. North Korea Brief. nº 07-2-2-1. December 11, 2007.
(4) “Arab Firm Earn First Mobile License in DPRK”. Yonhap. January 30, 2008.
(5) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Key Statistics for Gaesong Industrial Gomplex. Seoul/Korea. December, 2009.
Para piorar a situação, os canais de remessa de dinheiro externo foram todos congelados pelos Estados Unidos. Para termos uma idéia, inclusive os salários dos diplomatas estrangeiros residentes em Pinguiangue tem sido tratado de forma constrangedora, pois boa parte desta remessa passam por bancos sediados em Nova Iorque.
Com esse quadro, fica mais claro perceber que ao se falar em reformas de ” tipo chinesa” na Coréia do Norte, devemos comparar distintas conjunturas históricas, sendo a principal delas o fato de atualmente a RDPC encontrar-se na “alça de mira” do imperialismo (ao contrário da China em 1978), imperialismo esse, cuja moeda é ainda (e por muito tempo ainda) o principal elemento de intercâmbios comerciais e financeiros do mundo. Esse poder sob o sistema monetário internacional capacita, inclusive, ao asfixionamento financeiro de terceiros países.
Neste caso, todas as operações comerciais externas, principalmente com os europeus, ficam à mercê de do gosto ou não dos Estados Unidos e da Coréia do Sul. Por exemplo, a França, do pró-norte americano Sarkoszi, não vede uma agulha à RDPC sem a anuência dos EUA e da Coréia do Sul. És uma situação muito diferente da chinesa em 1978, que pode contar, pasmem, em 1982 com empréstimos provindos de bancos japoneses. Não esqueçamos que outro complicador (imposto pela conjuntura) encontra-se no fato de, pelo menos 20% do orçamento estatal ter de estar voltado às atividades militares.
O que resta à Coréia do Norte, em matéria de política monetária, sendo que – para Lênin – a política monetária tem como uma de suas atribuições a administração econômica de determinadas conjunturas? O que é um “comunismo de guerra” em matéria de política monetária?
Então, ironicamente, se o imperialismo os estrangulam financeiramente, os estrangeiros em visita pelo país “pagarão o pato”. Inteligentemente, coexistem a moeda oficial (won) restrita aos locais, e o Euro, o Dólar e o Yuan utilizado pelos estrangeiros. A ausência de uma economia de mercado lhes permite que o financiamento do Estado e das importações sejam auxiliadas por uma elevação às alturas dos preços praticados aos estrangeiros. Por exemplo, se uma agulha tem custo de importação de 0,5 euros, essa mesma agulha vai ser vendida no varejo – a estrangeiros – pelo menos 5 euros. Evidente que paga esse preço quem quer, mas se a agulha (pode ser outros exemplos, como creme dental...), for essencial, não existe saída. Assim se estende essa politica para quem quer utilizar internet. Um copo de café (café solúvel importado da Alemanha – o Brasil deve quebrar esse monopólio vergonhoso) custa para um estrangeiro exatamente 1 euro. Comunismo de guerra muito bem gerido.
Investimentos estrangeiros e Zonas Econômicas Especiais
Interessante perceber, que apesar de as reformas econômicas terem ganho pulso a partir de 2002, uma lei permitindo investimentos estrangeiros data de 1984. Entre 1984 e 1994 ocorreram 148 casos de investimentos estrangeiro s com montante total de cerca de US$ 200 milhões, sendo que 131 proveram de norte-coreanos residentes no Japão (3).
Cerca de dez cidades do país tem recebido investimentos estrangeiros. A larga maioria das empresas investidoras são da Coréia do Sul, com cerca de 50. Os chineses e os russos, dividem o restante dos investimentos, quase todos eles voltados para o setor de mineração. Analisando o marco regulatório da RDPC para investimentos estrangeiros, veremos (tive acesso a contratos assinados por chineses com norte-coreanos) que os norte-coreanos não enquadram os chineses no artigo 41 que restringe investimentos capazes de “abrir portas à poluição espiritual”. Os chineses tem especial interesse numa “abertura” norte-coreana, pois o país além de maior produtor de magnesita do mundo, tem reservas razoáveis – e já comercializáveis com os chineses – em carvão e ferro. Outra reserva de mercado está no cabeamento óptico ligando a China a RDPC.
Existem relações com países periféricos, de tipo Egito. Existe, vamos dizer uma casta no país que anda munidos de celulares, geralmente os intelectuais e a alta burocracia do governo. Ao procurar saber a origem dos aparelhos e das linhas, descobri (por um egípcio que se encontrava no Hotel Koryo) que as tecnologias da linhas são fonte de joint-venture entre uma empresa privada egípcia (Orascom Telecom) e o Ministério das Telecomunicações do RDPC. Já, os aparelhos são fabricados pela estatal chinesa Huawei (4). O Egito, amigo da RDPC desde os antiimperialistas tempos de Nasser, também trabalha em conjunto com a Coréia do Norte em um hotel luxuoso, próximo do centro de Pionguiangue. Além destas parcerias, existem investimentos conjuntos RDPC-França- Egito na produção de cimento em território norte-coreano. Segundo este funcionário egípcio, uma larga reserva de mercado tem se aberto na RDPC. E completou: “é só termos só um pouco do 'espírito asiático'. Paciência, quis ele dizer...
***
Concentrando o foco na questão da assimilação de experiências de tipo Zonas Econômicas Especiais (ZEE's), seria importante dar ênfase à maior e melhor sucedida experiência vivida até o momento pela RDPC, a experiência do Complexo Industrial de Kaesong (CIK).
Empreendimento financeiro gerido pela Hyundai sul-coreana e um órgão estatal norte-coreano. Aberto em 2006, fica situado na fronteira entre os dois países. Linhas e transmissão de energia fora transferido diretamente de Seul. Seu projeto inclui três estágios no primeiro com o objetivo de alocar 300 empresas, o segundo com 700 e a terceira com 1000 empresas e com 300 mil trabalhadores. Em 2006 o CIK produziu US$ 7,5 milhões; esse montante chegou a US$ 17,1 milhões e em 2008, US$ 250 milhões (5).
O espaço é curto, e no futuro poderei escrever muito mais sobre esse empreendimento, que corre independente dos problemas diplomáticos entre os dois países. Mas, gostaria de me ater em dois aspectos puramente estratégicos que envolvem o projeto.
Primeiro, sobre a Coréia do Sul. O que mais me chamou a atenção estudando esse projeto, foi a – apesar de administrado pela Hyundai – não presença de nenhuma empresa de grande porte no CIK. O que isso significa? Significa que estes investimentos não são parte de nenhum “favor” feito da parte sul à parte norte do país. Muito pelo contrário, fica latente que o fato de os custos de produção na China estarem subindo, mais os pesados efeitos, sobre a economia sul-coreana, da crise financeira, uma das últimas chances de abertura de novos campos de acumulação está na absorção do território econômico da Coréia do Norte. Se as grandes empresas coreanas já encontram – a trancos e barrancos – seu lugar ao sol no mercado internacional, o momento é de fortalecer pequenas e médias empresas encetando no futuro a formação de novos chaebols, capazes de tocarem o capitalismo de Estado coreano adiante.
Já o lado norte-coreano da história. Não sou uma pessoa que gosta de incidir em superficialidades. Posso estar enganado, equivocado, mas cada opinião particular que emito é síntese de alguma reflexão nada tranquila. Neste sentido, reafirmo que Kim Jong Il é simplesmente brilhante. Pois, ele sabe que a unidade política e ideológica da parte norte da península é uma conquista que lhe garante tranquilidade para poder ter uma visão de conjunto do problema. Ou seja, ele sabe que o tempo corre a favor dele, que a Coréia do Sul depende desesperadamente dos potenciais 22 milhões de consumidores do norte para continuar sua marcha acumulativa. Tanto sabe, que em recente visita da presidente da Hyundai em Pionguiangue, a primeira condição posta por ele para iniciar a conversa passava por aumentos substantivos de salários dos trabalhadores empregados no CIK.
Enquanto que no Brasil, a “guerra fiscal” vai destruindo o caráter federativo de nossa república, o país mais sancionado, difamado, bloqueado e estrangulado do mundo, consegue gerir dirigentes capazes de enxergar muito além de seus narizes. Nação milenar.
O mais importante agora é nos concentrarmos nos próximos episódios. Nunca é demais falar que nosso país abriu uma embaixada por aqui. E devemos tirar as melhore consequências desta ação política.
2012 e o plano de “150 dias”
Falei, em certo momento do relato, de um “subjetivismo em matéria de política econômica”. Pois bem, cheguei por aqui em meio a duas campanhas de massa. O primeiro de curto prazo relacionado à transformação na RDPC em uma potência econômica e militar ano do centenário de nascimento do “pai da pátria” Kim Il Sung., no ano de 2012.
Outra campanha é encetada no objetivo (urgente urgentíssima) de elevar a produção entre os meses de abril e setembro deste ano, com término exato previsto para o dia 09 de setembro, dia nacional, 59 anos da proclamação da República Democrática Popular da Coréia.
Dificilmente o país irá se tornar uma potência econômica e militar em 2012. Na verdade, nosso Kim Jong Il sabe que precisa dar respostas (inclusive internas) ao dinamismo econômico sul-coreano. Além de ter clareza da situação econômica nada boa do país. Neste ínterim, contratos foram acelerados com empresas sul-coreanas para instalação de plantas industriais na Complexo Industrial de Kaesong. Bill Clinton fora recebido pessoalmente pelo dirigente máximo da nação e a presidente-executiva da Hyundai veio a Pionguiangue em missão quase-governamental, momento em que teve que ouvir uma sugestão (leia-se exigência) de elevar os salários dos 50.000 trabalhadores coreanos empregados em Kaezong.
Após conversar com Pedro de Oliveira (que recentemente assessorou Renato Rabelo em visita a Pionguiangue) creio que sua opinião é correta de afirmar que, talvez, o país esteja para 2012 um relaxamento, uma maior abertura ao exterior. Por outro lado, creio que – infelizmente – esse tipo de ação não depende somente de Kim Jong Il e sua entourage. Felizmente ou não, um processo é composto por múltiplas determinações.
Já a louvável campanha dos 150 dias, trás todas as marcas de o chamado Grande Salto Adiante encampado na China no final da década de 1950. Por exemplo, acordava pela manhã ao som de um alto falante instalado na estação ferroviária. Tocava-se músicas revolucionárias, entre elas uma que me tocou muito chamada Cadê nosso General? Tudo como incentivo moral ao Combate dos 150 dias. Estrangeiros comentam sobre um suposto desespero de Kim Jong Il ante a situação econômica do país. Não acredito nisso.
O país, para tanto, conta com dois apoios fundamentais a este objetivo: a recente conclusão da Usina Hidrelétrica de Nyongwon, uma das dez maiores do mundo, com geradores e turbinas fabricadas no próprio país. A conclusão desta obra possibilitou à RDPC a interrupção de uma era marcada por apagões e corte de energia o período noturno. Outro tento está na modernização do Complexo Químico de Namhung, abrindo perspectiva imediata de alívio para com a dependência de fertilizantes vindos da Coréia do Sul.
Por outro lado,apesar das imensas capacidades ociosas em sua siderurgia, não posso me esquecer de uma conversa com um empresário alemão no vôo Pionguiangue-Pequim, onde o mesmo tratou de se referir à intenção norte-coreana de importação de máquinas, com uma política de ajuste de preços que leva em alta conta uma conjuntura de retração do comércio internacional. Segundo esse alemão, contra as fabricantes alemãs, o regime do nada “maluco”, e sim brilhante, Kim Jong Il, está tratando de jogar tanto os chineses quanto os russos contra a Alemanha, demonstrando uma visão de conjuntura digna de um grande estadista.
É oportuna uma comparação. Enquanto isso no Brasil, dos intelectuais e economistas bem vestidos, com ternos bem cortados, estamos institucionalizando nossa reserva de mercado (outrora destinada a empresários nacionais) via câmbio serial killer da indústria nacional às empresas estatais chinesas. Mil motivos para os chineses abrirem um largo sorriso quando o assunto são relações comerciais com o Brasil.
Finalizando, acredito que se a conjuntura internacional não permite saltos espetaculares em matéria de PIB. Porém, a utilização de dados estatísticos pode nos servir de base para certas coisas, Entre elas, as informações passadas a mim pelo chefe da cadeia de economia da Associação Coreana de Cientistas Sociais, Kim Dung Sik. Em 1987, o país produziu 6.160.000 kw de energia, 83.000 toneladas de carvão, 6.900.000 toneladas de aço, 13.000.000 de toneladas de cimento e 5.460.000 toneladas de fertilizantes. Segundo o referido economista, em nenhuma das cadeias produtivas anexas a tais setores, a utilização da capacidade produtiva instalada atingiu, no ano de 2008, a 60%.Kim Dong Sik colocou ainda que o objetivo econômico mais imediato é o de alcançar a mesma produtividade de 1987.
Ora, se em economia atraso é fator de dinamismo. Pode estar ai a explicação para as projeções de analistas internacionais (CIA), onde visualizavam tendência de crescimento econômico no país variando de 2% a 3% para o presente ano. Fica a impressão de, caso haja um mínimo relaxamento da agressiva e assassina política imperialista contra a RDPC, o boom econômico é algo que virá em menos tempo do que imaginamos.
Sobre as estimativas de crescimento norte-coreanos, mais um detalhe: trata-se um crescimento pelo menos 150% maior que as mais otimistas projeções sobre o nosso país, o Brasil.
Notas:
(1) NANTO, Dick K., & CHANLETT-AVERY, Emma: “North Korea: Economic Leverage and Policy Analysis”. Congressional Research Service. 04/062009. pag. 19.
(2) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Inter-Korean Relations in 2008”. Seoul/Korea. February, 2009.
(3) Institute for Far Eastern Studies. “State of the Market in DPRK”. North Korea Brief. nº 07-2-2-1. December 11, 2007.
(4) “Arab Firm Earn First Mobile License in DPRK”. Yonhap. January 30, 2008.
(5) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Key Statistics for Gaesong Industrial Gomplex. Seoul/Korea. December, 2009.
Viagem à Coréia do Norte: "dinastia revolucionária" - Portal Vermelho
Viagem à Coréia do Norte: "dinastia revolucionária" - Portal Vermelho
Setembro de 2009
Elias Jabbour *
Após lua-de-mel dos intelectuais europeus com as virtudes sintetizadas dos impérios nascidos ao longo dos vales do rio Yangtsé, Ganes e Nilo, “Despotismo oriental”, foi o termo predileto utilizado por Voltaire para (des) caracterizar, por exemplo, o “Império do Meio” chinês. Dessa forma o Iluminismo dava forma a um eurocentrismo que iria influenciar, inclusive, nosso Karl Marx.
Porém, Voltaire não fora o primeiro a utilizar este termo, alguma centenas de anos antes, Aristóteles em pleno centrismo helênico, classificou o Império Egípcio e seus similares orientais como variantes de “Despotismo oriental”. Aristóteles havia se esquecido que a “democracia grega” havia condenado Sócrates à morte, pelo simples fato de ao analisar a decadência do homem grego, o mesmo havia concluído que decadência humana grega era proporcional à decadência de uma democracia que nunca havia existido. O próprio Aristóteles depois de um tempo teve de se cuidar muito para não ser condenado à morte por esta mesma “democracia”.
Complexo de Aristóteles
Analogias históricas podem ser encontradas na atual decadência do homem ocidental. A mesma “democracia” que assassina Martin Luther King, sustenta um governo que manteve Mandela 28 anos preso e faz vista grossa à transformação de residências turcas em fogueiras em Berlim, é a mesma que quer condenar à morte por inanição a Coréia do Norte só pelo fato de o regime de Pionguiangue ter decidido ser um país onde “ninguém mete a colher” e que não se esconde atrás do biombo da correlação de forças. Correlação de forças, que de centro da tática para Lênin, se transforma em refúgio ante a covardia intelectual.
Esta conjuntura de plena decadência humana ocidental, cravou no pensamento acadêmico sua visão de mundo. Aliás, hegemônica visão de mundo, onde a objetividade histórica foi substituída pelo relativismo na base da teoria do conhecimento. O pós-modernismo positivista é expressão, em matéria de produção científica, da contra-revolução iniciada com o fim da URSS. Suas influências abarcam, de forma nada surpreendente, muitos intelectuais de “esquerda”, militantes e ativistas sociais.
Nove em cada dez pessoas de nosso campo ao se referir ao regime norte-coreano se assusta e dispara: “socialismo aquilo, com dinastia?” Surpreendente? Não sei.
Eurocentrismo atual reacionário mais preconceitos intelectuais (fruto de limitações conceituais e teóricas) acabam que redundando numa visão do regime de Pionguiangue que repete tragicamente a visão de Aristóteles com relação à “periferia oriental” grega. É a moral como visão de mundo em detrimento da consciência de classe.
O complexo de Aristóteles está aí em 90% das opiniões sobre o regime de Kim Jong Il.
Sobre o modo de produção asiático
A dinâmica da base econômica reflete-se diretamente na superestrutura. Desse modo Marx, fugindo da esfera da circulação (tão cara aos dependentistas – estruturalistas e muitos marxistas latinoamericanos – ultrabajulados de nosso tempo), se supera ao buscar a compreensão dos fenômenos sob a ótica do processo de produção. Sua capacidade de visão de conjunto e percepção da diferença das dinâmicas produtivas em diferentes partes do globo o levou a superar o generalismo da Economia Política burguesa, para quem as leis econômicas têm caráter universal e não pautadas historicamente. Em Engels (Anti-Düring), a Economia Política difere-se de país para país, de região para região. Daí nós, comunistas brasileiros, acertarmos em afirmar acerca da não-existência de “modelos prontos” de socialismo.
Desta forma, ao analisar as diferentes formas de produção no planeta (trabalho necessário e excedente) pode diferenciar no bojo de cada modo de produção, diferentes modos de produção de caráter complexo, frutos de combinações de antigas com novas formas de produção. Entre eles, o modo de produção asiático.
O modo de produção asiático é algo típico de regiões onde a economia de mercado surgiu de forma precoce, consequências de relações homem x natureza propícia ao rápido desenvolvimento das forças produtivas. Sendo a economia de mercado resultado da produção de excedentes agrícolas, logo – condição objetiva – condicionando o surgimento de uma diferenciação social, a necessidade de um Estado, capaz de mediar a diferenciação social e – concomitante – ser dinâmico à arrecadação de impostos e retorno à sua base camponesa sob forma de grandes obras hidráulicas, torna-se algo de grande necessidade. Esse complexo mecanismo de mediação pode ser analisado no fato de há pelo 1.500 anos, na China, o instituto do concurso público já ser método de seleção de quadros ao serviço estatal, mandarinato.
Abrindo parêntese, a complexidade do modo de produção asiático é perceptível no fato de, diferente da escravidão greco-romana cuja propriedade privada da terra era o centro, a propriedade da terra era estatal e a escravidão se resumia a trabalhos penosos como o das minas. Numa sociedade desse tipo, com possibilidade de ascensão social, o caráter da superestrutura torna-se fluida, dependendo da capacidade do imperador ou rei em atender ou não as demandas camponesas por obras de contenção de desastres naturais. Logo, encontra-se sentido na famosa frase de Confúcio, para quem, “o poder emana dos céus, porém é revogável pelo povo”.
Marx e Engels elaboraram um grande “esquema ideal” do funcionamento das diversas sociedades de forma que tornam-se inteligíveis suas possíveis evoluções. Representações de esquemas podem-se tornar modelos que nos capacitem a ter uma visão apurada de diferentes processos históricos. Porém, além de histórico, o materialismo também é dialético. Logo, os chamados esquemas não devem ser levados ao pé da letra como vem ocorrendo em cada vez maiores exigências de periodizações e trabalhos acadêmicos. A periodização é o oposto da visão de processo histórico.
Em matéria de ciências sociais devemos estar preparados para tudo. Menos para a negação do movimento. Assim, devemos estar preparados, municiados metodológica e teoricamente ao desafio de analisar o estancamento de fluidez no âmbito das superestruturas e sua relação com outras determinações formadoras do concreto. Apesar de a superestrutura parecer estanque, tudo está em movimento. Inclusive a busca por soluções de caráter nacional ante determinadas imposições da conjuntura. Afinal, a própria governança por “laços de sangue” são parte deste tipo de solução de problemas conjunturais.
Mil anos de “Estado de Excessão” e problema do socialismo
O “complexo de Aristóteles” impede que se perceba o fenômeno presente coreano como problema histórico. Esta forma a-histórica de observar o fenômeno fora denunciada por Lukács como algo burguês. Não “burguês” no sentido esquerdista do termo. E sim, burguês, no sentido metodológico, para quem as coisas devem ser observadas como uma “fotografia”. De forma positivista, pós-moderna. Estática, parada, sem história...
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Assim como a China, a Coréia é uma nação com uma história corrida de 5.000 anos. Formada às marges dos rios Yalu e Daetong, a posição geográfica do país foi fator essencial para que os coreanos nunca tivessem uma vida tranquila, até hoje. Fronteira com Império Chinês, proximidade com a Rússia, a Mongólia e o Japão. O caráter guerreiro e até militarista deste povo se explica no fato de nunca Genghis Khan ter passado do monte Paektu, muito pelo contrário. Os coreanos adentraram o território, então mongol, da Manchúria e conquistaram-no. Assim puderam formar um cordão protetor sanitário por muito tempo
Por volta do ano 1.000 d.C. é formado o reino da Coréia e em 1.300, o confucionismo, expressão da crescente influência chinesa, é absorvido neste país. Pressões japonesas desde o primeiro dia de funcionamento do Reino de Koryo, foram uma constante. Este reino até seus estertores teve de “armar até os dentes”. No século XIX sucumbiu diante da dupla pressão norte-americana (pressão pela abertura dos portos do país) e japonesa. Uma combinação geopolítica levou os japoneses a entrarem num acordo com os EUA: “não mexemos em seus interesses nas Filipinas e, em contrapartida, vocês não se metem e nossos negócios na Coréia”. Era o Congresso de Viena bipartite para o saqueio da Coréia e das Filipinas.
Assim como na Europa oriental do final do século XIX e início do de XX, tentativas de restaurações modernizadoras de tipo burguesa foram afogadas e revertidas em refeudalizações sangrentas, como a ocorrida na Hungria. Lênin, afirmou na época que: “o imperialismo japonês com toda sua brutalidade asiática fincava sua faca no coração da nação coreana.”
Assim, se contarmos todo esse tempo passado, mais a contemporânea existência da RDPC, contabilizaremos mais de 1000 anos de Estado de exceção.
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Neste momento é importante cotizarmos esta questão mais ligada a história da Coréia com a própria história do socialismo. Independente do que pensam os assolados pela doença burguesa do “complexo de Aristóteles”, a opção que esse povo fez, e faz, cotidianamente é a da construção do socialismo. E estão pagando um preço muito caro por isso. Sublinhemos: caro demais.
A história das transições anteriores demonstra que a decadência de um modo de produção era acompanhada tanto pela incapacidade de as forças produtivas sociais darem conta das constantes necessidades materiais da população, quanto da ascensão econômica de um determinado setor da sociedade. Uma classe que aspirasse o poder necessitava de deter o poder econômico e como consequência, o poder político tornava-se a cristalização deste processo.
Pois bem, neste caso dois problemas à transição capitalismo x socialismo são postas: 1) o proletariado não aspira o poder político como demanda de acúmulo de forças no cerne de concentração de riqueza material. Ao contrário, para se tornar classe dominante economicamente, faz-se necessária a tomada do poder político, seguida pela instalação de uma ditadura (ao contrário das ditaduras burguesas, trata-se de uma ditadura da maioria sob a minoria: a ditadura do proletariado) que lhe permita concentrar, pouco a pouco, os meios de produção a seu controle e 2) Também diferentemente de outros processos de transição, a estratégia socialista é a primeira que enceta a abolição da exploração do homem pelo próprio homem.
Numa tendência histórica dada, fica a necessidade de refletirmos sobre como este tipo de abstração se aplica à RDPC com suas características moldadas pela história. Assim, creio eu com meus botões e limitações, que sobra muito pouco espaço para melodramas de tipo, “construção de canais sucessórios democráticos”, aplicação do modelo geracional chinês. A realidade é esta: país pobre, com recursos naturais escassos, uma geografia complicada... Nenhum país do mundo passou por uma campanha de difamação internacional tão grande quanto a Coréia do Norte. A União Soviética passou por algo semelhante? Sim, mas venceu a 2º Guerra Mundial, em seu território contavam com 97% dos recursos naturais necessários para a manutenção autóctone de uma nação e o mais significativo do ponto de vista político: contava com milhares de amigos e simpatizantes pelo mundo. Stálin não somente era um “deus” dentro da URSS, mas também uma figura divina nos quatro cantos do mundo onde houvesse um militante comunista e antiimperialista. Afinal, Stálin com todos os seus limites, em seu tempo, foi declaradamente o inimigo número 1 do capitalismo internacional.
Além do já exposto, o agravante da Coréia Popular reside, também, em outras determinações: além de ser o país mais cercado, estrangulado e sancionado do mundo, para muitos potenciais amigos, esta experiência não pode ser levada a sério. É pouco?
Evidente que uma nação em constante estado de excepcionalidade, pronta para ser estuprada e degustada pelos mais sedentos abutres da história humana, somente o que lhe resta é a busca de soluções nacionais para seus problemas. E é isto que reside a característica central da necessidade e imperiosidade da instalação de uma dinastia de caráter revolucionária.
Algumas questões para o debate (desculpem o mal jeito): se a URSS não suportou 70 anos de uma condição excepcional de cerco e aniquilamento imperialista (D. Losurdo), o que dizermos da Coréia Popular, um pequeno país montanhoso e com escassos recursos naturais? Pautaremos o problema partindo de pressupostos morais ou analisaremos a realidade da forma como ela é, e não de acordo com nossas brilhantes e incompreendidas mentes, capazes de ditar a velocidade do movimento de rotação do planeta Terra?
O socialismo Juche
Somente os ventos de uma revolução, executada por duas centenas de revolucionários bem organizados, capaz de derrubar uma das monarquias mais consolidadas do mundo, poderia lançar luz à novas formas de revitalização da nação coreana. A Revolução Russa, abriu as portas à organização consequente de revoltas camponesas que sangrassem até a morte a dominação japonesa na Ásia. Assim, surgem gênios políticos e militares da estatura de Mao Tsétung, Zhu De, Ho Chi Minh, Nguye Von Giag e Kim Il Sung.
Kim Il Sung nascido em 1912, filho e neto de líderes revolucionários, aos 14 anos de idade já era reconhecido como uma das principais lideranças antijaponesas do país. Sua produção intelectual, somente é comparada, quantitativamente, com a produção conjunta de Marx, Engels e Lênin. Para termos uma noção, suas Obras Completas são compostas por 82 volumes e suas Memórias em outros oito. Nada desprezível, tanto sua obra teórica quanto suas façanhas políticas. Ante o comando deste gigante, os EUA tiveram de assinar pela primeira vez na história uma declaração (quase) final de uma guerra em que eles não saíram vitoriosos. Saibamos, que desde sua independência (1776) os norte-americanos nunca ficaram pelo menos dez anos sem se meter em uma guerra fora de seus domínios territoriais.
Os 1.000 anos de Estado de exceção pela qual passa a Coréia produziu uma variante própria de teoria revolucionária. O que se chama de Idéia Juche, não se trata como eu acreditava, de um marxismo com características coreanas. Produzida por Kim Il Sung, a Idéia Zuche, aos coreanos, é uma transcendência do marxismo, sua superação, a solução dos limites das filosofias anteriores, entre elas o próprio marxismo. Particularmente classifico, a Idéia Juche, um mix de leninismo soviético (organização), mais herança confuciana (autoridade, ordem e a noção da nação como uma família chefiada por um chefe leal) mais igualitarismo típico das antigas sociedades agrárias (pequena produção mercantil) mais ultranacionalismo progressista asiático. Pode ser que esteja sendo superficial, mas em primeira vista é disto que me parece se tratar.
Em colóquios para exposição da Idéia Juche para mim organizadas pela Associação Coreana de Cientistas Sociais, os camaradas coreanos não escondiam suas desconfianças da dialética materialista. A diferença entre o marxismo e a Idéia Juche reside justamente nesta relação dialética entre homem e natureza. Aos “jucheanos”, o homem é a variável independente do processo. Capaz de moldar a natureza à sua imagem e semelhança.
Daí os inúmeros pontos de inflexão levantados por mim os debates, sendo o principal a defesa, de minha parte, da fator natureza como o (dialeticamente) limite e o potencializador da ação humana. Coloquei, por exemplo, aos camaradas coreanos que uma justa noção do funcionamento das leis da natureza é nodal à práticas racionais de política econômica. Como consequência desta visão de mundo, aos coreanos, a centralidade não se encontra no desenvolvimento das forças produtivas e sim no desenvolvimento de um ser-humano com firme caráter e formação ideológica. Disse a eles, fraternal e camaradamente, que desta forma umas de suas consequências poderá residir em práticas amplamente subjetivistas de planos de desenvolvimento, semelhantes às estudadas por muitos como o Grande Salto Adiante, levado a cabo por Mao Tsétung na China em fins dos anos de 1950.
O mais importante neste momento é evitarmos o subjetivismo e o “complexo de Aristóteles” no sentido de melhor compreender o surgimento desta forma Juche de enxergar as coisas. A principal delas, seria buscar analisar sucessivos processos históricos que vão desde a formação da nação coreana, até o processo de sua libertação nacional e a atual resistência ao cerco imperialista.
A filosofia e, consequentemente, a ideologia são produto de causa/consequencia das relações entre o homem e o meio que ele modifica e convive e essa relação não se restringe a isso, mas também – na mesma grandeza – com as relações sociais produzidas pelo homo sapiens, entre elas a sua exterioridade social; o noção que guardam de diferentes formas de os homens enxergarem a seus congêneres frutos de diferentes processos históricos.
Assim sendo não podemos desprezar a capacidade deste povo de enfrentar processos de ameaças, invasões e resistência ante inimigos nocivos e prontos para por fim a qualquer rastro de história da nação coreana. Os coreanos enfrentaram todos os seus desafios impostos externamente com um sucesso no mínimo surpreendente. Construíram uma nação industrializada quase que do nada. Infelizmente, a realidade como ela é se mostra suficiente para muitos simplesmente - e covardemente – não enfrentá-la.
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Não me surpreenderia, caso alguns não estivessem estranhando minhas posições expostas. Com relação a esta experiência nunca pensei diferente. Que o diga meu amigo Pedro Cross. Nesse assunto (Coréia do Norte e outros), apenas dava – e me dou o direito de colocar – a cara a bater a meu mestre Mamigonian, e, invariavelmente... às vezes bato a “cara na parede”. É da exposição à contradição que se desenvolve a capacidade humana de avançar intelectualmente. Quem me conhece sabe que nem mil homilias, proferidas pelos mais “brilhantes” intelectuais “da moda”, são capazes de me convencer. A única forma de me convencer de tal ou qual assunto é a prova da história. Fora disso, não existe muita escolha, a não ser manifestações de insegurança intelectual, tentativa – sob os mais variados pretextos – de isolamento e de desqualificações de tipo fascista. Paciência.
O governo Songun
Vejamos e sejamos justos: Kim Jong Il é um estadista brilhante, não um arremedo de “enrolador social” - porém nacionalista – bem ao estilo de um certo personagem (João Grilo) criado por um nada “enrolador” Ariano Suassuna. Retornando, em meio ao “quiprocó” dos testes nucleares e o isolamento internacional, nossos irmãos coreanos ainda tiveram forças para enviar (sem parcerias com ninguém,muito pelo contrário) um satélite de observação ao espaço (2009), enquanto que a Coréia do Sul, humilhante e recentemente, falhou no lançamento de um similar com parceria russa. Como pode?
Mais impressionante, foi a recente visita de Bill Clinton ao país. Sob o pretexto de “ação humanitária”, Clinton veio em missão de resgate de duas jornalistas norte-americanas, justamente, presas pelo regime norte-coreano. Na verdade, Bill Clinton, chegou ao país em missão dada pelo atual presidente norte-americano Barack Obama, certamente com uma carta de intenções. Mas, ao observador mais arguto, uma imagem vale por mil coisas: nas fotografias espalhadas por agências do mundo inteiro,é muito clara a diferença de postura, pois enquanto Kim Jong Il parecia tranquilo, sorridente, vencedor, Clinton teve de sustentar uma verdadeira cara de intranquilidade, típica de um imperador que não está diante de um súdito tipo FHC. O objetivo, máximo do regime, de reconhecimento político e diplomático por parte dos EUA e o Japão, pode estar menos distante.
Retornando, acerca da “cara de tacho” de Clinton, na verdade, mais parecia um imperador romano pensando numa forma de se defender das armadilhas armadas, ao seu decadente escravismo, tanto por revoltas escravistas (Espártaco) quanto pelo dinamismo do modo de produção germânico.
Lá e aqui, “bárbaros” vencedores pregam peças, a seu modo, a impérios decadentes e em franco processo de busca por soluções que ao menos tornem mais soft seu pouso.
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Qual a expressão superestrutural resultante da visão Juche de mundo?
Além de arremates históricos, das proezas da guerrilha antijaponesa, a expulsão dos invasores norte-americanos, recrudescimento da cruzada norte-americana pela Ásia e os estilhaços da Crise dos Mísseis envolvendo URSS, Estados Unidos e Cuba, tornaram-se condições objetivas à implementação de um chamado governo Songun, na segunda metade de agosto de 1962.
A governança Songun é a institucionalização e o pleno reconhecimento de um Estado de exceção que se recrudesceu com o fim da URSS, a primeira agressão, pelos EUA, ao Iraque em 1991 e à resposta norte-americana à sua lenta decadência econômica. Se o Iraque fora uma vítima, qual o motivo de não pensar o mesmo de um país que, repito, imputou – aos Estados Unidos – sua primeira derrota militar em quase 180 anos de busca de seu espaço vital pelo mundo?
Trata-se da primazia o militar sobre o civil, do soldado em relação ao proletário.
Fator de juízos de moral? Pode ser.
De minha parte comemorei o sucesso dos recentes testes nucleares executados pelo país e seu, consequente, poder de dissuasão ante ameaças externas.
Setembro de 2009
Elias Jabbour *
Após lua-de-mel dos intelectuais europeus com as virtudes sintetizadas dos impérios nascidos ao longo dos vales do rio Yangtsé, Ganes e Nilo, “Despotismo oriental”, foi o termo predileto utilizado por Voltaire para (des) caracterizar, por exemplo, o “Império do Meio” chinês. Dessa forma o Iluminismo dava forma a um eurocentrismo que iria influenciar, inclusive, nosso Karl Marx.
Porém, Voltaire não fora o primeiro a utilizar este termo, alguma centenas de anos antes, Aristóteles em pleno centrismo helênico, classificou o Império Egípcio e seus similares orientais como variantes de “Despotismo oriental”. Aristóteles havia se esquecido que a “democracia grega” havia condenado Sócrates à morte, pelo simples fato de ao analisar a decadência do homem grego, o mesmo havia concluído que decadência humana grega era proporcional à decadência de uma democracia que nunca havia existido. O próprio Aristóteles depois de um tempo teve de se cuidar muito para não ser condenado à morte por esta mesma “democracia”.
Complexo de Aristóteles
Analogias históricas podem ser encontradas na atual decadência do homem ocidental. A mesma “democracia” que assassina Martin Luther King, sustenta um governo que manteve Mandela 28 anos preso e faz vista grossa à transformação de residências turcas em fogueiras em Berlim, é a mesma que quer condenar à morte por inanição a Coréia do Norte só pelo fato de o regime de Pionguiangue ter decidido ser um país onde “ninguém mete a colher” e que não se esconde atrás do biombo da correlação de forças. Correlação de forças, que de centro da tática para Lênin, se transforma em refúgio ante a covardia intelectual.
Esta conjuntura de plena decadência humana ocidental, cravou no pensamento acadêmico sua visão de mundo. Aliás, hegemônica visão de mundo, onde a objetividade histórica foi substituída pelo relativismo na base da teoria do conhecimento. O pós-modernismo positivista é expressão, em matéria de produção científica, da contra-revolução iniciada com o fim da URSS. Suas influências abarcam, de forma nada surpreendente, muitos intelectuais de “esquerda”, militantes e ativistas sociais.
Nove em cada dez pessoas de nosso campo ao se referir ao regime norte-coreano se assusta e dispara: “socialismo aquilo, com dinastia?” Surpreendente? Não sei.
Eurocentrismo atual reacionário mais preconceitos intelectuais (fruto de limitações conceituais e teóricas) acabam que redundando numa visão do regime de Pionguiangue que repete tragicamente a visão de Aristóteles com relação à “periferia oriental” grega. É a moral como visão de mundo em detrimento da consciência de classe.
O complexo de Aristóteles está aí em 90% das opiniões sobre o regime de Kim Jong Il.
Sobre o modo de produção asiático
A dinâmica da base econômica reflete-se diretamente na superestrutura. Desse modo Marx, fugindo da esfera da circulação (tão cara aos dependentistas – estruturalistas e muitos marxistas latinoamericanos – ultrabajulados de nosso tempo), se supera ao buscar a compreensão dos fenômenos sob a ótica do processo de produção. Sua capacidade de visão de conjunto e percepção da diferença das dinâmicas produtivas em diferentes partes do globo o levou a superar o generalismo da Economia Política burguesa, para quem as leis econômicas têm caráter universal e não pautadas historicamente. Em Engels (Anti-Düring), a Economia Política difere-se de país para país, de região para região. Daí nós, comunistas brasileiros, acertarmos em afirmar acerca da não-existência de “modelos prontos” de socialismo.
Desta forma, ao analisar as diferentes formas de produção no planeta (trabalho necessário e excedente) pode diferenciar no bojo de cada modo de produção, diferentes modos de produção de caráter complexo, frutos de combinações de antigas com novas formas de produção. Entre eles, o modo de produção asiático.
O modo de produção asiático é algo típico de regiões onde a economia de mercado surgiu de forma precoce, consequências de relações homem x natureza propícia ao rápido desenvolvimento das forças produtivas. Sendo a economia de mercado resultado da produção de excedentes agrícolas, logo – condição objetiva – condicionando o surgimento de uma diferenciação social, a necessidade de um Estado, capaz de mediar a diferenciação social e – concomitante – ser dinâmico à arrecadação de impostos e retorno à sua base camponesa sob forma de grandes obras hidráulicas, torna-se algo de grande necessidade. Esse complexo mecanismo de mediação pode ser analisado no fato de há pelo 1.500 anos, na China, o instituto do concurso público já ser método de seleção de quadros ao serviço estatal, mandarinato.
Abrindo parêntese, a complexidade do modo de produção asiático é perceptível no fato de, diferente da escravidão greco-romana cuja propriedade privada da terra era o centro, a propriedade da terra era estatal e a escravidão se resumia a trabalhos penosos como o das minas. Numa sociedade desse tipo, com possibilidade de ascensão social, o caráter da superestrutura torna-se fluida, dependendo da capacidade do imperador ou rei em atender ou não as demandas camponesas por obras de contenção de desastres naturais. Logo, encontra-se sentido na famosa frase de Confúcio, para quem, “o poder emana dos céus, porém é revogável pelo povo”.
Marx e Engels elaboraram um grande “esquema ideal” do funcionamento das diversas sociedades de forma que tornam-se inteligíveis suas possíveis evoluções. Representações de esquemas podem-se tornar modelos que nos capacitem a ter uma visão apurada de diferentes processos históricos. Porém, além de histórico, o materialismo também é dialético. Logo, os chamados esquemas não devem ser levados ao pé da letra como vem ocorrendo em cada vez maiores exigências de periodizações e trabalhos acadêmicos. A periodização é o oposto da visão de processo histórico.
Em matéria de ciências sociais devemos estar preparados para tudo. Menos para a negação do movimento. Assim, devemos estar preparados, municiados metodológica e teoricamente ao desafio de analisar o estancamento de fluidez no âmbito das superestruturas e sua relação com outras determinações formadoras do concreto. Apesar de a superestrutura parecer estanque, tudo está em movimento. Inclusive a busca por soluções de caráter nacional ante determinadas imposições da conjuntura. Afinal, a própria governança por “laços de sangue” são parte deste tipo de solução de problemas conjunturais.
Mil anos de “Estado de Excessão” e problema do socialismo
O “complexo de Aristóteles” impede que se perceba o fenômeno presente coreano como problema histórico. Esta forma a-histórica de observar o fenômeno fora denunciada por Lukács como algo burguês. Não “burguês” no sentido esquerdista do termo. E sim, burguês, no sentido metodológico, para quem as coisas devem ser observadas como uma “fotografia”. De forma positivista, pós-moderna. Estática, parada, sem história...
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Assim como a China, a Coréia é uma nação com uma história corrida de 5.000 anos. Formada às marges dos rios Yalu e Daetong, a posição geográfica do país foi fator essencial para que os coreanos nunca tivessem uma vida tranquila, até hoje. Fronteira com Império Chinês, proximidade com a Rússia, a Mongólia e o Japão. O caráter guerreiro e até militarista deste povo se explica no fato de nunca Genghis Khan ter passado do monte Paektu, muito pelo contrário. Os coreanos adentraram o território, então mongol, da Manchúria e conquistaram-no. Assim puderam formar um cordão protetor sanitário por muito tempo
Por volta do ano 1.000 d.C. é formado o reino da Coréia e em 1.300, o confucionismo, expressão da crescente influência chinesa, é absorvido neste país. Pressões japonesas desde o primeiro dia de funcionamento do Reino de Koryo, foram uma constante. Este reino até seus estertores teve de “armar até os dentes”. No século XIX sucumbiu diante da dupla pressão norte-americana (pressão pela abertura dos portos do país) e japonesa. Uma combinação geopolítica levou os japoneses a entrarem num acordo com os EUA: “não mexemos em seus interesses nas Filipinas e, em contrapartida, vocês não se metem e nossos negócios na Coréia”. Era o Congresso de Viena bipartite para o saqueio da Coréia e das Filipinas.
Assim como na Europa oriental do final do século XIX e início do de XX, tentativas de restaurações modernizadoras de tipo burguesa foram afogadas e revertidas em refeudalizações sangrentas, como a ocorrida na Hungria. Lênin, afirmou na época que: “o imperialismo japonês com toda sua brutalidade asiática fincava sua faca no coração da nação coreana.”
Assim, se contarmos todo esse tempo passado, mais a contemporânea existência da RDPC, contabilizaremos mais de 1000 anos de Estado de exceção.
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Neste momento é importante cotizarmos esta questão mais ligada a história da Coréia com a própria história do socialismo. Independente do que pensam os assolados pela doença burguesa do “complexo de Aristóteles”, a opção que esse povo fez, e faz, cotidianamente é a da construção do socialismo. E estão pagando um preço muito caro por isso. Sublinhemos: caro demais.
A história das transições anteriores demonstra que a decadência de um modo de produção era acompanhada tanto pela incapacidade de as forças produtivas sociais darem conta das constantes necessidades materiais da população, quanto da ascensão econômica de um determinado setor da sociedade. Uma classe que aspirasse o poder necessitava de deter o poder econômico e como consequência, o poder político tornava-se a cristalização deste processo.
Pois bem, neste caso dois problemas à transição capitalismo x socialismo são postas: 1) o proletariado não aspira o poder político como demanda de acúmulo de forças no cerne de concentração de riqueza material. Ao contrário, para se tornar classe dominante economicamente, faz-se necessária a tomada do poder político, seguida pela instalação de uma ditadura (ao contrário das ditaduras burguesas, trata-se de uma ditadura da maioria sob a minoria: a ditadura do proletariado) que lhe permita concentrar, pouco a pouco, os meios de produção a seu controle e 2) Também diferentemente de outros processos de transição, a estratégia socialista é a primeira que enceta a abolição da exploração do homem pelo próprio homem.
Numa tendência histórica dada, fica a necessidade de refletirmos sobre como este tipo de abstração se aplica à RDPC com suas características moldadas pela história. Assim, creio eu com meus botões e limitações, que sobra muito pouco espaço para melodramas de tipo, “construção de canais sucessórios democráticos”, aplicação do modelo geracional chinês. A realidade é esta: país pobre, com recursos naturais escassos, uma geografia complicada... Nenhum país do mundo passou por uma campanha de difamação internacional tão grande quanto a Coréia do Norte. A União Soviética passou por algo semelhante? Sim, mas venceu a 2º Guerra Mundial, em seu território contavam com 97% dos recursos naturais necessários para a manutenção autóctone de uma nação e o mais significativo do ponto de vista político: contava com milhares de amigos e simpatizantes pelo mundo. Stálin não somente era um “deus” dentro da URSS, mas também uma figura divina nos quatro cantos do mundo onde houvesse um militante comunista e antiimperialista. Afinal, Stálin com todos os seus limites, em seu tempo, foi declaradamente o inimigo número 1 do capitalismo internacional.
Além do já exposto, o agravante da Coréia Popular reside, também, em outras determinações: além de ser o país mais cercado, estrangulado e sancionado do mundo, para muitos potenciais amigos, esta experiência não pode ser levada a sério. É pouco?
Evidente que uma nação em constante estado de excepcionalidade, pronta para ser estuprada e degustada pelos mais sedentos abutres da história humana, somente o que lhe resta é a busca de soluções nacionais para seus problemas. E é isto que reside a característica central da necessidade e imperiosidade da instalação de uma dinastia de caráter revolucionária.
Algumas questões para o debate (desculpem o mal jeito): se a URSS não suportou 70 anos de uma condição excepcional de cerco e aniquilamento imperialista (D. Losurdo), o que dizermos da Coréia Popular, um pequeno país montanhoso e com escassos recursos naturais? Pautaremos o problema partindo de pressupostos morais ou analisaremos a realidade da forma como ela é, e não de acordo com nossas brilhantes e incompreendidas mentes, capazes de ditar a velocidade do movimento de rotação do planeta Terra?
O socialismo Juche
Somente os ventos de uma revolução, executada por duas centenas de revolucionários bem organizados, capaz de derrubar uma das monarquias mais consolidadas do mundo, poderia lançar luz à novas formas de revitalização da nação coreana. A Revolução Russa, abriu as portas à organização consequente de revoltas camponesas que sangrassem até a morte a dominação japonesa na Ásia. Assim, surgem gênios políticos e militares da estatura de Mao Tsétung, Zhu De, Ho Chi Minh, Nguye Von Giag e Kim Il Sung.
Kim Il Sung nascido em 1912, filho e neto de líderes revolucionários, aos 14 anos de idade já era reconhecido como uma das principais lideranças antijaponesas do país. Sua produção intelectual, somente é comparada, quantitativamente, com a produção conjunta de Marx, Engels e Lênin. Para termos uma noção, suas Obras Completas são compostas por 82 volumes e suas Memórias em outros oito. Nada desprezível, tanto sua obra teórica quanto suas façanhas políticas. Ante o comando deste gigante, os EUA tiveram de assinar pela primeira vez na história uma declaração (quase) final de uma guerra em que eles não saíram vitoriosos. Saibamos, que desde sua independência (1776) os norte-americanos nunca ficaram pelo menos dez anos sem se meter em uma guerra fora de seus domínios territoriais.
Os 1.000 anos de Estado de exceção pela qual passa a Coréia produziu uma variante própria de teoria revolucionária. O que se chama de Idéia Juche, não se trata como eu acreditava, de um marxismo com características coreanas. Produzida por Kim Il Sung, a Idéia Zuche, aos coreanos, é uma transcendência do marxismo, sua superação, a solução dos limites das filosofias anteriores, entre elas o próprio marxismo. Particularmente classifico, a Idéia Juche, um mix de leninismo soviético (organização), mais herança confuciana (autoridade, ordem e a noção da nação como uma família chefiada por um chefe leal) mais igualitarismo típico das antigas sociedades agrárias (pequena produção mercantil) mais ultranacionalismo progressista asiático. Pode ser que esteja sendo superficial, mas em primeira vista é disto que me parece se tratar.
Em colóquios para exposição da Idéia Juche para mim organizadas pela Associação Coreana de Cientistas Sociais, os camaradas coreanos não escondiam suas desconfianças da dialética materialista. A diferença entre o marxismo e a Idéia Juche reside justamente nesta relação dialética entre homem e natureza. Aos “jucheanos”, o homem é a variável independente do processo. Capaz de moldar a natureza à sua imagem e semelhança.
Daí os inúmeros pontos de inflexão levantados por mim os debates, sendo o principal a defesa, de minha parte, da fator natureza como o (dialeticamente) limite e o potencializador da ação humana. Coloquei, por exemplo, aos camaradas coreanos que uma justa noção do funcionamento das leis da natureza é nodal à práticas racionais de política econômica. Como consequência desta visão de mundo, aos coreanos, a centralidade não se encontra no desenvolvimento das forças produtivas e sim no desenvolvimento de um ser-humano com firme caráter e formação ideológica. Disse a eles, fraternal e camaradamente, que desta forma umas de suas consequências poderá residir em práticas amplamente subjetivistas de planos de desenvolvimento, semelhantes às estudadas por muitos como o Grande Salto Adiante, levado a cabo por Mao Tsétung na China em fins dos anos de 1950.
O mais importante neste momento é evitarmos o subjetivismo e o “complexo de Aristóteles” no sentido de melhor compreender o surgimento desta forma Juche de enxergar as coisas. A principal delas, seria buscar analisar sucessivos processos históricos que vão desde a formação da nação coreana, até o processo de sua libertação nacional e a atual resistência ao cerco imperialista.
A filosofia e, consequentemente, a ideologia são produto de causa/consequencia das relações entre o homem e o meio que ele modifica e convive e essa relação não se restringe a isso, mas também – na mesma grandeza – com as relações sociais produzidas pelo homo sapiens, entre elas a sua exterioridade social; o noção que guardam de diferentes formas de os homens enxergarem a seus congêneres frutos de diferentes processos históricos.
Assim sendo não podemos desprezar a capacidade deste povo de enfrentar processos de ameaças, invasões e resistência ante inimigos nocivos e prontos para por fim a qualquer rastro de história da nação coreana. Os coreanos enfrentaram todos os seus desafios impostos externamente com um sucesso no mínimo surpreendente. Construíram uma nação industrializada quase que do nada. Infelizmente, a realidade como ela é se mostra suficiente para muitos simplesmente - e covardemente – não enfrentá-la.
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Não me surpreenderia, caso alguns não estivessem estranhando minhas posições expostas. Com relação a esta experiência nunca pensei diferente. Que o diga meu amigo Pedro Cross. Nesse assunto (Coréia do Norte e outros), apenas dava – e me dou o direito de colocar – a cara a bater a meu mestre Mamigonian, e, invariavelmente... às vezes bato a “cara na parede”. É da exposição à contradição que se desenvolve a capacidade humana de avançar intelectualmente. Quem me conhece sabe que nem mil homilias, proferidas pelos mais “brilhantes” intelectuais “da moda”, são capazes de me convencer. A única forma de me convencer de tal ou qual assunto é a prova da história. Fora disso, não existe muita escolha, a não ser manifestações de insegurança intelectual, tentativa – sob os mais variados pretextos – de isolamento e de desqualificações de tipo fascista. Paciência.
O governo Songun
Vejamos e sejamos justos: Kim Jong Il é um estadista brilhante, não um arremedo de “enrolador social” - porém nacionalista – bem ao estilo de um certo personagem (João Grilo) criado por um nada “enrolador” Ariano Suassuna. Retornando, em meio ao “quiprocó” dos testes nucleares e o isolamento internacional, nossos irmãos coreanos ainda tiveram forças para enviar (sem parcerias com ninguém,muito pelo contrário) um satélite de observação ao espaço (2009), enquanto que a Coréia do Sul, humilhante e recentemente, falhou no lançamento de um similar com parceria russa. Como pode?
Mais impressionante, foi a recente visita de Bill Clinton ao país. Sob o pretexto de “ação humanitária”, Clinton veio em missão de resgate de duas jornalistas norte-americanas, justamente, presas pelo regime norte-coreano. Na verdade, Bill Clinton, chegou ao país em missão dada pelo atual presidente norte-americano Barack Obama, certamente com uma carta de intenções. Mas, ao observador mais arguto, uma imagem vale por mil coisas: nas fotografias espalhadas por agências do mundo inteiro,é muito clara a diferença de postura, pois enquanto Kim Jong Il parecia tranquilo, sorridente, vencedor, Clinton teve de sustentar uma verdadeira cara de intranquilidade, típica de um imperador que não está diante de um súdito tipo FHC. O objetivo, máximo do regime, de reconhecimento político e diplomático por parte dos EUA e o Japão, pode estar menos distante.
Retornando, acerca da “cara de tacho” de Clinton, na verdade, mais parecia um imperador romano pensando numa forma de se defender das armadilhas armadas, ao seu decadente escravismo, tanto por revoltas escravistas (Espártaco) quanto pelo dinamismo do modo de produção germânico.
Lá e aqui, “bárbaros” vencedores pregam peças, a seu modo, a impérios decadentes e em franco processo de busca por soluções que ao menos tornem mais soft seu pouso.
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Qual a expressão superestrutural resultante da visão Juche de mundo?
Além de arremates históricos, das proezas da guerrilha antijaponesa, a expulsão dos invasores norte-americanos, recrudescimento da cruzada norte-americana pela Ásia e os estilhaços da Crise dos Mísseis envolvendo URSS, Estados Unidos e Cuba, tornaram-se condições objetivas à implementação de um chamado governo Songun, na segunda metade de agosto de 1962.
A governança Songun é a institucionalização e o pleno reconhecimento de um Estado de exceção que se recrudesceu com o fim da URSS, a primeira agressão, pelos EUA, ao Iraque em 1991 e à resposta norte-americana à sua lenta decadência econômica. Se o Iraque fora uma vítima, qual o motivo de não pensar o mesmo de um país que, repito, imputou – aos Estados Unidos – sua primeira derrota militar em quase 180 anos de busca de seu espaço vital pelo mundo?
Trata-se da primazia o militar sobre o civil, do soldado em relação ao proletário.
Fator de juízos de moral? Pode ser.
De minha parte comemorei o sucesso dos recentes testes nucleares executados pelo país e seu, consequente, poder de dissuasão ante ameaças externas.
Viagem à Coréia do Norte: Dandong ou porto de Nova Iorque? - E Portal Vermelho - Elias Jabbour -
Viagem à Coréia do Norte: Dandong ou porto de Nova Iorque? - Portal Vermelho
Elias Jabbour *
Entrego ao público brasileiro a primeira de três partes de minhas impressões de viagem à República Democrática Popular da Coréia. Esta visita é resposta – e parte de viagem acadêmica que inclui outros 50 dias na China – de convite enviado pela Associação Coreana de Cientistas Sociais para uma estadia de 13 dias neste belo país.
Não poderia perder a oportunidade de ir além das impressões de um câmbio acadêmico. Logo, tratei de buscar sintetizar uma verdadeira pesquisa de caráter empírica/teórica/metodológica que nos municie de elementos à uma visão mais séria desta tortuosa realidade.
De antemão agradeço a cortesia da Embaixada da RDPC no Brasil e a Embaixada Brasileira em Pionguiangue. Como forma de gratidão não poderia me esquecer da indicação pela Secretaria de Relações Internacionais de meu partido, o PCdoB – camaradas José Reinaldo de Carvalho e Ronaldo Carmona –, do presidente da Agência Nacional do Petróleo, Haroldo Lima, do deputado federal Edmilson Valentim e, principalmente, de meu mestre Armen Mamigonian, aos meus genitores postiços “Claudião” e Dona Aurora, minha companheira de lutas e coração, Luciana Dias, de meus amigos diletos Graciana Vieira, Pedro Cross, Sérgio Barroso, Drica Madeira e Vasco Rodrigo, de meu “padrinho” José Messias Bastos, professor e ex-chefe do Depto. de Geociências do CFH-UFSC, de Carlos Espíndola, professor e ex-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geografia do CFH-UFSC e de minha “madrinha” Ana Pereira, técnica do Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial do Depto. de Geografia da FFLCH-USP (LABOPLAN-DG-FFLCH-USP).
Por fim ao inestimado apoio e confiança às minhas pesquisas guardado pela Fundação Maurício Grabois – direcionado ao seu presidente Adalberto Monteiro – da qual guardo profundo orgulho de ser pesquisador. Fundação esta cujo nome que carrega me obriga a dar o melhor de minhas capacidades à sistematização de contribuições científicas de alto nível ao meu querido Partido Comunista e à sociedade brasileira. Quando se encerram as palavras que fale outras vozes internas...
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Não é comum encontrar brasileiros interessados em passar alguns dias por aqui. Aos estrangeiros afoitos por informações, nada ajuda. Desde o processo de busca de informações na Internet até o processo de retirada de visto. Pela internet podemos encontrar (des) informações que vão desde a noção de pobreza gritante que encontraremos ao longo da parte coreana da ferrovia (Pequim-Pionguiangue) até reclamações acerca da burocracia na fronteira chinesa. Tudo mete medo para quem não conhece.
O processo de retirada de visto não é dos mais tranquilos. Para entrar por aqui deve, ou, ser parte de um grupo turístico devidamente autorizado pelo governo local ou ser convidado de alguma associação estatal. No meu caso, após ter tipo primeiro contato com o embaixador norte-coreano no Brasil em 2005, demonstrei pleno interesse em tocar neste solo no mês de julho de 2009, por ocasião de uma viagem pré-programada à República Popular da China com vistas à fase final de minha pesquisa de doutorado.
Para não perder a oportunidade da comparação, parece até que o processo de aquisição de um visto de entrada nos Estados Unidos é algo dos mais retos e tranquilos. Ainda mais para quem carrega um sobrenome como o meu, Khalil Jabbour. Imaginem se eu receber, em território “democrático” e “livre”dos EUA, uns dois e-mails de meus parentes residentes em Connecticut. Seria uma carruagem de fogo não para Manhattan e sim para Guantánamo.
Do processo de obtenção do visto à Estação Ferroviária de Pequim
Posso dizer que após recomendação da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB e algumas trocas de e-mails com o consulado em Brasília, onde informações que vão desde um currículo vitae até o número do passaporte foram necessários, o processo encaminhou-se de forma satisfatória, sendo que um convite oficial da Associação Coreana de Ciêntistas Sociais (ACSC) acabou que sendo o atalho à realização da visita. Acordei com os camaradas da embaixada em Brasília que “pegaria” meu visto em Pequim.
Pois bem, em Pequim é muito interessante perceber que a embaixada coreana é de uma magnitude incrível, a segunda maior em tamanho ficando atrás somente da embaixada russa. Sobrevivência da antiga preferência chinesa em prover de melhores condições os diplomatas do antigo bloco socialista.
Minha primeira visita à embaixada em Pequim não foi das mais fáceis, pois ninguém por lá falava inglês. Não somente isso, como a Coréia Popular não é uma economia de mercado, fica claro que determinados tratamentos mais polidos, não são dispensados a estrangeiros. Porém, as coisas mudaram quando, com o auxílio de um chinês que se encontrava no momento, o responsável do setor consular soube que era eu era comunista. Tudo se acertou, um belo sorriso abriu-se no rosto do funcionário e em dez dias exatos pude terminar o processo com vistas à autorização de minha entrada no país.
Logo, no dia 24 de agosto não pude controlar minha ansiedade em chegar logo a hora do embarque na Estação Ferroviária de Pequim. O K27 no horário programado estava esperando a mim, outro norte-coreano que conheci no momento do embarque e cerca de uma centena de chineses com destino tanto à cidade fronteiriça de Dandong quanto à Pionguiangue. Seriam 26 horas de viagem.
Dandong ou porto de Nova Iorque? E uma ironia do destino...
Ao programar a viagem, busquei informações das mais variadas sobre a realidade que manteria primeiro contato em alguns dias. A maioria das informações coletadas pela internet continham as piores versões possíveis: desde uma pobreza “escancarada” ao longo da ferrovia até a truculência dos soldados do Exército Popular Coreano na fronteira. Outros, ainda desaconselhavam contatos com norte-coreanos no trem, sob o risco de prisão...
Além de conversas diárias com meu orientador, Armen Mamigonian; Pedro de Oliveira, membro de nosso CC, foi o que mais perto chegou da “verdade” em uma conversa particular que tive com ele alguns dias antes de minha partida. Além de observações cirúrgicas, bem ao seu estilo leftist & gentleman, mandou um “vá tranquilo...”.
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Passei o dia me enchendo de comida antes de meu embarque. Sinal de ansiedade. No trem acreditava que teria um serviço de bordo e coisas do tipo. Cinco horas de viagem (até a fronteira com a Coréia, dividi espaço no trem com um jovem australiano – aliás, o trem é de altíssima qualidade e conforto, podendo alcançar os 150km/h), oito horas de viagem, dez horas... comecei a sentir fome. O australiano do meu lado se enchendo de chocolate e nem se dava conta de que (eu) começava a morrer de fome. Acho melhor achar que ele não se dava conta...
Depois de umas doze horas de viagem chegamos a cidade chinesa de Dandong, margem norte do rio Yalu (histórico rio atravessado pelos cerca de um milhão de “Voluntários do Povo Chinês” no ano de 1951 ao combate corpo-a-corpo contra as trocas do general fascistoide norte-americano Mc Carthur). De repente sinto uma invasão de dezenas de norte-coreanos em nossa locomotiva. Todos, homens e mulheres, com bottons de Kim Il Sung ao peito. Um tal de risada para lá, risada para cá. Mais parecia os navios mercantes brasileiros que atracavam no porto de Nova Iorque com nossos negros comandando verdadeiras festas, muito bem descritas pelo nosso genial Gilberto Freyre.
Pensei comigo: “(...) Pô, o australiano até agora não dirigiu uma única palavra para mim, não me ofereceu nenhum pedaço de seu chocolate suíço Dove (falsificado, fabricado em algum muquifo na zona rural sudoeste de Pequim). Olha, que ele foi 'educado' em uma 'democracia' (sob os auspícios da Chefe de Estado, Rainha Elizabeth II – parece gozação), enquanto que esse monte de gente alegre e saltitante são produto de umas das mais implacáveis 'ditaduras' do mundo. Será que a banana passou a comer o macaco?!?!?!”
Atravessando a fronteira, o trem parou para que os militares norte-coreanos pudessem verificar nossos passaportes. Após lembrar dos relatos lidos, pensei: “eles não podem ser piores que o BOPE carioca ou a ROTA paulista...”. Nesse ínterim, conheci um casal de chineses que passam a vida entre Dandong e Pionguiangue fazendo (advinha o quê?) comércio de importação e exportação. Parecia que a alma de ambos já entrava e saia do trem sozinhos... Como um pesquisador formado nas hostes da Escola de Florianópolis (sem falar do exigente Adalberto Monteiro na “minha bota”), acabei que puxando conversa. Mas, o papo não foi muito longe, pois confessei a eles que estava morrendo de fome.
Sem sacanagem, a mulher chinesa (parece que fez questão de me mostrar a diferença) chamou um soldado, para uma conversa ao pé de ouvido. Justamente, o soldado com a cara asiática mais irritada que já havia visto antes. Vi que ela falou algo para ele sobre mim. Passaram-se menos de dez minutos e este mesmo soldado com um sorriso estalado na cara me entregou uma porção de Iaquissoba.
Ironia do destino: um soldado de um nação onde, (segundo fontes tipo baixo nível, tipo “Mirian Porcão”), metade das pessoas não tem o que comer, pode matar a fome de um filho do país dono do mais poderoso complexo agroindustrial do mundo.
Enquanto isso na sala de justiça... Nada do súdito de Elizabeth II me oferecer algo para comer.
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Nada como fazer o exercício das chamadas relações em análises comparativas de diferentes formações sociais. Bem, a diferença entre este soldado que me serviu – e, de forma muito educada, revistou minha mala – sobre um correlato seu do BOPE ou da ROTA é a seguinte: enquanto este soldado carrega em sua farda uma vitória sobre o imperialismo mais sacana que se pode imaginar (Guerra da Coréia, 1951-1953), um militar destas forças especiais de combate ao crime urbano é educado à “caça de pobres”. Assim dão uma “forcinha” aos sociólogos interessados e colher estatísticas à análise do desastre neoliberal brasileiro.
E de quebra alimenta o “fascismo nosso de cada dia”...
“Dois socialismos”
O rio Yalu não é somente o berço da civilização coreana, tão antiga quanto a chinesa e de onde os mongóis nunca conseguiram passar do monte Paektu. Também o rio Yalu não pode servir para alimentar nossa subjetividade revolucionária lembrando os feitos do início da década de 1950.
Mais importante que isso, para nós que no Brasil buscamos nosso rumo, o rio Yalu é a fronteira entre os “dois tipos de socialismo”, vitoriosos, e concebidos no século passado. De um lado, ao norte, um pujante “socialismo de mercado”, alimentado por um grande país em plena concorrência comercial com o imperialismo; fazendo o Ocidente pagar cada centavo pelas infâmias imputadas entre 1839 e 1949. Um socialismo capaz de “laçar” a maior potência econômica e financeira com a centenas de bilhões de dólares da dívida pública norte-americana e a utilização de uma taxa de câmbio nada ortodoxa. Esse todo, na parte, pode ser visto sob a forma de centenas de prédios modernos que circundam a margem chinesa do rio Yalu.
Do outro lado, uma experiência que sobrevive estrangulada por todos lados. Estrangulada financeiramente com o bloqueio e o assédio moral do imperialismo sobre os bancos e países que fazem operações financeiras com esse pequeno país. Um país assolado por calamidades naturais, com um solo desgastado por décadas de extensividade, redundando numa baixa produtividade do trabalho na agricultura; com uma indústria pesada que já fora uma das mais modernas do mundo, hoje estar obrigada a trabalhar com capacidades ociosas que, segundo fontes fidedignas, chegam a 76% e com vários trens de carga parados ao longo da ferrovia pela qual passei.
O lado sul do rio Yalu, é uma expressão moderna das comunidades agrárias asiáticas, com pequenas habitações circundadas de arrozais e mulheres e crianças praticando uma pesca que nos lembra muito uma fase muito primária do desenvolvimento social: a era da economia natural.
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Num relato de viagem que li recentemente, como forma de “esculhambar” com o regime norte-coreano, dizia-se que o comboio andava numa velocidade insuportavelmente baixa, segundo ele, dada às péssimas condições da ferrovia no lado norte-coreano. Não perdi a oportunidade de ir atrás de um mapa de três dimensões para concluir que a parte norte da península coreana é muito montanhosa, logo – no concreto – percebi que a baixa velocidade se dava pelo relevo da região. Aliás, um trem que anda a 30 km/h é prato cheio à um pesquisador de alto nível de curiosidade.
Neste mesmo relato, as “sombras da fome” ao longo da ferrovia eram amenizadas pela tentativa de maquiagem (até minha mãe, que para burra não servia daria um jeito de mudar o aspecto da frente de nossa casa dada movimentação de “estrangeiros”).Afirmo no alto de minhas, socializadas, características e independência (porém compromissada), atividade intelectual: TUDO MENTIRA. Percebe-se, sim, flashes de um país em grandes dificuldades: fábricas paradas, escolas e prédios públicos com problemas de manutenção e estações ferroviárias muito precárias.
Interessante, do ponto de vista histórico e sociológico, é a resistência da cultura do matriarcado (modo de produção asiático). As mulheres dominam os arrozais. Sem falar que a chefe militar do posto de fronteira norte-coreano era uma mulher a frente de pelo menos uns 100 subordinados
Agricultura e o papel estratégico do Brasil
A agricultura de arroz e milho é praticada em toda a extensão da ferrovia. Pode-se alegar que tais plantações são parte da “maquiagem”. Apelo para que saiamos da superfície para, no conjunto, raciocinemos que nesta região do país, milenarmente, dadas as facilidades provenientes do rio Yalu e seus afluentes, a atividade agrícola ocorre – talvez – de melhor forma que em outras regiões. Apesar de que, com uma recém-inaugurada planta hidrelétrica no sul do país, as condições naturais melhoraram bastante (por conta das antigas enchentes) em outros pontos do território da Coréia Popular.
***
Qual o melhor caminho no rumo de um processo de acumulação capaz de prover à parte norte da província saltos qualitativos?
A primeira impressão pode nos levar a crer que a Coréia deveria seguir os passos da China pós-1978 e conceder terras para os camponeses produzirem com vistas ao mercado. Ok, esta percepção tem base histórica no fato de desde os tempos do modo de produção asiático a propriedade privada da terra não existira, sendo propriedade do Estado (Império) que, por seu turno, concedia lotes a famílias camponesas. Pois bem, este dado histórico foi nodal às reformas de Deng Xiaoping na China, logo compreender o socialismo asiático passa por uma grande compreensão das características inerentes ao modo de produção asiático.
Mas nem sempre a abstração resolve nossos problemas. Pelo contrário.
Veja bem, pelo que conversei até aqui, os coreanos estão fazendo pequenas experiências neste sentido. Por outro lado, pelo que vi (pela janela do trem) e cotizando com outras observações coletadas, o problema da agricultura norte-coreana não é como o cubano, de terras ociosas. Por aqui não existem terras ociosas. A ociosidade de terras é o lado da dialética que se relaciona com o estrangulamento do abastecimento alimentar, cuja síntese só pode estar nos marcos de uma liberalização comercial do processo agrícola.
Neste caso, o problema da geração de renda pode passar por um lento e gradual processo de incorporação ao território econômico da Coréia do Sul, como se tem visto com a instalação de uma grande fábrica da Hyundai na fronteira entre os dois países empregando cerca de 50.000 trabalhadores.
O problema da agricultura da Coreia do Norte não passa, necessariamente, pelo mercado e sim pela indigenização de tecnologia capaz de elevar substancialmente a produtividade do trabalho e transformar o país – no futuro – em exportador de alimentos, e não importador como atualmente. Essa política de mecanização, por aqui, contaria com uma vantagem: o fato de a Coréia Popular não ter, como a China, 700 milhões de camponeses.
Desembarcando no empírico, relatório que li recentemente da FAO (United Nations Food Program: 8,7 Milllion North Coreans Need Food Assistance, December 10, 2008) demonstra que o total de toneladas de cereais produzidos em território norte-coreano previstos para 2009 poderá chegar a 4,21 milhões. Nesse ritmo de (baixíssima) produtividade, o país este ano poderá estar importado algo em torno de 500 mil toneladas de grãos, e recebendo externamente (por políticas gerenciadas pela United Nations World Food Program), sob forma de auxílio, cerca de 840 mil toneladas.
Ora, vaticino e especulo que, pela quantidade de terras em condições de plantio na parte setentrional da península, um nada grande aporte tecnológico poderia e alguns aos ao menos duplicar essa produção interna, de forma que o excedente poderá se tornar aporte financeiro ao aprofundamento do processo de industrialização. Sonho...
Miremos estrategicamente. O Brasil recentemente abriu nossa embaixada por aqui. Temos a EMBRAPA, uma empresa modelo que nenhum país do mundo conseguiu alcançar. Aliás, após longa conversa com o diplomatas ocupados no problema norte-coreano, acabei que descobrindo que alguns projetos estão elaborados e prontos para serem executados; estado, logo, sob a mercê de processos políticos internos nada rápidos.
Mas, podemos ir além. No Hotel em que me encontro bebe-se café solúvel alemão, come-se frutas européias. É muito o caso de nossa diplomacia pesquisar item por item da pauta de importações da Coréia do Norte. Em seguida, demonstrar a eles em quais itens o Brasil poderia vender mais barato ou simplesmente trocar esses produtos por produtos nativos que nos interessem. Por exemplo, a Coréia do Norte tem abundância em magnesita. Não sei, sinceramente, se temos este minério em nosso subsolo, caso contrário os coreanos poderiam nos fornecer tal.
Mas o jogo do planejamento de nosso comércio exterior como forma de fincar nossa bandeira na Ásia não se encerra com este tipo de boas intenções. A Coréia do Norte simplesmente não tem dinheiro nem acesso a linhas externas de crédito. Portanto, nossas exportações deverão ser financiadas, e se possível a fundo perdido, como os chineses fazem com Cuba. Devemos mostrar a eles, um governo muito cioso de sua suada condição nacional conquistada, de mercadores que chegam com produtos on sale. Devemos e podemos ir adiante, não entabular negociações que, todos sabem, não dão em nada. O negócio é chegar com o “pacote pronto”: assistência técnica da Embrapa, produtos mais baratos que os atualmente importados e, o principal, financiamento das exportações.
Outra observação: o sistema público de transportes de Pionguiangue, apesar de contar com uma linha de metrô, tem no sistema de ônibus uma de suas vértebras. Pelo que soube, eles não contam com uma frota de mais de 30 ônibus, para atender uma população de 2,2 milhões. Os ônibus, são velhos e em péssimo estado e vivem, durante todo o dia, lotados. Ora, pergunto: qual o custo de financiar (a custo perdido) a exportação de 50 ônibus novos, com maior capacidade de lotação e muito confortáveis? Será que é difícil termos uma visão minimamente estratégica neste ponto?
Por outro lado, existe um problema interno brasileiro de correlação de forças que pode frear esse processo de aproximação. Imaginem só o “prato cheio” para essa “mídia de aluguel bandida” o fato de estarmos os relacionando com – declarado – inimigo número 1 do imperialismo no mundo. Para isso, mudar a correlação de forças, é que existe o jogo da “grande política”. Neste sentido, o argumento deve residir no interesse nacional e não nos concentrarmos em argumentar tendo a Coréia do Norte como centro e sim os interesses brasileiros na Ásia.
Enfim, será que não poderíamos fincar nosso pé na Ásia, sem grandes esforços, nem aportes financeiros capazes de comprometer o (famigerado) superávit primário?
Ao ajudarmos esta gloriosa nação a tocar adiante a mecanização da agricultura, estaremos auxiliando-os à plena utilização de sua capacidade produtiva já instalada com a fabricação de tratores e arados mecânicos, por exemplo.
O Brasil pode ser um parceiro ideal na viabilização do surgimento de um novo Tigre Vermelho...
(continua)
Elias Jabbour *
Entrego ao público brasileiro a primeira de três partes de minhas impressões de viagem à República Democrática Popular da Coréia. Esta visita é resposta – e parte de viagem acadêmica que inclui outros 50 dias na China – de convite enviado pela Associação Coreana de Cientistas Sociais para uma estadia de 13 dias neste belo país.
Não poderia perder a oportunidade de ir além das impressões de um câmbio acadêmico. Logo, tratei de buscar sintetizar uma verdadeira pesquisa de caráter empírica/teórica/metodológica que nos municie de elementos à uma visão mais séria desta tortuosa realidade.
De antemão agradeço a cortesia da Embaixada da RDPC no Brasil e a Embaixada Brasileira em Pionguiangue. Como forma de gratidão não poderia me esquecer da indicação pela Secretaria de Relações Internacionais de meu partido, o PCdoB – camaradas José Reinaldo de Carvalho e Ronaldo Carmona –, do presidente da Agência Nacional do Petróleo, Haroldo Lima, do deputado federal Edmilson Valentim e, principalmente, de meu mestre Armen Mamigonian, aos meus genitores postiços “Claudião” e Dona Aurora, minha companheira de lutas e coração, Luciana Dias, de meus amigos diletos Graciana Vieira, Pedro Cross, Sérgio Barroso, Drica Madeira e Vasco Rodrigo, de meu “padrinho” José Messias Bastos, professor e ex-chefe do Depto. de Geociências do CFH-UFSC, de Carlos Espíndola, professor e ex-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geografia do CFH-UFSC e de minha “madrinha” Ana Pereira, técnica do Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial do Depto. de Geografia da FFLCH-USP (LABOPLAN-DG-FFLCH-USP).
Por fim ao inestimado apoio e confiança às minhas pesquisas guardado pela Fundação Maurício Grabois – direcionado ao seu presidente Adalberto Monteiro – da qual guardo profundo orgulho de ser pesquisador. Fundação esta cujo nome que carrega me obriga a dar o melhor de minhas capacidades à sistematização de contribuições científicas de alto nível ao meu querido Partido Comunista e à sociedade brasileira. Quando se encerram as palavras que fale outras vozes internas...
***
Não é comum encontrar brasileiros interessados em passar alguns dias por aqui. Aos estrangeiros afoitos por informações, nada ajuda. Desde o processo de busca de informações na Internet até o processo de retirada de visto. Pela internet podemos encontrar (des) informações que vão desde a noção de pobreza gritante que encontraremos ao longo da parte coreana da ferrovia (Pequim-Pionguiangue) até reclamações acerca da burocracia na fronteira chinesa. Tudo mete medo para quem não conhece.
O processo de retirada de visto não é dos mais tranquilos. Para entrar por aqui deve, ou, ser parte de um grupo turístico devidamente autorizado pelo governo local ou ser convidado de alguma associação estatal. No meu caso, após ter tipo primeiro contato com o embaixador norte-coreano no Brasil em 2005, demonstrei pleno interesse em tocar neste solo no mês de julho de 2009, por ocasião de uma viagem pré-programada à República Popular da China com vistas à fase final de minha pesquisa de doutorado.
Para não perder a oportunidade da comparação, parece até que o processo de aquisição de um visto de entrada nos Estados Unidos é algo dos mais retos e tranquilos. Ainda mais para quem carrega um sobrenome como o meu, Khalil Jabbour. Imaginem se eu receber, em território “democrático” e “livre”dos EUA, uns dois e-mails de meus parentes residentes em Connecticut. Seria uma carruagem de fogo não para Manhattan e sim para Guantánamo.
Do processo de obtenção do visto à Estação Ferroviária de Pequim
Posso dizer que após recomendação da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB e algumas trocas de e-mails com o consulado em Brasília, onde informações que vão desde um currículo vitae até o número do passaporte foram necessários, o processo encaminhou-se de forma satisfatória, sendo que um convite oficial da Associação Coreana de Ciêntistas Sociais (ACSC) acabou que sendo o atalho à realização da visita. Acordei com os camaradas da embaixada em Brasília que “pegaria” meu visto em Pequim.
Pois bem, em Pequim é muito interessante perceber que a embaixada coreana é de uma magnitude incrível, a segunda maior em tamanho ficando atrás somente da embaixada russa. Sobrevivência da antiga preferência chinesa em prover de melhores condições os diplomatas do antigo bloco socialista.
Minha primeira visita à embaixada em Pequim não foi das mais fáceis, pois ninguém por lá falava inglês. Não somente isso, como a Coréia Popular não é uma economia de mercado, fica claro que determinados tratamentos mais polidos, não são dispensados a estrangeiros. Porém, as coisas mudaram quando, com o auxílio de um chinês que se encontrava no momento, o responsável do setor consular soube que era eu era comunista. Tudo se acertou, um belo sorriso abriu-se no rosto do funcionário e em dez dias exatos pude terminar o processo com vistas à autorização de minha entrada no país.
Logo, no dia 24 de agosto não pude controlar minha ansiedade em chegar logo a hora do embarque na Estação Ferroviária de Pequim. O K27 no horário programado estava esperando a mim, outro norte-coreano que conheci no momento do embarque e cerca de uma centena de chineses com destino tanto à cidade fronteiriça de Dandong quanto à Pionguiangue. Seriam 26 horas de viagem.
Dandong ou porto de Nova Iorque? E uma ironia do destino...
Ao programar a viagem, busquei informações das mais variadas sobre a realidade que manteria primeiro contato em alguns dias. A maioria das informações coletadas pela internet continham as piores versões possíveis: desde uma pobreza “escancarada” ao longo da ferrovia até a truculência dos soldados do Exército Popular Coreano na fronteira. Outros, ainda desaconselhavam contatos com norte-coreanos no trem, sob o risco de prisão...
Além de conversas diárias com meu orientador, Armen Mamigonian; Pedro de Oliveira, membro de nosso CC, foi o que mais perto chegou da “verdade” em uma conversa particular que tive com ele alguns dias antes de minha partida. Além de observações cirúrgicas, bem ao seu estilo leftist & gentleman, mandou um “vá tranquilo...”.
***
Passei o dia me enchendo de comida antes de meu embarque. Sinal de ansiedade. No trem acreditava que teria um serviço de bordo e coisas do tipo. Cinco horas de viagem (até a fronteira com a Coréia, dividi espaço no trem com um jovem australiano – aliás, o trem é de altíssima qualidade e conforto, podendo alcançar os 150km/h), oito horas de viagem, dez horas... comecei a sentir fome. O australiano do meu lado se enchendo de chocolate e nem se dava conta de que (eu) começava a morrer de fome. Acho melhor achar que ele não se dava conta...
Depois de umas doze horas de viagem chegamos a cidade chinesa de Dandong, margem norte do rio Yalu (histórico rio atravessado pelos cerca de um milhão de “Voluntários do Povo Chinês” no ano de 1951 ao combate corpo-a-corpo contra as trocas do general fascistoide norte-americano Mc Carthur). De repente sinto uma invasão de dezenas de norte-coreanos em nossa locomotiva. Todos, homens e mulheres, com bottons de Kim Il Sung ao peito. Um tal de risada para lá, risada para cá. Mais parecia os navios mercantes brasileiros que atracavam no porto de Nova Iorque com nossos negros comandando verdadeiras festas, muito bem descritas pelo nosso genial Gilberto Freyre.
Pensei comigo: “(...) Pô, o australiano até agora não dirigiu uma única palavra para mim, não me ofereceu nenhum pedaço de seu chocolate suíço Dove (falsificado, fabricado em algum muquifo na zona rural sudoeste de Pequim). Olha, que ele foi 'educado' em uma 'democracia' (sob os auspícios da Chefe de Estado, Rainha Elizabeth II – parece gozação), enquanto que esse monte de gente alegre e saltitante são produto de umas das mais implacáveis 'ditaduras' do mundo. Será que a banana passou a comer o macaco?!?!?!”
Atravessando a fronteira, o trem parou para que os militares norte-coreanos pudessem verificar nossos passaportes. Após lembrar dos relatos lidos, pensei: “eles não podem ser piores que o BOPE carioca ou a ROTA paulista...”. Nesse ínterim, conheci um casal de chineses que passam a vida entre Dandong e Pionguiangue fazendo (advinha o quê?) comércio de importação e exportação. Parecia que a alma de ambos já entrava e saia do trem sozinhos... Como um pesquisador formado nas hostes da Escola de Florianópolis (sem falar do exigente Adalberto Monteiro na “minha bota”), acabei que puxando conversa. Mas, o papo não foi muito longe, pois confessei a eles que estava morrendo de fome.
Sem sacanagem, a mulher chinesa (parece que fez questão de me mostrar a diferença) chamou um soldado, para uma conversa ao pé de ouvido. Justamente, o soldado com a cara asiática mais irritada que já havia visto antes. Vi que ela falou algo para ele sobre mim. Passaram-se menos de dez minutos e este mesmo soldado com um sorriso estalado na cara me entregou uma porção de Iaquissoba.
Ironia do destino: um soldado de um nação onde, (segundo fontes tipo baixo nível, tipo “Mirian Porcão”), metade das pessoas não tem o que comer, pode matar a fome de um filho do país dono do mais poderoso complexo agroindustrial do mundo.
Enquanto isso na sala de justiça... Nada do súdito de Elizabeth II me oferecer algo para comer.
***
Nada como fazer o exercício das chamadas relações em análises comparativas de diferentes formações sociais. Bem, a diferença entre este soldado que me serviu – e, de forma muito educada, revistou minha mala – sobre um correlato seu do BOPE ou da ROTA é a seguinte: enquanto este soldado carrega em sua farda uma vitória sobre o imperialismo mais sacana que se pode imaginar (Guerra da Coréia, 1951-1953), um militar destas forças especiais de combate ao crime urbano é educado à “caça de pobres”. Assim dão uma “forcinha” aos sociólogos interessados e colher estatísticas à análise do desastre neoliberal brasileiro.
E de quebra alimenta o “fascismo nosso de cada dia”...
“Dois socialismos”
O rio Yalu não é somente o berço da civilização coreana, tão antiga quanto a chinesa e de onde os mongóis nunca conseguiram passar do monte Paektu. Também o rio Yalu não pode servir para alimentar nossa subjetividade revolucionária lembrando os feitos do início da década de 1950.
Mais importante que isso, para nós que no Brasil buscamos nosso rumo, o rio Yalu é a fronteira entre os “dois tipos de socialismo”, vitoriosos, e concebidos no século passado. De um lado, ao norte, um pujante “socialismo de mercado”, alimentado por um grande país em plena concorrência comercial com o imperialismo; fazendo o Ocidente pagar cada centavo pelas infâmias imputadas entre 1839 e 1949. Um socialismo capaz de “laçar” a maior potência econômica e financeira com a centenas de bilhões de dólares da dívida pública norte-americana e a utilização de uma taxa de câmbio nada ortodoxa. Esse todo, na parte, pode ser visto sob a forma de centenas de prédios modernos que circundam a margem chinesa do rio Yalu.
Do outro lado, uma experiência que sobrevive estrangulada por todos lados. Estrangulada financeiramente com o bloqueio e o assédio moral do imperialismo sobre os bancos e países que fazem operações financeiras com esse pequeno país. Um país assolado por calamidades naturais, com um solo desgastado por décadas de extensividade, redundando numa baixa produtividade do trabalho na agricultura; com uma indústria pesada que já fora uma das mais modernas do mundo, hoje estar obrigada a trabalhar com capacidades ociosas que, segundo fontes fidedignas, chegam a 76% e com vários trens de carga parados ao longo da ferrovia pela qual passei.
O lado sul do rio Yalu, é uma expressão moderna das comunidades agrárias asiáticas, com pequenas habitações circundadas de arrozais e mulheres e crianças praticando uma pesca que nos lembra muito uma fase muito primária do desenvolvimento social: a era da economia natural.
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Num relato de viagem que li recentemente, como forma de “esculhambar” com o regime norte-coreano, dizia-se que o comboio andava numa velocidade insuportavelmente baixa, segundo ele, dada às péssimas condições da ferrovia no lado norte-coreano. Não perdi a oportunidade de ir atrás de um mapa de três dimensões para concluir que a parte norte da península coreana é muito montanhosa, logo – no concreto – percebi que a baixa velocidade se dava pelo relevo da região. Aliás, um trem que anda a 30 km/h é prato cheio à um pesquisador de alto nível de curiosidade.
Neste mesmo relato, as “sombras da fome” ao longo da ferrovia eram amenizadas pela tentativa de maquiagem (até minha mãe, que para burra não servia daria um jeito de mudar o aspecto da frente de nossa casa dada movimentação de “estrangeiros”).Afirmo no alto de minhas, socializadas, características e independência (porém compromissada), atividade intelectual: TUDO MENTIRA. Percebe-se, sim, flashes de um país em grandes dificuldades: fábricas paradas, escolas e prédios públicos com problemas de manutenção e estações ferroviárias muito precárias.
Interessante, do ponto de vista histórico e sociológico, é a resistência da cultura do matriarcado (modo de produção asiático). As mulheres dominam os arrozais. Sem falar que a chefe militar do posto de fronteira norte-coreano era uma mulher a frente de pelo menos uns 100 subordinados
Agricultura e o papel estratégico do Brasil
A agricultura de arroz e milho é praticada em toda a extensão da ferrovia. Pode-se alegar que tais plantações são parte da “maquiagem”. Apelo para que saiamos da superfície para, no conjunto, raciocinemos que nesta região do país, milenarmente, dadas as facilidades provenientes do rio Yalu e seus afluentes, a atividade agrícola ocorre – talvez – de melhor forma que em outras regiões. Apesar de que, com uma recém-inaugurada planta hidrelétrica no sul do país, as condições naturais melhoraram bastante (por conta das antigas enchentes) em outros pontos do território da Coréia Popular.
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Qual o melhor caminho no rumo de um processo de acumulação capaz de prover à parte norte da província saltos qualitativos?
A primeira impressão pode nos levar a crer que a Coréia deveria seguir os passos da China pós-1978 e conceder terras para os camponeses produzirem com vistas ao mercado. Ok, esta percepção tem base histórica no fato de desde os tempos do modo de produção asiático a propriedade privada da terra não existira, sendo propriedade do Estado (Império) que, por seu turno, concedia lotes a famílias camponesas. Pois bem, este dado histórico foi nodal às reformas de Deng Xiaoping na China, logo compreender o socialismo asiático passa por uma grande compreensão das características inerentes ao modo de produção asiático.
Mas nem sempre a abstração resolve nossos problemas. Pelo contrário.
Veja bem, pelo que conversei até aqui, os coreanos estão fazendo pequenas experiências neste sentido. Por outro lado, pelo que vi (pela janela do trem) e cotizando com outras observações coletadas, o problema da agricultura norte-coreana não é como o cubano, de terras ociosas. Por aqui não existem terras ociosas. A ociosidade de terras é o lado da dialética que se relaciona com o estrangulamento do abastecimento alimentar, cuja síntese só pode estar nos marcos de uma liberalização comercial do processo agrícola.
Neste caso, o problema da geração de renda pode passar por um lento e gradual processo de incorporação ao território econômico da Coréia do Sul, como se tem visto com a instalação de uma grande fábrica da Hyundai na fronteira entre os dois países empregando cerca de 50.000 trabalhadores.
O problema da agricultura da Coreia do Norte não passa, necessariamente, pelo mercado e sim pela indigenização de tecnologia capaz de elevar substancialmente a produtividade do trabalho e transformar o país – no futuro – em exportador de alimentos, e não importador como atualmente. Essa política de mecanização, por aqui, contaria com uma vantagem: o fato de a Coréia Popular não ter, como a China, 700 milhões de camponeses.
Desembarcando no empírico, relatório que li recentemente da FAO (United Nations Food Program: 8,7 Milllion North Coreans Need Food Assistance, December 10, 2008) demonstra que o total de toneladas de cereais produzidos em território norte-coreano previstos para 2009 poderá chegar a 4,21 milhões. Nesse ritmo de (baixíssima) produtividade, o país este ano poderá estar importado algo em torno de 500 mil toneladas de grãos, e recebendo externamente (por políticas gerenciadas pela United Nations World Food Program), sob forma de auxílio, cerca de 840 mil toneladas.
Ora, vaticino e especulo que, pela quantidade de terras em condições de plantio na parte setentrional da península, um nada grande aporte tecnológico poderia e alguns aos ao menos duplicar essa produção interna, de forma que o excedente poderá se tornar aporte financeiro ao aprofundamento do processo de industrialização. Sonho...
Miremos estrategicamente. O Brasil recentemente abriu nossa embaixada por aqui. Temos a EMBRAPA, uma empresa modelo que nenhum país do mundo conseguiu alcançar. Aliás, após longa conversa com o diplomatas ocupados no problema norte-coreano, acabei que descobrindo que alguns projetos estão elaborados e prontos para serem executados; estado, logo, sob a mercê de processos políticos internos nada rápidos.
Mas, podemos ir além. No Hotel em que me encontro bebe-se café solúvel alemão, come-se frutas européias. É muito o caso de nossa diplomacia pesquisar item por item da pauta de importações da Coréia do Norte. Em seguida, demonstrar a eles em quais itens o Brasil poderia vender mais barato ou simplesmente trocar esses produtos por produtos nativos que nos interessem. Por exemplo, a Coréia do Norte tem abundância em magnesita. Não sei, sinceramente, se temos este minério em nosso subsolo, caso contrário os coreanos poderiam nos fornecer tal.
Mas o jogo do planejamento de nosso comércio exterior como forma de fincar nossa bandeira na Ásia não se encerra com este tipo de boas intenções. A Coréia do Norte simplesmente não tem dinheiro nem acesso a linhas externas de crédito. Portanto, nossas exportações deverão ser financiadas, e se possível a fundo perdido, como os chineses fazem com Cuba. Devemos mostrar a eles, um governo muito cioso de sua suada condição nacional conquistada, de mercadores que chegam com produtos on sale. Devemos e podemos ir adiante, não entabular negociações que, todos sabem, não dão em nada. O negócio é chegar com o “pacote pronto”: assistência técnica da Embrapa, produtos mais baratos que os atualmente importados e, o principal, financiamento das exportações.
Outra observação: o sistema público de transportes de Pionguiangue, apesar de contar com uma linha de metrô, tem no sistema de ônibus uma de suas vértebras. Pelo que soube, eles não contam com uma frota de mais de 30 ônibus, para atender uma população de 2,2 milhões. Os ônibus, são velhos e em péssimo estado e vivem, durante todo o dia, lotados. Ora, pergunto: qual o custo de financiar (a custo perdido) a exportação de 50 ônibus novos, com maior capacidade de lotação e muito confortáveis? Será que é difícil termos uma visão minimamente estratégica neste ponto?
Por outro lado, existe um problema interno brasileiro de correlação de forças que pode frear esse processo de aproximação. Imaginem só o “prato cheio” para essa “mídia de aluguel bandida” o fato de estarmos os relacionando com – declarado – inimigo número 1 do imperialismo no mundo. Para isso, mudar a correlação de forças, é que existe o jogo da “grande política”. Neste sentido, o argumento deve residir no interesse nacional e não nos concentrarmos em argumentar tendo a Coréia do Norte como centro e sim os interesses brasileiros na Ásia.
Enfim, será que não poderíamos fincar nosso pé na Ásia, sem grandes esforços, nem aportes financeiros capazes de comprometer o (famigerado) superávit primário?
Ao ajudarmos esta gloriosa nação a tocar adiante a mecanização da agricultura, estaremos auxiliando-os à plena utilização de sua capacidade produtiva já instalada com a fabricação de tratores e arados mecânicos, por exemplo.
O Brasil pode ser um parceiro ideal na viabilização do surgimento de um novo Tigre Vermelho...
(continua)
O direito à existência da Coreia Popular, Por Elias Jabbour - Fundação Maurício Grabois
www.grabois.org.br
A morte do líder norte-coreano, Kim Jong Il, está fazendo renascer os mais podres sentimentos possíveis nos círculos reacionários, sobretudo na mídia colonizada. Uma infinidade de desinformações e caricaturas visando desqualificar o regime estão sendo lançadas hora após hora. Conforme feito com Kadhafi, o direito de um povo ao cultivo de sua história tem sido instrumento corriqueiro de desmoralização, no que tange as razões da comoção de um povo diante de seu líder e símbolo centenário de uma família cujo maior patrimônio foi a luta pela existência deste próprio povo em prantos. É como se o povo norte-americano fosse proibido, a partir de hoje, de cultuar os heróis de sua independência em 1776.
O mote midiático é demonstrar que a República Democrática e Popular da Coreia é uma anomalia internacional. Uma verdadeira entidade “maléfica”, pronta a invadir o seu vizinho do Sul e se possível se aliar e promover o terrorismo internacional. È apresentada como uma ameaça real à paz mundial. Um país que literalmente está matando seu povo de fome. Algo abominável cujo destino deveria ser o mesmo da Líbia de Kadhafi e do Iraque de Saddam Hussein. Um regime de “loucos”, agora prontos a explodir uma bomba nuclear no momento e na hora que acharem necessário. Esta história já conhecemos: é a mesma cantilena amplificada pelo imperialismo desde que em 1786 lançou-se em suas aventuras guerreiras externas. Ao desprover de história um país de 25 milhões de habitantes, busca-se condições objetivas ao fim de dominação. Mas a Coreia do Norte não é a Líbia ou o Iraque.
Aquele mesmo país que propugna os “direitos humanos” e a “democracia” foi capaz de destruir cada pilastra em pé da capital norte-coreana, Pyongyang, durante uma das mais brutais guerras do século XX. Além da Guerra do Vietnã, a chamada Guerra da Coréia (1951-1953) terminou com um armísticio em que a face da derrota não esteve com os coreanos do norte. Foi a primeira guerra em que os Estados Unidos, desde sua independência, tiveram de assinar um cessar fogo sem os louros da vitória. Evidente que dentro de uma subjetividade guerreira, assassina e suja, este mesmo regime que fez o imperialismo sentir o gosto da derrota, deveria ser derrotado e se possível ter sua terra salgada conforme feito pelos romanos em Cartago.
Essa condição de quase vitoriosa numa guerra com o mais brutal poder militar da história humana fez a Coreia do Norte desde então lutar diariamente pela sua sobrevivência como país. Fundada no bojo da ação de guerrilhas camponesas lideradas na década de 1930 por Kim Il Sung contra o nada democrático ocupante japonês, chegou ao poder em 1945 no embalo da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Membro da chamada Comunidade Socialista, desde o princípio buscou construir sua independência diante de seus próprios aliados. Forjou uma subjetividade de “autodeterminação” (Juche), constituiu sua própria base industrial e ainda no final da década de 1970 estava entre os 25 países mais industrializados do mundo, à frente da própria Coreia do Sul. Sempre fustigada pela presença do inimigo do outro lado da fronteira (30 mil soldados e ogivas nucleares acantonados no sul da península) tem passado por uma verdadeira prova de fogo desde o fim do bloco socialista no início da década de 1990, momento em que 78% de seu comércio externo desapareceu da noite para o dia.
Em 1994, morre Kim Il Sung o fundador do país, figura tida pelo ex-presidente Jimmy Carter como um dos “maiores estadistas do século XX”. As ameaças do imperialismo recrudescem a ponto de se impor um mortífero bloqueio econômico e financeiro. Algo de maior alcance que o imposto à Cuba e ao Iraque em seu tempo. A verdade é que a Coréia do Norte passou a ser a nação do mundo mais bloqueada, ameada e difamada desde o início da era dos Estados Nacionais formados na Europa no final da primeira metade do século XIX. Sua soberania é mantida a um grande custo financeiro que teve ápice há alguns anos atrás. A solução nuclear foi um imperativo diante de mais de 100 ogivas nucleares apontadas para o seu território e de ameaças cotidianas por todas as vias possíveis. O objetivo estratégico de reunificação com o sul da península tem sido solapado dia após dia pela própria presença do imperialismo na região. A solução pacífica do dilema da unificação coreana é algo cada vez mais distante diante de um imperialismo capaz de responder com mais violência diante de sua própria decadência.
É tarefa de todos os progressistas do mundo conhecer a real dimensão das opções norte-coreanas sob um verdadeiro cerco e aniquilamento imposto externamente. A defesa do direito à existência da Coreia do Norte se confunde com o próprio direito humano à vida. É algo de muito maior alcance do que nós próprios imaginamos.
A morte do líder norte-coreano, Kim Jong Il, está fazendo renascer os mais podres sentimentos possíveis nos círculos reacionários, sobretudo na mídia colonizada. Uma infinidade de desinformações e caricaturas visando desqualificar o regime estão sendo lançadas hora após hora. Conforme feito com Kadhafi, o direito de um povo ao cultivo de sua história tem sido instrumento corriqueiro de desmoralização, no que tange as razões da comoção de um povo diante de seu líder e símbolo centenário de uma família cujo maior patrimônio foi a luta pela existência deste próprio povo em prantos. É como se o povo norte-americano fosse proibido, a partir de hoje, de cultuar os heróis de sua independência em 1776.
O mote midiático é demonstrar que a República Democrática e Popular da Coreia é uma anomalia internacional. Uma verdadeira entidade “maléfica”, pronta a invadir o seu vizinho do Sul e se possível se aliar e promover o terrorismo internacional. È apresentada como uma ameaça real à paz mundial. Um país que literalmente está matando seu povo de fome. Algo abominável cujo destino deveria ser o mesmo da Líbia de Kadhafi e do Iraque de Saddam Hussein. Um regime de “loucos”, agora prontos a explodir uma bomba nuclear no momento e na hora que acharem necessário. Esta história já conhecemos: é a mesma cantilena amplificada pelo imperialismo desde que em 1786 lançou-se em suas aventuras guerreiras externas. Ao desprover de história um país de 25 milhões de habitantes, busca-se condições objetivas ao fim de dominação. Mas a Coreia do Norte não é a Líbia ou o Iraque.
Aquele mesmo país que propugna os “direitos humanos” e a “democracia” foi capaz de destruir cada pilastra em pé da capital norte-coreana, Pyongyang, durante uma das mais brutais guerras do século XX. Além da Guerra do Vietnã, a chamada Guerra da Coréia (1951-1953) terminou com um armísticio em que a face da derrota não esteve com os coreanos do norte. Foi a primeira guerra em que os Estados Unidos, desde sua independência, tiveram de assinar um cessar fogo sem os louros da vitória. Evidente que dentro de uma subjetividade guerreira, assassina e suja, este mesmo regime que fez o imperialismo sentir o gosto da derrota, deveria ser derrotado e se possível ter sua terra salgada conforme feito pelos romanos em Cartago.
Essa condição de quase vitoriosa numa guerra com o mais brutal poder militar da história humana fez a Coreia do Norte desde então lutar diariamente pela sua sobrevivência como país. Fundada no bojo da ação de guerrilhas camponesas lideradas na década de 1930 por Kim Il Sung contra o nada democrático ocupante japonês, chegou ao poder em 1945 no embalo da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Membro da chamada Comunidade Socialista, desde o princípio buscou construir sua independência diante de seus próprios aliados. Forjou uma subjetividade de “autodeterminação” (Juche), constituiu sua própria base industrial e ainda no final da década de 1970 estava entre os 25 países mais industrializados do mundo, à frente da própria Coreia do Sul. Sempre fustigada pela presença do inimigo do outro lado da fronteira (30 mil soldados e ogivas nucleares acantonados no sul da península) tem passado por uma verdadeira prova de fogo desde o fim do bloco socialista no início da década de 1990, momento em que 78% de seu comércio externo desapareceu da noite para o dia.
Em 1994, morre Kim Il Sung o fundador do país, figura tida pelo ex-presidente Jimmy Carter como um dos “maiores estadistas do século XX”. As ameaças do imperialismo recrudescem a ponto de se impor um mortífero bloqueio econômico e financeiro. Algo de maior alcance que o imposto à Cuba e ao Iraque em seu tempo. A verdade é que a Coréia do Norte passou a ser a nação do mundo mais bloqueada, ameada e difamada desde o início da era dos Estados Nacionais formados na Europa no final da primeira metade do século XIX. Sua soberania é mantida a um grande custo financeiro que teve ápice há alguns anos atrás. A solução nuclear foi um imperativo diante de mais de 100 ogivas nucleares apontadas para o seu território e de ameaças cotidianas por todas as vias possíveis. O objetivo estratégico de reunificação com o sul da península tem sido solapado dia após dia pela própria presença do imperialismo na região. A solução pacífica do dilema da unificação coreana é algo cada vez mais distante diante de um imperialismo capaz de responder com mais violência diante de sua própria decadência.
É tarefa de todos os progressistas do mundo conhecer a real dimensão das opções norte-coreanas sob um verdadeiro cerco e aniquilamento imposto externamente. A defesa do direito à existência da Coreia do Norte se confunde com o próprio direito humano à vida. É algo de muito maior alcance do que nós próprios imaginamos.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
O desenvolvimento do Brasil, sua história e seus desafios atuais - Por Elias Jabbour
Intervenção feita durante seminário realizado em Ramallah, na Palestina, envolvendo as fundações Rosa Luxemburgo e Fuad Nassar (ligada ao Partido do Povo Palestino – PPP).
A dimensão territorial, a pujança econômica e a dimensão do mercado interno são apenas expressões de uma rica experiência – em matéria de desenvolvimento econômico e social – e que deve ser motivo de debate e discussão tanto no Brasil quanto no exterior. É uma honra sem tamanho estar partilhando um pouco desta experiência com os companheiros e irmãos de nossa querida Palestina e de representantes de outros países neste seminário. Neste sentido, gostaria de frisar, para os comunistas brasileiros a independência da Palestina é sinônimo do direito ao desenvolvimento e ao planejamento. Enfim, o “direito a vida” como algo que dá sentido ao próprio espírito militante patriótico e internacionalista.
***
Após quase 25 anos de estagnação econômica, fruto de uma “crise de projeto” e de aplicações desastrosas de receitas neoliberais importadas, o Brasil reencontrou-se consigo mesmo. Um novo ciclo político iniciado com a ascensão de forças populares, patrióticas e democráticas ao governo nacional em 2003 recobrou o ânimo nacional, devolveu a autoestima ao nosso povo e colocou o Brasil de volta aos trilhos do desenvolvimento e da inclusão social. Esta tendência ganha força, contraditoriamente, com a eclosão da presente crise financeira. O mesmo país que teve de recorrer ao FMI por três vezes entre 1995 e 2003, passou a ser credor deste mesmo FMI e passou a jogar papel marcante nas relações internacionais e na própria democratização destas relações.
O patamar alcançado pelo Brasil nos últimos anos nos transformou em ator indispensável em um chamado “mundo em transição”. Mundo caracterizado por um lento declínio da hegemonia imperialista em detrimento de um maior destaque de países como o Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. Expressão deste mundo pode ser notada na força adquirida do movimento pelo reconhecimento do Estado da Palestina e sua admissão num organismo de prestígio como a UNESCO. O mundo não é o mesmo de 20 anos atrás.
O que pouco se percebe é que o atual processo de desenvolvimento brasileiro é parte de um todo que envolve herança tanto de uma grande experiência de desenvolvimento vivido entre os anos de 1930 e 1980, quanto das próprias contradições geradas no período citado. Trata-se, também, da trágica experiência neoliberal que assolou não somente o nosso país, mas o mundo como um todo. O salto qualitativo brasileiro recente é parte de um conjunto que necessariamente envolve ricas experiências em curso na América Latina.
Uma economia diversificada e complexa
O Brasil pode ser descrito como um grande país em desenvolvimento. Com uma indústria de porte médio e uma agricultura altamente tecnificada. Seu tamanho territorial, diferentes recortes climáticos, abundantes recursos naturais e uma indústria ainda muito concentrada regionalmente conferem ao país um caráter complexo, quase único. Somos a sétima maior economia do mundo e segunda maior das Américas. Projeções de diferentes organismos internacionais demonstram, que mantidas as atuais taxas de crescimento (4% ao ano), que o Brasil ocupará o posto de quarta economia do mundo por volta de 2050.
Muito nos orgulha de sermos o país do samba e do futebol. Mas, não somos apenas isso. O Brasil desenvolve projetos e produz desde submarinos nucleares até aviões comerciais. Temos um projeto espacial em desenvolvimento e somos pioneiros na extração de petróleo em águas profundas e transformação de cana de açúcar em combustível para automóveis. Temos a segunda maior empresa estatal do mundo (PETROBRÁS) e em 2008, 39 companhias brasileiras estavam incluídas na lista Global 2000 da revista Fortune.
Nosso país transitou com muita rapidez na transformação da agricultura em uma atividade industrial com grande escala de produção. O Brasil é o segundo maior exportador de grãos de mundo. Além disso, produzimos carne bovina suficiente para abastecer toda a demanda internacional. A excelência brasileira nesta área não se encontra somente na dimensão de nossa produção agrícola. Inovações em matéria de crédito bancário e apoio estatal direto têm possibilitado a inclusão de quase um milhão de pequenos agricultores na divisão social do trabalho a partir de programas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). O altíssimo nível alcançado por nossa ciência agronômica é fator de elevação da influência internacional do Brasil, sobretudo em países africanos onde nosso país executa convênios e parcerias para o fortalecimento da agricultura de países-irmãos mais pobres.
A extração mineral é outra grande fronteira de acumulação, sobretudo pelo fato de combinarmos a existência, em nosso território, das maiores jazidas de ferro do mundo com o fato de a maior empresa de extração mineral do mundo ser brasileira, a Companhia Vale do Rio do Doce. A descoberta de enormes jazidas de petróleo e gás natural no chamado pré-sal deve ser destacada, pois além de exportador de petróleo, poderemos nos tornar uma verdadeira potência petroquímica internacional, garantindo continuidade ao nosso processo de industrialização, o que requer a aplicação de novas e superiores formas de planejamento econômico e social.
Determinados parâmetros econômicos, com consequências políticas estratégicas, devem ser sublinhados no debate sobre a relação entre soberania nacional e desenvolvimento econômico. Acredito que a independência nacional tem expressões históricas. Historicamente a soberania nacional expressou-se, por exemplo, na implantação de uma indústria pesada. A atual crise financeira demonstra que os países que estão fazendo frente a esta conjuntura são caracterizados por possuírem amplos sistemas financeiros nacionais fortalecidos por uma política comercial planificada que privilegia o acúmulo de reservas cambiais. O Brasil possui um dos mais sofisticados e complexos sistemas financeiros do mundo que abarca um sistema estatal de financiamento da produção, além de mais de 150 bancos privados nacionais e estrangeiros operando no país e de um mercado de capitais de porte médio. Sob um ponto de vista particular, a implantação de um sistema nacional de intermediação financeira é uma grande conquista no rumo da plena soberania de qualquer país. Segundo Marx, “a economia monetária foi a maior invenção do capitalismo”.
A experiência brasileira em perspectiva histórica
A história do processo de desenvolvimento varia muito de um país para outro. As leis econômicas apesar de serem regidas por leis de essência universal tem em cada formação social uma forma específica de agir determinada por condições objetivas e subjetivas de cada país ou região. Por exemplo, nos Estados Unidos criou-se um tipo de propriedade agrícola extremamente favorável à produção ao autoconsumo e ao investimento de capital. Na Inglaterra, a Revolução Industrial se dá nos marcos da expropriação camponesa, levando a uma redução dos salários e – consequentemente – a uma maior competitividade da indústria inglesa.
Desde a sua “descoberta” em 1500 até a proclamação da Independência em 1822, o Brasil se transformou numa competente empresa comercial sob administração portuguesa exportadora de cana-de-açúcar e ouro e importadora de escravos. Abrindo parêntese, esta mesma lógica cíclica pode ser percebida no século XX, pois exportávamos produtos agrícolas e importávamos máquinas. Mas esta descrição de nossa colonização não é uma verdade absoluta. Sim, o comércio exterior por muito tempo foi a variável estratégica do desenvolvimento brasileiro. Mas um dinamismo interno precoce pode ser claramente perceptível, por exemplo, numa agricultura altamente dinâmica (já no século XIX), com uma competente produção de alimentos para o próprio mercado interno. O dinamismo econômico brasileiro também é produto da assimilação de outras culturas formadoras de nossa nacionalidade.
Impossível não colocar em relevo a variável, que se tornou estratégica, da cultura empreendedora alemã, japonesa e árabe. Assimilamos tanto a tenacidade típica do povo português e a criatividade e a capacidade de trabalho dos africanos, quanto do olhar empresarial estratégico europeu, asiático e árabe. Eis uma das particularidades brasileiras: somos um povo empreendedor e sagaz.
***
Porém a capacidade empreendedora de um povo só se transforma em força material quando o desenvolvimento passa a ser objetivo estratégico de um Estado Nacional. A crise de 1929 engendrou profundas mudanças no mundo e as mesmas se fizeram sentir com força no Brasil. A restrição externa criada pela perda de mercado para nossos produtos agrícolas (sobretudo café) foi a principal condição objetiva para a materialização do desenvolvimento industrial como política oficial do Estado Nacional brasileiro. A Revolução de 1930 liderada pelo estadista e patriota Getúlio Vargas criou as condições institucionais para que o Brasil adentrasse de fato no século XX. Para os comunistas brasileiros, a Revolução de 1930 tem caráter de salto civilizacional, somente comparada (em alcance estratégico) com a independência de 1822. Esta revolução burguesa marcou a derrota das forças políticas interessadas em manter o Brasil como uma mera nação agrária. Foi o momento em que o nacionalismo, como força política, se materializou sob a forma de luta pelo direito ao desenvolvimento e ao planejamento de nosso desenvolvimento.
O fato concreto resultante deste processo está no fato de o Brasil, ao lado da União Soviética e o Japão, foi o país que mais cresceu no mundo entre 1930 e 1980. Na verdade pode-se afirmar que o Brasil saiu da Idade Média em 1930 e adentrou na Idade Contemporânea em 1980. Em 50 anos percorremos o caminho que a Europa percorreu em 600 anos. Construímos as bases de um poderoso capitalismo de Estado, unificamos nosso mercado nacional. Construímos duas das maiores usinas hidrelétricas do mundo, transformamos a PETROBRAS numa empresa de ponta, construímos – com material fabricado no próprio país – o metrô mais moderno do mundo localizado na cidade de São Paulo e a nossa agropecuária tornou-se a mais dinâmica do mundo.
Para o Partido Comunista do Brasil, a história de nosso país não é uma teia de fracassos e revezes. Não alimentamos uma visão catastrofista de nosso passado nem tampouco somos pessimistas com relação ao futuro. Esta visão positiva do processo histórico da construção de nossa nação só é possível na medida em que temos plena consciência que esta mesma construção foi, e está, repleta de contradições. Contradições tais que se constituem no próprio motor do processo de desenvolvimento. A ordem de contradições deste processo é variada. Não percorremos o caminho clássico marcado por uma reforma agrária anterior à industrialização. O Brasil se industrializou sem prévia reforma agrária. A não realização de uma reforma agrária é a razão primária por ainda sermos um dos países mais desiguais do mundo. O Brasil do século XX passou por um brutal processo de urbanização. A crise do modelo “nacional-desenvolvimentista” e as “duas décadas perdidas” mostraram a face mais cruel do processo: crise de superpopulação agrária que se transformou em crise urbana; endividamento externo; crise social; altos índices de desemprego; altos índices de criminalidade; hiperinflação, dentre outros sintomas sentidos ainda hoje.
A contrarrevolução neoliberal e a ascensão de Lula
A “crise do modelo”, a grave crise social e a derrocada das primeiras experiências socialistas no início da década de 1990 abriram condições para um verdadeiro retrocesso político, social e econômico no mundo, na América Latina e também no Brasil. Forças políticas compromissadas com os desígnios do “Consenso de Washington” chegaram ao poder do Estado Nacional brasileiro com um discurso de “modernização”. Em perspectiva histórica trata-se de forças políticas antagônicas ao projeto vitorioso na Revolução de 1930. Trata-se de “agraristas” sob o manto de um discurso “globalizante” e com ares de “novo”. O economista brasileiro Ignacio Rangel definiu bem esta “nova ordem” ao apontar que a ascensão de Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin na URSS e a eleição de Fernando Collor de Mello no Brasil são expressões de uma “apostasia”, de uma “contrarrevolução”. E Fernando Henrique Cardoso foi a continuação radicalizada desta contrarrevolução que obteve resultados expressivos no “combate à inflação” e na “estabilidade monetária”, porém às custas de um retrocesso nacional e social sem parâmetros na história brasileira. Fernando Henrique Cardoso, não sem motivo, alcunhou o apelido “serial killer da juventude brasileira”.
Um extenso programa de privatizações, desregulamentação e ampla abertura de nossa economia foi aplicada. Como disse mais acima, durante mais de 10 anos era muito normal o Brasil pedir socorro ao FMI que por sua vez respondia com empréstimos sob condicionalidades que significavam um peso insuportável para o povo brasileiro. O colapso dos serviços sociais, a aplicação de uma política externa alinhada aos interesses do imperialismo e a quebra do tecido social brasileiro são as marcas de uma época triste de nossa história. Truculência no trato com os movimentos sociais foram outra marca: multiplicaram os assassinatos de líderes populares e de trabalhadores rurais sem-terra. Uma política de arrocho salarial e de terrorismo contra os trabalhadores foi implantada. A fome no Nordeste (a região mais pobre do Brasil) atingiu índices alarmantes e mais de 40 milhões de brasileiros não consumiam o número de calorias mínimas para seu autossustento. O retrocesso só não foi maior por conta da própria capacidade de resistência do povo brasileiro que reagiu prontamente contra as intenções do governo de privatizar o sistema financeiro público e a PETROBRAS.
A eleição de Lula em 2002 foi uma resposta popular a dez anos de deterioração do ambiente econômico, político e social brasileiro. Porém, é inegável que Lula representou uma “revolução democrática” sem parâmetros na história brasileira: cerca de 30 milhões de brasileiros foram retirados da linha da pobreza entre 2003 e 2010. Entre 2003 e 2010 foram gerados no Brasil 13 milhões de empregos e atualmente gozamos do menor índice de desemprego de nossa história (6%).
A retomada do crescimento e desenvolvimento econômicos no Brasil foi fruto de uma série de fatores, dentre os principais:
1) Política externa ativa, que privilegia amplas relações políticas, econômicas e comerciais com parceiros como a China, os países árabes, Índia, África e América Latina;
2) A alta dos preços de produtos primários no mercado externo puxada, principalmente, pela demanda chinesa;
3) Políticas distributivistas com grande impacto social, sendo o principal deles, o Bolsa Família, que beneficiou mais de 10 milhões de famílias;
4) Financiamentos voltados diretamente ao pequeno produtor agrícola via Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF);
5) Expansão plena da rede elétrica para as regiões mais pobres do país, sintetizado no ousado plano “Luz Para Todos”;
6) Financiamento de dois milhões de unidades habitacionais no Programa “Minha Casa, Minha Vida”;
7) Retomada do papel indutor do sistema público de intermediação financeira via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal;
8) A retomada de mecanismos de planejamento econômico, sobretudo no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), com investimentos conjuntos entre Estado e iniciativa privada em infraestruturas da ordem de US$ 200 bilhões até 2015;
9) Aumento da capacidade de investimentos de grandes empresas estatais como a Petrobrás e a Eletrobrás. Somente a Petrobrás tem investimentos previstos, até 2015, da ordem de US$ 250 bilhões em novas cadeias produtivas da indústria petroquímica e naval;
10) Política ousada de reajustes do salário mínimo com aumentos acumulados entre 2003 e 2010 de 172% (sendo que a inflação no período foi de 76,6%, ou seja, um ganho real de quase 100%);
É inegável que num ambiente de acirrada batalha política interna, o governo Lula tornou-se um marco na reversão das políticas antinacionais e antipopulares da era neoliberal. Na visão do Partido Comunista do Brasil, a “era Lula” teve de superar a grave crise econômica e social que herdou. Ele livrou o país de um projeto claramente neocolonizador (Área de Livre Comércio das Américas – ALCA) e pôs fim à tutela do FMI sobre o país. Essa tomada de posição permitiu-lhe retomar o desenvolvimento, ainda com limitações, voltado para soberania, ampliação da democracia, distribuição de renda e integração da América do Sul e da América Latina.
Mas os desafios para o progresso efetivo e a consolidação de uma nova era de desenvolvimento econômico e social são por demais grandes. A partir de 2011 o governo Dilma Roussef tem sinalizado de forma muito positiva neste momento de impasse da economia internacional, com grandes reflexos para o Brasil. As taxas de juros (ainda as maiores do mundo) estão em queda, os programas sociais estão mantidos e ampliados e uma série de medidas voltadas para a proteção de nossa indústria estão sendo implementados.
Porém, resta ainda um longo caminho para a consolidação das conquistas e aprofundamento das mudanças em nosso país. Mudanças tais com caráter nada imediato, e sim com grandes implicações de ordem estratégica.
Os comunistas e o “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”
O Brasil é um país muito complexo, complexidade esta refletida num ambiente político cada vez mais radicalizado, onde uma oposição conservadora feroz não mede esforços para conter os avanços obtidos nos últimos anos. Não temos ilusões quanto a uma derrota efetiva do neoliberalismo em nosso país. Hegemonia eleitoral não quer dizer, necessariamente, a existência de uma hegemonia na sociedade como um todo. Os desafios da continuidade do processo de desenvolvimento em nosso país são desafios políticos que demandam um grande esforço de unidade e clareza de rumos acerca de objetivos estratégicos.
Para os comunistas brasileiros é muito claro que existe a necessidade de alçar o presente processo político a um outro patamar. Este outro patamar, chamado a corrigir os impasses e as deformações estruturais de nosso país tem claro sentido de “salto civilizacional” (como os ocorridos em 1822 e 1930). Este salto civilizacional será a implementação de um “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento” e do Programa Socialista do PCdoB. Este Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento é chamado para a superação definitiva de uma imensa gama de contradições internas que vão desde o caráter ainda dependente de nossa economia, científica e tecnológica, até a existência em nosso país de graves mazelas sociais e ameaças constantes à nossa soberania. Em nossa época, a superação dessas contradições ganha a dimensão de conquista estratégica. É condição para um desenvolvimento avançado e um futuro de bem-estar social. A presente crise financeira coloca tanto o mundo quanto o Brasil numa verdadeira encruzilhada histórica.
Conforme indica a tendência histórica objetiva, a solução para o Brasil é acumular forças para a plena consecução de um “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”, o que em outras palavras significa abrir um amplo relevo que nos levará a um “caminho brasileiro para o socialismo”.
Elias Jabbour é doutor e mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Ex-Assessor Econômico da Presidência da Câmara dos Deputados (2006-2007). Autor de livros, dentre eles, “China: Infra-Estruturas e Crescimento Econômico” (2006) e “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (2011). É membro da Comissão Auxiliar da Presidência Nacional do Partido Comunista do Brasil
A dimensão territorial, a pujança econômica e a dimensão do mercado interno são apenas expressões de uma rica experiência – em matéria de desenvolvimento econômico e social – e que deve ser motivo de debate e discussão tanto no Brasil quanto no exterior. É uma honra sem tamanho estar partilhando um pouco desta experiência com os companheiros e irmãos de nossa querida Palestina e de representantes de outros países neste seminário. Neste sentido, gostaria de frisar, para os comunistas brasileiros a independência da Palestina é sinônimo do direito ao desenvolvimento e ao planejamento. Enfim, o “direito a vida” como algo que dá sentido ao próprio espírito militante patriótico e internacionalista.
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Após quase 25 anos de estagnação econômica, fruto de uma “crise de projeto” e de aplicações desastrosas de receitas neoliberais importadas, o Brasil reencontrou-se consigo mesmo. Um novo ciclo político iniciado com a ascensão de forças populares, patrióticas e democráticas ao governo nacional em 2003 recobrou o ânimo nacional, devolveu a autoestima ao nosso povo e colocou o Brasil de volta aos trilhos do desenvolvimento e da inclusão social. Esta tendência ganha força, contraditoriamente, com a eclosão da presente crise financeira. O mesmo país que teve de recorrer ao FMI por três vezes entre 1995 e 2003, passou a ser credor deste mesmo FMI e passou a jogar papel marcante nas relações internacionais e na própria democratização destas relações.
O patamar alcançado pelo Brasil nos últimos anos nos transformou em ator indispensável em um chamado “mundo em transição”. Mundo caracterizado por um lento declínio da hegemonia imperialista em detrimento de um maior destaque de países como o Brasil, China, Índia, Rússia e África do Sul. Expressão deste mundo pode ser notada na força adquirida do movimento pelo reconhecimento do Estado da Palestina e sua admissão num organismo de prestígio como a UNESCO. O mundo não é o mesmo de 20 anos atrás.
O que pouco se percebe é que o atual processo de desenvolvimento brasileiro é parte de um todo que envolve herança tanto de uma grande experiência de desenvolvimento vivido entre os anos de 1930 e 1980, quanto das próprias contradições geradas no período citado. Trata-se, também, da trágica experiência neoliberal que assolou não somente o nosso país, mas o mundo como um todo. O salto qualitativo brasileiro recente é parte de um conjunto que necessariamente envolve ricas experiências em curso na América Latina.
Uma economia diversificada e complexa
O Brasil pode ser descrito como um grande país em desenvolvimento. Com uma indústria de porte médio e uma agricultura altamente tecnificada. Seu tamanho territorial, diferentes recortes climáticos, abundantes recursos naturais e uma indústria ainda muito concentrada regionalmente conferem ao país um caráter complexo, quase único. Somos a sétima maior economia do mundo e segunda maior das Américas. Projeções de diferentes organismos internacionais demonstram, que mantidas as atuais taxas de crescimento (4% ao ano), que o Brasil ocupará o posto de quarta economia do mundo por volta de 2050.
Muito nos orgulha de sermos o país do samba e do futebol. Mas, não somos apenas isso. O Brasil desenvolve projetos e produz desde submarinos nucleares até aviões comerciais. Temos um projeto espacial em desenvolvimento e somos pioneiros na extração de petróleo em águas profundas e transformação de cana de açúcar em combustível para automóveis. Temos a segunda maior empresa estatal do mundo (PETROBRÁS) e em 2008, 39 companhias brasileiras estavam incluídas na lista Global 2000 da revista Fortune.
Nosso país transitou com muita rapidez na transformação da agricultura em uma atividade industrial com grande escala de produção. O Brasil é o segundo maior exportador de grãos de mundo. Além disso, produzimos carne bovina suficiente para abastecer toda a demanda internacional. A excelência brasileira nesta área não se encontra somente na dimensão de nossa produção agrícola. Inovações em matéria de crédito bancário e apoio estatal direto têm possibilitado a inclusão de quase um milhão de pequenos agricultores na divisão social do trabalho a partir de programas como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF). O altíssimo nível alcançado por nossa ciência agronômica é fator de elevação da influência internacional do Brasil, sobretudo em países africanos onde nosso país executa convênios e parcerias para o fortalecimento da agricultura de países-irmãos mais pobres.
A extração mineral é outra grande fronteira de acumulação, sobretudo pelo fato de combinarmos a existência, em nosso território, das maiores jazidas de ferro do mundo com o fato de a maior empresa de extração mineral do mundo ser brasileira, a Companhia Vale do Rio do Doce. A descoberta de enormes jazidas de petróleo e gás natural no chamado pré-sal deve ser destacada, pois além de exportador de petróleo, poderemos nos tornar uma verdadeira potência petroquímica internacional, garantindo continuidade ao nosso processo de industrialização, o que requer a aplicação de novas e superiores formas de planejamento econômico e social.
Determinados parâmetros econômicos, com consequências políticas estratégicas, devem ser sublinhados no debate sobre a relação entre soberania nacional e desenvolvimento econômico. Acredito que a independência nacional tem expressões históricas. Historicamente a soberania nacional expressou-se, por exemplo, na implantação de uma indústria pesada. A atual crise financeira demonstra que os países que estão fazendo frente a esta conjuntura são caracterizados por possuírem amplos sistemas financeiros nacionais fortalecidos por uma política comercial planificada que privilegia o acúmulo de reservas cambiais. O Brasil possui um dos mais sofisticados e complexos sistemas financeiros do mundo que abarca um sistema estatal de financiamento da produção, além de mais de 150 bancos privados nacionais e estrangeiros operando no país e de um mercado de capitais de porte médio. Sob um ponto de vista particular, a implantação de um sistema nacional de intermediação financeira é uma grande conquista no rumo da plena soberania de qualquer país. Segundo Marx, “a economia monetária foi a maior invenção do capitalismo”.
A experiência brasileira em perspectiva histórica
A história do processo de desenvolvimento varia muito de um país para outro. As leis econômicas apesar de serem regidas por leis de essência universal tem em cada formação social uma forma específica de agir determinada por condições objetivas e subjetivas de cada país ou região. Por exemplo, nos Estados Unidos criou-se um tipo de propriedade agrícola extremamente favorável à produção ao autoconsumo e ao investimento de capital. Na Inglaterra, a Revolução Industrial se dá nos marcos da expropriação camponesa, levando a uma redução dos salários e – consequentemente – a uma maior competitividade da indústria inglesa.
Desde a sua “descoberta” em 1500 até a proclamação da Independência em 1822, o Brasil se transformou numa competente empresa comercial sob administração portuguesa exportadora de cana-de-açúcar e ouro e importadora de escravos. Abrindo parêntese, esta mesma lógica cíclica pode ser percebida no século XX, pois exportávamos produtos agrícolas e importávamos máquinas. Mas esta descrição de nossa colonização não é uma verdade absoluta. Sim, o comércio exterior por muito tempo foi a variável estratégica do desenvolvimento brasileiro. Mas um dinamismo interno precoce pode ser claramente perceptível, por exemplo, numa agricultura altamente dinâmica (já no século XIX), com uma competente produção de alimentos para o próprio mercado interno. O dinamismo econômico brasileiro também é produto da assimilação de outras culturas formadoras de nossa nacionalidade.
Impossível não colocar em relevo a variável, que se tornou estratégica, da cultura empreendedora alemã, japonesa e árabe. Assimilamos tanto a tenacidade típica do povo português e a criatividade e a capacidade de trabalho dos africanos, quanto do olhar empresarial estratégico europeu, asiático e árabe. Eis uma das particularidades brasileiras: somos um povo empreendedor e sagaz.
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Porém a capacidade empreendedora de um povo só se transforma em força material quando o desenvolvimento passa a ser objetivo estratégico de um Estado Nacional. A crise de 1929 engendrou profundas mudanças no mundo e as mesmas se fizeram sentir com força no Brasil. A restrição externa criada pela perda de mercado para nossos produtos agrícolas (sobretudo café) foi a principal condição objetiva para a materialização do desenvolvimento industrial como política oficial do Estado Nacional brasileiro. A Revolução de 1930 liderada pelo estadista e patriota Getúlio Vargas criou as condições institucionais para que o Brasil adentrasse de fato no século XX. Para os comunistas brasileiros, a Revolução de 1930 tem caráter de salto civilizacional, somente comparada (em alcance estratégico) com a independência de 1822. Esta revolução burguesa marcou a derrota das forças políticas interessadas em manter o Brasil como uma mera nação agrária. Foi o momento em que o nacionalismo, como força política, se materializou sob a forma de luta pelo direito ao desenvolvimento e ao planejamento de nosso desenvolvimento.
O fato concreto resultante deste processo está no fato de o Brasil, ao lado da União Soviética e o Japão, foi o país que mais cresceu no mundo entre 1930 e 1980. Na verdade pode-se afirmar que o Brasil saiu da Idade Média em 1930 e adentrou na Idade Contemporânea em 1980. Em 50 anos percorremos o caminho que a Europa percorreu em 600 anos. Construímos as bases de um poderoso capitalismo de Estado, unificamos nosso mercado nacional. Construímos duas das maiores usinas hidrelétricas do mundo, transformamos a PETROBRAS numa empresa de ponta, construímos – com material fabricado no próprio país – o metrô mais moderno do mundo localizado na cidade de São Paulo e a nossa agropecuária tornou-se a mais dinâmica do mundo.
Para o Partido Comunista do Brasil, a história de nosso país não é uma teia de fracassos e revezes. Não alimentamos uma visão catastrofista de nosso passado nem tampouco somos pessimistas com relação ao futuro. Esta visão positiva do processo histórico da construção de nossa nação só é possível na medida em que temos plena consciência que esta mesma construção foi, e está, repleta de contradições. Contradições tais que se constituem no próprio motor do processo de desenvolvimento. A ordem de contradições deste processo é variada. Não percorremos o caminho clássico marcado por uma reforma agrária anterior à industrialização. O Brasil se industrializou sem prévia reforma agrária. A não realização de uma reforma agrária é a razão primária por ainda sermos um dos países mais desiguais do mundo. O Brasil do século XX passou por um brutal processo de urbanização. A crise do modelo “nacional-desenvolvimentista” e as “duas décadas perdidas” mostraram a face mais cruel do processo: crise de superpopulação agrária que se transformou em crise urbana; endividamento externo; crise social; altos índices de desemprego; altos índices de criminalidade; hiperinflação, dentre outros sintomas sentidos ainda hoje.
A contrarrevolução neoliberal e a ascensão de Lula
A “crise do modelo”, a grave crise social e a derrocada das primeiras experiências socialistas no início da década de 1990 abriram condições para um verdadeiro retrocesso político, social e econômico no mundo, na América Latina e também no Brasil. Forças políticas compromissadas com os desígnios do “Consenso de Washington” chegaram ao poder do Estado Nacional brasileiro com um discurso de “modernização”. Em perspectiva histórica trata-se de forças políticas antagônicas ao projeto vitorioso na Revolução de 1930. Trata-se de “agraristas” sob o manto de um discurso “globalizante” e com ares de “novo”. O economista brasileiro Ignacio Rangel definiu bem esta “nova ordem” ao apontar que a ascensão de Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin na URSS e a eleição de Fernando Collor de Mello no Brasil são expressões de uma “apostasia”, de uma “contrarrevolução”. E Fernando Henrique Cardoso foi a continuação radicalizada desta contrarrevolução que obteve resultados expressivos no “combate à inflação” e na “estabilidade monetária”, porém às custas de um retrocesso nacional e social sem parâmetros na história brasileira. Fernando Henrique Cardoso, não sem motivo, alcunhou o apelido “serial killer da juventude brasileira”.
Um extenso programa de privatizações, desregulamentação e ampla abertura de nossa economia foi aplicada. Como disse mais acima, durante mais de 10 anos era muito normal o Brasil pedir socorro ao FMI que por sua vez respondia com empréstimos sob condicionalidades que significavam um peso insuportável para o povo brasileiro. O colapso dos serviços sociais, a aplicação de uma política externa alinhada aos interesses do imperialismo e a quebra do tecido social brasileiro são as marcas de uma época triste de nossa história. Truculência no trato com os movimentos sociais foram outra marca: multiplicaram os assassinatos de líderes populares e de trabalhadores rurais sem-terra. Uma política de arrocho salarial e de terrorismo contra os trabalhadores foi implantada. A fome no Nordeste (a região mais pobre do Brasil) atingiu índices alarmantes e mais de 40 milhões de brasileiros não consumiam o número de calorias mínimas para seu autossustento. O retrocesso só não foi maior por conta da própria capacidade de resistência do povo brasileiro que reagiu prontamente contra as intenções do governo de privatizar o sistema financeiro público e a PETROBRAS.
A eleição de Lula em 2002 foi uma resposta popular a dez anos de deterioração do ambiente econômico, político e social brasileiro. Porém, é inegável que Lula representou uma “revolução democrática” sem parâmetros na história brasileira: cerca de 30 milhões de brasileiros foram retirados da linha da pobreza entre 2003 e 2010. Entre 2003 e 2010 foram gerados no Brasil 13 milhões de empregos e atualmente gozamos do menor índice de desemprego de nossa história (6%).
A retomada do crescimento e desenvolvimento econômicos no Brasil foi fruto de uma série de fatores, dentre os principais:
1) Política externa ativa, que privilegia amplas relações políticas, econômicas e comerciais com parceiros como a China, os países árabes, Índia, África e América Latina;
2) A alta dos preços de produtos primários no mercado externo puxada, principalmente, pela demanda chinesa;
3) Políticas distributivistas com grande impacto social, sendo o principal deles, o Bolsa Família, que beneficiou mais de 10 milhões de famílias;
4) Financiamentos voltados diretamente ao pequeno produtor agrícola via Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF);
5) Expansão plena da rede elétrica para as regiões mais pobres do país, sintetizado no ousado plano “Luz Para Todos”;
6) Financiamento de dois milhões de unidades habitacionais no Programa “Minha Casa, Minha Vida”;
7) Retomada do papel indutor do sistema público de intermediação financeira via BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal;
8) A retomada de mecanismos de planejamento econômico, sobretudo no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), com investimentos conjuntos entre Estado e iniciativa privada em infraestruturas da ordem de US$ 200 bilhões até 2015;
9) Aumento da capacidade de investimentos de grandes empresas estatais como a Petrobrás e a Eletrobrás. Somente a Petrobrás tem investimentos previstos, até 2015, da ordem de US$ 250 bilhões em novas cadeias produtivas da indústria petroquímica e naval;
10) Política ousada de reajustes do salário mínimo com aumentos acumulados entre 2003 e 2010 de 172% (sendo que a inflação no período foi de 76,6%, ou seja, um ganho real de quase 100%);
É inegável que num ambiente de acirrada batalha política interna, o governo Lula tornou-se um marco na reversão das políticas antinacionais e antipopulares da era neoliberal. Na visão do Partido Comunista do Brasil, a “era Lula” teve de superar a grave crise econômica e social que herdou. Ele livrou o país de um projeto claramente neocolonizador (Área de Livre Comércio das Américas – ALCA) e pôs fim à tutela do FMI sobre o país. Essa tomada de posição permitiu-lhe retomar o desenvolvimento, ainda com limitações, voltado para soberania, ampliação da democracia, distribuição de renda e integração da América do Sul e da América Latina.
Mas os desafios para o progresso efetivo e a consolidação de uma nova era de desenvolvimento econômico e social são por demais grandes. A partir de 2011 o governo Dilma Roussef tem sinalizado de forma muito positiva neste momento de impasse da economia internacional, com grandes reflexos para o Brasil. As taxas de juros (ainda as maiores do mundo) estão em queda, os programas sociais estão mantidos e ampliados e uma série de medidas voltadas para a proteção de nossa indústria estão sendo implementados.
Porém, resta ainda um longo caminho para a consolidação das conquistas e aprofundamento das mudanças em nosso país. Mudanças tais com caráter nada imediato, e sim com grandes implicações de ordem estratégica.
Os comunistas e o “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”
O Brasil é um país muito complexo, complexidade esta refletida num ambiente político cada vez mais radicalizado, onde uma oposição conservadora feroz não mede esforços para conter os avanços obtidos nos últimos anos. Não temos ilusões quanto a uma derrota efetiva do neoliberalismo em nosso país. Hegemonia eleitoral não quer dizer, necessariamente, a existência de uma hegemonia na sociedade como um todo. Os desafios da continuidade do processo de desenvolvimento em nosso país são desafios políticos que demandam um grande esforço de unidade e clareza de rumos acerca de objetivos estratégicos.
Para os comunistas brasileiros é muito claro que existe a necessidade de alçar o presente processo político a um outro patamar. Este outro patamar, chamado a corrigir os impasses e as deformações estruturais de nosso país tem claro sentido de “salto civilizacional” (como os ocorridos em 1822 e 1930). Este salto civilizacional será a implementação de um “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento” e do Programa Socialista do PCdoB. Este Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento é chamado para a superação definitiva de uma imensa gama de contradições internas que vão desde o caráter ainda dependente de nossa economia, científica e tecnológica, até a existência em nosso país de graves mazelas sociais e ameaças constantes à nossa soberania. Em nossa época, a superação dessas contradições ganha a dimensão de conquista estratégica. É condição para um desenvolvimento avançado e um futuro de bem-estar social. A presente crise financeira coloca tanto o mundo quanto o Brasil numa verdadeira encruzilhada histórica.
Conforme indica a tendência histórica objetiva, a solução para o Brasil é acumular forças para a plena consecução de um “Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento”, o que em outras palavras significa abrir um amplo relevo que nos levará a um “caminho brasileiro para o socialismo”.
Elias Jabbour é doutor e mestre em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo. Ex-Assessor Econômico da Presidência da Câmara dos Deputados (2006-2007). Autor de livros, dentre eles, “China: Infra-Estruturas e Crescimento Econômico” (2006) e “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (2011). É membro da Comissão Auxiliar da Presidência Nacional do Partido Comunista do Brasil
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