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domingo, 31 de março de 2013

Rusia Today entrevista Cao Benós sobre as razões da Coreia do Norte na atual tensão com os EUA e a Coreia do Sul (español)

Dado a quantidade de sanções que se impuseram à RPD da Coreia, Rusia Today outra vez rompe um bloqueio e fez a seguinte entrevista como Cao de Benós, representante da Coreia Popular, que numa entrevista esclarecedora faz o que não existe no debate acerca da Península Coreana, permite o contraponto. 
Importante sobretudo porque permite uma competente exposição do que é o modelo coreano, inclusive para o devido distanciamento crítico e nacional. Os caminhos à RPDC sempre foram bloqueados pela violência do imperialismo, impondo sempre decisões difíceis e marcadas pela coragem. Todos em favor da Paz e da suspensão dos exercícios militares dos EUA e da Coreia do Sul na região!




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Sincero era o choro do Bonner - Paulo Vinícius Silva


Dyneas Aguiar canta samba contra a Guerra da Coreia


Lembro de mim, criança, lá na avenida C do Nova Assunção, em Fortaleza, chorando - e todo mundo nas calçadas - a morte do Tancredo Neves. Lembro do respeito ao choro de ACM pela morte de seu filho. Lembro de Dona Ruth, e nos dois casos, a tentativa malograda de criar uma comoção nacional foi descarada. Aliás, quem se lembra do Bonner chorando no JN a morte do Roberto Marinho?

Alguém disse: são lágrimas fingidas?

Mas coreano, no Norte, não pode chorar. Ainda mais em massa. Afinal, dia após dia, ironizou-se Kim Jong Il por ser denominado de "querido líder". Como poderiam aceitar ser ele de fato querido? E as piadas sobre suas viagens pelo país? Como poderiam aceitar a referência construída pelo líder coreano, que visitava todo canteiro de obra, escolas, conversando com a população que agora lhe pranteia? Como poderiam entender, ridicularizando a roupa e a aparência de Kim Jong Il, que seu "uniforme militar", na verdade era como uma guayabera coreana, um traje exatamente oposto à imponência, sem uma insignia sequer. Um fato meio óbvio, já que os uniformes militares estavam sempre à vista, ao lado dele, mas o nosso jornalismo golpista é de uma pobreza analítica desconcertante, não fosse a má-fé que a move. Como entender que o governante alcunhado de esquisito é um dos fenótipos mais comuns de coreanos? Ou seja, como entender a identificação do povo da RPDC com seu líder, sem ter de negar tudo o que dele se disse, com racismo até?

E esse negócio das mulheres militares? Armadas! Aliás, esse tal exército com mais de 5% da população, um exército político e forjado na luta contra o imperialismo? Será que é absurdo pensar na admiração popular pelas suas forças armadas, pela sua capacidade de defender seu país contra o Japão e os EUA, depois de todas as atrocidades por eles cometidas? Será que os coreanos não sabem o que houve no Afeganistão, no Iraque, na Líbia? E, sabendo, por que é tão absurdo entender o engajamento nacional na construção da capacidade defensiva que impede o que houve naqueles países? E por que negar-lhes o orgulho por poderem se defender?

Não. Aos coreanos no Norte não se admite mérito nenhum, muito menos que chorem, porque o choro humaniza. Uma vez, numa viagem internacional, vi um coreano meio derretido, olhando um brinquedo. Quando inquiri, soube que pensava nos filhos, procurava algo pra eles...

São pessoas. Não podemos calar quando vez após outra se justificam guerras mentirosas para matar as pessoas em suas casas, invadindo países, massacrando crianças, mulheres, idosos... Na verdade é disso que se trata. E é para impedir essa empatia com as pessoas, que a imprensa do imperialismo não nos deixa vê-las como seres humanos, e demoniza para isso.

Por isso os coreanos no norte precisam ser pintados à luz da caricatura do imperialismo, enquanto os que vivem no Sul são incensados todo dia pela Míriam Leitão. Ninguém fala das sucessivas ditaduras militares na Coreia do Sul, dos 30 mil soldados ianques em seu território, das ogivas nucleares, do apoio econômico e da blindagem estadunidense como parte do "milagre coreano"...

Quanto ao Norte, não se os retrata como cercados, mas sim "um dos regimes mais fechados do mundo". Tem de ser vistos como miseráveis, e não com aquelas roupas que eles mesmo fazem, marca da elegância coreana que observamos no 16º Festival Mundial da Juventude, em 2005, em Caracas. Também não se fala da beleza de Pionguiangue, uma cidade monumento, nem da maneira como se tratam as crianças naquele país, ou de sua educação.

Não se os reconhece como ameaçados e bombardeados, são tratados como os agressivos... E o seu desabastecimento, em vez de resultado de bloqueio, sanções, catástrofes naturais, seria culpa deles mesmos... Mas o pior de tudo, o mais repugnante é ver, mesmo na esquerda, concessões ao imperialismo que busca legitimar mais uma guerra, mais um genocídio, desta vez, outra vez, contra a RPDC.

E o Partido Comunista do Brasil denuncia isso, não se cala ante a ânsia bushista, que se fortalece graças à propaganda anticomunista descarada e à covardia de parte da esquerda que, liberal, não pode fugir de seus pressupostos.

Che Guevara alertou no passado, que ao imperialismo não devemos conceder um tantinho assim, nada! Que tencionava dizer El Che? Que não devemos, por exemplo, fingir que não é conosco quando o imperialismo joga todo o peso ao açular uma campanha de linchamento midiático contra um país bloqueado, ainda mais depois do que se fez nos últimos anos. Primeiro vem a mídia, depois as sanções, e enfim os bombardeios e o genocídio. Chega!

É nessa hora que o internacionalismo proletário se deve expressar em alto e bom som, como fez o camarada Renato Rabelo em corajoso artigo que ensina uma característica indispensável num Partido Comunista que não se vendeu nem se rende: pensar com a própria cabeça. Não ser pautado pela imprensa sabuja do imperialismo. Não conceder em princípios, como o internacionalismo proletário, a solidariedade internacionalista e a defesa da autodeterminação dos povos. O assombro não é estar o PIG onde sempre esteve. O assombro é ver quem denuncia a imprensa golpista, aceitar sua orientação quanto a democracia e geopolítica, fingindo desconhecer as consequências de uma postura pusilânime.

Ainda que nossas histórias sejam muito diferentes, do Brasil e da Coreia. Mesmo que não sejamos partidários do socialismo Juche. A despeito de termos opiniões brasileiras sobre democracia, ruptura, sistema político. Nada disso poderia nos impedir de dizer: é um povo que luta, é um povo que merece ter paz, deve-se respeitar sua soberania, suas fronteiras, é preciso que saiam os ianques da Península, e saiam com suas bombas atômicas, e seus bloqueios e hostilidades.

Isso é solidariedade. É a melhor contribuição que podemos dar ao povo coreano, que luta pela reunificação de sua pátria, dividida pelos EUA, que outra vez se move agressiva e velozmente para moldar o mapa mundial aos seus interesses monstruosos. E suas garras assassinas miram o Irã, a Coreia do Norte e a Síria. Não podemos tolerar isso. Não podemos nos calar ante as manobras do imperialismo. É preciso defender a revolucionária bandeira da PAZ para a Humanidade, o fim da "democratização de bombardeios", das campanhas de demonização desatadas para legitimar o genocídio, essa tara que admite aceitável que um país invada outro, mate seu povo e molde seu regime político e sua economia, com evidentes propósitos de rapinagem.

Não há democrata sincero que concilie ou se omita ante a barbárie imperialista. A 16 de dezembro, lembramos dos 35 anos da Chacina da Lapa. O  PCdoB deu seu sangue pela democracia, não precisa esgrimir provas maiores sobre seu compromisso democrático, ao contrário da imprensa golpista, lambe-botas da Ditadura, vendida ao imperialismo, com "jornalistas" a soldo da CIA.

Norte-coreanos se despedem de Kim Jong-il - Portal Vermelho

A população da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) compareceu em massa nesta quarta-feira (28) ao funeral de seu líder, Kim Jong-il, que morreu em 17 de dezembro, em uma cerimônia encabeçada por Kim Jong-un, vice-presidente da Comissão Militar Central do Partido do Trabalho da Coreia.

A cerimônia teve início na esplanada próxima ao Palácio Memorial Kumsusan, onde repousou o féretro de Kim Jong-il e diante do qual Kim Jong-un e muitos outros dirigentes e o povo em geral se dirigiram para prestar condolências. Em seguida, o funeral percorreu cerca de 40 quilômetros de ruas e avenidas de Pyongyang, cobertas de neve.

Kim Jong-un caminhou junto ao carro fúnebre, em sua parte dianteira. Centenas de milhares de pessoas e membros do Exército, entre os quais a dor pela perda era mais que evidente, davam seu último adeus a seu líder, que tinha seu retrato montado sobre um dos veículos do funeral.

A despedida fez parte de uma homenagem iniciada em seguida à morte do ex-secretário-geral do PTC, que tinha 69 anos e estava em uma viagem de trabalho. O funeral regressou ao palácio após percorrer as ruas de Pyongyang.

Dezenas de estadistas, líderes políticos e de organizações internacionais enviaram mensagens de pesar às autoridades norte-coreanas pelo falecimento de seu líder, ao qual também renderem honras diplomáticas.

As condolências também foram expressadas por duas delegações civis da Coreia do Sul, encabeçadas por Lee Hee Ho, viúva do ex-presidente Kim Dae Jung e Hyun Jeong Eun, que é a presidente do grupo Hyundai.

Essas delegações da Coreia do Sul só tiveram a autorização para viajar porque a RPDC enviou representantes para o funeral do ex-líder do país e então presidente da empresa fabricante de automóveis Chung Mong Hun.

A cerimônia de despedida precede um ato de condolências, que será realizado amanhã, e que incluirá uma salva de tiros à primeira hora da manhã, na capital e em todas as capitais de província, enquanto navios e locomotivas soarão simultâneamente suas sirenes e a população guardará três minutos de silêncio.

Com agências

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Viagem à Coréia do Norte: o estado da economia - Elias Jabbour - Portal Vermelho

Viagem à Coréia do Norte: o estado da economia - Portal Vermelho
Setembro de 2009
Elias Jabbour *

A contradição é o motor do processo. Até ai nenhuma novidade. Portanto, após algumas leituras sobre a Idéia Juche não podemos nos surpreender caso a própria realidade concreta se confronte com determinados postulados filosóficos.

Quero dizer com isso que a própria lógica inerente às leis econômicas impõe certos limites à concretude total da Idéia Juche. A interdependência de fatores econômicos na economia internacional e a crescente necessidade de a Coréia do Norte se inserir na Divisão Internacional do Trabalho pode ser o ponto de desarmonia que poderá alçar ou não este país a melhorias constantes no padrão de vida de sua população.

Mas, para quem anda com “alma armada” quando o assunto é Coréia do Norte, sugiro a leitura e a análise de uma frase de Confúcio: “não importa a velocidade da caminhada, o mais importante é caminhar”. E nossos irmãos da RDPC estão caminhando. Em seu próprio ritmo, mas estão caminhando. Eis o “x” da, ao questão. Ombreando com este imperativo da realidade está a política, e seu sentido strictu sensu.

Pode ser animador saber que a política nada mais é do que a arte da busca constante da convergência. Aconselhado pelo chefe das SS, Himmler, de abrir negociações com o ocidente com o intuito de salvar seu podre Reich, Hitler – antes de se suicidar na iminência de ser capturado vivo pelos exércitos de Zukhov –, deixou claro à sua claque bandida que eles teriam de enfrentar muita política após (a boa notícia de) sua morte.

Ascensão e queda
Outrora, o país tinha participação ativa e independente na divisão social do trabalho do mundo socialista (apesar de não participar do Comecom), com mercado garantido a seus produtos, eles sempre tiveram uma posição econômica muito melhor que a cubana. Se Cuba recebia seus proventos financeiros e militares com açúcar, a Coréia do Norte disputava com o Japão e o Brasil o posto número um em matéria de crescimento econômico entre os anos de 1953 e 1972.

Acredito que a raiz deste desenvolvimento encontra-se tanto na milenar capacidade de empreendimento do camponês asiático, quanto em fatores conjunturais, entre tais o desenrolar e desfecho da Guerra da Coréia que demonstrou aos norte-coreanos (dada a retirada de corpo dos soviéticos [que tiveram de lançar os chineses ao abatedouro] após ver o espetacular desembarque anfíbio, em solo sul-coreano, na retaguarda do exército popular norte-coreano, estrangulando-o pouco-a-pouco com a quebra das linhas de suprimento e comunicação do norte do país; além da inconteste superioridade aérea do imperialismo) que sem uma indústria de base nacional nada poderia ser feito nem em termos de manutenção do regime do norte do país e muito menos em matéria de reunificação.

Vale demonstrar alguns dados que o inimigo (em nome da “democracia” e dos “direitos humanos”) impingiu aos norte-coreanos, mais de quatro milhões de mortos; 50.941 plantas industriais destruídas, mais 28.632 escolas foram ao chão. Para quem defende a “independência do Tibet” por razões de “opressão cultural” é bom que se saiba que nem o templo budista de Myohyang, ao norte de Pionguiangue, e seus catorze prédios foram perdoados. Se duas torres foram ao chão em Nova Iorque em 11 de setembro de 2001, que as pessoas que amam a humanidade acima de quailquer coisa, devem ter em mente que Pionguiangue foi destruída até o último pilar!

O famigerado secretário de Estado dos EUA, Foster Dulles, naquela época gabou-se de que nem 100 anos seriam suficientes para a Coréia do Norte se levantar.

O país se levantou: segundo dados colhidos no Museu da Revolução Coreana, entre 1956 e 1960, a indústria de base teve crescimento de 361%. A indústria ligeira, 332%. Em 1958, a parte norte da Península estava capacitada à produção de caminhões e tratores. Sua agricultura, vitaminada por uma competente indústria química, até o final da década de 1980 cumpria papel de relevo no abastecimento alimentar do bloco socialista. A destruição de seu país por conta da guerra serviu para desnudar capacidades ociosas inimagináveis, sendo a principal delas a impressionante capacidade de trabalho e disciplina de seu povo.

As coisas corriam, apesar da concentração militar norte-americana no sul, muito bem até que na segunda metade da década de 1980, quando Gorbatchev decide partir para uma suicida experiência de Glasnost e Perestroika. Ignácio Rangel, expôs em 1992 que, desde então, as críticas contra Brezhnev voltaram-se contra Stálin que por sua vez voltaram à Lênin. A proscrição do marxismo e do socialismo na URSS passou à ordem do dia.

O preço pago pela humanidade e pela Coréia foi muito pesado. Desde então, a Coréia do Norte está tendo de enfrentar muita política numa conjuntura caracterizada por uma nada agradável correlação de forças. Como diria Lênin sobre o imperialismo: é a contra-revolução, como política e método de subversão da subjetividade humana, em toda linha sua linha. Yeltsin em Moscou, Collor e FHC no Brasil, Fujimori no Peru, Menen na Argentina... africanização da América Latina.

Triste década de 1990
O colapso econômico e o problema externo

O fim da URSS e seus satélites europeus, levou ao fechamento de simplesmente todos seus mercados externos. Indo ao empírico, entre os anos de 1986 e 1990 a economia coreana cresceu em média estimada de 3,4% ao ano. Aliás, a Coréia do Norte foi o país que mais cresceu no mundo socialista na década de 1980 (média de 4,6%). Em grande parte, este crescimento esteve diretamente relacionado ao esforço nacional de construção da Eclusa do Mar do Oeste, concluída em 1986. Situada na cidade litorânea de Nampo, 80 km. de Pioguiangue, esta obra objetivou a separação da água do mar da água do rio Daetong, resolvendo o problema de abastecimento de água da indústria e das cidades do país.

Já, entre 1991 e 2000, o PIB sofreu um recuo de 38%. Entre 2000 e 2005, o PIB reage satisfatoriamente à crescente integração com a Coréia do Sul, a China e a Rússia e algumas reformas de mercado recuperando 23% do terreno pedido anteriormente. O retorno às tensões com o sul e calamidades naturais diversas levaram a economia norte-coreana a um recuo de 4,2% entre os anos de 2006 e 2007. Em 2008, o país cresceu 1,5%, 2009 1,8% e a previsão para o presente ano é de 2,8% (1). Índice superior ao do Brasil, diga-se de passagem. Tais taxas de crescimento poderiam ser maiores caso a Coréia do Sul retomasse o programa de repasse de fertilizantes acordado a posteriori com o norte do país.

O colapso econômico pode ser auferido sob o aspecto das mudanças o que cerne os setores da economia. Por exemplo, o programa industrializante levado a cabo por Kim Il Sung transforou uma terra arrasada em uma nação industrial e próspera: em 1990, 49% da economia do país girava em torno de indústria de mineração, siderurgia e construção, enquanto que os serviços participava com 23% e a agricultura com 27%. Em 1997, a manufatura passou por intensa queda e chegou a 32%, com lenta recuperação para 36% em 2003. Neste mesmo ano, 2003, os serviços alcançaram a marca de 37% da economia, enquanto a agricultura patinou em 29%. Em 2007, a tendência de melhora da indústria é sintetizado pela marca dos 40%, os serviços 39% e a agricultura declinou para 21% do PIB (2).

É muito claro que a queda da participação do setor secundário da economia não é reflexo da alta do setor terciário. Existe um problema sério de falta de matérias-prima e um capital financeiro nacional que toca adiante a recuperação e o incremento do setor.

Não podemos esquecer de, pelo menos, dois feitos espetaculares: o lançamento de dois satélites de observação ao espaço, um em 1998 e outro no presente ano.

Pois bem, quais consequências analíticas poderemos tirar de tais números

1) o território norte-coreano é um grande limitador ao seu processo de retomada de crescimento, não é a toa que o sul do país era o celeiro do Império Japonês, enquanto o norte abrigava, a trancos e barrancos, uma mínima manufatura;

2) a economia ainda não recuperou os patamares do final da década de 1980, sendo que – por exemplo – as capacidades ociosas em sua indústria de base beira a patamares próximos de 60%;

3) o crescimento econômico verificado tem sido aumentado ou retrasado de acordo com o nível de tensão na península, inclusive o processo de reformas internas segue esse ritmo ditado pela conjuntura;

4) A pendência econômica norte-coreana está diretamente relacionada com a ultra-necessária retirada militar norte-americana do território sul-coreano, o reconhecimento norte-americano e japonês do regime e a, consequente integração econômica total com a Coréia do Sul e

5) O Brasil tem grande papel político e econômico a jogar nesse processo.

O limitador externo fica muito claro, por exemplo, em conversas com estrangeiros hospedados no mesmo hotel em que me encontrei, o Hotel Koryo. Reclamam demais com a lentidão dos processos de fechamento de contratos. Por exemplo, conversando com três italianos vindos aqui para oferecer frutas para importação, segundo eles, já faz duas semanas que as coisas não andam. Argumentei com eles que em primeiro lugar, os norte-coreanos apesar de comunistas, são asiáticos e que, portanto, os norte-coreanos estavam à espera de novas e melhores condições de negócio. Afinal, qualquer primeiro-anista de economia sabe que a crise faz com que os países do centro do sistema, além de acelerarem processos de fusões e aquisições, partem para uma verdadeira corrida em busca de mercados alternativos. E a turma de Kim Jong Il sabe muito bem disso. Esse pessoal, a começar pelo brilhante Kim Jong Il, de maluco e burro não tem nada. Nesta terra não há espaço para criadouro de espécies como Henrique Meireles, Marina Yankee Silva etc.

Não somente isso, países como a França e a Itália, mantém ótimas relações com os EUA e a Coréia do Sul, e que portanto, qualquer elemento desse tipo deveria passar por muitos constrangimentos antes de quererem se instalar na Coréia do Norte. Olha que chance de ouro para o Brasil!

Mais, estrategicamente desde a crise financeira asiática de 1997 (cujo epicentro foi a Coréia do Sul),o imperialismo vem tratando de minar a a capacidade de financiamento da Coréia do Sul, ora pela imposição do FMI de privatização do sistema financeiro sul-coreano, ora por fazer a Coréia do Sul “engolir pela culatra” empréstimos “casca de banana” de curto prazo, além de ameaças de fechamento do mercado norte-americano à indústria automotiva sul-coreana. O alvo nem precisa explicar: a inviabilização de qualquer processo que encete a reunificação da península e a consequente perda de influência dos EUA na Ásia, tanto para a China quanto para uma “nova Alemanha reunificada”, agora em solo asiático.

Reformas, estrangulamento financeiro e política monetária

Na estação fronteiriça da China com a RDPC, uma leva de norte-coreanos adentraram ao vagão. Como disse antes, muito alegres e festeiros. Pensei comigo: vou tentar puxar papo. Após algumas tentativas frustradas por conta da barreira do idioma, consegui achar um que falava um inglês excelente. Profissão: comerciante. Comerciava magnesita coreana por petróleo e grãos da China, além de uma série de insumos industriais. Figura altamente politizada (aliás, a politização é uma marca registrada desse povo), de forma calma me explicava os mecanismos de estrangulamento financeiro impetrado pelos EUA,além dos passos dados pelo governo central no sentido de uma “certa” liberalização econômica.

Não resisti em perguntar ao camarada o quanto ele ganhava. Respondeu-me que seu salário dependia de seu rendimento em matéria de negociações. Quanto mais e melhores, mais retorno tinha para si.

***

Esse tipo de relação de produção pautada pela eficiência é uma marca registrada pelas incipientes reformas econômicas iniciadas em 2002 no setor comércio exterior. Essas reformas vieram para a institucionalização de relações que a priori já existiam desde o final da década de 1990, quando um fôlego dado pela tendência de recuperação econômica passou a permitir, por exemplo, a troca de cupons de racionamento por moeda circulante. Era a objetividade das leis econômicas batendo nas portas da RDPC. O aumento da massa salarial – e consequentemente da circulação monetária – necessariamente, redunda na necessidade de um mínimo jogo entre oferta e procura.

Analisando informações produzidas por órgãos estatais norte-americanos e sul-coreanos percebe-se o equívoco ao afirmarem da existência de algumas experiência de “contratos de responsabilidades” - similares aos chineses pós-1978 – foram assimiladas pelos norte-coreanos. A bem da verdade, conversando com economistas da RDPC, a permissão de existência de pequenos lotes privados sempre existiram. Aliás, fora uma exigência de grupos nacionalistas à fusão com o partido comunista em 1948 à formação do Partido do Trabalho da Coréia. O que passou existir, de fato, foi uma autorização e extensão para a compra e venda, em pequenos mercados rurais, de utensílios domésticos e a venda de víveres e cereais em mercados de pequeno e médio porte de cidades como a capital Pionguiangue. Sob particular ponto de vista – com uma ponta de especulação –, essas experiências de tipo mercantis pelo país esbarram em alguns obstáculos, entre eles: 1) a falta de um sistema de financiamento com um mínimo de liquidez; 2) a baixa produtividade da indústria química e da quebra de remessas de fertilizantes pela Coréia do Sul; 3) a ainda necessária ênfase a investimentos em seu complexo industrial-militar; 4) frequentes calamidades naturais e 5) em problemas de ordem puramente ideológicas.

O PIB da RDPC gira em torno de US$ 54 bilhões se levando em conta o padrão de cálculo via PPP (paridade de poder de compra). Sob a forma clássica de cálculo, o PIB cairia para US$ 26 bilhões. O governo norte-coreano se depara com uma situação de administrar déficits . Para uma população total de 
22, 6 milhões, tendo uma população economicamente ativa de 72% deste total, sua renda per capita é de US$ 2.248, semelhante a de países como Zimbábue, Bangladesh,Usbequistão e Sudão. Este déficit comercial é amainado por operações financeiras externas, entre elas a remessa de dinheiro de coreanos étnicos residentes do Japão e de operações financeiras em paraísos fiscais como Macau. Para a esmagadora maioria dos analistas internacionais, tais operações (em Macau, sob vistas grossas da China, p. ex.) são operações ilegais. Sob meu ponto de vista, o julgamento acerca da ilegalidade ou não de tais, dependem da consciência de classe de cada um. Para mim, são plenamente justificadas.

Para piorar a situação, os canais de remessa de dinheiro externo foram todos congelados pelos Estados Unidos. Para termos uma idéia, inclusive os salários dos diplomatas estrangeiros residentes em Pinguiangue tem sido tratado de forma constrangedora, pois boa parte desta remessa passam por bancos sediados em Nova Iorque.

Com esse quadro, fica mais claro perceber que ao se falar em reformas de ” tipo chinesa” na Coréia do Norte, devemos comparar distintas conjunturas históricas, sendo a principal delas o fato de atualmente a RDPC encontrar-se na “alça de mira” do imperialismo (ao contrário da China em 1978), imperialismo esse, cuja moeda é ainda (e por muito tempo ainda) o principal elemento de intercâmbios comerciais e financeiros do mundo. Esse poder sob o sistema monetário internacional capacita, inclusive, ao asfixionamento financeiro de terceiros países.

Neste caso, todas as operações comerciais externas, principalmente com os europeus, ficam à mercê de do gosto ou não dos Estados Unidos e da Coréia do Sul. Por exemplo, a França, do pró-norte americano Sarkoszi, não vede uma agulha à RDPC sem a anuência dos EUA e da Coréia do Sul. És uma situação muito diferente da chinesa em 1978, que pode contar, pasmem, em 1982 com empréstimos provindos de bancos japoneses. Não esqueçamos que outro complicador (imposto pela conjuntura) encontra-se no fato de, pelo menos 20% do orçamento estatal ter de estar voltado às atividades militares.

O que resta à Coréia do Norte, em matéria de política monetária, sendo que – para Lênin – a política monetária tem como uma de suas atribuições a administração econômica de determinadas conjunturas? O que é um “comunismo de guerra” em matéria de política monetária?

Então, ironicamente, se o imperialismo os estrangulam financeiramente, os estrangeiros em visita pelo país “pagarão o pato”. Inteligentemente, coexistem a moeda oficial (won) restrita aos locais, e o Euro, o Dólar e o Yuan utilizado pelos estrangeiros. A ausência de uma economia de mercado lhes permite que o financiamento do Estado e das importações sejam auxiliadas por uma elevação às alturas dos preços praticados aos estrangeiros. Por exemplo, se uma agulha tem custo de importação de 0,5 euros, essa mesma agulha vai ser vendida no varejo – a estrangeiros – pelo menos 5 euros. Evidente que paga esse preço quem quer, mas se a agulha (pode ser outros exemplos, como creme dental...), for essencial, não existe saída. Assim se estende essa politica para quem quer utilizar internet. Um copo de café (café solúvel importado da Alemanha – o Brasil deve quebrar esse monopólio vergonhoso) custa para um estrangeiro exatamente 1 euro. Comunismo de guerra muito bem gerido.

Investimentos estrangeiros e Zonas Econômicas Especiais

Interessante perceber, que apesar de as reformas econômicas terem ganho pulso a partir de 2002, uma lei permitindo investimentos estrangeiros data de 1984. Entre 1984 e 1994 ocorreram 148 casos de investimentos estrangeiro s com montante total de cerca de US$ 200 milhões, sendo que 131 proveram de norte-coreanos residentes no Japão (3).

Cerca de dez cidades do país tem recebido investimentos estrangeiros. A larga maioria das empresas investidoras são da Coréia do Sul, com cerca de 50. Os chineses e os russos, dividem o restante dos investimentos, quase todos eles voltados para o setor de mineração. Analisando o marco regulatório da RDPC para investimentos estrangeiros, veremos (tive acesso a contratos assinados por chineses com norte-coreanos) que os norte-coreanos não enquadram os chineses no artigo 41 que restringe investimentos capazes de “abrir portas à poluição espiritual”. Os chineses tem especial interesse numa “abertura” norte-coreana, pois o país além de maior produtor de magnesita do mundo, tem reservas razoáveis – e já comercializáveis com os chineses – em carvão e ferro. Outra reserva de mercado está no cabeamento óptico ligando a China a RDPC.

Existem relações com países periféricos, de tipo Egito. Existe, vamos dizer uma casta no país que anda munidos de celulares, geralmente os intelectuais e a alta burocracia do governo. Ao procurar saber a origem dos aparelhos e das linhas, descobri (por um egípcio que se encontrava no Hotel Koryo) que as tecnologias da linhas são fonte de joint-venture entre uma empresa privada egípcia (Orascom Telecom) e o Ministério das Telecomunicações do RDPC. Já, os aparelhos são fabricados pela estatal chinesa Huawei (4). O Egito, amigo da RDPC desde os antiimperialistas tempos de Nasser, também trabalha em conjunto com a Coréia do Norte em um hotel luxuoso, próximo do centro de Pionguiangue. Além destas parcerias, existem investimentos conjuntos RDPC-França- Egito na produção de cimento em território norte-coreano. Segundo este funcionário egípcio, uma larga reserva de mercado tem se aberto na RDPC. E completou: “é só termos só um pouco do 'espírito asiático'. Paciência, quis ele dizer...

***

Concentrando o foco na questão da assimilação de experiências de tipo Zonas Econômicas Especiais (ZEE's), seria importante dar ênfase à maior e melhor sucedida experiência vivida até o momento pela RDPC, a experiência do Complexo Industrial de Kaesong (CIK).

Empreendimento financeiro gerido pela Hyundai sul-coreana e um órgão estatal norte-coreano. Aberto em 2006, fica situado na fronteira entre os dois países. Linhas e transmissão de energia fora transferido diretamente de Seul. Seu projeto inclui três estágios no primeiro com o objetivo de alocar 300 empresas, o segundo com 700 e a terceira com 1000 empresas e com 300 mil trabalhadores. Em 2006 o CIK produziu US$ 7,5 milhões; esse montante chegou a US$ 17,1 milhões e em 2008, US$ 250 milhões (5).

O espaço é curto, e no futuro poderei escrever muito mais sobre esse empreendimento, que corre independente dos problemas diplomáticos entre os dois países. Mas, gostaria de me ater em dois aspectos puramente estratégicos que envolvem o projeto.

Primeiro, sobre a Coréia do Sul. O que mais me chamou a atenção estudando esse projeto, foi a – apesar de administrado pela Hyundai – não presença de nenhuma empresa de grande porte no CIK. O que isso significa? Significa que estes investimentos não são parte de nenhum “favor” feito da parte sul à parte norte do país. Muito pelo contrário, fica latente que o fato de os custos de produção na China estarem subindo, mais os pesados efeitos, sobre a economia sul-coreana, da crise financeira, uma das últimas chances de abertura de novos campos de acumulação está na absorção do território econômico da Coréia do Norte. Se as grandes empresas coreanas já encontram – a trancos e barrancos – seu lugar ao sol no mercado internacional, o momento é de fortalecer pequenas e médias empresas encetando no futuro a formação de novos chaebols, capazes de tocarem o capitalismo de Estado coreano adiante.

Já o lado norte-coreano da história. Não sou uma pessoa que gosta de incidir em superficialidades. Posso estar enganado, equivocado, mas cada opinião particular que emito é síntese de alguma reflexão nada tranquila. Neste sentido, reafirmo que Kim Jong Il é simplesmente brilhante. Pois, ele sabe que a unidade política e ideológica da parte norte da península é uma conquista que lhe garante tranquilidade para poder ter uma visão de conjunto do problema. Ou seja, ele sabe que o tempo corre a favor dele, que a Coréia do Sul depende desesperadamente dos potenciais 22 milhões de consumidores do norte para continuar sua marcha acumulativa. Tanto sabe, que em recente visita da presidente da Hyundai em Pionguiangue, a primeira condição posta por ele para iniciar a conversa passava por aumentos substantivos de salários dos trabalhadores empregados no CIK.

Enquanto que no Brasil, a “guerra fiscal” vai destruindo o caráter federativo de nossa república, o país mais sancionado, difamado, bloqueado e estrangulado do mundo, consegue gerir dirigentes capazes de enxergar muito além de seus narizes. Nação milenar.

O mais importante agora é nos concentrarmos nos próximos episódios. Nunca é demais falar que nosso país abriu uma embaixada por aqui. E devemos tirar as melhore consequências desta ação política.

2012 e o plano de “150 dias”
Falei, em certo momento do relato, de um “subjetivismo em matéria de política econômica”. Pois bem, cheguei por aqui em meio a duas campanhas de massa. O primeiro de curto prazo relacionado à transformação na RDPC em uma potência econômica e militar ano do centenário de nascimento do “pai da pátria” Kim Il Sung., no ano de 2012.

Outra campanha é encetada no objetivo (urgente urgentíssima) de elevar a produção entre os meses de abril e setembro deste ano, com término exato previsto para o dia 09 de setembro, dia nacional, 59 anos da proclamação da República Democrática Popular da Coréia.

Dificilmente o país irá se tornar uma potência econômica e militar em 2012. Na verdade, nosso Kim Jong Il sabe que precisa dar respostas (inclusive internas) ao dinamismo econômico sul-coreano. Além de ter clareza da situação econômica nada boa do país. Neste ínterim, contratos foram acelerados com empresas sul-coreanas para instalação de plantas industriais na Complexo Industrial de Kaesong. Bill Clinton fora recebido pessoalmente pelo dirigente máximo da nação e a presidente-executiva da Hyundai veio a Pionguiangue em missão quase-governamental, momento em que teve que ouvir uma sugestão (leia-se exigência) de elevar os salários dos 50.000 trabalhadores coreanos empregados em Kaezong.

Após conversar com Pedro de Oliveira (que recentemente assessorou Renato Rabelo em visita a Pionguiangue) creio que sua opinião é correta de afirmar que, talvez, o país esteja para 2012 um relaxamento, uma maior abertura ao exterior. Por outro lado, creio que – infelizmente – esse tipo de ação não depende somente de Kim Jong Il e sua entourage. Felizmente ou não, um processo é composto por múltiplas determinações.

Já a louvável campanha dos 150 dias, trás todas as marcas de o chamado Grande Salto Adiante encampado na China no final da década de 1950. Por exemplo, acordava pela manhã ao som de um alto falante instalado na estação ferroviária. Tocava-se músicas revolucionárias, entre elas uma que me tocou muito chamada Cadê nosso General? Tudo como incentivo moral ao Combate dos 150 dias. Estrangeiros comentam sobre um suposto desespero de Kim Jong Il ante a situação econômica do país. Não acredito nisso.

O país, para tanto, conta com dois apoios fundamentais a este objetivo: a recente conclusão da Usina Hidrelétrica de Nyongwon, uma das dez maiores do mundo, com geradores e turbinas fabricadas no próprio país. A conclusão desta obra possibilitou à RDPC a interrupção de uma era marcada por apagões e corte de energia o período noturno. Outro tento está na modernização do Complexo Químico de Namhung, abrindo perspectiva imediata de alívio para com a dependência de fertilizantes vindos da Coréia do Sul.

Por outro lado,apesar das imensas capacidades ociosas em sua siderurgia, não posso me esquecer de uma conversa com um empresário alemão no vôo Pionguiangue-Pequim, onde o mesmo tratou de se referir à intenção norte-coreana de importação de máquinas, com uma política de ajuste de preços que leva em alta conta uma conjuntura de retração do comércio internacional. Segundo esse alemão, contra as fabricantes alemãs, o regime do nada “maluco”, e sim brilhante, Kim Jong Il, está tratando de jogar tanto os chineses quanto os russos contra a Alemanha, demonstrando uma visão de conjuntura digna de um grande estadista.

É oportuna uma comparação. Enquanto isso no Brasil, dos intelectuais e economistas bem vestidos, com ternos bem cortados, estamos institucionalizando nossa reserva de mercado (outrora destinada a empresários nacionais) via câmbio serial killer da indústria nacional às empresas estatais chinesas. Mil motivos para os chineses abrirem um largo sorriso quando o assunto são relações comerciais com o Brasil.

Finalizando, acredito que se a conjuntura internacional não permite saltos espetaculares em matéria de PIB. Porém, a utilização de dados estatísticos pode nos servir de base para certas coisas, Entre elas, as informações passadas a mim pelo chefe da cadeia de economia da Associação Coreana de Cientistas Sociais, Kim Dung Sik. Em 1987, o país produziu 6.160.000 kw de energia, 83.000 toneladas de carvão, 6.900.000 toneladas de aço, 13.000.000 de toneladas de cimento e 5.460.000 toneladas de fertilizantes. Segundo o referido economista, em nenhuma das cadeias produtivas anexas a tais setores, a utilização da capacidade produtiva instalada atingiu, no ano de 2008, a 60%.Kim Dong Sik colocou ainda que o objetivo econômico mais imediato é o de alcançar a mesma produtividade de 1987.

Ora, se em economia atraso é fator de dinamismo. Pode estar ai a explicação para as projeções de analistas internacionais (CIA), onde visualizavam tendência de crescimento econômico no país variando de 2% a 3% para o presente ano. Fica a impressão de, caso haja um mínimo relaxamento da agressiva e assassina política imperialista contra a RDPC, o boom econômico é algo que virá em menos tempo do que imaginamos.

Sobre as estimativas de crescimento norte-coreanos, mais um detalhe: trata-se um crescimento pelo menos 150% maior que as mais otimistas projeções sobre o nosso país, o Brasil.

Notas:

(1) NANTO, Dick K., & CHANLETT-AVERY, Emma: “North Korea: Economic Leverage and Policy Analysis”. Congressional Research Service. 04/062009. pag. 19.

(2) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Inter-Korean Relations in 2008”. Seoul/Korea. February, 2009.

(3) Institute for Far Eastern Studies. “State of the Market in DPRK”. North Korea Brief. nº 07-2-2-1. December 11, 2007.

(4) “Arab Firm Earn First Mobile License in DPRK”. Yonhap. January 30, 2008.

(5) Republic of Korea, Ministry of Reunification. “Key Statistics for Gaesong Industrial Gomplex. Seoul/Korea. December, 2009.

Viagem à Coréia do Norte:  "dinastia revolucionária" - Portal Vermelho

Viagem à Coréia do Norte: "dinastia revolucionária" - Portal Vermelho
Setembro de 2009
Elias Jabbour *

Após lua-de-mel dos intelectuais europeus com as virtudes sintetizadas dos impérios nascidos ao longo dos vales do rio Yangtsé, Ganes e Nilo, “Despotismo oriental”, foi o termo predileto utilizado por Voltaire para (des) caracterizar, por exemplo, o “Império do Meio” chinês. Dessa forma o Iluminismo dava forma a um eurocentrismo que iria influenciar, inclusive, nosso Karl Marx.

Porém, Voltaire não fora o primeiro a utilizar este termo, alguma centenas de anos antes, Aristóteles em pleno centrismo helênico, classificou o Império Egípcio e seus similares orientais como variantes de “Despotismo oriental”. Aristóteles havia se esquecido que a “democracia grega” havia condenado Sócrates à morte, pelo simples fato de ao analisar a decadência do homem grego, o mesmo havia concluído que decadência humana grega era proporcional à decadência de uma democracia que nunca havia existido. O próprio Aristóteles depois de um tempo teve de se cuidar muito para não ser condenado à morte por esta mesma “democracia”.

Complexo de Aristóteles

Analogias históricas podem ser encontradas na atual decadência do homem ocidental. A mesma “democracia” que assassina Martin Luther King, sustenta um governo que manteve Mandela 28 anos preso e faz vista grossa à transformação de residências turcas em fogueiras em Berlim, é a mesma que quer condenar à morte por inanição a Coréia do Norte só pelo fato de o regime de Pionguiangue ter decidido ser um país onde “ninguém mete a colher” e que não se esconde atrás do biombo da correlação de forças. Correlação de forças, que de centro da tática para Lênin, se transforma em refúgio ante a covardia intelectual.

Esta conjuntura de plena decadência humana ocidental, cravou no pensamento acadêmico sua visão de mundo. Aliás, hegemônica visão de mundo, onde a objetividade histórica foi substituída pelo relativismo na base da teoria do conhecimento. O pós-modernismo positivista é expressão, em matéria de produção científica, da contra-revolução iniciada com o fim da URSS. Suas influências abarcam, de forma nada surpreendente, muitos intelectuais de “esquerda”, militantes e ativistas sociais.

Nove em cada dez pessoas de nosso campo ao se referir ao regime norte-coreano se assusta e dispara: “socialismo aquilo, com dinastia?” Surpreendente? Não sei.

Eurocentrismo atual reacionário mais preconceitos intelectuais (fruto de limitações conceituais e teóricas) acabam que redundando numa visão do regime de Pionguiangue que repete tragicamente a visão de Aristóteles com relação à “periferia oriental” grega. É a moral como visão de mundo em detrimento da consciência de classe.

O complexo de Aristóteles está aí em 90% das opiniões sobre o regime de Kim Jong Il.

Sobre o modo de produção asiático

A dinâmica da base econômica reflete-se diretamente na superestrutura. Desse modo Marx, fugindo da esfera da circulação (tão cara aos dependentistas – estruturalistas e muitos marxistas latinoamericanos – ultrabajulados de nosso tempo), se supera ao buscar a compreensão dos fenômenos sob a ótica do processo de produção. Sua capacidade de visão de conjunto e percepção da diferença das dinâmicas produtivas em diferentes partes do globo o levou a superar o generalismo da Economia Política burguesa, para quem as leis econômicas têm caráter universal e não pautadas historicamente. Em Engels (Anti-Düring), a Economia Política difere-se de país para país, de região para região. Daí nós, comunistas brasileiros, acertarmos em afirmar acerca da não-existência de “modelos prontos” de socialismo.

Desta forma, ao analisar as diferentes formas de produção no planeta (trabalho necessário e excedente) pode diferenciar no bojo de cada modo de produção, diferentes modos de produção de caráter complexo, frutos de combinações de antigas com novas formas de produção. Entre eles, o modo de produção asiático.

O modo de produção asiático é algo típico de regiões onde a economia de mercado surgiu de forma precoce, consequências de relações homem x natureza propícia ao rápido desenvolvimento das forças produtivas. Sendo a economia de mercado resultado da produção de excedentes agrícolas, logo – condição objetiva – condicionando o surgimento de uma diferenciação social, a necessidade de um Estado, capaz de mediar a diferenciação social e – concomitante – ser dinâmico à arrecadação de impostos e retorno à sua base camponesa sob forma de grandes obras hidráulicas, torna-se algo de grande necessidade. Esse complexo mecanismo de mediação pode ser analisado no fato de há pelo 1.500 anos, na China, o instituto do concurso público já ser método de seleção de quadros ao serviço estatal, mandarinato.

Abrindo parêntese, a complexidade do modo de produção asiático é perceptível no fato de, diferente da escravidão greco-romana cuja propriedade privada da terra era o centro, a propriedade da terra era estatal e a escravidão se resumia a trabalhos penosos como o das minas. Numa sociedade desse tipo, com possibilidade de ascensão social, o caráter da superestrutura torna-se fluida, dependendo da capacidade do imperador ou rei em atender ou não as demandas camponesas por obras de contenção de desastres naturais. Logo, encontra-se sentido na famosa frase de Confúcio, para quem, “o poder emana dos céus, porém é revogável pelo povo”.

Marx e Engels elaboraram um grande “esquema ideal” do funcionamento das diversas sociedades de forma que tornam-se inteligíveis suas possíveis evoluções. Representações de esquemas podem-se tornar modelos que nos capacitem a ter uma visão apurada de diferentes processos históricos. Porém, além de histórico, o materialismo também é dialético. Logo, os chamados esquemas não devem ser levados ao pé da letra como vem ocorrendo em cada vez maiores exigências de periodizações e trabalhos acadêmicos. A periodização é o oposto da visão de processo histórico.

Em matéria de ciências sociais devemos estar preparados para tudo. Menos para a negação do movimento. Assim, devemos estar preparados, municiados metodológica e teoricamente ao desafio de analisar o estancamento de fluidez no âmbito das superestruturas e sua relação com outras determinações formadoras do concreto. Apesar de a superestrutura parecer estanque, tudo está em movimento. Inclusive a busca por soluções de caráter nacional ante determinadas imposições da conjuntura. Afinal, a própria governança por “laços de sangue” são parte deste tipo de solução de problemas conjunturais.

Mil anos de “Estado de Excessão” e problema do socialismo

O “complexo de Aristóteles” impede que se perceba o fenômeno presente coreano como problema histórico. Esta forma a-histórica de observar o fenômeno fora denunciada por Lukács como algo burguês. Não “burguês” no sentido esquerdista do termo. E sim, burguês, no sentido metodológico, para quem as coisas devem ser observadas como uma “fotografia”. De forma positivista, pós-moderna. Estática, parada, sem história...

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Assim como a China, a Coréia é uma nação com uma história corrida de 5.000 anos. Formada às marges dos rios Yalu e Daetong, a posição geográfica do país foi fator essencial para que os coreanos nunca tivessem uma vida tranquila, até hoje. Fronteira com Império Chinês, proximidade com a Rússia, a Mongólia e o Japão. O caráter guerreiro e até militarista deste povo se explica no fato de nunca Genghis Khan ter passado do monte Paektu, muito pelo contrário. Os coreanos adentraram o território, então mongol, da Manchúria e conquistaram-no. Assim puderam formar um cordão protetor sanitário por muito tempo

Por volta do ano 1.000 d.C. é formado o reino da Coréia e em 1.300, o confucionismo, expressão da crescente influência chinesa, é absorvido neste país. Pressões japonesas desde o primeiro dia de funcionamento do Reino de Koryo, foram uma constante. Este reino até seus estertores teve de “armar até os dentes”. No século XIX sucumbiu diante da dupla pressão norte-americana (pressão pela abertura dos portos do país) e japonesa. Uma combinação geopolítica levou os japoneses a entrarem num acordo com os EUA: “não mexemos em seus interesses nas Filipinas e, em contrapartida, vocês não se metem e nossos negócios na Coréia”. Era o Congresso de Viena bipartite para o saqueio da Coréia e das Filipinas.

Assim como na Europa oriental do final do século XIX e início do de XX, tentativas de restaurações modernizadoras de tipo burguesa foram afogadas e revertidas em refeudalizações sangrentas, como a ocorrida na Hungria. Lênin, afirmou na época que: “o imperialismo japonês com toda sua brutalidade asiática fincava sua faca no coração da nação coreana.”

Assim, se contarmos todo esse tempo passado, mais a contemporânea existência da RDPC, contabilizaremos mais de 1000 anos de Estado de exceção.

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Neste momento é importante cotizarmos esta questão mais ligada a história da Coréia com a própria história do socialismo. Independente do que pensam os assolados pela doença burguesa do “complexo de Aristóteles”, a opção que esse povo fez, e faz, cotidianamente é a da construção do socialismo. E estão pagando um preço muito caro por isso. Sublinhemos: caro demais.

A história das transições anteriores demonstra que a decadência de um modo de produção era acompanhada tanto pela incapacidade de as forças produtivas sociais darem conta das constantes necessidades materiais da população, quanto da ascensão econômica de um determinado setor da sociedade. Uma classe que aspirasse o poder necessitava de deter o poder econômico e como consequência, o poder político tornava-se a cristalização deste processo.

Pois bem, neste caso dois problemas à transição capitalismo x socialismo são postas: 1) o proletariado não aspira o poder político como demanda de acúmulo de forças no cerne de concentração de riqueza material. Ao contrário, para se tornar classe dominante economicamente, faz-se necessária a tomada do poder político, seguida pela instalação de uma ditadura (ao contrário das ditaduras burguesas, trata-se de uma ditadura da maioria sob a minoria: a ditadura do proletariado) que lhe permita concentrar, pouco a pouco, os meios de produção a seu controle e 2) Também diferentemente de outros processos de transição, a estratégia socialista é a primeira que enceta a abolição da exploração do homem pelo próprio homem.

Numa tendência histórica dada, fica a necessidade de refletirmos sobre como este tipo de abstração se aplica à RDPC com suas características moldadas pela história. Assim, creio eu com meus botões e limitações, que sobra muito pouco espaço para melodramas de tipo, “construção de canais sucessórios democráticos”, aplicação do modelo geracional chinês. A realidade é esta: país pobre, com recursos naturais escassos, uma geografia complicada... Nenhum país do mundo passou por uma campanha de difamação internacional tão grande quanto a Coréia do Norte. A União Soviética passou por algo semelhante? Sim, mas venceu a 2º Guerra Mundial, em seu território contavam com 97% dos recursos naturais necessários para a manutenção autóctone de uma nação e o mais significativo do ponto de vista político: contava com milhares de amigos e simpatizantes pelo mundo. Stálin não somente era um “deus” dentro da URSS, mas também uma figura divina nos quatro cantos do mundo onde houvesse um militante comunista e antiimperialista. Afinal, Stálin com todos os seus limites, em seu tempo, foi declaradamente o inimigo número 1 do capitalismo internacional.

Além do já exposto, o agravante da Coréia Popular reside, também, em outras determinações: além de ser o país mais cercado, estrangulado e sancionado do mundo, para muitos potenciais amigos, esta experiência não pode ser levada a sério. É pouco?

Evidente que uma nação em constante estado de excepcionalidade, pronta para ser estuprada e degustada pelos mais sedentos abutres da história humana, somente o que lhe resta é a busca de soluções nacionais para seus problemas. E é isto que reside a característica central da necessidade e imperiosidade da instalação de uma dinastia de caráter revolucionária.

Algumas questões para o debate (desculpem o mal jeito): se a URSS não suportou 70 anos de uma condição excepcional de cerco e aniquilamento imperialista (D. Losurdo), o que dizermos da Coréia Popular, um pequeno país montanhoso e com escassos recursos naturais? Pautaremos o problema partindo de pressupostos morais ou analisaremos a realidade da forma como ela é, e não de acordo com nossas brilhantes e incompreendidas mentes, capazes de ditar a velocidade do movimento de rotação do planeta Terra?

O socialismo Juche

Somente os ventos de uma revolução, executada por duas centenas de revolucionários bem organizados, capaz de derrubar uma das monarquias mais consolidadas do mundo, poderia lançar luz à novas formas de revitalização da nação coreana. A Revolução Russa, abriu as portas à organização consequente de revoltas camponesas que sangrassem até a morte a dominação japonesa na Ásia. Assim, surgem gênios políticos e militares da estatura de Mao Tsétung, Zhu De, Ho Chi Minh, Nguye Von Giag e Kim Il Sung.

Kim Il Sung nascido em 1912, filho e neto de líderes revolucionários, aos 14 anos de idade já era reconhecido como uma das principais lideranças antijaponesas do país. Sua produção intelectual, somente é comparada, quantitativamente, com a produção conjunta de Marx, Engels e Lênin. Para termos uma noção, suas Obras Completas são compostas por 82 volumes e suas Memórias em outros oito. Nada desprezível, tanto sua obra teórica quanto suas façanhas políticas. Ante o comando deste gigante, os EUA tiveram de assinar pela primeira vez na história uma declaração (quase) final de uma guerra em que eles não saíram vitoriosos. Saibamos, que desde sua independência (1776) os norte-americanos nunca ficaram pelo menos dez anos sem se meter em uma guerra fora de seus domínios territoriais.

Os 1.000 anos de Estado de exceção pela qual passa a Coréia produziu uma variante própria de teoria revolucionária. O que se chama de Idéia Juche, não se trata como eu acreditava, de um marxismo com características coreanas. Produzida por Kim Il Sung, a Idéia Zuche, aos coreanos, é uma transcendência do marxismo, sua superação, a solução dos limites das filosofias anteriores, entre elas o próprio marxismo. Particularmente classifico, a Idéia Juche, um mix de leninismo soviético (organização), mais herança confuciana (autoridade, ordem e a noção da nação como uma família chefiada por um chefe leal) mais igualitarismo típico das antigas sociedades agrárias (pequena produção mercantil) mais ultranacionalismo progressista asiático. Pode ser que esteja sendo superficial, mas em primeira vista é disto que me parece se tratar.

Em colóquios para exposição da Idéia Juche para mim organizadas pela Associação Coreana de Cientistas Sociais, os camaradas coreanos não escondiam suas desconfianças da dialética materialista. A diferença entre o marxismo e a Idéia Juche reside justamente nesta relação dialética entre homem e natureza. Aos “jucheanos”, o homem é a variável independente do processo. Capaz de moldar a natureza à sua imagem e semelhança.

Daí os inúmeros pontos de inflexão levantados por mim os debates, sendo o principal a defesa, de minha parte, da fator natureza como o (dialeticamente) limite e o potencializador da ação humana. Coloquei, por exemplo, aos camaradas coreanos que uma justa noção do funcionamento das leis da natureza é nodal à práticas racionais de política econômica. Como consequência desta visão de mundo, aos coreanos, a centralidade não se encontra no desenvolvimento das forças produtivas e sim no desenvolvimento de um ser-humano com firme caráter e formação ideológica. Disse a eles, fraternal e camaradamente, que desta forma umas de suas consequências poderá residir em práticas amplamente subjetivistas de planos de desenvolvimento, semelhantes às estudadas por muitos como o Grande Salto Adiante, levado a cabo por Mao Tsétung na China em fins dos anos de 1950.

O mais importante neste momento é evitarmos o subjetivismo e o “complexo de Aristóteles” no sentido de melhor compreender o surgimento desta forma Juche de enxergar as coisas. A principal delas, seria buscar analisar sucessivos processos históricos que vão desde a formação da nação coreana, até o processo de sua libertação nacional e a atual resistência ao cerco imperialista.

A filosofia e, consequentemente, a ideologia são produto de causa/consequencia das relações entre o homem e o meio que ele modifica e convive e essa relação não se restringe a isso, mas também – na mesma grandeza – com as relações sociais produzidas pelo homo sapiens, entre elas a sua exterioridade social; o noção que guardam de diferentes formas de os homens enxergarem a seus congêneres frutos de diferentes processos históricos.

Assim sendo não podemos desprezar a capacidade deste povo de enfrentar processos de ameaças, invasões e resistência ante inimigos nocivos e prontos para por fim a qualquer rastro de história da nação coreana. Os coreanos enfrentaram todos os seus desafios impostos externamente com um sucesso no mínimo surpreendente. Construíram uma nação industrializada quase que do nada. Infelizmente, a realidade como ela é se mostra suficiente para muitos simplesmente - e covardemente – não enfrentá-la.

***

Não me surpreenderia, caso alguns não estivessem estranhando minhas posições expostas. Com relação a esta experiência nunca pensei diferente. Que o diga meu amigo Pedro Cross. Nesse assunto (Coréia do Norte e outros), apenas dava – e me dou o direito de colocar – a cara a bater a meu mestre Mamigonian, e, invariavelmente... às vezes bato a “cara na parede”. É da exposição à contradição que se desenvolve a capacidade humana de avançar intelectualmente. Quem me conhece sabe que nem mil homilias, proferidas pelos mais “brilhantes” intelectuais “da moda”, são capazes de me convencer. A única forma de me convencer de tal ou qual assunto é a prova da história. Fora disso, não existe muita escolha, a não ser manifestações de insegurança intelectual, tentativa – sob os mais variados pretextos – de isolamento e de desqualificações de tipo fascista. Paciência.

O governo Songun

Vejamos e sejamos justos: Kim Jong Il é um estadista brilhante, não um arremedo de “enrolador social” - porém nacionalista – bem ao estilo de um certo personagem (João Grilo) criado por um nada “enrolador” Ariano Suassuna. Retornando, em meio ao “quiprocó” dos testes nucleares e o isolamento internacional, nossos irmãos coreanos ainda tiveram forças para enviar (sem parcerias com ninguém,muito pelo contrário) um satélite de observação ao espaço (2009), enquanto que a Coréia do Sul, humilhante e recentemente, falhou no lançamento de um similar com parceria russa. Como pode?

Mais impressionante, foi a recente visita de Bill Clinton ao país. Sob o pretexto de “ação humanitária”, Clinton veio em missão de resgate de duas jornalistas norte-americanas, justamente, presas pelo regime norte-coreano. Na verdade, Bill Clinton, chegou ao país em missão dada pelo atual presidente norte-americano Barack Obama, certamente com uma carta de intenções. Mas, ao observador mais arguto, uma imagem vale por mil coisas: nas fotografias espalhadas por agências do mundo inteiro,é muito clara a diferença de postura, pois enquanto Kim Jong Il parecia tranquilo, sorridente, vencedor, Clinton teve de sustentar uma verdadeira cara de intranquilidade, típica de um imperador que não está diante de um súdito tipo FHC. O objetivo, máximo do regime, de reconhecimento político e diplomático por parte dos EUA e o Japão, pode estar menos distante.

Retornando, acerca da “cara de tacho” de Clinton, na verdade, mais parecia um imperador romano pensando numa forma de se defender das armadilhas armadas, ao seu decadente escravismo, tanto por revoltas escravistas (Espártaco) quanto pelo dinamismo do modo de produção germânico.

Lá e aqui, “bárbaros” vencedores pregam peças, a seu modo, a impérios decadentes e em franco processo de busca por soluções que ao menos tornem mais soft seu pouso.

***

Qual a expressão superestrutural resultante da visão Juche de mundo?

Além de arremates históricos, das proezas da guerrilha antijaponesa, a expulsão dos invasores norte-americanos, recrudescimento da cruzada norte-americana pela Ásia e os estilhaços da Crise dos Mísseis envolvendo URSS, Estados Unidos e Cuba, tornaram-se condições objetivas à implementação de um chamado governo Songun, na segunda metade de agosto de 1962.

A governança Songun é a institucionalização e o pleno reconhecimento de um Estado de exceção que se recrudesceu com o fim da URSS, a primeira agressão, pelos EUA, ao Iraque em 1991 e à resposta norte-americana à sua lenta decadência econômica. Se o Iraque fora uma vítima, qual o motivo de não pensar o mesmo de um país que, repito, imputou – aos Estados Unidos – sua primeira derrota militar em quase 180 anos de busca de seu espaço vital pelo mundo?

Trata-se da primazia o militar sobre o civil, do soldado em relação ao proletário.

Fator de juízos de moral? Pode ser.

De minha parte comemorei o sucesso dos recentes testes nucleares executados pelo país e seu, consequente, poder de dissuasão ante ameaças externas.

Viagem à Coréia do Norte: Dandong ou porto de Nova Iorque? - E Portal Vermelho - Elias Jabbour -

Viagem à Coréia do Norte: Dandong ou porto de Nova Iorque? - Portal Vermelho

Elias Jabbour *

Entrego ao público brasileiro a primeira de três partes de minhas impressões de viagem à República Democrática Popular da Coréia. Esta visita é resposta – e parte de viagem acadêmica que inclui outros 50 dias na China – de convite enviado pela Associação Coreana de Cientistas Sociais para uma estadia de 13 dias neste belo país.


Não poderia perder a oportunidade de ir além das impressões de um câmbio acadêmico. Logo, tratei de buscar sintetizar uma verdadeira pesquisa de caráter empírica/teórica/metodológica que nos municie de elementos à uma visão mais séria desta tortuosa realidade.

De antemão agradeço a cortesia da Embaixada da RDPC no Brasil e a Embaixada Brasileira em Pionguiangue. Como forma de gratidão não poderia me esquecer da indicação pela Secretaria de Relações Internacionais de meu partido, o PCdoB – camaradas José Reinaldo de Carvalho e Ronaldo Carmona –, do presidente da Agência Nacional do Petróleo, Haroldo Lima, do deputado federal Edmilson Valentim e, principalmente, de meu mestre Armen Mamigonian, aos meus genitores postiços “Claudião” e Dona Aurora, minha companheira de lutas e coração, Luciana Dias, de meus amigos diletos Graciana Vieira, Pedro Cross, Sérgio Barroso, Drica Madeira e Vasco Rodrigo, de meu “padrinho” José Messias Bastos, professor e ex-chefe do Depto. de Geociências do CFH-UFSC, de Carlos Espíndola, professor e ex-coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geografia do CFH-UFSC e de minha “madrinha” Ana Pereira, técnica do Laboratório de Geografia Política e Planejamento Territorial do Depto. de Geografia da FFLCH-USP (LABOPLAN-DG-FFLCH-USP).

Por fim ao inestimado apoio e confiança às minhas pesquisas guardado pela Fundação Maurício Grabois – direcionado ao seu presidente Adalberto Monteiro – da qual guardo profundo orgulho de ser pesquisador. Fundação esta cujo nome que carrega me obriga a dar o melhor de minhas capacidades à sistematização de contribuições científicas de alto nível ao meu querido Partido Comunista e à sociedade brasileira. Quando se encerram as palavras que fale outras vozes internas...

***

Não é comum encontrar brasileiros interessados em passar alguns dias por aqui. Aos estrangeiros afoitos por informações, nada ajuda. Desde o processo de busca de informações na Internet até o processo de retirada de visto. Pela internet podemos encontrar (des) informações que vão desde a noção de pobreza gritante que encontraremos ao longo da parte coreana da ferrovia (Pequim-Pionguiangue) até reclamações acerca da burocracia na fronteira chinesa. Tudo mete medo para quem não conhece.

O processo de retirada de visto não é dos mais tranquilos. Para entrar por aqui deve, ou, ser parte de um grupo turístico devidamente autorizado pelo governo local ou ser convidado de alguma associação estatal. No meu caso, após ter tipo primeiro contato com o embaixador norte-coreano no Brasil em 2005, demonstrei pleno interesse em tocar neste solo no mês de julho de 2009, por ocasião de uma viagem pré-programada à República Popular da China com vistas à fase final de minha pesquisa de doutorado.

Para não perder a oportunidade da comparação, parece até que o processo de aquisição de um visto de entrada nos Estados Unidos é algo dos mais retos e tranquilos. Ainda mais para quem carrega um sobrenome como o meu, Khalil Jabbour. Imaginem se eu receber, em território “democrático” e “livre”dos EUA, uns dois e-mails de meus parentes residentes em Connecticut. Seria uma carruagem de fogo não para Manhattan e sim para Guantánamo.

Do processo de obtenção do visto à Estação Ferroviária de Pequim

Posso dizer que após recomendação da Secretaria de Relações Internacionais do PCdoB e algumas trocas de e-mails com o consulado em Brasília, onde informações que vão desde um currículo vitae até o número do passaporte foram necessários, o processo encaminhou-se de forma satisfatória, sendo que um convite oficial da Associação Coreana de Ciêntistas Sociais (ACSC) acabou que sendo o atalho à realização da visita. Acordei com os camaradas da embaixada em Brasília que “pegaria” meu visto em Pequim.

Pois bem, em Pequim é muito interessante perceber que a embaixada coreana é de uma magnitude incrível, a segunda maior em tamanho ficando atrás somente da embaixada russa. Sobrevivência da antiga preferência chinesa em prover de melhores condições os diplomatas do antigo bloco socialista.

Minha primeira visita à embaixada em Pequim não foi das mais fáceis, pois ninguém por lá falava inglês. Não somente isso, como a Coréia Popular não é uma economia de mercado, fica claro que determinados tratamentos mais polidos, não são dispensados a estrangeiros. Porém, as coisas mudaram quando, com o auxílio de um chinês que se encontrava no momento, o responsável do setor consular soube que era eu era comunista. Tudo se acertou, um belo sorriso abriu-se no rosto do funcionário e em dez dias exatos pude terminar o processo com vistas à autorização de minha entrada no país.

Logo, no dia 24 de agosto não pude controlar minha ansiedade em chegar logo a hora do embarque na Estação Ferroviária de Pequim. O K27 no horário programado estava esperando a mim, outro norte-coreano que conheci no momento do embarque e cerca de uma centena de chineses com destino tanto à cidade fronteiriça de Dandong quanto à Pionguiangue. Seriam 26 horas de viagem.

Dandong ou porto de Nova Iorque? E uma ironia do destino...

Ao programar a viagem, busquei informações das mais variadas sobre a realidade que manteria primeiro contato em alguns dias. A maioria das informações coletadas pela internet continham as piores versões possíveis: desde uma pobreza “escancarada” ao longo da ferrovia até a truculência dos soldados do Exército Popular Coreano na fronteira. Outros, ainda desaconselhavam contatos com norte-coreanos no trem, sob o risco de prisão...

Além de conversas diárias com meu orientador, Armen Mamigonian; Pedro de Oliveira, membro de nosso CC, foi o que mais perto chegou da “verdade” em uma conversa particular que tive com ele alguns dias antes de minha partida. Além de observações cirúrgicas, bem ao seu estilo leftist & gentleman, mandou um “vá tranquilo...”.

***
Passei o dia me enchendo de comida antes de meu embarque. Sinal de ansiedade. No trem acreditava que teria um serviço de bordo e coisas do tipo. Cinco horas de viagem (até a fronteira com a Coréia, dividi espaço no trem com um jovem australiano – aliás, o trem é de altíssima qualidade e conforto, podendo alcançar os 150km/h), oito horas de viagem, dez horas... comecei a sentir fome. O australiano do meu lado se enchendo de chocolate e nem se dava conta de que (eu) começava a morrer de fome. Acho melhor achar que ele não se dava conta...

Depois de umas doze horas de viagem chegamos a cidade chinesa de Dandong, margem norte do rio Yalu (histórico rio atravessado pelos cerca de um milhão de “Voluntários do Povo Chinês” no ano de 1951 ao combate corpo-a-corpo contra as trocas do general fascistoide norte-americano Mc Carthur). De repente sinto uma invasão de dezenas de norte-coreanos em nossa locomotiva. Todos, homens e mulheres, com bottons de Kim Il Sung ao peito. Um tal de risada para lá, risada para cá. Mais parecia os navios mercantes brasileiros que atracavam no porto de Nova Iorque com nossos negros comandando verdadeiras festas, muito bem descritas pelo nosso genial Gilberto Freyre.

Pensei comigo: “(...) Pô, o australiano até agora não dirigiu uma única palavra para mim, não me ofereceu nenhum pedaço de seu chocolate suíço Dove (falsificado, fabricado em algum muquifo na zona rural sudoeste de Pequim). Olha, que ele foi 'educado' em uma 'democracia' (sob os auspícios da Chefe de Estado, Rainha Elizabeth II – parece gozação), enquanto que esse monte de gente alegre e saltitante são produto de umas das mais implacáveis 'ditaduras' do mundo. Será que a banana passou a comer o macaco?!?!?!”

Atravessando a fronteira, o trem parou para que os militares norte-coreanos pudessem verificar nossos passaportes. Após lembrar dos relatos lidos, pensei: “eles não podem ser piores que o BOPE carioca ou a ROTA paulista...”. Nesse ínterim, conheci um casal de chineses que passam a vida entre Dandong e Pionguiangue fazendo (advinha o quê?) comércio de importação e exportação. Parecia que a alma de ambos já entrava e saia do trem sozinhos... Como um pesquisador formado nas hostes da Escola de Florianópolis (sem falar do exigente Adalberto Monteiro na “minha bota”), acabei que puxando conversa. Mas, o papo não foi muito longe, pois confessei a eles que estava morrendo de fome.

Sem sacanagem, a mulher chinesa (parece que fez questão de me mostrar a diferença) chamou um soldado, para uma conversa ao pé de ouvido. Justamente, o soldado com a cara asiática mais irritada que já havia visto antes. Vi que ela falou algo para ele sobre mim. Passaram-se menos de dez minutos e este mesmo soldado com um sorriso estalado na cara me entregou uma porção de Iaquissoba.

Ironia do destino: um soldado de um nação onde, (segundo fontes tipo baixo nível, tipo “Mirian Porcão”), metade das pessoas não tem o que comer, pode matar a fome de um filho do país dono do mais poderoso complexo agroindustrial do mundo.

Enquanto isso na sala de justiça... Nada do súdito de Elizabeth II me oferecer algo para comer.

***

Nada como fazer o exercício das chamadas relações em análises comparativas de diferentes formações sociais. Bem, a diferença entre este soldado que me serviu – e, de forma muito educada, revistou minha mala – sobre um correlato seu do BOPE ou da ROTA é a seguinte: enquanto este soldado carrega em sua farda uma vitória sobre o imperialismo mais sacana que se pode imaginar (Guerra da Coréia, 1951-1953), um militar destas forças especiais de combate ao crime urbano é educado à “caça de pobres”. Assim dão uma “forcinha” aos sociólogos interessados e colher estatísticas à análise do desastre neoliberal brasileiro.

E de quebra alimenta o “fascismo nosso de cada dia”...

“Dois socialismos”

O rio Yalu não é somente o berço da civilização coreana, tão antiga quanto a chinesa e de onde os mongóis nunca conseguiram passar do monte Paektu. Também o rio Yalu não pode servir para alimentar nossa subjetividade revolucionária lembrando os feitos do início da década de 1950.

Mais importante que isso, para nós que no Brasil buscamos nosso rumo, o rio Yalu é a fronteira entre os “dois tipos de socialismo”, vitoriosos, e concebidos no século passado. De um lado, ao norte, um pujante “socialismo de mercado”, alimentado por um grande país em plena concorrência comercial com o imperialismo; fazendo o Ocidente pagar cada centavo pelas infâmias imputadas entre 1839 e 1949. Um socialismo capaz de “laçar” a maior potência econômica e financeira com a centenas de bilhões de dólares da dívida pública norte-americana e a utilização de uma taxa de câmbio nada ortodoxa. Esse todo, na parte, pode ser visto sob a forma de centenas de prédios modernos que circundam a margem chinesa do rio Yalu.

Do outro lado, uma experiência que sobrevive estrangulada por todos lados. Estrangulada financeiramente com o bloqueio e o assédio moral do imperialismo sobre os bancos e países que fazem operações financeiras com esse pequeno país. Um país assolado por calamidades naturais, com um solo desgastado por décadas de extensividade, redundando numa baixa produtividade do trabalho na agricultura; com uma indústria pesada que já fora uma das mais modernas do mundo, hoje estar obrigada a trabalhar com capacidades ociosas que, segundo fontes fidedignas, chegam a 76% e com vários trens de carga parados ao longo da ferrovia pela qual passei.

O lado sul do rio Yalu, é uma expressão moderna das comunidades agrárias asiáticas, com pequenas habitações circundadas de arrozais e mulheres e crianças praticando uma pesca que nos lembra muito uma fase muito primária do desenvolvimento social: a era da economia natural.

***
Num relato de viagem que li recentemente, como forma de “esculhambar” com o regime norte-coreano, dizia-se que o comboio andava numa velocidade insuportavelmente baixa, segundo ele, dada às péssimas condições da ferrovia no lado norte-coreano. Não perdi a oportunidade de ir atrás de um mapa de três dimensões para concluir que a parte norte da península coreana é muito montanhosa, logo – no concreto – percebi que a baixa velocidade se dava pelo relevo da região. Aliás, um trem que anda a 30 km/h é prato cheio à um pesquisador de alto nível de curiosidade.

Neste mesmo relato, as “sombras da fome” ao longo da ferrovia eram amenizadas pela tentativa de maquiagem (até minha mãe, que para burra não servia daria um jeito de mudar o aspecto da frente de nossa casa dada movimentação de “estrangeiros”).Afirmo no alto de minhas, socializadas, características e independência (porém compromissada), atividade intelectual: TUDO MENTIRA. Percebe-se, sim, flashes de um país em grandes dificuldades: fábricas paradas, escolas e prédios públicos com problemas de manutenção e estações ferroviárias muito precárias.

Interessante, do ponto de vista histórico e sociológico, é a resistência da cultura do matriarcado (modo de produção asiático). As mulheres dominam os arrozais. Sem falar que a chefe militar do posto de fronteira norte-coreano era uma mulher a frente de pelo menos uns 100 subordinados

Agricultura e o papel estratégico do Brasil
A agricultura de arroz e milho é praticada em toda a extensão da ferrovia. Pode-se alegar que tais plantações são parte da “maquiagem”. Apelo para que saiamos da superfície para, no conjunto, raciocinemos que nesta região do país, milenarmente, dadas as facilidades provenientes do rio Yalu e seus afluentes, a atividade agrícola ocorre – talvez – de melhor forma que em outras regiões. Apesar de que, com uma recém-inaugurada planta hidrelétrica no sul do país, as condições naturais melhoraram bastante (por conta das antigas enchentes) em outros pontos do território da Coréia Popular.

***

Qual o melhor caminho no rumo de um processo de acumulação capaz de prover à parte norte da província saltos qualitativos?

A primeira impressão pode nos levar a crer que a Coréia deveria seguir os passos da China pós-1978 e conceder terras para os camponeses produzirem com vistas ao mercado. Ok, esta percepção tem base histórica no fato de desde os tempos do modo de produção asiático a propriedade privada da terra não existira, sendo propriedade do Estado (Império) que, por seu turno, concedia lotes a famílias camponesas. Pois bem, este dado histórico foi nodal às reformas de Deng Xiaoping na China, logo compreender o socialismo asiático passa por uma grande compreensão das características inerentes ao modo de produção asiático.

Mas nem sempre a abstração resolve nossos problemas. Pelo contrário.

Veja bem, pelo que conversei até aqui, os coreanos estão fazendo pequenas experiências neste sentido. Por outro lado, pelo que vi (pela janela do trem) e cotizando com outras observações coletadas, o problema da agricultura norte-coreana não é como o cubano, de terras ociosas. Por aqui não existem terras ociosas. A ociosidade de terras é o lado da dialética que se relaciona com o estrangulamento do abastecimento alimentar, cuja síntese só pode estar nos marcos de uma liberalização comercial do processo agrícola.

Neste caso, o problema da geração de renda pode passar por um lento e gradual processo de incorporação ao território econômico da Coréia do Sul, como se tem visto com a instalação de uma grande fábrica da Hyundai na fronteira entre os dois países empregando cerca de 50.000 trabalhadores.

O problema da agricultura da Coreia do Norte não passa, necessariamente, pelo mercado e sim pela indigenização de tecnologia capaz de elevar substancialmente a produtividade do trabalho e transformar o país – no futuro – em exportador de alimentos, e não importador como atualmente. Essa política de mecanização, por aqui, contaria com uma vantagem: o fato de a Coréia Popular não ter, como a China, 700 milhões de camponeses.

Desembarcando no empírico, relatório que li recentemente da FAO (United Nations Food Program: 8,7 Milllion North Coreans Need Food Assistance, December 10, 2008) demonstra que o total de toneladas de cereais produzidos em território norte-coreano previstos para 2009 poderá chegar a 4,21 milhões. Nesse ritmo de (baixíssima) produtividade, o país este ano poderá estar importado algo em torno de 500 mil toneladas de grãos, e recebendo externamente (por políticas gerenciadas pela United Nations World Food Program), sob forma de auxílio, cerca de 840 mil toneladas.

Ora, vaticino e especulo que, pela quantidade de terras em condições de plantio na parte setentrional da península, um nada grande aporte tecnológico poderia e alguns aos ao menos duplicar essa produção interna, de forma que o excedente poderá se tornar aporte financeiro ao aprofundamento do processo de industrialização. Sonho...

Miremos estrategicamente. O Brasil recentemente abriu nossa embaixada por aqui. Temos a EMBRAPA, uma empresa modelo que nenhum país do mundo conseguiu alcançar. Aliás, após longa conversa com o diplomatas ocupados no problema norte-coreano, acabei que descobrindo que alguns projetos estão elaborados e prontos para serem executados; estado, logo, sob a mercê de processos políticos internos nada rápidos.

Mas, podemos ir além. No Hotel em que me encontro bebe-se café solúvel alemão, come-se frutas européias. É muito o caso de nossa diplomacia pesquisar item por item da pauta de importações da Coréia do Norte. Em seguida, demonstrar a eles em quais itens o Brasil poderia vender mais barato ou simplesmente trocar esses produtos por produtos nativos que nos interessem. Por exemplo, a Coréia do Norte tem abundância em magnesita. Não sei, sinceramente, se temos este minério em nosso subsolo, caso contrário os coreanos poderiam nos fornecer tal.

Mas o jogo do planejamento de nosso comércio exterior como forma de fincar nossa bandeira na Ásia não se encerra com este tipo de boas intenções. A Coréia do Norte simplesmente não tem dinheiro nem acesso a linhas externas de crédito. Portanto, nossas exportações deverão ser financiadas, e se possível a fundo perdido, como os chineses fazem com Cuba. Devemos mostrar a eles, um governo muito cioso de sua suada condição nacional conquistada, de mercadores que chegam com produtos on sale. Devemos e podemos ir adiante, não entabular negociações que, todos sabem, não dão em nada. O negócio é chegar com o “pacote pronto”: assistência técnica da Embrapa, produtos mais baratos que os atualmente importados e, o principal, financiamento das exportações.

Outra observação: o sistema público de transportes de Pionguiangue, apesar de contar com uma linha de metrô, tem no sistema de ônibus uma de suas vértebras. Pelo que soube, eles não contam com uma frota de mais de 30 ônibus, para atender uma população de 2,2 milhões. Os ônibus, são velhos e em péssimo estado e vivem, durante todo o dia, lotados. Ora, pergunto: qual o custo de financiar (a custo perdido) a exportação de 50 ônibus novos, com maior capacidade de lotação e muito confortáveis? Será que é difícil termos uma visão minimamente estratégica neste ponto?

Por outro lado, existe um problema interno brasileiro de correlação de forças que pode frear esse processo de aproximação. Imaginem só o “prato cheio” para essa “mídia de aluguel bandida” o fato de estarmos os relacionando com – declarado – inimigo número 1 do imperialismo no mundo. Para isso, mudar a correlação de forças, é que existe o jogo da “grande política”. Neste sentido, o argumento deve residir no interesse nacional e não nos concentrarmos em argumentar tendo a Coréia do Norte como centro e sim os interesses brasileiros na Ásia.

Enfim, será que não poderíamos fincar nosso pé na Ásia, sem grandes esforços, nem aportes financeiros capazes de comprometer o (famigerado) superávit primário?

Ao ajudarmos esta gloriosa nação a tocar adiante a mecanização da agricultura, estaremos auxiliando-os à plena utilização de sua capacidade produtiva já instalada com a fabricação de tratores e arados mecânicos, por exemplo.

O Brasil pode ser um parceiro ideal na viabilização do surgimento de um novo Tigre Vermelho...

(continua)

O direito à existência da Coreia Popular, Por Elias Jabbour - Fundação Maurício Grabois

www.grabois.org.br

A morte do líder norte-coreano, Kim Jong Il, está fazendo renascer os mais podres sentimentos possíveis nos círculos reacionários, sobretudo na mídia colonizada. Uma infinidade de desinformações e caricaturas visando desqualificar o regime estão sendo lançadas hora após hora. Conforme feito com Kadhafi, o direito de um povo ao cultivo de sua história tem sido instrumento corriqueiro de desmoralização, no que tange as razões da comoção de um povo diante de seu líder e símbolo centenário de uma família cujo maior patrimônio foi a luta pela existência deste próprio povo em prantos. É como se o povo norte-americano fosse proibido, a partir de hoje, de cultuar os heróis de sua independência em 1776.

O mote midiático é demonstrar que a República Democrática e Popular da Coreia é uma anomalia internacional. Uma verdadeira entidade “maléfica”, pronta a invadir o seu vizinho do Sul e se possível se aliar e promover o terrorismo internacional. È apresentada como uma ameaça real à paz mundial. Um país que literalmente está matando seu povo de fome. Algo abominável cujo destino deveria ser o mesmo da Líbia de Kadhafi e do Iraque de Saddam Hussein. Um regime de “loucos”, agora prontos a explodir uma bomba nuclear no momento e na hora que acharem necessário. Esta história já conhecemos: é a mesma cantilena amplificada pelo imperialismo desde que em 1786 lançou-se em suas aventuras guerreiras externas. Ao desprover de história um país de 25 milhões de habitantes, busca-se condições objetivas ao fim de dominação. Mas a Coreia do Norte não é a Líbia ou o Iraque.

Aquele mesmo país que propugna os “direitos humanos” e a “democracia” foi capaz de destruir cada pilastra em pé da capital norte-coreana, Pyongyang, durante uma das mais brutais guerras do século XX. Além da Guerra do Vietnã, a chamada Guerra da Coréia (1951-1953) terminou com um armísticio em que a face da derrota não esteve com os coreanos do norte. Foi a primeira guerra em que os Estados Unidos, desde sua independência, tiveram de assinar um cessar fogo sem os louros da vitória. Evidente que dentro de uma subjetividade guerreira, assassina e suja, este mesmo regime que fez o imperialismo sentir o gosto da derrota, deveria ser derrotado e se possível ter sua terra salgada conforme feito pelos romanos em Cartago.

Essa condição de quase vitoriosa numa guerra com o mais brutal poder militar da história humana fez a Coreia do Norte desde então lutar diariamente pela sua sobrevivência como país. Fundada no bojo da ação de guerrilhas camponesas lideradas na década de 1930 por Kim Il Sung contra o nada democrático ocupante japonês, chegou ao poder em 1945 no embalo da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial. Membro da chamada Comunidade Socialista, desde o princípio buscou construir sua independência diante de seus próprios aliados. Forjou uma subjetividade de “autodeterminação” (Juche), constituiu sua própria base industrial e ainda no final da década de 1970 estava entre os 25 países mais industrializados do mundo, à frente da própria Coreia do Sul. Sempre fustigada pela presença do inimigo do outro lado da fronteira (30 mil soldados e ogivas nucleares acantonados no sul da península) tem passado por uma verdadeira prova de fogo desde o fim do bloco socialista no início da década de 1990, momento em que 78% de seu comércio externo desapareceu da noite para o dia.

Em 1994, morre Kim Il Sung o fundador do país, figura tida pelo ex-presidente Jimmy Carter como um dos “maiores estadistas do século XX”. As ameaças do imperialismo recrudescem a ponto de se impor um mortífero bloqueio econômico e financeiro. Algo de maior alcance que o imposto à Cuba e ao Iraque em seu tempo. A verdade é que a Coréia do Norte passou a ser a nação do mundo mais bloqueada, ameada e difamada desde o início da era dos Estados Nacionais formados na Europa no final da primeira metade do século XIX. Sua soberania é mantida a um grande custo financeiro que teve ápice há alguns anos atrás. A solução nuclear foi um imperativo diante de mais de 100 ogivas nucleares apontadas para o seu território e de ameaças cotidianas por todas as vias possíveis. O objetivo estratégico de reunificação com o sul da península tem sido solapado dia após dia pela própria presença do imperialismo na região. A solução pacífica do dilema da unificação coreana é algo cada vez mais distante diante de um imperialismo capaz de responder com mais violência diante de sua própria decadência.

É tarefa de todos os progressistas do mundo conhecer a real dimensão das opções norte-coreanas sob um verdadeiro cerco e aniquilamento imposto externamente. A defesa do direito à existência da Coreia do Norte se confunde com o próprio direito humano à vida. É algo de muito maior alcance do que nós próprios imaginamos.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Península Coreana: 2011 foi mais um ano de tensões - Portal Vermelho

Península Coreana: 2011 foi mais um ano de tensões - Portal Vermelho


A situação na Península Coreana termina o ano como começou: as tensões persistem e a retomada das conversações de seis partes ainda está por tornar-se realidade.

Por Luis Melián *

Todo isso apesar de acontecimentos em meses recentes que prognosticavam alguma mudança favorável para romper o estancamento nesse processo lançado em 2003 e assim contribuir para a necessária distensão.

É necessário recordar que 2011 foi precedido por dois incidentes que agravaram a situação no mencionado território.

Em março de 2010, o afundamento da fragata Cheonan, atribuído à República Popular Democrática de Corea (RPDC), que rechaçou a acusação e pediu para que os fatos fossem investigados, mas a solicitação foi negada, o que elevou as tensões a níveis históricos.

Em 23 de novembro daquele mesmo ano, forças sul-coreanas dispararam contra as águas sob jurisdição do Norte, que revidou a ação. Pyongyang qualificou o incidente de provocação instigada pelos Estados Unidos e sua reação de ato de defesa.

Com esses antecedentes é difícil avançar para um reinício das citadas conversações, estancadas desde dezembro de 2008 e nas quais participam também Estados Unidos, Rússia, Japão e China, sendo esta o país anfitrião.

Tudo se agravava diante do fortalecimento militar da Coreia do Sul, sobretudo nas regiões fronteiriças, incluídas as ilhas no mar Ocidental e as frequentes manobras entre esse país e os Estados Unidos, que o Norte denunciou como ensaios de guerra contra seu território.

Embora as relações intercoreanas passassem por um maior distanciamento, os esforços por reiniciar as citadas conversações nunca cessaram, favorecidos pela posição reafirmada pelo líder norte-coreano, Kim Jong Il, durante uma visita à Rússia em agosto.

Dos pronunciamentos feitos nessa ocasião, ressaltou a coincidência entre Moscou e Pyongyang em retomar o quanto antes o mencionado processo.

Pouco depois, a China organizou um seminário pelo aniversário da Declaração Conjunta desse foro, firmada em 19 de setembro de 2005 e considerada pelos anfitriões como o resultado mais importante das conversações.

Nessa ocasião o chanceler chinês, Yang Jiechi, reiterou o chamado a reativar o processo, reconhecido por todos como válido para o mencionado objetivo.

O encontro precedeu uma reunião entre os máximos negociadores nucleares de Seul e Pyongyang também em Pequim, o qual, embora sem resultados transcendentais, trouxe otimismo pelo fato de ser um segundo diálogo entre essas partes.

O anterior se efetuou em julho em Bali, Indonésia, onde ambas as autoridades assistiram a uma conferência de segurança regional.

Em finais de outubro, o primeiro vice-chanceler norte-coreano, Kim Kye Gwan, e o enviado especial dos Estados Unidos à RPDC, Stephen Bosworth, mantiveram uma segunda rodada de conversações em Genebra. A primeira teve lugar em Nova Iorque, em julho.

Na cidade suíça se aprofundou na compreensão das respectivas posições, incluídos avanços e o compromisso de continuar os contatos para solucionar problemas pendentes e criar confiança mútua, segundo informou Pyongyang.

Ao se pronunciar sobre esse encontro, um porta-voz da Chancelaria reafirmou a invariável posição de retomar imediata e incondicionalmente as conversações de seis partes para a desnuclearização da Península Coreana, em cuja parte meridional o Pentágono mantém 28,5 mil soldados.

Mas os Estados Unidos e a Coreia do Sul pedem ao Norte que interrompa seu programa de enriquecimento de urânio como um dos requisitos para reiniciar o referido processo, exigência à qual a RPDC respondeu nos seguintes termos em 30 de novembro último:

A energia nuclear constitui a única via para resolver o problema de eletricidade do país e seu uso com fins pacíficos um direito legítimo de todo Estado soberano.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores explicou que diante da "muito obscura perspectiva da construção de reatores de água leve, que deviam ser entregues a nosso país", se tomou a decisão de fabricá-los por conta própria segundo a estratégia de desenvolvimento econômico.

Recordou que assegurar à RPDC o direito ao uso de energia nuclear com fins pacíficos é algo reconhecido como uma premissa indispensável para o mencionado objetivo desde os primeiros momentos das negociações.

Agregou que o referido processo enfrenta dificuldades porque os Estados Unidos se dedicam a violar a soberania da Coreia Democrática e impedir seu desenvolvimento pacífico sem cumprir seus compromissos e obrigações.

Nesse sentido, enfatizou que somente quando todos os países interessados cumprirem com sinceridade, segundo o princípio de ação simultânea, os deveres assumidos na mencionada declaração, se abrirá a perspectiva da desnuclearização da Península Coreana.

Os acontecimentos associados a este processo tiveram como fatos recentes visitas do enviado especial dos Estados Unidos para a RPDC, Glyn Davies, a Seul, Tóquio e Pequim.

Apesar de todos esses contatos e da coincidência quanto à validade do foro das seis partes, tudo continua praticamente igual.

Termina assim mais um ano de muitas gestões diplomáticas mas sem conseguir nada concreto que conduza à distensão necessária para favorecer a retomada das referidas conversações e avançar para o objetivo de estabelecer uma zona livre de armas nucleares nesse território.

*Chefe da Sucursal da Prensa Latina na China.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Guerra da Coreia: A primeira derrota militar estadunidense - Portal Vermelho

Guerra da Coreia: A primeira derrota militar estadunidense - Portal Vermelho


Há 60 anos eclodiu a guerra da Coreia. Este episódio, definitivamente, marcou o século 20. Foi primeiro conflito armado entre os dois campos nos quais se dividia o mundo: o socialista e o imperialista. Os Estados Unidos e seus aliados se utilizaram dos métodos mais bárbaros, como bombardeios massivos de alvos civis e utilização de armas bacteriológicas.

Por Augusto Buonicore *



Sul-coreanos escarnecem de vítima nortista


Também foi ali que a principal potência capitalista sofreu sua primeira derrota numa guerra. Foi vencida pelo aguerrido exército popular norte-coreano, comandado por Kim Il-sung e pelos voluntários chineses.

Em outubro de 1949 foi proclamada a República Popular da China. O povo chinês, dirigido por Mao Tse-Tung, havia imposto uma grande derrota aos planos hegemonistas do imperialismo na Ásia. Alguns meses depois, o presidente Mao era recebido, com todas as honras, por Stalin na União Soviética. Os governos daqueles dois grandes países – agora dirigidos por forças socialistas – assinaram importantes acordos de cooperações econômico e militar. Formou-se, assim, um vasto campo democrático-popular que abarcava o leste da Europa e parte significativa do território asiático.

O avanço socialista e a guerra fria
Um pouco antes, outro acontecimento havia tirado o sono do governo dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais. A URSS explodiu seu primeiro artefato nuclear e quebrou, assim, o monopólio atômico estadunidense.

Desde então, a histeria anticomunista propagou-se nos principais países capitalistas. O ex primeiro ministro inglês Winston Churchill, num discurso feito nos Estados Unidos, declarou que uma “cortina de ferro” havia descido sobre a Europa oriental. Este era o sinal para o inicio do que se chamaria guerra fria.

Até a vitória da revolução chinesa, as próprias autoridades militares estadunidenses afirmavam que a península coreana estava fora do seu perímetro de segurança. Ou seja, sua localização geográfica não ameaçava diretamente os interesses daquela potência imperialista.

No entanto, nos círculos mais conservadores dos Estados Unidos, fortalecia a opinião de que todo planeta deveria ser considerado seu perímetro de segurança. Não era se deveria ceder um milímetro ao avanço das forças simpáticas ao socialismo. Haveria agora dois mundos antagônicos: o mundo comunista e o “mundo livre”. Deste último, comandado pelos EUA, fazia parte os regimes fascistas da Espanha e Portugal – e, também, as ditaduras latino-americanas.

A guerra quente na Coreia
A península da Coreia havia sido ocupada por mais de 40 anos pelo imperialismo japonês, que tentou transformá-la numa colônia, destruindo sua cultura e identidade nacional. Uma dura luta de resistência foi travada pelos comunistas, liderados pelo jovem Kim Il-sung. Durante a Segunda Guerra Mundial, eles conseguiram um aliado imprevisto: os Estados Unidos. Este último, atacado pelo Japão, entrou na guerra e concentrou suas ações militares na Ásia.

Nos primeiros anos da guerra, os soviéticos travavam lutas titânicas contra os poderosos exércitos de Hitler na frente européia. Depois de derrotá-los, passou a dar um maior apoio à libertação da China e da Coreia, contribuindo decididamente na expulsão dos invasores japoneses. Mas, o território coreano – como aconteceu com a Alemanha – acabou sendo dividido em duas zonas de ocupação militar, demarcadas pelo paralelo 38. O sul ficou sob supervisão dos Estados Unidos e o norte da URSS. O objetivo a médio prazo era unificar as duas partes numa única nação.

Porém, em agosto de 1948, desrespeitando o ritmo das negociações, os Estados Unidos promoveram a eleição de um governo títere no sul, fundando a República da Coreia. O novo presidente era Synghmam Rhee, um ardoroso anticomunista, que pensava unificar a península sob sua batuta, integrando-a ao campo imperialista. Como resposta, em setembro, foi constituída a República Popular da Coreia, presidida por Kim Il-sung.

Após a proclamação das duas repúblicas coreanas, os exércitos dos Estados Unidos e da URSS saíram da região. Acabava, assim, a tutela internacional. Contudo, as tensões entre os dois países – que não se reconheciam – aumentaram cada dia mais. As lideranças norte-coreanas denunciavam a ocorrência de constantes atos de provocação armada na sua fronteira. Esta foi a justificativa para que elas empreendessem uma grande ofensiva militar contra o governo de Synghmam Rhee, visando a unificação do país.

O Exército Popular da Coreia do Norte, em poucos dias, conquistou a capital sulista, Seul. A guerra parecia estar chegando ao fim, com uma vitória magistral das forças populares e socialistas. Este, com toda certeza, teria sido o resultado da guerra se a contenda tivesse ficado apenas nas mãos do povo coreano.

Invasão estrangeira e genocídio na Coreia
Os Estados Unidos, aproveitando-se da ausência da URSS, aprovou no Conselho de Segurança da ONU uma condenação à Coreia do Norte. Eles conseguiram também que a entidade formasse uma força especial de combate para “defender” a Coreia do Sul, ameaçada pelos comunistas. Os motivos para ausência dos soviéticos, que tinham direito a veto no Conselho de Segurança, são ainda desconhecidos.

Depois da fatídica decisão, que desmoralizou a ONU como instrumento da paz, soldados de 15 países foram mobilizados para combater na Coreia, embora o grosso das forças que lutaria naquele conflito viesse mesmo dos EUA. Por isso, o comando das operações militares coube ao general Douglas MacArthur, o mesmo que comandara os aliados na luta contra os japoneses no Pacífico.

Depois das várias derrotas desmoralizantes, que quase jogou seu exército de volta para o mar, encurralado numa estreita faixa de terra no sul da península, os EUA foram obrigados a mobilizar um aparato bélico ainda mais poderoso – o maior desde o final da Segunda Guerra Mundial. Seus aviões iniciaram os bombardeios criminosos por trás das linhas inimigas.

Começava nesse momento uma das páginas mais tenebrosas da história do século 20. Milhares de aviões despejavam diariamente toneladas de bombas sobre cidades e aldeias indefesas da Coreia do Norte. Todos os centros urbanos foram arrasados. Na capital não ficou nenhum edifício de pé. Pela primeira vez, foram usadas armas químicas e bacteriológicas em grande escala contra população civil. Os exércitos dos Estados Unidos e da ONU podiam, sem dificuldades, serem comparados aos de Hitler. Este era um claro sinal que tempos sombrios estavam chegando.

A entrada em cena dos aviões de caça soviéticos ajudou melhorar a situação, mas não pode quebrar a grande superioridade aérea dos Estados Unidos. A URSS era muito cautelosa para não ser acusada de estar envolvida no conflito ao lado dos norte-coreanos, contra uma decisão da ONU. Contudo, não há dúvida que sua ajuda foi decisiva, quer preparando os quadros militares norte-coreanos quer fornecendo os armamentos necessários. Vários pilotos e assessores soviéticos chegaram mesmo a participar dos combates.

O lado estadunidense não respeitou os acordos de Genebra. Os oficiais da Coreia do Sul mandavam degolar os soldados inimigos aprisionados. As fotos dessas cabeças decepadas, que correram o mundo, causaram embaraços para as forças da ONU. Também chocaram o mundo as imagens de mulheres e crianças carbonizadas sob os destroços das aldeias.

Cabe destacar o papel da URSS e do Movimento Comunista Internacional no desencadeamento de uma grande campanha – uma das maiores já vista na história – contra a agressão imperialista à Coreia, pela interdição das armas bacteriológicas e atômicas.

As tropas dos Estados Unidos e da ONU, desrespeitando o que fora lhes delegado, avançaram para além do paralelo 38, conquistando Pyongyang, capital nortista. Ficava claro que o plano era esmagar o Exército Popular, unificar a Coreia sob a batuta de Synghmam Rhee e transformá-la num protetorado americano na Ásia. O imperialismo teria assim uma importante “ponta de lança” contra a China.

A cartada chinesa
Os exércitos inimigos chegaram, perigosamente, muito próximos da fronteira chinesa, pondo em risco sua soberania e suas conquistas revolucionárias. Diante de tal ameaça, Mao Tse-Tung resolveu reagir, incentivando a formação de um Exército de Voluntários para combater ao lado do Exército Popular da Coreia do Norte, liderado por Kim Il-sung.

A partir de novembro de 1950 mais de um milhão de combatentes chineses atravessaram o rio Yalu e foram reforçar a luta de libertação do povo coreano. A ação, que pegou de surpresa os Estados Unidos, inverteu a sorte da guerra.

As tropas norte-coreanas e os voluntários chineses ultrapassaram o paralelo 38 e ocuparam novamente a capital da Coreia do Sul. O duro inverno – mais de 20 graus abaixo de zero – molestava as tropas invasoras. O quadro era bastante desolador para os Estados Unidos.

As derrotas sucessivas fizeram com que o general MacArthur apresentasse a proposta de bombardear o território chinês, expandindo a área de conflito, ameaçando transformá-lo numa guerra mundial. Diante da perspectiva real de vitória dos comunistas, o general chegou propor a utilização de armas atômicas contra a Coreia do Norte e a China.

Vários países aliados, como o Reino Unido, se alarmaram com tal possibilidade. Grandes manifestações foram realizadas em todas as partes do mundo pela paz na Coreia e contra utilização das armas atômicas. Por fim, o próprio presidente Truman não endossou as propostas temerárias do aventureiro MacArthur e o destituiu do comando das operações.

Profundamente desgastado pelos resultados da guerra, Truman desistiu de concorrer para um novo mandato presidencial e, em novembro de 1952, o candidato democrata foi derrotado pelo general republicano Dwight Eisenhower. Quase ao mesmo tempo em que os Estados Unidos “trocavam sua guarda”, em março de 1953, morria o líder soviético Joseph Stalin. Os novos dirigentes de Moscou se empenharam em dar um fim definitivo ao conflito.

A paz: uma derrota do imperialismo estadunidense
Apesar de todos os esforços realizados – que incluíram a re-conquista de Seul –, os exércitos estadunidenses não conseguiram ir muito além do paralelo 38. A guerra entrou numa espécie de “ponto morto”. Nenhum dos dois lados parecia ter condições de vencê-la. Iniciou-se, então, um longo e tortuoso processo de negociação de paz, que levaria vários anos. Durante todo período que durou as negociações, os EUA continuaram com sua política genocida contra a população norte-coreana. O armistício de Panmujon foi assinado em 27 de julho de 1953. Era o fim da Guerra da Coreia.

Segundo cálculos feitos pela própria ONU mais de 3 milhões de coreanos perderam suas vidas neste conflito. Toda infra-estrutura da Coreia do Norte foi destruída pelos sucessivos bombardeios. Agora a grande tarefa que se apresentava ao povo norte-coreano era a de reconstruir o país, a partir de suas próprias forças, e preparar-se ainda mais contra futuras agressões externas. Este era o preço que teriam que pagar pela manutenção de sua independência.

Os Estados Unidos perderam, entre mortos e feridos, 150 mil soldados. Eles só haviam tido tamanho número de baixas nas duas guerras mundiais e na Guerra Civil nos tempos de Lincoln. Outra consequência negativa para o país foi o fortalecimento do complexo industrial-militar que passaria ser o maior incentivador – e beneficiário – da política intervencionista estadunidense.

Sem dúvida, podemos dizer que a Guerra da Coreia representou a primeira grande derrota militar dos Estados Unidos, que até então eram considerados imbatíveis numa guerra. Foram derrotados pelo exército de um pequeno país asiático e pelos voluntários chineses. Encerrava-se, assim, o segundo grande capítulo da luta pela emancipação da Ásia, o primeiro foi a Revolução Chinesa. Outras páginas heróicas ainda seriam escritas no Vietnã, no Camboja e no Laos.

Augusto Buonicore é historiador e secretário-geral da Fundação Maurício Grabóis.

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