A partir deste sábado, 24 de agosto de 2013, a Central dos
Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil conta com um novo presidente.
Trata-se de Adilson Araújo, 45 anos, ex-presidente da CTB no estado da
Bahia por dois mandatos e destacado dirigente do Sindicato dos Bancários
daquele estado.

Araújo
iniciou sua militância sindical e política no final dos anos 80. Ele
participou da fundação da CTB em dezembro de 2007 e, na esfera
institucional, foi também presidente do Conselho Estadual de Trabalho e
Renda da Bahia (CETER-BA), representando a bancada dos trabalhadores. O
dirigente assume a presidência da CTB nacional em um momento de
consolidação da Central, dentro de uma perspectiva de crescimento que
deve colocá-la, a médio prazo, entre as três maiores entidades do país.
Para araújo, essa tarefa exigirá da nova Direção uma gestão planejada,
ousada e audaciosa.
Nesta entrevista, Adilson Araújo faz um balanço da trajetória da CTB
até este momento, compartilha suas expectativas para o mandato que se
inicia, fala sobre a necessidade de fortalecer as seções estaduais da
CTB, da atuação da Central junto aos sindicatos do campo e reafirma uma
política fundamental para os cetebistas: lutar de forma intransigente
pela unidade da classe trabalhadora. Confira abaixo:
Portal CTB: Finalizado o 3° Congresso da CTB, que balanço é
possível fazer do último período e quais são as perspectivas para a
gestão que se inicia?Adilson Araújo: A CTB aproveitou seu
3º Congresso para fazer uma atualização da conjuntura internacional e
nacional, além de se preparar para os próximos quatro anos. De forma
muito particular, eu penso que o balanço é extremamente positivo. A CTB,
na verdade, foi germinada a partir da compreensão de que o movimento
sindical padecia de um conjunto de problemas, entre eles certa apatia
reinante. A CTB foi construída num movimento que buscou reunir setores
estratégicos da organização da classe trabalhadora, da qual o
protagonismo dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais, dos
marítimos, do setor metal/mecânico, entre outras tantas entidades que
construíram esta central sindical democrática, classista e de luta.
A CTB, em sua fundação, teve como questão fundamental a busca da
unidade das centrais sindicais, assim como a defesa de uma nova Conclat,
a partir de um movimento nacional que culminou no ato do Pacaembu em 1º
de junho de 2010. De lá para cá, a gente tem percebido o quanto foi
importante essa decisão, até porque hoje podemos dizer – ao contrário de
um passado recente – que temos um instrumento norteador da nossa luta,
que é a Agenda da Classe Trabalhadora. Todas as nossas ações desde então
têm como centro atualizar essa Agenda.
Desta forma, penso que a CTB sacramenta sua disposição de fortalecer
cada vez mais a unidade e os laços de solidariedade entre a classe
trabalhadora, e evidentemente isso traz uma nova perspectiva, porque
encerramos uma etapa vitoriosa, com uma perspectiva real de ser a
terceira ou quiçá a segunda maior central sindical do país, sobretudo a
partir de sua amplitude e sua política acertada. E há uma realidade
concreta: hoje temos mais de mil sindicatos filiados (sendo que desses
mais de 700 já estão reconhecidos pelo Ministério do Trabalho e
Emprego). Isso nos garante certa visibilidade e nos dá a convicção que
não somos mais invisíveis perante os trabalhadores. Lutamos por isso e a
CTB, de forma muito apropriada, consegue consolidar esse quadro,
graças, em grande parte, ao esforço de um conjunto de dirigentes que se
dedicou a consolidar a Central, tendo o companheiro Wagner Gomes à
frente desse processo, garantindo uma interlocução interessante com as
demais centrais, com uma série de partidos políticos e os mmovimentos
sociais como um todo.

Portal CTB: Que elementos de sua experiência como presidente da CTB-BA irão ajudá-lo nesta nova tarefa?Adilson
Araújo: O mandato da Direção Nacional foi muito promissor, embora as
seções estaduais tenham vivido uma verdadeira via-crúcis, diante das
dificuldades e da pouca estrutura. Mas é verdade que, pelo fato de
termos uma concentração de sindicatos importantes no estado da Bahia,
podemos dizer que não foi tão difícil colocar de forma prioritária a
orientação da Direção Nacional. A base de sustentação disso se deve aos
sindicatos, pois a condição de existir de uma central sindical está
diretamente ligada a esse alicerce, que é a ferramenta fundamental. Não
existe central sindical sem sindicato de base. E na Bahia nós tivemos a
possibilidade de fazer uma transição na qual conseguimos garantir uma
representatividade. Esse cenário permitiu que a gente tivesse na Bahia,
do ponto de vista formal no Ministério do Trabalho, a maioria dos
sindicatos e, do ponto de vista do número de filiados também. Temos hoje
cerca de 300 sindicatos filiados, pois temos federações de
trabalhadores importantes, como dos bancários, rurais, construção civil,
metal/mecânico, alimentos, entre outros. E também um número expressivo
de sindicatos urbanos e rurais. Essa força nos permitiu ter um
posicionamento mais audacioso. Pelo fato de a CTB permitir um novo
olhar, conseguimos dar a ela uma nova dinâmica, praticando um
sindicalismo renovado, autêntico e de luta, já que o momento
visivelmente permitiu isso e ainda permite, pois embora estejamos numa
crise, o Brasil ainda é um país de oportunidades e com perspectiva
interessante, que, se bem trabalhadas e o movimento sindical atuar de
modo consequente, poderão ser bem melhores.
Portal CTB: De que forma a Direção vai trabalhar a partir de agora o fortalecimento da CTB nos estados?Adilson
Araújo: Podemos dizer que colocamos o time em campo e jogamos de forma
satisfatória neste primeiro período. É verdade que a gente precisa ter, a
partir desta gestão que se inicia, uma ação mais planejada, pois o
esforço terminou em parte predominando uma vontade espontaneísta, em
grande parte por conta desse desejo novo de se construir uma central
sindical, de ir aparando arestas. Para este novo momento, me parece que
se torna fundamental planejarmos melhor nossa ação. Tenho a opinião de
que planejando mais e melhor os dividendos serão maiores. Temos que ter
uma atitude mais elaborada no sentido de corresponder a um conjunto de
problemas existentes. Creio que sem essa discussão interna e sem
vislumbrar um plano estratégico não conseguiremos desatar os nós. E,
como estamos convencidos de que é possível desatar os nós, vamos fazer a
opção de canalizar todos os esforços para uma ação de vanguarda,
propositiva e planejada.
Portal CTB: Qual sua avaliação da atuação da CTB junto aos
sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras rurais? Como ampliar essa
atuação?Adilson Araújo: Temos uma experiência sindical na
qual nossa cultura de central sindical era muito “um pé dentro e um pé
fora”. Com a responsabilidade de não ser mais apenas uma corrente de
opinião e dirigir uma central sindical, pressupõe-se a construção de
novos valores. A gente percebia, num passado recente, que a compreensão
do trabalhador do campo era a de que ele não se sentia representado pela
central sindical. Daí surgia um hiato, um distanciamento muito grande. E
foi esse descontentamento que fez com que o segmento de trabalhadores e
trabalhadoras rurais assumisse o compromisso de, coletivamente,
construir a CTB.
A CTB, portanto, jogou um papel fundamental nesse processo. Há uma
necessidade objetiva de aproximar o trabalho sindical urbano com o
rural. Considero que a CTB só irá consolidar essa proposta se souber
combinar a praticidade com essa necessidade de colocar o pé no barro e
conhecer mais de perto o drama que é fazer a luta sindical no campo,
seus valores, sua cultura. Isso requer uma maior aproximação. Acho,
inclusive, que a CTB nacional precisa constituir um departamento ou uma
secretaria que, junto do núcleo político da Central, possa se ambientar
mais desse cotidiano, buscando repercutir mais a luta sobre as questões
agrárias, pois essas demandas ainda não conseguimos responder.
Precisamos ter uma radiografia mais apurada dessas necessidades, para
que a CTB tenha definitivamente uma marca sindical que vislumbre essa
unidade entre os trabalhadores do campo e da cidade.
Portal CTB: Qual deve ser o rumo da CTB em sua atuação internacional para o próximo período?Adilson
Araújo: No passado recente, nossa interlocução no plano da articulação
sindical era quase inexistente. Com o surgimento da CTB, pudemos ampliar
nosso leque de atuação. Os problemas que afligem um trabalhador na
Europa, nos Estados Unidos ou no Japão são os mesmos problemas da
realidade brasileira. Num ambiente globalizado, as respostas precisam
ser mais dinâmicas e o fortalecimento dos laços de solidariedade devem
ser cada vez mais amplos. O mundo impõe uma agenda regressiva e não
conseguiremos enfrentar essa agenda se não tivermos uma ação unitária
global, de enfrentamento ao capitalismo.
A CTB deve ter em sua ação prioritária uma política para se
fortalecer cada vez mais no plano da articulação, na interlocução e na
troca de experiência com sindicatos internacionais, sobretudo a partir
do fortalecimento de sua presença na Federação Sindical Mundial (FSM) e
no Encontro Sindical Nossa América (ESNA), onde ela tem um papel
fundamental de ajudar na construção dessa movimentação que se sucede
desde a eleição de Chávez, em 1998. Toda essa movimentação releva a
participação da CTB em cenário internacional.
Portal CTB: Existe grande descontentamento no meio sindical
sobre a falta de diálogo do governo federal com a classe trabalhadora. O
que se pode esperar desse relacionamento daqui por diante? Adilson
Araújo: O governo foi concebido a partir do esforço das massas
populares. A eleição de Lula é emblemática nesse processo, pois
representou um freio ao neoliberalismo. Essa mudança política abriu uma
nova perspectiva e os ganhos dos últimos dez anos precisam ser
avaliados. Sob o contexto da luta política nacional, tivemos mais ganhos
do que derrotas. Mas esse é um governo contraditório, que tem limites e
que está em disputa. Nesse sentido, a classe trabalhadora precisa
conceber a defesa de sua tese também, ter uma plataforma de luta
ajustada, audaciosa.
Temos plena clareza de que, se o governo é de direita, isso exige
certo recuo por parte da classe trabalhadora. Mas se o governo faz parte
do campo democrático-popular, exercer mais pressão contribui para que
ele se aproxime mais das reivindicações da maioria da população –
trata-se de um comportamento legítimo. O movimento deve se manter sempre
atuando na defesa de sua autonomia, de forma consequente e ajudando a
construir um governo cada vez mais avançado, que possa corresponder ao
clamor da nação.
O movimento sindical não vai abrir mãos de suas bandeiras. Precisamos
defendê-las e fazer de tudo para darmos uma arrancada no
desenvolvimento. Isso vai com certeza exigir da nossa parte uma posição
cada vez mais firme, pois o governo tem seus limites. Se você observar a
política macroeconômica do país, vemos que o governo não encontrou
ainda o caminho ajustado, pois acaba prevalecendo uma posição muito
conservadora, com um cenário no qual os empresários conseguem resposta a
seus anseios de forma mais rápida do que a classe trabalhadora. Fica
comprovado que precisamos ganhar as ruas e pressionar para que o governo
tenha uma posição mais avançada, de modo a sair do olho do furacão.
Estamos às vésperas de uma grande batalha política, na qual temos que
lutar para evitar qualquer possibilidade de retrocesso.
Portal CTB: O cenário político-eleitoral iminente pode trazer riscos para a unidade das centrais?Adilson
Araújo: O movimento sindical brasileiro está diante de uma nova
conformação. Neste período mudancista nascem novas organizações, que
brotam no desejo de fazer o confronto, no sentido de contribuir para o
Brasil avançar. A unidade das centrais é imperativa, mas é claro que não
há uma camisa de força. O que precisa prevalecer é a compreensão de que
o inimigo não está entre nós, temos que definir o nosso lado. Devemos
continuar defendendo o fortalecimento da unidade das centrais. Isso não
quer dizer que essa unidade não possa sofrer alguma mudança por causa da
batalha político-eleitoral. Mas a melhor alternativa para a classe
trabalhadora é caminhar unida, para garantir a manutenção do que foi
conquistado e com a perspectiva de influenciar o processo político. A
classe trabalhadora é a força-motriz da nação e tem autoridade moral
para dizer qual o melhor caminho para a nação. Se não nos posicionamos
para influenciar o debate político, podemos perder a batalha.
Portal CTB: Qual o cenário que você vislumbra para a CTB daqui a quatro anos, no próximo Congresso?Adilson
Araújo: Não podemos ter uma visão mecânica da central sindical. Acho
que a experiência vivida na Bahia pode ter sido boa para o estado, mas
para a CTB nacional teremos que experimentar algo de novo. E isso vai
demandar muito da Direção, a partir de sua capacidade de convencer as
pessoas. Fundamentalmente, mais do que o desejo pessoal, temos um
projeto, que será exitoso se ganharmos um conjunto de dirigentes para
construir esse projeto coletivamente.
Devemos fazer uma gestão planejada, ousada e audaciosa. Vislumbro,
por exemplo, que para o próximo período temos que dar um tratamento
especial para a política de comunicação da Central. As experiências de
alguns sindicatos contribuem para que tenhamos um projeto mais ousado
nessa área. Temos que nos inserir de forma mais ousada e dinâmica junto
aos demais veículos de comunicação, quem sabe com uma TV na internet,
com uma revista de periodicidade mais frequente. A CTB terá que se
constituir como um tipo de agência, capaz de produzir peças
publicitárias, criar fatos políticos e outros materiais. A comunicação
hoje traz esse debate pela democratização e isso serve para ver que
temos que ser criativos para fazer essa disputa. Mas isso exige da
Direção uma tomada de posição. Valorizar essa política tem que ser uma
das prioridades.
Outra política que temos que discutir é a criação da Escola Sindical
Nacional, para propiciar uma maior preparação e qualificação dos
dirigentes. Temos que ter também uma política de fortalecimento das
seções estaduais, algo que com certeza demandará uma nova política de
finanças. Temos que reduzir a inadimplência, combater a sonegação e
garantir a plena participação das entidades, contribuindo e prestando
conta para que as entidades possam se sentir cada vez mais parte do
processo.
Essas são algumas das ideias que temos para essa gestão que se
inicia. No plano da organização, será fundamental constituir uma central
de organização, apoio e logística para as entidades sindicais. Sob o
comando da Secretaria Geral, temos que dispor de resposta
profissionalizada ao processo de regularização, atualização cadastral e
acompanhamento das entidades sindicais. Se fizermos esse esforço,
poderemos ter, ao final de 2014, cerca de 300 sindicais a mais
registrados no Ministério do Trabalho. Devemos ter essa meta em 2014.
Esse organismo será fundamental para isso.
Por fim, temos também um departamento ou uma estrutura que seja um
plantão com representantes sindicais do campo, para que no conselho
político seja possível dialogar mais com os trabalhadores rurais e dar
sequência a esse trabalho prático e teórico junto à representação do
campo. Isso ajudará bastante para termos mais interlocução entre o
movimento sindical do campo e da cidade.
Fernando Damasceno – Portal CTB
Fotos: Maurício Morais