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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Primeiro de Maio com Victor Jara, que vive e luta - Paulo Vinícius Silva

Às vésperas do Primeiro de Maio lutamos contra a ganância dos capitalistas que desejam destruir a CLT, retirar os direitos básicos dos trabalhadores, favorecer os patrões que dão calote e desproteger os trabalhadores que mais duro trabalham, mais sofrem acidentes, os que mais morrem.  E mais, pois também o sistema ataca a vida dos filhos dos trabalhadores, em especial se jovens negros, que são vítimas da violência do crime e do Estado, e são os que mais morrem. É a pena de morte não declarada, que agora eles querem ampliar, para colocar nas penitenciárias jovens de 16 e 17 anos. Querem por essa juventude nas penitenciárias com os maiores bandidos, e esperam que isso não tenha volta. Há motivos suficientes para lutar contra o que Eduardo Cunha representa como a liderança de uma Câmara dos Deputados que tem uma agenda de retrocesso social, antipopular, dominada pelo capital, e com uma agenda moral conservadora e antidemocrática. Nessa hora, precisamos de convicção e esperança para lutar ainda mais em defesa das conquistas do povo e do Brasil. A poesia é uma arma fundamental nessa luta.

Por isso, tão perto do Primeiro de Maio, fortaleçamo-nos conhecendo um músico que deu sua voz e sua vida pelos mais humildes. Lembremo-nos de Victor Jara, um artista comunista chileno admirável. Victor, poeta, professor, músico, compositor, homem do teatro, produtor cultural, pesquisador, militante das Juventudes Comunistas do Chile, de seu Partido.

Victor que cantava à alma e à consciência com uma doçura e verdade que impactavam profundamente. Nesse concerto gravado para uma  televisão Peruana, podemos vê-lo e ouvi-lo, ver o sorriso, ouvir o violão, a prosa e as palavras que Victor tão doce e real pronuncia.

Victor que foi perseguido pelo que compunha e cantava e tocava. Victor que foi preso no Estádio Nacional com milhares de outras pessoas que apoiavam o governo de Allende, deposto pelo General Pinochet à custa de guerra econômica, conspiração e até bombardeio do Palácio de la Moneda, e a morte de Allende, tudo a mando dos EUA. Muitos milhares de mortos e torturados.
Mas antes do bombardeio aéreo ao palácio de la Moneda, outro o precedeu, o bombardeio midiático, a campanha incessante de desestabilização que o povo resistia com as canções de Victor que, de tão bonitas, atraíram o ódio criminoso e cruel da ditadura.

Pinochet e a direita não perdoaram jamais as verdades que Victos dizia cantando, com toda aquela doçura, com aquela luz que descortina ante nosso olhar a dura realidade de vida, e o herói e a heroína
cotidiano, o trabalhador, a trabalhadora. Eles transparecem em sua beleza e sofrimento, ouvindo-o
é possível sentir a identidade desse artista com a gente mais simples e seus padeceres e a contribuição
gigantesca que dão, pois são os trabalhadores e as trabalhadoras  que fazem a roda da vida girar, porque produzem tudo o que existe ao nosso redor. É a classe trabalhadora a classe produtiva. E esse olhar próximo do artista e de seu povo, dá a voz a páginas incríveis do cancioneiro popular e da
canção latinoamericana.

Victor era "apenas" uma pessoa, mas não estava sozinho, e essa é uma razão fundamental de sua grandeza artística. Seu canto e músicas tinham a a humanidade como alicerce, a justiça, a beleza e o olhar com os olhos do povo, de seu interesse, de sua verdade, de seu projeto. E isso, essas multidões que tinha atrás de si amedrontavam, porque diferente da bala, o canto de Victor não tinha fim, reproduzia-se como chama no mato seco, abrindo até hoje os olhos das pessoas. Victor cantava a vida, a luta, os padeceres e a beleza da classe trabalhadora.

O camponês, o operário, a luta, o acidente de trabalho, a dureza do trabalho, o amor. Sobretudo o amor, como ele mesmo declara durante o concerto, o amor de um homem por uma mulher, de um homem por um homem, do amor à humanidade. Assim ele explica como fez Te recuerdo Amanda. Trata do amor entre dois operários, Manuel e Amanda, dois simples trabalhadores, que ele retrata nos cinco minutos em que eles se encontravam, quando ele ia receber a marmita, apenas em cinco minutos vemos o carinho e a ternura do amor entre esses dois personagens que simbolizam todas as pessoas que lutam a vida dura e que amam.

Por isso o prenderam, torturaram e mataram com 33 tiros, tamanho era o ódio que o regime de Pinochet teve contra Victor e a Unidade Popular.  Ouçamo-lo, aproveitemos a oportunidade da beleza e da verdade dessas canções da luta do povo. Por mais de uma hora estejamos com ele, para entender seu enorme talento, e para perceber o papel transcendente que tem a consciência para tocar o coração e a mente das pessoas, unindo-as num poder transformador irrefreável, o poder do povo unido, invencível. Por isso, longe de tristeza, lembremo-nos de que o povo unido jamais será vencido!

Nesses minutos do programa na Panamericana Televisión de Lima, Perú, el 17 de julio de 1973, Victor  e sua arte mostram-nos porque ele segue tão vivo no coração das pessoas. Victor vive.




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Ricardo Darín - Ator argentino dá show de reflexão sobre o papel do artista num mundo individualista


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

DARIA UMA PERNA PARA ESTAR NA GLOBO - Bemvindo Sequeira

Bemvindo Sequeira - Blog Oficial do Ator - R7

Dia desses um colega veterano, que eu muito respeito, e que
o público consagra por seu comprovado talento,
afirmou em entrevista o seguinte: “Tem muito ator que fala mal da Globo mas dá uma
perna pra entrar” .

Eu, com meu humor,
pensei logo no ator perneta sendo aproveitado para o papel de Saci.(risos)



Mas a chamada do provedor que o entrevistou oportuniza suas palavras para afirmar que ele “ironiza quem
critica a Globo”. Enfim, transformou uma declaração parcial em generalizada.

Claro que o provedor faz parte do PIG, sigla popularizada por Paulo Henrique Amorim e que significa Partido da Imprensa Golpista.

Uma das características do PIG foi atacar o governo de Lula e agora de Dilma; os Partidos populares; a Rede Record; os blogueiros – chamados de “sujos” - , e tudo e todos mais que não rezarem pela cartilha destes que há décadas vinham tratando o Brasil como o quintal de casa.

Não desmereço a declaração do colega. Conheço este tipo de “quem desdenha quer comprar”.

Mas saio em defesa daqueles que criticam a Rede Globo e nem pensam em perder uma perna, sequer um dedo mindinho para poder trabalhar lá.

Nossa profissão é formada por milhares de atores e atrizes. Alguns foram e são capazes de vender a alma para o Diabo pela vaidade, e pela aparente segurança de um emprego.

É humano. É compreensível.

Mas há muitos, e não são poucos , que possuem caráter, discernimento, escolhas, que não passam pelo mesmo prisma dos acima mencionados.

Estes podem escolher trabalhar ou não na Globo. E se o fazem, fazem por profissão e não por servilismo.

Fazem porque estão vendendo para lá sua força de trabalho. São trabalhadores. Não sao capachos.

Antes da existência da Record chegava a ser curioso, senão divertido, ver a reação dos produtores globais quando um desses atores recusava a oferta de trabalhar na Vênus Platinada. Era como se fosse impossível alguém negar tão honroso convite. Era inadmissível que alguém não desse uma perna para estar lá. Era como se não fosse possível haver vida - e vida inteligente, criativa - fora da Rede Globo.

Pois creiam, os que me leem, esta gente existe.

Sabem o valor e a dignidade da sua força de trabalho, sacrificaram e sacrificam muitas coisas na vida para manter a face limpa e o rabo intacto.  (risos finais)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Morre a militante Edíria Carneiro aos 86 anos - Portal Vermelho

Morre a militante Edíria Carneiro aos 86 anos - Portal Vermelho

Morreu na cidade de São Paulo, na noite de ontem (25), a artista plástica Edíria Carneiro, aos 86 anos. Internada há alguns dias, a viúva de João Amazonas, dirigente histórico do PCdoB, sofreu uma parada cardíaca. Seu corpo está sendo velado na Beneficência Portuguesa, e será cremado no Crematório Primavera, em Guarulhos, durante a manhã. O Vermelho reproduz nota do partido sobre Edíria, militante que ajudou a imprimir a história do Partido Comunista do Brasil com suas gravuras e telas.



Edíria Carneiro

Edíria Carneiro: uma artista engajada por um mundo novo

Neste dia 25 de dezembro, as mãos da talentosa artista plástica Edíria Carneiro – que por décadas trabalharam e criaram gravuras e pinturas que coloriram de esperança a luta do povo – estão postas e imóveis sobre seu peito. Com o coração consternado, a direção nacional do PCdoB comunica o falecimento de Edíria. E apresenta seus sentimentos a seus filhos, netos e parentes. Há dias ela se encontrava em tratamento numa unidade de terapia intensiva de um hospital da cidade de São Paulo.

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Edíria Carneiro era militante do Partido Comunista do Brasil desde 1945. Desde o início dessa trajetória soube associar sua militância política com a força criativa de sua arte. Foi ilustradora de várias publicações vinculadas ao Partido, como o jornal A Classe Operária e as revistas Momento Feminino e Seiva, além de cartazes e folhetos. Como artista se moveu por uma insaciável sede de desenvolver ao máximo suas potencialidades, vinculando estudo e audácia estética. Estudou na Escola de Belas Artes, em Salvador, seguiu um itinerário de aprendizagem com vários mestres brasileiros. No final dos anos 1970, morando no exílio em Paris, trabalhou em ateliês de renomados gravuristas. Ao longo de sua carreira, participou de exposições no Brasil, França, Estados Unidos da América, Taiwan, Espanha, Argentina e Cuba.

Nos últimos anos, impedida pela idade avançada de usar a prensa para imprimir suas gravuras, dedicou-se à pintura. Num ciclo fértil e intenso de trabalho pintou uma série quadros nos quais retratou, com destaque, "as belas e corajosas senhoras do povo": cortadoras de cana, lavradoras sem-terra, mães protegendo a prole da miséria... Em suma, a força e a beleza das mulheres trabalhadoras.

Como militante, além de ajudar com sua arte, dedicou-se com afinco em várias outras tarefas, entre as quais a de professora nos cursos de capacitação política e teórica do partido para operários.

Companheira de vida inteira do histórico dirigente do PCdoB, João Amazonas, participou das lutas políticas de largo tempo histórico e de diferentes etapas do percurso da legenda histórica dos comunistas. Como mulher, mãe e militante, teve o desafio de criar seus filhos nas duras condições da vida clandestina, enfrentando constantes perseguições, sobretudo depois do golpe militar de 1964.

Às vésperas de 2012, quando completará 90 anos de presença contínua na história brasileira, o Partido Comunista do Brasil, PCdoB, rende suas homenagens à memória de Edíria Carneiro. A legenda comunista se fez histórica e respeitada pelo trabalho de gerações e gerações de brasileiras e brasileiros nas quais se destacam homens e mulheres, da fibra, do talento, da simplicidade e da dedicação de Edíria.

Os seus quadros e gravuras irão continuar tingido de esperança, de audácia e criatividade a luta dos oprimidos e a causa do socialismo, às quais dedicou sua vida toda.

São Paulo, 26 de dezembro de 2011

A Direção Nacional do Partido Comunista do Brasil-PCdoB

Confira galeria de imagens das obras de Edíria Carneiro:

Rabelo: Edíria Carneiro, uma mulher avançada e combativa - Portal Vermelho

Rabelo: Edíria Carneiro, uma mulher avançada e combativa - Portal Vermelho

A artista Edíria Carneiro nasceu em Salvador, Bahia, e estudou na Escola de Belas Artes. Em 1945 seguiu para o Rio de Janeiro, como delegada ao Congresso da União Nacional dos Estudantes, a UNE. Aqui já se nota seu espírito determinado, ao resolver permanecer na capital do país e abraçar o caminho artístico.

Por Renato Rabelo

Em 1946 frequenta o curso livre de Artes Gráficas da Fundação Getúlio Vargas, onde foi aluna de Axl Leskoschek (xilogravura), Carlos Oswald (gravura em metal) e Santa Rosa (pintura).

Seu comprometimento artístico, no entanto, tinha uma característica avançada, revolucionária mesmo. Nos anos seguintes passou a ilustrar jornais e revistas como A Classe Operária, órgão central do Partido Comunista do Brasil, fundado em 1925, o Momento Feminino, e participou ativamente da confecção de cartazes e folhetos políticos. Em 1960 e 1961, frequenta o atelier livre de pintura da Prefeitura de Porto Alegre, onde estudou com o artista Iberê Camargo. Nessa década de 1960 participou do Núcleo de Gravadores de São Pulo (Nugrasp), desde a sua fundação.

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Companheira de João Amazonas, Edíria sofreu as agruras e vicissitudes do trabalho clandestino sob as ditaduras. Em função do arbítrio do regime militar que passou a dirigir o governo brasileiro através do golpe de 1964, já de 1976 a 1981 foi obrigada a se exilar em Paris, França, quando o Brasil vivia sob as restrições violentas à democracia. Foi então que Edíria frequentou o famoso “Atelier 17” de S. W. Wayter. Nesse período também participou de estágios nos ateliers de Henri Goetz e Joelle Serve.

Suas principais exposições foram em 1969, na X Bienal Internacional de São Paulo, e na seguinte, realizada em 1971. Depois participou da II Bienal de Artes Plásticas da Bahia; da Bienal de Santos; da Bienal Nacional de São Paulo; de 1963 a 1968, do Salão Paulista de Arte Moderna; e do Salão Paulista de Arte Contemporânea, de 1969 a 1974. Entre 1977 a 1981, Edíria apresentou obras no Salon D’Automne, em Paris, no Salon des Artistes Français, e no Salon Internacional del Grabado, em Madri, Espanha.

Outras exposições importantes das quais participou foram em Washington, nos Estados Unidos, em 1961, em São José dos Campos, em 1969, em Santo André, também em 1969, no Rio de Janeiro, em 1971, em São Paulo, em 1972 e em 1974, em Paris, na França, em 1981, em Havana, Cuba, em 1991, em Taiwan, China, em 1991, em Madri, Espanha, por três anos seguidos, de 1994 a 1998, em São Paulo, 2005, em Brasília, em 2006, em Campos do Jordão, interior de São Paulo, em 2006 e em Campina Grande, Paraíba, em 2008.

Edíria Carneiro ainda tem obras nos acervos do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), no Museu de Arte Moderna de Skoplje, na Iugoslávia, no Museo del Grabado, em Buenos Aires, Argentina, e no Cabinet D’Estampes de la Bibliothèque National em Paris, França. Ao lado desta intensa atividade artística nacional e internacional, nossa Ediria dedicou-se intensamente à luta política, participando de várias organizações de base do Partido, desde a base da sede nacional no Rio de Janeiro até a tarefa de professora de cursos de formação política junto à organização dos portuários e trabalhadores da construção naval em Niterói.

Mas Edíria nunca deixou de fazer seu trabalho de gravurista renomada, até quando teve forças para tal. Depois, com a dificuldade de trabalhar com uma prensa que exigia muita força física, passou a desenhar aquarelas e pinturas a óleo. Sempre com a temática da denúncia da situação social do povo, das mulheres em especial, para as quais dedicou exposições inteiras. Reuniu forças, inclusive, para elaborar texto teórico sobre sua concepção de arte moderna na revista Princípios, da qual era uma de suas colaboradoras, assim como da revista Presença da Mulher, onde desenhou várias capas de suas edições. Sua última exposição, aliás, ainda está montada no salão da sede nacional do Partido no bairro República, em São Paulo.

Uma de suas derradeiras tarefas foi a de criar seu cartão de final de ano, que ela todo mês de novembro fazia questão de pintar e ceder à direção de seu Partido, o PCdoB.

Seu exemplo de simplicidade pessoal, capacidade intelectual, brilho artístico e dedicação à causa do socialismo estará sempre presente entre nós.

Renato Rabelo
Presidente do Partido Comunista do Brasil

Augusto Buonicore: Simplesmente Edíria - Portal Vermelho

Augusto Buonicore: Simplesmente Edíria - Portal Vermelho

Edíria morreu neste Natal. No começo, tendia a vê-la apenas como companheira de João Amazonas. Nestes últimos anos, conforme fomos conversando e ouvindo suas histórias, fui me dando conta da enorme injustiça que cometia e da grandeza desta instigante personagem feminina, uma artista talentosa e camarada exemplar. Este singelo artigo é fruto dessas longas e agradáveis conversas que tivemos no seu modesto apartamento na rua Ruy Barbosa em São Paulo.

Por Augusto Buonicore*







Edíria Carneiro nasceu em 1920 na cidade de Salvador. Sua mãe era muito católica, mas seu pai era um juiz de idéias bastante avançadas para época. Muito cedo ela se interessou pela cultura, por isso ingressou na Escola de Belas Artes. Neste período começou a participar do movimento estudantil e colaborou, como ilustradora, na revista Seiva, dirigida pelo comunista João Falcão. Vendo o seu interesse por temas políticos e sociais, o jovem Mário Alves a recrutou para o PC do Brasil.

Por sua atuação, acabou sendo eleita delegada ao Congresso da UNE, que se realizou no Rio de Janeiro em julho 1945. Comentaria ironicamente: “votaram em mim porque me consideravam mais simpática ou com mais coragem de sair da Bahia naqueles tempos de fim de guerra”.



Edíria entre os delegados baianos (terceira da direita para esquerda). Mario Alves, sentado na ponta esquerda

A viagem de navio foi uma festa. Nenhum dos jovens estava muito preocupado com a ameaça representada pelos submarinos alemães. Apenas o comandante pensava nisso. Quando escurecia, mandava apagar todas as luzes e cobrir as escotilhas para não chamar a atenção de possíveis inimigos. Por segurança, também parava os motores à noite, atrasando a viagem. As famílias dos passageiros acabaram entrando em desespero com o atraso e a falta de notícias. Temiam pelo pior.

A vida cultural e política no Rio de Janeiro cativaram a jovem Edíria que decidiu não voltar mais para Bahia. Passou a morar e militar no bairro de Ipanema. Um dia perguntaram-lhe se queria ser ilustradora do jornal comunista A Classe Operária e ela aceitou de pronto. O editor-chefe era Maurício Grabois da qual se tornou admiradora e amiga.


Edíria ao lado de Maurício Grabois na frente da sede nacional do PC do Brasil

Na sede nacional do Partido, onde funcionava o jornal, é que conheceria João Amazonas. No início o achou meio reservado. Um belo dia, pensando que todos os dirigentes haviam saído, ela e uma amiga resolveram conhecer os demais andares do prédio. Para surpresa delas, no quarto andar, encontraram João e começaram a conversar. Foi essa a primeira vez que Edíria teve a oportunidade de falar com aquele que seria seu companheiro por toda vida.

Passado alguns meses, em meados de 1947, houve uma festa partidária. As festas eram comuns naqueles anos em que o PC do Brasil desfrutava de legalidade. Edíria estava um pouco deslocada, quando João chegou e, gentilmente, convidou-a para dançar. Ele já era deputado federal e tinha realizado uma brilhante campanha para o Senado, no qual conquistara um honroso segundo lugar.

Ao final do baile, João perguntou-lhe se desejava ir ao cinema. Ela, sem perder tempo, aceitou a proposta.. Naquela noite os dois comunistas assistiram Sempre no meu coração. Nada mais adequado. Assim começou o namoro que duraria cerca de 55 anos.

Contudo, esse tempo de relativa liberdade logo terminaria. Em agosto de 1947, o PC do Brasil teve cassado seu registro e em janeiro do ano seguinte seus parlamentares perderiam seus mandatos, entre eles João Amazonas. Era o início da Guerra Fria e iniciava-se uma dura repressão aos comunistas. Sem mandato e imunidade parlamentar, Amazonas passou a ser procurado pela polícia e entrou na clandestinidade.

Tempos clandestinos

Amazonas foi para São Paulo, contudo, antes de partir, perguntou se Edíria queria morar com ele. Mesmo prevendo a difícil vida que a esperava, aceitou alegremente o convite e também mergulhou na clandestinidade. A ordem do Partido era partir sem dizer nada para ninguém, como se fosse a um passeio. Viajou num trem noturno levando apenas uma bolsa contendo o estritamente necessário.

Alguém havia lhe reservado um quarto de pensão e quando chegou, telefonaram para João avisando que “Amélia” já estava em São Paulo. Alguns dias depois recebeu um comunicado que deveria deixar a pensão e ir ao encontro dele. Daí por diante passaram viver juntos.

Naqueles anos a relação com os outros membros da Comissão Executiva do Partido Comunista dava-se por meio de Apolônio de Carvalho e sua esposa. Os contatos eram feitos através das companheiras desses dois dirigentes nacionais: Edíria e Renée. As duas amigas encontravam-se “casualmente” em igrejas e jardins públicos levando sacolas iguais. Depois de uma rápida conversa uma pegava a sacola da outra. A missão estava cumprida. Dentro dos embrulhos estavam as correspondências, livros, revistas.



Edíria enquanto vivia na clandestinidade



Ao lado de sua babá, que a abrigou diversas vezes


Em 1950 o casal voltou para o Rio de Janeiro. A vida clandestina trouxe inúmeras dificuldades à família Amazonas. Quando a primeira filha ia nascer, João estava acompanhando uma greve em São Paulo. Edíria, como combinado, foi ter o filho num hospital em Laranjeiras, mas descobriu que não tinha dinheiro para pagar e ninguém estava lá para socorrê-la. Ela fingiu que estava doente e ficou deitada pensando apenas como sair daquela situação embaraçosa. Certo momento ficou tão deprimida que acabou chorando. A enfermeira entrou no quarto, notou as lágrimas e pensou que havia sido abandonada pelo ‘pai da criança’.

Aflita, Edíria esperou a chegada da senhora que morava com ela e lhe pediu que procurasse Déia Paraguassu, companheira de Diógenes Arruda Câmara. No dia seguinte, Déia foi visitá-la e resolveu a situação. Então, finalmente, pode deixar a maternidade com a pequena Zélia, a filha recém-nascida. Somente alguns dias depois, João conseguiu vê-la e soube o que tinha acontecido.

Quando do nascimento do segundo filho, em 1953, Amazonas também estava acompanhando movimentos grevistas em São Paulo. Conseguiu chegar dois dias antes do nascimento de João Carlos. Contudo, menos de um mês depois viajou para a União Soviética, onde permaneceu por dois longos anos. Ele chefiava um grupo de militantes que faria um curso de aprofundamento em marxismo-leninismo.

Edíria ficou com os dois filhos pequenos e foi morar com a esposa de Mário Alves, que também tinha ido para União Soviética. Era uma casinha no pé de um morro que não tinha água. Havia apenas uma bica distante e elas tinham que carregar latas de água na cabeça até a casa onde moravam. Ao contrário do que diziam os conservadores, a vida das famílias dos dirigentes comunistas não era nada fácil.

Neste momento, foi convocada a fazer o Curso Stalin. Não tendo com quem deixar as duas crianças, levou-as consigo. “Foi um sufoco!”, exclamou mais tarde. Saiu-se tão bem que foi convidada por Jacob Gorender para ministrar algumas aulas. Ela resistiu, pois era muito tímida. Contudo, não podia recusar tão gratificante tarefa. O lugar escolhido para sua estréia foi a estratégica base dos marítimos, uma das mais importantes do país.

A sede da Escola dos Marítimos ficava em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Além das aulas, a professora Helena – esse era o seu nome de guerra - dava palestras sobre as teses do IV Congresso que se realizaria em 1954. Essas atividades, destinadas aos amigos e simpatizantes, serviam para recrutar novos membros para o PC do Brasil. Ela ficou muitos meses cumprindo esta tarefa na área da formação. Um dos seus maiores orgulhos foi saber, durante o congresso, que aquela base operária tinha sido a que mais recrutou membros, graças ao seu trabalho de professora.

Quando Amazonas voltou, se opôs que Edíria continuasse dando aulas naquelas condições. Achava que poderia representar um perigo para a segurança dela e do núcleo dirigente. Mas, o secretário de organização, Diógenes Arruda, ainda a enviou para dar algumas palestras aos operários de Morro Velho, Minas Gerais. Cumprida esta tarefa chegou ao fim sua carreira de professora dos cursos partidários. Edíria e seus filhos voltaram à vida nos aparelhos desertos.

João estava novamente na União Soviética quando do nascimento de Helena, a terceira filha. Quem ia fazer o parto era a Maria Grabois, irmã do Mauricio. No entanto, ela atendia num hospital em Copacabana e Edíria morava em Del Castilho, subúrbio do Rio de Janeiro. Quando estava para nascer a filha, tomou um táxi e no caminho parou numa Casa de Saúde para averiguar a situação. O médico bastante preocupado disse: ‘já vai nascer’. Então, ela acabou dando a luz ali mesmo em Piedade, bairro Bonsucesso.

Amazonas e Edíria, por razões de segurança, mudavam-se constantemente. Chegaram a perder as contas do número de casas em que moraram entre 1948 e 1957. Estima-se que foram mais de 16 locais. Isso representava uma dificuldade extra, especialmente para as crianças. Elas viviam trocando de escolas e às vezes até de nome. Não fincavam raízes e nem podiam cultivar amizades mais permanentes.

Comunistas a céu aberto

Em 1958, depois que havia sido destituído do secretariado do Comitê Central, João Amazonas foi transferido para o Rio Grande do Sul. Essa mudança coincidiu com o momento de redução das perseguições políticas e o fim dos pedidos de prisão preventiva. Este era um compromisso que havia sido assumido pelo presidente Juscelino Kubitschek, eleito com apoio dos comunistas. Assim, todos os seus dirigentes puderam voltar à legalidade e colocar sua vida em ordem.



João e Edíria logo após o casamento em 1958


João e Edíria aproveitaram a conjuntura favorável para legalizar sua situação. O casamento civil e o registro das crianças se deram em Niterói, no cartório do camarada Lincoln Cordeiro Oest. O ex-deputado paraense Agostinho de Oliveira, propôs que se fizesse uma festa de casamento e de despedida para a família Amazonas, que estava se mudando para Porto Alegre. O evento foi muito animado. Os convidados dançaram a noite toda ao som de um velho rádio.

Aqueles anos representariam uma verdadeira revolução para eles, pois puderam romper com a angustiante vida clandestina. Em Porto Alegre, fizeram muitos amigos, iam ao cinema e ao teatro. Amazonas dirigia o partido no estado e Edíria integrou-se a uma célula de artistas e intelectuais. Ali pode voltar a freqüentar exposições e tornou-se aluna do pintor Iberê de Camargo.

Contudo, no final de 1961, a decisão de romper com Prestes e reorganizar o PC do Brasil, levou a uma nova modificação na vida de Amazonas e sua família. Afinal, ele era profissional do Partido há muitos anos e precisava refazer sua vida. Necessitava principalmente arranjar meios de sobrevivência para continuar sua ação revolucionária.

João e Edíria passaram por enormes dificuldades materiais. No Natal de 1961 não tinham nem mesmo como dar presentes para os filhos. Um casal de intelectuais comunistas, Riopardense Macedo e Leda Maria, deram uma festa na qual distribuiram brinquedos as crianças. Todos ficaram muito emocionados e jamais esqueceram aquele ato de solidariedade.

As necessidades impostas pela reorganização do Partido levaram que Amazonas deixasse o Rio Grande do Sul e fosse para o Rio de Janeiro. No entanto, estavam sem um tostão. Os móveis e algumas roupas tiveram que ser vendidos para que conseguissem algum dinheiro para as passagens.

Inicialmente, Edíria e as crianças ficaram na casa da antiga babá. Depois, com apoio do pai, foram para Bahia e ali permaneceram menos de dois meses. Neste ínterim João conseguiu alugar um bom apartamento em São Paulo para onde acabou se mudando com a família. A situação financeira, no entanto, continuava crítica. O casal tinha um apartamento, mas ainda não tinha os móveis. Aproveitando os seus conhecimentos de artista plástica, Edíria conseguiu um emprego de estilista numa confecção paulista. Com esse salário começou lentamente a mobiliar seu novo lar.

Ainda no primeiro ano que estava em São Paulo, o SESC organizou o chamado Salão do Trabalho. Edíria enviou três xilogravuras e ganhou a medalha de ouro. A instituição ainda ficou com os três quadros. Com o dinheiro do prêmio e das vendas comprou presentes de Natal para as crianças e completou o mobiliário da casa. Mais tarde Edíria conseguiu um emprego no Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (INEP).

Enquanto isso, Amazonas se envolvia de corpo e alma no trabalho de reorganização do PC do Brasil. A sede d’A Classe Operária ficava no Rio de Janeiro. Por isso, viajava muito e somente nos finais de semana podia estar com a família. Aos domingos ia ao Ibirapuera, onde as crianças andavam de patins e corriam pelo parque. A situação parecia estar melhorando, mas isso não duraria muito tempo. Estávamos nas vésperas do golpe militar.

Tempo fechado, temperatura sufocante e ar irrespirável

Com a instauração da ditadura, Amazonas entrou novamente na clandestinidade. Eles não podiam mais se ver nos finais de semana. Passaram a ter encontros em “pontos” na rua e às vezes eram levados para algum aparelho partidário, que nem ao menos sabiam onde ficava.

Essa situação não era nada fácil para as crianças. Aos filhos mais velhos Edíria contou tudo o que ocorria. João não podia vê-los porque a ditadura estava atrás dele. Seguindo a sugestão de João, mesmo sem saber se a menina entenderia, Edíria buscou pacientemente explicar a situação.

O casal Amazonas recebeu a notícia da decretação do AI-5 pelo rádio, quando estava num “aparelho” em São Paulo. Até aquele momento ainda podiam dar-se ao luxo de se encontrar algumas poucas vezes. O recrudescimento da repressão e as necessidades impostas pela montagem da guerrilha no Araguaia levaram que Amazonas se afastasse ainda mais de sua família. De vez em quando, alguém telefonava querendo saber como estavam as coisas.

Quando ocorreu a Chacina da Lapa, em dezembro de 1976, Amazonas fazia uma visita oficial à China. Não podendo mais voltar ao Brasil, estabeleceu-se na França. No exílio foi constatado que padecia de uma doença grave. Edíria foi ao seu encontro e resolveu ficar definitivamente no exterior. Para isso teve que se afastar dos filhos – que já estavam crescidos – e o emprego público.


Casal Amazonas ao lado de Enver Hoxha, Nexhmije Hoxha e Ramiz Alia

Edíria resolveu retomar os estudos e matriculou-se no ateliê de Stanley Hayter, um artista gráfico mundialmente conhecido. Além de não ser caro, fornecia atestado para os alunos estrangeiros apresentarem às autoridades de imigração, condição para permanecerem na França. Ela aproveitou o exílio para visitar as galerias e exposições. Chegou mesmo a apresentar trabalhos em várias delas.

Mesmo no exterior, João Amazonas vivia clandestino, com identidade falsa. Passava-se por português cujo sobrenome era Pereira. A segurança ainda era necessária, pois a polícia política brasileira mantinha sob vigilância os líderes oposicionistas no exterior. Uma vez João e sua família – os filhos os estavam visitando em Paris – foram seguidos por vários homens que suspeitavam fossem policiais brasileiros. Quando estavam no metrô, para se desvencilhar deles, ameaçaram descer numa estação parisiense. Foram até a porta e Helena saltou. Os homens saltaram em seguida, mas ela rapidamente voltou ao vagão e os supostos policiais ficaram do lado de fora. Uma verdadeira cena de filme de suspense policial.


Encontro familiar em Paris durante o exílio


Voltando e pintando o amanhã

A notícia da anistia foi recebida com festa pelos exilados. João ficou eufórico, queria arrumar tudo, distribuir as coisas que não podia trazer ao Brasil. Viajou em 24 de novembro. Edíria seguiria alguns dias depois, pois tinha que organizar os pertences familiares e acertar a entrega do apartamento no qual viviam. Desde que voltou ao Brasil ela foi - ainda que timidamente – retomando sua produção artística, aproveitando-se de tudo que havia aprendido em Paris

Em 2002 o estado de saúde de João Amazonas piorou e ele veio a falecer. Quando estava nos seus últimos momentos de vida, diante da recusa em alimentar-se, foi-lhe perguntado: “Seu João, do que é então que o senhor gosta? E ele respondeu incontinente: “Eu gosto mesmo é de Edíria!". Em cartas ainda se referia a ela como minha eterna namorada.

Apesar das dificuldades crescentes, fruto da idade avançada, Edíria manteve uma ativa militância político-cultural. Extraordinariamente, nos últimos anos, tinha inclusive aumentado o ritmo de sua produção artistica e de participações em exposições. Destaque especial merece as realizadas sob patrocínio da Escola Florestan Fernandes - ligada ao MST – da Fundação Maurício Grabois – vinculada ao PCdoB - e da União Brasileira de Mulheres (UBM). Ela doou várias de suas obras para entidade ligadas às lutas sociais. Sendo, por isso mesmo, homenageada por essas instituições.



Edíria durante do 11º Congresso do PC do Brasil


Durante toda sua vida – desde que era estudante de “belas artes” na Bahia - sempre procurou vincular sua obra ao projeto de emancipação social. Uma de suas últimas séries de quadros era intitulada As excluídas. Um sensível panorama da opressão que ainda sofre as mulheres trabalhadoras em nosso país e no mundo. Edíria viveu e morreu como verdadeira artista comunista.

* é historiador e secretário geral da Fundação Maurício Grabois

O autor produziu esse texto a partir de entrevistas feitas, em ocasiões diferentes, pela equipe composta por mim, Pedro de Oliveira, José Carlos Ruy, Fernando Garcia e Priscila Lobregati. Aproveitei também de outras entrevistas concedidas a Olívia Rangel, Osvaldo Bertolino e Mazé Leite.

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