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segunda-feira, 8 de abril de 2013

Elias Jabbour: O que quer a Coreia do Norte?

Nem sempre imagens têm mais valor do que mil palavras. No caso em questão, as imagens e o retorcimento da retórica explanada pelo governo da Coreia do Norte são parte de um grande jogo de ridicularização de um regime cujo único objetivo é a autodefesa. Também existe uma ponta de luta pela sobrevivência. Sobrevivência que significa a própria sobrevida de uma nação milenar. E para mim isso basta.

Por Elias Jabbour*

Perguntemos a qualquer letrado, ou especialista. Você sabia que enquanto a Europa se ensanguentava em guerras religiosas, a Coreia já era uma nação com todos os traços que poderiam a classificar como um Estado Nacional precoce e anterior ao nascimento de Cristo?

Você sabia que houve uma guerra entre os lados norte e sul da península coreana entre os anos de 1950 e 1953? Você sabia que foi a primeira vez, desde a independência dos EUA (1776) que os norteamericanos assinaram um armistício, ou seja, foram derrotados pela primeira vez em quase 200 anos? Você sabia que desde 1776 os EUA nunca ficaram longe de uma guerra, fora dos seus domínios, por mais de dez anos? Você sabia que na Guerra da Coreia caiu, sobre o lado norte da península, o correspondente a dez bombas nucleares testadas em Hiroshima e Nagasaki? Você sabia que, desde 2001, estão apontadas, à capital da Coreia do Norte (Pionguiangue), cerca de 60 mísseis carregados de ogivas nucleares?

Mais perguntas: Você tem notícia acerca da invasão de um algum país por parte da Coreia do Norte? Você sabia que o país mais bloqueado, cercado e difamado no mundo é a Coreia do Norte? Será que essa difamação tem alguma relação com a derrota dos EUA na já referida guerra? Será que querem condenar a Coreia do Norte ao retorno à Idade da Pedra? Será que a Coreia do Norte há 60 anos não é o espinho na garganta dos EUA? Diante dos fatos e da história, você acha que os EUA fariam com a Coreia do Norte o mesmo que fizeram com o Iraque, o Afeganistão e outros? A Coreia do Norte tem ou não o direito de se defender? Você tem alguma dúvida sobre o destino de Kim Jong Un: seria recebido com festa num exílio na Europa ou teria o mesmo destino, com os mesmos requintes de crueldade, reservado a Muamar Kadafi?

Responder estas questões não é uma tarefa complicada. Um mínimo de honestidade já bastaria para saber o que está em jogo nesta guerra psicológica em curso na península coreana. De imediato sugiro qualquer julgamento moral sobre a natureza do regime nortecoreano, se é socialista ou não, se é democrático ou ditatorial, bonito ou feio, rude ou sofisticado. Tem gosto para tudo. Também não seria muito legal tomar a máxima do chanceler brasileiro (Antonio Patriota), segundo quem esperava uma “atitude mais ocidentalizada do líder nortecoreano”.

Talvez Antonio Patriota esteja levando a sério demais o conselho de Huntington sobre um Choque de Civilizações, quando na verdade tanto Huntington quanto Patriota não passam de vítimas de um verdadeiro “choque de ignorância”. Meu parêntese continua para externar algo mais de fundo. É chocante imaginar que o chefe de nossa chancelaria nunca tenha lido Edward Said (“Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente”), nem tampouco Barrington Moore Jr. (“As Origens Sociais da Ditadura e da Democracia – Senhores e Camponeses na Construção do Mundo Moderno”). De forma explicita em ambos os livros ficam claras as evidências, na Ásia, de práticas democráticas ao nível da aldeia que remontam ao menos 3.000 anos.

O que quer de fato a Coreia do Norte, partindo de um julgamento mais pautado pela história? É evidente que o regime busca sobrevida e para isso nega a lógica da rendição incondicional tão cara a outras experiências, entre elas as da URSS, Leste Europeu e recentemente da Líbia.

Uma nação que historicamente teve seu território sob a cobiça estrangeira, cercada de grandes potências por todos os lados, passando por uma sanguinária ocupação japonesa e que sabe do que são capazes os EUA, não pode se dar ao luxo de esperar o bonde da história passar. O bonde da história derrotou as experiências socialistas da URSS e Europa, levando quase a nocaute por asfixia o governo da Coreia do Norte na década de 1990. Os últimos 25 anos foram marcados por privações de todo tipo, levando inclusive a fome para o outro lado do rio Yalu. O bloqueio, a fome imposta de fora para dentro e as inúmeras ameaças militares e provocações (Coreia do Norte como parte do “Eixo do Mal”, segundo Bush) só fez restar ao governo nortecoreano a opção de se “armar até os dentes” diante do que ocorria em Belgrado sob as hostes das chamadas “intervenções humanitárias”.

Poucos regimes no mundo tem uma noção da política como uma ciência que leva em conta não somente a correlação de forças, mas também o chamado tempo e espaço. Asiáticos e milenares que são os coreanos dão mostras de ter ido além de Maquiavel, aproximando-se de Lênin acrescido de alguma sabedoria confuciana e espírito de rebeldia herdado pelos ensinamentos de Laotsé. Somente gente preparada poderia manter em pé um país cercado, humilhado e ameaçado desde seu nascedouro e com um cenário recrudescido nas últimas duas décadas.

O conceito de ditadura não serve de explicação. Mais pobre ainda é levar à sério certas conversas do tipo “governo que se mantém às custas da fome do povo e do não cumprimento dos direitos humanos”, quando na verdade a soberania nacional está acima de qualquer direito humano. Ou se acredita ser possível algum direito humano sob ameaça ou intervenção estrangeira? O único direito humano universal é o direito à vida. E o direito a vida naquela parte do planeta se confunde e se entrelaça com o direito de ser nação soberana. É simples, sem ser simplista: a Coreia do Norte não está de brincadeira, pois sabem com quem estão lidando e do que são capazes os EUA.

Os nortecoreanos querem ter o direito de ser o que eles decidiram ser desde a explosão das primeiras revoltas camponesas contra a ocupação japonesa, ainda na década de 1910 do século passado. Ao invés de buscarmos dar lições de democracia, civilidade e de governo para uma nação milenar, seria mais interessante entender como um país exposto àquelas condições pode alcançar um nível de desenvolvimento tecnológico capaz de projetar e lançar satélites artificiais, mísseis intercontinentais e mesmo bombas nucleares, algo que nem nossos amigos do Irã e seus imensos recursos petrolíferos conseguiram até hoje.

Acho que se decifrarmos a formação social que forjou um povo capaz de expulsar Gengis Khan de seus domínios, no auge do poderio militar do Império Mongol, chegaremos a explicações mais plausíveis e próximas da realidade.

*Elias Jabbour é doutor em Geografia Humana pela FFLCH-USP. Autor de “China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado” (Anita Garibaldi/ EDUEPB, 2006).

domingo, 7 de abril de 2013

O democratismo cínico e as razões da Coreia Popular - Paulo Vinícius Silva

Tenho observado com grande admiração a coragem com que uma parcela importante da juventude e da esquerda tem se contraposto ao script desenhado pela imprensa do imperialismo para validar o extermínio nuclear da Coreia Popular. Afinal, eles é que são os sistematicamente agredidos, e o que se passa agora naquele país é o mais evidente grito de alerta e pedido de juízo pela paz, e não o inverso. A primeira vítima de uma guerra, caríssimos, já se o sabe sobejamente, é a verdade. De tal sorte que, vendo o que houve com o Iraque, o Afeganistão, a Líbia, a Síria, o e o que passa com Irã e Coreia popular, não posso aceitar o mesmo roteiro genocida. Atribuo a essa experiência tristemente comum após o fim da URSS (as mentiras e o genocídio), a corajosa opinião de tantas pessoas de diferentes visões da esquerda, que se mostram vacinadas contra as manobras do imperialismo. É de saudar essa coragem.

Minha solidariedade a Coreia Popular nesse contexto é, inclusive, anterior a meu comunismo. Fala aqui o patriota, o brasileiro. Não interessa ao Brasil esse mundo em que os barões do petróleo, da mídia, das armas e das finanças tenham esse poder discricionário absoluto de inventar campanhas para atacar países e mudar-lhes os regimes, roubar-lhes as riquezas, matar centenas de milhares de pessoas. Só interessa aos EUA e ao complexo militar-petroleiro-midiático-financeiro, esse sim o maior risco à humanidade. E é por isso que a RPDC fez tudo para não ser aniquilada. Por isso, sem petróleo, sem terras aráveis, precisa de energia, bloqueada, agredida, com ogivas e milhares de soldados estadunidenses a lhe cercar, coagir, demonizar.

Então, naturalmente, vem a pergunta, difícil, é certo, um pouco ingênua, um pouco soprada no ouvido, a iludir e a buscar a cumplicidade mesmo da esquerda: "Então é isso que você quer para o Brasil, como você defende uma ditadura? Uma sucessão hereditária? etc, etc, etc.

É preciso não ser idealista, atribuir essa faculdade mágica que o liberalismo cinicamente quer colocar aos regimes políticos: uma autonomia absoluta que pudesse vicejar em desacordo com toda a realidade, a tese da democracia como valor universal. Não importa nada, tem de ser tudo democrático, assim, assim e assim. E sempre o assim, assim, assim, é a democracia liberal schumpeteriana de baixa intensidade, porque se for um pouquinho a mais, também é ditadura, populismo, anátema sobre ela. Até o Chávez, o maior democrata de todos os tempos, o que mais fez eleiçõe sem qualquer país na História, para eles não foi democrático. 

Ou seja, na verdade, não é democracia o que se debate, isso é um estratagema, um sofisma, a  inconfessável defesa de que em nome da democracia liberal pode-se abrir mão de tudo, do socialismo, da soberania, da autodeterminação, das riquezas das gerações futuras, da dignidade nacional. 

Não é um dilema fácil, mas é uma contradição tanto mais forte quanto mais dissociada daquilo que nos dá a condição de saber a verdade, o contexto concreto, social, político, histórico e econômico em que as coisas se dão. Esse é o caminho para avaliar as questões, e nos dá razões de sobra para questionar a tal universalidade. Afinal, os regimes políticos florescem desses fatores, e das forças sociais que atuam na realidade, não são faculdades absolutas que valem para qualquer contexto.

Nesse sentido, é preciso assumir uma postura menos cômoda, da parte dos intelectuais que se identificam com a esquerda, rompendo com a ilusão de classe de que é possível a democracia florescer em situação de cerco, aniquilamento e bloqueio econômico permanente e guera. 

Em verdade, durante todo o século XX, o desenvolvimento da democracia socialista foi obstaculizado por esses expedientes que, concretamente colocam de um lado a soberania e a sobrevivência, de outro, o florescimento das instituições socialistas de participação popular. A URSS pagou em milhões de vidas, e há quem ataque os que resistiram e salvaram a humanidade do nazismo, e não os que promoveram a guerra de extermínio contra o socialismo. É esse o contexto do cinismo "democrático". Vejam: quem são os EUA para predicar democracia, se lá vigora o Patriotic Act (o AI-5 ianque) e se eles são os maiores inimigos da democracia, legalizadores da tortura e do genocídio? É como a moral que tem em falar de terrorismo depois do que fizeram e fazem desde Hiroshima e Nagasaki.

Sobretudo o caso coreano é extremo, na medida em que o país foi cortado ao meio graças à intervenção estrangeira, e ninguém foi tão bloqueado, tem uma tradição de defesa de soberania tão consolidada, tem uma história de líderes absolutos que asseguraram sua independência, além de ter chegado tão longe no desenvolvimento tecnológico a partir de suas próprias forças. 

Ora, se tudo é trabalho, que regime poderia concentrar tanta vontade política e poder na consecução de objetivos tão inalcançáveis? De outra parte, a solidariedade internacionalista e a defesa da paz e da autodeterminação da RPDC não é, nem remotamente, a defesa de tudo que possa lá ocorrer, ou a assunção de uma via como a deles. É preciso entender seus caminhos, no entanto, diante dos problemas e sofrimentos que padeceram, mais como estratégia de sobrevivência que como uma opção "livre". Eles, como nós, na vida, fazem o que podem e com o que tem. 

E, nessa difícil situação, com as lições que aprenderam com a vida, não tenho dúvida que os coreanos, inclusive pela sua mobilização espantosamente ampla, preferem o seu caminho que a submissão aos que para os aniquilar empregaram 1.431 ataques aéreos, 428 mil e 700 bombas, matando mais de 3 milhões de seus compatriotas (segundo a própria ONU), além do uso de armas químicas e bacteriológicas contra a população civil.

Por outro lado, nós, o gigante adormecido, ao nos solidarizar-nos com os desmandos bélicos e crimes dos EUA em seu cinismo "democrático", que mundo estaremos a construir? Que preço pagaremos? Como poderemos nos defender quando se volte para o Pré-Sal e a Amazônia a cobiça estadunidense? Por isso, antes de tudo como patriota, é preciso ser contra a manipulação dos EUA para atacar a Coreia Popular e ponto. 

E só quem propõe que se retome com seriedade os acordos de paz é a Coreia Popular, e não os EUA, os maiores inimigos da paz mundial. Esse é o tema. Qual a máxima exigência da Coreia Popular? A paz. Senão, dizem, preferem morrer lutando. Não acho que a RPDC, vendo chegarem as tropas, as armas, as bombas, com a desculpa de exercício, esteja errada em se preparar para o pior. Só tenho um temor imenso em ver que somos muito, muito mais ricos, e não temos como aguentar nada disso. Os EUA, nesse soturno mundo que constroem com mídia e sangue, podem nos invadir, saquear, matar nosso irmãos sem que tenhamos como nos defender. É errado defender-se da maior potência militar que jamais existiu?

Tive um diálogo sobre isso, interessantíssimo, com a minha mãe. Falava-me, tomando como exemplo o Lula, da sua sabedoria, acorde ela, dom de Deus, distinta de estudo, como a pedra de David contra Golias, ou seja, uma arma especial que superava todo o demais e atingia o alvo. Não me contive e disse: "É isso mesmo, mãe, passa-se o mesmo com a RPDC. E contei das vicissitudes daquele pequeno país, do solo pobre, da monstruosa matança que lhes cobrou milhões de vidas, da guerra com mais bombas que habitantes de um pobre país camponês em que não sobrou um só edifício em pé, da sua luta nacionalista, da majestosa Pionguiangue, da implacável guerra dos EUA, dos 30 mil soldados, das ogivas nucleares ao lado, há décadas, do Bush, e das opções a que foram empurrados até o presente momento. E ela, vendo o drama, vendo quão complexo, disparou. "Pois é, né, meu filho, então a gente tem é que rezar por eles." E eu, embevecido, disse-lhe, é isso mesmo. 

Assim, prefiro a solidariedade com a RPDC, porque é não apenas eticamente justa nesse contexto, mas é a única posição de acordo com os interesses do Brasil. Mantenho também essas opiniões já incrustadas: tudo é trabalho, e, desse modo, para realizar grandes feitos, só uma titânica vontade que possa direcionar imensa quantidade de trabalho para tão grandes desafios. E a outra, vem do Brecht, que em seu poema "Aos que vão nascer", diz que "também a ira contra a injustiça torna a voz rouca". 

Metodologicamente, separo as deformações de quem resiste em situações extremas, das deformações evidentes de quem controla o contexto inteiro e que ainda quer se colocar numa situação de superioridade moral, buscando a nossa simpatia. 

Eu, torcedor do Ferroviário, comunista, cearense, estou, no entanto, comprometido desde sempre pela simpatia com os mais fracos e pela indignação contra o imperialismo. E nesse contexto, sei que o melhor para a paz é que os EUA não contem com nenhum, nenhum apoio, em seu calculado, frio, desumano propósito de pagar com o aniquilamento o crime mais terrível cometido pela RPDC, o de jamais se terem dobrado ante seu imenso poder, e terem essa empáfia se seguir sobrevivendo e soberanos contra qualquer expectativa, isolamento, independentemente, até, de nossa solidariedade. E não deixo de me surpreender com a coragem dessa Esparta pós-moderna, que prefere o aniquilamento à submissão ante a maior potência que jamis existiu.

domingo, 31 de março de 2013

Rusia Today entrevista Cao Benós sobre as razões da Coreia do Norte na atual tensão com os EUA e a Coreia do Sul (español)

Dado a quantidade de sanções que se impuseram à RPD da Coreia, Rusia Today outra vez rompe um bloqueio e fez a seguinte entrevista como Cao de Benós, representante da Coreia Popular, que numa entrevista esclarecedora faz o que não existe no debate acerca da Península Coreana, permite o contraponto. 
Importante sobretudo porque permite uma competente exposição do que é o modelo coreano, inclusive para o devido distanciamento crítico e nacional. Os caminhos à RPDC sempre foram bloqueados pela violência do imperialismo, impondo sempre decisões difíceis e marcadas pela coragem. Todos em favor da Paz e da suspensão dos exercícios militares dos EUA e da Coreia do Sul na região!




quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Guerra da Coreia: A primeira derrota militar estadunidense - Portal Vermelho

Guerra da Coreia: A primeira derrota militar estadunidense - Portal Vermelho


Há 60 anos eclodiu a guerra da Coreia. Este episódio, definitivamente, marcou o século 20. Foi primeiro conflito armado entre os dois campos nos quais se dividia o mundo: o socialista e o imperialista. Os Estados Unidos e seus aliados se utilizaram dos métodos mais bárbaros, como bombardeios massivos de alvos civis e utilização de armas bacteriológicas.

Por Augusto Buonicore *



Sul-coreanos escarnecem de vítima nortista


Também foi ali que a principal potência capitalista sofreu sua primeira derrota numa guerra. Foi vencida pelo aguerrido exército popular norte-coreano, comandado por Kim Il-sung e pelos voluntários chineses.

Em outubro de 1949 foi proclamada a República Popular da China. O povo chinês, dirigido por Mao Tse-Tung, havia imposto uma grande derrota aos planos hegemonistas do imperialismo na Ásia. Alguns meses depois, o presidente Mao era recebido, com todas as honras, por Stalin na União Soviética. Os governos daqueles dois grandes países – agora dirigidos por forças socialistas – assinaram importantes acordos de cooperações econômico e militar. Formou-se, assim, um vasto campo democrático-popular que abarcava o leste da Europa e parte significativa do território asiático.

O avanço socialista e a guerra fria
Um pouco antes, outro acontecimento havia tirado o sono do governo dos Estados Unidos e de seus aliados ocidentais. A URSS explodiu seu primeiro artefato nuclear e quebrou, assim, o monopólio atômico estadunidense.

Desde então, a histeria anticomunista propagou-se nos principais países capitalistas. O ex primeiro ministro inglês Winston Churchill, num discurso feito nos Estados Unidos, declarou que uma “cortina de ferro” havia descido sobre a Europa oriental. Este era o sinal para o inicio do que se chamaria guerra fria.

Até a vitória da revolução chinesa, as próprias autoridades militares estadunidenses afirmavam que a península coreana estava fora do seu perímetro de segurança. Ou seja, sua localização geográfica não ameaçava diretamente os interesses daquela potência imperialista.

No entanto, nos círculos mais conservadores dos Estados Unidos, fortalecia a opinião de que todo planeta deveria ser considerado seu perímetro de segurança. Não era se deveria ceder um milímetro ao avanço das forças simpáticas ao socialismo. Haveria agora dois mundos antagônicos: o mundo comunista e o “mundo livre”. Deste último, comandado pelos EUA, fazia parte os regimes fascistas da Espanha e Portugal – e, também, as ditaduras latino-americanas.

A guerra quente na Coreia
A península da Coreia havia sido ocupada por mais de 40 anos pelo imperialismo japonês, que tentou transformá-la numa colônia, destruindo sua cultura e identidade nacional. Uma dura luta de resistência foi travada pelos comunistas, liderados pelo jovem Kim Il-sung. Durante a Segunda Guerra Mundial, eles conseguiram um aliado imprevisto: os Estados Unidos. Este último, atacado pelo Japão, entrou na guerra e concentrou suas ações militares na Ásia.

Nos primeiros anos da guerra, os soviéticos travavam lutas titânicas contra os poderosos exércitos de Hitler na frente européia. Depois de derrotá-los, passou a dar um maior apoio à libertação da China e da Coreia, contribuindo decididamente na expulsão dos invasores japoneses. Mas, o território coreano – como aconteceu com a Alemanha – acabou sendo dividido em duas zonas de ocupação militar, demarcadas pelo paralelo 38. O sul ficou sob supervisão dos Estados Unidos e o norte da URSS. O objetivo a médio prazo era unificar as duas partes numa única nação.

Porém, em agosto de 1948, desrespeitando o ritmo das negociações, os Estados Unidos promoveram a eleição de um governo títere no sul, fundando a República da Coreia. O novo presidente era Synghmam Rhee, um ardoroso anticomunista, que pensava unificar a península sob sua batuta, integrando-a ao campo imperialista. Como resposta, em setembro, foi constituída a República Popular da Coreia, presidida por Kim Il-sung.

Após a proclamação das duas repúblicas coreanas, os exércitos dos Estados Unidos e da URSS saíram da região. Acabava, assim, a tutela internacional. Contudo, as tensões entre os dois países – que não se reconheciam – aumentaram cada dia mais. As lideranças norte-coreanas denunciavam a ocorrência de constantes atos de provocação armada na sua fronteira. Esta foi a justificativa para que elas empreendessem uma grande ofensiva militar contra o governo de Synghmam Rhee, visando a unificação do país.

O Exército Popular da Coreia do Norte, em poucos dias, conquistou a capital sulista, Seul. A guerra parecia estar chegando ao fim, com uma vitória magistral das forças populares e socialistas. Este, com toda certeza, teria sido o resultado da guerra se a contenda tivesse ficado apenas nas mãos do povo coreano.

Invasão estrangeira e genocídio na Coreia
Os Estados Unidos, aproveitando-se da ausência da URSS, aprovou no Conselho de Segurança da ONU uma condenação à Coreia do Norte. Eles conseguiram também que a entidade formasse uma força especial de combate para “defender” a Coreia do Sul, ameaçada pelos comunistas. Os motivos para ausência dos soviéticos, que tinham direito a veto no Conselho de Segurança, são ainda desconhecidos.

Depois da fatídica decisão, que desmoralizou a ONU como instrumento da paz, soldados de 15 países foram mobilizados para combater na Coreia, embora o grosso das forças que lutaria naquele conflito viesse mesmo dos EUA. Por isso, o comando das operações militares coube ao general Douglas MacArthur, o mesmo que comandara os aliados na luta contra os japoneses no Pacífico.

Depois das várias derrotas desmoralizantes, que quase jogou seu exército de volta para o mar, encurralado numa estreita faixa de terra no sul da península, os EUA foram obrigados a mobilizar um aparato bélico ainda mais poderoso – o maior desde o final da Segunda Guerra Mundial. Seus aviões iniciaram os bombardeios criminosos por trás das linhas inimigas.

Começava nesse momento uma das páginas mais tenebrosas da história do século 20. Milhares de aviões despejavam diariamente toneladas de bombas sobre cidades e aldeias indefesas da Coreia do Norte. Todos os centros urbanos foram arrasados. Na capital não ficou nenhum edifício de pé. Pela primeira vez, foram usadas armas químicas e bacteriológicas em grande escala contra população civil. Os exércitos dos Estados Unidos e da ONU podiam, sem dificuldades, serem comparados aos de Hitler. Este era um claro sinal que tempos sombrios estavam chegando.

A entrada em cena dos aviões de caça soviéticos ajudou melhorar a situação, mas não pode quebrar a grande superioridade aérea dos Estados Unidos. A URSS era muito cautelosa para não ser acusada de estar envolvida no conflito ao lado dos norte-coreanos, contra uma decisão da ONU. Contudo, não há dúvida que sua ajuda foi decisiva, quer preparando os quadros militares norte-coreanos quer fornecendo os armamentos necessários. Vários pilotos e assessores soviéticos chegaram mesmo a participar dos combates.

O lado estadunidense não respeitou os acordos de Genebra. Os oficiais da Coreia do Sul mandavam degolar os soldados inimigos aprisionados. As fotos dessas cabeças decepadas, que correram o mundo, causaram embaraços para as forças da ONU. Também chocaram o mundo as imagens de mulheres e crianças carbonizadas sob os destroços das aldeias.

Cabe destacar o papel da URSS e do Movimento Comunista Internacional no desencadeamento de uma grande campanha – uma das maiores já vista na história – contra a agressão imperialista à Coreia, pela interdição das armas bacteriológicas e atômicas.

As tropas dos Estados Unidos e da ONU, desrespeitando o que fora lhes delegado, avançaram para além do paralelo 38, conquistando Pyongyang, capital nortista. Ficava claro que o plano era esmagar o Exército Popular, unificar a Coreia sob a batuta de Synghmam Rhee e transformá-la num protetorado americano na Ásia. O imperialismo teria assim uma importante “ponta de lança” contra a China.

A cartada chinesa
Os exércitos inimigos chegaram, perigosamente, muito próximos da fronteira chinesa, pondo em risco sua soberania e suas conquistas revolucionárias. Diante de tal ameaça, Mao Tse-Tung resolveu reagir, incentivando a formação de um Exército de Voluntários para combater ao lado do Exército Popular da Coreia do Norte, liderado por Kim Il-sung.

A partir de novembro de 1950 mais de um milhão de combatentes chineses atravessaram o rio Yalu e foram reforçar a luta de libertação do povo coreano. A ação, que pegou de surpresa os Estados Unidos, inverteu a sorte da guerra.

As tropas norte-coreanas e os voluntários chineses ultrapassaram o paralelo 38 e ocuparam novamente a capital da Coreia do Sul. O duro inverno – mais de 20 graus abaixo de zero – molestava as tropas invasoras. O quadro era bastante desolador para os Estados Unidos.

As derrotas sucessivas fizeram com que o general MacArthur apresentasse a proposta de bombardear o território chinês, expandindo a área de conflito, ameaçando transformá-lo numa guerra mundial. Diante da perspectiva real de vitória dos comunistas, o general chegou propor a utilização de armas atômicas contra a Coreia do Norte e a China.

Vários países aliados, como o Reino Unido, se alarmaram com tal possibilidade. Grandes manifestações foram realizadas em todas as partes do mundo pela paz na Coreia e contra utilização das armas atômicas. Por fim, o próprio presidente Truman não endossou as propostas temerárias do aventureiro MacArthur e o destituiu do comando das operações.

Profundamente desgastado pelos resultados da guerra, Truman desistiu de concorrer para um novo mandato presidencial e, em novembro de 1952, o candidato democrata foi derrotado pelo general republicano Dwight Eisenhower. Quase ao mesmo tempo em que os Estados Unidos “trocavam sua guarda”, em março de 1953, morria o líder soviético Joseph Stalin. Os novos dirigentes de Moscou se empenharam em dar um fim definitivo ao conflito.

A paz: uma derrota do imperialismo estadunidense
Apesar de todos os esforços realizados – que incluíram a re-conquista de Seul –, os exércitos estadunidenses não conseguiram ir muito além do paralelo 38. A guerra entrou numa espécie de “ponto morto”. Nenhum dos dois lados parecia ter condições de vencê-la. Iniciou-se, então, um longo e tortuoso processo de negociação de paz, que levaria vários anos. Durante todo período que durou as negociações, os EUA continuaram com sua política genocida contra a população norte-coreana. O armistício de Panmujon foi assinado em 27 de julho de 1953. Era o fim da Guerra da Coreia.

Segundo cálculos feitos pela própria ONU mais de 3 milhões de coreanos perderam suas vidas neste conflito. Toda infra-estrutura da Coreia do Norte foi destruída pelos sucessivos bombardeios. Agora a grande tarefa que se apresentava ao povo norte-coreano era a de reconstruir o país, a partir de suas próprias forças, e preparar-se ainda mais contra futuras agressões externas. Este era o preço que teriam que pagar pela manutenção de sua independência.

Os Estados Unidos perderam, entre mortos e feridos, 150 mil soldados. Eles só haviam tido tamanho número de baixas nas duas guerras mundiais e na Guerra Civil nos tempos de Lincoln. Outra consequência negativa para o país foi o fortalecimento do complexo industrial-militar que passaria ser o maior incentivador – e beneficiário – da política intervencionista estadunidense.

Sem dúvida, podemos dizer que a Guerra da Coreia representou a primeira grande derrota militar dos Estados Unidos, que até então eram considerados imbatíveis numa guerra. Foram derrotados pelo exército de um pequeno país asiático e pelos voluntários chineses. Encerrava-se, assim, o segundo grande capítulo da luta pela emancipação da Ásia, o primeiro foi a Revolução Chinesa. Outras páginas heróicas ainda seriam escritas no Vietnã, no Camboja e no Laos.

Augusto Buonicore é historiador e secretário-geral da Fundação Maurício Grabóis.

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