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terça-feira, 30 de abril de 2019
ALAS - ASSOCIAÇÃO LATINO AMERICANA DE SOCIOLOGIA DENUNCIA ATAQUE DE BOLSONARO À CIÊNCA E À DEMOCRACIA
Declaração da Associação Latino-americana de Sociologia em defesa das Ciências Sociais e Humanas
A Associação Latino-Americana de Sociologia (ALAS) expressa seu mais enérgico rechaço aos recentes anúncios do Governo brasileiro, de intenções de cancelamento dos investimentos na educação superior nas carreiras humanísticas, nomeadamente, nos cursos de Sociologia e Filosofia.
Tais intenções se manifestam a partir de discursos ameaçadores, que desconhecem a contribuição dessas disciplinas para a formação de cidadãos e a compreensão dos processos humanos, bem como para o próprio desenvolvimento da ciência. É inconcebível que, no marco de tantos problemas sociais e humanos enfrentados pela sociedade, governantes de distintos países recorram ao argumento de utilidade ou pertinencia do conhecimento social e humanístico para negar e limitar seu desenvolvimento.
Entendemos que manifestações dessa natureza se sustentam em uma profunda ignorância do conhecimento científico social e constituem expressões ideológicas que muitas vezes obedecem a interesses de curto prazo. Trata-se de uma ideologia baseada no desinteresse em atender as causas sociais profundas e que não reconhece os aportes das Ciências Sociais na solução e superação de problemas atuais como a violência, a exclusão social, as desigualdades, a pobreza, as migrações e os problemas ambientais e tecnológicos, dentre tantos outros. A comunidade científica e latino-americana não pode permanecer impassível diante desta situação.
Denunciamos as ações que buscam eliminar o ensino e a pesquisa das Ciencias Sociais e Humanas, em especial da Sociologia. Rechaçamos os cortes dos orçamentos das universidades públicas e os decretos e ações que atacam a autonomia universitária, os direitos à educação, a liberdade de cátedra e de expressão, bem como as práticas de perseguição de professores e professoras.
Estes ataques, produtos de políticas neoliberais, são observados em diversos países e âmbitos, mas recentemente adquiriram sua expressão mais crua e explícita nas declarações do Governo brasileiro, nas palavras do Ministro da Educação e do Presidente da República.
A ALAS reitera seu mais forte repúdio a essas manifestações, fazendo suas as declarações das associações científicas brasileiras como a Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS), a Associação Brasileira de Ensino de Ciências Sociais (ABECS), a Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF), a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), e a Associação Nacional de Pós-Graduação e Ciências Sociais (ANPOCS).
Por meio desta declaração, a ALAS denuncia internacionalmente essa inaceitável situação e se solidariza com as instituições e colegas afetados, comprometendo-se em envidar esforços para colaborar na reversão dessas tendências nefastas e suas graves consequencias.
A ALAS exige ao governo brasileiro o respeito às Ciências Sociais e Humanas, no marco do reconhecimento dos direitos humanos, da educação, da liberdade de cátedra e de expressão e da autonomia universitária
Comitê diretor
Associação Latino Americana de Sociologia (ALAS)
28 de abril de 2019
quarta-feira, 17 de abril de 2019
A hora da filosofia (que fazer?) - Elias Jabbour e Alexis Dantas - Brasil Debate
Brasil Debate
Hegel ensinou que quando tudo parece dividido é a hora da filosofia, do grande pensamento, de construir uma outra lógica e subverter os sentidos do discurso oficial. É preciso mostrar ao Brasil um caminho de futuro
16/04/2019
Não é mais segredo para ninguém que teremos mais um ano de crescimento pífio. O desemprego voltou a subir e a capacidade ociosa na indústria já beira os 40%. A taxa de investimentos (um ótimo indicador à verificação do nível de barbárie social) está em 15,5%. Este índice na China, que necessita gerar 13 milhões de empregos urbanos ao ano, está acima dos 40% há anos. No caso brasileiro uma taxa mínima para somente manter o atual nível de (des) emprego seria de 18%.
Liberais protofascistas aterrorizam a sociedade com a necessidade de uma propalada reforma da previdência e a venda de mais patrimônio público. Os bancos estatais já são fustigados publicamente por um ministro da economia que parece viver sob pressão da vida e da morte para entregar a abutres o futuro de 210 milhões de pessoas. Nem economistas ortodoxos alemães, nem tampouco nossos amigos economistas liberais chineses entenderiam essa obsessão por abrir mão de ativos bancários em épocas de certeza zero por parte dos investimentos privados.
A mentira virou verdade. Desde alunos de economia até donas de casa são levados a acreditar que o problema do país é o Estado. Afinal o Estado está longe das pessoas. E quando comparece é para matar, de forma seletiva, negros e pobres. A urbis, no capitalismo periférico sem perspectivas, transforma-se num Moloch que a tudo devora. Inclusive os sonhos que só podem ser renovados no momento em que o empresário olhar para o orçamento público e decidir investir sozinho e solitário, pois o Estado está fazendo sua parte ao se abster de gerar demanda efetiva. Certamente os empresários varejistas afeitos ao fascismo que hoje financiam uma blitz pela reforma da previdência não utilizaram este argumento para tomar emprestado dezenas de bilhões de reais de nosso BNDES.
O que restou de consciência na sociedade se bate em questões caras aos revolucionários russos do início do século 20. Que fazer? Se render diante da realidade, esbravejar e eleger o vizinho como inimigo? Aceitar a pauta e o campo de debate proposto pelo presidente como parece ser o rumo também escolhido pela “resistência”? Ou, o mais difícil, que é fazer política grande e aceitar o desafio de unir o país? E desde já dizemos que unir um país heterogêneo como o Brasil é tarefa de gigantes que não aceitam a pauta de “resistência” como variável estratégica. Aceitar este desafio é colocar o particular no plano da totalidade. É fazer política dentro e fora da bolha, não se utilizando da gritaria e do ódio como argumentos. Este método de ação deixemos para os nossos inimigos.
Lembrando de nosso amigo Cristiano Capovilla, percebemos Hegel que nos ensinou acerca do momento em que tudo parece dividido e cindido ser a hora da filosofia, do grande pensamento. Não aceitar o jogo vigente é construir uma outra lógica para nomearmos novos valores e verdades para os fenômenos. O que significa, em linha de continuidade com o mesmo Hegel, subverter os sentidos do discurso oficial em sua essência. Logo, não aceitando a polarização proposta como algo dado, imutável.
Logo, a tarefa é óbvia. Pela filosofia chegamos à necessidade de um novo léxico de caráter nacional e popular, adequado aos tempos de hoje no Brasil. No concreto isso significa unir os mais amplos setores da sociedade contra o atual estado de coisas. Não existe saída fora da política, ainda mais quando liberais não neoclássicos já começam a serem chamados de comunistas e perseguidos por convicções democráticas. Mas não chegaremos longe com bandeiras do passado. Não fazemos história sob condições escolhidas por nós e devemos saber que a tarefa de unir o país e reconstruí-lo não será tarefa simples a ser executada, por esta ou aquela força política “iluminada”.
Ignacio Rangel, o maior pensador da brasilidade, nos alertara sobre os riscos das nações que se negaram o direito de se desenvolver. Todas elas pereceram. O Brasil corre este risco. Logo, devemos construir e mostrar à sociedade um caminho de futuro. Uma rota por onde seguir. E como seguir. É crível a necessidade de não aceitarmos o jogo e os termos do jogo propostos pelo inimigo sob forma de uma polarização que só interessa, em Clausevitz, a quem tem a iniciativa de combate. Não é o nosso caso: estamos em franco processo de isolamento desde 2016. A única saída é a amplitude. Observamos o grande jogo que está sendo jogado. Ninguém mira em jogar na descrença do poder legislativo e do STF sem nenhuma boa carta na manga.
Existe método na loucura, sim. O que virá poderá ser um 1964 sem o instituto da correção monetária e, muito menos, um 2° PND. Poderemos acordar num Chile miserável com mais de 200 milhões de habitantes. A nação está em perigo. A bandeira nacional e o lema “Brasil Acima de Tudo” deve ser honraria nossas. Não deles.
Crédito da foto da página inicial: Reprodução/Vídeo Chico Prado/Revista Fórum
Hegel ensinou que quando tudo parece dividido é a hora da filosofia, do grande pensamento, de construir uma outra lógica e subverter os sentidos do discurso oficial. É preciso mostrar ao Brasil um caminho de futuro
16/04/2019
Não é mais segredo para ninguém que teremos mais um ano de crescimento pífio. O desemprego voltou a subir e a capacidade ociosa na indústria já beira os 40%. A taxa de investimentos (um ótimo indicador à verificação do nível de barbárie social) está em 15,5%. Este índice na China, que necessita gerar 13 milhões de empregos urbanos ao ano, está acima dos 40% há anos. No caso brasileiro uma taxa mínima para somente manter o atual nível de (des) emprego seria de 18%.
Liberais protofascistas aterrorizam a sociedade com a necessidade de uma propalada reforma da previdência e a venda de mais patrimônio público. Os bancos estatais já são fustigados publicamente por um ministro da economia que parece viver sob pressão da vida e da morte para entregar a abutres o futuro de 210 milhões de pessoas. Nem economistas ortodoxos alemães, nem tampouco nossos amigos economistas liberais chineses entenderiam essa obsessão por abrir mão de ativos bancários em épocas de certeza zero por parte dos investimentos privados.
A mentira virou verdade. Desde alunos de economia até donas de casa são levados a acreditar que o problema do país é o Estado. Afinal o Estado está longe das pessoas. E quando comparece é para matar, de forma seletiva, negros e pobres. A urbis, no capitalismo periférico sem perspectivas, transforma-se num Moloch que a tudo devora. Inclusive os sonhos que só podem ser renovados no momento em que o empresário olhar para o orçamento público e decidir investir sozinho e solitário, pois o Estado está fazendo sua parte ao se abster de gerar demanda efetiva. Certamente os empresários varejistas afeitos ao fascismo que hoje financiam uma blitz pela reforma da previdência não utilizaram este argumento para tomar emprestado dezenas de bilhões de reais de nosso BNDES.
O que restou de consciência na sociedade se bate em questões caras aos revolucionários russos do início do século 20. Que fazer? Se render diante da realidade, esbravejar e eleger o vizinho como inimigo? Aceitar a pauta e o campo de debate proposto pelo presidente como parece ser o rumo também escolhido pela “resistência”? Ou, o mais difícil, que é fazer política grande e aceitar o desafio de unir o país? E desde já dizemos que unir um país heterogêneo como o Brasil é tarefa de gigantes que não aceitam a pauta de “resistência” como variável estratégica. Aceitar este desafio é colocar o particular no plano da totalidade. É fazer política dentro e fora da bolha, não se utilizando da gritaria e do ódio como argumentos. Este método de ação deixemos para os nossos inimigos.
Lembrando de nosso amigo Cristiano Capovilla, percebemos Hegel que nos ensinou acerca do momento em que tudo parece dividido e cindido ser a hora da filosofia, do grande pensamento. Não aceitar o jogo vigente é construir uma outra lógica para nomearmos novos valores e verdades para os fenômenos. O que significa, em linha de continuidade com o mesmo Hegel, subverter os sentidos do discurso oficial em sua essência. Logo, não aceitando a polarização proposta como algo dado, imutável.
Logo, a tarefa é óbvia. Pela filosofia chegamos à necessidade de um novo léxico de caráter nacional e popular, adequado aos tempos de hoje no Brasil. No concreto isso significa unir os mais amplos setores da sociedade contra o atual estado de coisas. Não existe saída fora da política, ainda mais quando liberais não neoclássicos já começam a serem chamados de comunistas e perseguidos por convicções democráticas. Mas não chegaremos longe com bandeiras do passado. Não fazemos história sob condições escolhidas por nós e devemos saber que a tarefa de unir o país e reconstruí-lo não será tarefa simples a ser executada, por esta ou aquela força política “iluminada”.
Ignacio Rangel, o maior pensador da brasilidade, nos alertara sobre os riscos das nações que se negaram o direito de se desenvolver. Todas elas pereceram. O Brasil corre este risco. Logo, devemos construir e mostrar à sociedade um caminho de futuro. Uma rota por onde seguir. E como seguir. É crível a necessidade de não aceitarmos o jogo e os termos do jogo propostos pelo inimigo sob forma de uma polarização que só interessa, em Clausevitz, a quem tem a iniciativa de combate. Não é o nosso caso: estamos em franco processo de isolamento desde 2016. A única saída é a amplitude. Observamos o grande jogo que está sendo jogado. Ninguém mira em jogar na descrença do poder legislativo e do STF sem nenhuma boa carta na manga.
Existe método na loucura, sim. O que virá poderá ser um 1964 sem o instituto da correção monetária e, muito menos, um 2° PND. Poderemos acordar num Chile miserável com mais de 200 milhões de habitantes. A nação está em perigo. A bandeira nacional e o lema “Brasil Acima de Tudo” deve ser honraria nossas. Não deles.
Crédito da foto da página inicial: Reprodução/Vídeo Chico Prado/Revista Fórum
quinta-feira, 29 de setembro de 2016
terça-feira, 23 de abril de 2013
Trabalho Alienado - Karl Marx
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Manuscritos Econômico-Filosóficos
Karl Marx
Primeiro Manuscrito
Trabalho Alienado
(XXII) Partimos dos pressupostos da Economia Política. Aceitamos sua terminologia e suas leis. Aceitamos como premissas a propriedade privada, a separação do trabalho, capital e terra, assim como também de salários, lucro e arrendamento, a divisão do trabalho, a competição, o conceito de valor de troca, etc. Com a própria economia política, usando suas próprias palavras, demonstramos que o trabalhador afunda até um nível de mercadoria, e uma mercadoria das mais deploráveis; que a miséria do trabalhador aumenta com o poder e o volume de sua produção; que o resultado forçoso da competição é o acumulo de capital em poucas mãos, e assim uma restauração do monopólio da forma mais terrível; e, por fim, que a distinção entre capitalista e proprietário de terras, e entre trabalhador agrícola e operário, tem de desaparecer, dividindo-se o conjunto da sociedade em duas classes de possuidores de propriedades e trabalhadores sem propriedades.
A economia Política parte do fato da propriedade privada; não o explica. Ela concebe o processo materialda propriedade privada, como ocorre na realidade, por meio de fórmulas abstratas e gerais que, então, servem como leis. Ela não compreende essas leis; isto é, ela não mostra como surgem da natureza da propriedade privada. A Economia Política não dá nenhuma explicação da base para a distinção entre trabalho e capital, entre capital e terra. Quando, por exemplo, a relação entre salários e lucros é definida, isso é explicado em função dos interesses dos capitalistas; por outras palavras, o que devia ser explicado é admitido. Analogamente, a competição é referida a todos os pontos e explicada em função das condições externas. A Economia Política nada nos diz a respeito da medida em que essas condições externas, e aparentemente acidentais, são simplesmente a expressão de uma evolução necessária. Vimos como a própria troca se afigura um fato acidental. As únicas forças propulsoras reconhecidas pela Economia Política são a avareza e a guerra entre os gananciosos, a competição.
Justamente por deixar a Economia Política de entender as interconexões dentro desse movimento, foi possível opor a doutrina de competição à de monopólio, a doutrina de liberdade da profissão à das guildas, a doutrina de divisão da propriedade imobiliária a dos latifúndios; pois a competição, liberdade de ocupação e divisão da propriedade imobiliária foram concebidas tão-somente como conseqüências fortuitas produzidas pela vontade e pela força, em vez de conseqüências necessárias, inevitáveis e naturais do monopólio, do sistema de guildas e da propriedade feudal.
Por isso, temos agora de apreender a ligação real entre todo esse sistema de alienação - propriedade privada, ganância, separação entre trabalho, capital e terra, troca e competição, valor e desvalorização do homem, monopólio e competição - e o sistema do dinheiro.
Não iniciaremos nossa exposição, como o faz o economista, por uma legendária situação primitiva. Uma tal situação arcaica nada explica; simplesmente afasta a pergunta para uma distância turva e enevoada. Ela afirma como fato ou acontecimento o que deveria deduzir, ou seja, a relação necessária entre duas coisas; por exemplo, entre a divisão do trabalho e a troca. Da mesma maneira, a teologia explica a origem do mal pela queda do homem; isto é, ela assegura como fato histórico aquilo que deveria elucidar.
Partiremos de um fato econômico contemporâneo. O trabalhador fica mais pobre à medida que produz mais riqueza e sua produção cresce em força e extensão. O trabalhador torna-se uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens. A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta do aumento de valor do mundo dos objetos. O trabalho não cria apenas objetos; ele também se produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria, e, deveras, na mesma proporção em que produz bens.
Esse fato simplesmente subentende que o objeto produzido pelo trabalho, o seu produto, agora se lhe opõe como um ser estranho, como uma força independente do produtor. O produto do trabalho humano é trabalho incorporado em um objeto e convertido em coisa física; esse produto é uma objetificação do trabalho. A execução do trabalho é simultaneamente sua objetificação. A execução do trabalho aparece na esfera da Economia Política como uma perversão do trabalhador, a objetificação como uma perda e uma servidão ante o objeto, e a apropriação como alienação.
A execução do trabalho aparece tanto como uma perversão que o trabalhador se perverte até o ponto de passar fome. A objetificação aparece tanto como uma perda do objeto que o trabalhador é despojado das coisas mais essenciais não só da vida, mas também do trabalho. O próprio trabalho transforma-se em um objeto que ele só pode adquirir com tremendo esforço e com interrupções imprevisíveis. A apropriação do objeto aparece como alienação a tal ponto que quanto mais objetos o trabalhador produz tanto menos pode possuir e tanto mais fica dominado pelo seu produto, o capital.
Todas essas conseqüências decorrem do fato de o trabalhador ser relacionado com o produto de seu trabalho como com um objeto estranho. Pois está claro que, baseado nesta premissa, quanto mais o trabalhador se desgasta no trabalho tanto mais poderoso se torna o mundo de objetos por ele criado em face dele mesmo, tanto mais pobre se torna a sua vida interior, e tanto menos ele se pertence a si próprio. Quanto mais de si mesmo o homem atribui a Deus, tanto menos lhe resta. O trabalhador põe a sua vida no objeto, e sua vida, então, não mais lhe pertence, porém, ao objeto. Quanto maior for sua atividade, portanto, tanto menos ele possuirá. O que está incorporado ao produto de seu trabalho não mais é dele mesmo. Quanto maior for o produto de seu trabalho, por conseguinte, tanto mais ele minguará. A alienação do trabalhador em seu produto não significa apenas que o trabalho dele se converte em objeto, assumindo uma existência externa, mas ainda que existe independentemente, fora dele mesmo, e a ele estranho, e que com ele se defronta como uma força autônoma. A vida que ele deu ao objeto volta-se contra ele como uma força estranha e hostil.
(XXIII) Examinemos agora, mais de perto, o fenômeno da objetificação, a produção do trabalhador e aalienação e perda do objeto por ele produzido, nisso implícitas. O trabalhador nada pode criar sem a natureza, sem o mundo exterior sensorial. Este ultimo é o material em que se concretiza o trabalho, em que este atua, com o qual e por meio do qual ele produz coisas.
Todavia, assim como a natureza proporciona os meios de existência do trabalho, na acepção de este não poder viver sem objetos aos quais possa aplicar-se, igualmente proporciona os meios de existência em sentido mais restrito, ou sejam os meios de subsistência física para o próprio trabalhador. Assim, quanto mais o trabalhador apropria o mundo externo da natureza sensorial por seu trabalho, tanto mais se despoja de meios de existência, sob dois aspectos: primeiro, o mundo exterior sensorial se torna cada vez menos um objeto pertencente ao trabalho dele ou um meio de existência de seu trabalho; segundo, ele se torna cada vez menos um meio de existência na acepção direta, um meio para a subsistência física do trabalhador.
Sob os dois aspectos, portanto, o trabalhador se converte em escravo do objeto: primeiro, por receber umobjeto de trabalho, isto é, receber trabalho, e em segundo lugar por receber meios de subsistência. Assim, o objeto o habilita a existir, primeiro como trabalhador e depois como sujeito físico.
O apogeu dessa escravização é ele só poder se manter como sujeito físico na medida em que é umtrabalhador, e de ele só como sujeito físico poder ser um trabalhador.
(A alienação do trabalhador em seu objeto é expressa da maneira seguinte, nas leis da Economia Política: quanto mais o trabalhador produz, tanto menos tem para consumir; quanto mais valor ele cria, tanto menos valioso se torna; quanto mais aperfeiçoado o seu produto, tanto mais grosseiro e informe o trabalhador; quanto mais civilizado o produto, tão mais bárbaro o trabalhador; quanto mais poderoso o trabalho, tão mais frágil o trabalhador; quanto mais inteligência revela o trabalho, tanto mais o trabalhador decai em inteligência e se torna um escravo da natureza.)
A economia Política oculta a alienação na natureza do trabalho por não examinar a relação direta entre o trabalhador (trabalho) e a produção. Por certo, o trabalho humano produz maravilhas para os ricos, mas produz privação para o trabalhador. Ele produz palácios, porém choupanas é o que toca ao trabalhador. Ele produz beleza, porém para o trabalhador só fealdade. Ele substitui o trabalho humano por maquinas, mas atira alguns dos trabalhadores a um gênero bárbaro de trabalho e converte outros em máquinas. Ele produz inteligência, porém também estupidez e cretinice para os trabalhadores.
A relação direta do trabalho com seus produtos é a entre o trabalhador e os objetos de sua produção. A relação dos possuidores de propriedade com os objetos da produção e com a própria produção é meramente uma conseqüência da primeira relação e a confirma. Apreciaremos adiante este segundo aspecto. Portanto, quando perguntamos qual é a relação importante do trabalho, estamos interessados na relação do trabalhadorcom a produção.
Até aqui consideramos a alienação do trabalhador somente sob um aspecto, qual seja o de sua relação com os produtos de seu trabalho. Não obstante, a alienação aparece não só como resultado, mas também como processo de produção, dentro da própria atividade produtiva. Como poderia o trabalhador ficar numa relação alienada com o produto de sua atividade se não se alienasse a si mesmo no próprio ato da produção? O produto é, de fato, apenas a síntese da atividade, da produção. Conseqüentemente, se o produto do trabalho é alienação, a própria produção deve ser alienação ativa - a alienação da atividade e a atividade da alienação A alienação do objeto do trabalho simplesmente resume a alienação da própria atividade do trabalho.
O que constitui a alienação do trabalho? Primeiramente, ser o trabalho externo ao trabalhador, não fazer parte de sua natureza, e por conseguinte, ele não se realizar em seu trabalho mas negar a si mesmo, ter um sentimento de sofrimento em vez de bem-estar, não desenvolver livremente suas energias mentais e físicas mas ficar fisicamente exausto e mentalmente deprimido. O trabalhador, portanto, só se sente à vontade em seu tempo de folga, enquanto no trabalho se sente contrafeito. Seu trabalho não é voluntário, porém imposto, é trabalho forçado. Ele não é a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio para satisfazer outras necessidades. Seu caráter alienado é claramente atestado pelo fato, de logo que não haja compulsão física ou outra qualquer, ser evitado como uma praga. O trabalho exteriorizado, trabalho em que o homem se aliena a si mesmo, é um trabalho de sacrifício próprio, de mortificação. Por fim, o caráter exteriorizado do trabalho para o trabalhador é demonstrado por não ser o trabalho dele mesmo mas trabalho para outrem, por no trabalho ele não se pertencer a si mesmo mas sim a outra pessoa.
Tal como na religião, a atividade espontânea da fantasia, do cérebro e do coração humanos, reage independentemente como uma atividade alheia de deuses ou demônios sobre o indivíduo, assim também a atividade do trabalhador não é sua própria atividade espontânea. É atividade de outrem e uma perda de sua própria espontaneidade.
Chegamos a conclusão de que o homem (o trabalhador) só se sente livremente ativo em suas funções animais - comer, beber e procriar, ou no máximo também em sua residência e no seu próprio embelezamento - enquanto que em suas funções humanas se reduz a um animal. O animal se torna humano e o humano se torna animal.
Comer, beber e procriar são, evidentemente, também funções genuinamente humanas. Mas, consideradas abstratamente, à parte do ambiente de outras atividades humanas, e convertidas em fins definitivos e exclusivos, são funções animais.
Consideremos, agora, o ato de alienação da atividade humana prática, o trabalho, sob dois aspectos: 1) a relação do trabalhador com o produto do trabalho como um objeto estranho que o domina. Essa relação é, ao mesmo tempo, a relação com o mundo exterior sensorial, com os objetos naturais, como um mundo estranho e hostil; 2) a relação do trabalho como o ato de produção dentro do trabalho. Essa é a relação do trabalhador com sua própria atividade humana como algo estranho e não pertencente a ele mesmo, atividade como sofrimento (passividade), vigor como impotência, criação como emasculação, a energia física e mental pessoaldo trabalhador, sua vida pessoal (pois o que é a vida senão atividade?) como uma atividade voltada contra ele mesmo, independente dele e não pertencente a ele. Isso é auto-alienação, ao contrário da acima mencionada alienação do objeto.
(XXIV) Temos, agora, de inferir uma terceira característica do trabalho alienado, partindo das duas já vistas.
O homem é um ente-espécie não apenas no sentido de que ele faz da comunidade (sua própria, assim como as de outras coisas) seu objeto, tanto prática quanto teoricamente, mas também (e isto é simplesmente outra expressão da mesma coisa) no sentido de tratar-se a si mesmo como a espécie vivente, atual, como um ser universal e conseqüentemente livre.
A vida da espécie, para o homem assim como para os animais, encontra sua base física no fato de o homem (como os animais) viver da natureza inorgânica, e como o homem é mais universal que um animal, assim também o âmbito da natureza inorgânica de que ele vive é mais universal. Vegetais, animais, minerais, ar, luz, etc., constituem, sob o ponto de vista teórico, uma parte da consciência humana como objetos da ciência natural e da arte; eles são a natureza inorgânica espiritual do homem, se meio intelectual de vida, que ele deve primeiramente preparar para seu prazer e perpetuação. Assim também, sob o ponto de vista prático, eles formam parte da vida e atividade humanas. Na prática, o homem vive apenas desses produtos naturais, sob a forma de alimento, aquecimento, roupa, abrigo, etc. A universalidade do homem aparece, na prática, na universalidade que faz da natureza inteira o seu corpo: 1) como meio direto de vida, e igualmente, 2) como o objeto material e o instrumento de sua atividade vital. A natureza é o corpo inorgânico do homem; quer isso dizer a natureza excluindo o próprio corpo humano. Dizer que o homem vive da natureza significa que a natureza é o corpo dele, com o qual deve se manter em contínuo intercâmbio a fim de não morrer. A afirmação de que a vida física e mental do homem e a natureza são interdependentes, simplesmente significa ser a natureza interdependente consigo mesma, pois o homem é parte dela.
Tal como o trabalho alienado:
1) aliena a natureza do homem e
2) aliena o homem de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade vital, assim também o aliena da espécie. Ele transforma a vida da espécie em uma forma de vida individual. Em primeiro lugar, ele aliena a vida da espécie e a vida individual, e posteriormente transforma a segunda, como uma abstração, em finalidade da primeira, também em sua forma abstrata e alienada.
Pois, trabalho, atividade vital, vida produtiva, agora aparecem ao homem apenas como meios para a satisfação de uma necessidade, a de manter sua existência física. A vida produtiva, contudo, é vida da espécie. É vida criando vida. No tipo de atividade vital, reside todo o caráter de uma espécie, seu caráter como espécie; e a atividade livre, consciente, é o caráter como espécie dos seres humanos. A própria vida assemelha-se somente a um meio de vida.
O animal identifica-se com sua atividade vital. Ele não distingue a atividade de si mesmo. Ele é sua atividade.
O homem, porém, faz de sua atividade vital um objeto de sua vontade e consciência. Ele tem uma atividade vital consciente. Ela não é uma prescrição com a qual ele esteja plenamente identificado. A atividade vital consciente distingue o homem da atividade vital dos animais: só por esta razão ele é um ente-espécie. Ou antes, é apenas um ser auto-consciente, isto é, sua própria vida é um objeto para ele, porque ele é um ente-espécie. Só por isso, a sua atividade é atividade livre. O trabalho alienado inverte a relação, pois o homem, sendo um ser autoconsciente, faz de sua atividade vital, de seu ser, unicamente um meio para suaexistência.
A construção prática de um mundo objetivo, a manipulação da natureza inorgânica, é a confirmação do homem como um ente-espécie, consciente, isto é, um ser que trata a espécie como seu próprio ser ou a si mesmo como um ser-espécie. Sem dúvida, os animais também produzem. Eles constróem ninhos e habitações, como no caso das abelhas, castores, formigas, etc. Porém, só produzem o estritamente indispensável a si mesmos ou aos filhotes. Só produzem em uma única direção, enquanto o homem. produz universalmente. Só produzem sob a compulsão de necessidade física direta, ao passo que o homem produz quando livre de necessidade física e só produz, na verdade, quando livre dessa necessidade. Os animais só produzem a si mesmos, enquanto o homem reproduz toda a natureza. Os frutos da produção animal pertencem diretamente a seus corpos físicos, ao passo que o homem é livre ante seu produto. Os animais só constróem de acordo com os padrões e necessidades da espécie a que pertencem, enquanto o homem sabe produzir de acordo com os padrões de todas as espécies e como aplicar o padrão adequado ao objeto. Assim, o homem constrói também em conformidade com as leis do belo.
É justamente em seu trabalho exercido no mundo objetivo que o homem realmente se comprova como umente-espécie. Essa produção é sua vida ativa como espécie; graças a ela, a natureza aparece como trabalho e realidade dele. O objetivo do trabalho, portanto, é a objetificação da vida como espécie do homem, pois ele não mais se reproduz a si mesmo apenas intelectualmente, como na consciência, mas ativamente e em sentido real, e vê seu próprio reflexo em um mundo por ele construído. Por conseguinte, enquanto o trabalho alienado afasta o objetivo da produção do homem, também afasta sua vida como espécie, sua objetividade real como ente-espécie, e muda a superioridade sobre os animais em uma inferioridade, na medida em que seu corpo inorgânico, a natureza, é afastado dele.
Assim como o trabalho alienado transforma a atividade livre e dirigida pelo próprio indivíduo em um meio, também transforma a vida do homem como membro da espécie em um meio de existência física.
A consciência que o homem tem de sua espécie é transformada por meio da alienação, de sorte que a vida como espécie torna-se apenas um meio para ele.
(3) Então, o trabalho alienado converte a vida do homem como membro da espécie, e também como propriedade mental da espécie dele, em uma entidade estranha e em um meio para sua existência individual. Ele aliena o homem de seu próprio corpo, a natureza extrínseca, de sua vida mental e de sua vida humana.
(4) Uma conseqüência direta da alienação do homem com relação ao produto de seu trabalho, à sua atividade vital e a sua vida como membro da espécie, é o homem ficar alienado dos outros homens. Quando o homem se defronta consigo mesmo, também está se defrontando com outros homens.
O que é verdadeiro quanto à relação do homem com seu trabalho, com o produto desse trabalho e consigo mesmo, também o é quanto à sua relação com outros homens, com o trabalho deles e com os objetos desse trabalho.
De maneira geral, a declaração de que o homem fica alienado da sua vida como membro da espécie implica em cada homem ser alienado dos outros, e cada um dos outros ser igualmente alienado da vida humana.
A alienação humana, e acima de tudo a relação do homem consigo próprio, é pela primeira vez concretizada e manifestada na relação entre cada homem e os demais homens. Assim, na relação do trabalho alienado cada homem encara os demais de acordo com os padrões e relações em que ele se encontra situado como trabalhador.
(XXV) Principiamos por uma fato econômico, a alienação do trabalhador e de sua produção. Exprimimos esse fato em termos conceituais como trabalho alienado e, ao analisar o conceito, limitamo-nos a analisar um fato econômico.
Examinemos, agora, mais além, como esse conceito de trabalho alienado deve expressar-se e revelar-se na realidade. Se o produto do trabalho me é estranho e enfrenta-me como uma força estranha, a quem pertence ele? Se minha própria atividade não me pertence, mas é uma atividade alienada, forçada, a quem ela pertence? A um ser, outro que não eu. E que é esse ser? Os deuses? É evidente, nas mais primitivas etapas de produção adiantada, por exemplo, construção de templos, etc., no Egito, Índia, México, é nos serviços prestados aos deuses, que o produto pertencia a estes. Mas os deuses nunca eram por si sós os donos do trabalho humano; tampouco o era a natureza. Que contradição haveria se quanto mais o homem subjugasse a natureza com seu trabalho, e quanto mais as maravilhas dos deuses fossem tornadas supérfluas pelas da industria, ele se abstivesse da sua alegria em produzir e de sua fruição dos produtos por amor a esses poderes!
O ser estranho a quem pertencem o trabalho e o produto deste, a quem o trabalho é devotado, e para cuja fruição se destina o produto do trabalho, só pode ser o próprio homem. Se o produto do trabalho não pertence ao trabalhador, mas o enfrenta como uma força estranha, isso só pode acontecer porque pertence a um outro homem que não o trabalhador. Se sua atividade é para ele um tormento, ela deve ser uma fonte de satisfação e prazer para outro. Não os deuses nem a natureza, mas só o próprio homem pode ser essa força estranha acima dos homens.
Considere-se a afirmação anterior segundo a qual a relação do homem consigo mesmo se concretiza e objetiva primariamente através de sua relação com outros homens. Se, portanto, ele está relacionado com o produto de seu trabalho, seu trabalho objetificado, como com um objeto estranho, hostil, poderoso e independente, ele está relacionado de tal maneira que um outro homem, estranho, hostil, poderoso e independente, é o dono de seu objeto. Se ele está relacionado com sua atividade como com uma atividade não-livre, então está relacionado com ela como uma atividade a serviço e sob jugo, coerção e domínio de outro homem.
Toda auto-alienação do homem, de si mesmo e da natureza, aparece na relação que ele postula entre os outros homens, ele próprio e a natureza. Assim a auto-alienação religiosa é necessariamente exemplificada na relação entre leigos e sacerdotes, ou, já que aqui se trata de uma questão do mundo espiritual, entre leigos e um mediador. No mundo real da prática, essa auto-alienação só pode ser expressa na relação real, prática, do homem com seus semelhantes.
O meio através do qual a alienação ocorre é, por si mesmo, um meio prático. Graças ao trabalho alienado, por conseguinte, o homem não só produz sua relação com o objeto e o processo da produção como com homens estranhos e hostis, mas também produz a relação de outros homens com a produção e o produto dele, e a relação entre ele próprio e os demais homens. Tal como ele cria sua própria produção como uma perversão, uma punição, e seu próprio produto como uma perda, como um produto que não lhe pertence, assim também cria a dominação do não-produtor sobre a produção e os produtos desta. Ao alienar sua própria atividade, ele outorga ao estranho uma atividade que não é deste.
Apreciamos até aqui essa relação somente do lado do trabalhador, e posteriormente a apreciaremos também do lado do não-trabalhador.
Assim, graças ao trabalho alienado o trabalhador cria a relação de outro homem que não trabalha e está de fora do processo do trabalho, com o seu próprio trabalho. A relação do trabalhador com o trabalho também provoca a relação do capitalista (ou como quer que se denomine ao dono da mão-de-obra) com o trabalho. Apropriedade privada é, portanto, o produto, o resultado inevitável, do trabalho alienado, da relação externa do trabalhador com a natureza e consigo mesmo.
A propriedade privada, pois, deriva-se da análise do conceito de trabalho alienado: isto é, homem alienado, trabalho alienado, vida alienada, e homem afastado.
Está claro que extraímos o conceito de trabalho alienado (vida alienada) da Economia Política, partindo de uma análise do movimento da propriedade privada. A análise deste conceito, porém, mostra que embora a propriedade privada pareça ser a base e causa do trabalho alienado, é antes uma conseqüência dele, tal e qual os deuses não são fundamentalmente a causa, mas o produto de confusões da razão humana. Numa etapa posterior, entretanto, há uma influência recíproca.
Só na etapa final da evolução da propriedade privada é revelado o seu segredo, ou seja, que é, de um lado, o produto do trabalho alienado, e do outro, o meio pelo qual o trabalho é alienado, a realização dessa alienação.
Esta elucidação lança luz sobre diversas controvérsias não solucionadas:
(1) A Economia Política inicia tomando o trabalho como a verdadeira alma da produção e, a seguir, nada lhe atribui, concedendo tudo à propriedade privada. Proudhon, defrontando-se com essa contradição, decidiu em favor do trabalho contra a propriedade privada. Percebemos, contudo, que essa aparente contradição é a contradição do trabalho alienado consigo mesmo e que a Economia Política meramente formulou as leis do trabalho alienado.
Observamos, também, por conseguinte, que salários e propriedade privada são idênticos, porquanto os salários como o produto ou objetivo do trabalho, o próprio trabalho remunerado, são apenas conseqüência necessária da alienação do trabalho. No sistema de salários, o trabalho aparece não como um fim por si mas como o servo dos salários. Mais tarde nos entenderemos sobre isto, limitando-nos, aqui, a desvendar algumas das conseqüências (XXVI).
Um aumento de salários imposto (desprezando outras dificuldades, e especialmente a de que uma anomalia dessas só poderia ser mantida pela força) não passaria de uma remuneração melhor de escravos, e não restauraria, seja para o trabalhador seja para o trabalho, seu significado e valor humanos.
Mesmo a igualdade das rendas que Proudhon exige só modificaria a relação do trabalhador de hoje em dia com seu trabalho em uma relação de todos os homens com o trabalho. A sociedade seria concebida, então, como um capitalista abstrato.
(2) Da relação do trabalho alienado com a propriedade privada também decorre que a emancipação da sociedade da propriedade privada, da servidão, assume a forma política de emancipação dos trabalhadores; não no sentido de só estar em jogo a emancipação destes, mas por essa emancipação abranger a de toda a humanidade. Pois toda servidão humana está enredada na relação do trabalhador com a produção, e todos os tipos de servidão são somente modificações ou corolários desta relação.
Como descobrimos o conceito de propriedade privada por uma análise do conceito de trabalho alienado, com o auxílio desses dois fatores também podemos deduzir todas as categorias da Economia Política, e em cada uma, isto é, comércio, competição, capital, dinheiro, descobriremos só uma expressão particular e ampliada desses elementos fundamentais.
Sem embargo, antes de considerar essa estrutura, tentemos solucionar dois problemas.
(1) Determinar a natureza geral da propriedade privada como resultou do trabalho alienado, em sua relação com a propriedade humana e social genuína.
(2) Tomamos como fato e analisamos a alienação do trabalho. Como sucede, podemos indagar, que o homem aliene seu trabalho? Como essa alienação se alicerça na natureza da evolução humana? Já fizemos muito para resolver o problema, visto termos transformado a questão referente ã origem da propriedade privada em uma questão acerca da relação entre trabalho alienado e o processo de evolução da humanidade. Pois, ao falar de propriedade privada, acredita-se estar lidando com algo extrínseco à espécie humana. Mas, ao falar de trabalho, lida-se diretamente com a própria espécie humana. Esta nova formulação do problema já encerra sua solução.
ad (1) A natureza geral da propriedade privada e sua relação com a propriedade genuína.
Decompusemos o trabalho alienado em duas partes, que se determinam mutuamente, ou melhor, constituem duas expressões distintas de uma única relação. A apropriação aparece como alienação e alienaçãocomo apropriação; alienação como aceitação genuína na comunidade.
Consideramos um aspecto, o trabalho alienado, em seus reflexos no próprio trabalhador, isto é, a relação alienada do trabalho humano consigo mesmo. E constatamos ser corolário obrigatório dessa relação, a relação de propriedade do não-trabalhador com o trabalhador e com o trabalho. A propriedade privada, como expressão material sinóptica do trabalho alienado, inclui ambas as relações: a relação do trabalhador com o trabalho, com o produto de seu trabalho e com o não-trabalhador, e a relação do não-trabalhador com o trabalhador e com o produto do trabalho deste.
Já vimos que em relação ao trabalhador, que apropria a natureza por intermédio de seu trabalho, a apropriação se afigura uma alienação, a atividade própria como atividade para outrem e de outrem, a vida como sacrifício da vida, e a produção do objeto como perda deste para uma força estranha, um homem estranho. Consideremos, agora, a relação deste homem estranho com o trabalhador, com o trabalho e com o objeto do trabalho.
Deve ser observado, de início, que tudo que aparece ao trabalhador como uma atividade de alienação, aparece ao não-trabalhador como uma condição de alienação. Em segundo lugar, a atitude prática real do trabalhador na produção e face ao produto (como estado de espírito) afigura-se ao não-trabalhador, que com ele se defronta, como uma atitude teórica.
(XXVII) Em terceiro lugar, o não-trabalhador faz contra o trabalhador tudo que este faz contra si mesmo, mas não faz contra si próprio o que faz contra o trabalhador.
Examinemos mais de perto essas três relações.
[o manuscrito interrompe-se aqui]
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