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domingo, 9 de novembro de 2014

Conceição Lemes - o Mais Médicos em Novo Hamburgo: “Os médicos cubanos tocam na gente para examinar” - Blog VioMundo

Viomundo e o Mais Médicos em Novo Hamburgo

Conceição Lemes: “Os médicos cubanos tocam na gente para examinar”

publicado em 6 de novembro de 2014 às 21:04
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O secretário Luiz Carlos Bolzan e o médico cubano Antonio Betancourt fazem  a diferença. Fotos: Robson Nunes 
por Conceição Lemes
Novo Hamburgo, capital nacional do Calçado, fica a 40 km de Porto Alegre (RS).
Até o ano passado, como a maioria das cidades brasileiras, esse município gaúcho tinha falta de médicos.
Não era por escassez de recursos, mas por falta de profissionais para contratar.
Eram 160 para cuidar de 240 mil habitantes. Cobriam apenas 28% da população.
Em setembro de 2013, Novo Hamburgo recebeu os três primeiros médicos do programa Mais Médicos: duas argentinas e um brasileiro formado em Cuba.
Hoje, são 40, dos quais 29 cubanos. Os demais são dois brasileiros formados fora do país (um em Cuba e uma na Venezuela), quatro argentinos, três uruguaios, um dominicano e um venezuelano.
O doutor Antonio Betancourt Léon é um deles. Foi o primeiro médico cubano a atender na Vila Palmeira, uma das áreas mais carentes da cidade. Chegou no início de 2014.
Antes, trabalhou durante dois anos na Guiana Inglesa, num programa de Saúde da Família, parecido com o Mais Médicos, que visa à atenção básica de saúde, ou atenção primária.
Jaci da Silva Carvalho (69), Santa Emília Alves de Almeida (75 anos) e Roseline Quadros Abreu (35) são algumas das dezenas de pacientes que já passaram em consulta com ele. As três moram na Vila Palmeira.
Dona Jaci padece com uma ferida na perna, diagnosticada como úlcera varicosa, há seis anos.
– Quando começa a doer, fico louca. Me tratei no Hospital Operário. Depois, no posto de saúde Santo Afonso. Aí, faziam curativos a cada 15 dias. Não davam nenhum remédio para eu aguentar a dor na hora do curativo. Eu tinha que suportar tudo ali, no osso… Pior é que não melhorava. Eu pedia pra eles trocarem a pomada que eu usava em que casa, porque custava caro, eles não ligavam.
Dona Jaci: "Doutor Antonio tirou uma parte dos remédios que eu tomava. Não é que a minha dor no estômago está melhorando"Dona Jaci: "Doutor Antonio tirou uma parte dos remédios que eu tomava. Não é que a minha dor no estômago está melhorando"
Dona Jaci: “Doutor Antonio tirou uma parte dos remédios que eu tomava. Não é que a minha dor no estômago está melhorando?”
– Hoje em dia, estou me tratando no posto mais ali para baixo, com o doutor Antonio,  do Mais Médicos. Eles tratam a gente com mais carinho. As gurias são muito boas.
– Agora, faço curativo todo dia. Engraçado…devido ao jeito de a guria fazer o curativo, não dói tanto como antes… Estou com muita esperança de que agora vai dar certo…Ah, ia me esquecendo. Não preciso mais comprar a pomada, eles dão pra mim.
-- Se eu entendo o que o doutor Antônio fala? Entendo um pouco, sim, mas levo sempre o meu filho que entende melhor do que eu.
– Guria, tu acreditas que eu estava tomando 25 comprimidos por dia?!  Eu já nem podia mais comer de tanta dor no estômago. O doutor Antonio achou que era muito remédio. Tirou uma parte. Não é que a minha dor no estômago está melhorando?
Dona Santa Emília está muito empolgada:
– Os do Mais Médicos atendem, mesmo, bem melhor. Dão mais atenção ao que gente sente do que os outros médicos. Eu tenho diabetes, hipertensão arterial e problema de coluna, que toda pessoa velha tem…
Roseline tem quatro filhos: 15, 14, 13 e 4 anos de idade:
– Para a minha família, o atendimento está sendo ótimo. Eles examinam a gente!
– Até achei que a comunicação com eles [os médicos cubanos] iria ser difícil. Mas está muito tranquilo. Eles falam bem devagar.
– No outro posto que a gente frequentava antes, às vezes, eu chegava lá com o meu gurizinho de 4 anos com febre, dor de garganta…Os médicos nem examinavam, davam direto ampicilina [um tipo de antibiótico]!
– O meu filho de 15 anos tem muita acne, também está se tratando. O rosto estava se deformando. Ele se sentia tão mal que se fechava em casa. O resultado está bem bom.
– Um dia desses, levei o meu gurizinho. Precisa ver como eles são atenciosos. Eles examinam os olhos, a barriguinha, abrem a boca para ver como estão os dentinhos, garganta…
– A gente não tinha isso antes! Os médicos do Mais Médicos são mais humanos. Eles trabalham com gosto. Eles tocam na gente para examinar! Já os outros a gente percebe não gostam de pôr a mão na gente; às vezes nem olham para o nosso rosto.
AGENTE DE SAÚDE: “TODO MUNDO QUER SE CONSULTAR COM OS CUBANOS”
Emília, Jaci e Roseline estão entre as 215 famílias que a agente de saúde Altiva Motta dos Santos acompanha mensalmente em casa.
Atuando há cinco anos na Vila Palmeira, Altiva tem a mesma percepção das suas pacientes, como mostra esta breve entrevista que fizemos com ela:
– Como está sendo trabalhar com os médicos cubanos? 
– Muito boa. Eles são muito atenciosos. Examinam bem as pessoas. Todo mundo está gostando muito. Eles falam com calma para as pessoas entenderem.
– Algum paciente recusou ser atendido por eles?
– Nããããããão! Todo mundo quer se consultar com eles.  Não é propaganda, falo a verdade.
– O que os pacientes te contam?
– Sobre os outros médicos, era comum eu ouvir: “Fulano não examina, sicrano atende a gente em pé, até na porta; não faz isso, não faz  aquilo…”
Já sobre cubanos, eles dizem: “perguntam tudo sobre a saúde da gente, ouvem o que estamos sentindo, examinam bem, tiram a pressão, colocam a gente na maca…”
– Mudou alguma coisa?
– Melhorou bastante a adesão ao tratamento, às orientações. Os usuários estão mais felizes. E eles estando mais felizes, nós, agentes de saúde, também ficamos mais felizes.
Em casa, Dona Emília recebe a visita mensal da agente de saúde Altiva: "Os médicos do Mais Médicos dão mais atenção ao que gente sente do que os outros"
Em casa, Dona Emília recebe a visita mensal da agente de saúde Altiva: “Os médicos do Mais Médicos dão mais atenção ao que gente sente do que os outros”
DR. ANTONIO: “A GENTE TEM DE LEMBRAR QUE O PACIENTE NÃO É UMA DOENÇA”
Entrevistando o doutor Antonio, fica claro por que tanto as usuárias quanto a agente de saúde derramam-se em elogios à sua atuação.
Principais observações do médico cubano às minhas perguntas:
– Eu fico muito contente com a reação dos pacientes. O acolhimento foi muito bom.
– No início, por causa da língua diferente, tivemos algumas incongruências, mas agora a comunicação está muito boa. Além disso, a relação médico-paciente é muito, muito, muito legal!
– Eu falo devagar para eles. Ao final da consulta, pergunto se entenderam tudo. E, ainda, peço para eles repetirem pra mim.
– Nós estamos trabalhando com uma população muito pobre. Eles precisam de mais atenção e amor, nós estamos fazendo o possível para dar isso.
– A reação dos médicos brasileiros contra nós, cubanos, foi também político-ideológica e não apenas corporativa.
– Logo que cheguei, fui trabalhar com uma médica brasileira totalmente contrária ao Mais Médicos. Ela não queria saber  da gente. Mas, depois de algum tempo, mudou de opinião e me disse: “Eu gosto de trabalhar com os médicos cubanos. Vocês dão mais atenção aos pacientes e nós temos de aprender como vocês fazem isso”. Hoje somos muito bons colegas. Eu acho que com o tempo a opinião dos médicos brasileiros em relação a nós vai mudar.
– Qual a principal diferença entre a nossa escola de medicina e a brasileira?Pelo que eu detectei até agora, a nossa preconiza fazer muita clínica médica. Ensina-nos a conversar bastante com o paciente, o que é muito importante.  É, para mim, a principal diferença.
– A gente tem que lembrar que o paciente não é uma doença. Às vezes só de conversar com conosco, ele melhora. O entorno dele é quase sempre complicado e nós não podemos ignorar isso.
– Em minha modesta opinião, no Brasil, é preciso fortalecer a atenção básica à saúde.  E o primeiro contato com a população tem de ser o melhor possível. Estamos aqui para ajudar como irmãos, para que o primeiro contato da população com o sistema de saúde seja o melhor possível.
Em Novo Hamburgo, experiência inédita no país: os profissionais dos Mais Médicos usam tablet para acessar o prontuário dos pacientes e acrescentar novas informações. Doutor Antonio foi o primeiro a aprender. Nessa foto, durante a capacitação dos médicos, ele faz uma demonstração às colegas cubanas Susete Villarreal (de azul) e Ilena Isabel Cabrales (de laranja) e à uruguaia Gabriela Varini 
Em Novo Hamburgo, experiência inédita no Brasil: os profissionais dos Mais Médicos usam tablet para acessar o prontuário dos pacientes e acrescentar novas informações. Doutor Antonio foi o primeiro a aprender. Na foto, durante uma capacitação, ele faz demonstração às colegas cubanas Susete Villarreal (de blusa azul) e Ilena Isabel Cabrales (de laranja) e à uruguaia Gabriela Varini
FIM DA CONSULTA DE TRÊS MINUTOS E ASSISTÊNCIA MAIS HUMANA
Pesquisa realizada de janeiro a julho de 2014 pela Secretaria de Saúde de Novo Hamburgo com 564 usuários do programa revela o êxito do Mais Médicos junto à população: 98,6% estão satisfeitos, sendo que 90% deram-lhe notas 9 e 10.
“É o serviço público mais bem avaliado pelos usuários, supera o Samu, os correios e os bombeiros”, observa Luiz Carlos Bolzan, secretário de Saúde do município e presidente do Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Rio Grande do Sul (Consems/ RS).
Os gestores também estão satisfeitos:
* Os médicos do programa estão oito horas por dia na comunidade.
* Têm o perfil para trabalhar com saúde da família e atenção básica.
* Se propõem a atuar em equipe e fazer visitas domiciliares.
Resultado: em Novo Hamburgo, a cobertura da assistência à população saltou de 30% para 76%.
Além disso, a pesquisa feita em Novo Hamburgo já permite detectar alguns resultados positivos Mais Médicos.
O secretário Luiz Carlos Bolzan destaca três:
1. Resgate da prática clínica e da assistência mais humana nos serviços públicos de saúde
Antes a consulta durava três a cinco minutos e se resumia à prescrição de medicamentos a partir de uma queixa, sem fazer qualquer exame clínico. Os pacientes diziam que às vezes o médico nem olhava no rosto deles.
Essa prática está sendo deixada de lado.
Agora, a consulta demora de 20, 30, 40 minutos, permitindo ao médico fazer realmente uma avaliação clínica do pacientes, discutir e prescrever o tratamento.
É justamente a clínica que permite a criação do vínculo médico-paciente.
E se isso acontece, é maior a possibilidade de o paciente seguir as recomendações e retornar à reconsulta. Consequentemente, maior possibilidade de sucesso do tratamento em relação à queixa apresentada.
2. Prescrição mais criteriosa de medicamentos
A pesquisa realizada em Novo Hamburgo revela que os profissionais do Mais Médicos dão menos remédios por receita do que fora do programa.
E quanto menos medicamentos, menor o risco de danos colaterais e maior a possibilidade de o paciente seguir o tratamento recomendado.
3. Aumento das imunizações que não fazem parte das campanhas de vacinação
Por exemplo, a vacina contra a febre amarela, recomendada para quem mora ou vai viajar para áreas de risco da infecção.
Em Novo Hamburgo, o pico coincidiu com a chegada do Mais Médicos.
Isso tem muito a ver com a maior atenção na consulta e no enfoque da prevenção de doenças. Afinal, faz parte uma consulta bem feita, o médico perguntar a todo paciente se está em dia com as vacinas.
SE AÉCIO TIVESSE SIDO ELEITO, MAIS MÉDICOS ACABARIA; IMPOSSÍVEL SEM OS CUBANOS
Não é à toa que, quando questionadas por mim, Conceição Lemes, sobre a hipótese do fim do Mais Médicos e os cubanos irem embora, Jaci, Emília e Rosilene foram taxativas: “De jeito, nenhum!”
Rosilene, mãe de quatro filhos, argumenta: “Todos nós só ganhamos com a vinda deles. Eu acho que eles deveriam ficar aqui para sempre”.
Não é o que aconteceria se Aécio Neves, candidato do PSDB à presidência, tivesse ganhado as eleições.
Explico.
Em julho, durante ato, em Brasília, na Associação Médica Brasileira (AMB), quando recebeu apoio de representantes da entidade, Aécio afirmou, sob os aplausos: “Os cubanos têm prazo de validade, ficarão aqui por três anos.
O número de médicos existentes hoje no Brasil é insuficiente para atender às necessidades do país.
Novos cursos de Medicina estão sendo abertos. Porém, como a formação é demorada – 6 anos de graduação, mais 2 ou 3 de Residência Médica –, esses novos médicos só estarão disponíveis no mercado por volta de 2022.
Cuba é o único país do mundo que forma grande número de médicos. Os cubanos estão sendo fundamentais na epidemia de ebola, na África.
Consequentemente, sem os cubanos é impossível manter o Mais Médicos. Haveria um hiato entre os médicos que estão se formando aqui e as necessidades da população brasileira.
Novo Hamburgo é a prova. Sem o programa, no mínimo 12 mil consultas por mês deixariam de ser feitas, retardando  a sequência de atendimento.
Repercutiria, aliás, em todo o Rio Grande do Sul, onde 76% dos municípios aderiram aos Mais Médicos, que hoje chega a pessoas que antes não tinham acesso à assistência médica: populações rurais, indígenas, de assentamentos dos trabalhadores sem terra, quilombolas, periferias das grandes cidades, pessoas atingidas por barragens.
“O Mais Médicos está democratizando o acesso à assistência médica como nunca se viu antes no país”, avalia Bolzan.
“Contudo, por má-fé ou motivos político-ideológicos, dirigentes de entidades médicas continuam difundindo informações equivocadas. Pena que eles tenham uma visão corporativa tão limitada, a ponto de relegar a saúde da população a segundo plano.”
Em tempo 1: Convictamente. durante anos e anos, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Médica Brasileira (AMB) bateram na mesma tecla: no Brasil não havia falta de médicos, mas má distribuição deles pelo país.
O Mais Médicos provou que essa afirmação era corporativista e não baseada em evidências científicas: no Brasil, os médicos estão mal distribuídos, sim, mas também faltam muitos profissionais.
O primeiro especialista a mostrar a realidade foi o professor Mílton de Arruda Martins, titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina (FMUSP), em entrevista, aqui no Viomundo.
Em tempo 2: Como repórter especializada na área de saúde há 34 anos e usuária do SUS, observo que, no Brasil, a prática da clínica médica é cada vez menos valorizada, prejudicando os pacientes. Há médicos que sequer ouvem direito as queixas dos doentes. Nesse particular,acredito eu, muitos profissionais brasileiros têm a aprender com os cubanos.
Em tempo 3: Se a presidenta Dilma Rousseff  teve a ousadia de bancar o Mais Médicos – afinal, quem precisa de assistência médica, não pode esperar a solução ideal, que é a criação da carreira de Estado –, Novo Hamburgo tem a sorte de contar com um secretário da Saúde exemplar.
Luiz Carlos Bolzan é competente, ótimo gestor, humano e ético. Além disso tudo, 100% comprometido com o SUS, ao contrário de uns e outros que se fantasiam de “susetes” para ficar bem na fita com o pessoal da saúde pública.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O Dia da Vergonha - No Ceará a xenofobia veste branco - Rosemberg Cariri - Cineasta Cearense



(Este texto é dedicado ao Dr. Luiz Teixeira Neto e à memória do Dr. Caetano Ximenes de Aragão, dois médicos-poetas e humanistas, que muito me ensinaram da vida e da solidariedade).

Um choque profundo, uma sensação de mal-estar, uma vontade de vomitar... Algo me atingiu em cheio, acho que não no corpo, mas no espírito. Não posso precisar o que senti naquele momento, em que vi, pela TV, o constrangimento que alguns médicos cearenses infligiram aos aqui aportados médicos estrangeiros, em franca ação de hostilidade. Esses senhores, vestidos de branco, em nome dos seus interesses corporativos e econômicos, fizeram um espécie de “corredor polonês”, por onde os médicos estrangeiros, que vieram para trabalhar pela saúde da população, nos mais distantes e miseráveis rincões do país, foram obrigados a passar, entre vaias e xingamentos. Talvez o melhor termo para traduzir o que senti seja a palavra VERGONHA. Acreditem, fui acometido de uma profunda vergonha, ao ver um ato de tamanha hostilização e incivilidade acontecer na minha terra, sob a tutela do Sindicato dos Médicos do Ceará. Pensei comigo: chegamos ao fundo do poço!

Posso compreender toda a mística que se faz em torno do “Ceará Moleque” e do sentido cultural do uso da vaia, ao longo de toda a nossa história. Porém, se ser “Ceará Moleque” é vaiar médicos estrangeiros, afasto-me por inteiro de sua valia como modo de expressão, porque isto me cheira muito mais a xenofobia e a fascismo. Quanto ao significado deste ato, como ação política, podem os senhores sindicalistas ter a certeza de que atraíram para si o desprezo de milhões de cearenses e de brasileiros. Em todo canto deste imenso Brasil, nos últimos dias, não se comenta outra coisa, a não ser esta atitude vergonhosa.

Eu sou de um tempo em que os médicos eram conhecidos pela civilidade, pela erudição, pelo humanismo, pelo saber profundo que nascia de uma vocação, do ser e do construir-se na vida dentro de uma comunidade de destinos. A maioria destes médicos de boa cepa, pois, além de grandes profissionais, eram ainda homens que cultivavam as artes, que sabiam filosofia, que refletiam sobre a vida e o destino da humanidade, colocando a ética como um bem supremo.

Eram homens sábios, homens de tal grandeza, dos quais as comunidades se orgulhavam, chegando a nomear ruas e praças para que as futuras gerações deles se lembrassem, quando eles deixavam o nosso convívio. Quem na vida não conheceu um desses médicos, também escritores, poetas ou filósofos, com os seus ensinamento de caráter iniciático na vida e nas artes? Quem poderia imaginar um médico desta envergadura espiritual vaiando um colega estrangeiro, em um ato cheio de ódio e xenofobia? Impossível imaginar!

Mas o que acontece hoje? No Ceará, alguns médicos hostilizam, de forma escandalosa, estrangeiros com ameaças e xingamentos. É bem possível, que as universidades, sobretudo as universidade e faculdades particulares, fábricas de lucro e de técnicos destituídos de cultura e de humanismo, estejam produzindo estes “monstrinhos vestidos de branco”, analfabetos de qualquer humanismo, incapazes de ler a dimensão humana de um romance de Dostoievsky ou a metafísica de um conto de Guimarães Rosa. Falar em Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, Gilberto Freire, Graciliano Ramos ou Euclides da Cunha, perto deles, é falar em javanês. Pobres médicos-tecnocratas, jogados a um convívio viciado e naturalizado com a indústria farmacêutica, quantas vezes submetidos aos grandes laboratórios que, em nome do lucro e da ganância capitalista, erguem o seu reinado da morte, travestidos de tecnologias arrojadas e mascarados de patentes.

Quando vi estes jovens médicos, feito moleques incultos e incivilizados, vaiando e xingando os seus colegas estrangeiros de profissão, pensei comigo mesmo: esperem, mas não somos todos netos de estrangeiros? Não vivemos em um país que nasceu de um grande encontro de povos e culturas? Não é esta a grande característica do nosso país? Não é a generosidade e a hospitalidade o nosso maior tesouro? A cena brutal e humilhante imposta aos médicos estrangeiros, fez-me imaginar os nossos avós estrangeiros sendo vaiados, forçados a passar pela humilhação do xingamentos e do preconceito, nos corredores poloneses armados pelos “reacionários nacionalistas” da época (filhos também de estrangeiros).

Não devíamos receber estes irmãos cubanos, espanhóis, portugueses, ucranianos, venezuelanos, mexicanos e de tantos outros países, com água de coco e maracatu? Não devíamos recebê-los ao som de violas e rodas de coco? Não deveríamos aplaudir aqueles que quisessem ficar e ajudar na construção da grande nação, da mesma forma que fizeram os nossos avós, que aqui chegando, casaram-se com gente de todas as raças e nos fizeram mestiços e multiculturais? Não somos nós os herdeiros de mil e um povos e de mil uma culturas?

O que aconteceu no Ceará neste triste episódio ficará registrado nos anais da nossa história como o Dia da Vergonha, o dia em que o fascismo triunfou sobre a solidariedade e a universalidade que tem marcado, por definição cultural, o espírito do povo cearense e brasileiro.

Acredito que os médicos cearenses, humanistas e éticos, farão uma “Carta de Desagravo”, pedindo desculpas aos colegas estrangeiros que aqui chegaram. Da minha parte, como cidadão cearense, torno público que não compartilho com esta vileza e, em meu próprio nome, peço desculpas aos médicos estrangeiros hostilizados, acreditando que este pedido de desculpas é o pedido de milhões de cearenses e de brasileiros que padecem nos mais profundos sertões, praias, florestas e montanhas, sem médicos e solidariedade nenhuma por parte daqueles que deviam ter como missão o sagrado dever do amor e da solidariedade, acima da sede do lucro e da ascensão social.

Para concluir este meu simples ato de indignação, cito um fato cotidiano. Discutia o grave acontecimento com um motorista de táxi e dizia a ele que iria escrever sobre o assunto. Do alto da sua sabedoria, o motorista de táxi, aconselhou-me: “Escreva não. Um dia o senhor pode chegar em um hospital, cair nas mãos de um deles e eles podem desligar os aparelhos”. Eu que preparava-me para fazer duras acusações contra os “vândalos vestidos de branco”, terminei defendendo-os, quando de pronto respondi: “Nisto eu não posso acreditar! Sei sim, que estes médicos que hostilizaram os médicos estrangeiros, com vaias e xingamentos, agem como moleques, como xenófobos pequeno-burgueses e corporativistas, mas não acredito que as faculdades de medicina do meu país estejam também forjando potenciais assassinos”. Acreditar nisto seria descrer não apenas da medicina, mas da sua deontologia, como princípio e garantia de regulação ética das normas que regulam esta profissão, cunhada, desde os seus primórdios, para proteger e salvar a vida humana.

De qualquer forma, cito o fato, para que estes equivocados “médicos-moleques” saibam qual o conceito que terminaram por cravar no coração das pessoas, com tal espetáculo público de despreparo profissional.

(Escrito por Rosemberg Cariry, cineasta. Fortaleza – Ceará, 27 de agosto de 2013).

domingo, 25 de agosto de 2013

PORTUGAL TAMBÉM PROTESTA, MAS PARA MANTER MÉDICOS CUBANOS - Brasil 247


PORTUGAL TAMBÉM PROTESTA, MAS PARA MANTER MÉDICOS CUBANOS



No momento em que governo brasileiro enfrenta revolta da classe médica contra a contratação de médicos do país de Fidel Castro, portugueses lutam para mantê-los. Até o presidente da Ordem dos Médicos de Portugal, reconhece:“Naturalmente os cidadãos que receberam os médicos estrangeiros ficaram satisfeitos, porque passaram a ter um médico”



22 DE AGOSTO DE 2013 ÀS 08:23





247 – O governo de Dilma Rousseff anunciou ontem a contratação de 4 mil médicos cubanos. A inciativa levanto ainda mais polêmica na classe médica. O Conselho Federal de Medicina (CFM) classificou como "eleitoreiro, irresponsável e desrespeitoso" o anúncio pelo Ministério da Saúde. Para a entidade, a medida agride direitos individuais, humanos, do trabalhador e ainda expõe a saúde da população a situações de risco. "É uma irresponsabilidade trazer médicos de fora, sejam cubanos, sejam brasileiro formados no exterior, sem a devida verificação da competência técnica", avaliou Roberto d'Ávila, presidente do CFM.

Enquanto isso, em Portugal, população também protesta, mas para manter esses profissionais no país. Leia mais na notícia do blog Tijolaço:

Em Portugal, médicos cubanos são um problema. Ninguém quer que eles se vão

Se o caro amigo internauta fizer uma pesquisa rápida no Google verá que o que pode acontecer aqui no Brasil, no futuro, com os médicos cubanos que o Governo Federal está trazendo para atuar em municípios onde não há profissionais brasileiros dispostos a atuar.

Os problemas não são de incapacidade profissional ou de dificuldade de comunicação.

São que os contratos firmados pelo governo português estão acabando e alguns deles terão de ir embora, para desespero das populações e dos prefeitos do Alentejo, do Algarve e do Ribatejo, regiões pobres que estão ameaçadas de ficarem, outra vez, sem médicos.

O portal SulInformação noticia:

Os cinco médicos cubanos que prestavam serviço de consultas no concelho de Odemira terminaram os seus contratos e regressaram ao seu país, deixando mais de 14 mil utentes sem médico de família.

Esta situação, segundo denuncia, em comunicado, a Câmara Municipal de Odemira, «está a provocar a rotura dos serviços médicos em Odemira, S. Teotónio, Sabóia e Vila Nova de Milfontes e o descontentamento da população e da autarquia, que têm vindo a expressar o seu descontentamento junto dos responsáveis locais, regionais e governamentais sem qualquer sucesso».

A autarquia sublinha, no comunicado a que oSul Informação teve acesso, que no litoral Alentejano prestavam serviço 16 médicos cubanos, cinco dos quais no concelho de Odemira e não foram substituídos, isto apesar de há alguns meses os autarcas terem sido alertados pela direção do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Litoral Alentejano para a necessidade de garantir a substituição dos médicos cubanos que terminavam contrato no final do ano de 2011.

As prefeituras são as maiores defensoras do trabalho dos profissionais cubanos, pelos trabalhos pró-ativos de saúde pública que realizam.

Até o presidente da Ordem dos Médicos de Portugal, apesar da cantilena de que os médicos estrangeiros são “superiores” em qualidade profissional, reconhece:

“Naturalmente os cidadãos que receberam os médicos estrangeiros ficaram satisfeitos. Porque até aí não tinham médico e passaram a ter. Não com as competências adequadas e desejáveis, mas passaram a ter um médico”

Pois é, né, doutor…

Agora, para quem quiser se aprofundar mais no “choque cultural” representado pelos médicos estrangeiros em Portugal, recomendo a leitura de um trabalho de duas sociólogas e uma psicóloga na Revista Iberoamericana de Salud y Ciudadanía,coordenada pela Universidade do Porto.

Ali, são ouvidos médicos cubanos, espanhóis e colombianos que foram trabalhar em Portugal e que falaram sobre essa experiência. Trascrevo apenas um pequeno depoimento, de uma médica uruguaia que está por lá:

Tú tienes que tener un segundo para mí, dos minutos aunque sea de
camino, de acercarte al primer familiar que está y decirle „señora, está
así, hicimos esto, la cosa está así, lo voy a llevar a tal hospital,
quédese tranquila, yo lo voy a acompañar‟. Es lo mínimo. Los
médicos portugueses, entran, salen, meten el tipo y se van. Yo al
principio decía „pero esto es inhumano!‟ […] Yo hablo con los
familiares. Eso les llamó mucho la atención a los enfermeros y a los
TAE [Técnicos de Ambulância de Emergência], yo siempre busco un
minuto […]. Hay cosas que son de sensibilidad humana porque el
paciente no es una cosa o un objeto. (E2, médica uruguaia)
Talvez tenhamos alguma coisa a aprender por aqui, não é?

Por: Fernando Brito

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