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domingo, 25 de agosto de 2013

"Bem-vindos, colegas cubanos". Artigo do Dr.Manoel Dias da Fonsêca Neto - Médico


Quem disse que por ser médico é preciso compactuar com a elitização, o corporativismo, a mercantilização da vida e a insensibilidade diante da população mais pobre? Nada disso. Como demonstraram os brasileiros inscritos, e os médicos que apoiam o programa - ainda que defendam mudanças - é possível remar contra a corrente. Minha esperança é que os profissionais humanistas percebam o erro de se deixar dirigir pela direita e compreendam que o Mais Médicos é uma mudança muito importante, que inspirará uma verdadeira mudança na saúde brasileira. Vejam esse artigo, por exemplo, de um médico cearense.

"Bem-vindos, colegas cubanos". (Artigo do Dr.Manoel Dias da Fonsêca Neto - Médico, Especialista em Saúde Pública e Mestre em Gestão de Sistemas Locais de Saúde)

"Estive em Cuba em 1986, junto com uma centena de brasileiros, para participarmos do I Seminário Internacional em Atención Primaria de La Salud, promovido pela Organização Panamericana de Saúde(OPS), Organização Mundial da Saúde(OMS) e Ministério de Saúde Pública de Cuba. Há quase 30 anos o Programa de Saúde da Família de Cuba era o destaque deste Seminário Internacional, exemplo de estratégia de incorporação de baixa densidade tecnológica, centrada na pessoa humana, na família e no vinculo permanente de uma equipe com a população de um território, com resultados significativos na melhoria de indicadores de saúde. Qual era o segredo desta estratégia? Os médicos cubanos aprendiam o que os nossos mestres Dr. Paulo Marcelo, Dr. Elias Salomão, Dr. Oto, Dr. Pessoa, Dr Haroldo Juaçaba nos ensinavam: ouvir o paciente e sua história familiar, examiná-lo, palpá-lo, auscultá-lo, observando sinais e sintomas, fazer, enfim, uma anamnese e exame clínico detalhado e sistemático. Respeitando o ser humano que nos procura em sofrimento, a sua individualidade, com ética e humanismo. Os médicos cubanos são excelentes médicos de família e vêm aperfeiçoando o seu conhecimento há 30 anos. Os brasileiros estarão em muito boas mãos aos seus cuidados. Fico muito triste ao presenciar expressões de xenofobia e até etnofobia, arrogância, preconceito e agressividade de presidentes de alguns CRMs, do CFM e AMB contra médicos estrangeiros, especificamente cubanos. Xenofóbico é quem demonstra temor, aversão ou ódio aos estrangeiros. Será que esta não é uma forma camuflada de expressar aversão ou ódio aos pobres do Brasil? Por que tememos os médicos cubanos? Porque são disciplinados e cumprirão a carga horária contratada? Porque são excelentes médicos de família e cuidarão com carinho, respeito e sabedoria do nosso povo. Porque se fixarão num só emprego e dedicarão todo o seu tempo às famílias sob sua responsabilidade? Espero que nossos colegas médicos cubanos e demais estrangeiros não sejam hostilizados por senhores da “casa grande e senzala” da modernidade e sejam acolhidos com simpatia e respeito, como fui por eles, quando estive em Cuba há 30 anos".

Manoel Dias da Fonsêca Neto
Médico, Especialista em Saúde Pública
Mestre em Gestão de Sistemas Locais de Saúde

“Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros dos colegas cubanos”, diz presidente do CRM/MG - BHAZ


A contratação de médicos estrangeiros pelo programa Mais Médicos, do Governo Federal, está longe de ter um final em que as duas partes – profissionais e União – cheguem a um acordo. A última grande polêmica gira em torno do anúncio da convocação de cubanos para atender no Brasil.

O Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais (CRM-MG) já entrou oficialmente na briga contra a medida. Na quinta-feira (22), o presidente da entidade, João Batista Gomes Soares, anunciou que pretende denunciar os cubanos por exercício ilegal da profissão, alegando que o governo autorizou a atividade dos médicos sem que eles passem pelo processo de revalidação do diploma estrangeiro e pelo exame de proficiência em língua portuguesa.

Em entrevista ao jornal Estado de Minas, publicada nesta sexta-feira (23), João Batista garantiu que, se o governo seguir em frente com as contratações, o impasse vai virar caso de polícia. “Se ouvir dizer que existe um médico cubano atuando em Nova Lima, por exemplo, mando uma equipe do CRM-MG fiscalizar. Chegando lá, será verificado se ele tem o diploma revalidado no Brasil e a carteirinha do CRM-MG. Se não tiver, vamos à delegacia de polícia e o denunciamos por exercício ilegal da profissão, da mesma forma que fazemos com um charlatão ou com curandeiro”, afirmou Batista.


Declarações do presidente do CRM/MG reforçam polêmica
em torno do Mais Médicos
Foto: Divulgação/Conselho Regional de Medicina

O presidente do CRM/MG ainda fez uma declaração polêmica. “Nossa preocupação é com a qualidade desses médicos, que são bons apenas em medicina preventiva, não sabem tirar tomografia. Vou orientar meus médicos a não socorrerem erros dos colegas cubanos”, disse.

O Conselho Federal de Medicina (CFM) também considera a adoção do programa eleitoreira, irresponsável e desrespeitosa.

Conselho ameaça profissionais que trabalham no “Mais Médicos” - Blog Tijolaço





Conselhos ameaçam profissionais que trabalham no “Mais Médicos”

O Conselho Federal e os regionais de Medicina estão ameaçando com processos ético-profissionais e com punições (que podem, no caso, chegar à suspensão do registro e do direito de clinicar) os médicos do serviço público que integrarem como gestores ou supervisores de profissionais estrangeiros.



Com o claro intuito de provocar o medo entre os médicos do serviço público que participam ou dirigem programas oficiais do Governo que utilizarem médicos estrangeiros, um e-mail do CFM, que está sendo repassado pelos Conselhos Regionais diz que “tais médicos estão passíveis de processos e penalizações de caráter ético-profissional, civil e criminal pelos atos praticados por participantes e intercambistas do Programa Mais Médicos”.

Reproduzo o e-mail que me foi enviado por um médico, chocado com a atitude intimidatória que sua entidade profissional está assumindo.

Notem que o texto não apenas exige o Revalida, mas que este seja nos seus moldes atuais.

Não aceita, portanto, o exame destes profissionais estrangeiros previsto para se realizar, a partir da semana que vem, em universidades federais brasileiras.

Apenas para lembrar, se o exame realizado pelo Cremesp, o conselho paulista, tivesse a aprovação como condicionante do registro profissional, 54,5% dos formados em medicina no Estado de S. Paulo – reprovados no teste – não poderiam clinicar.

Os conselhos de medicina precisam refletir no que estão fazendo. Vão jogar a população contra os médicos, que em sua enorme maioria são trabalhadores preocupados em atender corretamente a população.

Não podem se deixar levar pela elite da corporação médica, encastelada em suas clínicas particulares, nem por grupos imaturos de médicos jovens – aquele pessoal do “somos ricos, somos cultos” – que só vê na profissão o resultado financeiro que pretende.

Agindo com este furor e sem ponderação – ponderação, cautela e vagar que nunca lhes falta na hora de punir médicos desidiosos com a população, como aqueles da fraude do ponto com dedos de silicone, que continuam, quatro meses depois, com seus CRM ativos – vai provocar inevitavelmente a percepção, pela população mais pobre que seu dito interesse pela qualidade da medicina só tem importância quando defende suas conveniências.

Por: Fernando Brito

O “Dr. Puliça” de Minas está prejudicando os colegas… - Blog Tijolaço



A manchete do Estado de Minas, hoje, é a reação “prendo e arrebento” do Dr. João Batista Gomes, presidente do Conselho Regional de Medicina mineiro.

Ele diz que não quer nem saber: onde estiver um médico cubano, vai com a “puliça” e prende por charlatanismo…

O doutor não está nem aí com a população de Alpercata, Alvorada de Minas, Camacho, Capitão Andrade, Cedro do Abaeté, Córrego Novo, Desterro do Melo, Divinésia, Fernandes Tourinho, Gonzaga, Ibituruna, Imbé de Minas, Inimutaba, Itaverava, Marliéria, Munhoz, Naque, Nova Módica, Novorizonte Paiva, Paulistas, Pescador, Pingo-d’Água, Piracema, Queluzito, Rio Doce, Rio Manso, Santa Helena de Minas, Santana do Jacaré, Santana dos Montes, Santa Rosa da Serra, Santo Antônio do Itambé, Santo Hipólito, São Domingos das Dores, São Félix de Minas, São Francisco do Glória, São Geraldo do Baixio, São João da Lagoa, São João da Mata, São José do Mantimento, São Sebastião do Rio Preto, Senador Cortes, Serra da Saudade, Serra dos Aimorés, Taparuba, Tapiraí, Tumiritinga, Turvolândia, Vermelho Novo, Vieiras, Wenceslau Braz, os 50 municípios mineiros que, conforme publicou a Folha, em 2008, não tinham sequer um médico morando lá.

O Doutor também deveria ler o que publica nesta sexta o jornal Hoje em Dia, falando que os prefeitos do interior vão ter de aumentar os salários dos médicos de suas prefeituras, porque o Mais Médicos vai pagar mais do que pagam aos seus colegas.

Sim, porque o salário oferecido pelos Mais Médicos é maior do que muitos dos que se oferecem aos médicos mineiros, em vários casos sem férias ou décimo-terceiro.

E sem contar o fornecimento de casa para morar.

Quer a prova?

É só ir ver as ofertas de emprego no site do próprio CRM-MG que se vai encontrar a realidade dos salários médicos.

Eu reproduzi só alguns, para ilustrar, maso endereço está aqui.

Para isso o senhor vai chamar a “puliça”, Doutor?Por: Fernando Brito


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PORTUGAL TAMBÉM PROTESTA, MAS PARA MANTER MÉDICOS CUBANOS - Brasil 247


PORTUGAL TAMBÉM PROTESTA, MAS PARA MANTER MÉDICOS CUBANOS



No momento em que governo brasileiro enfrenta revolta da classe médica contra a contratação de médicos do país de Fidel Castro, portugueses lutam para mantê-los. Até o presidente da Ordem dos Médicos de Portugal, reconhece:“Naturalmente os cidadãos que receberam os médicos estrangeiros ficaram satisfeitos, porque passaram a ter um médico”



22 DE AGOSTO DE 2013 ÀS 08:23





247 – O governo de Dilma Rousseff anunciou ontem a contratação de 4 mil médicos cubanos. A inciativa levanto ainda mais polêmica na classe médica. O Conselho Federal de Medicina (CFM) classificou como "eleitoreiro, irresponsável e desrespeitoso" o anúncio pelo Ministério da Saúde. Para a entidade, a medida agride direitos individuais, humanos, do trabalhador e ainda expõe a saúde da população a situações de risco. "É uma irresponsabilidade trazer médicos de fora, sejam cubanos, sejam brasileiro formados no exterior, sem a devida verificação da competência técnica", avaliou Roberto d'Ávila, presidente do CFM.

Enquanto isso, em Portugal, população também protesta, mas para manter esses profissionais no país. Leia mais na notícia do blog Tijolaço:

Em Portugal, médicos cubanos são um problema. Ninguém quer que eles se vão

Se o caro amigo internauta fizer uma pesquisa rápida no Google verá que o que pode acontecer aqui no Brasil, no futuro, com os médicos cubanos que o Governo Federal está trazendo para atuar em municípios onde não há profissionais brasileiros dispostos a atuar.

Os problemas não são de incapacidade profissional ou de dificuldade de comunicação.

São que os contratos firmados pelo governo português estão acabando e alguns deles terão de ir embora, para desespero das populações e dos prefeitos do Alentejo, do Algarve e do Ribatejo, regiões pobres que estão ameaçadas de ficarem, outra vez, sem médicos.

O portal SulInformação noticia:

Os cinco médicos cubanos que prestavam serviço de consultas no concelho de Odemira terminaram os seus contratos e regressaram ao seu país, deixando mais de 14 mil utentes sem médico de família.

Esta situação, segundo denuncia, em comunicado, a Câmara Municipal de Odemira, «está a provocar a rotura dos serviços médicos em Odemira, S. Teotónio, Sabóia e Vila Nova de Milfontes e o descontentamento da população e da autarquia, que têm vindo a expressar o seu descontentamento junto dos responsáveis locais, regionais e governamentais sem qualquer sucesso».

A autarquia sublinha, no comunicado a que oSul Informação teve acesso, que no litoral Alentejano prestavam serviço 16 médicos cubanos, cinco dos quais no concelho de Odemira e não foram substituídos, isto apesar de há alguns meses os autarcas terem sido alertados pela direção do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Litoral Alentejano para a necessidade de garantir a substituição dos médicos cubanos que terminavam contrato no final do ano de 2011.

As prefeituras são as maiores defensoras do trabalho dos profissionais cubanos, pelos trabalhos pró-ativos de saúde pública que realizam.

Até o presidente da Ordem dos Médicos de Portugal, apesar da cantilena de que os médicos estrangeiros são “superiores” em qualidade profissional, reconhece:

“Naturalmente os cidadãos que receberam os médicos estrangeiros ficaram satisfeitos. Porque até aí não tinham médico e passaram a ter. Não com as competências adequadas e desejáveis, mas passaram a ter um médico”

Pois é, né, doutor…

Agora, para quem quiser se aprofundar mais no “choque cultural” representado pelos médicos estrangeiros em Portugal, recomendo a leitura de um trabalho de duas sociólogas e uma psicóloga na Revista Iberoamericana de Salud y Ciudadanía,coordenada pela Universidade do Porto.

Ali, são ouvidos médicos cubanos, espanhóis e colombianos que foram trabalhar em Portugal e que falaram sobre essa experiência. Trascrevo apenas um pequeno depoimento, de uma médica uruguaia que está por lá:

Tú tienes que tener un segundo para mí, dos minutos aunque sea de
camino, de acercarte al primer familiar que está y decirle „señora, está
así, hicimos esto, la cosa está así, lo voy a llevar a tal hospital,
quédese tranquila, yo lo voy a acompañar‟. Es lo mínimo. Los
médicos portugueses, entran, salen, meten el tipo y se van. Yo al
principio decía „pero esto es inhumano!‟ […] Yo hablo con los
familiares. Eso les llamó mucho la atención a los enfermeros y a los
TAE [Técnicos de Ambulância de Emergência], yo siempre busco un
minuto […]. Hay cosas que son de sensibilidad humana porque el
paciente no es una cosa o un objeto. (E2, médica uruguaia)
Talvez tenhamos alguma coisa a aprender por aqui, não é?

Por: Fernando Brito

Quem será atendido pela primeira seleção do #MaisMédicos? Conheça mais


Conheça o perfil dos médicos cubanos que vem ajudar o Brasil - #MaisMédicos


Vídeo denúncia: Nem todo médico é igual. Há humanistas e elitistas. Humanistas, juntem-se ao povo!




O exemplo acima visa somente a explicitar como é importante que os médicos humanistas assumam uma postura que não aceite a direção de quem não merece representá-los, assim como não devem conciliar com os maus comportamentos de profissionais indignos de estar na categoria. De modo algum creio que isso seja a expressão da totalidade dos médicos.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O Programa Mais Médicos e as mensagens do corporativismo à população - Paulo Vinícius Silva

As mudanças sociais profundas demandam uma grande luta, cuja expressão na forma dos valores é decisiva. Em muitas batalhas, até para além de campos políticos, os valores humanistas, a solidariedade e o compromisso com o povo e o país fazem toda a diferença. E, claro, a opção que fazemos define quem somos. Infelizmente, a sociedade burguesa mercantiliza tudo. E as nossas vidas, a nossa dor, a nossa saúde, e de nossos entes mais queridos também submergem nesse rodamoinho do capital. É assustadora a nossa fragilidade diante desse escândalo.

Nem sempre a juventude é avançada. Como categoria policlassista, tem embutida em si a divisão que caracteriza as sociedades marcadas pela exploração dos seres humanos pelos seres humanos através dos interesses de classe. Assim, e por isso mesmo, a militância de esquerda na juventude, em especial se revolucionária, busca aproveitar essa fase de transição na vida para marcá-la indelevelmente com os valores do humanismo, da solidariedade, da indignação contra a injustiça, do amor pelos oprimidos. As forças dominantes tem uma enormidade de meios que se somam para incorporar a juventude ao discurso da ordem: é a juventude após o fim do socialismo europeu, marcada pela negação da política como projeto coletivo, pelo individualismo, o hedonismo, o consumismo, a negação das organizações coletivas como partidos e sindicatos.

Para além de manter acesas na juventude as chamas da revolução, é preciso mostrar-lhe a opção pela sua classe na sua constituição como adultos. Quando essa força juvenil se encontra com o povo, a sua contribuição poderá brilhar e aquecer por toda a vida. E, dentre todas as profissões, qual poderia fazê-lo com o poder da medicina?

Nos últimos meses, creio que tem havido uma batalha quanto ao sentido da saúde e da medicina, em torno do programa Mais Médicos. Penso que a questão central no debate não pode ser obnubilada pelas críticas: é preciso ter médicos em todas as unidades públicas, em todo o país, para democratizar a saúde, em especial para os mais pobres. 

Diante dessa consigna, no entanto, foram tantos óbices e oposições que o tema central parece ter perdido importância. Mas não. E, a despeito das pretensões iluminadas da nossa classe mérdia, a população entende-o perfeitamente. As mães e pais com seus filhos o entendem, e também os filhos, com seus pais idosos e doentes. O povo sabe o que é a dor sem remédio. O descuido no atendimento que limita para sempre. O trabalhador sabe o que é a insensibilidade do perito médico. O povo sabe o que é perder um ente querido por não haver remédio, atendimento, nem consolo, nem dignidade.

Por isso, acredito que as ações dos conselhos e sindicatos - não todos, espero, mas duvido - de Medicina e seus impactos sobre a sua base, na mobilização contra o programa Mais Médicos, foram imenso desserviço à categoria. Acho que eles não entendem isso. Não percebem, mas o povo os olha de modo distinto daquela sacralidade atribuída ao médico, a quem se confia tanto sobre nossas vidas, e muitas vezes com tantas decepções. Acho que a categoria entrou num beco sem saída quanto aos valores que tradicionalmente encarna diante da opinião pública.

Dos problemas da saúde o povo já sabe. Talvez não soubesse do extremo corporativismo, da insensibilidade social, do sentido de elite e do conluio com a medicina privada. No fim das contas, o que fica é que a Dilma tentou levar os médicos aos mais pobres e necessitados, e a maioria da juventude formada nas escolas de medicina com o dinheiro público e seus mestres, em vez de se somar a esse esforço, propor melhoras que cumprissem o que o povo demanda, acabaram fazendo o pior:

1) Disseram claramente, "o problema da saúde não é nosso". Invista, mude tudo e depois a gente conversa. Poderiam, ao inverso, ser parte da mudança, mas não. Curiosamente, nem uma palavra sobre o comércio da vida e da saúde, e o impacto dos interesses econômicos. Curioso.
2) Explicitaram um padrão profissional que a gente já conhece. Interesses tão claramente privados e de elite que colocam a urgência de democratizar socialmente os cursos de medicina e o currículo. A universidade pública, infelizmente, forma gente com esse nível de compromisso com o Brasil e o povo. Para que formar os filhos da elite, de costas para o povo, na universidade pública?
3) Declararam tão enfaticamente que não podem fazer nada, desmerecendo a sua profissão e também mentindo. Os fatos o provarão, quando os profissionais estrangeiros (que vergonha, né?) chegarem nas periferias e, defrontados com os problemas, darão um mapa ainda mais preciso do que deve ser mudado, e eles mesmos, em contato com o povo, minorarão muita dor e sofrimento, darão esperanças e ajudarão à consciência do direito à saúde que abrirá novos caminhos.
4) Apesar dos médicos (as) bons na sua técnica, faltam aqueles dedicados ao povo, corajosos. O que fica, infelizmente, é essa generalizada percepção da falta de compromisso, da insensibilidade, do individualismo, do carreirismo que tão grotescamente marcou a geração que nasceu sobre o neoliberalismo.
5) Mostraram que estão dispostos à sabotagem, à aliança com a direita e a imprensa golpista, a qualquer coisa, exceto ir atender o povo pobre e isolado.  Nem vão, nem querem que se vá. É o cúmulo.
João Carlos Haas Sobrinho, o Doutor Juca, enfrentou clandestinidade, falta de recursos, mas venceu, sendo amado pelo povo do Araguaia por seu exemplo profissional e humano.

É muito triste. Poderia ser outro o quadro. A Dilma tem erros, com certeza, e também o programa. Mas o sentido avançado da iniciativa - levar médicos a todo país acabando com a discriminação social e regional, enfrentar o problema -  poderia ter gerado outra reação, uma mobilização de médicos militantes a favor do SUS e por um imenso Projeto Rondon de médicos. Poderiam ter-se Inspirado nos exemplos de um Che, no leprosário de San Pablo, em plena Amazônia peruana. Ou de um João Carlos Haas sobrinho, jovem médico, um menino branco de São Leopoldo-RS, que foi para a Guerrilha do Araguaia, e cujo carinho, atenção, solidariedade e capacidade em enfrentar adversidades marcaram tão profundamente a população, que até hoje rende-lhe homenagens. Pergunto-me, aonde foram parar os profissionais que se inspiram nesse tipo de exemplo. Por que não cumpriram papel nessa realidade?

Oxalá venham muitos médicos de Cuba Socialista. Essa minoria de médicos comprometidos com o povo e o país, brasileiros(as), com certeza precisa de ajuda, e, em especial, necessita-o a população abandonada. Mas o que fica claro é a urgência de mudar não apenas a saúde, o financiamento, mas os cursos, e quem está lá. E a necessidade de mudanças estruturais que coíbam o comércio de vidas que é a saúde privada. Pelo visto, há muitos médicos explorados, trabalhando horas a fio, plantões e plantões, tomando remédios, pirando, e ainda achando que são sócios desse grande negócio.

Bons profissionais num, sentido mais profundo, humanista, solidário, existem. Dedicados, gente de bem, anjos. Mas estão assim como as inscrições do programa Mais Médicos: uma minoria, a enfrentar o elitismo, o corporativismo, a insensibilidade social, os apelos do mercado, as manipulações da imprensa golpista e da direita para sabotar qualquer iniciativa de Dilma. Fica a impressão de claro descompromisso com o que deveria ser o verdadeiro objetivo da medicina, objetivo revolucionário que une salvar vidas e contribuir com o fim das injustiças sociais, um papel de vanguarda nas mudanças da saúde no Brasil cujo potencial revolucionário eles nem entenderam. Ou pior, entenderam sim, e claramente disseram: afasta de mim esse cálice.

João Carlos Haas Sobrinho, um herói brasileiro

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