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sexta-feira, 20 de março de 2015

Show de horrores Jandira Feghali *


Parte dos protestos de domingo (15) nos chocaram. A interminável lista de desaparecidos e mortos no combate à Ditadura logo me veio a mente ao assisti-los. De Abelardo Rausch Alcântara à Zuleika Angel Jones, milhares de brasileiros, a maioria comunistas, deram suas vidas pela liberdade. Até hoje mais de 400 nomes são lembrados pela perseguição do Regime.

Como bem destacou a presidenta Dilma Rousseff, em recente pronunciamento, a liberdade de expressão de hoje foi garantida por pessoas como ela. E isto deve ser valorizado e constantemente lembrado por todos nós.

Apesar do descontentamento de parte da sociedade com a crise econômica, que tem ausculta do Palácio do Planalto, há uma infinidade de equívocos registrados nos atos do final de semana. Que marcha democrática é essa que caminhou de mãos dadas com fascistas das mais variadas nuances? Que espécie de manifestação acolhe e divide o democrático espaço das ruas com um clamor pela ajuda dos militares? Atos em que até ex-agentes do DOPs discursam? Ideias atrasadas que ficaram pela História, mas que atualmente parecem ter saído das catacumbas do ostracismo ávidas por alijar nossos filhos e netos dos ares da liberdade.

Da Avenida Paulista à orla de Copacabana, nas inúmeras faixas espalhadas, o ódio em sua face mais colérica era mostrado. Misturados aos protestos, inflados pelo aparato midiático e o financiamento de grupos econômicos, faixas verde e amarelo pediam soluções que iam desde a morte de comunistas e o enforcamento de Lula e Dilma, ao retorno da Ditadura, com intervenção militar, o fechamento do Supremo Tribunal Federal. Vimos suásticas por todo o lado, além de frases em inglês, alemão e até italiano. Este, verdadeiramente, não é o Brasil.

A insatisfação social não pode desaguar neste tipo de retrocesso. O Brasil não pode se tornar palco de supostos líderes e golpistas, que usufruem de sua condição como oposição ao Governo para angariar espaço, poder e status. De forma oportunista, manipulam a informação para milhares de pessoas, aumentando o incômodo generalizado pela atual dificuldade econômica e a investigação em curso sobre os casos de corrupção.

A livre manifestação é bem-vinda, mas incorrer na instabilidade democrática não é porta de emergência. Pelo contrário, é o fim do poço. A população, de uma vez por todas, precisa se envolver com o debate político nacional e pressionar o Congresso Nacional pela aprovação de mudanças estruturantes. O Governo Federal também deve se perfilar pelo fim do financiamento empresarial nas campanhas eleitorais, medidas anticorrupção, a taxação de grandes fortunas e a preservação de direitos.

A defesa do mandato constitucional da presidenta Dilma Rousseff e o combate à corrupção deve ser feita por todos nós, assim como os trabalhadores e movimentos sociais fizeram no dia 13, ocupando com pautas concretas as ruas das capitais e também ostentando as cores de nossa bandeira, um símbolo de todos os cidadãos. A valorização e fortalecimento da Petrobras, por exemplo, e a reforma política ganharam corpo nos atos por serem essenciais para as mudanças que o povo brasileiro anseia.

O Governo precisa falar para toda a população, sem recuar, apresentando uma agenda concreta, positiva e ousada, clareando as perspectivas futuras, reacendendo a esperança e consolidando a verdadeira democracia. Nossa nação não pode ser obrigada a assistir cada vez mais as sanhas da extrema direita no asfalto, misturadas ao povo, numa marcha contra a memória de todos que um dia lutaram e morreram pela liberdade deste país. Basta desse show de horrores.



* Foi Deputada Estadual, está no quinto mandato de Deputada Federal, Secretária de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia de Niterói e Secretária Municipal de Cultura do Rio de Janeiro. Relatou a Lei Maria da Penha e atualmente lider do PCdoB na câmara dos deputados

domingo, 12 de julho de 2009

Relatos cearenses de Bergson, herói do Araguaia

Blog do Carvalho

Terça-feira, 7 de Julho de 2009

É o Bergson!

Ao poeta Drummond, em seu Poema De Sete Faces, a lua e o conhaque o botam comovido como o diabo. A mim, nesse dia de lua crescente a comoção veio por conta da identificação dos restos mortais do Bergson. Em maio falei aqui da minha alegria com a possibilidade de se confirmar a identificação "do respeitado líder estudantil cearense, que foi imolado na selva amazônica defendendo a liberdade, a justiça social, os direitos do povo, a soberania nacional, a democracia e o socialismo". No dia 21 de maio assisti a uma histórica sessão da Comissão de Wanda Sidou de Anistia do Ceará em que foi aprovada reparação do Estado do Ceará a Bergson por sua perseguição e morte. O presidente do PCdoB, Carlos Augusto Diógenes, o Patinhas, emocionou muitos ali presentes pela riqueza de detalhes e por revelar o quanto seu camarada de partido era querido por todos e como sua convicção revolucionária era sólida.
Bergson, se vivo fosse, teria hoje 62 anos, e com certeza estaria vivendo com muito entusiasmo a situação de avanço das forças progressistas no Brasil e na América Latina. Estaria eufórico vendo o seu glorioso partido em um novo patamar da luta política, atuando numa enorme diversidade de frentes, superando desafios de grande envergadura e respeitado por sua conduta coerente e aguerrida em todas as batalhas políticas. Essa notícia de hoje mexe com o nosso partido. Mesmo aqueles que ingressaram mais recentemente e nunca sequer ouviram falar dele e de outros heróis do Araguaia, de algum modo serão tocados por esse acontecimento histórico. Estamos vivendo o processo do 12º Congresso e espero que o exemplo de Bergson nos inspire em nosso sonho de amor Brasil.

Dentro de alguns dias Bergson estará de volta ao Ceará e nem consigo imaginar a repercussão que isso terá. Será um acontecimento com dimensões semelhantes ao retorno do Frei Tito de Alencar, quando um cortejo emocionando e cheio de fé na luta pela transformação do Brasil percorreu o centro de Fortaleza. Bergson voltará ao Ceará e aqui será acolhido por seus familiares, camaradas e amigos . Sua mãe, Dona Luzia, aos 90 anos, poderá finalmente velar o filho assassinado pela ditadura militar, mas jamais saiu da memória de todos que lhe dedicaram amor e carinho. Os amigos, e não são poucos, poderão se unir para lembrar as muitas histórias do estudante, do atleta e do amigo leal. Nós, seus camaradas, que nunca o esquecemos ou deixamos de lutar, ao lado de sua família, por sua identificação prantearemos sua memória, o envolveremos nas bandeiras vermelhas que carregamos em nossos corações e saberemos honrar seu exemplo.

Seja bem vindo, camarada Bergson Gurjão Farias, para nós aqui, ou Jorge, para aquele povo das selvas do Araguaia, que compartilhou seus últimos anos e dias de vida e viu sua inteira dedicação à libertação dos oprimidos e explorados.


Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Dia pra nunca esquecer

Gosto sempre de ilustrar com fotos, vídeos, desenhos ou algo do gênero as postagens que faço aqui, mas nada ilustra os cinquenta e poucos minutos que passei hoje, junto com o deputado Chico Lopes (PCdoB), no apartamento de Dona Luiza Gurjão Farias, mãe do Bergson. O que era apenas uma visita de cortesia do deputado comunista, como Bergson, acompanhado de seu assessor e dirigente do partido, virou um encontro cheio de emoções e surpresas.

Minha primeira surpresa foi ao ver que aquela senhora de 94 anos, lúcida e cheia de doçura, foi quem abriu a porta e foi logo dando um carão carinhoso na gente. "A Tânia (sua filha) esperou vocês até agora". Pronto, minha conclusão apressada gerou um curta frustração. Mas a fala pausada de Dona Luiza me tranquilizou: "Ela foi tomar um banho porque o calor tá demais". Alívio total. Eu, que pretendia combinar uma entrevista pro Portal Vermelho com a irmã do Bergson, temi que não conseguisse marcar o papo, saí de lá com muito mais do que desejei.

Dona Luiza, que sabia demais que o motivo da visita era a identificação de seu filho 37 anos depois de sua morte lutando na Guerrilha do Araguaia, nem esperou a filha chegar na sala e soltou uma afirmação que me comoveu logo. "O que me surpreendeu é que eu nunca desconfiei que o Bergson fosse do PCdoB. Eu dizia pra ele ter cuidado nas manifestações, que não fosse na frente porque podia aparecer um doido e agredir ele. Eu até gostava de ir naquelas passeatas e quando tinha confusão eu me escondia na Igreja do Patrocínio, ali na Praça José de Alencar. Mas o Bergson me enganou". Foi difícil, muito mais do que agora enquanto narro, segurar minha emoção. "Dona Luiza, o Bergson tava protegendo a família dele". Foi só o que consegui dizer.

A Tânia, num jeitão despachado que todo cearense autêntico tem, já veio falando antes de aparecer na sala. "Me disseram que vocês vinham a uma e meia e só agora (duas e meia da tarde) vocês chegam. Fui passar o calor". Eu já a tinha visto em várias ocasiões, mas nunca conversamos, nem sequer tínhamos sido apresentados. Mas Tânia lembrou que eu tinha feito uma foto dela entre várias pessoas que a cumprimentavam no dia em que a Comissão de Anistia Wanda Sidou fez a reparação a Bergson em nome do Estado do Ceará. "Eu sabia que já tinha lhe visto em algum lugar", falou com jeito absolutamente natural, como se me conhecesse a muito tempo.

Formalidades. Chico Lopes falou do trabalho que o PCdoB e sua bancada federal está fazendo junto ao governo pra localizar, esclarecer o paradeiro e identificar os que lutaram no Araguaia. Fala das dificuldades, desafinações em setores do governo e da necessidade de ser feita uma bela homenagem ao camarada. Enquanto isso a Dona Luiza vai na cozinha servir algo pra beber e traz também um bolinhos caseiros feitos por ela mesma. Fico ali encantado, vendo tanta doçura e firmeza.

Resolvi entrar na prosa e dizer que pretendo fazer uma entrevista sobre o Bergson, mas que fosse além do militante. A Tânia corre no computador e chama pelo skype a irmã Ielnia, que mora nos Estados Unidos, e logo abre um sorriso ao ver seu velho amigo Lopes ali na sala. Pra ser melhor ouvido e visto pela webcam sento ao lado de Dona Luiza, que vez por outra contava ali só pra mim uma historinha do Bergson. "Uma vez chegou lá em casa uma pessoa muito pobre que ao invés de pedir esmola pediu uma ajuda. O Bergson perguntou o que ela queria e ela disse que queria sangue pruma pessoa da família que tava hospitalizada. Aí ele, que nunca tinha visto aquela pessoa, saiu com ela dizendo:"Pois vamos, eu vou doar o sangue".

A Ielnia é outra criatura incrível. Simpática, doce, mas muito sincera, diz o que pensa. Do jeito que eu gosto e como eu sei ser. Cheia de idéias, trocamos várias. Há muita coisa a ser feita. Deixou claro que não quer que ninguém se apropie do seu irmão. No que eu concordo. Nessa hora assumi a posição de dirigente do PCdoB e disse que respeitaremos tudo que a família decidir - o que é óbvio - e daremos todo apoio que pudermos. Falei de algumas iniciativas e opinei sobre sobre outras.

Resultado: estou integrado, pela família, nas muitas ações que serão feitas para homenagear o Bergson daqui por diante. Tempo? Eu arrumo. Um amigo me disse certa vez, quando eu estudava pro vestibular e não saia de casa alegando falta de tempo, que não tem tempo quem não faz nada. Tava certo ele. Falei pra Ielnia num email que enviei já no final da tarde: "dedicarei ainda mais da minha energia, do meu tempo, da minha emoção, do meu amor ao povo e sua libertação, para esse projeto que você e a Tânia estão empenhadas no sentido de reconstituir a memória desse irmão que tanto amam e que merece ser muito mais conhecido por nosso povo, em especial pela juventude". Ela havia me pedido que eu mandasse um material sobre as opiniões atuais do PCdoB e eu aproveitei pra agradecer aquele momento com a família dela.

Haverá outros encontros. Segunda feira Tânia, Chico Lopes e eu teremos uma audiência com o Reitor da UFC e na terça teremos um novo momento como o de hoje, mas sem o Lopes e com a jornalista Carolina Campos e a Sonynha, é claro. Tudo vai virar uma matéria pro Portal Vermelho e é parte de dois projetos que se completam, o das irmãs e um outro do portal, de resgate da história de Bergson Gurjão Farias, herói cearense do povo brasileiro, que como sempre, está entre nós.

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