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sábado, 23 de julho de 2011

You know that I'm no good - Tristíssimo perdermos a Amy Wynehouse

Tristíssimo perdermos a Amy Wynehouse



Amy Winehouse

Composição: Amy Winehouse
Meet you downstairs in the bar and heard
Your rolled up sleeves in your skull T-shirt
You say "why did you do it with him today?"
And sniffed me out like I was Tanqueray
'Cause you're my fella, my guy
Hand me your Stella and fly
By the time I'm out the door
You tear me down like Roger Moore
I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good
Upstairs in bed with my ex-boy
He's in a place, but I can't get joy
Thinking on you in the final throes
This is when my buzzer goes
Run out to meet your chips and pitta
You say when "we're married",
'Cause you're not bitter
"There'll be none of him no more"
I cried for you on the kitchen floor
I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good
Sweet reunion, Jamaica and Spain
We're like how we were again
I'm in the tub, you on the seat
Lick your lips as I soak my feet
Then you notice a likkle carpet burn
My stomach drop and my guts churn
You shrug and it's the worst
Who truly stuck the knife in first
I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was trouble
You know that I'm no good
I cheated myself
Like I knew I would
I told you I was troubled
Yeah, you know that I'm no good

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Reflexões sobre heróis e a História do Partido Comunista do Brasil - Paulo Vinícius da Silva



“Gostaria de ser lembrado como o homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos; amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas; odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das Ditaduras Fascistas”.
Gregório Bezerra

Lendo o texto de Anita Leocádia Prestes sobre o Gregório Bezerra, que tem seu livro Memórias reeditado, felizmente, aproveito e rendo homenagem a esse verdadeiro herói do povo brasileiro, que ela tão bem retrata. Seu exemplo pessoal de dignidade e fidelidade é inquestionável. Ainda assim, sinto-me obrigado a dizer que Gregório Bezerra faz parte de uma geração de líderes comunistas que se confrontou duramente desde o fim dos anos cinquenta do século passado. Como infelizmente sói ocorrer entre seus pares de geração, é tremendamente injusto e duro em seu livro Memórias ao tratar de Diógenes Arruda Câmara, o que não é de todo estranho.

Zé Duarte, João Amazonas, Diógenes Arruda Câmara na chegada de Amazonas do Exílio. Arruda, emocionado, passou mal, e faleceu a caminho do hospital, ele que saiu com a saúde devastada dos porões da tortura. Essa é uma de suas últimas fotos. Fonte:Vermelho.
Curioso é que, pelo que lembro, citando de memória, Gregório Bezerra critica Arruda Câmara de modo até divertido em certo momento, quando diz que ele era o "Stalin Brasileiro", mas "sem a genialidade do camarada Stalin" (sic).

Dois homens frutos do sertão nordestino, signos de uma sertaneja raiz rubra, tenaz ao extremo, dois heróis dos oprimidos.

Ainda assim, pessoas, seres humanos, gente que luta, procurando acertar. Mas o conflito, de concepções inclusive, é da vida, e é bom que seja assim. Arruda Câmara ainda está para ser resgatado. Para isso, quero coletivizar com vocês dois artigos de Augusto Buonicore, que mitigam esse silêncio: Diógenes Arruda, o guerreiro sem repouso.

Sobre heróis a resgatar
Infelizmente, a historiografia de esquerda no Brasil deu pouco destaque a lutadores extraordinários como Maurício Grabois, João Amazonas, Diógenes Arruda Câmara, Carlos Nicolau Danielli, Zé Duarte e Elza Monerat, para citar alguns. A democracia, a esquerda e o movimento comunista no Brasil, no entanto, devem muitíssimo a eles.

Elza Moneratt
Na Conferência clandestina da Mantiqueira (1943), o Partido Comunista do Brasil foi reconstruído dos golpes sofridos pela ditadura do Estado Novo varguista. Os Estados pariram uma geração de líderes responsáveis pelo sólido crescimento vivido no período seguinte. Mais que isso, forjaram a principal referência comunista para as décadas seguintes. Pedro Pomar e Amazonas do Pará, Maurício Grabois, Diógenes Arruda Câmara, Carlos Marighella e Mário Alves seriam parte da Comissão Nacional de Organização Provisória, que tinha ligação com Prestes na prisão e que retomou o Partido, esfacelado pela repressão.

Aí residiu um ponto de inflexão. Uma direção sólida conduz o PCB a um caminho de crescimento, eleitoral inclusive. O Partido intervém na vida nacional cumprindo destacado papel na unidade contra o eixo e na composição da FEB. Os Comunistas na  Constituinte de 1946 propugnam pela liberdade de culto e religião e a natureza laica do Estado, pelo direito de greve, o Partido realiza os comícios com Prestes para milhares de pessoas, possuía uma rede impressionante de jornais etc.

Bancada Comunista na Constituinte de 1946: Observem Amazonas , Prestes e Grabois no centro da fotografia.
Gregório Bezerra, José Maria Crispim, Maurício Grabois, Claudino José da Silva, Joaquim Batista Neto, Osvaldo Pacheco, Abílio Fernandes, Alcides Sabença, Agostinho Dias de Oliveira, João Amazonas, Carlos Marighela, Milton Caires de Brito, Alcedo Coutinho e Jorge Amado, a que se somaram posteriormente, eleitos sob outra legenda (do Partido Social Progressista, PSP), Pedro Pomar e Diógenes Arruda Câmara.


É essa direção, em essência, que se cindirá com os desdobramentos do 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Daí, seja o PCB (Brasileiro), seja o PCdoB (do Brasil - como era o nome antes), reivindicarem o legado do mesmo PCB. Por um tempo isso ficou referenciado numa suposta oposição entre líderes, projetando as imagens de Prestes - uma referência imensa - e Amazonas. Esse mito esboroou-se já em 1980, quando, após seu regresso da URSS, Prestes rompe com a direção do PCB através da Carta aos Comunistas. O problema era bem maior que uma mera oposição de personalidades. E vêem-se as dificuldades de quem persistiu no PCB - sem Prestes e sem Gregório Bezerra - até a sua debandada, e  agora reivindica a memória desses próceres como fio histórico que lhes ligue a 1922, muito diferentemente dos que não aceitaram desde os anos 60 o reformismo kruschevista.

A saída do próprio Prestes do PCB, para mim, simboliza o fim de uma diáspora progressiva e incontornável que varreu a maioria vitoriosa no cisma do PCB, corporificada na Declaração de Março de 1958, que marca o enquadramento brasileiro às teses exaradas desde Moscou no congresso precedentemente citado. De um lado, Prestes e a URSS e a maioria. Do outro lado, em defesa do legado de 1922 e da Mantiqueira, reivindicando um congresso, cem camaradas. Parece que teve um que retirou a assinatura. O detalhe é que dentre esses 99 estavam quadros de altíssimo relevo, figuras de proa em todo o momento anterior. dentre eles Grabois, Amazonas e Pomar, e depois, Arruda. E se o PCB foi de abismo em abismo, o PCdoB, ao contrário, escalou uma imensa serra com uma determinação inexorável.

O tempo cobraria caro o seguidismo de Moscou. Os erros do PCB no trato da escalada golpista de 1964 e na resistência que poderia lhe ter oposto, em parte podem ser atribuídos à mecânica incorporação ao cenário nacional da tese do "caminho pacífico" de Kruschev. Desmoralizou-se o instrumento central dos oprimidos ante o arbítrio da gorilada. O impacto da derrota iniciou a dispersão dos que firmaram a Declaração de Março de 1958. Marighella e Mário Alves foram dois expoentes e heróis do povo que romperam e compuseram parte do exemplo dos anos seguintes, que viram o PCB minguar e a esquerda se dividir em uma série de organizações. A Ditadura, ademais, cobrou altíssimo preço em sangue de ambas organizações. O PCdoB, ademais, fez a Guerrilha do Araguaia,  que é o ponto mais alto no combate com a Ditaura, enfrentando as forças regulares. O primeiro reconhecimento da capacidade de superação e do heroísmo do Araguaia, no entanto, veio primeiro dos que protagonizaram o cruel martírio dos guerrilheiros que de boa parte da esquerda, infelizmente.

A despeito disso, O PCdoB manteve uma linha que, malgrado acidentada, tem um curso de avanços. Por muito pequeno, no entanto, além de atingido de modo terrível pela repressão, os seguidores de Amazonas, Grabois, Pomar e Arruda Câmara prosperaram no tempo. E contaram com um trunfo valioso para o futuro, incorporaram a Ação Popular, principal liderança da juventude estudantil da época.

Um reconhecimento que os revisionistas jamais fizeram
A História cobra caro o erro em política. A rebeldia de parte do núcleo central da conferência da Mantiqueira foi o Grito do Ipiranga da independência intelectual dos comunistas no Brasil. Os caminhos dos anos seguintes, no entanto, mostraram-se sumamente duros para os que ousaram pensar com a própria cabeça. No fim do túnel dos 21 anos de arbítrio, de tortura e cárcere, de morticínio e desaparecimentos de camaradas que perdura até hoje, depois de tudo, os duzentos e sessenta mil comunistas no Brasil filiados ao PCdoB significam a continuidade prática e viva do Partido de 1922, ou pelo menos da Conferência da Mantiqueira, que inaugura um núcleo nacionalmente sólido da direção comunista no Brasil.

Não foi à toa que esse aparente "milagre" aconteceu. Pode-se buscar outros exemplos pelo mundo, em que o cisma do movimento comunista originou no geral dois partidos, um pró-soviético e um crítico, no geral simpático à China. Pelo mundo afora, quantos desses partidos se mantiveram, quantos cresceram e quantos chegaram ao governo de seus países? E quantos inverteram a tendência, tornando-se a ampla maioria do movimento comunista num país com o potencial do Brasil? Aí tem tecnologia nacional. E o seguidismo mostrou-se um guia pouco confiável.

A contribuição do Brasil ao socialismo tem de ser brasileira
Entre outras coisas, o PCdoB encerra nas suas formulações qualidades nacionais, como a capacidade de fazer mediações e ousar em encontrar saídas próprias. Firmeza de princípios e flexibilidade tática. Diógenes Arruda talvez dissesse "Ampliar radicalizando, radicalizar ampliando". Não poderia ser diferente, num país como o Brasil. Nossa formação é complexa e está fora dos parâmetros europeus que, no entanto, por muito tempo influíram de modo exagerado em nossa formação e rumos.

Se a transição para o socialismo é um debate central e decisivo, que dirá a transição brasileira! Herdeiros somos ainda hoje das contribuições de José Bonifácio. Nosso povo é mestiço, temos profunda, fluida e sincrética religiosidade, somos sensuais e carnavalescos, diferentes. Então tem coisa que não cabe na cabeça de quem está muito acima do Equador.

Daí que pudemos sem grandes sofrimentos dar uma resposta simples e efetiva a um problema gravíssimo, a solução do conflito internacional que ainda dividia o movimento comunista internacional em plena derrota do ciclo europeu iniciado na União Soviética. Numa sessão com as delegações internacionais presentes ao 8º Congresso do PCdoB, realizado em Brasília, de 3 a 8 de fevereiro de 1992, João Amazonas profere suma fala entitulada "Pela unidade do Movimento Comunista".  Tratou a questão frontalmente:


"Achamos que é necessário alargar os horizontes, e entender bem o processo objetivo e subjetivo que se passa no movimento comunista mundial. A derrota do socialismo na União Soviética despertou não apenas a nós, que nos consideramos marxistas-leninistas. Influiu também no que há de movimento organizado. Partidos que seguiam o PCUS, face à nova situação, tratam de fazer certo realinhamento no terreno ideológico. Não são todos, mas diversos o fazem, e com relativa segurança. Como devemos encarar esse problema? Desconhecer o fato? (...) Também aí há forças revolucionárias que despertam face ao sucedido na União Soviética. (...) aqui ainda não estão todos os revolucionários do mundo." 

E foi além:

"A verdade é que vivemos uma crise que já dura mais de 30 anos. E muita gente não se deu conta que essa é uma questão fundamental. (...) Temos de nos debruçar seriamente sobre esse problema da crise do socialismo, temos de enfrentá-la, ou não conseguiremos passar à ofensiva contra o capitalismo e fazer a revolução."

Uma palavra sobre Amazonas
Se 1943 marcou o surgimento daquela geração. 1962 marcou sua divisão e a luta pela sobrevivência da direção surgida em 1943. Já o 8º Congresso, em plena crise, tinha como testemunha atuante de todo aquele ciclo histórico aquele decano, filho de um padeiro que viria de uma família humílima do Pará. Observem, todos os antigos já haviam partido ou perdido sua força e liderança, exceto Elza Moneratt. Amazonas, no entanto, liderava uma organização pródiga em quadros, rejuvenescida e com futuro. Assim, mais uma vez, essa correção política assegurou o futuro até hoje. Vale a pena assistir o vídeo com a última entrevista de João Amazonas, lúcido e sereno, realizada poucos meses antes de sua morte, para aproveitar um pouco desse manancial de que ainda bebemos.

Podemos olhar a trajetória de tantos heróis que nos antecederam, com o sereno respeito da responsabilidade de lhes continuar a caminhada. E isso implica, sim, resgatar uma história que não está escrita, nomes e biografias de mártires que seguem insepultos clamando por justiça, como os guerrilheiros do Araguaia. Nesse terreno é que chafurdou a Carta Capital com o infeliz artigo de Lucas Figueiredo acerca de Maurício Grabois, herói e mártir do Araguaia, ao portar-se como detrator, não um jornalista. Por sorte, Osvaldo Bertolino e Adalberto Monteiro levantaram-se contra a injustiça. Vale lê-los. Como se vê, há uma disputa intelectual acerca do nosso legado.

Mas o olvido é passageiro. Graças ao PCdoB, o fio vermelho da História não se perdeu, malgrado as intempéries. Recordo ainda transido de emoção tantos e tantas jovens a circular pelo 52º Congresso da UNE, orgulhosos de seus juvenis e baratos adereços a exaltar o emblema da foice e do martelo, e por isso mesmo a valer tanto! E eu, confesso, ainda meio solitário a pensar nessas questões quiçá inverossímeis. E sobretudo a pensar que é possível sim, traçar esse continuum histórico do PCdoB até a Mantiqueira, e desde lá até o futuro socialista. e neste caminho render nosso tributo aos nossos próceres, a Gregório Bezerra, a  Diógenes Arruda, a Pedro Pomar, a Maurício Grabois, a Prestes e a Amazonas. Há que conhecê-los, buscar o fio da meada de quem fomos, do que somos e do futuro que realizaremos.

Obs.: alterado a 15/04/2012

Você sabe quantas bases militares os EUA têm espalhadas no mundo? - Portal Vermelho

Você sabe quantas bases militares os EUA têm espalhadas no mundo? - Portal Vermelho

América Latina e caribe: Uma região de Paz é o nome da campanha do Cebrapaz. Que pede o fim às bases militares estrangeiras. "Quantas dessas bases estão na América Latina e Caribe?" questiona o vídeo que concluí: "As bases militares estadunidenses são ameaça permanente à soberania dos povos".



Veja também:
EUA protegem terrorista condenado por atentados contra Cuba
Cubano destaca luta de seu país contra base em Guantânamo

O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo - Portal Vermelho

O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo - Portal Vermelho

O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo

Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se. O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.

Por Marcelo Semer*

Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?

Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.

O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.

Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia.

De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.

Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.

No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto.

É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.

O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento.

Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.

E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.

Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor.

Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum.

Nós já sabemos onde isto vai dar.

O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana.

O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.

*Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.

Fonte: Terra

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Maurício Grabois e o heroísmo na selva « CartaCapital

Maurício Grabois e o heroísmo na selva « CartaCapital

Maurício Grabois e o heroísmo na selva

Jornalista e presidente da Fundação Maurício Grabois, Adalberto Monteiro critica a matéria de capa da edição 643 de CartaCapital:

Em matéria do jornalista Lucas Figueiredo intitulada “Devaneio na selva”, a revista CartaCapital, edição 643, comenta de forma superficial e preconceituosa o que seria o diário de Maurício Grabois. Ao longo do texto, o comandante da Guerrilha do Araguaia é descrito como um indivíduo fora da realidade, autoritário com seus comandados e dado a veleidades. Esse tipo de abordagem deriva de um enfoque tacanho, segundo o qual nenhum personagem da história nacional parece ter qualquer valor – exceto, é claro, as figuras emblemáticas dos de “cima”.

Maurício Grabois, já na sua juventude, como aluno da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, atuou corajosamente junto ao grupo de militares de orientação patriótica e democrática que se formava. O golpe do Estado Novo, em 1937, fez com que recuasse para a clandestinidade e, como dirigente do setor de comunicação da juventude comunista, assumiu o papel de manter, com outros jornalistas, o lendário jornal A Classe Operária. Sobreviveu às mais duras provas impostas pela orientação fascista dos setores que comandavam a repressão no Estado Novo e emergiu, com a alteração da correlação de forças que levaria à redemocratização do país em 1945, como um dos articuladores do movimento democrático que pôs fim àquela ditadura.

Eleito deputado para a Assembléia Nacional Constituinte de 1946, foi indicado líder da bancada comunista por um colegiado de parlamentares integrado por nomes como Jorge Amado, João Amazonas, Carlos Marighella e Luiz Carlos Prestes. A atuação parlamentar de Grabois, revela o Diário do Congresso, mostra sua capacidade teórica e política, reconhecida até pelos seus mais ferrenhos adversários ideológicos. Era respeitado por sua lealdade, por sua justeza no trato com as divergências e por sua cordialidade. Prova disso foi o socorro oferecido por Otávio Mangabeira, liderança destacada da União Democrática Nacional (UDN), quando acolheu Grabois e Prestes em seu apartamento no Hotel Glória para protegê-los de uma feroz caçada logo após a cassação dos mandatos dos eleitos pelo Partido Comunista do Brasil.

Segundo Jorge Amado, Grabois era, de todos os parlamentares comunistas, o de maior vocação, “um brilhante deputado”. “Não da mesma forma que era brilhante Marighella: diferente, menos zombador, mais malicioso”, escreveu. “Recordo ainda hoje um discurso que Maurício pronunciou às vésperas da cassação da bancada comunista, respondendo a Flores da Cunha que nos acusara de traidores da pátria. Um primor de discurso, de exemplar dignidade”, registrou Jorge Amado, enfatizando que, além de companheiros, foram amigos.

Jorge Amado descreveu Grabois como uma pessoa que sabia ouvir, “hábito raro em geral e ainda mais num dirigente”. Como parlamentar e jornalista – relançou, em 1946, o jornal A Classe Operária e dirigiu politicamente um complexo de comunicação que abrangia jornais locais espalhados por todo o país, a Tribuna Popular (de circulação nacional), duas editoras (a Vitória e a Horizonte), a revista Problemas, uma agência de cinema e uma agência de notícias – deixou uma vasta e respeitada obra que analisa diferentes aspectos da realidade brasileira. Muito do que escreveu serviu de orientação política para ajudar nos embates que garantiram a passagem do país pelos governos de Juscelino Kubitscheck e João Goulart, em seu início, sem retroceder ao regime de força que combatera no final dos anos 1930.

Seus escritos de 1960, no aceso debate do V Congresso do Partido Comunista do Brasil – que levaria à cisão das fileiras comunistas e à reorganização do Partido em 1962 -, ainda hoje são referências para quem quer estudar a evolução histórica das forças patrióticas e democráticas em nosso país.

Quando veio o golpe de 1964, Maurício Grabois estava entrincheirado no jornal A Classe Operária, mais uma vez relançado por ele no início dos anos 1960, fazendo o que mais sabia: a defesa da democracia e o combate ao arbítrio que batia às portas da República. Rompida a resistência, com o golpe, Grabois ocupou outras trincheiras – diante da impossibilidade da luta política legal nas regiões urbanas, estabeleceu-se na região do Araguaia, onde foi um dos primeiros a chegar para organizar uma forte linha de resistência à escalada de violência dos golpistas de 1964.

Jorge Amado lembra dessa fase da vida de Grabois com reverência.”A última vez que o vi, foi em Cuba. Veio comentar comigo uma entrevista que eu dera a um jornal de lá. Depois vieram os anos da ditadura militar, eu soube de Maurício apenas notícias vagas, até que alguém me informou que ele morrera, numa guerrilha, no Araguaia. Eu sempre vira nele mais um intelectual do que um soldado. Mas não admirei que morresse guerrilheiro: escolhera seu caminho e o trilhou até o fim. Haja o que houver, me disse um dia.” O comandante da Guerrilha do Araguaia morreu no final da manhã do dia 25 de dezembro de 1973, aos 61 anos, de arma em punho, se defendendo de um ataque infame comandado pelo que havia de mais reacionário no país.

Quem conhece a vida de Maurício Grabois sabe que seu nome está inscrito na lista dos que dedicaram suas vidas ao estudo da realidade do país e às ações que buscam abrir caminhos para transformar o Brasil em uma nação soberana, democrática, próspera e socialista. Como dirigente daquele movimento guerrilheiro, Grabois foi estimado pelos camponeses do Araguaia. Respeitava e era respeitado pelos seus comandados. Ao contrário da repressão, ele e os guerrilheiros que liderava não admitiam atrocidades e violações de direitos, mesmo com as ações armadas deflagradas.

Esta Fundação, que tem Grabois como seu patrono, vem a público manifestar sua oposição ao conteúdo que CartaCapital deu na repercussão do que seria o diário de Grabois, subestimando e distorcendo seu papel no comando daquela resistência. Reforça que a Guerrilha do Araguaia ainda é uma vasta fonte de pesquisa e de análise para garantir o direito à verdade e à memória dos que ali deram a vida no combate ao regime de terror que moldou o golpe de 1964. A Guerrilha do Araguaia foi um acontecimento que vai sendo dimensionado na medida em que dados novos são revelados. Será mais ainda quando os arquivos da ditadura forem abertos.

Sabemos que as interpretações de fatos históricos encerram opiniões distintas, o que é salutar em um ambiente democrático. Todo trabalho nesse sentido deve ser louvado. Mas a matéria de CartaCapital não se limita a uma opinião. Ela resvala para a adulteração dos fatos. Para interpretar a Guerrilha do Araguaia e outros movimentos de resistência armada, temos de considerar que foram atitudes que expressaram a consciência de boa parcela do pensamento avançado e democrático brasileiro. Havia, naquela conjuntura, um questionamento natural sobre se haveria ou não uma tomada de atitude frente à escalada da violência contra toda e qualquer forma de oposição.

A democracia que o país respira hoje resulta de uma convicta resistência ao regime discricionário de 1964, da qual a Guerrilha do Araguaia é parte destacada. Daí o estranhamento causado pela matéria de CartaCapital, um veículo de comunicação que conta com respeitáveis articulistas e destoa do coro do pensamento único propagado pelo monopólio midiático. A matéria não contribui para situar a memória desse grande brasileiro no lugar devido.

Esta Fundação, ao mesmo tempo em que rejeita o tratamento de CartaCapital ao legado de Grabois, enfatiza seu propósito de contribuir para o resgate da memória dos que deram suas vidas na luta pela democracia. Reforça também uma de suas principais bandeiras atuais: a garantia de justiça aos camponeses e seus familiares que sofreram as mais inomináveis crueldades no processo de repressão à Guerrilha do Araguaia.

É necessário denunciar a perversidade da liminar que suspende as indenizações determinadas pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e lutar por sua revogação. Do mesmo modo, mantemos firme atuação no sentido de que os restos mortais dos guerrilheiros e camponeses desaparecidos no Araguaia (e das demais vitimas da ditadura) sejam resgatados para que seus familiares tenham o sagrado direito de dar-lhes um funeral honroso.

A Fundação Maurício Grabois conclama ainda à luta pela aprovação da Comissão da Verdade, para que se efetivem os trabalhos de resgate da memória dos patriotas e democratas que deram suas vidas pela causa da democracia. O tom preconceituoso e superficial da matéria sobre o que seria o diário de Grabois, no entanto, em nada contribui nesse sentido.

No Brasil, as elites têm tido a prática recorrente de tentar soterrar a memória da nação. Com tal atitude, buscam encobrir crimes cometidos contra o povo e ocultar as referências históricas capazes de impulsionar a luta pelo progresso. Um jornalismo digno desse nome contribuiria bem mais para o triunfo da justiça e o combate ao legado da ditadura se aprofundasse o assunto, resgatando a verdadeira memória de Maurício Grabois e de tantos outros que deram suas vidas na luta pela redemocratização do país.

Adalberto Monteiro é jornalista, presidente da Fundação Maurício Grabois

No dia 28 de abril, o jornalista Lucas Figueiredo respondeu a críticas semelhantes. Clique aqui para ler

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amigos -OTACÍLIO COLARES (1918-1988)

Maravilhosa contribuição do amigo Flávio Arruda, que coletivizou esse lindo poema:


Amigos valham os bons, poucos que sejam,
que nisto pouco importa a quantidade,
pois quase sempre é de infidelidade
o tom daqueles que demais cortejam.


Amigos versos fácil não bafejam,
pois sabem que o que conta é qualidade
e na alma infundem só sinceridade,
quando de alguém a face acaso beijam.

Amigos quer-se-os como os vinhos raros -
sutis no odor, no paladar, discretos,
quanto mais simples, tanto mais amados.
E de assim serem poucos, são tão caros
que, quais doces pecados, e secretos,
são no íntimo do peito conservados.

OTACÍLIO COLARES (1918-1988)
Nascido em Fortaleza, bacharelou-se em Direito, excercendo, porém, a atividade jornalística. Sua obra poética esta em grande parte esparsa, pois publicou apenas Poesias (1947) e O Jogral Impenitente 
(1965). Foi, também, ensaísta. Membro do Grupo Clã e da Academia Cearense de Letras.

Inflação, juros e salários - Elias Jabbour

Inflação, juros e salários

Elias Jabbour

As campanhas salariais de categorias importantes como os bancários, químicos e petroleiros estão recolocando na pauta a velha converseira reacionária. Para os “economistas do mercado”, se essas categorias lograrem vitória em suas campanhas, a conta dos aumentos reacairão sobre a “competitividade” da indústria nacional, além claro sobre a inflação e o câmbio. Nunca os trabalhadores necessitaram tanto de uma boa teoria econômica. A política por si só não resolve todos os nossos problemas.

Por quê os juros não caem diante de uma realidade mundial de juros baixos e capitais ociosos? Por que o real se valoriza num ambiente internacional de concorrência oligopólica acelerada e tendência – histórica – de proteção de terceiros mercados nacionais como resposta de uma crise, também, do comércio exterior? Nossa indústria se esfarela por culpa de campanhas salariais irresponsáveis? O problema dos juros só se soluciona com mais “responsabilidade fiscal”, com mais “austeridade”e rígido controle sobre os “gastos” governamentais? Sobre qual ciência se assenta determinadas “verdades”, outrora mentiras contadas um milhão de vezes?

***
Como se combate a inflação no Brasil todos já sabem. Juros, abertura comercial e enxugamento de moeda “excedente” em circulação. O aperto monetário está sempre na moda tendo os investimentos e gastos governamentais como alvo. Uma visão de classe social do processo demanda concordarmos com os “intelectuais” do sistema financeiro, percebendo que a qualidade dos gastos do governo brasileiro é mesmo péssima e, inclusive, tem responsabilidade direta nas altas inflacionárias. Vejamos.

O orçamento geral da União para o ano de 2010, segundo dados do SIAFI (disponibilizados também por Maria Lucia Fattoreli em interessante artigo no Le Monte Diplomatique), foi de R$1,414 trilhão. Deste montante, 44,93% (R$ 635 bilhões) foi destinado ao pagamento de juros, amortizações e refinanciamento da dívida interna. Para a previdência social o repasse foi de 22,12%; para a saúde 3,91%; saneamento básico 0,04%; ciência e tecnologia 0,38%.

O saqueio institucionalizado também é bem perceptível nas “operações de enxugamento” executadas pelo Banco Central: em 2009 custaram R$ 147 bilhões e R$ 50 bilhões no ano seguinte. Outro dado interessante recém-divulgado pelo IBGE e mediada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor demonstra que a inflação calculada pelo IBGE entre janeiro e abril de 2011 aponta que 73% da mesma é causada por alta nos alimentos e por preços administrados pelo próprio governo. Até onde tenho conhecimento, o povão não contrai crédito bancário para comprar alimentos, nem tampouco para pagar conta de luz ou água. Pior ainda é se fazer crer que o grande responsável pela inflação é o trabalhador que compra um eletrodoméstico em 36 prestações.

Triste saber que a propaganda oficial e do sistema financeiro (as duas se confundem) ainda vaticinam por “melhor qualidade do gasto” e a própria presidenta da República ainda fala para entusiastas em “crescimento com estabilidade monetária” e em crescimento com “responsabilidade fiscal”. Seu ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio com uma naturalidade incrível fala em “câmbio que veio para ficar” e da necessidade dos empresários brasileiros em “driblar o câmbio com criatividade” como se a criatividade fosse capaz de burlar as leis econômicas mais elementares. A burla das leis econômicas mais primitivas continuou com a presidenta afirmando – semana passada – durante cerimônia de posse da diretoria da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), em Porto Alegre que, "vamos fazer uma defesa contundente da indústria contra práticas protecionistas, desleais e fraudulentas que afetam nosso comércio exterior". É como se um país que pratica a maior taxa de juros do mundo, a carga tributária que mais onera a produção entre as 30 maiores economias e a moeda que mais se valorizou diante do dólar nos últimos anos servisse de parâmetro moral a um país como a China; país este que alçou a proteção de suas cadeias produtivas e empregos ao nível de “questão de segurança e soberania nacional”.

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A pergunta que não quer calar. Como combater a inflação diante do fato da mesma ter sido alçada ao patamar de problema político e capaz de mobilizar toda a “inteligência” da nação em torno de sua solução? Acredito que a primeira observação deve se referir à política e a estratégia. Diante de um Estado transferidor de altas somas ao sistema financeiro não é difícil perceber que existe um claro viés de “força material” nestas opções. Os bancos são os donos do poder no Brasil e seu enfrentamento poderá determinar uma luta de dimensões nada imediatas e sim estratégicas. Sempre digo que as experiências bolivarianas tiveram sucesso na medida em que destituiram as classes dominantes de sua real base material, o petróleo e o gás natural. No Brasil a base material da classe dominante em nossa superestrutura está no manejo da política monetária. Expropriar a política monetária do sistema financeiro é o relevo por onde se abrirá caminho, inclusive, para uma hipotética transição ao socialismo no Brasil. As campanhas salariais, neste conjunto, são instrumentos altamente eficazes de acúmulo de forças e conscientização popular, parte essencial da tática de nosso movimento. Esse é um ponto.

Outro ponto é a consciência de que o grande responsável pela inflação no Brasil, por incrível que possa parecer ao senso comum, é a própria taxa de juros. A taxa de juros responde pelo aumento dos custos de produção, que por sua vez são repassados ao consumidor. A política monetária inibe o alargamento da base de oferta, restringe a harmonia entre oferta e demanda e causa prejuízos incálculáveis ao conjunto, não somente do orçamento, mas também do corpo social como um todo. Nenhum argumento ao contrário se sustenta cientificamente ao custo da perpetuação da mentira que se reproduz, também, graças a movimentos sociais com os pés fincados no imediato, sem fôlego teórico para discussões de fundo sobre o nosso país. Nada ajuda, neste sentido, colocar no centro de mobilizações bandeiras liberais sob a ilusão de “aos poucos ir conquistando a superestrutura” e a “moldando à nossa imagem e semalhança” diante de um país que alcança o “pleno emprego” e que alarga a “democracia”. Não existe democracia possível num contexto provado pelos números acima, nem tampouco paz social onde os indices de desemprego que tem queda sustentada por empregos de baixa qualidade.

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A batalha é dura e eu pessoalmente não me sinto nem um pouco confortável de exibir uma postura nada convencional para os parâmetros da dita esquerda brasileira que ocupa o governo federal. Existe uma distância enorme entre essência e aparência. As pessoas fazem escolhas, e eu fiz a minha. Meu amor incondicional ao meu país e aos trabalhadores não me permite tergiversar sobre a verdade por detrás de discursos e opiniões de intelectuais “bonitinhos” tanto do sistema financeiro quanto dos frequentadores de balcões das instituições de fomento científico financiados pelo governo. Diante do fato de “que do pó viemos ao pó retornaremos” não me resta grandes alternativas e não ser a da independência intelectual, do postura de combate e da umbilical ligação com um projeto de nação e o compromisso com a emancipação social e a construção de um poder político dos trabalhadores e das mais amplas massas populares.









Doutor e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP, autor de “China: infra-estruturas e crescimento econômico” e pesquisador da Fundação Maurício Grabois

Coletivizando outra vez: Secundarista: teu nome é povo na rua - Portal Vermelho

Inaugurei ontem uma seção que recolhe uma série de artigos publicados, muitos dos quais no Vermelho. Dentre eles, gosto muito desse. Como agora é UBES (cujo congresso acontece no final do ano), em sua homenagem republico essa mistura de memória e defesa do movimento secundarista, grande força de massas da luta estudantil.


A foto abaixo reúne algumas lideranças secundaristas e juvenis de minha geração. Pela ordem: Roberto dos Santos (Hilza Diogo), Ana Lúcia Viana (minha Secretária de Juventude e de toda uma geração), Leonardo Caverna (Anglo da 24 de maio), Andrea Oliveira ( presidenta do grêmio do Liceu do Ceará, minha escola à época) e Paulo Rogério Gomes de Sousa (nosso tesoureiro no Liceu). A foto foi no 1º de maio que a CTB realizou em 2009, na Messejana.


O texto foi escrito antes das últimas eleições presidenciais e o Brasil segue a precisar de mobilização popular!



O Fora Collor no Ceará muito teve da contribuição dessa turma, que puxava o cordão das passeatas desde o Liceu do Ceará






Secundarista: teu nome é povo na rua - Portal Vermelho

Paulo Vinícius *

Desde 2002, com a vitória de Lula, os movimentos sociais se defrontam com difíceis questões. Pela correlação de forças e a composição heterogênea do governo, pelo peso relativo dos partidos de esquerda na sociedade brasileira, e também pelas dificuldades


Ademais, a “defensiva” vai mudando à medida que os povos encontram caminhos. Deste modo, são questões complexas por serem de tempos de transição. Uma delas, central, é encontrar a linguagem, as bandeiras, a unidade e o tom que permitam fazer o povo tomar um papel mais ativo na batalha de idéias que se desenrola diariamente.
Observamos neste segundo mandato uma evolução da tática da direita conservadora. O jogo é bruto, e percebemos a série de experimentos tentativa-e-erro, articulados, visando a impedir o êxito do governo, defender teses derrotadas nas urnas e nas ruas, abrir caminho para o retrocesso. É uma luta prolongada, cuja definição – espera-se – só terá desenlace em 2010. O 16 de Agosto de 2005 quando, em Brasília, estudantes, na maioria secundaristas, e o movimento comunitário em conjunto com outras organizações do movimento social neutralizaram uma escalada de cunho claramente golpista ilustra muito bem como é importante a mobilização popular, como faz a balança pesar.

Por isto, encontrar o tom, as bandeiras, as formas que permitam levar as multidões a ocupar o centro da cena política pode apoiar avanços como as reformas tão necessárias para blindar as conquistas obtidas nos últimos 5 anos, quanto para palmilhar o caminho da vitória do povo brasileiro em 2010. Minha opinião é que isto não é um “problema de gestão”, não será apenas através dos espaços institucionais que solucionaremos tal dilema, vide inclusive eventos como a perda de 40 bilhões para a Saúde com o fim da CPMF. A justa articulação das formas de luta, com a ação nos espaços político-institucionais, a luta de idéias e de ampla mobilização social, este é o tripé que pode nos fazer chegar mais adiante. E, no tripé, a mobilização popular é a arte.

Deste modo, revisitar as experiências de ascenso de massas no nosso país, refletir sobre nossa ação militante é muito importante. Ao preparar o 14o. Congresso da UJS, assim como a estruturação da Central de Trabalhadores e Trabalhadores Brasileiros neste semestre, temos a oportunidade de refletir com a juventude e os trabalhadores sobre estas questões, grande parte do nó górdio da mudança: que formas, que bandeiras podem expressar na prática para amplos contingentes a mudança em cada área; como unir amplos setores em mobilizações que combatam a direita e seus propósitos desestabilizadores, que pressionem e ofereçam ao governo a possibilidade de ações mais ousadas; como dizer não quando se colocarem propostas contrárias ao interesse do povo; como neste processo plasmar o elemento consciente, preparando milhares de lutadores(as) para as batalhas que, acerbas e ácidas, só tendem a aumentar seu potencial corrosivo.
Linda foto de passeata do grêmio da ETFCE contra o decreto 2208 que foi duro golpe contra o ensino técnico. Não estou na foto, mas à época era presidente do grêmio e tesoureiro da UMES, e ela tem muita gente querida.

Por isto este artigo artigo fala tanto de quem mais põe juventude na rua, o movimento secundarista.

Sobre a panfletagem

Se existem duas coisas que fiz durante toda a minha militância na UJS, uma foi distribuir panfleto e a outra foi “passar em sala” de aula. Militante não entrega papel; panfleta. E a panfletagem deve ser um acontecimento. É simples: tem um lugar por onde todos passam e um grupo de militantes fica no ponto exato falando para a moçada em cerca de um minuto, tempo cada vez menor quão mais perto do horário de trabalho ou do começo da aula. Aquele sono de quem acordou cinco e meia da matina – ou antes, quando o assunto é fábrica e garagem – ou então aquele sol rachando ao meio-dia. Panfletar é para quem acorda cedo e almoça rapidinho. Se a pessoa te reconhece a recepção é uma; a depender do que diga, será outra. É o convite à leitura da nossa opinião, na maioria das vezes que nós mesmos escrevemos. E poucas coisas combinam tão bem quanto uma palavra justa e um(a) estudante que tem o respeito e a amizade dos(as) colegas. Quando estes jovens se juntam seu poder é imenso e, dentre essa moçada da luta, destaca-se a galera da UJS, este pessoal que ganha congresso e faz passeata, os(as) jovens socialistas.


Que três ou quatro frases dirá o(a) jovem socialista como introdução à entrega do panfleto, no local de trabalho ou em frente à faculdade? O que dirá, dirá repetidas vezes? Quantas frases terá esse bordão? Será em hip hop, terá rimas, será em cordel? Haverá máscaras e performances? Todas estas e muitas outras perguntas são feitas por aqueles que ao panfletar inauguram sua atividade militante. Muitas vezes a pessoa jamais pensou em estar naque papel, então fala pela primeira vez em público e percebe o valor e o peso de sua voz.


Passar em sala de aula
Em sala de aula, quando o(a) professor(a) der a palavra, haverá só três minutos para a mensagem. Serão equipes que percorrerão pavilhões e blocos, identificando as turmas certas neste mapa político da escola e da universidade. Como guerrilheiros da palavra inverterão os papéis e por instantes ficarão no lugar do professor, informando algo importante, legal, útil. O que dizer em cada sala? Como, olhos nos olhos, deixar uma mensagem, motivar, provocar uma reflexão e – por que não? - um sorriso. Que tom usar ao partilhar uma indignação, um protesto, que devem calar fundo no coração dos nossos colegas? E depois, o mapa de salas, para quantos 
falamos, será que nossa mensagem foi aceita?


Esta é a escola do(a) militante estudantil. Ter a oportunidade de falar a uma sala repleta, liderar uma boa panfletagem que em uma hora atinge milhares de pessoas, estar com uma bandeira no alto significam muito. São gestos muito importantes de nossa história, vitórias que custaram muito sofrimento e heroísmo. E são um contato insubstituível com a juventude, o momento mais fácil de pedir-lhe atenção para a luta, quando nos dirigimos ao povo com nossa voz, gesto e olhar, com nossos argumentos e idéias.


E é a hora de pôr a prova a nossa mensagem. A atenção e adesão que ela recebe definem se ela é importante mesmo, ou se é só viagem nossa e não estamos errando em alguma coisa. É o termômetro da justeza de nossas idéias e do reconhecimento de nossa ação perante a parcela mais aberta à nossa mensagem, nossos colegas, que a depender do que e como digamos poderá vir a lutar ao nosso lado ou ficará só olhando.


São atos de entrega, de exposição pessoal e rebeldia ante a dispersão e a apatia. Nunca passamos em sala ou panfletamos em vão, mas sempre em função de algo especial. Passar em sala de aula e panfletar são artes, são a principal arma quando é necessária a mobilização da juventude. E que ato de rebeldia é olhar nos olhos dos estudantes e fazê-los (e até o professor) concluir que a aula mais importante é nas ruas, a passeata.


As passeatas do Fora Collor
E quanto a passeata legal, ninguém ganhou do Fora Collor, que até deu uma ajudinha, bastava olhar a figura bizarra para entender que não dava pra aguentar aquela histrionice. Mas o fato mais importante é que o movimento secundarista teve a capacidade de renovar formas e métodos de luta sem perder o centro, e valeu-se de uma palavra de ordem ajustada para mobilizar a parcela mais combativa da juventude – nas escolas – para escrever um novo e inédito capítulo na História do Brasil. À época o movimento estudantil vivia um período de refluxo, no começo, ninguém apostava naqueles adolescentes. Mas à medida que as praças foram enchendo foi ficando impossível ignorar aquele clamor.


É claro que sempre há aquela galerinha do contra. Esse pessoal nos “ajudou” muito, diga-se de passagem. Enquanto ficaram na janela reclamando, fomos construindo um movimento de massas. E tem gente muito sofisticada que tem na palma da mão a fórmula para tudo. Geralmente a fórmula é tão doida que ficam sozinhos, reclamando do povo que, por não ser besta, tem mais o que fazer que ficar ouvindo playboyzinho radical. Mas a militância secundarista não tem tempo pra isso. Seu sobrenome é luta, e sem medo de errar afirmo que nesta hora que o país atravessa os(as) secundaristas têm muito a fazer como a principal força em mobilização de massas na juventude brasileira.


O mito pseudo-esquerdista de que o Fora Collor foi algo patrocinado pelas elites sempre foi a expressão da freqüente e espúria coalizão entre a “ultra-esquerda” livresca e a direita temerosa de povo na rua. Sua crítica pseudo-esquerdista (bota pseudo nisso) era de que estávamos fazendo demasiadas concessões “na forma”, na amplitude, na universalidade da nossa mensagem.


Bobagem completa. Estávamos certíssimos, a História o provou. Em um momento de total defensiva do campo progressista – foi logo depois da Queda do Leste – os estudantes secundaristas e universitários brasileiros mobilizaram milhões de jovens desde a 5a. série, muitas vezes, até a universidade. Seu destemor contagiou o Brasil inteiro, carregou baterias e esperanças e afirmou o movimento estudantil, o protagonismo da juventude. O Fora Collor foi protagonismo do povo, da juventude e dos estudantes, a prova que após a volta da democracia era possível interferir nos rumos do Brasil e a rejeição da agenda collorida, depois implantada por FHC, o neoliberalismo.


O Fora Collor inovou na forma e ousou fazer de manifestações políticas algo legal. Tinham a trilha sonora que todos ouvíamos, dialogavam com nossas angústias, mas também com nossa vontade de curtir, pular, a rebeldia do nosso jeito. Então tinha sim muito axé, Legião Urbana, as palavras de ordem tinham ritmos variados e engraçados e a gente “tirava onda” com quase tudo, fazia gestos coletivos, verdadeiras coreografias, conversava muito com a galera da passeata, que participava bastante. Eram lugares de encontro de galeras de várias escolas, e, claro, sempre se paquerou bastante, ou seja, a passeata era um movimento da nossa época, com a nossa cara pintada e com uma linguagem adaptada, com potencialidades e limites, mas era sobretudo um espaço aberto ao povo.
Desde essa época passei a achar a coisa mais linda do mundo a multidão no meio da rua e também aprendi que o movimento também tem sua tecnologia, que estes adolescentes e jovens unidos podem inventar danações que deixam os poderosos de cabelo em pé.


O movimento é também um conjunto de técnicas que a gente inventa
Tenho muito orgulho de ter redesenhado com aquelas multidões os mapas e caminhos da mobilização estudantil em Fortaleza. O nosso era mais ou menos assim: saíamos do Liceu do Ceará, pegávamos a contramão na Liberato Barroso e juntávamos toda a galera na frente do Rio Branco. De lá, passávamos na Guilherme Rocha, parando o Oliveira Paiva, pegávamos a São Paulo e passávamos em frente ao CR (Comitê Regional), depois corredor da Imperador, onde de uma vez só parávamos Rui Barbosa, Fênix Caixeiral, Sistema, Anglo, Positivo e, finalmente, encontrávamos na praça Clóvis Bevilácqua as duas outras marchas que vinham do Justiniano de Serpa e outra lá do Adauto Bezerra. De lá para a Praça José de Alencar e/ou do Ferreira.


Era a descoberta de que podíamos inventar aquelas coisas, que dava certo, e o PCdoB sempre ali, apoiando, dando um toque, torcendo por nós, para que desse certo. Ana Lúcia, Rubens, Rodrigues, Patinhas, Chico Lopes, Inácio, a gente sentia que aquele pessoal tava do nosso lado mesmo e eu nunca esqueci, no dia do Fora Collor mesmo, quando ele caiu, o Rubens, já um senhor de idade em cima da mesa na sede do Comitê Regional do partido cantando a Internacional e com a bandeira do Partido e um monte de gente – a maioria estudantes - comemorando tão felizes!
Multidões descobriram pela primeira vez a força do movimento estudantil e afluíram para nossas reuniões, que multiplicaram por dez o número de participantes. E se é verdade que tínhamos sido capazes de chamá-los, nem sempre éramos capazes de mantê-los ativos, e assim eu aprendia esse descompasso entre a influência política e a estruturação orgânica. Ou seja, entre a nossa capacidade de falar de modo que o povo entenda, propor formas que estimulem a sua participação e a identidade com o movimento e, por fim, que tal sensação de pertencimento, efêmera naquele evento, pudesse se tornar um compromisso mais permanente, que a pessoa compreendesse mais para entrar na luta.
Rompemos ali com vários preconceitos que engessavam o movimento estudantil em uma fôrma quadrada, ignorando uma noção básica da nossa concepção de movimento, que é ele ser de todos os estudantes, porque do contrário estaremos dando as costas para muita gente que pode ajudar na luta.
O movimento pode e deve ser divertido e nem sempre as pessoas se encantam pelas mesmas coisas, ou pelos mesmos argumentos. É absolutamente legítimo participar do movimento porque é legal, por se reconhecer naquela turma de luta, por tantas razões válidas por tirar aquela pessoa da letargia, da não-participação, do ceticismo. A estranheza deve haver quando o movimento, feito de gente tão jovem, seja chato. E chatice não é profundidade e nem politização, do mesmo modo que ser legal não é ser primário, raso, despolitizado. Muito ao contrário, a juventude é generosa, vibrante, se emociona com o que é belo e justo, compreende com rapidez e é ávida pelo conhecimento. Traduzir não é rebaixar, mas inovar na forma preservando o conteúdo, instilando emoção, beleza e razão. Por isto é tão importante que cada um de nossos militantes se empodere das suas responsabilidades em seu lugar e posto, pois precisamos de sua criatividade. Sem ela não haverá as respostas desta época.
Traduzir as bandeiras e atualizar as formas de mobilização
Desde lá, muita água passou debaixo do moinho. Só para citar um dado, já faz dez anos(!) que tenho um e-mail (e nem foi o primeiro), algo que não existia em 1992. O movimento hip hop tem uma grande força, impensável para a época, e as formas de mobilização e registro dos fatos se popularizaram enormemente. Esta moçada é chamada a um grande desafio, incorporando as lições do passado, mantendo a irreverência e o conteúdo, inovando na forma e preparando uma nova vereda de possibilidades na luta de massas. O que não muda é que quando milhares de estudantes e trabalhadores tomam as ruas, impõem respeito. E estas multidões juvenis estão na escola, na universidade e no trabalho todos os dias e devemos falar para eles.


A hora é de revisitar estas criações do povo, da juventude. Reencontrar a forma e lutar para que prevaleça o conteúdo correto em novas mobilizações de massas que apontem o caminho da mudança, expressando de maneira clara objetivos que são de todos e que por isto podem levar à praça pública.


Mas encontrar a tradução para os anseios do povo não é fácil. Quando Lênin encontrou a consigna Pão, Terra e Paz, em 1917 em plena Rússia Tzarista, tais palavras interpretaram as mais profundas necessidades do povo, e isto foi o estopim de uma mobilização que mudou o planeta. Quando apontam-se seis reformas elas não estão prontas, carecem de tradução para encontrar guarida no coração do povo. Como traduzi-las na juventude? Nesta hora, o que o Brasil mais necessita é dessa energia dos estudantes secundaristas, que abraçaram desde o começo o projeto da UJS, levaram adiante a Campanha do ''Se Liga 16'', fizeram o ''Fora Collor'' e não vacilaram em enfrentar a direita golpista nas ruas de Brasília em 16 de agosto de 2005. Se é verdade que sozinhos não poderão tudo, não menos verdade é que estarão na linha de frente das decisivas mobilizações que defenderão e aprofundarão o novo tempo.

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