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segunda-feira, 22 de abril de 2013

143º Aniversário do Camarada Lênin - Vídeos e leituras







Lênin e os dilemas da Revolução Russa - Augusto Buonicore


A essência da obra de Lênin, líder da Revolução Russa, precisa ser melhor conhecida. Isso porque seu pensamento dialético e avesso ao dogmatismo, muitas vezes foi reduzido a fórmulas esquemáticas. Este artigo aborda a contribuição teórica de Lênin ao processo revolucionário russo entre fevereiro e outubro de 1917 e recupera aspectos menos conhecidos de sua elaboração política
 A particularidade da revolução democrática na Rússia: o duplo poder

Em fevereiro de 1917 o povo russo pôs abaixo a odiada autocracia czarista. Em seu lugar surgiu um governo provisório composto por setores da oposição liberal-burguesa e por correntes socialistas reformistas. Ao lado deste surgiu um outro poder, criado pela ação revolucionária das massas populares: os sovietes. Estava assim estabelecido um duplo poder.

Desde o seu nascedouro o governo provisório deu sinais de que não poderia corresponder aos grandes acontecimentos que estavam sacudindo a Rússia. Por um lado, não se mostrava disposto a atender às principais reivindicações dos trabalhadores, que haviam sido a força decisiva na derrocada do czarismo. Não se comprometia com a decretação da paz, com a reforma agrária e nem mesmo com as bandeiras democráticas, como a convocação de uma assembléia nacional constituinte. E, por outro, os Sovietes dirigidos pelos social-revolucionários e mencheviques não estavam determinados a arrancar dele essas conquistas. A própria direção bolchevique vacilava em relação a que atitude tomar frente ao governo.

Lênin, que estava exilado, mostrava muita preocupação com o desenvolvimento do processo revolucionário. Assim, escreveu cinco cartas analisando a situação política aberta após a revolução e expondo suas opiniões sobre qual devia ser uma tática justa naquela nova, e imprevista, situação. Estas seriam denominadas Cartas de Longe. Ele iniciou sua correspondência vaticinando: “Seguramente, esta primeira etapa não será a última de nossa revolução”.

“Ao lado deste governo (provisório), continuou ele, apareceu um governo operário (...) ainda, relativamente débil, que expressa os interesses do proletariado e de todos os elementos pobres da população da cidade e do campo. Este governo é dos Sovietes (...) Quem pretende que os operários devem apoiar ao novo governo em nome da luta contra a reação czarista (...) trai os operários, trai a causa do proletariado, a causa da paz e da liberdade. Porque, de fato, este novo governo já está atado de mãos e pés ao capital imperialismo, à política imperialista belicista, de rapina e já iniciou as transações (sem consultar ao povo) com a dinastia”. E, concluiu, que aquele governo não podia dar ao povo “nem a paz, nem o pão, nem a liberdade”.

Em abril, Lênin chegou a uma Rússia ainda convulsionada e apresentou, pela primeira vez, a palavra de ordem revolucionária: “Todo o Poder aos Sovietes!”. Nesse período também elaborou dois importantes documentos: Teses de Abril e As tarefas do proletariado na presente revolução.

Lênin deixou claro que não acreditava na possibilidade da implantação imediata do socialismo e que
seria necessário um período de transição mais ou menos longo

“Na Rússia”, escreveu ele, “o poder de Estado passou para as mãos de uma nova classe, a saber, da burguesia e dos latifundiários que se tornaram burgueses. Desta forma a revolução democrático-burguesa está consumada (...) A característica principal de nossa revolução (...) é a duplicidade de poderes (...) Esta circunstância excepcionalmente original, sem precedente na história da humanidade, levou ao entrelaçamento de duas ditaduras: a ditadura da burguesia (...) e a ditadura do proletariado e dos camponeses (o Soviete de deputados operário e soldados)”.

Ele tinha plena consciência da instabilidade dessa situação e dos perigos, e possibilidades, que ela colocava diante do proletariado. “Não há sombra de dúvida”, afirmou, “de que esse ‘entrelaçamento’ não está em condições de se sustentar por muito tempo. Não podem subsistir dois poderes num mesmo Estado. Um deles precisa desaparecer”.

No entanto, deixou claro não acreditar na possibilidade de implantação imediata do socialismo e haver a necessidade de um período de transição mais ou menos longo, dependendo de uma série de fatores objetivos e subjetivos. “Nossa tarefa imediata não é a ‘introdução’ do socialismo (...) O partido do proletariado não pode propor-se, de forma alguma, ‘estabelecer’ o socialismo num país de pequenos camponeses enquanto a grande maioria da população não tiver tomado consciência da necessidade da revolução socialista”, escreveu ele.

Ainda em abril escreveu o artigo Sobre a Dualidade de Poderes, em que contestava aqueles que pretendiam derrubar imediatamente o governo provisório. O governo devia ser derrubado por ser oligárquico e burguês, mas isso não poderia ser realizado em curto prazo, pois ele ainda tinha apoio dos Sovietes e de parte significativa da população.

O Comitê Central bolchevique de Petrogrado rejeitou as teses de Lênin. Na maioria dos comitês, a nova tática proposta foi recebida com desconfiança. A respeito das sucessivas derrotas sofridas, Sukhanov escreveu: “a massa do partido eleva-se contra Lênin para defender os princípios elementares do socialismo científico tradicional”. Bogdanov comentou: “É um delírio, o delírio de um louco”. Goldenberg afirmou irônico: “Durante muitos anos, o lugar de Bakhunin na revolução russa tinha estado vazio; agora, foi ocupado por Lênin”. Kamenev, importante líder bolchevique, resistiu em publicar os artigos de Lênin. O primeiro deles acabou saindo em 7 de abril com o título Sobre os objetivos do proletariado na revolução atual.

Alguns velhos bolcheviques estavam presos a esquemas enrijecidos. Ao contrário do que pensavam, não aplicavam as teses presentes em Duas táticas da social democracia na revolução democrática – escrita por Lênin em 1905 –, mas sim recuavam para a posição esquemática predominante na II Internacional, que encarava a revolução como uma sucessão de etapas rígidas, estanques, sem comunicação entre si. Segundo essa concepção, seria preciso um longo período de desenvolvimento capitalista, sob o domínio político burguês, para que se pudesse avançar a uma segunda etapa socialista. Tese rejeitada por Lênin desde 1905.

Lênin, buscando novamente esclarecer suas reais posições, escreveu uma série de cartas. A primeira intitula-se Análise da situação atual. Nela, defendeu a justeza da estratégia e da tática bolcheviques aplicadas até a revolução de fevereiro. “Desde a revolução”, escreveu, “o poder está nas mãos de uma classe diferente, uma classe nova, isto é, a burguesia (...) A este nível, a revolução burguesa, ou democrático-burguesa, está concluída (...) As palavras de ordem e idéias bolchevistas, no seu todo, têm sido confirmadas pela história; mas, concretamente, as coisas resultaram de forma diferente; são mais originais, mais peculiares, mais variadas do que se podia ter esperado (...) ‘A ditadura revolucionária e democrática do proletariado e campesinato’ já se tornou uma realidade”. No entanto, “temos lado a lado, coexistindo simultaneamente, a regra burguesa (...) e uma ditadura revolucionária e democrática do proletariado e campesinato que vai cedendo voluntariamente poder à burguesia, tornando-se voluntariamente um apêndice da burguesia”. E concluiu: “Este fato não se enquadra nos velhos esquemas”.Novamente ele se defendeu da acusação de querer saltar etapas na revolução. “Mas não estamos nós em perigo de cair no subjetivismo, de querer chegar à revolução socialista ‘saltando’ sobre a revolução democrático-burguesa – que ainda não está concluída e nem esgotou o movimento camponês? Eu poderia incorrer neste erro se dissesse: ‘Não ao czar, sim a um governo operário’. Mas, eu não disse isso (...) Afirmei que não pode haver outro governo (exceto um governo burguês) na Rússia que não seja o dos Sovietes de Deputados operários, trabalhadores rurais, soldados e camponeses (...) E nestes Sovietes (...) são os camponeses, os soldados, isto é, a pequena burguesia, que tem preponderância, para usar um termo científico, marxista, uma caracterização classista (...) Nas minhas teses, precavi-me seguramente a fim de não saltar sobre o movimento camponês (...) ou sobre o movimento pequeno burguês em geral, contra qualquer brincadeira de ‘tomada do poder’ por um governo operário, contra qualquer tipo de aventureirismo blanquista (...) O controle sobre a banca, a fusão de todos os bancos num só, não é ainda socialismo, mas passo rumo ao socialismo”.

O “desenvolvimento pacífico da revolução” e o problema da transição ao socialismo

Lênin passou os meses seguintes, pacientemente, esclarecendo suas posições para o conjunto da militância partidária. A crise político-revolucionária recrudesceu com as sucessivas derrotas militares russas e Lênin conseguiu enfim impor sua posição ao conjunto do Partido.
No dia 18 de abril o ministro de negócios estrangeiros do governo provisório lançou uma nota acintosa afirmando que “o povo desejava continuar a guerra até à vitória total”. Dois dias depois mais de 100 mil manifestantes saíram às ruas contra essa declaração. Um grupo de bolcheviques chegou a levantar a palavra-de-ordem “abaixo o governo provisório!”.

Isto contrariava frontalmente a tática apregoada por Lênin. Escreveu ele: “Dissemos que a palavra de ordem ‘Abaixo o governo provisório!’ era aventureira, que agora não se podia derrubar o governo e, por isso, lançamos a palavra de ordem de manifestação pacífica. Só queríamos fazer um reconhecimento pacífico das forças do inimigo, sem lhe dar combate, mas o Comitê de Petersburgo virou um pouco mais para a esquerda, o que neste caso é, naturalmente, um gravíssimo crime (...) No momento da ação era despropositado ir ‘um pouco mais para esquerda’”. Imediatamente o governo e as forças conservadoras acusaram os bolcheviques de serem agentes do governo alemão. A onda reacionária foi tão forte que levou à efetuação de um amplo acordo no interior dos Sovietes: os bolcheviques lançariam uma nota desmentindo as acusações e a direção dos Sovietes exigiria a retirada da nota do ministro. O incidente acarretou sua demissão do ministério. Esta foi a primeira grave crise do governo provisório. Lênin criticou a vacilação da direção dos Sovietes que poderia ter se aproveitado da crise para exigir que todo o poder fosse transferido para ela e assim conduzir a revolução por um caminho menos traumático, através da constituição de um governo efetivamente operário e popular ainda que sob hegemonia dos mencheviques e social-revolucionários.

Na 7ª Conferência dos bolcheviques, iniciada em 24 de abril, as posições de Lênin foram vitoriosas. Ratificou-se a tática de “desenvolvimento pacífico da revolução”, expressa na palavra-de-ordem “Todo poder aos Sovietes!”. Rejeitou-se também a consigna “Abaixo o governo provisório!”.
Outro ponto de divergência era quanto à existência ou não de uma fase de transição na revolução russa, que conduziria ao socialismo. Neste ponto Lênin condenou, novamente, a tese que afirmava ser preciso passar diretamente para o socialismo, sem etapas intermediárias – sem nenhum processo de transição.

Lênin criticou a vacilação da direção dos Sovietes que poderia ter se aproveitado da crise para exigir que todo o poder fosse transferido para ela e assim conduzir a revolução por um caminho menos traumático, através da constituição de um governo efetivamente operário e popular

A resolução aprovada afirmava: “o proletariado da Rússia que atua num dos países mais atrasados da Europa, no meio de uma imensa população de pequenos camponeses, não pode propor-se como fim a realização imediata de transformações socialistas”. E, em seguida, apresentou o programa desta “transição ao socialismo” na Rússia pós-fevereiro: nacionalização da terra, o controle do Estado sobre os bancos – e a sua fusão num banco central único –, controle sobre os maiores consórcios capitalistas, sistema mais justo de impostos progressivos sobre rendimentos e bens. Mesmo na aplicação dess medidas, ainda não socialistas, seria necessário “uma extraordinária prudência e precaução”, pois seria preciso “conquistar uma sólida maioria da população e conseguir a sua convicção consciente na preparação prática desta ou daquela medida”.

A ofensiva reacionária e o fim do desenvolvimento pacífico

No final de junho a situação se tornou desesperadora após sucessivas derrotas do exército russo. A mortandade nos campos de batalha e a fome adubaram o solo da revolução. Finalmente alguns regimentos decidiram pôr abaixo o governo provisório.

Os bolcheviques desaconselharam a rebelião, afirmando que as condições ainda não estavam maduras. No entanto, a situação havia fugido do controle. Os operários também estavam agitados e aderiram ao movimento. Não podendo impedi-lo, sob pena de se isolar das massas avançadas, decidiram participar transformando-o numa manifestação pacífica – evitando assim provocações desnecessárias.

Entre 3 e 4 de julho ocorreram manifestações de caráter revolucionário que reuniram cerca de 500 mil pessoas. O movimento foi reprimido à bala pelo governo de Kerensky. Nos choques morreram centenas de pessoas.

As forças conservadoras não perderam tempo e passaram à ofensiva contra os bolcheviques. Lênin foi obrigado a se refugiar na Finlândia. Os jornais bolcheviques foram fechados e o Partido passou para a clandestinidade. Temerosa, a direção dos Sovietes capitulou. O duplo poder se esvaiu. O único poder passou a ser o governo provisório e este rapidamente se transmutou num regime assentado nas forças militares reacionárias. A revolução passava, segundo Lênin, por mais uma “viragem histórica” que exigia uma nova tática.

Lênin escreveu: “Todas as esperanças de um desenvolvimento pacífico da revolução russa se desvaneceram definitivamente. A situação é esta: ou a vitória da ditadura militar ou a vitória da insurreição armada dos operários (...) A palavra de ordem da passagem de todo o poder aos Sovietes foi a palavra de ordem do desenvolvimento pacífico da revolução possível em abril, em maio, em junho e até 5-9 de julho, isto é, até o poder passar de fato para as mãos da ditadura militar”.

No artigo A propósito das palavras de ordem, escrito poucos dias depois da vitória da contra-revolução, Lênin voltou ao tema: “A palavra de ordem de passagem de todo poder aos sovietes foi justa durante o período passado de nossa revolução” no qual “reinava a chamada ‘dualidade de poder’ (...) Eis o que garantia a via pacífica de desenvolvimento (...) E isto teria sido o mais fácil, o mais vantajoso para o povo. Tal caminho seria o mais indolor e por isso mesmo era preciso lutar por ele com toda energia (...) A via pacífica do desenvolvimento da revolução foi tornada impossível. Começou a via não-pacífica, a mais dolorosa”. Assim, os bolcheviques abandonaram a consigna “todo poder aos sovietes!” e a insurreição começou a ser preparada.

Aqui cabe uma advertência: o denominado “desenvolvimento pacífico da revolução”, apregoado por Lênin, não tinha nenhuma relação com a tese de “via pacífica para o socialismo”, defendida pelas correntes reformistas. Não se confundia com a gradual conquista do poder através da institucionalidade democrático-burguesa. O pressuposto de Lênin era a existência de um duplo poder, no qual o poder operário e popular possuía força política, moral e militar reais. Era preciso construir e fortalecer uma outra institucionalidade mais avançada e mais democrática de caráter operário e popular.

Derrotados os bolcheviques, a reação burguesa voltou-se contra os Sovietes e o governo provisório. O general Kornilov, comandante-em-chefe do exército, exigiu a dissolução imediata dos Sovietes. Não conseguindo seu intento, em 25 de agosto, lançou seu exército contra Petrogrado.
Constituiu-se então um vigoroso movimento de resistência dirigido pelos bolcheviques. Kornilov foi rapidamente derrotado e preso. O governo de Kerensky se enfraqueceu e os bolcheviques adquiriram grande autoridade moral e política.

O crescimento do Partido bolchevique foi assustador e ele passou a dirigir os Sovietes de Petrogrado e de Moscou. Lênin constatou uma nova “viragem histórica” no processo revolucionário e propôs uma alteração na tática – retomando a linha do “desenvolvimento pacífico”.

(...) o denominado ‘desenvolvimento pacífico da revolução”, apregoado por Lênin, não tinha nenhuma relação com a tese de ‘via pacífica para o socialismo’, defendida pelas correntes reformistas. Não se confundia com a gradual conquista do poder político através da institucionalidade democrático-burguesa

Os compromissos e as novas perspectivas do “desenvolvimento pacífico”

Em primeiro de setembro Lênin escreveu o artigo Sobre os compromissos. Nele afirmou: “A idéia corrente que o homem de rua tem dos bolcheviques, encorajada por uma imprensa que os calunia, é de que os bolcheviques nunca concordarão com um compromisso com ninguém (...) Contudo, devemos afirmar que esta é uma idéia errada (...) A Revolução Russa está a experimentar uma viragem tão abrupta e original que nós, como partido, podemos conceder um compromisso voluntário (...) com os nossos adversários mais próximos, os partidos pequeno-burgueses ‘dominantes’, os socialistas revolucionários e os mencheviques”.

Continuou ele: “O compromisso da nossa parte é o nosso regresso à exigência de antes de julho de todo poder aos Sovietes e um governo de social-revolucionários e mencheviques responsável perante ele (...), tal governo poderia ser instalado e consolidado de um modo perfeitamente pacífico (...) e proporcionar fortes possibilidades para grandes progressos nos movimentos mundiais pela a paz e vitória do socialismo (...) uma oportunidade extremamente rara na história e extremamente valiosa (...) O compromisso equivaleria ao seguinte: os bolcheviques, sem fazerem qualquer exigência de participação no governo (...) abster-se-iam de exigir a transferência imediata do poder para o proletariado e camponeses pobres e de empregar métodos revolucionários de luta por essa exigência.

Uma condição evidente (...) consistiria na liberdade completa para propaganda e convocação da Assembléia Constituinte sem mais demora”. Mas concluiu: “Talvez isto já seja impossível? Talvez. Mas se ainda houver uma probabilidade em cem, o esforço para concretização desta oportunidade ainda valerá a pena”.

A hora da insurreição armada

Infelizmente, poucos dias depois essa situação propícia para uma transição pacífica ao socialismo já havia passado. Os mencheviques e os social-revolucionários não acataram a proposta dos bolcheviques, criando novamente um impasse no processo revolucionário. Lênin chegou a conclusão de que a insurreição armada estava na ordem do dia.

Esta posição sofreu uma dura oposição. Numa reunião do Comitê Central, em 15 de setembro, a proposta de Lênin não conseguiu ser aprovada e ele resolveu abandonar o exílio. Em outubro já estava em solo russo e na reunião do Comitê Central, ocorrida no dia10, suas posições saíram vitoriosas.
Abriu-se, então, a polêmica sobre a data da insurreição e quem a dirigiria. Para Trotsky ela deveria ser comandada pela direção do congresso dos Sovietes. Lênin defendeu que não se devia esperar, mas sim colocar a tomada do poder como fato consumado ao congresso e entregar-lhe o poder. O impasse continuou até o dia 16 de outubro, quando uma nova reunião decidiu pelas posições de Lênin.

Em sete de novembro, coincidindo com a abertura do II Congresso dos Sovietes, os bolcheviques tomaram o poder em nome do proletariado revolucionário. Mais tarde ele diria que havia sido mais fácil tomar o poder na Rússia do que dar os primeiros passos na construção da nova sociedade socialista.

•Augusto Buonicore é historiador e membro da Comissão Editorial de Princípios.

Bibliografia

Bambirra, Vânia e Santos, Theotonio dos. La estrategia y la táctica socialistas de Marx y Engels a Lenin, Ediciones Era, México, 1981.
Cruz, Humberto M. da. Lenine e o Partido Bolchevique, Seara Nova, Lisboa, 1976.
Harnecker, Marta. Estratégia e Tática, Expressão Popular, São Paulo, 2004.
Instituto de Marxismo-Leninismo/PCUS, Lenine: Biografia, Lisboa-Moscou, 1984.
Gruppi, Luciano. O pensamento de Lênin, Graal, Rio de Janeiro, 1979.
Lênin, V. I. Obras escolhidas. Volume 2, Alfa-Omega, São Paulo, 1980.
________. Cartas sobre táctica. Editorial Estampa, Lisboa, 1978.
________. Cartas desde lejos. Editorial Progresso, Moscou, 1980.
________. Teses de abril, Acadêmica, São Paulo, 1987.

EDIÇÃO 92, OUT/NOV, 2007, PÁGINAS 6, 7, 8, 9, 10, 11
Leia também:
Sobre o Imposto em Espécie - (O Significado da Nova Política e as Suas Condições)V. I. Lénine - 21 de Abril de 1921

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Desafios da democracia e da produtividade no socialismo - Entrevista de Luis Fernandes à Revista Princípios (2007) Por Adalberto Monteiro e Carolina Maria Ruy*


Entrevista com o professor Luis Fernandes, então presidente da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) [OUT/NOV, 2007], e autor do livro O enigma do Socialismo Real


Princípios – Em seu livro O Enigma do Socialismo você apresenta a opinião de que os dois maiores desafios da União Soviética foram a edificação da democracia socialista e a produtividade da economia e do trabalho. Em sua visão, quais os acertos e os erros desses dois aspectos na experiência soviética?

Luis Fernandes – Em primeiro lugar não podemos abstrair da avaliação os fortes condicionantes históricos que marcaram a experiência soviética. A teoria marxista, no século XIX, esperava que as primeiras experiências socialistas surgissem nos países mais avançados do capitalismo, porque neles a produção fabril moderna estaria mais consolidada e, com isso, a própria contradição entre o capital e o trabalho mais aguçada. Com as condições geradas pela fase chamada por Lênin de etapa do imperialismo, ou fase monopolista do capitalismo, o contexto mundial se alterou e o processo histórico levou as primeiras experiências socialistas – em particular a primeira de todas, que é a experiência soviética –, a triunfarem em países que não compunham o centro do sistema capitalista.

Antes da Revolução de Outubro de 1917, as condições da Rússia eram bem diferentes das concebidas no século XIX pela teoria marxista clássica: um país semiperiférico que combinava uma acelerada industrialização e transição para o capitalismo nas cidades – iniciada havia poucas décadas – com o predomínio de estruturas econômico-sociais pré-capitalistas no campo, onde viviam mais de 80% da população. Assim, desde o primeiro momento, para além do desafio da construção do socialismo, a URSS teve de se deparar com os desafios da contínua industrialização da sua economia e do enfrentamento com o atraso da sua capacidade produtiva. Foi uma experiência que, mesmo tendo colocado na ordem-do-dia a superação do capitalismo, o fez tendo de criar, simultaneamente, pré-condições do próprio desenvolvimento capitalista.

Deste ponto de vista, o maior êxito da URSS foi justamente o de ter viabilizado um processo de industrialização massiva e de ter sustentado durante décadas, nos marcos desse esforço de recuperação do atraso, os índices de crescimento econômico mais elevados do mundo.
Entretanto, as formas encontradas para enfrentar, nos marcos da transição socialista, os desafios clássicos do desenvolvimento acabaram por esbarrar em seus próprios limites. A opção por estatizar quase que completamente as forças produtivas e mobilizar de forma centralizada e detalhista a sua operação se mostrou adequada para promover a industrialização na fase inicial do desenvolvimento soviético, mas uma vez instalado um complexo industrial integrado e completada a etapa do crescimento econômico extensivo, estes mesmos mecanismos deixaram de promover a contínua elevação da produtividade da economia e do trabalho. A partir daí houve uma tendência declinante nas taxas de crescimento econômico e de produtividade do trabalho, e retornos decrescentes nos investimentos feitos de forma centralizada na economia soviética. Não era propriamente um quadro de estagnação, mas sim de tendência à estagnação nos marcos desse modelo de economia estatal de comando altamente centralizado.

O grande êxito desse modelo, que acabou se tornando a matriz das primeiras experiências socialistas no mundo, foi ter levado a URSS a se transformar de um país extremamente atrasado em grande potência mundial. E a grande limitação dessa experiência foi a de não ter conseguido superar as formas de seu esforço inicial de desenvolvimento e, com isso, não ter enfrentado e resolvido o problema da contínua elevação da produtividade no socialismo. Do ponto de vista da edificação democrática, mais uma vez, devemos examinar o contexto histórico específico do qual emergiu a revolução soviética. A Rússia, recém-saída do czarismo, possuía reduzida experiência de vida democrática, ainda que em termos liberais. O triunfo das encadeadas revoluções de 1917 se deu na seqüência de prolongada luta de resistência contra o absolutismo czarista, em que, progressivamente, forças políticas situadas mais à esquerda foram assumindo a liderança do processo, em meio à destruição e à crise provocadas pela Primeira Guerra Mundial. Tudo isso legou importantes limitações e barreiras para a edificação de novas formas democráticas nos escombros do antigo Império Russo.

As formas institucionais que inspiraram a construção do novo Estado Soviético – que procuravam reproduzir o que Marx havia resgatado e ressaltado na experiência da Comuna de Paris – acabaram por não ensejar a capacidade de mobilização concentrada necessária para lidar com os grandes embates militares, políticos e geopolíticos que a URSS teve de enfrentar desde o seu início. Essa situação gerou uma tendência à sobreposição dos mecanismos democráticos de tipo comunal por uma crescente fusão do partido com o Estado, onde a estrutura vertical hierárquica do Partido Bolchevique passou a nuclear o Estado, o que acabou tolhendo o potencial democrático dessa primeira experiência socialista.

Em suma, o grande êxito da URSS foi a sua própria criação e sobrevivência, e o papel transformador que ela passou a desempenhar no mundo. Destacam-se, aqui, o seu papel crucial na derrota do nazismo na II Guerra e na promoção dos processos de descolonização, a partir do seu apoio decisivo aos movimentos antiimperialistas. A URSS ajudou a moldar o mundo como nós o conhecemos ao desarticular e deslegitimar a prática do colonialismo, e ao consolidar o reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação. Isso representa um profundo e inegável legado democrático para toda a humanidade.

Contudo, o pleno desenvolvimento do potencial democrático do socialismo na URSS acabou sendo tolhido, em parte pelas circunstâncias históricas já mencionadas, em parte pela cristalização de uma leitura parcial e dogmática da própria teoria marxista, transformada em doutrina oficial de Estado.

Princípios – Em seu livro O Enigma do Socialismo você afirma que “a ausência de um exame profundo sobre os dilemas e impasses da configuração do Estado socialista pela teoria marxista acabou sendo fatal para o desenvolvimento das próprias experiências socialistas no século XX”. Então, houve uma deficiência na leitura? Ou no marxismo não há uma teoria sobre o Estado?

Luis Fernandes – Marx tem uma teoria do Estado própria e, como qualquer teoria, ela deve ser desenvolvida, não se trata de uma verdade completa e acabada. A principal contribuição de Marx para a teoria política reside justamente na associação de uma visão realista – que reconhece no Estado um órgão de dominação caracterizado pelo monopólio coercitivo e administrativo territorializado – com uma aguda compreensão do papel desempenhado por esse monopólio da violência na produção e reprodução da clivagem da sociedade em classes. Contudo, as indicações trazidas pela teoria marxista clássica do século XIX sobre a institucionalidade política de experiências socialistas que abrissem caminho para a superação desta clivagem classista da humanidade nunca foram muito detalhadas. E nem poderiam ser pois Marx e Engels não vivenciaram essa experiência e tomaram como referência a efêmera e fracassada experiência da Comuna de Paris, que se desenrolou em contexto histórico muito específico.

Nas poucas reflexões por eles desenvolvidas, procurando indicar os rumos do que seria uma sociedade socialista, já há indicações a sugerir que a simples generalização de formas de democracia direta e participativa poderia não dar conta dos dilemas da construção institucional do Estado numa transição socialista.

Princípios – Esse pode ter sido um dos motivos da derrocada da URSS?

Luis Fernandes – O não desenvolvimento da teoria marxista para lidar com os novos desafios apresentados pelas primeiras experiências socialistas certamente é um fator crucial. Estes desafios se apresentavam tanto na dimensão política, quanto econômica e cultural. Do ponto de vista econômico, a experiência soviética não logrou estruturar um novo mecanismo econômico capaz de alavancar a contínua elevação da produtividade do trabalho uma vez concluído, com sucesso, o esforço de montagem de uma base industrial abrangente. No capitalismo, esse mecanismo é a própria anarquia da produção, que obriga as empresas a buscarem a constante elevação da sua produtividade para enfrentar e desarticular suas concorrentes, a um elevado custo social. A URSS não conseguiu gerar um mecanismo análogo a essa “destruição criativa”, a não ser nas áreas de fronteira tecnológica do confronto geopolítico com o mundo capitalista: indústria bélica, indústria aeroespacial, programa nuclear etc. Fora dessas áreas, manteve-se uma grande distância entre o conhecimento gerado nos institutos de pesquisa e a sua incorporação e generalização no sistema produtivo. Em suma, não se logrou estruturar um mecanismo indutor da inovação na economia como um todo, o que acabou ensejando uma tendência crescente à estagnação econômica, como mencionei antes.

Isso contribuiu para compor um quadro de “crise de legitimação” no seio do próprio poder soviético. A legitimidade desse poder não era referida ao processo democrático da escolha dos seus dirigentes, e sim à superioridade histórica do socialismo em relação ao capitalismo. Segundo a versão de doutrina marxista então dominante, essa superioridade se materializava no desempenho econômico. Quando este começou a dar sinais de perda de dinamismo face aos novos pólos ascendentes no mundo capitalista, instalou-se um processo não só de corrosão gradativa da legitimidade do Estado soviético, como de crise ideológica de seus dirigentes. Generalizou-se um questionamento interno em relação à capacidade de superação de tal quadro, agravado pela intensificação da corrida armamentista fomentada pelo governo Reagan nos anos ’80 e que culminou na capitulação completa de Gorbachev ao final do período da perestroika. Neste ponto, a “crise de legitimação” se transformou em crise geral e resultou no desmantelamento do antigo campo socialista e na própria dissolução da União Soviética.

Princípios – Depois da derrocada, partidos e movimentos enfrentaram uma crise geral de perspectiva. Em sua opinião, em que grau houve a superação dessa crise?


Luis Fernandes – Este é um tema para debate. No meu entender, na medida em que o capitalismo socializa cada vez mais os processos de produção de riqueza, o socialismo é uma necessidade histórica cada vez mais premente para lidar com as contradições dessa forma de produção. Contudo, do ponto de vista político, o quadro ainda continua desfavorável para o socialismo como alternativa imediata. Antes, existiam dois sistemas mundiais em oposição no sistema internacional. O mundo estava polarizado por dois modelos sociais e políticos antagônicos, cada qual com o seu sistema mundial próprio. Com a derrocada do campo socialista isso deixa de existir. O que temos, hoje, são experiências socialistas isoladas, não integradas em um bloco sistêmico mundial. Nesse contexto, está no centro da agenda justamente a luta contra as profundas assimetrias geradas pelo capitalismo no sistema internacional. O que entra na ordem-do-dia para países que se confrontam com essa concentração de riqueza e poder no mundo é uma agenda de desenvolvimento nacional, de conteúdo antiimperialista em sua essência, mas não imediatamente socialista. Ocorreu uma espécie de depuração das forças socialistas – boa parte delas, na verdade, deixou de ser socialista –, muitas inclusive mudando o nome dos partidos, o que foi particularmente sentido no antigo movimento comunista. Por outro lado, pela própria lógica do capitalismo, multiplicaram-se os movimentos contra-hegemônicos. O mundo não caminhou para a unipolaridade após a derrocada do socialismo, ele caminha para uma crescente multipolaridade. Este é o contexto em que as forças que ainda reivindicam o socialismo podem atuar. Coloca-se como necessidade imediata uma agenda muito mais antiimperialista e nacional-desenvolvimentista do que propriamente socialista, embora contraditoriamente, a necessidade histórica do socialismo seja cada vez mais forte no mundo.

Princípios – Nessa linha, como você avalia a experiência de países como Cuba, Venezuela, Vietnã e China?

Luis Fernandes – São experiências distintas. Cuba vive as circunstâncias do cerco movido por uma potência à qual encontra-se praticamente encostada geograficamente. Isso impõe condições extremamente adversas e não permite que ela se envolva em experimentações tão amplas quanto as de outros países socialistas, porque o imperativo da sobrevivência é muito forte. Essas condições marcam profundamente a trajetória cubana e ressaltam, igualmente, seu sucesso. Quando se iniciaram a derrocada do antigo campo socialista e o colapso da URSS, há dezoito anos, ninguém apostava na possibilidade de sobrevivência de Cuba. Predominava a sensação de que em muito pouco tempo o socialismo cubano se dissolveria. Boa parte da legitimidade da experiência socialista de Cuba advém justamente de seu enraizamento nacional numa lógica antiimperialista.

Já o caso de China e Vietnã se dá em um contexto diferenciado, pois esses países não estão subordinados ao mesmo tipo de cerco ou a uma ameaça geopolítica tão próxima. Tanto a China, que apontou o caminho, quanto o Vietnã, que reproduziu uma política semelhante, trataram de enfrentar o desafio da produtividade que não fora adequadamente confrontado na URSS. O que marca essas duas experiências é a opção por preservar múltiplas estruturas econômico-sociais e formas de propriedade, ainda que sob o predomínio de formas socializadas, e a concorrência entre essas formas de propriedade – mesmo entre empresas estatais – como mecanismo para promover a elevação contínua da produtividade do trabalho e o desenvolvimento sustentado da economia. No que se refere ao desempenho econômico, pode-se ressaltar o sucesso de ambas as experiências, sobretudo a da China, que vem sustentando ao longo de um quarto de século índices de crescimento econômico sustentado sem precedentes. Seu desempenho é superior até mesmo ao da industrialização acelerada da URSS, que enfrentou muitas oscilações no seu crescimento econômico, sem mencionar a destruição provocada pela invasão e ocupação nazista na Segunda Guerra. A experiência chinesa, assim, apresenta lições importantes para o desenvolvimento e atualização da teoria marxista.

Já a experiência da Venezuela talvez tenha mais relevância para as forças socialistas e de esquerda que atuam em regimes democrático-liberais mais consolidados. A Venezuela procura empreender um processo de transição para o socialismo conduzido inteiramente dentro da legalidade democrática. Seu projeto é o da conquista e preservação da hegemonia dessa perspectiva transformadora nos marcos do que é, em última instância, um Estado de direito burguês. Esta é uma experiência em curso, e não se pode dizer ainda qual será o seu desenlace. Entretanto, para as forças socialistas atuantes na maior parte do mundo, talvez ela seja portadora uma lição política mais abrangente, mostrando ser possível acumular forças e estruturar um projeto transformador contra-hegemônico combinando mobilização de massas e atuação política nas instituições representativas de Estados democrático-liberais. Em circunstâncias históricas diferentes, é esse mesmo caminho que vimos trilhando no Brasil e em outros países da América Latina.

Princípios – Que perspectiva você vê hoje para o avanço do projeto socialista?

Luis Fernandes – Penso que o projeto socialista tem de se enraizar nos principais movimentos de contestação e questionamento dos interesses e forças hoje dominantes no mundo. Uma vez que está na ordem-do-dia, nos países em desenvolvimento, uma agenda eminentemente antiimperialista e de promoção do desenvolvimento nacional, as forças socialistas têm de se enraizar nacionalmente, a partir de suas particularidades históricas, para se constituírem na força mais avançada de luta contra essas iniqüidades e, a partir daí, serem as maiores promotoras dos projetos nacionais de desenvolvimento. Para mim, esse é o grande desafio, sobretudo em países em desenvolvimento como o nosso. Essa é a grande agenda que pode abrir caminho para transformações socialistas no mundo.

Temos, ainda, a referência dos importantes sucessos alcançados pelas experiências socialistas que mencionamos antes. Embora sejam experiências socialistas isoladas, elas têm grande repercussão e impacto no mundo, sobretudo a China. Mas acredito que o principal é encontrar, no curso da vida política de cada país, o caminho para acumular forças e viabilizar transformações mais amplas. Mesmo tendo outras referências, cada país tem de enraizar a alternativa socialista nas particularidades da sua formação econômico-social nacional.

Adalberto Monteiro é o editor de Princípios e Carolina Maria Ruy é secretária de redação (interina).

EDIÇÃO 92, OUT/NOV, 2007, PÁGINAS 32, 33, 34, 35, 36

7 de Novembro, aniversário da Revolução Socialista - Portal Vermelho

7 de Novembro, aniversário da Revolução Socialista - Portal Vermelho

Há 94 anos, triunfava a Grande Revolução Socialista na velha Rússia dos Czares, sob a direção do Partido Bolchevique de Lênin. Foi o mais importante acontecimento da história da humanidade. Pela primeira vez o proletariado, unido às demais camadas populares, principalmente o campesinato, tomou o poder político e iniciou a construção do poder dos trabalhadores e da sociedade socialista.

Por José Reinaldo Carvalho*

A Revolução russa de 1917 confirmou a tese de Marx e Engels, baseada na análise científica da sociedade e da história, de que o capitalismo não é eterno. Sob o influxo de contradições antagônicas, num dado momento a evolução econômica e política da sociedade apresenta inevitavelmente questões agudas e têm lugar situações revolucionárias, as quais, num quadro de amadurecimento das condições subjetivas, resultam na vitória da revolução.

Foi a confirmação da opinião de Lênin, de que, com a passagem do capitalismo à etapa imperialista, abria-se a época da revolução socialista, devido ao amadurecimento das contradições objetivas: entre o proletariado e a burguesia, entre o imperialismo e os povos e nações oprimidos, além das contradições entre as potências imperialistas pelo domínio do mundo.

A Revolução Socialista de 1917 mudou a face do mundo. Foi extraordinária a sua influência política e ideológica. A União das Repúblicas Socialistas Soviéticas foi a força principal na vitória sobre a maior e mais agressiva potência militar da burguesia imperialista – a Alemanha hitlerista. A vitória do socialismo estimulou as lutas dos trabalhadores no mundo capitalista, obrigou a burguesia a fazer concessões ao movimento sindical e operário. O século 20 foi fortemente marcado pelo socialismo vitorioso na União Soviética e sob a influência desta foi transformado no século das revoluções anti-imperialistas, democráticas, populares e socialistas. O século das lutas pela libertação nacional e social dos povos, das lutas anticoloniais, democráticas, pela paz e a justiça, objetivos estes que se confundem com os grandes valores e ideais da Grande Revolução Socialista de Outubro.

A principal lição que ficou de 1917 foi a de que somente a revolução pode abrir caminho à conquista da libertação, das transformações sociais e políticas progressistas. A revolução dirigida por Lênin sepultou a colaboração de classes como estratégia do movimento operário e popular.

Atualmente, os povos estão confrontados por uma brutal ofensiva do imperialismo, sobretudo o estadunidense, para impor sua dominação através do militarismo e da guerra. Nesse quadro, tornou-se uma noção corrente que o socialismo e a revolução sofreram um golpe fatal e doravante já não há chance para a luta revolucionária. Com isso ressurgem as propostas de adaptação do movimento revolucionário à ordem estabelecida.

Os comunistas, contrariamente a esse senso comum, consideram que a luta pelo socialismo continua na ordem do dia, porque corresponde a uma necessidade objetiva da evolução da sociedade. E não nos iludimos quanto à possibilidade de esse salto histórico se processar espontaneamente ou por dádiva das classes dominantes. As forças que lutam pelo socialismo têm em conta as novas condições históricas, que a revolução não será fruto de aventuras nem o socialismo pode ser construído abruptamente. O exame atento da história e da realidade contemporânea mostra que o caminho revolucionário comporta muitas etapas e a construção do socialismo será obra de muitas gerações. É preciso também ter em conta que não há modelo para a luta revolucionária e a construção do socialismo. A adoção do modelo único foi um grave erro, uma posição anticientífica.

O socialismo é universal enquanto teoria geral e aspiração de libertação da classe operária em todo o mundo. É universal enquanto transformação de uma época de opressão numa era em que a humanidade será livre e realizará suas aspirações de justiça e progresso. Mas o socialismo será resultado de uma luta multifacética de cada povo, em circunstâncias históricas e políticas bem delimitadas, o que exigirá das forças revolucionárias e do Partido Comunista de cada país a elaboração de novos e originais programas e formulações estratégicas e táticas.

A passagem de mais um aniversário do maior acontecimento da história da humanidade enseja à atual geração de lutadores pelo socialismo reflexões de sentido prático. Não está ainda plenamente configurada a correlação de forças que levará a humanidade a um novo ciclo revolucionário. Mas tampouco essa correlação de forças forma-se por geração espontânea, cabendo às forças revolucionárias adotar linhas estratégicas, procedimentos táticos e métodos de ação consoantes à necessidade de abordar, nas novas condições, a luta pelo socialismo.

Diante do capitalismo-imperialismo mundializado, da sua profunda e inarredável crise estrutural e sistêmica, atualmente em fase aguda, das políticas neoliberais, das políticas de guerra, da natureza reacionária do sistema político e econômico burguês, ganha relevo a questão: encontra-se na ordem do dia a tarefa de lutar por melhorias no capitalismo, de combater as “deformações” da globalização, ou de elaborar estratégias, táticas e métodos revolucionários que conduzam os trabalhadores em todo o mundo à luta pelo socialismo como único caminho para superar os impasses em que a humanidade está confrontada sob o atual sistema? O grande paradoxo da presente época é que o capitalismo atingiu um nível tal de desenvolvimento, um tamanho grau de expansão, que alcança todos os rincões do planeta, um grau antes inimaginável de desenvolvimento de suas capacidades, mantendo sua essência de perseguir o lucro máximo, o que obtém através da exploração e opressão das massas trabalhadoras e da espoliação das nações dependentes. O capitalismo dos nossos dias beneficia apenas as grandes burguesias parasitárias dos países imperialistas e suas dependências. É, assim, inevitável a eclosão de lutas, em que os fatores de classe se entrelaçam com os nacionais. É nesse contexto que ressurge em nossos dias a luta pelo socialismo.

Nesse quadro, apresenta-se perante os comunistas e demais correntes da esquerda revolucionária consequente a questão de construir um sujeito político capaz de unir, mobilizar e organizar o povo em suas dimensões estratégica e tática.

Do ponto de vista dos comunistas, é imperioso persistir no fortalecimento político, ideológico, orgânico, eleitoral e de massas do partido. Em momentos de profunda crise do capitalismo e em que as saídas da burguesia monopolista-financeira e do imperialismo são cada vez mais antidemocráticas e belicistas, o PCdoB deve ter nítido o horizonte socialista, consolidada a sua identidade comunista e reforçados os seus laços com as massas populares e trabalhadoras. Quaisquer que sejam os procedimentos táticos necessários à acumulação de forças e por mais flexíveis que os comunistas devam ser na concertação de alianças amplas para alcançar vitórias parciais, mais ainda deve afirmar-se o caráter revolucionário da nossa estratégia e o perfil político e ideológico do PCdoB.

*José Reinaldo Carvalho é Secretário nacional de Comunicação do PCdoB e editor do Vermelho

Revolução Russa de 1917 - textos de combate - Trotskismo ou Leninismo? Stalin

Paulo Vinícius da Silva

Como parte da minha celebração pessoal do 94º aniversário da Revolução de 1917, espantei-me ao observar o domínio praticamente inconteste do conluio entre imprensa burguesa e o trotskismo no balanço histórico da Revolução Russa. A bem da verdade, e para questionar esse raro mas ilustrativo consenso histórico proclamado pela aliança da imprensa monopolista, acadêmicos e trotskistas, cumpre-nos divulgar, em especial para os jovens revolucionários, o excelente texto Trotskismo ou Leninismo?, de Iosif Stálin, que lança importantes luzes sobre a matéria do papel das individualidades na revolução de Outubro, com base em fontes do CC do Partido Bolchevique de então, com acurada análise política.

O texto é um bom antídoto para não cair em mais essa armadilha ideológica que o capitalismo urdiu para atacar o movimento comunista e seus mais importantes líderes. Como é sabido, a burguesia gosta é de revolucionário derrotado e morto. Se escapou e venceu, é forte candidato a posar do lado do Hitler - até mesmo quem o venceu.

Troskismo ou Leninismo mostra por dentro a revolução, seu imenso trabalho político e organizativo coletivo, sob a liderança de Lênin, desmontando a farsa trotskista que ainda hoje perdura, nessa época marcada pela reação. A farsa do "vice" Trotski, que seria o braço direito de Lênin. Vejamos sem preconceitos a cristalina análise no texto que avalia em profundidade as mentiras de Trotski, sua habilidade discursiva e os dados reais da Revolução de 1917,


Trotskismo ou Leninismo? Joseph Stalin

Para os que desejarem fontes mais "isentas", sugiro a leitura do livro O Jovem Stalin, de Simon Sebag Montefiori (Companhia das Letras), que de isento não tem nada, pois não pode haver isenção em temas de tal magnitude.

É, em verdade, um intento malogrado de detratar o insigne revolucionário georgiano, que esbarra inelutavelmente nas fontes históricas. Ao ter de percorrer a origem humilde, a obstinação e a perseverança, a combatividade e o destemor do líder georgiano, o autor, sem querer, teve de assumir inúmeros méritos silentes sobre a trajetória e o papel fulcral de Stálin na construção do partido Bolchevique, no apoio à liderança de Lênin e na Revolução Russa.

No fim das contas, Montefiore até zomba da mitificação autoproclamada de Trotski em face de seu suposto gênio, que segundo somente ele - o Partido não aceitou nunca - deveria fazer de si o sucedâneo de Lênin. Leiamos à página 400:

"Os historiadores costumam seguir  versão de Trotski (totalmente preconceituosa, mas soberbamente escrita) dos eventos e afirmam que Stálin "perdeu a revolução", porém isso não se sustenta diante do menor escrutínio. Ele não foi o astro do dia, mas perdeu uma atribuição militar porque estava ocupadíssimo com os jornais empastelados, e não porque fosse politicamente insignificante [ Kerenski empastelara os jornais da imprensa bolchevique às vésperas da revolução e Stálin teve de entrar em ação para sanar o problema urgente. Nota do PV]. Longe disso: Trotski admite que "o contato com Lênin era feito rincipalmente através de Stálin", papel dificilmente sem importância (embora ele não consiga resistir a acrescentar, "porque ele era a pessoa de menos interesse para a polícia"). Essa "perda da Revolução" de  Stálin não durou mais do que algumas horas diurnas do dia 24, ao passo que o golpe [ vejam o sinal de classe claro na obra do autor. Nota do PV] se estendeu, na verdade, por dois dias. Ele esteve nos jornais durante toda a manhã. Depois, foi chamado por Lênin (...)"

E o autor segue a narrar os inúmeros papéis de Stálin, seja enquanto ponte entre um Lênin em clandestinidade e com a vida em risco e suas relações com o Comitê Militar Revolucionário e o Partido; seja como um dos principais porta-vozes do Partido no Congresso dos Sovietes reunido no Smolni, em que deu garantias da mobilização militar, do domínio dos correios e da imprensa, por exemplo.

Mais adiante, o autor tratará do papel que Stálin cumpriu na própria garantia de vida de Lênin e na sua chegada ao Smolni para a deflagração da Revolução de Outubro. de fato, o que faltou a Stálin não foram tarefas decisivas, mas sim a insaciável predileção aos holofotes de Trotski. Afinal, Stalin foi o que ficou na Rússia para dirigir e construiu o Partido que liderou a Revolução. Não estava em Hollywood, fazendo figuração de filmes como Trotski, mas em sucessivas prisões e ações de toda sorte, enfrentando a luta clandestina pelo socialismo desde tenra juventude.

Por fim, sugiro leitura de obra corajosa, brilhante e fundada em sólida e vasta literatura: Stálin, história crítica de uma lenda negra, do filósofo italiano Domenico Losurdo, imperdível para quem não se contenta com a profundidade e isenção historiográficas tão uníssonas quanto críveis como são The History Channel e a infindável fileira de agrupamentos trostkistas. Nada estranho, pois, quanto a esses, salvo raras exceções, sua ausência de importância histórica e de liderança de massas jamais lhes diminuiu a hostilidade contra a unidade do povo, o anticomunismo visceral e a boa vontade com que se postam como quinta coluna a serviço do capitalismo, por trás, é óbvio, de sua fraseologia revolucionária temerária.

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