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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Eleições de 2020: só une quem tem voz e luz próprias. Paulo Vinícius Silva

Os desdobramentos políticos de 2020 seguem surpreendentes, como o ano surpreendente, e muitas vezes triste, que vivemos. A disputa política no campo progressista e a realidade concreta das eleições municipais ocasionaram a dispersão do campo progressista, em um momento de crescimento estarrecedor da popularidade de Bolsonaro. Diante deste pasmo, extraio algumas lições:

- O impressionante efeito de programas que fazem o recurso chegar na ponta, aos mais pobres e sua importância para a economia nacional é inegável. O Bolsa Família e o Auxílio Emergencial mostraram como a renda básica de cidadania tem um caráter salvífico, redentor, numa nação afundada na desigualdade;

- Desde a negativa de apoio de Ciro a Haddad e Manu em 2018, vemos sucessivas demonstrações de incapacidade das maiores forças políticas de esquerda entenderem que a Frente Ampla é o único caminho para vencer o bolsonarismo. Durante 2 anos de DR, ataques e demarcações de parte a parte, o cenário é soturno. Esse desacordo fundamental que cinge PT e PDT é o principal responsável pelo vácuo político no campo progressista que impulsiona a extrema direita. Bolsonaro, vendo que uma oposição - que detinha a maioria - era incapaz de unir-se, fez a frente conservadora. Deixou de demagogia, e definiu a feição de seu governo, agregando a direção de Trump, o pentecostalismo de negócios, parasitas e especuladores financeiros, grileiros, madeireiros, desmastadores e reis do gado com o "Centrão", que nada mais é que o a base conservadora mais sólida e fiável para todo tipo de trairagem e negociata contra o país.

Ora, ora. Unir seu campo e dividir o do adversário(a) é o básico em política. Enfrentar  inimigo principal é outra lição. Que preço cobrará a arrogância dos maiores partidos da esquerda brasileira? E dos demais, o que deles se espera? Que fiquem olhando os graúdos e aguardem?!

As vitórias que tivemos até agora advieram da política de Frente Ampla. O Auxílio Emergencial, O FUNDEB e a lei Aldir Blanc demonstraram o potencial de uma ação coordenada, realista, articulada, ampla e justa.

As derrotas que se anunciam também decorrem em grande medida de não termos uma política de Frente Ampla. O PT e o PSOL, em diferentes momentos e circunstâncias, e com destaque para o PT, colaboraram com a Cláusula de Barreira, ou seja: de acordo com um percentual de votos nessas eleições já tão maculadas, haverá a redução de partidos. O mesmo PT que recusa a Frente Ampla operou para que os partidos de esquerda menores que a sigla de Lula, fossem crescentemente excluídos da vida democrática. Na lógica tradeunionista, pragmática e burra, pensaram o aquilo que publicamente expressou seu dirigente nacional Breno Altman, quem em posts, digamos assim, de garoto maroto, afirma: 

"O PCdoB luta com muitas dificuldades para alcançar a cláusula de barreira em 2022. Não seria a hora de se integrar ao PT como corrente interna? Os petistas, de quebra, além da incorporação desse valoroso partido, teriam quadros como Dino e Manuela para a estratégia presidencial."

E ainda:

"A cláusula de barreira, em si, não é antidemocrática. Ao contrário: importante para impedir formação dos partidos de aluguel e fragmentação parlamentar. Mas precisa ser completada com o instituto das federações partidárias, para impedir que partidos ideológicos sejam ceifados." 

É comovente a "solidariedade"  e risível a ignorância. A sabedoria, então, ai, ai. Ora, a Cláusula de Barreira é antidemocrática por essência, e é universalmente - junto com o voto distrital - aplicada para a exclusão das minorias, da esquerda, do povo, que é excluído do jogo eleitoral. Escancara-se  assim o incômodo no PT com as posições próprias do PC e o desejo de o eclipsar. Desvela-se a burrice de quem nos constrange à cooptação, ignorando a densidade ideológica e a História, que não começou em 1980. Por outro lado, resolve um problema das classes dominantes, cujos partidos carecem desesperadamente de união consevadora, para não desaparecerem, eclipsados pela extrema direita bolsonarista. É apenas um dos episódios em que o PT erra. Longe de liderar uma ampla frente, apequena-se, fecha-se, ao tempo em que vira alvo fácil.

Desse modo, nem frente de esquerda, nem frente ampla, e sim pulverização e sinais claros de derrota nas eleições municipais, não só do PT, mas do campo progressista.

Ora, num tal cenário, que deveria fazer o PCdoB, imprensado pela esquerda e pela direita? Ser aba daqueles responsáveis pela divisão?!   Tomou para si as lições do então camarada Carlos Drummond de Andrade e disse:

Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida

Ou seja, vai pra cima, PC! No rumo do nosso centenário, fica claro que só haverá unidade se nossa voz for respeitada. Assim foi também no movimento sindical. Anos e anos dentro da CUT nos ensinaram que ou teríamos voz própria, ou não viria a unidade. Dialeticamente, só tendo voz e cara própria poderemos nesse cenário defender a unidade e a existência do PCdoB. Assim, nosso Partido, experiente, vivo, cheio de ginga e de amor ao povo brasileiro, decidiu botar para moer, e pôs. Aonde houver chance de unir, união a mais ampla possível, aonde prevaleceu a dispersão, cara própria, contar com as próprias for;cas, não ser aba  e fazer o quociente. Assim, em Porto Alegre, com Manuela; em São Luís, com Rubens; em Florianópolis com Elson (PSOL); no Rio, com Benedita (PT) e a Enfermeira Rejane (PCdoB); em Belém, com Edmilson Rodrigues (PSOL), são exemplos de um princípio de unidade, na esquerda. País afora, no entanto, a dispersão tal que fomos confrontados infelizmente com a necessidade de resistir ou fenecer. E aqui, cair, em pé ou deitado, não é opção. As almas sebosas que e frustrem, nós venceremos a cláusula de Barreira e construiremos mais 100 anos de lutas.

Essa determinação levou ao mais ousado projeto do PCdoB em eleições municipais de sua história. O Partido se desdobra, tão pobre e combatido pelos poderosos e gringos, e faz das tripas coração, mas lançou suas chapas país afora, incluindo as candidaturas a Prefeitura em 13 capitais. E assim, com ousadia e generosidade, apresenta chapas de inegáveis qualidade e representatividade. Só fera: em São Paulo, Orlando Silva e a enfermeira e bancária Andréa; em Salvador, Olívia Santana, a cara do povo e da luta; em Fortaleza, o Professor Anízio e a legendária Helena Serra Azul; em Belo Horizonte, meu ex-presidente da UJS, Wadson Ribeiro;  Curitiba (PR), com Camila Lanes e Dr. Zequinha;  Maceió (AL), com Cícero Filho e Maria Yvone; Manaus com Marcelo Amil e Dora Brasil, e Natal com Fernando Freitas e Joana Lopes; Porto Velho (RO), com Samuel Costa, e em Vitória (ES),  Namy Chequer.

Em cada cidade, o Partido se desdobra em ampliar sua influência social, enfrentando as barreiras e a pandemia, com o foco em três questões: a nossa própria contribuição para tornar nossas cidades mais humanas,  na nossa independência e existência, superando o quociente eleitoral, ter voz ativa na eleição e lutar pela vitória do campo progressista. Assim, criou o Movimento 65, e precisa de plataformas ainda mais amplas para construir as múltiplas escadas que levam o povo da luta cotidiana até a consciência avançada. O PCdoB precisa se dirigir diretamente ao povo para crescer e poder influenciar mais fortemente os destinos do país, por mais do que nunca o Brasil precisa do PCdoB. Não temos dinheiro, mas temos vontade, verdade, a cara do povo, e sabemos como cuidar bem das pessoas, da política e dos dinheiros públicos. E o povo precisa saber.

A partida começou. Haverá uma derrota universal? Poderemos nos unificar em torno das candidaturas frente amplistas e vencer no segundo turno? Haverá cabeças de lança que ampliem nossa liderança e alcem nossa voz. Tudo depende da política, contato e do voto. Tenho muita esperança que as vozes comunistas nas eleições municipais ajudarão às vitórias do povo. Isso se fará, entretanto, na medida exata de resistirmos firmes, e fazermos um trabalho consciente, das redes às ruas, das ruas às redes e para a urna. O PCdoB, que lançou Manuela a Presidenta e que assumiu espaço na chapa nacional em 2018 na vice, que projetou Flávio Dino ao patamar de Presidenciável, é o mesmo PCdoB que falará ao nosso povo, olhos nos olhos, na metade das capitais dos estados brasileiros.

Firmeza, trabalho, método, boa política, candidatos filhos do nosso povo, teremos nossas vozes para combater o bom combate pela vida de nossa gente, nos municípios brasileiros. Imagino a felicidade ter esse direito de votar no 65, de ter esses candidatos e candidatas tão representativos, de luta, nossos camaradas queridos. E, claro, preparem o lombo, porque somos pedra e vidraça.

Unir onde pudermos unir, mas contar sempre, primeiro, com nossas próprias forças, e aprender com esse desafio que veio para ficar, as chapas e as candidaturas próprias do PCdoB. Somente com cara e voz própria é que içaremos a bandeira da vitória, a bandeira da unidade, a bandeira da Frente Ampla.

domingo, 19 de julho de 2020

Aldo Arantes: Frente de esquerda ou Frente ampla? -PCdoB



21 de agosto, 2017



Em Artigo intitulado Frente Ampla ou Frente Popular, Bruno Altman critica a política de Frente Ampla formulada pelo PCdoB.

Por Aldo Arantes*

Cita trecho do documento de preparação do Congresso do Partido onde afirma “é falsa a contradição entre golpistas e anti-golpistas, isso estreita a compreensão do cenário político” e conclui que “Não precisa de muito esforço para entender que essa chave de leitura, potencialmente, acena para a rearticulação, parcial ou completa, do esquema de alianças que prevaleceu nos governos Lula e Dilma”.

De fato aí reside a divergência central de nossas opiniões. Enquanto Altman nega as alianças feitas por Lula e Dilma considero que o erro não esteve nas alianças mas sim em não compreender seu caráter transitório. E, em função disto, não ter se preparado para quando elas não mais interessassem às partes.

As classes dominantes têm à sua a disposição o poder econômico, a mídia e outros aparelhos de formação da opinião pública. Face a esta realidade a esquerda, ao assumir o governo, deve adotar medidas visando se fortalecer para o inevitável embate de ideias entre as políticas e concepções defendidas pelo novo governo. Dentre outras medidas seria importante ter adotado políticas de democratização dos meios de comunicação e realizado debates na sociedade em torno do novo projeto de Nação que estava sendo colocado em prática.

Por outro lado não foram realizadas as reformas estruturais para aprofundar o processo democratização do estado, como a reforma política. Com isto permitiu-se a continuidade de uma representação política à base do dinheiro resultando num parlamento que aprovou o impeachment da presidenta Dilma. Isto porque o Deputado Eduardo Cunha havia comprado cerca de 200 parlamentares.

Pode-se argumentar que o governo não tinha forças para realizar as reformas estruturais. Todavia o empenho foi pequeno e não houve um debate na sociedade sobre a importância das reformas estruturais.

Ao não tomar tais medidas o governo ficou vulnerável à ação golpista. E a sociedades desarmada para entender o que ocorria. Toda grande mídia, apesar de financiada pelo governo, se voltou contra ele.

Em sua argumentação Bruno Altmam afirma que o PT, em seu 6º Congresso, não definiu sua política de alianças afirmando no entanto que “a orientação petista caberia melhor se o enunciado fosse Frente Popular”.

Ao definir o arco de alianças que considera mais adequada ressalta que seria composta pelas “forças progressistas, cujos recortes principais são a atitude frente ao golpe e a postura contra as reformas neoliberais”. E ressalta que seria um “pacto estratégico das correntes populares”.

Haveria que se perguntar: Lula sendo candidato venceria só com alianças dos setores progressistas?

Ora o que o PCdoB propõe é uma frente tática para resolver os problemas do momento a partir de uma análise concreta da conjuntura do país e não uma frente estratégica para reformar a estrutura do estado brasileiro.

Vivemos um momento de profundo retrocesso democrático, das conquistas sociais, políticas e da afirmação das soberania nacional. Para isto foi formada uma ampla aliança de forças entre o grande capital, sobretudo financeiro, a mídia e os partidos que fizeram oposição à Presidenta Dilma. A decorrência desta aliança foi a conquista da hegemonia política e de ideias com o crescimento da direita e da extrema direita.

O país enfrenta um verdadeiro estado de exceção. A Constituição formal tem sido substituída, na prática, pelas regras de interesse do neoliberalismo. O estado democrático de direito está sendo pisoteado. As reformas do ilegítimo governo Temer investem contra os direitos dos trabalhadores e o patrimônio público. Nestas condições o objetivo imediato é a união mais ampla de forças contra esta avassaladora onda antidemocrática e antinacional.

Portanto, a plataforma para enfrentar tal situação tem um conteúdo democrático, social e nacional. Deve incorporar todos os segmentos afinados com a plataforma tática, mesmo aqueles que temporariamente foram ganhos pelo golpe. Ganhar setores de centro e os segmentos menos politizados da sociedade é condição para a retomada da iniciativa política com amplas bases sociais.

Aliás é um objetivo fundamental em todo tipo de luta política: isolar o adversário e ganhar forças que o apoiam. Por isto mesmo, a aliança somente das forças progressistas está longe das necessidades que a luta política coloca no momento.

Acumulando forças, retomando a hegemonia política e de ideias estará aberto o caminho para as reformas estruturais que o país necessita. Querer colocar objetivos para os quais não temos forças necessárias é errar o alvo da luta e retardar a retomada do caminho civilizatório que o país trilhava.

Na Frente Ampla a formação de um núcleo de afinidades de esquerda deverá jogar importante papel. Esta afinidade implica em uma convergência de programas estratégico e tático.
A concepção de que a frente deverá ser das forças progressistas deixa claro que a Frente Popular, defendida pelo autor é, na realidade, uma frente fundamentalmente de esquerda que não atende ao momento político vivido pelo pais. Pois só a esquerda, com uma aliança restrita, não tem condições de abrir novos caminhos para o povo brasileiro.

Apesar da divergência de conteúdo, a forma da crítica foi respeitosa. No passado, muitas vezes as polêmicas entre setores de esquerda foram feitas de forma sectária. Mao Tse Tung destacava a existência de contradições antagônicas e não antagônicas no seio do povo e que elas deveriam ter distintos tratamentos.

Assim há se preservar a unidade em torno das lutas que nos unem. Todavia há que se fazer, sem sectarismo, a luta teórica no sentido de identificar qual o melhor caminho para a luta democrática e popular. Em última instância, será a prática da luta política que se encarregará de esclarecer qual a orientação mais ajustada à realidade.

*Aldo Arantes, deputado Constituinte de 1988. Membro da Comissão Política Nacional do Comitê Central do PCdoB

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