Carlos Lima (Caco) dirigente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, da Coordenação da CTB Bancários, empregado Caixa.
A greve dos empregados da Caixa chegou a um momento em que as perguntas ficaram mais difíceis do que as respostas oferecidas nas redes sociais e nos grupos de mensagens.
Qual é a hora de acabar uma greve? Temos força para avançar até onde? Uma greve deve prosseguir enquanto não conquistar 100% das reivindicações? Chegamos ao limite possível desta negociação ou ainda existe espaço para arrancar mais? E o outro lado ficará parado ou a Caixa reagirá utilizando os instrumentos que possui? Para perguntas complexas não existem respostas simples.
A greve está forte e foi a mobilização dos empregados que obrigou a Caixa a voltar à mesa e apresentar outra proposta. Nada caiu do céu. Houve avanços porque houve luta. Também permanecem questões importantes sem solução satisfatória.
No Saúde Caixa avançamos, mas ainda não chegamos efetivamente ao 70/30. A situação dos empregados admitidos depois de 2018, especialmente quanto à perspectiva de aposentadoria, continua exigindo resposta. A Caixa poderia avançar mais e não cabe aos trabalhadores justificar os limites estabelecidos pela empresa.
QUERER MAIS E PODER CONQUISTAR MAIS
Todos queremos mais. A questão é saber se existe força suficiente para transformar essa vontade em novas conquistas. Se uma greve somente pudesse terminar depois de conquistar 100% das reivindicações, poucas terminariam por acordo. Mas o argumento inverso também é falso: a existência de uma proposta não determina que chegou a hora de parar. Se a mobilização está forte e já obrigou a empresa a recuar, é legítimo perguntar se mais pressão poderá produzir novos avanços.
Essa é a contradição real. Encerrar pode significar consolidar o que já foi conquistado, mas também deixar de testar até onde a força atual poderia chegar.
Continuar pode significar arrancar mais da Caixa, mas também entrar numa nova etapa do conflito sem obter as respostas esperadas. Quem afirmar antecipadamente que sabe exatamente o que acontecerá estará simplificando uma situação que não é simples.
PATRÃO TAMBÉM JOGA
Greve é disputa de forças. Enquanto os trabalhadores discutem seus próximos passos, a Caixa também calcula custos, alternativas e sua capacidade de resistência. Pode entender que precisa apresentar novos avanços, mas pode igualmente endurecer, apostar no desgaste, ampliar as pressões internas ou buscar a judicialização. Uma estratégia sindical não pode considerar apenas aquilo que desejamos que o outro lado faça.
Existem ainda consequências concretas que crescem com o tempo. Cada novo dia parado amplia a discussão sobre compensação. Parcela expressiva dos empregados da Caixa exerce função gratificada. Gerentes, assistentes e demais empregados com função são trabalhadores, têm direito de fazer greve e muitos participam do movimento, mas estão submetidos às pressões próprias dessa condição. Levar esses fatores em consideração não significa defender o fim da greve; significa reconhecer que a correlação de forças não permanece congelada.
E SE A CAIXA NÃO CEDER?
Essa pergunta precisa ser respondida antes de decidir pela continuidade. Se a greve prosseguir e a Caixa não apresentar os avanços esperados, qual será o passo seguinte? Até quando continuar? Quais reivindicações serão consideradas indispensáveis para um acordo? Como enfrentar a questão dos dias parados? E, se o conflito caminhar para a judicialização, qual será nossa estratégia?
Também é preciso cuidado com a expectativa de que aquilo que não foi conquistado na mesa possa simplesmente ser obtido no Tribunal Superior do Trabalho.
O TST não é uma segunda mesa de negociação. Uma decisão judicial pode atender algumas questões, rejeitar outras e produzir consequências que não controlamos. Isso não significa renunciar ao recurso ao Judiciário quando necessário, mas significa não apresentá-lo aos trabalhadores como uma saída segura e sem riscos.
A pergunta inversa precisa ser feita com a mesma franqueza: e se encerrarmos quando ainda havia espaço para avançar? Se a greve está forte e já modificou a posição da Caixa, é possível que pressão adicional produza novas concessões no Saúde Caixa, na situação dos pós-2018 ou em outras reivindicações. Não sabemos se isso acontecerá, assim como não sabemos se a empresa escolherá endurecer. Assumir essa incerteza não é indecisão; é tratar uma luta real com a seriedade que ela exige.
LIDERAR É TAMBÉM RESPONDER PELAS CONSEQUÊNCIAS
Milhares de trabalhadores depositam confiança em suas entidades e lideranças. Por isso, quem propõe continuar a greve precisa apresentar não apenas aquilo que acredita ser possível conquistar, mas também o que fará se essas conquistas vierem. Da mesma maneira, quem considera que chegou o momento de encerrar precisa assumir que pode existir algum espaço ainda não explorado para novos avanços.
Não existe decisão sem risco nem posição sem responsabilidade. Por isso, considero um erro transformar esse debate numa competição para saber quem é mais combativo. Quem deseja continuar não é necessariamente irresponsável ou radical, assim como quem considera o encerramento não é necessariamente acomodado ou menos disposto a lutar.
A questão verdadeira é outra: o que ainda podemos conquistar, que força temos para isso e quais consequências estamos dispostos a assumir?
A PALAVRA É DA BASE
Neste momento, todas as cartas precisam estar sobre a mesa. A greve está forte, conquistou avanços e ainda existem reivindicações importantes sem solução. A Caixa pode avançar mais, mas também pode endurecer.
A continuidade pode produzir novas conquistas, mas também pode aumentar os custos e os riscos do confronto. Encerrar pode consolidar resultados importantes, mas pode significar deixar de buscar algo que ainda estava ao alcance da mobilização.
A responsabilidade de uma liderança não é prometer vitória nem esconder riscos. É apresentar aos trabalhadores as possibilidades, os limites e as consequências de cada caminho e confiar na capacidade da categoria de decidir.
A decisão pertence aos empregados da Caixa reunidos democraticamente em suas assembleias. E qualquer que seja o resultado, haverá uma responsabilidade comum no dia seguinte: preservar a unidade de quem lutou junto e continuar organizado para as batalhas que ainda virão.
Carlos Lima
Dirigente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro
Parabéns pela avaliação tão minuciosa
ResponderExcluirCegueira em setores dos funcionários da CAIXA não enxergam o momento eleitoral. Acusam ate os dirigentes sindicais de pelegos. Querem conquistar tudo mas veem que caso perdemos as eleições perderemos a CAIXA..Ou teem dúvida das intenções dos fascistas?
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