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sábado, 13 de setembro de 2008

Solidariedade à Bolívia!










13 DE SETEMBRO DE 2008 - 16h40

Durou mais de oito horas e entrou pela madrugada deste sábado (13) o encontro governo-oposição visando superar a convulsão política na Bolívia. As partes foram lideradas pelo vice-presidente Álvaro García Linera, do lado do governo, e pelo governador de Tarija, Mario Cossío, pela oposição conservadora, agrupada no Conalde (Conselho Nacional Democrático). De concreto, saiu uma espécie de trégua, e um novo encontro, na tarde de domingo.

12 DE SETEMBRO DE 2008 - 18h10


Uma ponte situada a 7 km de Porvenir [e a 30 km da fronteira com o Brasil], por onde passava um milhar de camponeses em marcha rumo a Cobija, num protesto contra a violência deflagrada pelo governador de Pando, Leopoldo Fernández: foi este o cenário do massacre de 11 de setembro na Bolívia. Os paramilitares, treinados e financiados pelo cacique de Pando, dispararam contra gente indefesa.





EDITORIAL
A decisão do presidente Evo Morales, da Bolívia, de expulsar do país o embaixador estadunidense Philip Goldberg é um sinal da gravidade da crise provocada pela oposição de direita, que quer ''derrubar o índio'', como diz, para tudo voltar a ser como sempre foi. As raízes da crise estão na eleição do primeiro presidente indígena, cuja posse em janeiro de 2006 assinalou o início de um programa de reversão dos privilégios seculares da classe dominante boliviana e seus vínculos com o imperialismo dos EUA. (Continua)


Altamiro Borges
Mídia acoberta terroristas da Bolívia
É repugnante a cobertura que o grosso da mídia hegemônica tem dado aos trágicos confrontos na Bolívia. Os serviçais da TV Globo tratam os chefões golpistas como ''líderes cívicos'' e ''dirigentes regionais'.








O presidente boliviano fez o apelo lembrando que ''no diálogo mandam

as razões e não as imposições''. ''Estarei no palácio'', disse o governador.








Gobierno de Bolivia declaró estado de sitio en Pando por violencia desatada
El Gobierno de Bolivia declaró este viernes estado de sitio en el norteño departamento de Pando, al asegurar que los violentos hechos ocurridos en las últimas horas en la capital, Cobija, y otras localidades, incluido el asesinato de 14 campesinos, constituyen "genocidio" y "crímenes de lesa humanidad".
Unasur reafirma apoyo a Evo Morales y deplora violencia en Bolivia
La Unión de Naciones Suramericanas (Unasur) expresó este viernes su apoyo a la democracia en Bolivia a la vez que deploró la violencia registrada en la nación del altiplano, desatada en las regiones gobernadas por prefectos de la ultraderecha boliviana.




A POLÍTICA DOS EUA NA BOLÍVIA
Os movimentos de um embaixador especialista em conflitos separatistas
Deputados bolivianos divulgam documento denunciando as articulações promovidas pelo embaixador dos Estados Unidos na Bolívia, Philip Goldberg, contra o governo de Evo Morales. Considerado um especialista em conflitos separatistas, Goldberg foi enviado a La Paz depois de chefiar a missão dos EUA no Kosovo, onde trabalhou para consolidar a separação e a independência dessa região, depois da Guerra dos Balcãs.

APOIO A EVO MORALES
Manifesto repudia agressões fascistas na Bolívia

Grupo de intelectuais, ativistas e lideranças de movimentos sociais e políticos de vários países do continente e da Europa divulgaram um manifesto em defesa do presidente da Bolívia, Evo Morales, e em repúdio às agressões fascistas contra a democracia. Texto denuncia "atos de vandalismo organizados pela oligarquia e grupos fascistas de Santa Cruz".
Redação - Carta Maior


Cívicos independentistas de Tarija
“Queremos guerra civil
La Epoca

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Ignácio Ramonet: Pela 1ª vez, mundo vê 3 crises ao mesmo tempo

http://www.vermelho.org.br/

19 DE AGOSTO DE 2008 - 14h35

Nunca havia acontecido antes. Pela primeira vez na história da economia moderna, três crises de grande amplitude – financeira, energética e alimentar – estão em conjunção, confluindo e combinando-se. Cada uma delas interage sobre as demais, agravando, de modo exponencial, a deterioração da economia real.
Por Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique


Por mais que as autoridades se esforcem em minimizar a gravidade do momento, o certo é que nos encontramos diante de um sismo econômico de magnitude inédita, cujos efeitos sociais, que mal começaram a se fazer sentir, explodirão nos próximos meses com toda a brutalidade. A numerologia não é uma ciência exata e o pior não costuma ser previsto, mas 2009 pode muito bem se parecer com o nefasto ano de 1929...

Como temíamos, a crise financeira continua aprofundando-se. Aos descalabros de prestigiosos bancos norte-americanos, como o Bear Stearns, o Merrill lynch e o gigante Citigroup, somou-se o recente desastre do lehman Brothers, quarto maior banco de negócios, que anunciou, em 9 de junho, um prejuízo trimestral de 2,8 bilhões de dólares. Como foi a primeira perda desde o lançamento de suas ações na Bolsa, em 1994, o resultado teve efeito de um terremoto financeiro, nos já violentamente traumatizados EUA.

A cada dia difundem-se notícias sobre novas quebras. Até agora, as entidades mais afetadas admitem prejuízos de quase 330 bilhões de dólares, e o Fundo Monetário Internacional estima que, para escapar da catástrofe, o sistema necessitará de cerca de 950 bilhões de dólares (o equivalente à metade do PIB do Brasil).

A crise começou nos Estados unidos, em agosto de 2007, com a desconfiança nas hipotecas de má qualidade (subprime) e propagou-se por todo o mundo. Sua capacidade de se transformar e se espraiar por meio da contaminação de complexos mecanismos financeiros faz com que se assemelhe a uma epidemia fulminante, impossível de controlar. As instituições bancárias já não emprestam dinheiro entre si. Todas desconfiam da saúde financeira de suas rivais.

Apesar das injeções maciças de liquidez efetuadas pelos grandes bancos centrais, nunca se vira uma seca tão severa de dinheiro nos mercados. E agora o maior temor de alguns é uma crise sistêmica — ou seja, que o conjunto do sistema econômico mundial entre em colapso.

Da esfera financeira, o problema passou para o conjunto da atividade econômica. De um momento para outro, as economias dos países desenvolvidos sofreram um desaquecimento. A Europa encontra-se em franca desaceleração e os Estados Unidos estão à beira da recessão.

O setor imobiliário é onde melhor aparece a dureza desse ajuste. Durante o primeiro trimestre de 2008, o número de vendas de moradias na Espanha caiu 29%! Cerca de dois milhões de apartamentos e casas estão sem compradores. O preço das propriedades continua a desmoronar.

O aumento dos juros hipotecários e os temores de uma recessão lançaram o setor numa espiral infernal, com ferozes efeitos em todas as frentes da imensa indústria da construção. Todas as empresas desses setores estão agora no olho do furacão. E assistem, impotentes, à destruição de dezenas de milhares de empregos.

Da crise financeira passamos à crise social. E políticas autoritárias voltaram a surgir. O Parlamento Europeu aprovou, em 18 de junho passado, a infame “diretiva de retorno”. Imediatamente, as autoridades espanholas declararam sua disposição em favorecer a saída da Espanha de um milhão de trabalhadores estrangeiros...

Em meio a essa situação de espanto, ocorre o terceiro choque do petróleo, com o preço do barril em torno de US$ 140. Um aumento irracional (há dez anos o barril custava menos de US$ 10) devido não apenas a uma demanda despropositada mas, especialmente, à ação de muitos especuladores, que apostam no aumento contínuo de um combustível em vias de extinção.

Retirando-se da bolha imobiliária, que desinfla, os investidores alocam somas colossais em contratos para entrega futura de petróleo, o que pode levar o preço do barril a algo em torno de US$ 200.

Ou seja: está ocorrendo uma “financeirizacão” do petróleo, com conseqüências como formidáveis aumentos de preços da gasolina, em muitos países, e a ira de pescadores, caminhoneiros, agricultores, taxistas e todos os profissionais mais afetados. Em muitos casos, eles exigem de seus governos ajudas, subsídios ou reduções dos impostos, com grandes manifestações e enfrentamentos.

Como se todo esse contexto não fosse bastante sombrio, a crise alimentar agravou-se repentinamente e chega para nos lembrar que o espectro da fome continua ameaçando quase um bilhão de pessoas. Em cerca de 40 países, a carência de alimentos provocou levantes e revoltas populares. A reunião de cúpula da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), foi incapaz, em 5 de junho, em Roma, de chegar a um consenso para retomar a produção de alimentos no mundo. Aqui também os especuladores, fugindo do desastre financeiro, têm parte de responsabilidade — porque apostam num preço elevado das futuras colheitas. Até mesmo a agricultura está se “financeirizando”.

Este é o saldo deplorável de 25 anos de neoliberalismo: três venenosas crises entrelaçadas. Já está na hora de os cidadãos gritarem: “Basta!”.

África do Sul: evento inédito propõe articulação progressista


Dois eventos realizados no último final de semana em Joanesburgo, África do Sul, marcaram a retomada da articulação de forças comunistas, aintiimperialistas, progressistas e de esquerda no continente. De 14 a 16 de agosto, teve lugar o seminário sobre democracia participativa, promovido pelo Partido Comunista da África do Sul e pelo Fórum Internacional da Esquerda da Suécia, ligado ao partido da esquerda do país nórdico. Participaram partidos, movimentos políticos e personalidades de 20 países africanos.





De outros continentes, além dos suecos, estiveram representados o Partido Comunista da Grécia, o Partido Comunista Cubano, o Partido Socialista Unido da Venezuela, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra - Via Campesina, do Brasil, e o Partido Comunista do Brasil, através do secretário de Relações Internacionais José Reinaldo Carvalho. No dia 17, domingo, desenvolveu-se uma reunião estritamente partidária com o sugestivo título ''Construindo uma rede de partidos progressistas, comunistas, de trabalhadores e de esquerda pela paz e o socialismo, contra o neocolonialismo e o imperialismo na África''.

O seminário sobre democracia participativa deu lugar a uma abrangente discussão sobre a situação internacional e a trágica realidade do continente africano. Blade Nzimande, secretário-geral do Partido Comunista da África do Sul, apresentou a intervenção de abertura, ressaltando o ineditismo da iniciativa no continente: ''Há numerosas razões pelas quais esta conferência é tão histórica e importante. Inicialmente porque é a primeira vez que se realiza uma conferência com esta natureza e que partidos progressistas e forças de esquerda de diferentes lugares se reúnem para discutir temas de interesse comum''.

O dirigente comunista sul-africano, em sintonia com a opinião corrente no movimento comunista internacional e compartilhada pelos comunistas brasileiros, destacou ''o fracasso do capitalismo em fazer face às necessidades da humanidade''. Nzimande afirmou que ''o sistema capitalista global encontra-se mergulhado numa profunda crise sistêmica, o que não quer dizer que o capitalismo se destruirá por si mesmo, ou que o futuro socialista chegará automaticamente. Significa – asseverou o dirigente sul-africano – que o capitalismo revela-se como um sistema bárbaro, sem respostas aos desafios de nossa época''.


Referindo-se à crise dos Estados Unidos, o líder do PC sul-africano apresentou uma opinião semelhante às conclusões do último congresso do PCdoB: ''Vivemos em um período, possivelmente longo, em que crescentemente os EUA perdem sua posição dominante no sistema capitalista mundial''. Sobre a posição política básica do PC da África do Sul e os problemas internacionais, Blade Nzimande declarou que o seu partido continua profundamente comprometido com a solidariedade internacional dos trabalhadores e com a construção de um forte movimento progressista mundial pela paz, oposto à guerra. Ele reafirmou também o engajamento do seu partido na construção no continente africano de um movimento progressista pela paz, a democracia e o socialismo.


Detendo-se especificamente na realidade da África, o dirigente do PC sul-africano enfatizou que a tarefa fundamental a enfrentar é levar adiante e completar a revolução nacional-democrática em todos os seus aspectos e dimensões. Nzimande relaciona a crise, a marginalização e o empobrecimento da África ao sistema imperialista global e à falência durante muitas décadas das elites locais baseadas numa agenda neocolonial, assim como à degeneração e em alguns casos o colapso de muitas revoluções nacional-democráticas levadas a cabo pelos anteriores movimentos de libertação.


Depois de ressaltar que a democracia representativa encontra-se em crise também na África e chamar a atenção para o correto equacionamento da luta democrática com a luta pelo desenvolvimento nacional e social, o dirigente do PC sul-africano destacou o papel central das massas populares e da luta de massas, assinalando que o objetivo estratégico é o futuro socialista, não apenas em tese, mas com visão prática. ''O socialismo é o futuro. Construamo-lo desde agora''.

O seminário aprovou a ''Declaração de Joanesburgo'', que ressalta entre outros tópicos que o continente africano tem sido e continua sendo arruinado pelos efeitos do neocolonialismo, da burguesia associada e do imperialismo, devastado por enfermidades curáveis, entre elas a malária e a tuberculose, pelo subdesenvolvimento, pela pobreza abjeta e precárias condições de vida que afetam a maioria das populações. Isto, num continente que é um repositório de abundantes riquezas minerais, além da biodiversidade e de recursos hídricos e que o sistema capitalista e as forças imperialistas continuam enriquecendo e fortalecendo um punhado de capitalistas, ao passo que alguns governantes corruptos continuam oprimindo o povo.


O documento declara ainda o apoio à libertação dos povos da África, da classe operária, das comunidades rurais e camponesas e chama as forças progressistas do continente e de todo o mundo na construção de um mundo livre do imperialismo e do neocolonialismo, luta pelo socialismo. Defende ainda a luta pela total emancipação da mulher do patriarcado, contra o obscurantismo religioso e a opressão; a luta pela solução do problema da posse da terra; a promoção da democracia participativa; a solidariedade com todos os povos que na África e em outros continentes sofrem sob a vigência de regimes repressivos. Coloca também a solidariedade com os povos latino-americanos em luta para construir alternativas, o apoio à revolução cubana, a luta contra o bloqueio e pela libertação dos cinco patriotas presos nos Estados Unidos.


Nova articulação


Finalizado o seminário, os partidos de esquerda presentes em Joanesburgo reuniram-se para criar a rede de partidos progressistas, comunistas, de trabalhadores e de esquerda da África. Falaram sobre as realidades de seus países e os problemas regionais e internacionais os seguintes partidos: Partido Comunista da África do Sul, Frente Nacional de Botswana, Partido Comunista do Egito, Partido Social Democrático de Quênia, Partido Comunista de Lesoto, Partido Democrático Progressista de Malawi, Forças Democráticas Unificadas de Ruanda, Partido Comunista do Sudão, Movimento Democrático Popular Unificado da Suazilândia, Núcleo Socialista Campala de Uganda, Frente Polisário do Sahara Ocidental, Movimento Progressista de Zâmbia, além do Partido de Esquerda as Suécia e do Partido Comunista da Grécia, da Europa e do Partido Comunista de Cuba e do Partido Comunista do Brasil da América Latina.



A reunião decidiu criar o Centro Africano de Informação e Comunicação de Esquerda como um fórum de debates e um sítio de Internet e convocar uma Conferência anual das forças comunistas e progressistas para o debate de temas políticos e ideológicos.
PCdoB saúda a África


Para o dirigente do PCdoB, José Reinaldo Carvalho, ''o acerto da decisão dos camaradas sul-africanos ao realizarem estas atividades fica evidente quando observamos os principais traços da realidade internacional – aprofundamento da crise sistêmica do capitalismo; agravamento das contradições sociais, nacionais e interimperialistas; imposição de políticas neoliberais e neocolonialistas aos países dependentes, intensificação do militarismo e da política de guerra do imperialismo; violação do direito internacional e falência do sistema multilateral.


O dirigente do PCdoB, além de participar dos mencionados eventos, dedicou-se às reuniões bilaterais com os partidos presentes e visitou importantes marcos da luta democrática do povo sul-africano: o Museu do Apartheid e a Praça da Constituição. Retorna ao Brasil nesta segunda-feira,18, impactado pela marcante experiência de reunir-se com revolucionários no continente africano. ''Devo dizer que para os comunistas brasileiros foi um aprendizado escutar tão profundas e abrangentes discussões e intervenções, o que muito enriquece a nossa experiência.



Além do mais, estar na África revolve os nossos sentimentos. Na África estamos em nosso berço, no convívio com os africanos é como se voltássemos às nossas origens, pois aqui vive a mãe de nosso povo, a Mama África. Nos povos africanos encontramos parte importante dos fundamentos da civilização brasileira, pelo que somos e seremos eternamente gratos'', afirmou.



Da Redação do Vermelho (www.vermelho.org.br)




quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Presidente Lula anuncia reconstrução da sede da UNE e da Ubes







12 de agosto de 2008









Durante ato no terreno da UNE e da UBES, na Praia do Flamengo, 132, presidente Lula assinou Projeto de Lei que reconhece a responsabilidade do Estado brasileiro na demolição da sede das entidades e participou também do lançamento da Caravana da UNE: Saúde, Educação e Cultura
Nesta terça-feira (12), às 14 horas, o presidente Lula tornou-se o segundo presidente da República a visitar a sede da UNE e da UBES em seus 70 anos de história. O primeiro — e único até então — foi João Goulart, em 1962. Lula esteve no local para assinar uma mensagem que será enviada ao Congresso Nacional, com o Projeto de Lei propondo indenização à. UNE, por ter seu prédio incendiado em 1964, e posteriormente demolido, em 1980.





"A UNE, por tudo o que fez e por tudo o que significou, jamais deveria ter sido destruída, mas sim vangloriada", declarou Lula durante a cerimônia.




A presidente da UNE, Lúcia Stumpf, afirmou: "Não foi por acaso que a UNE foi atacada em 1964, mas sim por todo o simbolismo de resistência da juventude contra a ditadura militar. O dia de hoje vai entrar para a história. Vamos reconstruir aqui a nova casa do poder jovem."




O governador de São Paulo, José Serra, que era presidente da UNE em 1964, quando a sede da entidade foi incendiada, lembrou que "a UNE foi o principal foco do ataque no primeiro dia do golpe militar de 64. O gesto de Lula, hoje, revigora este símbolo histórico."




Sergio Cabral, governador do Rio de Janeiro, afirmou que "em 2007, apoiamos a reintegração de posse do terreno da UNE. Sem violência, conseguimos garantir a devolução do terreno à entidade."




Ismael Cardoso, presidente da UBES, declarou que "este momento ficará marcado pela reparação do Estado ao movimento estudantil e que só com a rebeldia conseqüente se constrói um Brasil soberano".




Além de Serra, também estiveram presentes os ex-presidentes da UNE Aldo Arantes (61/62), Jean Marc Van der Weid (69/70), Aldo Rebelo (80/81), Wadson Ribeiro (99/01 e atual ministro interino dos Esportes) e Gustavo Petta (03/06).




O evento contou ainda com as presenças dos ministros José Gomes Temporão (Saúde), Fernando Haddad (Educação) e Edson Santos (Igualdade Social); do vice-governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão; do secretário-geral da Presidência da República, Luiz Carlos Dulci;; do presidente do Conselho Nacional de Juventude, Danilo Moreira; do secretário nacional de Juventude, Luís Roberto Cury; dos deputados federais Chico Lopes e Reginaldo Lopes; e dos senadores Inácio Arruda, Paulo Duque e Ideli Salvatti. Todos os presentes lembraram da importância do movimento estudantil para a história do País e a forma violenta como as entidades foram colocadas na clandestinidade após o incêndio criminoso de sua sede em 1964.



Praia do Flamengo, 132




O local é berço do movimento estudantil e da resistência à ditadura militar. Abrigou a sede da UNE e da UBES, de 1942 até o fatídico dia 1° de abril de 1964, quando o prédio foi incendiado como primeiro ato da ditadura militar. Em 1980, o que restava do edifício foi demolido por ordem do então presidente João Figueiredo. Catorze anos depois, em 1994, o então presidente Itamar Franco reafirmou a posse do terreno às entidades. Naquele momento, o terreno era ocupado de forma irregular por um posseiro que explorava no local um estacionamento clandestino. Apenas em 1º de fevereiro de 2007, a UNE recuperou a posse do tradicional endereço, quando, durante uma passeata, milhares de estudantes ocuparam o local onde funcionava um estacionamento ilegal e expulsaram de lá o posseiro.




A partir daí iniciou-se uma série de atos pela reconstrução da sede. A campanha Meu Apoio é Concreto, lançada pela UNE e pela UBES, tem o objetivo de angariar fundos para a reconstrução do prédio. O projeto recebeu o apoio de diversos políticos, personalidades de setores como cultura e educação e ex-lideranças estudantis.




Projeto Oscar Niemeyer




No dia 10 de agosto de 2007, data em que a presidente da UNE, Lucia Stumpf, tomou posse, e, em meio às comemorações dos 70 anos da entidade, o arquiteto Oscar Niemeyer presenteou a UNE e a UBES com uma versão atualizada do projeto, para a reconstrução da sede no terreno da Praia do Flamengo. Niemeyer idealizou um prédio com 13 andares, onde também haverá um teatro para abrigar as produções culturais estudantis e um museu de Memória do Movimento Estudantil, entre outros espaços.




Caravana da UNE: Saúde, Educação e Cultura




No mesmo dia 12, o ônibus da Caravana da UNE: Saúde, Educação e Cultura, uma parceria com o Ministério da Saúde, ligou o motor para dar início ao seu itinerário pelo Brasil. A abertura ocorreu após a cerimônia com o presidente Lula, na Praia do Flamengo.




A expedição, que terá duração de mais de três meses (até 27 de novembro), e percorrerá aproximadamente 32 mil km, visitará 41 universidades públicas e particulares dos 26 Estados, mais o Distrito Federal. Essa será a primeira vez que uma caravana da UNE passará por todos os Estados brasileiros. O ônibus da Caravana da UNE chegará nas instituições e sua equipe realizará um dia de mobilização, com eventos, debates, campanhas, como a de doação de sangue, e por fim, atividades culturais.




Para o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, "não existe democracia sem juventude. A Caravana vai discutir a saúde como um direito do cidadão e um dever do Estado".
Ao final do ato, toda a estrutura do evento seguiu até o Campus da Praia Vermelha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ponto de partida oficial da Caravana. O grupo de teatro "Tá na Rua" fez uma apresentação encerrando o primeiro dia da Caravana da UNE: Saúde, Educação e Cultura.




Amanhã (14), a Caravana seguirá para a Universidade Estácio de Sá, promovendo dois debates e atividades culturais. O primeiro deles acontecerá pela manhã, com o tema "Drogas – Legalizar ou não?".




Dia 18, a Caravana da UNE pegará a estrada em direção ao Espírito Santo.



Da redação
Foto: Ricardo Stuckert/ Presidência
As fotos de 1980 podem ser vistas em http://www.bricabrac.com.br/une1980/

domingo, 10 de agosto de 2008

Altamiro Borges: "Olimpíadas da China e lixo midiático"

9 DE AGOSTO DE 2008 - 19h02
www.vermelho.org.br

Num artigo corajoso e lúcido, o respeitado intelectual César Benjamin, que recentemente estreou uma coluna semanal na Folha de S.Paulo, desafinou o coro quase unânime da mídia burguesa na cobertura das Olimpíadas da China. “É deveras impressionante o lixo ideológico que a imprensa tem produzido ao cobrir as Olimpíadas. Em geral, os repórteres buscam sempre os ângulos mais negativos, mesmo à custa de adentrar o ridículo”, dispara logo no primeiro parágrafo, o que pode até custar o seu reduzido espaço na Folha, um jornal que se diz pluralista, mas que tem marcado a cobertura com a mais rancorosa manipulação anticomunista, típica dos tempos da “guerra fria”.

O artigo relata “coisas incríveis” transmitidas pela TV que incomodam até os críticos à esquerda da complexa experiência chinesa. “O locutor ressalta o caráter repressivo do regime, enquanto as imagens mostram, como prova disso, um grupo de guardas de trânsito e câmeras de televisão que monitoram avenidas. O locutor fala do controle do Partido Comunista sobre as pessoas, enquanto na tela aparecem torcedores que preparam uma coreografia. Manifestações com menos de cinco indivíduos são tratadas como acontecimentos épicos. Se houver um pouco maiores, é a prova de que o povo está contra o governo. Se não houver, é a prova de que a repressão é terrível”.

Já na mídia impressa, como a Folha, “repórteres monotemáticos escrevem todos os dias sobre a falta de liberdade de expressão, carregando nas tintas, para cumprir a pauta que receberam dos chefes. Se não cumprirem, serão demitidos. Defendem, pois, uma liberdade que eles mesmos não têm”. Ao final do artigo, César Benjamin apela ao bom jornalismo, mais informativo e menos deturpado. “Agora que os jogos começaram, torço para que o lixo ideológico se retraia, para que finalmente possamos prestar atenção nos atletas. A festa lhes pertence. Tomara que seja linda”.

A campanha prévia de sabotagem

O texto indignado e corajoso da César Benjamin expressa bem o sentimento das pessoas com um mínimo de senso crítico. É deplorável assistir nas telinhas o destaque dado ao discurso petulante do carniceiro George Bush, na abertura dos jogos, em defesa dos direitos humanos. Logo ele que é culpado por um milhão de mortos no Iraque invadido e dizimado; que incentiva abertamente as torturas nos campos de concentração de Guantánamo e Abu Ghraib; que banca a Patriot-Act, que restringe as liberdades democráticas nos EUA. É repugnante ouvir o italiano Silvio Berlusconi, o francês Nicolas Sarkozy e outros fascistas europeus condenando a falta de democracia na China, isto após aprovarem a abominável lei da “Diretiva do Retorno” contra os imigrantes.

Como já havia antecipado Michel Chossudovsky, professor da Universidade de Ottawa, a mídia mundial promoveu intensa campanha prévia visando sabotar a Olimpíada de Pequim. Sua última e desesperada cartada foi o vídeo do Partido Islâmico do Turkistão contendo ameaças de ataques terroristas na China. No mês de julho, dois atentados no interior foram assumidos por esta seita, “apoiada pelo Serviço de Inteligência do Paquistão, que atua em estreita colaboração com a CIA, a agência de espionagem dos EUA”. A campanha midiática contou também com as ameaças do Dalai Lama, o “pacifista” que apoiou a invasão do Iraque, e com outras manipulações grotescas. Apesar da ofensiva, a Olimpíada começou e, como diz César Benjamin, “tomara que seja linda”.

*Altamiro Borges é jornalista. Artigo publicado originalmente no Blog do Miro (
http://altamiroborges.blogspot.com/ )

Clique aqui para ler o artigo de Cesar Benjamin

domingo, 27 de julho de 2008

Juros altos: a ponta do iceberg

www.ctb.org.br


25/07/2008
João Batista Lemos




O combate ao ciclo de elevação da taxa básica de juros, a Selic, adotado pelo Banco Central (BC) e que tende a ser longo, é a tarefa mais importante para os trabalhadores nos dias atuais. Ao analisar as condições históricas, políticas e econômicas que se entrelaçam nesta questão, vemos que o Brasil vive atualmente uma situação de aberto confronto entre a elite e o povo — com fortes repercussões no mundo do trabalho.


No Brasil, apesar dos avanços democráticos ocorridos nestes anos de governo Lula, ainda vivemos uma situação que torna difícil a tarefa de fazer dos trabalhadores agentes sociais e políticos efetivos. Ou por outra: é difícil construir avanços sociais numa economia historicamente controlada com mão de ferro por uma minoria da sociedade insensível às necessidades da imensa maioria da população — o que se traduz num sistema econômico rapinesco pelo qual poucas leis fazem tanto sentido quanto a lei do mais forte.


Agora, com a inflação ameaçando sair do rígido controle da política monetária, voltam à tona velhas teses que atingem frontalmente os trabalhadores. É o caso da campanha de setores empresariais — e até de economistas com perfil progressista — que defende o corte de investimentos públicos como meio para domar a inflação. O fato é que tanto o aperto monetário do BC por meio dos juros elevados quanto o “ajuste fiscal” dos cortes em investimento atingem diretamente os trabalhadores.


Estas duas alternativas procuram descarregar nas costas dos assalariados o peso do combate à inflação. A primeira significa estancar o crescimento econômico e reprimir o consumo. Já o “ajuste fiscal” implica em cortar investimentos em estradas, ferrovias, escolas e hospitais de que o povo precisa para abastecer o superávit primário — que paga os juros e encargos da especulação financeira. Nenhuma dessas alternativas vai à raiz do problema. As duas trazem de volta, para os trabalhadores, o velho dilema: se ficar o bicho pega, se correr o bicho come.


Arquitetura social brasileira


Qual é a saída? O Brasil precisa de mais produção, de mais emprego e de mais renda para dinamizar a sua vida econômica e social e não ficar dependente do capital especulativo — principalmente o internacional. Aos trabalhadores cabe também a tarefa de exigir do governo mais investimento na produção agrícola para enfrentar a pressão externa da alta dos preços dos alimentos e estimular o mercado interno.


O consumo popular funciona como o estopim econômico de transformações sociais. Para o povo, ele é bem-vindo também por isso — a edificação de uma sociedade de consumo no Brasil trará muitos benefícios. Poderemos transformar muitos brasileiros em cidadãos, reintegrados pelo direito de exercer um poder de compra, mínimo que seja. O Estado precisa de um projeto de nação e gerenciar a produção, não a especulação.


Diagnósticos e prognósticos


Diante disso, duas questões surgem como essenciais: a geração de emprego e o estímulo ao consumo. O desemprego ainda alto precisa ser atacado com a retomada do desenvolvimento econômico e ao mesmo tempo com a valorização do trabalho. As alternativas de aperto monetário e “ajuste fiscal” ignoraram essa coisa simples de que fórmulas matemáticas não devem substituir o desenvolvimento de um povo que habita uma região cheia de riquezas naturais.


Hoje, o combate às sucessivas altas dos juros pelo BC, contrariando diferentes diagnósticos e prognósticos sobre seus males para o país, abarca diferentes setores da sociedade. Mas é preciso constatar que entre os que reprovam a política de juros altos estão os que propõem o “ajuste fiscal” — que também é nefasto para os trabalhadores. Não resta para nós outro caminho que não seja o de exigir com vigor uma mudança de rumo na condução da política macroeconômica e combater tanto o aperto monetário quanto o “ajuste fiscal”.


Assalariados pagam o pato


O desafio é transformar a indignação cada vez mais em energia para dar combate aos interesses que se beneficiam desta ciranda financeira. E uma das formas é mostrar, com consistência e profundidade, para os trabalhadores que seremos os primeiros — e os principais — a serem atingidos pela crise anunciada com a elevação dos juros. E mostrar que o “ajuste fiscal” vai na mesma direção. Se a mão pesada do BC não for detida já, em 2009 certamente haverá redução da atividade econômica, o que se desdobra em mais desemprego e achatamento salarial.Não resta dúvida: na crise, os primeiros a pagarem o pato são os assalariados.


No capitalismo, o consumo depende basicamente dos que vivem de salário e de lucro — para preservar o segundo, o primeiro precisa ser sacrificado. Trocando em miúdos: se o rico deixar de consumir caviar, muito antes vários trabalhadores perderão a condição obtida com a expansão do emprego e a elevação do salário por conta do crescimento econômico de comprar um quilo de carne.


Passos no presente


Um cenário menos sombrio para os trabalhadores depende dos nossos passos no presente, da defesa com ações concretas de um projeto de desenvolvimento com valorização do trabalho e com vocação soberana. Esta é a resposta que deve ser dada ao padrão conservador da macroeconomia brasileira. Ou seja: pensar o país estrategicamente. Esse é, sem dúvida, o fio da meada para se compreender a complexa equação econômica que define a atual situação brasileira. O pano de fundo é o papel do Estado, que dever ter um projeto de nação e agir como indutor da economia.


Para que este projeto se concretize, é preciso lutar com unidade e determinação. O Brasil não pode retroceder aos tempos em que prevalecia a política de o Estado atacar direitos dos trabalhadores, de enfraquecer o trabalho para fortalecer o capital. Ações políticas de massa Administrar o país tendo em perspectiva um novo rumo significa aferir perdas e ganhos de cada medida adotada, considerando sua escala de contextos. A busca do caminho mais curto — como é o caso desta escalada de alta dos juros para supostamente combater a inflação causada basicamente pela alta dos alimentos e das commodities, além da queda do dólar — não é a saída para melhorar as coisas.


O momento histórico do Brasil é muito rico e, por isso, propício para uma definição de rumo. Os passos que damos é que vão inventando o caminho, como no provérbio. Lógico que estamos diante de um cenário complexo. Mas, principalmente por isso, precisamos de mais ações políticas de massa. O país está completamente imerso nos fluxos internacionais de capitais especulativos e está deixando a política econômica ser determinada pelos "investidores". E isso leva o país a orientar as prioridades econômicas para o setor financeiro.


Raiz dos problemas


O país precisa de uma mudança contínua na política macroeconômica. É preciso taxar efetivamente a remessa de lucros e controlar a movimentação do capital especulativo. A liberdade total do dinheiro que entra e sai do país para se banquetear nas altas taxas de juros estipuladas pelo BC favorece somente os grandes especuladores nacionais — e, principalmente, internacionais. Há quase que um consenso de que o Brasil não pode mais dar-se ao luxo de continuar passivo diante da crise mundial, que tende a tragar para o centro do furacão as economias com pés de barro.


A hora de o Brasil enfrentar a raiz de seus problemas é agora. É um passo que, se não for dado já, mais tarde o preço a pagar será muito mais alto. Todos os sinais apontam para a exaustão do país diante de uma economia asfixiada por um prolongado e autoritário controle monetário, que continua gerando vulnerabilidade externa e mazelas sociais.


Tarefa monumental
É preciso olhar números, debater e discutir soluções. O Brasil tem, aproximadamente, 54 milhões de pobres, ou 34% dos habitantes do país. Isso corresponde a uma Itália. Desses 54 milhões, cerca de 30 milhões vivem abaixo da linha de indigência. Isso corresponde a uma Venezuela. Os 10% mais ricos da população ficam com quase metade de tudo o que é produzido no país. A metade mais pobre ganha menos do que o 1% mais rico. Virar esse jogo é uma tarefa monumental, que pode até ser dolorosa, é verdade. É, sem dúvida, uma engenharia de grande envergadura, que exige flexibilidade para fazer os objetivos encadear sempre na perspectiva da solução preconizada pelos trabalhadores, acompanhando a vida e suas nuances.


Para tanto, todos os nossos esforços devem estar a serviço da superação completa do neoliberalismo, que fez os ricos ficarem mais ricos, os pobres mais pobres, e os miseráveis excluídos até da discussão sobre a exclusão social.


Batista Lemos é Secretário adjunto de relações internacionais da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB)
www.ctb.org.br
Assista o vídeo contra a alta de juros realizado pelas Centrais Sindicais no dia da última alta decretada pelo BC no endereço abaixo:

sábado, 26 de julho de 2008

Presidiários solidários a homem que roubou queijo


www.vermelho.org.br

25 DE JULHO DE 2008 - 12h19

O desempregado Wandevergue Rosas Paiva, um pernambucano de 41 anos, foi preso na quinta-feira (17) no Recife, por furtar duas latas de queijo de um supermercado. Foi libertado na noite da última quarta-feira (23) e foi dormir na casa onde vive com a companheira Andrea e os sete filhos, no bairro de Casa Amarela, na zona norte do Recife.

"É uma emoção muito grande estar ao lado dos meus filhos. Eu não esperava nem tão cedo", disse, emocionado. "Todo mundo me ajudou. Eu queria que todos vocês do Cotel (Centro de Triagem dos detentos de Recife) voltassem para suas casas", acrescentou.

O flanelinha disse ter ficado preso em uma cela com dez homens, que, conhecendo o caso, ofereceram para ele cama e roupas. A família também foi surpreendida nesses seis dias por inúmeras doações de alimentos, roupas, fraldas e eletrodomésticos, entre outros objetos.

Um dia antes de ser solto, Wandevergue sonhou com a liberdade. "Sonhei que uma águia branca me pegava e me deixava do outro lado do muro."

Disse que estava arrependido do que fez. Garantiu que, ao chegar em casa, iria pedir perdão aos filhos. O Jornal do Commercio, do Recife, entrevistou o desempregado, que ocupa seu tempo como flanelinha nas ruas da capital pernambucana.

Leia abaixo a entrevista, publicada na edição desta sexta-feira do Jornal do Commercio.

JC – O que passou pela sua cabeça antes de entrar naquele supermercado?

Wandevergue Paiva – Passou pela minha cabeça que minhas crianças estavam sempre com fome em casa. Eu estava agoniado, aperreado. Não podia chegar em casa com as mão vazias. Estava sem trabalho, sem nada. Precisava fazer alguma coisa.

JC – Mas você entrou no supermercado pensando em roubar?

Wandevergue – Não. Eu não tinha pensamento para fazer nada disso. Entrei para pedir alguma coisa. Pedi na frente do supermercado, mas ninguém me deu nada. Tinha bebido, aí decidi fazer isso. Errei. Sei que o que fiz estava errado, mas fiz no impulso.

JC – Você se arrepende do que fez?

Wandevergue – Me arrependo muito. Mas na hora a pessoa não pensa. Quem tem filho sente. Sei que errei, mas o erro da fome é maior. Sei que Jesus viu na hora que eu ia fazer aquilo. Mas era para comida.

JC – O que você ia fazer com os dois potes de queijo?

Wandevergue – Eu ia vender. Ia oferecer paras as pessoas. Não sabia nem o valor. Ia vender por qualquer preço. Queria qualquer coisa para comprar comida para os meus filhos.

JC – Muitas pessoas fizeram doações para você e sua família...

Wandevergue – Eu só tenho a agradecer a essas pessoas. Que Deus ilumine todas essas pessoas.

JC – Como foram esses dias dentro do presídio?

Wandevergue – O pessoal me tratou muito bem. Sabiam o que tinha acontecido comigo. Fiquei em uma cela com mais uns dez presos. Eles me deram colchão para eu dormir e até roupa. Agradeci muito a todos eles. Me ajudaram muito lá dentro.

JC – E agora que você está livre de novo, o que pretende fazer?

Wandevergue – Eu quero trabalhar. Preciso que alguém me dê uma força, me dê um emprego, uma carroça, qualquer coisa para eu negociar.

Da redação, com agências

quarta-feira, 23 de julho de 2008

90 anos da revolta de Córdoba e a nova hora americana



Dois mil e oito marca os 40 anos do Maio de 1968, mas não apenas. Celebramos também o aniversário de 90 anos da Revolta estudantil de Córdoba, episódio que alçou a Reforma Universitária à condição de uma das mais importantes bandeiras do movimento estudantil latino-americano.


O que foi a Rebelião de Córdoba


Naquele junho de 1918, a Europa saía da Primeira Guerra Mundial e a Revolução Russa dava seus primeiros passos que modificariam em profundidade o planeta. Desde o fim do século 19 e o princípio do Século 20 os estudantes já tinham peso como a parcela mais ativa da juventude quanto às questões políticas (1). No Uruguai, Chile e na Argentina, iniciavam-se as movimentações pela organização gremial e em Montevidéu já em 1908 reúne-se um “Primeiro Congresso de Estudantes Americanos. Na Argentina, a efervescência estudantil se dava em meio a um momento de renovação política com a ascensão ao governo nacional da União Cívica Radical, sob a presidência de Hipólito Yrigoyen (2). Naquela quadra é que se levantaram os estudantes da Universidade de Córdoba, província dominada pela

“ 'antiga classe letrada que junto ao clero instruído e com os funcionários públicos exercia o domínio espiritual na província'. Em um país cujas universidades eram os centros de discussão, crítica, elaboração e reprodução do discurso da modernidade, a Universidade de Córdoba, se exilava dos impulsos do mundo moderno. (...) fundada em 1613 pelos jesuítas, ademais de ostentar o prestígio de ser a primeira universidade estabelecida na Argentina, mantinha em sua estrutura de poder e na organização dos estudos e conteúdos os princípios de sua fundação, apesar de desde 1858 ter passado a depender administrativamente do governo nacional”. (3)

É contra esta tríplice aliança que se levantam os estudantes cordobeses. Seu Manifesto, belo e contundente ainda cala fundo e do qual reproduzimos alguns trechos:
“As universidades têm sido até aqui (...) o lugar aonde todas as formas de tiranizar e de insensibilizar acharam a cátedra que as ditasse (...) chegando a ser assim o fiel reflexo destas sociedades decadentes que se empenham em oferecer o triste espetáculo de uma imobilidade senil. Por isso a ciência frente a estas casas mudas e fechadas, passa silenciosa ou entra mutilada e grotesca para o serviço burocrático”.

“Nosso regime universitário - mesmo o más recente é anacrônico. Está fundado sobre uma espécie de direito divino; o direito divino do professorado universitário. Cria-se a si mesmo. Nele nasce e nele morre, mantendo um distanciamento olímpico”;

“A Federação Universitária de Córdoba se levanta para lutar contra esse regime (...). Reivindica um governo estritamente democrático e sustenta que na comunidade universitária, a soberania, o direito de dar-se governo próprio radica principalmente nos estudantes. O conceito de autoridade que corresponde e acompanha um diretor ou um professor em um lar de estudantes universitários não pode apoiar-se na força de disciplinas estranhas à substância mesma dos estudos. A autoridade, em um lar de estudantes, não se exercita mandando, mas sugerindo e amando: ensinando”.

“Se não existe uma vinculação espiritual entre o que ensina e o que aprende, todo ensino é hostil e por conseguinte infecundo. Toda a educação é uma longa obra de amor aos que aprendem. Fundar a garantia de uma paz fecunda no artigo combinatório de um regulamento ou de um estatuto é, em todo caso, amparar um regime de quartel, mas não um trabalho de ciência”.

“Nos acusam agora de insurretos em nome de uma ordem que não discutimos, mas que nada tem conosco. Se é assim, se em nome da ordem querem continuar nos enganando e embrutecendo, proclamamos bem alto o direito da insurreição”.

“A juventude (...) não se equivoca nunca na eleição de seus próprios mestres. Ante os jovens não se faz mérito adulando ou comprando. É preciso deixar que eles mesmos elejam seus professores e diretores, seguros de que o acerto vai coroar suas determinações. Doravante, só poderão ser professores na república universitária os verdadeiros construtores de almas, os criadores de verdade, de beleza e de bem”.

“Na Universidade Nacional de Córdoba e nesta cidade não foram presenciadas desordens; se contemplou e se contempla o nascimento de uma verdadeira revolução que há de agrupar bem rápido sob sua bandeira a todos os homens livres do continente”.

“A juventude universitária de Córdoba afirma que jamais fez questão de nomes nem de empregos. Se levantou contra um regime administrativo, contra um método docente, contra um conceito de autoridade. As funções públicas se exercitavam em benefício de determinadas camarilhas”.

“A juventude já não pede. Exige que se reconheça o direito de exteriorizar esse pensamento próprio nos corpos universitários por meio de seus representantes”.

O Manifesto e a Rebelião dos Estudantes levaram à ocupação da Universidade e ao convite à população para assistir as aulas. A Revolta impulsionou a estruturação da Federação Universitária dos Estudantes que realizou seu primeiro congresso aquela cidade no mesmo ano. A intervenção do governo nacional respaldou as reivindicações estudantis e levou a uma Reforma Universitária que rompeu em grande medida a dominação clerical e o alijamento dos estudantes das questões acadêmicas. Estes êxitos motivam até hoje a luta pela Reforma Universitária na América Latina.


Razões da longevidade do espírito de Córdoba


A longevidade impressionante desta rebelião deve-se à afirmação política da juventude estudantil e à defesa do seu direito a participar das decisões nas universidades, na definição da educação que recebemos e ao questionamento de seu conteúdo, exigindo sua vinculação com as aspirações mais amplas de nosso povo,exigindo que a universidade seja parte das mudanças mais profundas necessárias em nossos países. Como Hugo Cancino esclarece:

“Definitivamente, o projeto desta nova geração, foi, em termos gramscianos, a criação a partir da Universidade reformada de um tipo de intelectual moderno que substituísse os sacerdotes e aos intelectuais tradicionais articulados com a oligarquia. Estes novos intelectuais deveriam criar a nova hegemonia espiritual, cultural e ética que permitisse às camadas médias e subalternas realizar a modernização das sociedades da América Latina”. (4)

Como disseram, “as batidas do coração nos advertem: estamos pisando sobre uma revolução, estamos vivendo uma hora americana”. Cumpre inquirir-nos se neste alba do século 21 se o espectro de Córdoba não deve novamente percorrer as salas de aula da América Latina na execução plena desta titânica tarefa histórica, antevista pelos heróicos estudantes de Córdoba, mas inconclusa ainda.

Uma nova hora americana


Nosso destino comum latino-americano impõe-nos tirar as devidas lições, do nosso passado, imprescindíveis ao escrever a inédita história que se descortina graças a nossas ações e lutas. Revisitar as memoráveis páginas da Revolta dos estudantes da Universidade Córdoba, inscreve-se entre as responsabilidades intelectuais de nossa geração, desafiada a intervir como nunca nas mudanças porque passa a América Latina com o advento de novas forças sociais e políticas que ascendem aos governos centrais de Brasil, Argentina, Venezuela, Uruguai, Equador, Bolívia, Paraguai, Panamá e Nicarágua, que se somaram a Cuba Socialista.


Conhecer o ideário e as repercussões deste evento transcendente surgido no país vizinho é afirmar uma contribuição original, latino americana, à concepção da universidade, plenamente vigente e necessária. Afinal, as mudanças políticas que vivemos na América Latina acenam para novas conquistas . É possível implementar mudanças de profundidade no ensino superior em nossos países, e a reforma universitária reafirma-se como bandeira de dimensão continental, vinculada à busca de projetos nacionais de desenvolvimento próprios, baseados em nossa própria história e sociedades. A integração latino-americana é o que pode dar a cada projeto nacional a sua viabilidade geopolítica e econômica, e são imensas as possibilidades de que a unidade dos estudantes num contexto favorável impulsione à construção de uma universidade mais popular e democrática, com medidas que já ocorrem no Brasil e na Venezuela, por exemplo, mas que exigem uma sistematização e um sentido unitário, como o do Manifesto de 1918.


A integração educacional dá passos largos com a construção de instituições latino-americanas, como a Universidade Pan Amazônica e a Unila (Universidade Latino Americana), que se somam à Escola Latino Americana de Medicina, em Cuba. O intercâmbio estudantil ganha um novo sentido e imensas possibilidades. A luta por Reformas estruturantes é fundamental, e entre elas e entre elas a Reforma Universitária. E a História do movimento estudantil latino-americano é clara. Aqueles que na Venezuela se opõem às universidades experimentais em defesa dos privilégios de uma universidade elitista, e os que no Brasil não percebem a importância de medidas como o Prouni, o Reuni, as cotas e a reserva de vagas, situam-se ao lado dos conservadores de todos os tempos, por medo de construir uma ampla unidade em defesa do co-governo, da ampliação do financiamento e da popularização das universidades. Mas a mudança já está em curso.

Há um espectro que ronda a América Latina, o espectro da Revolta Estudantil de Córdoba, o espectro da luta pela Reforma Universitária, que influenciou todas as gerações nos últimos 90 anos, especialmente a visão dos revolucionários sobre o que deve ser a universidade, como Che, ícone de 1968, a dizer-nos, como só ele sabia, de tão bonito e verdadeiro:

“que tenho a dizer à Universidade como artigo primeiro, como função essencial de sua vida nesta Cuba nova? Tenho a dizer-lhe que se pinte de negro, que se pinte de mulato, não só entre los alunos, mas também entre os professores; que se pinte de operário e de camponês, que se pinte de povo, porque a Universidade não é patrimônio de ninguém e pertence ao povo (...) e o povo, que tem triunfado, está até malcriado no triunfo, pois conhece sua força e sabe se perfilar, está hoje às portas da Universidade, e a Universidade deve ser flexível, pintar-se de negro, de mulato, de operário, e camponês, ou ficar sem portas, e o povo as romperá e pintará a Universidade com as cores que desejar” (5).

Leia também:

O co-governo na educação: elemento central para uma educação de qualidade


Notas:

1 - No Brasil, os versos abolicionistas de Castro Alves, estudante da Faculdade de de Direito Recife, a ousadia de Euclides da Cunha, estudante da Escola Militar do Rio de Janeiro que atira aos pés do Ministro da Guerra do Império seu sabre de estudante em protesto contra o Império são expressões da importância do protagonismo da juventude estudantil já em fins do século 19.

2 - CANCINO, Hugo. El movimiento de reforma universitaria en Córdoba, Argentina, 1918. Para una relectura de su discurso ideológico.
Disponível aqui

“Nuevos grupos sociales, las capas medias y sectores populares irrumpían en el escenario social poniendo en tela de juicio el viejo sistemas de alianzas y exigiendo la participación en el Estado y en el sistema político. Ello exigía naturalmente una reforma del sistema político, que hiciera posible la participación electoral de los sectores marginados. La Unión Civica Radical canalizó los movimientos de protesta anti olígarquíca de los nuevos grupos sociales, proyectándose como el partido de la reforma política y de la modernización”.

3 – Ibidem.

4 - CANCINO, Hugo. Ibidem.

5 - GUEVARA, Che. Discurso al recibir el doctorado honoris causa de la Universidad Central de las Villas(28 de diciembre de 1959). Disponível aqui

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Sobre a liberdade da propaganda e quando dois israelenses valem mais que duzentos libaneses.

Causa-me não raro imensa repulsa assistir o noticiário. É algo meio masoquista, mas importante porque é preciso entender como pensa esta facção poderosíssima, as grandes empresas de comunicação, em aliança com os principais fiadores do neoliberalismo no Brasil, rentistas, oligarquias, terratenentes, a direita brasileira.

E não posso esconder que sempre quis num artigo dar um retorno a tanto lixo que tenho de assistir. Acho que é muito importante que não deixemos impune tanta mentira a nos bombardear, praticamente sem opções, ante grandes e poderosas empresas especializadas em mentir. Por isto este artigo.

E mentira é também a ênfase em determinados temas e as auto-notícias, a glorificação da mídia por si mesma, um descaro em que se têm especializado, a cínica propaganda de si mesmos, mais falsa que uma moeda de três reais. Exemplo foi no dia 15 de julho, no JN, a privilegiada notícia de um tal congresso brasileiro de publicidade com declarações importantíssimas de ilustres desconhecidos. Curioso ninguém saber quem são os caras quando já estamos no terceiro dia de cobertura do tal congresso de publicidade no Jornal Nacional. Repito, publicidade.

E não sabemos quem são os caras porque o tal convescote reuniu quem sempre se esconde atrás da imagem, sem desvelar o véu de seu surgimento na cena política brasileira. Por que estes grandes veículos de imprensa têm tais posições políticas, e não outras? Por que de seus serviços ao Regime Militar, à defesa dos interesses dos EUA e a difusão de sua cultura? Por que serviram ao desmonte da Nação durante os tristes anos FHC, quando tivemos os destinos de nossa economia submetidos ao regime de cassino dos rentistas? Uma dica para entender o tema é assistir Muito Além do Cidadão Kane.1

O documentário é importante por ser o primeiro a desentranhar a nossa mídia a negar-lhe a imparcialidade que se atribui, a levá-los em conta como atores políticos com interesses muito questionáveis. O congresso em questão deve ser visto sob a mesma lupa, que permite identificar seus interesses quando saem à ribalta para defender posições tão fortes, falando de "ameaças" à liberdade de imprensa, e argumentando candidamente que:

"É a publicidade que viabiliza do ponto de vista financeiro a liberdade de imprensa e a difusão de cultura e entretenimento para toda a população".

"É a publicidade que torna possível a existência de milhares de jornais, revistas, emissoras de rádio e TV, assim como de outras expressões da mídia"2.

Ou seja, a publicidade que sustenta a grande imprensa! Agora sim tá entendido o sentido da liberdade...E tudo isto às oito e meia da noite... Pelo menos a gente não se confunde, e entende de cara que, mesmo no jornal, não se trata de jornalismo, são apenas "business".


Quando o mercado não vale mais que a vida e a verdade.

Faço um paralelo com a revolta dos comerciantes com a dita “lei seca”, que se baseia sobretudo no direito coletivo à vida, proibindo o álcool ao volante. Vemos alguns donos de bares que acham mais importante as suas vendas. A defesa disto não é ilegítima quando sabemos quem são e o porque de suas posições e o sentido que dão ao termo liberdade. Eles vivem disto. Não é diferente o tal Congresso de Publicidade. E sinceramente não me comove o fato de o Faustão ter ido lá, ou qualquer outro do "elenco", ou da folha de pagamento, nem um pouquinho.


Afinal o que interessa é o que eles defendem. E a vantagem é a comunicação fácil de que não haja nenhuma regulação a estas pessoas jurídicas e ao seu poder. Os donatários defendem naturalmente as novas sesmarias e seu caráter sagrado, e neste intento é que dizem que a publicidade não deve ter nenhuma limitação, mesmo que minta, mesmo que estimule um consumismo insano, mesmo que sujeite as mulheres a uma coisificação enojante e sedutora, mesmo que estimulando a dependência química, mesmo se utilizando de psicologia, mesmo que para crianças. E eles são tão legais que expressam uma indignação comovente ao defender que este seu poder não pode ser questionado pela cidadania nem com as melhores "intenções".


Este fenômeno é contemporâneo de outro, que mais os desespera. Ocorre que estes setores foram derrotados, e não apenas uma ou duas vezes. Eles têm uma agenda para o país. E uma péssima agenda, derrotada como a ALCA, o Alckmin, e desculpem o trocadilho, mas é compreensível que defendam não haver limites para a publicidade do álcool. Fundamentalmente, eles estão defendendo o deles. E o povo entende mais claramente que não partilha dos mesmos interesses da grande mídia. Os "formadores de opinião" babam impotentes diante da indiferença popular quanto a alguns temas que lhes são caros. Quanto a outros, o bombardeio massivo não permite dúvida, infelizmente.


Quando dois soldados israelenses valem mais que duzentos libaneses e sete brasileiros.

Na mesma edição do JN, uma matéria inteiramente pró-israelense ataca o Hizbollah, sem jamais reconhecer que este logrou importante vitória quanto ao seu reconhecimento como ator político destacado na região. Afinal, o Hizbollah é um movimento político muito forte que têm o apoio de grande parte da população libanesa, e não apenas, mas de todos os árabes. E não é à toa, pois o que não pode ser noticiado é que Israel não pôde vencer o Líbano graças à resistência de sua juventude, que organizou-se e derrotou militarmente por duas vezes o Exército de Israel, fato inédito e incontestável prova de organização e força. No episódio mais recente da invasão do Líbano por Israel, justificado pela captura de dois soldados israelenses, morreram centenas de libaneses.

Tive a oportunidade de visitar os subúrbios de Beirute e o Sul do Líbano, em uma visita de solidariedade da Federação Mundial das Juventudes Democráticas em 2007. Vi edifícios inteiros afundados até dois ou três subsolos, vi sacadas de apartamentos varadas de balas, e as imagens dos cadáveres das crianças que escandalizaram o mundo, assim como os jovens da União da Juventude Democrática Libanesa, assassinados, como os sete brasileiros vitimados pelos ataques. O destaque dado pelo JN ao tema tem lado, por isto omite todas estas barbaridades, solidários com Israel e seus soldados. Ocorre que o exército de Israel, um exército regular e o mais poderoso da região, matou crianças, atacou a população civil, inclusive brasileiros que estavam neste país irmão. Por que isto passa desapercebido na notícia?

Outro detalhe que não saiu na cobertura é que graças à Síria inúmeras vidas foram salvas em meio a este momento de grande dificuldade, inclusive brasileiros, porque foi neste país acolhedor que os libaneses e os brasileiros em fuga encontraram guarida ante a sanha assassina de Israel, que recebe a maior ajuda militar dos EUA, que detém ogivas nucleares clandestinas e mantém milhares de pessoas presas, seqüestradas, especialmente palestinos. Quando Bachar el Assad, presidente da Síria, na recente cúpula mediterrânea não cumprimenta Olmert, não cumprimenta quem deu as ordens desta chacina contra o Líbano, não confraterniza com o representante de um país que ocupa parte do Golã Sírio, onde jamais houve presença judaica. E é na Síria de Saladino que vivem mais de um milhão de iraquianos e milhares de palestinos expulsos de seus lares pela violência patrocinada pelos EUA e Israel.


Então, é surpreendente observar a vitória política do Hizbollah, que é um partido legal no Líbano, com ampla representação parlamentar, que já teve ministros e um dos três postos mais importantes do país. Tendo defendido o Líbano da agressão israelense, expulsando-os por duas vezes, agora realiza a troca de mortos de guerra, entre os quais os dois soldados israelenses, foco do jornal em questão. Sua história foi contada em detalhes, com requinte, um drama humano a que não podemos ficar indiferentes. Mas não menos indiferentes ficaríamos se nos fosse dada a oportunidade de ouvir mais sobre um "detalhe" da notícia, o de que foram devolvidos duzentos corpos de libaneses mortos por Israel. E é enojante perceber que estes duzentos libaneses – não sabemos se homens, mulheres ou crianças – são para o Jornal Nacional menos dignos de nota que os dois soldados israelenses, assim como os sete brasileiros mortos por Israel neste mesmo conflito, que não mereceram jamais a indignação global3.


E quando se trata de temas tão graves, como ficamos, diante de toda a liberdade desta meia dúzia de ricaços, como fica o nosso direito à verdade, à informação, ao outro lado da história? Não podemos permitir que nos confundam, pois o fundamentalismo da liberdade de empresa, que é a ditadura do mercado, é hoje o principal obstáculo à liberdade de imprensa.



NOTAS:

1 Assista no YouTube no endereço: http://www.youtube.com/watch?v=JA9bPyd1RKQ . Diga-se de passagem que a interdição deste documentário foi promovida judicialmente pelos tais paladino das "liberdades".

2 Para ver a matéria em questão: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL649145-10406,00-PUBLICITARIOS+QUEREM+LIBERDADE+DE+EXPRESSAO.html

3 Para ver a matéria em questão: http://jornalnacional.globo.com/Telejornais/JN/0,,MUL649153-10406,00-ISRAEL+E+HEZBOLLAH+TROCAM+CORPOS+DE+PRISIONEIROS.html

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Legalizada, CTB fez o que parecia impossível, diz Medeiros


8 DE JULHO DE 2008 - 21h45

Ao discursar no coquetel de inauguração da sede da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), realizado na noite de segunda-feira (7) em São Paulo, o secretário nacional de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho, Luiz Antônio de Medeiros, sugeriu que a legalização da CTB deve ser festejada como um grande feito. “Vocês fizeram o que parecia impossível. Em apenas seis meses organizaram uma central”, destacou o secretário.

Também presente ao ato, o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, ressaltou a importância da unidade das centrais na luta em defesa da classe trabalhadora. “Estamos irmanados pela mudança, unificando as centrais na ação em favor do povo brasileiro”, disse.

O vice-presidente da Força Sindical, Heleno José Bezerra, também fez um discurso com o mesmo sentido, exaltando o “trabalho conjunto pela unidade. Nossa unidade é o que tem de mais importante e está incomodando muita gente, pois fortalece nossas bandeiras e confere maiores possibilidades de êxito a nossas lutas”.

Outro que ressaltou a relevância da unidade foi o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo. “Sem unidade o movimento sindical é débil. Defendemos um programa comum para atuação unificada das centrais e já vemos que a unidade é possível e vem sendo alcançada na luta pela redução da jornada sem redução de salários e pela ratificação das convenções 158 e 151 da OIT”, destacou.

Conjuntura favorável

O deputado federal Aldo Rebelo (PCdoB-SP), candidato a vice-prefeito da capital paulista na chapa liderada por Marta Suplicy (PT), transmitiu o “abraço enviado pela nossa futura prefeita, que não pode comparecer” e ressaltou que a “inauguração da sede da CTB é uma demonstração da vitalidade da democracia e do movimento sindical brasileiro”.

“O momento político, marcado pelo governo de um líder sindicalista, é favorável às lutas e às demandas dos trabalhadores e trabalhadoras, apesar das adversidades. Louvo o esforço de construir a CTB com amplitude e unidade. Desunidos, os trabalhadores só jogam contra o próprio patrimônio. Unidade não é fácil, pois exige sacrifício e desprendimento em favor de objetivos maiores, mas é possível”, complementou o parlamentar.

O vice-presidente da UGT, Antonio Carlos dos Reis (Salin) e a dirigente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Flávia Calé, também saudaram a inauguração da sede da CTB e destacaram a necessidade de unificar os movimentos sociais na luta por mudanças.

Unidade é a chave

O presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Wagner Gomes, destacou nesta terça-feira (8), durante reunião da direção nacional da central, que a unidade das centrais sindicais é “uma questão chave para o sucesso das lutas da classe trabalhadora”.

O sindicalista apontou cinco bandeiras prioritárias da classe trabalhadora na atual conjuntura que demandam uma ação unificada do sindicalismo nacional. São elas: a redução da jornada de trabalho sem redução de salários; o fim do fator previdenciário; a Convenção 158 da OIT (que coíbe demissão sem justa causa); reforma agrária e fortalecimento da agricultura familiar; Convenção 151 da OIT (que garante o direito de negociação e organização para os servidores públicos) da OIT.

Fragilidade

Wagner salientou que, embora vivendo uma conjuntura mais favorável neste segundo governo Lula, o movimento sindical brasileiro ainda padece muitas debilidades e tem revelado dificuldades para mobilizar as bases. Isto reforça a necessidade de unificar forças nas ações concretas em defesa dos interesses dos trabalhadores e trabalhadoras.

“Nenhuma central sozinha tem força suficiente para conduzir com êxito as lutas em torno das nossas bandeiras prioritárias. A experiência mostra que quando prevalece o espírito unitário as coisas mudam de figura'', afirma.

As marchas em Brasília pela valorização do salário mínimo e a campanha unificada pela redução da jornada de trabalho são exemplos bem recentes da verdade contida no ditado popular de que a união faz a força. A unidade é o caminho para superar as fragilidades e enfrentar com mais energia os desafios do momento, segundo o presidente da CTB.

Neste sentido é indispensável fortalecer o fórum das centrais e abrir caminho para a realização de uma nova Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), com a participação de milhares de líderes e militantes dos sindicatos, para definir um programa comum de ação e uma coordenação geral das lutas.

Protesto

Além da discussão em torno da organização e estruturação da CTB, a diretoria plena também aprovou um documento da central com orientações para as eleições de 2008. O documento foi distribuído à todos os membros presentes à reunião.

Na tarde desta terça-feira, eles ainda definiram realizar protestos no dia 22 de julho, em conjunto com a Coordenação dos Movimentos Socias (CMS) onde for possível, em frente à todos as sedes do Banco Central do país. O objetivo é garantir que na próxima reunião do Copon (Conselho Político Monetário) os juros não continuem subindo.

Foi aprovada ainda uma nota de apoio à greve dos Correios e outra sobre a derrota da Convenção 158 da OIT na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados. ''A Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) manifesta sua indignação com este resultado, que representa uma vitória do lobby patronal e uma lamentável derrota da classe trabalhadora, do sindicalismo e da sociedade brasileira'', diz o texto.

Leia também sobre a reunião da direção plena da CTB:

- Em nota, CTB dá apoio total à greve geral no Peru

- Milhares de sindicatos não estão filiados às centrais

- Joílson Cardoso: patrões decretaram guerra à Convenção 158

Fonte: Da redação, com informações do Portal da CTB


Portal da CTB

Altamiro Borges: Daniel Dantas, o símbolo da privataria

8 DE JULHO DE 2008 - 22h22

Num ato inimaginável no passado, a Polícia Federal deteve nesta terça-feira o megaespeculador Daniel Dantas, dono do banco OPP (ex-Opportunity) e uma das figuras mais sinistras da onda de privatizações que varreu o país a partir dos anos 1990.

Por Altamiro Borges*

Na mesma operação, batizada de Satiagraha, a PF ainda prendeu o ex-prefeito da capital paulista Celso Pitta, o banqueiro Naji Nahas e outros envolvidos “num universo dantesco pela prática dos seguintes crimes: formação de quadrilha, gestão fraudulenta, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal”, segundo relato do jornalista Bob Fernandes. Dantas também foi acusado de tentar subornar um delegado da PF.

A prisão ocorre apenas três meses após o mafioso fechar um dos maiores negócios do mercado de telecomunicações do mundo: a venda de suas ações na Brasil Telecom e na Telemar (OI) por quase 1 bilhão de dólares. Além disso, ele obteve estranho acordo com os fundos de pensão pelo qual se livrou de todas as suas demandas judiciais.

Durante dois anos, o megaespeculador sofreu investigação da PF, numa ação conjunta com técnicos do Banco Central e da Receita Federal. A conclusão final é de que ele e Naji Nahas, rotulados pelo relatório de capos, são chefes de uma poderosa organização criminosa no Brasil, com ramificações em vários paraísos fiscais.

ACM, FHC e a meteórica ascensão

A Operação Satiagraha, nome que relembra o método da não-violência idealizado por Mahatma Gandhi na resistência indiana ao domínio britânico, consegue finalmente levar à prisão o chefão das privatizações.

Antes dela, a Operação Chacal já havia indiciado o banqueiro pela contratação da multinacional de espionagem Kroll, que bisbilhotou ilegalmente integrantes do governo Lula. Já na apuração das denúncias do chamado “mensalão”, envolvendo ministros e dirigentes do PT, o nome de Daniel Dantas ressurgiu com desenvoltura em negociatas ilícitas, o que evidenciou a contínua e impressionante influência deste megaespeculador, que ultrapassa distintos governos.

O engenheiro e economista Daniel Dantas iniciou sua meteórica trajetória capitalista na Bahia, ligado ao grupo do ex-senador ACM. Ele foi conselheiro do PFL e chegou a ser cogitado para o Ministério da Fazenda por Collor de Mello. Também foi sócio de Nizan Guanaes na agência de publicidade preferida dos tucanos.

Após fazer doutorado nos EUA, trabalhou no Bradesco. Seu banco, Opportunity, começou a operar em 1996, exatamente quando ganhou impulso a onda de privatizações desencadeada por FHC. Sua fortuna desabrocha com a criminosa privataria e com suas obscuras ligações com o poder. Pérsio Arida, ex-presidente do Banco Central, foi seu sócio.

Influente nos corredores de Brasília

Em 1988, Daniel Dantas foi acusado por favorecimento na privatização das empresas do Sistema Telebrás. As denúncias surgiram devido aos conflitos entre os fundos públicos de pensão e várias corporações estrangeiras, como a italiana Telecom e a canadense TIM, com quem o especulador mantinha íntimas relações.

Em 2000, os fundos de pensão acionaram a Justiça contra o Opportunity por manobras societárias. Ele também foi acusado por um ex-sócio, Luis Demarco, por desvio de dinheiro do fundo que geria no Caribe com capital do Citibank destinado à privatização. Através deste fundo, Dantas arrematou o controle da Tele Centro Sul, da Telemig e da Amazônia Celular.

Apesar de toda sujeira na construção do seu império, Dantas continuou influente nos corredores de Brasília. Além do setor de telecomunicações, tem investimento em mineração e agropecuária. Ele é sócio da GME4, empresa especializada em pesquisar reservas minerais. Em sete meses de operação, ele adquiriu alvarás de pesquisa em 4 milhões de hectares de terra.

Na agropecuária, participa através da poderosa empresa Santa Bárbara. Como afirma uma reportagem bajuladora da revista IstoÉ Dinheiro – Dantas tem ações na Editora 3 que administra o semanário –, “poucos empresários brasileiros conseguiram amealhar tanto dinheiro em tão pouco tempo. Seu banco de investimentos, criado há cerca de 20 anos, administra ativos de US$ 8 bilhões”.

Durante a CPI do Mensalão, a senadora petista Ideli Salvatti foi taxativa. “O senhor é diabólico. Se 10% do que dizem a seu respeito for verdade, o senhor já deveria estar preso”. Agora, ele está na cadeia. Mas até quando? O protagonista da privataria das telecomunicações é um homem com fortes vínculos nos bastidores do poder.

Foi amigo de Luis Carlos Mendonça de Barros, ministro das Comunicações de FHC que acionou os fundos de pensão na venda da estatal do setor. Levou para o seu banco Pérsio Arida, Elena Landau, ex-diretora do BNDES responsável pela área de privatizações, Luis Octavio Motta Veiga, que presidiu a Petrobras no governo Collor de Mello, entre outros nomes já conhecidos. Quem mais fará parte deste conluio patrimonialista?

*Altamiro Borges é jornalista e membro do conselho editoria da revista Debate Sindical.


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