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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Dona Lourdes, mãe e feminista - Paulo Vinícius da Silva

Dei-me conta, hoje, que venho de uma família matriarcal.  Hoje, porque despertei sob o impacto dessa data magna da minha própria existência,  20 de agosto, dia do nascimento de Dona Lourdes, Tecla, Insigne Progenitora Amada, Mater Amabilis, Mãe.  

Ela foi a filha única do amor de Dona Senhora, uma menina, e Seu Casimiro, uma lenda, o negro protetor e salvador que não conheci, o amor que minha Vó teve por tão pouco, mas suficiente para jamais esquecer.  

Dona Lourdes foi a caçula de seu pai, criada, enfim, pelos irmãos mais velhos, dos quais Titia Fransquinha persiste como testemunha viva. E Dona Lourdes foi a mais velha dos filhos de Senhora, Maria - tal qual minha mãe -,  que seguiu sua saga, do Ceará ao hoje Tocantins, com seus demais filhos, cuja vida protegeu, em fuga, pelas vicissitudes das funestas histórias de família e vingança que soíam enlutar o Ceará e o Nordeste até a geração de meus pais, pela violência do macho que se vinga.

Maria de Lourdes, assim, nasceu única, fruto do amor, a temporã de Casimiro, que fora vítima de tantas perdas, como último rebento antes de sua própria partida. E também foi a mais velha dos filhos de Senhora, sendo o centro, a filha do meio de todos os seus irmãos. 

Minha mãe foi a maior feminista que eu conheci. Não por demagogia minha, nem por sentida emoção,  mas por sua trajetória de mulher de luta, que só podia desembocar na filiação ao Partido dos 'meninos', o 'nosso Partido ', como ela dizia, o Partido Comunista. Descobrimos, eu e o Beto, depois de sua partida, que ela se filiara e pusera o CPF dele na ficha, porque do dela não se lembrara.

Mamãe estudou graças às irmãs paternas e a seu esforço. Casou com quem amou, mesmo contra a família, com Seu Louro, o atleta cearense que conheceu no Grêmio dos Ferroviários numa festa. Ele dizia: 'Casei com uma Miss', e a beleza lendária de Dona Lourdes seguiu imaculada até o fim. 

Maria de Lourdes trabalhou em casa e na rua, desde nova, sem descanso. E foi também uma fina comerciante, do Armarinho Lourdes, que nos sustentou nos tristes anos de FHC,  quando meu pai enfrentou grandes dificuldades profissionais. Ela era uma potência econômica, e nos três,  Seu Louro, eu e Beto, orbitamos em seu entorno de luz, força e delicadeza. 

Ela venceu a violência e domou o sobrinho neto de Lampião,  meu pai, ele próprio tão violentado pela vida. E foi capaz de levá-lo pela mão, pelo amor e pela fé até a humanização,  e à ternura que Seu Louro jamais conheceu na convivência com os seus.

Papai, o macho mais completo que o Ceará do Século XX podia criar, foi-se fazendo gente de bem e de amor pelas mãos de Dona Lourdes, que só o entregou homem feito nas mãos de Maria Santíssima,  cuja devoção ensinou, a despeito de tanta força e poder que ele tinha, e das dores que o fizeram duro, e que foram abrandando com o tempo e com a família que ela lhe deu e para a qual ele, convertido por ela, viveu.

Por isso, jamais aceitei que a maternidade não seja o poder máximo de presidir a vida, lição que aprendi desde o ventre, e que vi na vida com as Donas Lourdes, Maria Silva, Fransquinha, que lideraram nossas famílias como esteio inexpugnável. E mesmo sob o jugo do machismo, sim, mas sem jamais se conformar com ele, sempre a lutar, à sua maneira, com sua simplicidade, com sua fé e sua visão do que deveria ser uma mulher. E se essa referência feminina não cabia nos moldes do arquétipo da mulher ocidental, ela era a realidade objetiva de ser o centro, a raiz, a base e o poder em torno dos quais dirigiram suas famílias,  suas vidas, seus negócios e trabalho, seus amores, e brilham além do tempo, na multidão de seus frutos, filhos, netos e bisnetos.
E é por esse exemplo de delicadeza, tenacidade, trabalho e poder, que aprendo até hoje, lutando para ser digno de minha filha, Mariana. O machismo é um mal, é a morte e a solidão final. Não somos, vamos sendo,  e podemos evoluir, aprender, como meu pai o fez, com Dona Lourdes, que, ao fim, também o criou. 

Como negar à Mamãe o trono da grande feminista da minha vida, quando a teoria ou as lições ocidentais não a definiram assim, tal e qual inúmeras mulheres brasileiras que lideram pela graça,  pelo trabalho e pelo exemplo? Elas foram precursoras e seguem injustiçadas na teoria e na prática da família brasileira,  filha do ventre indígena e negro, e que nada tem a ver com a farsa da família 'tradicional' e que jamais existiu ou prestou.

E é por isso que, em minha concepção, para ser homem, o requisito central é saber-se filho delas, e levar pela vida esse respeito infinito pelas mulheres, que são iguais aos homens e ainda mais, porque são nossa origem, esteio, escola e amor. 

Assim, o homem jamais poderá se afirmar sem a mulher e a responsabilidade sobre seus filhos, que o validam. Aquele que violenta, agride, mata, jamais será o homem. No máximo será o macho, essa triste figura que simplesmente não aprendeu a ser gente, e que precisa ser contida, porque infértil, solitário e fautor de violência e morte.  Ser homem é para ser outra coisa, e não sei sê-lo ainda,  nem o aprendi apenas com meu pai, pois sei que ele só se fez homem, graças ao amor de Dona Lourdes, que ainda nos ensina, guia e preside. 

Talvez por isso, o Pai - título que o povo deu a Lula - tenha aprendido com Dona Lindu, Dona Mariza, e floresça de novo, no amor,  com Janja. 

Para ser homem,  é preciso corrigir-se, aprender com nossas mães a respeitar, e lutar para proteger as mulheres da covardia machista, que tem ceifado tantas vidas de mulheres e mães,  e até dos filhos, dob o patrocínio do fundamentalismo e perversão das bigtechs do imperislismo, fábricas de monstros.

O machismo, hoje,  ele sim, é o maior inimigo das familias, pois não assume seus filhos,  porque violenta e inclusive mata tantas mães. Por isso, apenas o emancipacionismo, e jamais o sexismo ou o identitarismo poderão nos ensinar, educar e unir. Só o emancipacionismo pode iluminar o justo lugar da mulher trabalhadora, como Dona Lourdes, e trazer ao seu seio homens e mulheres, no abraço acolhedor do feminismo, que é a luta por igualdade, por reconhecermo-nos todos como gente, com direitos, sobretudo à vida. 

Ser homem,  hoje, mais que nunca, é aprender com as mulheres, assim como minha mãe me ensinou, lição que preciso me esmerar para aprender. 

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