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domingo, 15 de fevereiro de 2026

As mães pretas do Brasil, Nação mestiça em que elas não existirão - Paulo Vinícius da Silva

O coração do inocente,
É como a terra estrumada,
Qui a gente pranta a simente
E a mesma nace corada,
Lutrida e munto viçosa.
Na nossa infança ditosa,
Quando o amô e a simpatia
Toma conta da criança,
Esta sodosa lembrança
Vai batê na cova fria.
Patativa do Assar, Mãe Preta

Me chamaram de cordeiro, 
Mas não sou cordeiro, não.
Preferi ficar calado que falar e levar não.
O meu silêncio é uma singela oração à
minha santa de fé.
Cordeiro de Nanã,  Mateus Aleluia


Soube agora  pela Andrea Oliveira, do falecimento da querida camarada Dona Geralda, que cuidou da sede do Comitê Regional do PCdoB da Rua São Paulo, em Fortaleza,  e cuidou de nós,  secundaristas da UJS dos anos 90 do século e milênio passado. 
Comi muita bolacha amassada no copo de café,  comi muita marmita guardada ou pouquinho de comida dela, com aquela lendária fome secundarista. Andrea lembrou-me do cobicadíssimo baião de dois com bolinha de carne que às vezes sobrava de um funcionário da sede, divino. Levei muito carão de mãe,  ela, mãe do nosso Camarada e Músico Ronaldo Lopes, aquele carão meio de brincadeira,  que vinha sempre com um sorrisinho de lado, todo seu, fácil como o chamar-me de Paulim. 
Mas lembro sobretudo de uma noite, no Pirambu, no bar de sua casa, com amigos, poemas, violão e ela, curtindo maravilhas, e tomando a cerveja véu de noiva que ela tanto amava. Seria injusto por demais, nessa altura da vida, eu me negar a reconhecer essas figuras ancestrais de Dona Geralda, Tia Marta (na UFC), Dona Arcanja (na UJS em SP) para nós,  do alto da simplicidade de seu trabalho imprescindível, duro e mal reconhecido. As nossas mães pretas, pessoas de uma força,  uma ternura, de tanta dedicação,  trabalho, pureza, bondade, que nos fizeram, nos criaram, limpando nossa louça,  nosso chão,  pessoas que sempre foram a nossa mais telúrica força,  e que foram decisivas para tudo que conseguimos ser. 
Eu fui da geração que conquistou as cotas, a reservas de vagas, a política de assistência estudantil, o PROUNI e o REUNI, e que conseguiu reeleger Lula, depois de o fascismo,  o racismo e o machismo quererem voltar, e acho que nossa maior homenagem à Dona Geralda e a todas as mães pretas, é que não seja mais assim. Que entremos nas universidades e escolas e vejamos quão longe chegarão as netas e bisnetas de Dona Geralda, de inegável capacidade e bondade, mas emparedada por esse mundo mau do capitalismo brasileiro, tão racista, tão assassino, tão machista, tão covarde. 
Por que deveríamos ter cumplicidade com isso? De jeito nenhum. Elas nos ensinaram, com essa força incomum que só o amor tem. Outro dia, doidão, chorei horrores pensando em quanta louça minha mãe lavou para mim. Mas desconfio que não é esse o caminho. O  caminho está à frente, se faz caminho ao caminhar, disse o poeta Antonio Machado e faremos ao lado de negros e mulheres que são a maioria da classe trabalhadora,  universal, revolucionária,  gigante, mas ainda despertando, e é preciso ouvir a diversidade, no amor e na dor, pois compõem a inteireza do proletariado e da Nação que cumpre parir. 
E é Lula, mais uma vez, quem ensina. Temos de nos somar a essas lutas com decisão,  e nos somamos às vezes meio tronchos, falamos besteira, cada um de nós tem motivos de vergonha a exorcisar - estamos aprendendo em cima dos nossos erros. Vejo o poema Mãe Preta, de Patativa, tão pungente, amoroso, e ao mesmo tempo a dizer barbaridades aos ouvidos de hoje, porque o errado também nos fez, e não podemos escrever apenas com o que é certo. Para algo deve servir o coração. 
Errando e querendo acertar, esse é o único caminho para que possamos ser homens que valha a pena ser, e não monstros. O fascismo, o imperialismo, o big data, as big techs estão criando monstros, nutrindo deliberadamente com ódio,  neurose, hedonismo e perversidade a solidão e a autodestruição.  Não se pode abandonar os homens ao machismo. O feminismo é para todo mundo, e os homens só podemos existir, viver, ser felizes, ao encontrar essa forma de amor, pois amor, dizia Raul Seixas, só vive em liberdade. É para todo mundo a igualdade, a família e o amor. Aprendamos o lugar correto, aquele do Che, contra qualquer injustiça, com a dureza e a ternura necessárias. 

Aquela trabalhadora da categoria do Asseio e Conservação - que meu pai também integrou - pôde ver nossos avanços e veio conosco para um mundo melhor, mas que está muito longe do que precisa ser, e corre risco, diante do Brasil da Casa Grande e da Senzala, que precisa morrer para que a Nação Brasileira tão ansiada por Márcio Cabreira, possa surgir, ajudando o mundo a se curar de tanta dor, tanta barbárie. 
Como Castro Alves, que também teve sua mãe preta, nada temos que celebrar ao redor do machismo,  do racismo, do rentismo, e tudo devemos às mães,  pretas ou não,  quem nos fizeram, e que hoje podem ir muito mais longe, ao infinito, pois gente é para brilhar. E Dona Geralda também brilhou, E como uma estrela, brilha nos nossos corações e sonhos, desse mundo novo que ergueremos, para nunca mais voltarmos ao passado, para fazer do Brasil uma Nação de todos, que dê essa contribuição mestiça,  generosa, de amor e união para a paz no mundo, sem as cadeias do capital.
Nesse carnaval, vou tomar uma cerveja, gelada, véu de noiva, lembrando de Dona Geralda e de seu bar no Pirambu, uma das mais belas noites da minha vida. Obrigado.

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