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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Sobre a Eleição da Câmara e o apoio do PCdoB à candidatura de Rodrigo Maia - Paulo Vinícius



Li sobre o apoio a JK, com o Amazonas fazendo o meio de campo. Li sobre o apoio ao Getúlio, que liderou o Brasil contra os Fascistas depois de tantos crimes, inclusive contra os comunistas. Li também como erramos com o mesmo Getúlio, antes de sua morte, e a reação do povo. E, depois, como erramos em relação ao Jango, e o que veio depois. E sei quem foi mais consequente no apoio a Lula e Dilma, sem recuar das críticas ao hegemonismo, à política econômica, ao conluio com o PIG, à rendição ao financiamento empresarial, que nos trouxe até aqui.

Lembro da eleição da Câmara após o Aldo - e por consequência o Glorioso PCdoB - ter sido decisivo para deter o Golpe. Deu Chinaglia, por menos de dez votos, para pôr o PMDB no centro do poder, até ter chegado onde chegou. Lembro de quem, lastreado no exclusivismo e no hegemonismo, pavimentou a vitória de Eduardo Cunha à Presidência da Câmara e nos trouxe até aqui, com a mesma expertise tática de quem não apoiou Tancredo, nem assinou a CF de 1988. Lembro de quem ficou no colo das oligarquias, cujo exemplo de Sarney, no Maranhão, é lapidar, afora as facadas nas costas contra Inácio e Manuela e tantos que não podiam crescer sob o aliado eucaliptino. Lembro de quem "defende" a democracia, mas com cláusula de barreira e o fim das coligações proporcionais.
Lembro de quem deixou a Dilma e o PCdoB sozinhos defendendo as diretas, enquanto era tempo.

E tenho anotado no meu caderninho vermelho os nomes dos golpistas arrependidos do bico vermelho, que esperaram os 49 minutos do segundo tempo para seguir com seu oportunismo de quinta coluna, posando de esquerda.

Então, é do alto dessa sucessão de cagadas que, açulados pela Folha e a Globo, vejo as críticas pseudo-esquerdistas ao PCdoB, que luta pela democracia e pela legalidade, conquistas feitas à sangue e bala, e muita política.

Já dizia o Lênin:

"Fazer a guerra para derrotar a burguesia internacional, uma guerra cem vezes mais difícil, prolongada e complexa que a mais encarniçada das guerras comuns entre Estados, e renunciar de antemão a qualquer manobra, a explorar os antagonismos de interesses (mesmo que sejam apenas temporários) que dividem nossos inimigos, renunciar a acordos e compromissos com possíveis aliados (ainda que provisórios, inconsistentes, vacilantes, condicionais), não é, por acaso, qualquer coisa de extremamente ridículo? Isso não será parecido com o caso de um homem que na difícil subida de uma montanha, onde ninguém jamais tivesse posto os pés, renunciasse de antemão a fazer zigue-zagues, retroceder algumas vezes no caminho já percorrido, abandonar a direção escolhida no início para experimentar outras direções?"

E também:
"Os partidos revolucionários têm de completar sua instrução. Aprenderam a desencadear a ofensiva. Agora têm que compreender que essa ciência deve ser completada pela de saber recuar ordenadamente. É preciso compreender - e a classe revolucionária aprende a compreendê-la através de sua própria e amarga experiência - que não se pode triunfar sem saber atacar e empreender a retirada com ordem. De todos os partidos revolucionários e de oposição derrotados, foram os bolcheviques que recuaram com maior ordem, com menores perdas para seu “exército”, conservando melhor seu núcleo central, com cisões menos profundas e irreparáveis, menos desmoralização e com maior capacidade para reiniciar a ação de modo mais amplo, justo e vigoroso. E se os bolcheviques conseguiram tal resultado foi exclusivamente porque desmascararam impiedosamente e expulsaram os revolucionários de boca, obstinados em não compreender que é necessário recuar, que é preciso saber recuar, que é obrigatório aprender a atuar legalmente nos mais reacionários parlamentos e nas organizações sindicais, cooperativas, nas organizações de socorros mútuos e outras semelhantes, por mais reacionárias que sejam".

O PCdoB diz que a batalha na Câmara é para assegurar o cumprimento do regimento interno, condições mínimas de disputa da agenda do país, condições mínimas para a defesa da democracia, mantendo suas posições em favor da Nação, da Democracia e dos Trabalhadores. A derrota é a única certeza, e há quem a aspire, achando bonito se lascar, como se tivesse mudado a correlação de forças, os votos na Câmara etc. Não mudou, piorou. Apoio sem pestanejar a posição da bancada do PCdoB em apoiar a reeleição do Rodrigo Maia, sabendo que isso não representa, em nada, compromisso programático, nem ilusões. A Câmara não mudou um voto. O PCC está sendo mobilizado para aprofundar o estado de exceção na cara de pau. Há em curso gravíssimos movimentos que podem nos levar a uma situação coerente com os tempos em que Trump ascende à presidência dos EUA. A soberania tá indo pelo buraco. Se isso não é um quadro de resistência, não sei o que é. E, nesse cenário, bravata não serve de porra nenhuma. 90 anos não são noventa dias. Só lamento, mas em nada me surpreendo, com os estrebuchamentos de quem pôs tudo a perder e posa de sapiente.

O Comitê Central e a bancada contam com meu apoio integral. E é preciso ampliar ao máximo, ter uma tática complexa para um momento tão difícil como esse. O amadorismo e o isolamento são a morte, e essa é uma batalha, uma só, no meio de muitas que teremos de travar para retomar as condições mínimas de uma virada.

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Centenário de João Amazonas - A visão limitada Por João Amazonas (1984)

www.grabois.org.br - Fundação Maurício Grabois


Nada mais obtuso do que uma visão estreita em matéria política. O quadro complexo do movimento de forças díspares é reduzido a um pequeno universo moldurado por normas rígidas. O pensamento vivo fenece. A realidade é substituída pela imaginação. Tudo parece igual, os caminhos se nivelam e se transformam em paralelas infinitas. No fundo, a ignorância dos processos políticos que se realizam num proscênio de mil faces, a simplificação do multiforme, o primarismo das idéias.


Assim procediam os anarquistas, os blanquistas também. Valia para eles unicamente a sua vontade, pouco importava se dissociada da vida. Raciocinavam como nas estórias bíblicas acerca da criação: faça-se a luz, e a luz se fez. Queriam a revolução, só que a revolução não ocorria. Desconheciam o mecanismo intricado da luta de classes, onde os fatores subjetivos vinculam-se necessariamente com os fatores objetivos. Querer é uma grande coisa, mas não é ainda fazer. Fazer exige certo conhecimento, o domínio da experiência acumulada, a percepção do vasto campo de combate em movimento incessante.

Essa estreiteza de visão transparece na ação política dos nossos dias. Há os que defendem uma central sindical única, aspiração da classe operária. O caminho para chegar lá, ao que parece, não tem importância. Reúne-se determinado número de sindicatos, de associações, de grupos diminutos e proclama-se fundada a central única. De fora, ficam quase 2/3 do movimento sindical. A parte é confundida com o todo. Há igualmente os que idealizam a sucessão presidencial. O substituto do general de plantão teria de ser o candidato civil de seus sonhos. Se assim não for, colocam-se à margem, correm atrás da fantasia. Prescindem das condições em que se realiza a substituição no Planalto, ignoram os objetivos possíveis de serem alcançados. Imaginam um curso político próprio para acontecimentos que dependem de variadas circunstâncias. Semelhante atitude favorece os inimigos do povo.

O espírito de seita encobre, muitas vezes, interesses exclusivistas. Aqueles que atuam com tal propósito perseguem, sob o pretexto de preservar métodos democráticos, fins individualíssimos ou de facção. O interesse nacional fica na sombra. A resposta que procuram dar à indagação do momento – terminar ou continuar o regime militar – encerra dubiedade, imprecisão. O sinal de igualdade que põem entre um e outro candidato, o desinteresse pela vitória do nome escolhido nas fileiras da oposição, representam tapumes do personalismo. Cada qual pensa na sua ascensão à presidência, se não já, em futuro próximo. Tenta explorar o sentimento popular em favor das eleições diretas, mesmo sabendo que não se concretizarão. Todos se agitam ante a possibilidade de que seus planos mesquinhos sejam frustrados com o êxito oposicionista. Quem sabe mudaria a perspectiva tão zelosamente acalentada?

Se para os anarquistas e personalistas a estreiteza política significa desejos irreais de efetivação dos seus projetos, para outros setores – trotskistas, renegados do marxismo – resulta numa postura consciente, contra-revolucionária. O sectarismo leva o proletariado e as massas populares ao isolamento, à derrota. Acenando com bandeiras falsamente radicais, acanhadas, esses setores criam confusão e dificultam a conquista de posições vantajosas às forças progressistas em luta por transformações de maior envergadura na sociedade.

O curso político independe da vontade de uns poucos. Forma-se objetivamente. Pode-se nele influir, de maneira positiva ou negativa, jamais criá-lo artificialmente. Quem propugna objetivos maiores tem de inserir-se no curso real, e nele atuar com amplitude, levando sempre em conta a correlação de forças existentes, a fim de fixar metas viáveis que aproximam a vitória definitiva da causa do povo.

EDIÇÃO 9, OUTUBRO, 1984, PÁGINAS 3

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